Por: Tatiana Bove (UESC) e Liliane Queiroz (UESC)
Atualmente existe uma grande resistência das empresas em considerar os ativos intangíveis como importantes fatores de produção, isso se dá principalmente por falta de conhecimento aprofundado sobre o que é de fato o Capital Intelectual e sua extrema importância para agregação de valor na Organização através de sua mensuração. O presente trabalho se trata do resultado de estudo numa empresa de moagem de cacau do Sul da Bahia, onde foi verificada a preocupação apenas com o seu Capital Estrutural. Se faz necessário mudar esta visão já de desacordo com a nova conjuntura mundial a modo de despertar interesse das Organizações em analisar modelos de avaliação do Capital Intelectual para um melhor entendimento destes modelos e métodos que possibilitem avaliar seu Capital Humano, pois desta forma a empresa alcançará seus objetivos e aumentará suas riquezas com pessoas capacitadas e motivadas.
Palavras-Chaves: Ferramentas, Capital Intelectual, Organização, Conhecimento, Motivação
1. Introdução
O Brasil tem grandes perspectivas de alinhamento com a economia globalizada, projetando-se cada vez mais no mercado externo, o que reflete diretamente no crescimento do PIB, impulsionado pela exploração de competências bem desenvolvidas no país. O Brasil tem potencial para atender a crescente demanda mundial principalmente no que se diz respeito à procura por alimentos e por fontes renováveis, o que seria uma grande oportunidade para uma maior inserção no mercado internacional.
Segundo Cruz e Sennes(2006), de modo geral, a projeção é que o Brasil seguirá avançando rumo a uma maior presença e participação política e econômica mundial, de alguma forma reduzindo o gap entre a proporção dos seus atributos territoriais, econômicos, populacionais e políticos e sua pequena influência política e econômica internacional.
Observando o cenário brasileiro com suas oportunidades de crescimento, chegam ao sul da Bahia projetos do Governo Federal visando o desenvolvimento da região através do PAC- Programa de Aceleração do Crescimento. Um deles é a construção da Ferrovia da Integração Oeste-Leste, parte de um grande complexo logístico produtivo envolvendo também o Porto Sul Bahia, o novo Aeroporto Internacional de Ilhéus, uma área industrial nas imediações da BR-101, uma Zona de Processamento de Exportações (ZPE), o Gasoduto Sudeste-Nordeste (GASENE) e novos acessos rodoviários. Esses empreendimentos serão geradores de riquezas e desenvolvimento que, além de Ilhéus, beneficiará as regiões sul, oeste e sudoeste da Bahia, dinamizando a economia e trazendo mais qualidade de vida para a população.
Os projetos para desenvolvimento do sul da Bahia enriquecerão a região, pois entre outras coisas aumentarão também o número de empresas querendo se instalar neste mercado em crescimento, o que consequentemente vai acarretar grande competitividade, onde permanecerão apenas as que tiverem estratégias bem definidas. Uma dessas grandes estratégias é o investimento no Capital Intelectual em relação aos seus colaboradores, pois em sua grande maioria as empresas quase sempre se concentram na inovação de produto e tecnologia, esquecendo-se das inovações de processo e social, já que as diferentes formas de desenvolvimento do conhecimento enriquecem a base de conhecimento da Organização.
Como estamos vivendo na era do conhecimento, é preciso dá grande importância a esse assunto, seja nos círculos acadêmicos ou na prática empresarial. Segundo Gilbert Probst (2002), em conferências especializadas como as reuniões anuais da Strategic Management Society ou da Academy of Management, o principal tópico de discussão é como administrar o conhecimento. As publicações de negócios instigam as empresas a fazerem melhor uso do “tesouro oculto” nas cabeças de seus colaboradores, pois uma parcela significativa do conhecimento de uma empresa está armazenada nas mentes humanas. Infelizmente essa não é a visão das empresas instaladas no Sul da Bahia, na insistente prática de dar mais valor ao seu Capital Estrutural do que ao grande gerador de riquezas que é o Capital Humano.
Este trabalho pretende discutir sobre a utilização de mensuração do Capital Intelectual por empresas da região, em especial a empresa pesquisada, para assim analisar o quanto ela está preocupada em medir e avaliar o seu conhecimento.
2. Fundamentação Teórica
O Capital Intelectual é a soma do conhecimento de todos em uma empresa, o que lhe proporciona vantagem competitiva. Ao contrário dos ativos, com os quais os empresários e contabilistas estão familiarizados (propriedades, fábricas, equipamentos, dinheiro), o Capital Intelectual é intangível, constitui a matéria intelectual: conhecimento, informação, propriedade intelectual, experiência que podem ser usadas para gerar riqueza. Deve-se saber identificar e disseminar o conhecimento gerado dentro da organização, transformando-o em Capital Intelectual, para garantir o desenvolvimento e crescimento, pois, sem localizá-lo em pontos estrategicamente importantes, onde a gerência é fundamental, não se pode gerenciá-lo.
Mesmo sendo considerado um ativo intangível, o Capital Intelectual pode ser mensurado.Esta mensuração irá complementar e enriquecer a contabilidade, fazendo com que alcance o seu papel de fornecer informações úteis da melhor maneira possível, já que a contabilidade necessita de demonstrações contábeis com informações atuais de natureza intelectual, humana, ecológica e social. Esta mensuração gera informações úteis para os gestores, possibilitando uma detalhada verificação da competência dos profissionais geradores de receitas da organização, proporcionando auxílio para a tomada de decisões a respeito de clientes, pessoal e investimentos.
As definições nos remetem a refletir que hoje, na sociedade do conhecimento o empregado ainda precisa das ferramentas, ou seja, do capital estrutural, mas indubitavelmente a principal ferramenta é o capital humano.
Existem inúmeras ferramentas para medir e avaliar o Capital Intelectual de uma empresa, serão citadas aqui três desses modelos: Navegador Skandia, Monitor de Ativos Intangíveis e Balanced Scorecard que podem ser utilizadas para dá suporte ao processo constante de agregação de valor da empresa.
Navegador Skandia
O primeiro modelo de evidenciação e mensuração do Capital Intelectual começou na empresa Skandia. De acordo com Edvinsson e Malone(1998), o Navegador Skandia foi desenvolvido pela Skandia que é uma Companhia de Seguros e Serviços Financeiros da Escandinávia, em 1991, por Edivinsson e uma equipe de especialistas contábeis e finenceiros. Este instrumento possui cinco áreas de foco nas quais uma empresa focaliza sua atenção e das quais provém o valor do seu Capital Intelectual:
- Foco Financeiro: As demonstrações contábeis e o capital intelectual são complementares, onde os relatórios financeiros fornecem um feedback para posterior avaliação de desempenho dos demais focos.
- Foco no Cliente: Atualmente os clientes têm necessidades e exigências diferenciadas e esta nova realidade provocou mudanças na estrutura da empresa. É preciso buscar confiança, lealdade e compromisso com o cliente.
- Foco no Processo: busca mostrar os efeitos de investimentos em novas tecnologias na criação de valor da empresa. A tecnologia de processo só tem valor quando contribui para o aumento da riqueza da entidade.
- Foco na Renovação e Desenvolvimento: Acredita-se que o monitoramento de áreas como clientes, atração no mercado, produtos e serviços, parceiros estratégicos, infra-estrutura e empregados a empresa está preparada para possíveis mudanças.
- Foco Humano: A visão do ser humano na era do conhecimento gera novas relações da empresa com seus empregados.
Modelo navegador Skandia
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Figura 1 - Navegador da Skandia - Edvinsson (1998:60).
A interpretação deste Navegador feita através de uma metáfora, sua comparação com uma casa, onde o foco renovação e desenvolvimento correspondem ao alicerce da casa, ou seja, o investimento em P&D é o recurso fundamental para o futuro da empresa. Os focos clientes e processos são os pilares, que apoiados na renovação e no desenvolvimento, respondem pelo desempenho no presente. O foco financeiro é o telhado, parte mais visível da casa, que apoiado pelos demais focos evidencia os resultados financeiros da empresa. Finalmente, o foco humano que é o centro da casa e interage diretamente com todos os focos, fazendo-os cumprir sua missão, uma vez que os recursos humanos são detentores do conhecimento.
Bontis(2001) afirma que o modelo já incorpora cerca de 91 indicadores relacionados ao Capital e 73 indicadores relacionados ao desempenho financeiro. A partir da análise destes indicadores pertencentes a cada área focada no modelo Skandia, as empresas podem analisar tanto o desempenho financeiro quanto as áreas não financeiras, ou seja, nos componentes do Capital Intelectual. Esta análise possibilita que os gestores tomem decisões que maximizem o resultado financeiro da empresa.
Monitor de Ativos Intangíveis
A proposta do modelo, segundo Sveiby (1998) é a estruturação de um painel onde são apresentados indicadores relacionados com os ativos intangíveis da empresa. Para Sveiby (1998), o valor de mercado total de uma empresa consiste em seu valor contábil mais os três grupo de ativos intangíveis. Conforme o autor, os ativos intangíveis são categorizados, como estrutura externa: Ambiente Operacional, Foco no Cliente, Foco no Processo, Foco Humano, Foco Financeiro (marcas, cliente e distribuidores); Estrutura interna (organização: administração, estrutura legal, sistemas manuais, atitudes, software) e competência individual (educação, experiência). O monitor de ativos intangíveis, segundo Sveiby (1998), consiste num documento que faz a reportagem de várias medidas financeiras e não financeiras da empresa. Essas medidas relacionam a habilidade de uma empresa em relação ao crescimento, a eficiência e a estabilidade aplicadas as três formas de ativos intangíveis da empresa: competência, estrutura interna e estrutura externa.
Monitor de Ativos Intangíveis
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Indicadores |
Avaliação da Competência |
Estrutura Interna |
Estrutura Externa |
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Crescimento/Renovação |
-tempo de profissão -nível de escolaridade |
-investimento na estrutura interna -investimentos em sistemas de informações -contribuição dos clientes |
-lucratividade por cliente |
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Eficiência |
-proporção de profissionais -efeito alavancagem -valor agregado por profissional |
-proporção do pessoal de suporte -vendas por funcionário de suporte |
-índice de clientes satisfeitos -vendas por clientes -repetição de pedidos |
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Estabilidade |
-média etária -tempo de serviço -rotatividade |
-idade da organização -rotatividade de suporte -taxa de novatos |
-proporção de clientes -estrutura etária dos clientes -repetição de pedidos |
Balanced Scorecard - BSC
De acordo com Kaplan e Norton (1997), o Balanced Scorecard (BSC) objetiva a implantação de novos sistemas de medidas de desempenho aliados às estratégias organizacionais. Estas no contexto atual de elevada competitividade, recursos escassos e exigências crescentes por parte dos clientes, tornam-se imprescindíveis para a sobrevivência e crescimento empresarial.
Perspectivas do Balanced Scorecard
Figura 3 – Modelo Balanced Scorecard
A metodologia proposta pelo BSC vem a auxiliar uma gestão estratégica à medida que busca facilitar a compreensão da missão e das estratégias organizacionais e a construção de uma sistema de medição integrado com a estratégia. O desempenho organizacional, na visão do scorecard, é avaliado sob quatro perspectivas equilibradas: financeira, do cliente, dos processos internos da empresa, do aprendizado e crescimento.
O processo de BSC é um trabalho de equipe da alta administração que deverá trilhar os seguintes passos:
- primeiro: traduzir a estratégia em objetivos estratégicos específicos;
- segundo: estabelecer metas financeiras;
- terceiro: deixar claro o segmento de cliente e de mercado a que está competindo;
- quarto: identificar objetivos e medidas para seus processos internos que é a principal inovação e benefício do scorecard.
Deve haver o envolvimento de todos para conhecerem os objetivos críticos que devem ser alcançados, para que assim a estratégia da empresa seja bem sucedida. A partir do momento em que todos os funcionários compreendem os objetivos e medidas de alto nível, eles se tornam capazes de estabelecer metas locais que apóiem a estratégia global da Organização.
Metodologia
Segundo Gilbert Probst (2002), conhecimento é o conjunto total incluindo cognição e habilidades que os indivíduos utilizam para resolver problemas. Ele inclui tanto a teoria quanto a prática, as regras do dia-a-dia e as instruções sobre como agir. O conhecimento baseia-se em dados e informações mas, ao contrário deles, está sempre ligado a pessoas. Ele é construído por indivíduos e representa suas crenças sobre relacionamentos causais.
Sob esta perspectiva verificou-se a necessidade de estudar uma empresa da Região Sul da Bahia com o objetivo de constatar o seu interesse em fazer bom uso do capital intelectual dos seus colaboradores.
A importância desta análise se dá pelo fato, de que ao se valorizar o capital humano a empresa além de estimular seus colaboradores, tem também ferramentas para transformar este conhecimento mensurado em riquezas.
Este artigo trata de uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa, valendo-se de análise de literatura a respeito do assunto e aplicação do formulário em Escala Likert.
A Escala Likert foi criada em 1932 por Rensis Likert, sendo um instrumento de abordagem qualitativa e escala de classificação, onde existe um conjunto de afirmativas e negativas que serão respondidas de acordo com uma escala de atitudes. O formulário da Escala Likert utilizado para essa pesquisa, aborda o conhecimento numa Organização do ramo de moagem de cacau do Sul da Bahia, sobre o Capital Intelectual e as Ferramentas utilizadas para medi-lo.
A pesquisa foi feita com um funcionário da Organização o qual respondeu ao formulário em Escala Likert com 08 (oito) questões sobre o Capital Intelectual, e as ferramentas para medi-lo e avaliá-lo dentro da Empresa. Para cada pergunta o pesquisado teve 05 (cinco) opções de respostas (Concordo Totalmente/ Concordo Parcialmente/ Não Concordo Não Discordo/ Discordo Parcialmente/ Discordo Totalmente) porém assinalou apenas uma. Para que não houvesse dúvidas por parte do pesquisado em relação ao formulário, o responsável por sua aplicação estava presente e à disposição para esclarecimentos. A pesquisa buscou analisar a valorização do Capital Humano na citada Organização além de sua mensuração. Os resultados deste estudo de caso demonstram que não há até o momento interesse da Empresa em Valorizar o seu Capital Humano.
Resultados
Das 08 (oito) afirmações contidas no formulário aplicado à empresa citada, 02(duas) são sobre o conhecimento do que é e a importância do capital intelectual em sua unidade, a resposta obtida foi “Concordo Parcialmente”, o que leva a interpretação de que seus colaboradores sabem do que é porem sem muita clareza.
As demais questões abordavam sua mensuração, avaliação e incentivos por parte da empresa em relação aos seus funcionários; a resposta assinalada unanimemente foi “Discordo Totalmente” transpondo assim que os responsáveis da administração não têm interesse ainda de mensurar o seu capital intelectual.
Baseando-se nestas respostas e nas revisões de literatura, podemos expor um diagnóstico negativo para a empresa analisada, já que se trata de uma organização que sabe o que é o Capital intelectual, porém não sabe ainda seu valor para geração de riquezas através do conhecimento.
A Organização consome recursos para recrutar, selecionar, contratar e treinar seu corpo de empregados. Investem em cursos de treinamento, reciclagem e aperfeiçoamento que contribuem para a formação do seu Capital Humano, entretanto todos esses "investimentos" não são reconhecidos nem contabilizados, o que acaba não agregando valor ao empreendimento.
A sugestão é que a empresa forme um grupo de gestão do conhecimento para avaliar os benefícios deste e identificar pontos de partida específicos para o desenvolvimento de estratégias da organização. Toda a empresa deve se conscientizar da importância do conhecimento como recurso, e para isso é preciso mudar o comportamento tradicional que já está obsoleto, reconhecendo que as habilidades dos indivíduos são de suma importância para a base de conhecimento da organização. Os administradores devem reconhecer que seus colaboradores são produtores e donos de ativos não-materiais, ou seja, são portadores de conhecimentos centrais e praticamente insubstituíveis que tem grande valor para o desenvolvimento de seu trabalho e caso ocorra de um funcionário com esta capacidade sair da empresa, por opção ou não, acaba deixando lacunas que são extremamente difíceis de preencher, pois ele carrega consigo todo o conhecimento o qual a empresa não teve interesse de captar e valorizar.
Para que isso não ocorra, a organização deve elaborar seu próprio conjunto de indicadores de conhecimento, de modo a se adequar às suas próprias circunstâncias, para registrar e controlar as variáveis que sejam importantes para a sua realidade.
É importante ter um sistema de medição de conhecimento bem ponderado pois é necessário está claro o que está sendo medido e o que se deseja medir. Como já foi citado existem ferramentas específicas para este fim, como por exemplo, o Skandia que mostra como criar valor financeiro através do Capital Humano, onde este é visto como o coração, a inteligência e a alma da organização; o Monitor de Ativos Intangíveis, que visa avaliar o capital intelectual sem avaliar financeiramente o conhecimento; e o Balanced Scorecard que tem o propósito de traduzir a missão e estratégia da empresa, buscando facilitar sua compreensão.
Os resultados obtidos da empresa estudada, não estão muito diferentes da realidade de outras empresas da região, que ainda não sabem o conceito de capital intelectual, muito menos percebem a necessidade de buscar novas alternativas e ferramentas que agreguem valor ao seu produto e consequentemente à sua Marca.
Referências Bibliográficas
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