De Onde Vem
A
Criatividade?
Por que Criatividade é tão importante? Será que
todos nós somos criativos? É algo que vem de berço ou se
aprende? Pode ser cultivada, incentivada? Dá para ser Criativo
em uma Empresa não Criativa? O que é afinal Criatividade?
São muitas
perguntas, grande parte delas com várias respostas possíveis,
e nenhuma resposta pode ser considerada a "melhor".
Criatividade é o típico conceito
que resiste a definições e durante muito tempo temos visto
aparecer diversos livros e manuais tentando apresentar visões
pessoais (e algumas vezes idiosincráticas)
sobre o assunto. Nosso enfoque neste pequeno artigo é mostrar
que Criatividade pode ser encarada de uma maneira bastante
diferente das tradicionais e que essa forma é mais
fundamentada do que muitas outras
alternativas.
Criatividade de Vários Pontos de Vista
Quando a
coisa é difícil de definir ou entender, um exercício
interessante é observá-la sob diversos ângulos. É o que
faremos aqui, através de enfoques bastante
distantes um do outro. Todos tentam iluminar a questão "O que
é Criatividade?".
Sob
o ponto de vista humano
Criatividade
é a obtenção de novos arranjos de idéias e conceitos já
existentes formando novas táticas ou estruturas que resolvam
um problema de forma incomum, ou obtenham resultados de valor
para um indivíduo ou uma sociedade. Criatividade pode também
fazer aparecer resultados de valor estético ou perceptual que
tenham como característica principal uma distinção forte em
relação às "idéias convencionais".
Sob
o ponto de vista cognitivo
Criatividade
é o nome dado a um grupo de processos que procura variações em
um espaço de conceitos de forma a obter novas e inéditas
formas de agrupamento, em geral selecionadas por valor (ou
seja, possuem valor superior às estruturas já disponíveis,
quando consideradas separadamente). Podem também ter valor
similar às coisas que já se dispunha antes
mas representam áreas inexploradas do espaço conceitual
(nunca usadas antes).
Sob
o ponto de vista
neurocientífico
É o conjunto
de atividades exercidas pelo cérebro na busca de padrões que
provoquem a identificação perceptual de novos objetos que,
mesmo usando "pedaços" de estruturas perceptuais antigas,
apresentem uma peculiar ressonância, caracterizadora do "novo
valioso", digno de atenção.
Sob
o ponto de vista computacional
É o conjunto
de processos cujo objetivo principal é obter novas formas de
arranjo de estruturas conceituais e informacionais de maneira
a reduzir (em tamanho) a representação de novas informações,
através da formação de blocos coerentes e previamente
inexistentes.
Como quase
todas as definições, estas são opacas e difíceis de
entender, mas servem para demonstrar como é vasto o
repertório de idéias que podem ser postas em conjunto para
tentar explicar o que é o fenômeno criativo. Há, no entanto,
uma grande tendência em se "assustar" com essas idéias e dessa
forma evitar compreendê-las, ficando com aquelas noções
batidas de "preparação, incubação, insight". Não temos espaço
neste artigo para mostrar porque essas idéias velhas não vão
muito longe. Basta dizer que a grande
maioria dos autores de livros e manuais de Criatividade se
contentam em expor "técnicas" com variações dessas
estratégias e com isso parecem se satisfazer com as idéias que
historicamente tem sido usadas para explorar esse assunto. No
mínimo, isto pode ser dito como muito pouco criativo da parte
deles. Temos que ser criativos
para pensar sobre criatividade.
Propomos pensar sobre Criatividade a partir de
outro enfoque: para ser mais criativo, temos que
entender
porque o cérebro humano é naturalmente criativo, porque as
crianças são
espontaneamente
criativas.
Temos que
compreender como funciona a mente humana, em seus aspectos
mais cognitivos e perceptuais, não através de "chutes" sobre
como pensamos, mas sim através do acompanhamento criterioso
das descobertas científicas acerca da mente e do cérebro
humanos. Nunca houve tantas informações sobre esse assunto
quanto tivemos nos últimos dez anos.
Criatividade Auxilia Percepção e Vice Versa
A Ciência
Cognitiva estuda, entre outras coisas, como o cérebro humano
desenvolve progressivamente sua capacidade perceptual. Uma
criança aprende com o tempo a perceber expressões faciais de
seus pais quando eles estão, por exemplo, zangados ou
impacientes. A percepção é uma atividade contínua do cérebro e
para identificar os diversos objetos e eventos que uma criança
tem que lidar, muito de seu aprendizado depende de
correlacionar coisas que acontecem em frente a seus
olhos, ouvidos e mãos. Para executar essa correlação a criança
precisa ser ativa, precisa interagir com o ambiente e
testar seus limites, precisa verificar se aquilo que
aconteceu ontem também vai acontecer hoje. Isto é, na
essência, um dos procedimentos fundamentais da Criatividade, o
desenvolvimento (através de testes e observação) de uma
capacidade perceptual apurada através da atitude ativa.
Com o tempo, a criança se desenvolve e vai
querer atingir novos objetivos.
Agora ela já
está mais apta a atuar sobre o mundo e teve tempo de
desenvolver um aparelho perceptual suficientemente poderoso
para ajudá-la na tentativa de satisfazer seus anseios. Um
deles pode ser, por exemplo, alcançar aquele bolo que está ali
sobre a mesa. Sua percepção lhe informa que um banquinho
próximo à mesa lhe daria suporte para quase alcançar o topo
dela. Falta apenas um pouco mais. Então, sua criatividade vai
impeli-la a observar ao redor e ver se há algo mais que possa
lhe "fornecer" o tipo de suporte de que necessita para
elevá-la além da altura do banco. Ao encontrar uma caixa de
brinquedos, um "estalo" ocorre: se colocada sobre o banquinho,
isto lhe permitirá atingir a mesa e assim saborear o bolo.
Este ato
criativo no caso da criança tem dois componentes que eu
gostaria de destacar. O primeiro é a solução inovadora
(a criança não "sabia" desta solução, ela a concebeu,
principalmente porque sua percepção "juntou partes"). Mas há
também o fator "risco", pois qualquer adulto que estivesse
presente iria desincentivar a
criança porque talvez a caixa de brinquedos sobre o banquinho
fosse instável e assim a criança poderia cair. Temos aqui dois
itens que influenciam bastante a
criatividade:
1)
A necessidade de um lado
(em conjunto com a habilidade perceptual) fornecem
impulso positivo para o desenvolvimento de
soluções criativas. Para ser criativo, devemos ter claro em
nossa mente o objetivo (mesmo que vago e incerto) que queremos
atingir.
2) A crítica
dos pais fornece reforço negativo (neste
caso, apropriado), pois há a imposição de uma regra
que "corta" o fluxo criativo de pensamento (essa regra, na
verdade, só tem significado para os pais, para a criança não
significa nada, pois ela não sabe do perigo de cair de apoios
instáveis, só irá aprender quando cair uma vez).
Obviamente,
a regra dos pais é bem-vinda pois
evita um acidente desagradável. Mas se os pais não esclarecem
à criança o porquê da regra, isto fará sobrar em sua pequena
mente apenas a parte negativa da regra, aquela que
tolhe a iniciativa sem dizer qual a causa disso.
É fundamental que todos nós
entendamos o porquê das coisas.
Quando adultos, mantemos boa parte dessas
restrições impostas sem
explicação
em nossas cabeças.
Elas nos
colocam regras, normas, procedimentos, padrões, bloqueios que
agem como os pais originais agiram em relação à criança. À
primeira vista, isto pode parecer tão útil quanto a situação
original da criança: as regras e procedimentos foram
desenhados porque eles deram certo no passado (evitam quedas
dolorosas). As regras que nos ensinaram na escola e na
faculdade também tiveram certo cuidado em sua confecção. Então
como justificar a criatividade (quebra de regras) neste caso?
Vamos nos concentrar agora no porque é necessário
quebrar regras.
Criatividade e Expansão de Potencialidade
A grande
diferença entre as regras dos pais em relação à criança e as
regras e procedimentos aprendidos na faculdade e no trabalho
em relação aos adultos vem do fato de que os pais da criança
estão totalmente certos de que há um risco alto em se apoiar
em uma caixa de brinquedos instável. Já as regras dos adultos
são apenas coisas que funcionaram bem até hoje. Entretanto,
não há ninguém que consiga justificar porque elas irão
funcionar bem amanhã (isto é parte de uma discussão
filosófica sobre a justificação de procedimentos indutivos).
Além disso, se a regra é apresentada a nós sem nenhuma
explicação convincente, então ela pode ter sido
desenvolvida por força de generalizações imperfeitas.
O mundo evolui, descobrimos novas coisas a todo o instante.
Confiar cegamente nas regras antigas significa desprezar o
potencial criado pelas descobertas recentes.
Esta é mais
uma das observações que fazemos para justificar porque
temos que entender as coisas. Não basta sabermos
sobre fatos, temos que captar a essência de suas
interligações. Em outras palavras, em vez de ensinar a nossas
crianças o nome dos afluentes do rio Amazonas (e de cobrar
esses nomes em provas, valendo nota!), elas deveriam ser
expostas ao ciclo de eventos que ocorrem por causa da chuva,
deslocamento de águas dos rios para os mares e posterior
evaporação.
Esse conhecimento (conhecimento causal)
é muito mais importante
do que nomes e dados factuais, pois permite à pessoa pensar
sobre as coisas e usar o pensamento para melhorar sua vida
(via criatividade!).
Há utilidade
também em dividirmos a criatividade em duas áreas (como faz
Margaret Boden): a criatividade
psicológica, na qual aquilo que é inventado é novidade para a
pessoa, mas não para a humanidade (ou seja, alguém já fez isso
no passado) e a criatividade histórica, na qual a criação é
inédita em termos universais. As crianças tem em geral
criatividade psicológica, é novo para elas
mas já foi feito muitas vezes no passado. Mas como
adultos em geral estamos à cata de criações históricas, coisas
que nunca foram tentadas (ao menos na exata situação
contextual em que estamos). Portanto, estamos à procura
justamente de criações para as quais
não existem regras definidas previamente, ou seja, as
regras atuais não valem. Entende porque temos que quebrar
regras?
Portanto,
Criatividade serve muito para explorarmos o desconhecido, e
para isso precisamos ter em mente que freqüentemente
vamos errar. Tentar e errar faz parte do processo
criativo e um dos pontos básicos para ampliarmos nosso
potencial criativo é justamente reconsiderar nosso "medo" de
errar, talvez transformando a palavra em "testar".
Veja que
a cada "teste" malsucedido que fazemos
conseguimos novos elementos para nosso
aparelho perceptual (mais ligações de causa/efeito, mais
identificação de correlações, mais micro-regras unindo partes
do problema a outras partes, mais conhecimento sobre partes
montando um todo, etc). Por isso se diz que muito se aprende
com os erros. Eles enriquecem nossa percepção de forma que
possamos ter melhores chances de simular o mundo
em nossas mentes em futuras situações.
Criar é Ter Inteligência Para Simular
Uma das
características mais marcantes dos "seres inteligentes" que
habitam este planeta é a habilidade de aprender e antever
conseqüências de atos imaginados. Isto nos permite fazer
"modelos" do mundo. Conseguimos "rodar" um programa simulador
em nossa mente. Uma criança desde cedo aprende a entender o
que significa a força da gravidade e a partir daí irá ganhar
uma forma virtual de testar mentalmente
uma determinada ação física, verificando
se ela é segura ou não antes de executá-la. As crianças acabam
descobrindo que se colocar o dedinho no fogo a conseqüência é
dor lancinante. Depois disso, elas podem antever a
conseqüência do ato de estender seu dedinho mental no fogo
virtual e sentir assim o efeito virtual correspondente, sem
ter que passar pelo efeito físico.
Passamos boa
parte de nossa vida aprendendo como melhorar nossa simulação
do mundo exterior. Modelamos o mundo físico, modelamos as
emoções das pessoas com as quais convivemos, modelamos a
empresa em que trabalhamos, o governo, nossos vizinhos, nosso
carro, o trânsito, etc. Boa parte de nosso raciocínio é
meramente uma simulação de grandes cadeias causais (isto causa
aquilo que causa aquilo...). Podemos dizer que essa seqüência
de inferências são representantes das "regras" que usamos no
dia-a-dia, equivalentes às regras mais simples como aquela que
diz que quando vou atravessar uma rua, devo olhar para os dois
lados. Essa regra é tão forte que chega ao caráter de
comportamento condicionado. Tudo isto é muito, muito útil,
pois poupa-nos tempo, automatiza procedimentos rotineiros,
aumenta nossas margens de acerto e evita erros fatais. Há
poucas (se é que há alguma!) vantagem em ser criativo no
atravessar a rua.
Mas há um
lado ruim dessa tática: essas regras também nos fazem ficar
acomodados e por isso evitamos procurar novas possibilidades.
Para sermos criativos, temos que estar dispostos a quebrar
(mesmo que apenas mentalmente) várias dessas seqüências
pré-programadas e dessa forma rodar nossa simulação do mundo
com um conjunto alterado de regras. Mas para
que mesmo fazer isso? Vamos rever essa idéia.
O
Estalo Perceptual
Aposto que
todos os leitores já ouviram falar (ou mesmo já tiveram) o
famoso "aha!" ou o "eureka".
São expressões que exprimem o momento em que as coisas se
"encaixam" de um jeito ideal mostrando seu valor
imediatamente. Chamo a isso de "estalo perceptual". Por que?
Porque esse
estalo aparece devido ao nosso treinamento perceptual para
reconhecer coisas valiosas. Quando as coisas se juntam, há um
momento onde identificamos uma espécie de "objeto" como se
tivéssemos reconhecido a face de um velho amigo que não vemos
há muito tempo. Na realidade, em termos neurocientíficos é
exatamente isso o que ocorre. Essa é uma atividade
essencialmente cognitiva e que mostra a importância de
cultivarmos habilidades perceptuais.
Ainda há
muito a se falar sobre este tópico e caso você esteja
interessado em maiores informações, você pode me contatar no
e-mail abaixo. Veja também a página do meu seminário sobre
criatividade que trata desses assuntos com maior profundidade,
em especial como podemos fazer para alterar as regras que
conhecemos e assim obter maiores chances de estalos
perceptuais.
Nós humanos
somos os únicos seres inteligentes deste planeta capazes de
uma profunda auto-reflexão. Para ser mais criativos, temos que
levar esse auto-conhecimento um passo adiante. Temos que
conhecer como funcionam nossos cérebros para poder não apenas
nos deleitar com esse conhecimento, mas também para
potencializar nossas capacidades e assim ampliar o alcance de
nossas melhores intenções humanísticas.
Não é muito difícil achar casos
de sucesso empresarial no qual a idéia fundamental do negócio
tenha ocorrido também em nossas mentes. Então, porque ele
conseguiu e nós não? É claro que existe uma infinidade de
fatores, entre eles a oportunidade, o capital, know-how,
relacionamentos. Mas entre esses fatores, existe um que também
é fundamental: o empresário bem sucedido, com uma idéia
igualzinha à que nós tivemos,
acreditou em seu
potencial criativo.
Os cursos e seminários
tradicionais de criatividade insistem em repassar aquelas
"técnicas batidas" de Preparação, Incubação, Insight. A grande
maioria dos "gurus" de criatividade usam técnicas requentadas
que se limitam a expor variações de um mesmo tema. Poucos se
esforçam para tentar explicar as coisas de uma forma mais
profunda. O nosso curso faz parte dessa minoria. Para nós, o
importante é saber de onde vêm as idéias que fazem sentido em
Criatividade. Não da forma como é tradicionalmente feito,
despejando técnicas e "conselhos" tirados do fundo de uma
cartola, mas sim
fundamentando
cada noção através de conceitos sólidos da ciência
contemporânea. Você vai se surpreender com o que
apresentaremos
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