Arte Contemporânea
1.INTRODUÇÃO
Arte
contemporânea, reunião de uma notável diversidade de estilos,
movimentos e técnicas. Essa ampla variedade de estilos inclui a
penetrante pintura realista Gótico americano (Grant Wood, 1930,
Art Institute of Chicago, Illinois), que retrata um casal de
agricultores do Centro-oeste americano e, ainda, os ritmos
abstratos da tinta salpicada da pintura Preto e branco (Jackson
Pollock, 1948, acervo particular). No entanto, mesmo que fosse
possível dividir a arte contemporânea por obras figurativas,
como o Gótico americano, e por obras abstratas, como Preto e
branco, encontraríamos uma surpreendente variedade de estilos
dentro dessas duas categorias. Da mesma forma que o Gótico
americano, pintado com precisão, é figurativo, a Marilyn Monroe
(Willem de Kooning, 1954, acervo particular) pode ser considerada
figurativa, apesar de suas pinceladas largas mal sugerirem os
rudimentos de um corpo humano e características faciais. O
abstracionismo, além disso, apresenta uma série de abordagens
distintas: desde os ritmos dinâmicos de Pollok em Preto e branco
à geometria de ângulos retos da Composição em vermelho,
amarelo e azul (Piet Mondrian, 1937-1942, Tate Gallery, Londres),
cujas linhas e retângulos sugerem a precisão mecânica da
máquina. Outros artistas preferiram uma estética da desordem,
como no caso do artista alemão Kurt Schwitters, que misturou
jornais, selos e outros objetos para criar a Imagem com um centro
luminoso (1919, Museu de Arte Moderna, Nova York). Assim, o
século XX apresenta mais do que variedade de estilos. Foi no
período moderno que os artistas produziram pinturas não somente
com materiais tradicionais, como o óleo sobre tela, mas também
com qualquer material que estivesse disponível. Essa inovação
levou a criações ainda mais radicais, como a arte conceitual e
a arte performática. Com isso, ampliou-se a definição de arte,
que passou a incluir, além de objetos palpáveis, idéias e
ações.
2.CARACTERÍSTICAS
DA ARTE CONTEMPORÂNEA
Devido a
essa diversidade, é difícil definir a arte contemporânea
incluindo toda a arte produzida no século XX. Para alguns
críticos, a característica mais importante da arte
contemporânea é sua tentativa de criar pinturas e esculturas
voltadas para si mesmas e, assim, distinguir-se das formas de
arte anteriores, que transmitiam idéias de instituições
políticas ou religiosas poderosas. Já que os artistas
contemporâneos não eram mais financiados por essas
instituições, tinham mais liberdade para atribuir significados
pessoais às suas obras. Essa atitude é, em geral, denominada
como arte pela arte, um ponto de vista quase sempre interpretado
como arte sem ideologia política ou religiosa. Ainda que as
instituições governamentais e religiosas não patrocinassem a
maioria das artes, muitos artistas contemporâneos procuraram
transmitir mensagens políticas ou espirituais. O pintor russo
Wassily Kandinsky, por exemplo, achou que a cor combinada com a
abstração poderia expressar uma realidade espiritual fora do
comum, enquanto que o pintor alemão Otto Dix criou obras de
cunho abertamente político que criticavam as diretrizes do
governo alemão. Outra teoria defende que a arte contemporânea
é rebelde por natureza e que essa rebeldia fica mais evidente na
busca da originalidade e de vontade de surpreender. O termo
vanguarda, aplicado à arte contemporânea com
freqüência, vem da expressão militar avant-gard que em
francês (ver Língua francesa) significa vanguarda e
sugere o que é moderno, novo, original ou avançado. Muitos
artistas do século XX tentaram redefinir o significado de arte
ou ampliar a definição de modo a incluir conceitos, materiais
ou técnicas jamais antes a ela associadas. Em 1917, por exemplo,
o artista francês Marcel Duchamp expôs uma produção em massa
de objetos utilitários, inclusive uma roda de bicicleta e um
urinol, como se fossem obras de arte. Nas décadas de 1950 e de
1960, o artista americano Allan Kaprow usou seu próprio corpo
como veículo artístico em espetáculos espontâneos que,
segundo ele, eram representações artísticas. Nos anos 1970, o
artista americano que seguia o estilo do earthwork, Robert
Smithson, usou elementos do meio ambiente terra, rochas e
água como material para suas esculturas. Como
conseqüência, muitas pessoas associam a arte contemporânea com
aquilo que é radical e perturbador. Ainda que a teoria da
rebeldia pudesse ser aplicada para explicar a busca por
originalidade que motivava um grande número de artistas do
século XX, seria difícil aplicá-la a um artista como Grant
Wood, cuja obra Gótico americano rejeitou claramente o exemplo
da arte de vanguarda de sua época. Outra característica
fundamental da arte contemporânea é o seu fascínio pela
tecnologia moderna e a utilização de métodos mecânicos de
reprodução, como a fotografia e a impressão tipográfica. No
início da década de 1910, o artista italiano Umberto Boccioni
procurou glorificar a precisão e a velocidade da era industrial
em suas pinturas e esculturas. Por volta da mesma época, o
pintor espanhol Pablo Picasso incorporou às suas pinturas uma
nova técnica, a colagem, que usava recortes de jornais e outros
materiais impressos. Seguindo a mesma linha, porém, outros
artistas contemporâneos buscaram inspiração nos impulsos
espontâneos da arte infantil ou na exploração das tradições
estéticas tradicionais de culturas que não fossem
industrializadas ou ocidentais. O artista francês Henri Matisse
e o suíço Paul Klee foram influenciados por desenhos de
crianças; Picasso observou de perto máscaras africanas e
Pollock desenvolveu sua técnica de salpicar tinta sobre a tela,
inspirando-se nas pinturas com areia dos índios
norte-americanos. Sob outra perspectiva, porém, afirma-se que a
motivação básica da arte contemporânea é criar um diálogo
com a cultura popular. Com essa finalidade, Picasso colou
pedaços de jornal em suas pinturas, Roy Lichtenstein transportou
tanto o estilo quanto o tema das histórias em quadrinhos para
suas pinturas e Andy Warhol fez a representação das sopas
enlatadas Campbell. No entanto, ainda que derrubar as barreiras
entre a arte de elite e a cultura popular seja algo típico de
Picasso, de Lichtenstein e de Warhol, não é típico de
Mondrian, Pollock ou da maioria dos abstracionistas. Cada uma
dessas teorias é convincente e poderia explicar as muitas
estratégias usadas pelos artistas contemporâneos. No entanto,
até mesmo essa breve análise mostra que a arte do século XX é
diversa demais para se encaixar em qualquer uma de suas muitas
definições. Cada teoria pode contribuir para resolver uma parte
do quebra-cabeça, mas nenhuma delas em separado representa a
solução.
3.ORIGENS
A arte
do final do século XIX antecipou muitas das características da
arte contemporânea. Elas incluem a idéia da arte pela arte, a
ênfase na originalidade, a exaltação da tecnologia moderna, o
fascínio pelo primitivo e o compromisso com a arte popular.
4.IMPRESSIONISMO
A
exaltação da arte pela arte surgiu com os artistas franceses
associados ao impressionismo, como Édouard Manet, Claude Monet,
Edgar Degas e Berthe Morisot. Na década de 1870, ao abandonarem
as referências diretas aos temas religiosos e históricos,
muitos dos impressionistas romperam com o padrão de arte
francês e expuseram suas pinturas de forma independente,
antecipando o desejo dos artistas modernos de tornarem-se
independentes das instituições estabelecidas. Ao pintar cenas
da vida quotidiana, especialmente a dos bares e teatros locais,
os impressionistas anteciparam o interesse da arte contemporânea
pela cultura popular. Retratando estradas de ferro, pontes e
exemplos da nova arquitetura que usava o ferro, eles anunciaram o
fascínio da arte contemporânea pela tecnologia. Por serem os
primeiros a usar novas técnicas artísticas isto é,
aplicar a tinta com pinceladas pequenas e descontínuas e
a intensificar suas cores, anteciparam o fascínio moderno pela
originalidade. A exibição de obras executadas como pinturas
acabadas, forçaram o público a reconsiderar o esboço não mais
como exercício preliminar, mas como arte final e, dessa forma,
antecipar a tendência dos artistas contemporâneos a ampliarem a
definição de arte.
5.PÓS-IMPRESSIONISMO
Nas
últimas duas décadas do século XIX, vários artistas
inspirados pelo estilo e técnicas impressionistas reagiram
veementemente a eles. Esses artistas, que mais tarde foram
chamados de pós-impressionistas, estabeleceram uma série de
abordagens diferentes na pintura, e cada uma delas repercutiria
de forma marcante na arte do século XX. Paul Gauguin rejeitou a
técnica impressionista de aplicar toques de cor separadamente,
em pequenas pinceladas, e preferiu usar grandes áreas cobertas
por uma única cor contornada por linhas fortes. Essa inovação
influenciou Matisse e o traço de artistas posteriores, que
usaram a cor mais como artifício expressivo do que como meio de
copiar a natureza. Em 1891, Gauguin estabeleceu-se no Tahiti,
Pacífico Sul, motivado pela ruptura de seu relacionamento com
van Gogh e pelo desejo de abandonar a civilização ocidental e
viver mais simplesmente. Seu trabalho no Tahiti contribuiu para o
fascínio moderno pela arte não ocidental. O pintor holandês
Vincent van Gogh usou tanto as cores quanto a pincelada para
traduzir, para a linguagem visual, seu conturbado estado
emocional. Além disso, impregnou sua obra com significados
religiosos ou alegóricos corvos negros simbolizando a
morte, por exemplo contrariando a ênfase impressionista
na observação direta. A obra do pintor norueguês Edvard Munch
baseava-se na premissa de que, por objetivos expressivos, a
pintura podia sacrificar a fidelidade à natureza. Munch usou
combinações de cores fortes, formas distorcidas e perspectivas
exageradas para dar forma visual à alienação do homem na
sociedade industrial moderna. As obras de Gauguin, van Gogh e
Munch abriram espaço para o desenvolvimento posterior do
expressionismo nas artes do século XX. Outros artistas
pós-impressionistas reagiram ao impressionismo de maneira
diferente. O artista francês Georges Seurat procurou elevar a
arte ao nível da ciência, incorporando as últimas teorias
sobre luz e cor à sua obra. Dividiu as cores em seus elementos
primários o roxo foi decomposto em azul e vermelho e o
verde em azul e amarelo e aplicou essas cores às suas
telas, ponto a ponto. Esse método, chamado de pontilhismo, tinha
como objetivo eliminar qualquer intuição e impulso do ato de
pintar. Paul Cézanne, outro pós-impressionista, introduziu mais
estrutura no que via como uma prática não sistemática do
impressionismo. Os objetos aparecem de forma mais sólida e
tangível em suas pinturas do que nas obras de seus colegas
impressionistas. Mas, apesar dessa maior solidez, Cézanne
contribuiu, mais do que qualquer outro artista anterior, para
desestabilizar a integridade da forma através de distorções
sutis e aparentes imprecisões em muitas pinturas de natureza
morta. Os objetos não repousam confortavelmente sobre suas
bases. Os vasos podem ser vistos de diferentes perspectivas e
têm bordas quando vistos de cima. As bordas horizontais das
mesas, quando projetadas de qualquer um dos lados de uma toalha
de mesa, às vezes não casam. A impressão é que Cézanne
tentava destruir a mesma solidez que introduziu na
representação dos objetos. Cézanne também fez uma inovação
radical em obras como Mont Sainte Victoire (1890-1906, Museu
Metropolitano de Arte, Nova York): a beirada da montanha se abre
para permitir que partes do céu penetrem nela, artifício que
desfaz a solidez da pedra. Com esse gesto simples, Cézanne
alterou o curso da história da arte. Duas entidades físicas, o
céu e a terra, até então distintas e separadas, agora eram
intercambiáveis. O mundo como é visto e vivenciado, parecia
não ter tanta importância para Cézanne quanto as leis da
criação das imagens. Após este exemplo, o mundo da realidade e
o mundo da arte começaram a se distanciar. A fragmentação
iniciada pela obra de Cézanne levou às posteriores
experimentações com as formas feitas por Picasso e à
invenção do cubismo.
6.PRIMEIRAS
DÉCADAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA
Os
historiadores da arte têm relacionado a fragmentação da forma
na arte do fim do século XIX e início do XX à fragmentação
da sociedade da época. As crescentes realizações tecnológicas
da Revolução Industrial ampliaram a distância entre as classes
média e trabalhadora. As mulheres lutavam por direitos de
igualdade e de voto. A visão da mente, apresentada pelo pai da
psicanálise, Sigmund Freud, estipulava que a psique humana,
longe de estar unificada, era repleta de conflitos e
contradições emocionais. A descoberta da radiografia, a teoria
da relatividade de Albert Einstein e outras inovações
tecnológicas sugeriam que a experiência visual já não
correspondia mais à visão de mundo da ciência. Várias formas
de criatividade artística refletiram essas tensões e
desenvolvimentos. Na literatura, James Joyce, T. S. Eliot e
Virginia Woolf experimentaram novas estruturas narrativas,
gramática, sintaxe e ortografia. Na dança, Sergei Diaghilev,
Isadora Duncan e Loie Fuller revolucionaram em figurinos e
coreografias pouco convencionais. Na música, Arnold Schönberg e
Igor Stravinski compuseram obras que não dependiam da estrutura
melódica tradicional. A música, além de ter sido uma das artes
em que mais foram feitas experiências, transformou-se na grande
fonte de inspiração para as artes visuais. No final do século
XIX e no começo do XX, muitos críticos de arte foram
influenciados pelos filósofos alemães Arthur Schopenhauer e
Friedrich Nietzsche, que haviam proclamado que a música era a
mais poderosa de todas as artes, já que causava emoções por
si, e não através da imitação do mundo. Muitos pintores do
movimento simbolista do final do século XIX, como Odilon Redon e
Gustave Moreau, tentaram superar o poder de sugestão direto da
música, pintando formas abstratas, realidades mais imaginárias
do que o observável. Redon e os simbolistas criaram as bases
para a arte abstrata.
7.FAUVISMO
A idéia
de que a arte poderia se aproximar da música foi refletida na
obra O aparador, harmonia vermelha (1909, Museu Estadual
Hermitage, São Petersburgo, Rússia), de Henri Matisse, cujo
subtítulo foi retirado da terminologia musical. Com base nas
obras de Gauguin, Matisse pintou grandes áreas sem variação de
cor, formas simplificadas e linhas de contornos fortes. A
simplicidade do estilo de desenho de Matisse remete à
fascinação de Gauguin pela arte das culturas diferentes das
ocidentais. Matisse usou também os desenhos abstratos de tapetes
e tecidos, em uma tentativa de reforçar o aspecto plano da
pintura, mais do que de criar uma ilusão de profundidade. Seu
interesse por esses desenhos demonstra a influência exercida por
formas de expressão de criatividade nem sempre associadas às
belas artes. Apesar de O aparador, harmonia vermelha, ter sido
concebido como imagem agradável da vida doméstica da classe
média, a maneira de Matisse retratar essa cena foi considerada
revolucionária, especialmente na forma como, arbitrariamente,
distribuiu cores intensas em objetos, sem se espelhar na
natureza. Um crítico da época, escandalizado, afirmou que
Matisse e outros artistas como André Derain, Maurice de Vlaminck
e Georges Braque, da França, e Kees van Dongen, da Holanda, eram
fauves (termo que significa, em francês, animais selvagens).
Essa expressão depreciativa batizou o movimento, fauvismo, que
durou apenas de 1898 a 1908, mas causou um impacto duradouro na
arte do século XX.
8.CUBISMO
Pablo
Picasso, amigo e rival de Matisse, também inventou um novo
estilo de pintura que enfocava as linhas, mais do que as cores. A
arte de Picasso sofreu uma transformação radical por volta de
1907, quando ele decidiu incorporar à sua pintura alguns
elementos estilísticos da escultura africana. Ao contrário da
imagem agradável da classe média de Matisse, a pintura As
senhoritas de Avignon (1907, Museu de Arte Moderna, Nova York)
violenta a forma humana através de simplificações, de
combinações de cores violentas e arbitrárias e de distorções
extremas da anatomia e das proporções humanas. O espaço da
pintura, contudo, não segue a lógica da perspectiva, com seu
sistema tradicional de retratar a profundidade em uma pintura e,
é tão fragmentado, que se torna difícil percebê-lo
claramente. A violência inerente à Senhoritas de Picasso,
porém, abriu caminho para suas pinturas mais meditativas, como
Ma Jolie (1912, Museu de Arte Moderna, Nova York). Neste e em
outros exemplos do cubismo analítico, o tema em geral, um
retrato ou uma imagem de natureza morta é fragmentado em
uma série de interseções e cruzamentos de planos geométricos.
Percebe-se a influência de Cézanne nessa fragmentação, assim
como a paixão de Picasso pela ambigüidade e pela união de
opostos. O sólido e o vazio, o indivíduo e o meio ambiente, o
primeiro e o segundo plano se interpenetram num desafio à
lógica da pintura tradicional e à lógica da experiência
quotidiana. Ma Jolie foi pintada em tons de cinza e marrom, pouco
gritantes. Essa ausência de cor é característica do cubismo
analítico, assim como o uso de letras. As palavras ma jolie (que
significam, em francês, minha linda) aparecem na parte inferior
da tela, fazendo referência a uma música popular da época e
reforçando o vínculo entre a arte contemporânea e a cultura
popular. Mais tarde, Picasso reforçou esses vínculos na tela
Natureza morta com cadeira de palha (1912, Museu Picasso, Paris),
onde o artista colou um pedaço de tecido oleado no desenho de um
encosto de palha entrelaçada de uma cadeira. Esse foi um dos
primeiros exemplos de colagem, uma violação das técnicas
tradicionais de pintura através da inclusão de materiais
estranhos. Após as experimentações cubistas de Picasso e de
seu colega francês, Georges Braque, nenhum material voltou a ser
considerado estranho à arte. Isso possibilitou que ela se
redefinisse constantemente com o decorrer do século. O cubismo
de Picasso mostrou-se notavelmente influente. Vários artistas
franceses, como Albert Gleizes, Jean Metzinger, Robert Delaunay,
Fernand Léger e Juan Gris, foram influenciados por ele em suas
criações. Ao usarem esse estilo para glorificar a relação da
vida moderna com a tecnologia, diferenciaram suas obras das de
Picasso e Braque. Léger, por exemplo, simplificou as formas em A
cidade (1919, Philadelphia Museum of Art, Pensilvânia),
transformando-as em áreas coloridas planas ou em cubos ou
cilindros tridimensionais. Nesta obra, a visão pessoal e sutil
de Picasso quanto ao cubismo levou à visão mais mecânica e
impessoal de Léger. A mudança reflete uma crença política
contemporânea segundo a qual a personalidade individual deveria
subordinar-se às exigências da sociedade como um todo. A obra A
cidade é a visão de Léger de uma comunidade ideal ou utópica,
onde há a integração da humanidade com a máquina.
9.FUTURISMO
Os
futuristas, um grupo de artistas italianos que trabalharam de
1909 a 1916, compartilhavam do entusiasmo de Léger pela
tecnologia, mas foram além. Como o próprio nome sugere, os
futuristas abraçaram tudo aquilo que enaltecia as inovações
tecnológicas e as mecanizações, e censuravam que se
relacionasse à tradição. Afirmavam que um veículo em alta
velocidade era mais bonito do que uma estátua grega antiga. Ao
misturar a fragmentação da forma de Picasso com a técnica da
pintura pontilhista de Seurat, a obra Agilidade de um jogador de
futebol (1913, Museu de Arte Moderna, Nova York), de Umberto
Boccioni, é típica do futurismo. Mas a característica mais
notável do jogador de futebol de múltiplas pernas de Boccioni
é a sua representação de movimento. Para alcançar esse
sentido de movimento, os futuristas se basearam em fotos do
movimento humano tiradas em seqüência pelo fotógrafo Edward
Muybridge e pelo cientista Etienne-Jules Marey. "Um cavalo
galopando", afirmavam os futuristas, "não tem quatro
patas, mas vinte". Como Léger, os futuristas acreditavam
que a construção de uma nova sociedade poderia ocorrer apenas
se os cidadãos sacrificassem sua individualidade pelo bem do
todo. O novo ser humano ideal, esboçado na pintura de Boccioni,
seria mais máquina do que homem: seria forte, energético,
impessoal e até mesmo violento. Giacomo Balla, Carlo Carrà e
Gino Severini também foram pintores futuristas.
10.EXPRESSIONISMO
ALEMÃO
Enquanto
o movimento futurista italiano tinha como marca de autenticidade
adotar as novas descobertas tecnológicas, um grupo de artistas
na Alemanha chamado Die Brücke (A ponte) não enaltecia a
tecnologia mas, sim, o instinto humano. O Die Brücke, fundado em
Dresden em 1905, incluía os artistas alemães Ernst Ludwig
Kirchner, Erich Heckel, Emil Nolde, Max Pechstein e Karl
Schmidt-Rottluff. Esses artistas viam a cidade moderna como local
de alienação. Em obras como Cenas de uma rua de Berlim (1913,
Staatsgalerie, Stuttgart, Alemanha), Kirchner sublinhou a
artificialidade da vida urbana e a forma como as pessoas perdem
sua identidade entre a multidão. Suas figuras humanas têm
proporções distorcidas e características faciais
generalizadas. Kirchner ressaltou o sentido de ansiedade com a
justaposição de cores contrastantes e com formas angulosas,
sendo que essas últimas foram inspiradas nas esculturas
africanas e nas peças entalhadas em madeira alemãs. Essas
formas artísticas agradavam aos expressionistas não apenas por
sua simplificação da anatomia humana mas, também, pela
aspereza revelada nos traços da mão do artista e na dificuldade
de se trabalhar com madeira. Seguindo o exemplo de Gauguin, os
expressionistas freqüentemente representavam o corpo humano em
meio à natureza, presumivelmente livres dos rígidos códigos de
moral da classe média. Em 1911, um segundo grupo de
expressionistas surgiu na Alemanha, desta vez em Munique, com o
nome de Der Blaue Reiter (O cavaleiro azul). Esse grupo incluía
os russos Wassily Kandinsky e Alexei von Jawlensky, os alemães
Franz Marc, August Macke e Gabriele Münter e o suíço Paul
Klee. Como os membros do Die Brücke, os artistas do Der Blaue
Reiter apreciavam a arte não ocidental, assim como os desenhos
de crianças, a arte folclórica e o artesanato. Mas os membros
do Der Blaue Reiter estavam mais interessados no lado espiritual
da humanidade do que no instintivo. Kandinsky associou a arte
figurativa ao materialismo e a arte abstrata, ao espiritualismo.
Assim, como os pintores simbolistas do final do século XX,
Kandinsky traçou paralelos entre a pintura e a música e
acreditava que as cores poderiam provocar diferentes emoções da
mesma forma que diferentes melodias e sons. Nas obras abstratas
de Kandinsky, como Improvisação 28 (1912, Museu Solomon R.
Guggenheim, Nova York), os contornos das formas permanecem
incompletos, como se estivessem abertos, e as linhas e as cores
funcionam de forma independente umas das outras. Apesar de alguns
acadêmicos verem essas obras como os primeiros exemplos da arte
abstrata, outros descobriram que muitos dos turbulentos estudos
preliminares de Kandinsky referem-se à cenas do dilúvio, do
Juízo Final e a outros acontecimentos bíblicos. Essa descoberta
sugere que a espiritualidade de Kandinsky, em consonância com a
arte abstrata, não era apenas uma idéia geral, mas um aspecto
crucial de seu objeto de estudo.
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