Literatura

Teatro Medieval

Na Idade Média, o teatro não era escrito, era uma produção literária de natureza dramática. Havia representações cênicas, mas estas eram, principalmente, figurativas. Não havia o texto dramático, que é o que interessa à Literatura. Deixaram também de representar as tragédias e comédias que expressavam o teatro clássico greco-romano.

As encenações litúrgicas

Sob a influência da Igreja Católica e da visão teocêntrica do mundo, o teatro medieval foi basicamente um teatro litúrgico, articulado com os ritos, as celebrações e o culto da religião católica.

Essas formas dramáticas primitivas, das quais não há registro literário, eram encenações realizadas nas igrejas e abadias, por ocasião do Natal, da Páscoa e do Corpus Christi, sob a forma de autos, jogos e representações, com pastores e reis magos adorando o Presépio, apóstolos, santos e figuras alegóricas de anjos e demônios. Entre as modalidades dessas encenações litúrgicas, destacam-se:

A – os mistérios: encenações de passos da vida de Jesus Cristo extraídos do Novo Testamento e de passagens do Antigo Testamento consideradas “prefigurações” do advento de Cristo.

Envolviam centenas de figurantes em inúmeros episódios que reproduziam, de forma mais ou menos realista, a Natividade de Jesus, sua vida e seus milagres e a Paixão de Cristo, encenada no ritual da Semana Santa.

Os autos natalinos que ainda se encenam no interior do Brasil, a representação da Via-Sacra, as procissões do Senhor Morto e do Encontro, descendem dessa tradição litúrgica medieval, comum a toda a Europa católica romana e que os colonizadores trouxeram para o Novo Mundo;

B – os milagres: representações da vida dos santos, dos mártires e apóstolos ou de intervenções miraculosas da Virgem Maria;

C – as moralidades: peças mais curtas, cujas personagens eram alegorias (abstrações que personificavam ideias, instituições, tipos psicológicos, vícios e virtudes), pos­tas em cena com finalidade didática ou moralizante.

A Trilogia das Barcas, de Gil Vicente, descende, em parte, dessa tradição, tanto que o Auto da Barca do Inferno traz, no próprio título, a designação “Auto de Moralidade“. O teatro catequético do Pe. Anchieta — os autos que fazia encenar para índios e colonos, destinados à educação religiosa e à edificação moral dos espectadores — incorporava ao teatro litúrgico medieval e às moralidades elementos da cultura nativa, para facilitar a compreensão dos mistérios da fé e dos valores cristãos.

Encenação litúgica do teatro medievalEssas raízes ibéricas medievais dos mistérios, milagres e moralidades, assimiladas pela cultura popular nordestina, continuaram a fecundar o teatro brasileiro até nossos dias: O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e Morte e Vida Severina (Auto de Natal Pernambucano), de João Cabral de Melo Neto, são dois exemplos notórios dessa permanência.

As encenações profanas

Ao lado das encenações religiosas, desenvolveram-se na Idade Média encenações teatrais de cunho popular e profano, algumas delas derivadas do teatro litúrgico, mas representadas nos palácios ou em seus pátios por jograis ou jogralesas, em ocasiões não-relacionadas ao culto religioso.

Associadas às festas populares, limitavam-se a vistosos desfiles de personagens das novelas de cavalaria, brincadeiras jocosas, arremedilhos (imitações cômicas e satíricas), pantomimas alegóricas (atores mascarados, por meio de gestos e contorções, quase sem palavras, davam a ideia das personagens e de suas ações, à maneira da palhaçada circense) e outras modalidades das quais quase não há registro. Entre as várias modalidades dessas encenações, citam-se:

A – as farsas: nome genérico que se dava às encenações satíricas, de gosto popular, apoiadas no exagero do aspecto cômico, no humor primário e nos processos grosseiros: situações ridículas, incongruentes e absurdas, equívocos, enganos, deformação caricaturesca etc.

As farsas dependem mais da ação e dos aspectos externos que do diálogo e do conflito dramático. A simplicidade e a contundência com que vão diretamente ao ponto, sem rodeios, influenciaram o teatro de todos os tempos, de Gil Vicente aos nossos dias (Labiche, Feydeau), passando por Molière e Shakespeare, no Seiscentismo, que incorporaram às suas comédias expedientes tipicamente farsescos;

B – as soties: representações jocosas, semelhantes às far­sas, com intenção crítica, envolvendo como protago­nistas parvos, tolos. Sotie deriva de sot, termo francês que significa “tolo”. A figura do parvo carnavalesco é comum em toda a Europa medieval: na Inglaterra é o fool; na Alemanha, o Narr;

C – os momos: representações mascaradas e pomposas de pessoas e animais com, às vezes, centenas de figurantes; assemelhavam-se às pantomimas pela prevalência da mímica sobre a fala. Especialmente apreciados em Portugal, misturavam cavaleiros, nobres e mascarados representando gigantes, dragões, demônios ou animais insólitos. Alguns contavam com o patrocínio e a participação do próprio rei;

D – os entremezes: consistiam em encenações breves de jograis ou bufões, realizadas originalmente entre um prato e outro, nos banquetes fidalgos, na Idade Média. Mais tarde, o termo passou a designar toda peça curta, em um ato, representada entre dois atos de peças longas.

A função do entremez era preencher os intervalos da função teatral mais importante, como uma pausa que desanuviava com o riso alegre a seriedade e a comoção da peça principal. Essa prática de intercalar o riso às lágrimas persistiu até o século XIX, e foi comum no teatro do Romantismo;

E – os sermões burlescos: eram monólogos recitados por atores ou jograis mascarados, com vestes sacerdotais, ou pequenas farsas sobre histórias de clérigos e freiras, com imitações jocosas de atos religiosos, como sermões, ladainhas etc.

F – os autos pastoris ou éclogas: diálogos entre pastores rústicos, impregnados de um sentimento temo e de um ideal de vida pura, de “volta às origens”. As primeiras peças de Gil Vicente pertencem a esse gênero e foram influenciadas por Juan dei Encina, poeta e dramaturgo castelhano, cujos pastores falavam o dialeto saiaguês, a mesma língua de que se valeu Gil Vicente na fase inicial de sua dramaturgia.

Esses autos pastoris podiam ter fundo profano (Auto Pastoril Castelhano, Au­to Pastoril Português), associando o ideal de vida simples ao de regeneração do cristianismo, de volta à pureza primitiva dos apóstolos de Cristo.

Por: Renan Bardine

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