Bússola
A
bússola, mais conhecida pelos marinheiros como agulha,
é sem dúvida o instrumento de navegação mais importante a
bordo. Ainda hoje. Baseia-se no princípio que um ferro natural
ou artificialmente magnetizado tem em se orientar segundo
a direção do campo magnético da Terra.
Os
chineses conheceram-na muito antes dos europeus. Foram aqueles
os primeiros a fazerem uso da propriedade da magnetite para
procurarem os pontos cardeais. O Norte tinha extrema importância
na sua cultura e por isso o imperador estava sentado no trono
a Norte do palácio olhando para Sul. A bússola chinesa era
composta por um prato quadrangular representando a Terra onde
uma colher de magnetite colocada no centro indicava o Sul.
Parece
que foi através dos árabes que esse princípio entra na Europa,
onde se tem notícia do seu uso no séc. XII. Inicialmente era
composta por uma agulha de ferro magnetizada que se colocava
sobre uma palhinha flutuando numa vasilha cheia de água e
que apontava o Norte. Levava-se a bordo pedras de magnetite
para se cevar as agulhas à medida que estas iam perdendo o
seu magnetismo.
Apesar
de controverso Nápoles reclama que Flávio Gioia em 1302 alterou
a bússola para ser usada a bordo ligando os ferros à parte
inferior de um cartão com o desenho de uma rosa-dos-ventos.
A cidade de Amalfi exibe no seu brasão de armas uma legenda
evocando o fato.
Os
rumos ou as direções dos ventos
têm origem na antiguidade. Na Grécia começaram com dois, quatro,
oito e doze rumos. No início do séc. XVI surgem já 16 e na
época do Infante D.Henrique já se usavam rosas-dos-ventos
com 32 rumos. Primeiramente o rumo era associado à direção
do vento e só mais tarde aos pontos cardeais. A tradição de
decorar o Norte com uma flor-de-lis tem origem nas armas da
família Anjou que reinava em Nápoles. Alguns napolitanos adotaram
esse símbolo, cuja moda chegou até aos nossos dias. Em certas
rosas-dos-ventos, no local que indicava o Leste, aparecia
desenhada uma cruz que indicava a direção da Terra Santa.
A rosa-dos-ventos era marcada com os pontos cardeais e com
os quadrantes divididos consoante os rumos. Aos espaços entre
cada um dos 32 rumos chamavam-se quartas
(11º15') que ainda podiam ser divididas ao meio, as meias-quartas
(5º37') e estas em quartos
(2º48').
A
declinação de uma
agulha é a diferença que uma bússola marca entre o norte geográfico
e o norte magnético. Não se sabe quem foi o primeiro a notar
essa diferença mas desde o séc.XV que aparecem referências
a esse fenômeno. As expressões nordestear
e noroestear eram
usadas pelos nossos navegadores para se referirem à declinação
de uma bússola. Ao longo do tempo veio a verificar-se que
a declinação variava
com o tempo e o lugar, não sem que se tivesse adiantado entre
nós no início do séc.XVI que aquela poderia resolver o problema
da longitude. Pensava-se então que esta crescia proporcionalmente
de Leste para Oeste e foi D.João de Castro em 1538 demonstrou
a falsidade desta hipótese. O valor da declinação
era tomada pela observação da estrela polar no hemisfério
norte ou da estrela do Pé do Cruzeiro no hemisfério sul ou
ainda pela altura do Sol. A esta operação chamava-se bornear
a agulha.
Também
foi D.João de Castro o primeiro a descobrir o desvio
de uma agulha, ou seja o efeito que massas de ferro próximas
têm sobre uma bússola. Este efeito obrigou a cuidados com
o posicionamento desta relativamente a peças de artilharia,
âncoras e outros ferros. Era uma das razões para que os morteiros,
as caixas que protegem as bússolas, fossem primeiramente em
madeira. A bússola consta de leves barras magnetizadas e paralelas
que se fixam na parte inferior de um disco graduado. O disco
chamado rosa-dos-ventos
tem no centro um capitel com um cavado cônico com uma pedra
encastrada (rubi, safira, etc.) onde assenta numa haste vertical,
o pião, fixada no fundo do morteiro. No vidro ou na parede
do morteiro existe um traço vertical chamado linha
de fé que indica com rigor a direção da proa da embarcação.
Durante
o séc.XVI as nossas bússolas tinham, pelo menos desde 1537,
um sistema de balança para manter o morteiro horizontal. Este
sistema era similar ao descrito pelo sábio italiano Cardano
em 1560 para umas cadeiras a serem usadas a bordo.
O
morteiro estava colocado numa coluna de madeira, mais tarde
de metal, a bitácula, à frente da roda do leme. A bitácula
contêm um sistema dito cardan
que permite que o morteiro se mantenha na horizontal apesar
das oscilações do barco.
Quando
se começou com os cascos em ferro o desvio
tinha um efeito considerável e a bússola teve de ser adaptada.
A bitácula passou a incluir uns ferros para compensar esse
efeito e umas esferas de ferro de maneira a conduzir o fluxo
magnético à volta da bússola e atenuar as influências dos
ferros envolventes. De maneira a diminuir ainda mais o efeito
do balanço do navio, o morteiro pode a ser cheio com um líquido
(água e álcool ou petróleo branco) e por isso feito de um
metal com reduzido efeito magnético, normalmente latão. As
agulhas devem ser sensíveis e estáveis. Sensíveis para acusar
qualquer variação e estáveis para não se deslocarem pela ação
do balanço ou oscilação do barco. Designam-se preguiçosas
quando pouco sensíveis e doidas quando pouco estáveis.
Já no fim deste século apareceram novas bússolas. São as agulhas
eletrônicas que aproveitam o efeito indutivo do campo magnético
terrestre sobre uma bobine e transformam eletronicamente a
informação. Permitem assim uma ligação a outros equipamentos
eletrônicos de bordo, como o piloto automático ou computador
que fazem um uso quase ilimitado dessas potencialidades. Estão
no entanto sob as mesmas influências, como o desvio, que as
«velhas» agulhas de marear.