O Sol -
a nossa estrela
O Sol, nossa fonte
de luz e de vida, é a estrela mais próxima de nós, e a que
melhor conhecemos. Basicamente, é uma enorme esfera de gás
incandescente, em cujo núcleo acontece a geração de energia
através de reações termo-nucleares. O estudo do Sol serve
de base para o conhecimento das outras estrelas, que de tão
distantes aparecem para nós como meros pontos de luz.
Foto do Sol na linha Halfa do hidrogênio, obtida
pelo National Solar Observatory, EUA. Os filamentos escuros
são proeminências. Apesar
de parecer tão grande e brilhante (seu brilho aparente é 200 bilhões
de vezes maior do que o de Sírius, a estrela mais brilhante
do céu noturno), na verdade o Sol é uma estrela bastante comum.
Suas principais características são:
| Massa |
=
1,989 kg |
| Raio |
=
6,960 m |
| Densidade
média |
=
1409 kg m |
| Densidade
central |
=
1,6 |
| Distância |
= 1 UA |
| Magnitude
absoluta bolométrica |
=
4,72 |
| Magnitude
absoluta visual |
=
4,79 |
| Tipo espectral
e classe de luminosidade |
= G2 V |
| Índices
de cor |
=
0,62 |
| Composição
química principal |
Hidrogênio
= 92,1 % |
| Hélio =
7,8% |
| Oxigênio
= 0,061 % |
| Carbono
= 0,039 % |
| Nitrogênio
= 0,0084 % |
| Período
rotacional no equador |
25 d |
| na latitude
60 |
29 d |
Algumas das características
listadas acima são obtidas mais ou menos diretamente. Por
exemplo, a distância do Sol, chamada Unidade Astronômica,
é medida por ondas de radar direcionadas a um planeta em uma
posição favorável de sua órbita (por exemplo Vênus, quando
Terra e Vênus estão do mesmo lado do Sol e alinhados com ele).
O tamanho do Sol é obtido a partir de seu tamanho angular
e da sua distância. A massa do Sol pode ser medida a partir
do movimento orbital da Terra (ou de qualquer outro planeta)
usando a terceira lei de Kepler. Sabendo então sua massa e
seu raio temos a densidade média do Sol. Pela densidade média
podemos inferir sua composição química média.
Outras características
são determinadas a partir de modelos. Por exemplo, a equação
de equilíbrio hidrostático, descrita no capítulo Evolução
Estelar, permite determinar a pressão e a temperatura no centro
do Sol, supondo que elas têm que ser extremamente altas para
suportar o peso das camadas mais externas.
O modelo representado
na figura mostra as principais regiões do Sol. A fotosfera,
com cerca de 330 km de espessura e temperatura de 5800
K, é a camada visível do Sol. Logo abaixo da fotosfera se
localiza a zona convectiva, se estendendo por cerca de 15%
do raio solar. Abaixo dessa camada está a zona radiativa,
onde a energia flui por radiação. O núcleo, com temperatura
de cerca de 10 milhões de graus Kelvin, é a região onde a
energia é produzida, por reações termo-nucleares. A cromosfera
é a camada da atmosfera solar logo acima da fotosfera. Ela
tem cor avermelhada e é visível durante os eclipses solares,
logo antes e após a totalidade. Estende-se por 10 mil km
acima da fotosfera e a temperatura cresce da base para o topo,
tendo um valor médio de 15 mil K. Ainda acima da
cromosfera se encontra a coroa, também visível durante
os eclipses totais. A coroa se estende por cerca de dois raios
solares.
A fotosfera
A fotosfera do
Sol tem a aparência da superfície de um líquido em ebulição,
cheia de bolhas, ou grânulos. Este fenômeno é chamado de granulação
fotosférica. Os grânulos têm em torno de 1500 km de
diâmetro, e duram cerca de 10 min cada. Eles marcam os
topos das colunas convectivas de gás quente, que se forma
na zona convectiva, logo abaixo da fotosfera.
As regiões escuras entre os grânulos são regiões onde o gás
mais frio e mais denso escorrem para baixo.
O fenômeno fotosférico
mais notável é o das manchas solares, regiões
irregulares que aparecem mais escuras do que a fotosfera circundante
e que muitas vezes podem ser observadas mesmo a olho nu, embora
olhar diretamente para o Sol só não é perigoso quando ele
está no horizonte. As manchas foram registradas na China já
no ano 28 a.C., mas seu estudo científico começou com o uso
do telescópio, sendo observadas (por projeção da imagem do
Sol) por Galileo e Thomas Harriot (1560-1621) já em 1610,
e por Johannes (1587-1616)
e David Fabricius (1564-1617) e por Christoph
Scheiner (1575-1650) em 1611. São constituídas
de duas partes: a umbra, parte central mais escura, com temperaturas
em torno de 3800 K, e a penumbra, região
um pouco mais clara e com estrutura radial
em torno da umbra. As manchas solares tendem a se formar em
grupos, e estão associadas a intensos campos magnéticos no
Sol. As manchas solares seguem um ciclo de 11 anos em que
o número de manchas varia entre máximos
e mínimos. No gráfico abaixo, está registrado o número médio
mensal de manchas.
A cromosfera
A cromosfera do
Sol normalmente não é visível, porque sua radiação é muito
mais fraca do que a da fotosfera. Ela pode ser observada,
no entanto, durante os eclipses, quando a Lua esconde o disco
da fotosfera.
Veremos, no
capítulo de espectroscopia, que o Sol tem um espectro contínuo
com linhas escuras (de absorção). Esse espectro é o da fotosfera.
No entanto, olhando a borda do Sol com um espectroscópio,
durante um eclipse, temos a oportunidade de ver por alguns
instantes o espectro da cromosfera, feito de linhas brilhantes,
que mostram que a cromosfera é constituída de gases quentes
que emitem luz na forma de linhas de emissão. Essas linhas
são difíceis de serem observadas contra a luz brilhante da
fotosfera, por isso não as vemos no espectro solar normal.
Uma das linhas
cromosféricas de emissão mais brilhantes é a linha de Balmer,
no comprimento de onda 6563 Å, que no espectro solar normal
aparece em absorção. A linha está no vermelho, por isso a
cromosfera tem cor avermelhada.
Uma fotografia
do Sol tirada com filtro deixa passar apenas a luz da cromosfera,
e permite ver que a cromosfera tem uma aparência ondulada
devido à presença de estruturas chamadas espículas, jatos
de gás que se elevam a até 10 mil km acima da borda
da cromosfera, e duram poucos minutos. As espículas, observadas
contra o disco do Sol, aparecem como filamentos escuros; nas
bordas, aparecem como labaredas brilhantes.
A temperatura
na cromosfera varia de 4300 K na base a mais de 40 000
K a 2500 km de altura. Esse aquecimento da cromosfera deve
ter uma fonte de energia que não são os fótons produzidos
no interior do Sol, pois se a energia fosse gerada por fótons
a cromosfera deveria ser mais fria do que fotosfera, então
mais quente. Atualmente se pensa que a fonte de energia são
campos magnéticos variáveis formados na fotosfera e transportados
para a coroa por correntes elétrica, deixando parte de sua
energia na cromosfera.
A Coroa
A cromosfera
gradualmente se funde na coroa, a camada mais externa e mais
rarefeita da atmosfera do Sol. A coroa também é melhor observada
durante eclipses, pois apesar de ter um brilho equivalente
ao da lua cheia, ela fica obscurecida quando a fotosfera é
visível.
O espectro da
coroa mostra linhas muito brilhantes que, até 1940, não eram
conhecidas. Atualmente sabemos que elas são produzidas por
átomos de ferro, níquel, neônio e cálcio altamente ionizados,
e não por algum elemento estranho, como anteriormente foi
pensado. O fato de existirem esses elementos várias vezes
ionizados na coroa implica que sua temperatura deve ser muito
alta, pois é necessária muita energia para arrancar muitos
elétrons de um átomo. A coroa deve ter uma temperatura em
torno de 1 milhão de graus Kelvin.
A elevação da
temperatura na coroa deve ter origem no mesmo processo físico
que aquece a cromosfera: transporte de energia por correntes
elétricas induzidas por campos magnéticos variáveis.
Da coroa emana
o vento solar, um fluxo contínuo de partículas emitidas
da coroa que acarretam uma perda de massa por parte do sol
em torno de muitas por ano. O vento solar que atinge a Terra é capturado pelo campo magnético
da Terra, formando o cinturão de Van Allen, na magnetosfera
terrestre.
Este cinturão,
descoberto pelo físico americano James Alfred Van Allen (1914-)
em 1958, só permite que
as partículas carregadas entrem na atmosfera
da Terra pelos pólos, causando as auroras, fenômenos
luminosos de excitação e des-excitação dos átomos de oxigênio.
Além das partículas
do vento solar, existem grandes ejeções de massa associadas
às proeminências, que quando atingem a Terra causam danos
às redes elétricas e aos satélites. O último máximo do ciclo
de 11 anos ocorreu em 1989, e logo após uma grande proeminência
solar, a rede elétrica na província de Quebec, no Canadá,
sofreu uma grande sobrecarga elétrica que causou vários danos
aos equipamentos. O próximo máximo do ciclo solar deve ocorrer
no ano 2000.
Normalmente as
partículas carregadas são desviadas pelo campo magnético da
Terra para o Cinturão de Van Allen, e somente chegam à Terra
próximas aos pólos. Entretanto o campo magnético terrestre
não é um simples dipolo e existe uma depressão no campo, no
Atlântico Sul, que faz com que partículas carregadas também
cheguem ao solo na região conhecida como Anomalia geomagnética
do Atlântico Sul.
As ejeções coronais
de massas são bolhas de gás quente (plasma), de bilhões de
toneladas, aquecidas pelos campos magnéticos do Sol. Os campos
magnéticos do Sol se enrolam devido ao movimento turbulento
de convecção mas também devido à rotação diferencial, que
faz com que o equador solar complete uma volta em 25 dias,
enquanto que as regiões próximas aos pólos completam uma volta
em 36 dias. A desconexão do campo magnético solar pode ocorrer
em alguns minutos e tem uma energia equivalente a milhares
de bombas atômicas.
O vento solar,
composto de partículas carregadas desprendidas da coroa solar,
viaja a aproximadamente 250 a 1000 km/s, provocando as
auroras, normalmente entre 60 e 80° de latitude. Entretanto
as auroras podem ocorrer também em baixas latitudes, como
por exemplo a observada em 1909 em Singapura, no equador geomagnético.
As auroras foram observadas na antiguidade pelos gregos e
chineses, mas somente em 1896 o físico norueguês Kristian
Birkeland (1867- 1917) deduziu que fluxos de elétrons provenientes
do Sol eram canalizados pelo campo geomagnético aos pólos
e, quando colidiam com a alta atmosfera, estimulavam os átomos
de oxigênio e nitrogênio. As auroras acontecem a alturas acima
de 60 km, têm correntes acima de 100 000 volts
e geram energia acima de 1 milhão de megawatts.
As ejeções coronais
de massa viajam a aproximadamente 1 milhão km/hr e levam de
um a quatro dias para alcançar a Terra. Quando atingem a Terra,
têm milhões de quilômetros de extensão e causam danos a satélites,
erro no posicionamento de navios e aviões de vários quilômetros,
tanto pelo sistema GPS (Global Positioning System) quanto
pelos sistemas Loran e Omega, danos às redes de energia elétrica,
induzindo voltagens de milhares de volts e queimando transformadores.
Aumentam também a incidência de radiação ionizante nas pessoas,
principalmente em vôos de alta altitude, como vôos supersônicos
e astronáuticos.
Para exemplificar,
em 1994 os satélites de comunicação canadenses Anik E1 e E2,
assim como o satélite da AT&T Telstar 1, de TV e dados
e o satélite Galaxy 4, que em 1998 emudeceu 45 milhões de
pagers em todo o mundo, foram todos danificados por
partículas aceleradas decorrentes de tempestades solares.
Cada satélite tem custo acima de 100 milhões de dólares. Associadas
à tempestades solares, em agosto de 1972 houve uma flutuação
na rede elétrica de Winsconsin, nos Estados Unidos, de 2500 volts
e a queima de um transformador de 230 000 volts
na Columbia Britânica, no valor de 100 milhões de dólares,
além da queima de transformadores no Quebec em 13 de março
de 1989, que deixou 6 milhões de pessoas sem energia elétrica
por nove horas e em algumas regiões daquela província do Canadá
por até duas semanas, causando um prejuízo superior a 1 bilhão
de dólares.
Em termos de radiação
na Terra, a radiação que atinge a Terra normalmente é de 360
milirem/ano (3,6 mili sievert/ano), mas para os astronautas
na Mir é em média 6000 milirem/ano (60 mili sievert/ano),
mas em único evento em 1989 atingiu 216 milirem/dia (2,16
mili sievert/dia) após uma tempestade solar. Durante uma ejeção
coronal de massa a radiação na superfície da Lua chega a 7000
rem/min (70 sievert/min), o que é fatal.
Existem vários
satélites monitorando o clima espacial e atualmente se pode
receber notificação da chegada de uma ejeção coronal de massa
com 3 horas de antecedência, no endereço http://www.sec.noaa.gov.
Tão logo foi conhecida
a distância do Sol, em 1673, foi possível determinar a sua
luminosidade, que é a potência que ele produz. As medidas
mostram que cada metro quadrado na Terra recebe do sol uma
potência (energia/segundo) de 1400 watts [James Watt (1736-1819)],
ou seja, a potência de 14 lâmpadas de 100
watts. Por essa potência recebida na Terra, determina-se a
luminosidade do Sol em 4x1026 watts, ou 4x1033
ergs/s.
Essa quantidade
de energia é equivalente à queima de 2x1020 galões
de gasolina por minuto, ou mais de 10 milhões de vezes a produção
anual de petróleo da Terra. Já no século XIX os astrônomos
sabiam que essa energia não poderia ser gerada por combustão,
pois a energia dessa forma poderia manter o Sol brilhando
por apenas 10 mil anos. Tampouco o colapso gravitacional,
fonte de energia proposta pelo físico alemão Hermann Ludwig
Ferdinand von Helmholtz (1821-1894) em 1854, resultou eficiente,
pois a energia gravitacional poderia suprir
a luminosidade do Sol por 20 milhões de anos, e evidências
geológicas indicam que o Sol tem uma idade de bilhões de anos.
Em 1937 Hans Albrecht
Bethe (1906-) propôs a fonte hoje aceita para a energia do
Sol: as reações termo-nucleares, na
qual quatro prótons são fundidos em um núcleo de hélio, com
liberação de energia. O Sol tem hidrogênio suficiente para
alimentar essas reações por bilhões de anos. Gradualmente,
à medida que diminui a quantidade de hidrogênio, aumenta a
quantidade de hélio no núcleo. Veja mais sobre este assunto
no capítulo sobre estrelas.