Alcoolismo
1-
INTRODUÇÃO
O alcoolismo é o conjunto de problemas relacionados ao
consumo excessivo e prolongado do álcool; é entendido como o
vício de ingestão excessiva e regular de bebidas alcoólicas, e
todas as conseqüências decorrentes. O alcoolismo é, portanto,
um conjunto de diagnósticos. Dentro do alcoolismo existe a
dependência, a abstinência, o abuso (uso excessivo, porém não
continuado), intoxicação por álcool (embriaguez). Síndromes
amnéstica (perdas restritas de memória), demencial,
alucinatória, delirante, de humor. Distúrbios de ansiedade,
sexuais, do sono e distúrbios inespecíficos. Por fim o
delirium tremens, que pode ser fatal.
Assim o alcoolismo é um termo genérico que indica algum
problema, mas medicamente para maior precisão, é necessário
apontar qual ou quais distúrbios estão presentes, pois
geralmente há mais de um.
2-
ALGUMAS DEFINIÇÕES
O
fenômeno da Dependência (Addiction) é o comportamento de
repetição que obedece a dois mecanismos básicos não
patológicos: o reforço positivo e o reforço negativo. O
reforço positivo refere-se ao comportamento de busca do
prazer: quando algo é agradável a pessoa busca os mesmos
estímulos para obter a mesma satisfação. O reforço negativo
refere-se ao comportamento de evitação de dor ou desprazer.
Quando algo é desagradável a pessoa procura os mesmos meios
para evitar a dor ou desprazer, causados numa dada
circunstância. A fixação de uma pessoa no comportamento de
busca do álcool, obedece a esses dois mecanismos acima
apresentados. No começo a busca é pelo prazer que a bebida
proporciona.
Depois
de um período, quando a pessoa não alcança mais o prazer
anteriormente obtido, não consegue mais parar porque sempre
que isso é tentado surgem os sintomas desagradáveis da
abstinência, e para evitá-los a pessoa mantém o uso do álcool.
Os reforços positivo e negativo são mecanismos ou recursos
normais que permitem às pessoas se adaptarem ao seu ambiente.
As
medicações hoje em uso atuam sobre essas fases: a naltrexona
inibe o prazer dado pelo álcool, inibindo o reforço positivo;
o acamprosato diminui o mal estar causado pela abstinência,
inibindo o reforço negativo. Provavelmente, dentro de pouco
tempo, teremos estudos avaliando o benefício trazido pela
combinação dessas duas medicações para os dependentes de
álcool que não obtiveram resultados satisfatórios com cada uma
isoladamente.
3-
TOLERÂNCIA E DEPENDÊNCIA
A tolerância e a dependência ao álcool são dois eventos
distintos e indissociáveis. A tolerância é a necessidade de
doses maiores de álcool para a manutenção do efeito de
embriaguez obtido nas primeiras doses. Se no começo uma dose
de uísque era suficiente para uma leve sensação de
tranqüilidade, depois de duas semanas (por exemplo) são
necessárias duas doses para o mesmo efeito. Nessa situação se
diz que o indivíduo está desenvolvendo tolerância ao álcool.
Normalmente, à medida que se eleva a dose da bebida alcoólica
para se contornar a tolerância, ela volta em doses cada vez
mais altas. Aos poucos, cinco doses de uísque podem se tornar
inócuas para o indivíduo que antes se embriagava com uma dose.
Na prática não se observa uma total tolerância, mas de forma
parcial. Um indivíduo que antes se embriagava com uma dose de
uísque e passa a ter uma leve embriaguez com três doses está
tolerante apesar de ter algum grau de embriaguez. O alcoólatra
não pode dizer que não está tolerante ao álcool por apresentar
sistematicamente um certo grau de embriaguez. O critério não é
a ausência ou presença de embriaguez, mas a perda relativa do
efeito da bebida. A tolerância ocorre antes da dependência. Os
primeiros indícios de tolerância não significam,
necessariamente, dependência, mas é o sinal claro de que a
dependência não está longe. A dependência é simultânea à
tolerância. A dependência será tanto mais intensa quanto mais
intenso for o grau de tolerância ao álcool. Dizemos que a
pessoa tornou-se dependente do álcool quando ela não tem mais
forças por si própria de interromper ou diminuir o uso do
álcool.
O
alcoólatra de "primeira viagem" sempre tem a impressão de que
pode parar quando quiser e afirma: "quando eu quiser, eu
paro". Essa frase geralmente encobre o alcoolismo incipiente e
resistente; resistente porque o paciente nega qualquer
problema relacionado ao álcool, mesmo que os outros não
acreditem, ele próprio acredita na ilusão que criou. A negação
do próprio alcoolismo, quando ele não é evidente ou está
começando, é uma forma de defesa da auto-imagem (aquilo que a
pessoa pensa de si mesma). O alcoolismo, como qualquer
diagnóstico psiquiátrico, é estigmatizante. Fazer com que uma
pessoa reconheça o próprio estado de dependência alcoólica, é
exigir dela uma forte quebra da auto-imagem e conseqüentemente
da auto-estima. Com a auto-estima enfraquecida a pessoa já não
tem a mesma disposição para viver e, portanto, lutar contra a
própria doença. É uma situação paradoxal para a qual não se
obteve uma solução satisfatória. Dependerá da arte de conduzir
cada caso particularmente, dependerá da habilidade de cada
psiquiatra.
4-
ASPECTOS GERAIS DO ALCOOLISMO
A identificação precoce do alcoolismo geralmente é
prejudicada pela negação dos pacientes quanto a sua condição
de alcoólatras. Além disso, nos estágios iniciais é mais
difícil fazer o diagnóstico, pois os limites entre o uso
"social" e a dependência nem sempre são claros. Quando o
diagnóstico é evidente e o paciente concorda em se tratar é
porque já se passou muito tempo, e diversos prejuízos foram
sofridos. É mais difícil de se reverter o processo. Como a
maioria dos diagnósticos mentais, o alcoolismo possui um forte
estigma social, e os usuários tendem a evitar esse estigma.
Esta defesa natural para a preservação da auto-estima acaba
trazendo atrasos na intervenção terapêutica. Para se iniciar
um tratamento para o alcoolismo é necessário que o paciente
preserve em níveis elevados sua auto-estima sem, contudo,
negar sua condição de alcoólatra, fato muito difícil de se
conseguir na prática. O profissional deve estar atento a
qualquer modificação do comportamento dos pacientes no
seguinte sentido: falta de diálogo com o cônjuge, freqüentes
explosões temperamentais com manifestação de raiva, atitudes
hostis, perda do interesse na relação conjugal. O Álcool pode
ser procurado tanto para ficar sexualmente desinibido como
para evitar a vida sexual. No trabalho os colegas podem notar
um comportamento mais irritável do que o habitual, atrasos e
mesmo faltas. Acidentes de carro passam a acontecer. Quando
essas situações acontecem é sinal de que o indivíduo já perdeu
o controle da bebida: pode estar travando uma luta solitária
para diminuir o consumo do álcool, mas geralmente as
iniciativas pessoais resultam em fracassos. As manifestações
corporais costumam começar por vômitos pela manhã, dores
abdominais, diarréia, gastrites, aumento do tamanho do fígado.
Pequenos acidentes que provocam contusões, e outros tipos de
ferimentos se tornam mais freqüentes, bem como esquecimentos
mais intensos do que os lapsos que ocorrem naturalmente com
qualquer um, envolvendo obrigações e deveres sociais e
trabalhistas. A susceptibilidade a infecções aumenta e
dependendo da predisposição de cada um, podem surgir crises
convulsivas. Nos casos de dúvidas quanto ao diagnóstico,
deve-se sempre avaliar incidências familiares de alcoolismo
porque se sabe que a carga genética predispõe ao alcoolismo. É
muito mais comum do que se imagina a coexistência de
alcoolismo com outros problemas psiquiátricos prévios ou mesmo
precipitante. Os transtornos de ansiedade, depressão e insônia
podem levar ao alcoolismo. Tratando-se a base do problema
muitas vezes se resolve o alcoolismo. Já os transtornos de
personalidade tornam o tratamento mais difícil e prejudicam a
obtenção de sucesso.
5-
TRATAMENTO DO ALCOOLISMO
O alcoolismo, essencialmente, é o desejo incontrolável de
consumir bebidas alcoólicas numa quantidade prejudicial ao
bebedor. O núcleo da doença é o desejo pelo álcool; há tempos
isto é aceito, mas nunca se obteve uma substância psicoativa
que inibisse tal desejo. Como prova de que inúmeros fracassos
não desanimaram os pesquisadores, temos hoje já comprovadas,
ou em fase avançada de testes, três substâncias eficazes na
supressão do desejo pelo álcool, três remédios que atingem a
essência do problema, que cortam o mal pela raiz. Estamos
falando
naltrexona, do
acamprosato e da ondansetrona. O
tratamento do alcoolismo não deve ser confundido
com o tratamento da abstinência alcoólica. Como o organismo
incorpora literalmente o álcool ao seu metabolismo, a
interrupção da ingestão de álcool faz com que o corpo se
ressinta: a isto chamamos abstinência que, dependendo, do
tempo e da quantidade de álcool consumidos pode causar sérios
problemas e até a morte nos casos não tratados. As medicações
acima citadas não têm finalidade de atuar nessa fase. A
abstinência já tem suas alternativas de tratamento bem
estabelecidas e relativamente satisfatórias. O
Dissulfiram é uma substância que força o paciente a
não beber sob a pena de intenso mal estar: se isso for feito,
não suprime o desejo e deixa o paciente num conflito
psicológico amargo. Muitos alcoólatras morreram por não
conseguirem conter o desejo pelo álcool enquanto estavam sob
efeito do Dissulfiram. Mesmo sabendo o que poderia acontecer,
não conseguiram evitar a combinação do álcool com o
Dissulfiram, não conseguiram sequer esperar a eliminação do
Dissulfiram. Fatos como esses servem para que os clínicos e os
não-alcoólatras saibam o quanto é forte a inclinação para o
álcool sofrida pelos alcoólatras, mais forte que a própria
ameaça de morte. Serve também para medir o grau de benefício
trazido pelas medicações que suprimem o desejo pelo álcool,
atualmente disponíveis. Podemos fazer uma analogia para
entender essa evolução. Com o Dissulfiram o paciente tem que
fazer um esforço semelhante ao motorista que tenta segurar um
veículo ladeira abaixo, pondo-se à frente deste, tentando
impedir que o automóvel deslanche, atropelando o próprio
motorista. Com as novas medicações o motorista está dentro do
carro apertando o pedal do freio até que o carro chegue no fim
da ladeira. Em ambos os casos, é possível chegar ao fim da
ladeira (controle do alcoolismo). Numa o esforço é enorme
causando grande percentagem de fracassos; noutro o esforço é
pequeno, permitindo grande adesão ao tratamento.
6-
PROBLEMAS CLÍNICOS
Diversos são os problemas causados pela bebida alcoólica
pesada e prolongada. Fugiria ao nosso objetivo entrar em
detalhes a esse respeito, por isso abordaremos o tema
superficialmente.
Amnésias nos períodos de embriaguez acontecem em 30 a 40% das
pessoas no fim da adolescência e início da terceira década de
vida: provavelmente o álcool inibe algum dos sistemas de
memória impedindo que a pessoa se recorde de fatos ocorridos
durante o período de embriaguez. Induz a sonolência, mas o
sono sob efeito do álcool não é natural, tendo sua estrutura
registrada no eletroencefalograma alterado. Entre 5 e 15% dos
alcoólatras apresentam neuropatia periférica. Este problema
consiste num permanente estado de hipersensibilidade,
dormência, formigamento nas mãos, pés ou ambos. Nas síndromes
alcoólicas pode-se encontrar quase todas as patologias
psiquiátricas: estados de euforia patológica, depressões,
estados de ansiedade na abstinência, delírios e alucinações,
perda de memória e comportamento desajustado.
Grande
quantidade de álcool ingerida de uma vez pode levar a
inflamação no esôfago e estômago o que pode levar a
sangramentos além de enjôo, vômitos e perda de peso. Esses
problemas costumam ser reversíveis, mas as varizes decorrentes
de cirrose hepática além de irreversíveis, são potencialmente
fatais devido ao sangramento de grande volume que pode
acarretar. Pancreatites agudas e crônicas são comuns nos
alcoólatras constituindo-se uma emergência à parte. A cirrose
hepática é um dos problemas mais falados dos alcoólatras; é um
problema irreversível e incompatível com a vida, levando o
alcoólatra lentamente à morte.
Em
relação ao Câncer os alcoólatras estão 10 vezes mais sujeitos
a qualquer forma de câncer que a população em geral.
Doses
elevadas por muito tempo provocam lesões no coração provocando
arritmias e outros problemas como trombos e derrames
conseqüentes. É relativamente comum a ocorrência de um
acidente vascular cerebral após a ingestão de grande
quantidade de bebida.
O
metabolismo do álcool afeta o balanço dos hormônios
reprodutivos no homem e na mulher. No homem o álcool contribui
para lesões testiculares o que prejudica a produção de
testosterona e a síntese de esperma. Já com cinco dias de uso
contínuo de 220 gramas de álcool os efeitos acima mencionados
começam a se manifestar e continua a se aprofundar com a
permanência do álcool. Essa deficiência contribui para a
feminilização dos homens, com o surgimento, por exemplo, de
ginecomastia (presença de mamas no homem).
Não há
evidências de que o alcoolismo afete diretamente os níveis dos
hormônios tireoideanos. Há pacientes alcoólatras que
apresentam alterações tanto para mais como para menos nos
níveis desses hormônios; presume-se que quando isso ocorre
seja de forma indireta por afetar outros sistemas do corpo.
Alterações são observadas em indivíduos que abusam de álcool,
mas essas alterações não provocam problemas detectáveis como
inibição do crescimento ou baixa estatura, pelo menos até o
momento.
O
Hormônio Antidiurético inibe a perda de água pelos rins, o
álcool inibe esse hormônio: como resultado a pessoa perde mais
água que o habitual, urina mais, o que pode levar a
desidratação.
7-
RECAÍDA
A taxa de recaída (voltar a beber depois de ter se tornado
dependente e parado com o uso de álcool) é muito alta:
aproximadamente 90% dos alcoólatras voltam a beber nos 4 anos
seguintes a interrupção, quando nenhum tratamento é feito. A
semelhança com outras formas de dependência como a nicotina,
tranqüilizantes, estimulantes, etc, levam a crer que um há um
mecanismo psicológico (cognitivo) em comum. O dependente que
consiga manter-se longe do primeiro gole terá mais chances de
contornar a recaída. O aspecto central da recaída é o chamado
"craving", palavra sem tradução para o português que significa
uma intensa vontade de voltar a consumir uma droga pelo prazer
que ela causa. O craving é a dependência psicológica
propriamente dita.
8- AS
MULHERES SÃO MAIS VULNERÁVEIS AO ÁLCOOL QUE OS HOMENS?
Aparentemente as mulheres são mais vulneráveis sim. Elas
atingem concentrações sanguíneas de álcool mais altas com as
mesmas doses quando comparadas aos homens. Parece também que
sob a mesma carga de álcool os órgãos das mulheres são mais
prejudicados do que o dos homens. A idade onde se encontra a
maior incidência de alcoolismo feminino está entre 26 e 34
anos, principalmente entre mulheres separadas. Se a separação
foi causa ou efeito do alcoolismo isto ainda não está claro.
As conseqüências do alcoolismo sobre os órgãos são diferentes
nas mulheres: elas estão mais sujeitas a cirrose hepática do
que o homem. Alguns estudos mostram que o consumo moderado de
álcool diário aumenta as chances de câncer de mama. Um drink
por dia não afeta a incidência desse câncer.
9- FILHOS
DE ALCOÓLATRAS
Milhões de crianças e adolescentes convivem com algum
parente alcoólatra no Brasil. As estatísticas mostram que eles
estarão mais sujeitos a problemas emocionais e psiquiátricos
do que a população desta faixa etária não exposta ao problema,
o que de forma alguma significa que todos eles serão afetados.
Na verdade 59% não desenvolvem nenhum problema. O primeiro
problema que podemos citar é a baixa auto-estima e auto-imagem
com conseqüentes repercussões negativas sobre o rendimento
escolar e demais áreas do funcionamento mental, inclusive em
testes de QI. Esses adolescentes e crianças tendem quando
examinados a subestimarem suas próprias capacidades e
qualidades. Outros problemas comuns em filhos e parentes de
alcoólatras são persistência em mentiras, roubo, conflitos e
brigas com colegas, vadiagem e problemas com o colégio.
10-O
ALCOOLISMO É GENÉTICO?
Esta pergunta bastante antiga vem sendo mais bem estudada
nas últimas décadas através de estudos com gêmeos, e será mais
aprofundada com o projeto genoma. A influência familiar do
alcoolismo é um fato já conhecido e aceito. O que se pergunta
é se o alcoolismo ocorre por influência do convívio ou por
influência genética. Para responder a essa pergunta a melhor
maneira é a verificação prática da influência, o que pode ser
feito estudando os filhos dos alcoólatras. Estudos como esses
podem investigar os gêmeos monozigóticos (idênticos) e os
dizigóticos. Constatou-se que quando um dos gêmeos idênticos
se torna alcoólatra o irmão se torna mais freqüentemente
alcoólatra do que os irmãos gêmeos não idênticos. Essa
constatação mostra a influência genética real, mas não explica
porque, mesmo tendo os "gens do alcoolismo," uma pessoa não se
torna alcoólatra. Os estudos familiares mostraram que a
participação genética é inegável, mas apenas parcial, os
demais fatores que levam ao desenvolvimento do alcoolismo não
estão suficientemente claros.
11-
PROBLEMAS PSIQUIÁTRICOS CAUSADOS PELO ALCOOLISMO
11.1-
ABUSO DE ÁLCOOL
A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra,
ou seja, dependente e faz uso continuado. O critério de abuso
existe para caracterizar as pessoas que eventualmente, mas
recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados
consumos de álcool em curtos períodos de tempo. Critérios:
para se fazer esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja
tendo problemas com álcool durante pelo menos 12 meses e ter
pelo menos uma das seguintes situações: a) prejuízos
significativos no trabalho, escola ou família como faltas ou
negligências nos cuidados com os filhos. b) exposição a
situações potencialmente perigosas como dirigir ou manipular
máquinas perigosas embriagado. c) problemas legais como
desacato a autoridades ou superiores. d) persistência no uso
de álcool apesar do apelo das pessoas próximas em que se
interrompa o uso.
11.2- DEPENDÊNCIA AO ÁLCOOL
Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é
necessário que o usuário venha tendo problemas decorrentes do
uso de álcool durante 12 meses seguidos e preencher pelo menos
3 dos seguintes critérios:
a)
apresentar tolerância ao álcool -- marcante aumento da
quantidade ingerida para produção do mesmo efeito obtido no
início ou marcante diminuição dos sintomas de embriaguez ou
outros resultantes do consumo de álcool apesar da continua
ingestão de álcool.
b) sinais
de abstinência -- após a interrupção do consumo de álcool a
pessoa passa a apresentar os seguintes sinais: sudorese
excessiva, aceleração do pulso (acima de 100), tremores nas
mãos, insônia, náuseas e vômitos, agitação psicomotora,
ansiedade, convulsões, alucinações táteis. A reversão desses
sinais com a reintrodução do álcool comprova a abstinência.
Apesar do álcool "tratar" a abstinência o tratamento de fato é
feito com
diazepam ou
clordiazepóxido dentre outras medicações.
c) o
dependente de álcool geralmente bebe mais do que planejava
beber.
d)
persistente desejo de voltar a beber ou incapacidade de
interromper o uso.
e)
emprego de muito tempo para obtenção de bebida ou
recuperando-se do efeito.
f)
persistência na bebida apesar dos problemas e prejuízos
gerados como perda do emprego e das relações familiares.
11.3- ABSTINÊNCIA ALCOÓLICA
A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e
sintomas observado nas pessoas que interrompem o uso de álcool
após longo e intenso uso. As formas mais leves de abstinência
se apresentam com tremores, aumento da sudorese, aceleração do
pulso, insônia, náuseas e vômitos, ansiedade depois de 6 a 48
horas desde a última bebida. A síndrome de abstinência leve
não precisa necessariamente surgir com todos esses sintomas,
na maioria das vezes, inclusive, limita-se aos tremores,
insônia e irritabilidade. A síndrome de abstinência torna-se
mais perigosa com o surgimento do delirium tremens. Nesse
estado o paciente apresenta confusão mental, alucinações,
convulsões. Geralmente começa dentro de 48 a 96 horas a partir
da ultima dose de bebida. Dada a potencial gravidade dos casos
é recomendável tratar preventivamente todos os pacientes
dependentes de álcool para se evitar que tais síndromes
surjam. Para se fazer o diagnóstico de abstinência, é
necessário que o paciente tenha pelo menos diminuído o volume
de ingestão alcoólica, ou seja, mesmo não interrompendo
completamente é possível surgir a abstinência. Alguns
pesquisadores afirmam que as abstinências tornam-se mais
graves na medida em que se repetem, ou seja, um dependente que
esteja passando pela quinta ou sexta abstinência estará
sofrendo os sintomas mencionados com mais intensidade, até que
surja um quadro convulsivo ou de delirium tremens. As
primeiras abstinências são menos intensas e perigosas.
O
Delirium Tremens é uma forma mais intensa e complicada da
abstinência. Delirium é um diagnóstico inespecífico em
psiquiatria que designa estado de confusão mental: a pessoa
não sabe onde está, em que dia está, não consegue prestar
atenção em nada, tem um comportamento desorganizado, sua fala
é desorganizada ou ininteligível, a noite pode ficar mais
agitado do que de dia. A abstinência e várias outras condições
médicas não relacionadas ao alcoolismo podem causar esse
problema. Como dentro do estado de delirium da abstinência
alcoólica são comuns os tremores intensos ou mesmo convulsão,
o nome ficou como Delirium Tremens. Um traço comum no delírio
tremens, mas nem sempre presente são as alucinações táteis e
visuais em que o paciente "vê" insetos ou animais asquerosos
próximos ou pelo seu corpo. Esse tipo de alucinação pode levar
o paciente a um estado de agitação violenta para tentar
livrar-se dos animais que o atacam. Pode ocorrer também uma
forma de alucinação induzida, por exemplo, o entrevistador
pergunta ao paciente se está vendo as formigas andando em cima
da mesa sem que nada exista e o paciente passa a ver os
insetos sugeridos. O Delirim Tremens é uma condição
potencialmente fatal, principalmente nos dias quentes e nos
pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre é devida ao
desequilíbrio hidro-eletrolítico do corpo.
11.4- INTOXICAÇÃO PELO ÁLCOOL
O estado de intoxicação é simplesmente a conhecida
embriaguez, que normalmente é obtida voluntariamente. No
estado de intoxicação a pessoa tem alteração da fala (fala
arrastada), descoordenação motora, instabilidade no andar,
nistagmo (ficar com olhos oscilando no plano horizontal como
se estivesse lendo muito rápido), prejuízos na memória e na
atenção, estupor ou coma nos casos mais extremos. Normalmente
junto a essas alterações neurológicas apresenta-se um
comportamento inadequado ou impróprio da pessoa que está
intoxicada. Uma pessoa muito embriagada geralmente encontra-se
nessa situação porque quis, uma leve intoxicação em alguém que
não está habituado é aceitável por inexperiência mas não no
caso de alguém que conhece seus limites.
Os
alcoólatras "pesados" em parte (10%) desenvolvem algum
problema grave de memória. Há dois desses tipos: a primeira é
a chamada Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) e a outra a
demência alcoólica. A SWK é caracterizada por descoordenação
motora, movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo)
e paralisia de certos músculos oculares, provocando algo
parecido ao estrabismo para quem antes não tinha nada. Além
desses sinais neurológicos o paciente pode estar em confusão
mental, ou se com a consciência clara, pode apresentar
prejuízos evidentes na memória recente (não consegue gravar o
que o examinador falou 5 minutos antes) e muitas vezes para
preencher as lacunas da memória o paciente inventa histórias,
a isto chamamos fabulações. Este quadro deve ser considerado
uma emergência, pois requer imediata reposição da vitamina B1(tiamina)
para evitar um agravamento do quadro. Os sintomas neurológicos
acima citados são rapidamente revertidos com a reposição da
tiamina, mas o déficit da memória pode se tornar permanente.
Quando isso acontece o paciente apesar de ter a mente clara e
várias outras funções mentais preservadas, torna-se uma pessoa
incapaz de manter suas funções sociais e pessoais. Muitos
autores referem-se a SWK como uma forma de demência, o que não
está errado, mas a demência é um quadro mais abrangente, por
isso preferimos o modelo americano que diferencia a SWK da
demência alcoólica.
A
Síndrome Demencial Alcoólica é semelhante a demência
propriamente dita como a de Alzheimer. No uso pesado e
prolongado do álcool, mesmo sem a síndrome de
Wernick-Korsakoff, o álcool pode provocar lesões difusas no
cérebro prejudicando além da memória a capacidade de
julgamento, de abstração de conceitos; a personalidade pode se
alterar, o comportamento como um todo fica prejudicado. A
pessoa torna-se incapaz de sustentar-se.
12-
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA FETAL
A Síndrome de Abstinência Fetal descrita pela primeira vez em
1973 era considerada inicialmente uma conseqüência da
desnutrição da mãe, posteriormente viu-se que os bebês das
mães alcoólatras apresentavam problemas distintos dos bebês
das mães desnutridas, além de outros problemas que esses não
tinham. Constatou-se assim que os recém-natos das mães
alcoólatras apresentam um problema específico, sendo então
denominada Síndrome de Abstinência Fetal (SAF). As
características da SAF são: baixo peso ao nascer, atraso no
crescimento e no desenvolvimento, anormalidades neurológicas,
prejuízos intelectuais, más formações do esqueleto e sistema
nervoso, comportamento perturbado, modificações na pálpebra
deixando os olhos mais abertos que o comum, lábio superior
fino e alongado. O retardo mental e a hiperatividade são os
problemas mais significativos da SAF. Mesmo não havendo
retardo é comum ainda o prejuízo no aprendizado, na atenção e
na memória; e também descoordenação motora, impulsividade,
problemas para falar e ouvir. O déficit de aprendizado pode
persistir até a idade adulta.
13- O
ESTRESSE PODE PROVOCAR ALCOOLISMO?
O estresse não determina o alcoolismo, mas estudos
mostraram que pessoas submetidas a situações estressantes para
as quais não encontra alternativa, tornam-se mais
freqüentemente alcoólatras. O álcool possui efeito relaxante e
tranqüilizante semelhante ao dos ansiolíticos. O problema é
que o álcool tem muito mais efeitos colaterais que os
ansiolíticos. Numa situação dessas o uso de ansiolíticos
poderia prevenir o surgimento de alcoolismo. Na verdade o que
se encontra é a vontade de abolir as preocupações com a
embriaguez e isso os ansiolíticos não proporcionam, ou o fazem
em doses que levariam ao sono. O homem quando submetido a
estresse tende a procurar não a tranqüilidade, mas o prazer.
Daí que a vida sexualmente promíscua muitas vezes é
acompanhada de abuso de álcool e drogas. O fato de uma pessoa
não encontrar uma solução para seu estresse não significa que
a solução não exista. A Logoterapia, por exemplo, ajuda o
paciente a encontrar um significado na sua angústia. Não
suprime a fonte da angústia, mas a torna mais suportável.
Quando uma dor adquire um sentido, torna-se possível
contorná-la, continuar a vida com um sorriso, desde que ela
não seja incapacitante. Sob esse aspecto a logoterapia pode
ajudar a vencer o alcoolismo nas suas etapas iniciais, quando
ainda não surgiu dependência química. Uma situação de estresse
real que passamos atualmente é o desemprego. Este problema
social é de difícil resolução e geralmente faz com que as
pessoas se ajustem às custas de elevação da tensão emocional
prolongada, que é a mesma coisa de estresse.
14-
ALCOOLISMO E DESNUTRIÇÃO
As principais funções do processo alimentar são a
manutenção da estrutura corporal e das necessidades
energéticas diárias. Uma alimentação equilibrada proporciona o
que precisamos. O álcool é uma substância bastante energética,
em épocas passadas, chegou a ser usado em pacientes após
cirurgias para uma reposição mais rápida da energia perdida na
cirurgia. Apesar de altamente calórico o álcool não é
armazenável. Não fossem os efeitos prejudiciais ao longo do
tempo, o álcool seria um excelente meio de perder peso. Para
que se possa entender como o álcool fornece energia e ao mesmo
tempo não é armazenável é necessário entender seu mecanismo
metabólico o que não será abordado aqui. Pelo fato do usuário
de álcool possuir suas necessidades energéticas supridas ele
não sente muita ou nenhuma fome, assim não há vontade de
comer. A diminuição da oferta das substâncias (proteínas,
açucares, gorduras, vitaminas e minerais) usadas na constante
reconstrução dos tecidos, não interrompe o processo de
destruição natural das células que estão sendo substituídas
constantemente. Assim o corpo do alcoólatra começa a se
consumir. Esse processo leva a desnutrição.
15-
TESTES NEUROPSICOLÓGICOS
Os pacientes alcoólatras confirmados ao se submeterem a testes
de inteligência apresentam 45 a 70% normais. Contudo, esses
mesmos ao fazerem testes mais específicos em determinadas
áreas do funcionamento mental, como a capacidade de resolver
problemas, pensamento abstrato, desempenho psicomotor, memória
e capacidade de lidar com novidades, costumam apresentar
problemas. Os testes normalmente representam atividades
desempenhadas diariamente e não situações especiais ou raras.
Este resultado mostra que os testes superficiais deixam passar
comprometimentos significativos. Os testes neuropsicológicos
são mais adequados e precisos na medição de capacidades
mentais comprometidas pelo álcool. Tem sido observado também
que no cérebro dos alcoólatras ocorrem modificações na
estrutura apresentada nos exames de tomografia ou ressonância,
além de comprometimento na vascularização e nos padrões
elétricos. Como esses achados são recentes, não houve tempo
para se estudar a relação entre essas alterações laboratoriais
e os prejuízos psicológicos que eles representam.
16-
EFEITOS DO ÁLCOOL SOBRE O CÉREBRO
Os resultados de exames pos-mortem (necropsia) mostram que
pacientes com história de consumo prolongado e excessivo de
álcool têm o cérebro menor, mais leve e encolhido do que o
cérebro de pessoas sem história de alcoolismo. Esses achados
continuam sendo confirmados pelos exames de imagem como a
tomografia, a ressonância magnética e a tomografia por emissão
de fótons. O dano físico direto do álcool sobre o cérebro é um
fato já inquestionavelmente confirmado. A parte do cérebro
mais afetada costumam ser o córtex pré-frontal, a região
responsável pelas funções intelectuais superiores como o
raciocínio, capacidade de abstração de conceitos e lógica. Os
mesmos estudos que investigam as imagens do cérebro
identificam uma correspondência linear entre a quantidade de
álcool consumida ao longo do tempo e a extensão do dano
cortical. Quanto mais álcool mais dano. Depois do córtex,
regiões profundas seguem na lista de mais acometidas pelo
álcool: as áreas envolvidas com a memória e o cerebelo que é a
parte responsável pela coordenação motora.
17- O
PROCESSO METABÓLICO DO ÁLCOOL
Quando o álcool é consumido passa pelo estômago e começa a ser
absorvido no intestino caindo na corrente sanguínea. Ao passar
pelo fígado começa a ser metabolizado, ou seja, a ser
transformado em substâncias diferentes do álcool e que não
possuem os seus efeitos. A primeira substancia formada pelo
álcool chama-se acetaldeído, que é depois convertido em
acetado por outras enzimas, essas substâncias assim com o
álcool excedente são eliminados pelos rins; as que
eventualmente voltam ao fígado acabam sendo transformadas em
água e gás carbônico expelido pelos pulmões. A passagem do
intestino para o sangue se dá de acordo com a velocidade com
que o álcool é ingerido, já o processo de degradação do álcool
pelo fígado obedece a um ritmo fixo podendo ser ultrapassado
pela quantidade consumida. Quando isso acontece temos a
intoxicação pelo álcool, o estado de embriaguez. Isto
significa que há muito álcool circulando e agindo sobre o
sistema nervoso além dos outros órgãos. Como a quantidade de
enzimas é regulável, um indivíduo com uso contínuo de álcool
acima das necessidades estará produzindo mais enzimas
metabolizadoras do álcool, tornando-se assim mais "resistente"
ao álcool. A presença de alimentos no intestino lentifica a
absorção do álcool. Quanto mais gordura houver no intestino
mais lenta se tornará a absorção do álcool. Apesar do álcool
ser altamente calórico (um grama de álcool tem 7,1 calorias; o
açúcar tem 4,5), ele não fornece material estocável; assim a
energia oferecida pelo álcool é utilizada enquanto ele circula
ou é perdida. A famosa "barriga de chopp" é dada mais pelos
aperitivos que acompanham a bebida.
18-
CONSEQUÊNCIAS CORPORAIS DO ALCOOLISMO
À medida que o alcoolismo avança, as repercussões sobre o
corpo se agravam. Os órgãos mais atingidos são: o cérebro,
trato digestivo, coração, músculos, sangue, glândulas
hormonais. Como o álcool dissolve o mucus do trato digestivo,
provoca irritação na camada externa de revestimento que pode
acabar provocando sangramentos. A maioria dos casos de
pancreatite aguda (75%) são provocados por alcoolismo. As
afecções sobre o fígado podem ir de uma simples degeneração
gordurosa à cirrose que é um processo irreversível e
incompatível com a vida. O desenvolvimento de patologias
cardíacas pode levar 10 anos por abusos de álcool e ao
contrário da cirrose pode ser revertida com a interrupção do
vício. Os alcoólatras tornam-se mais susceptíveis a infecções
porque suas células de defesas são em menor número. O álcool
interfere diretamente com a função sexual masculina, com
infertilidade por atrofia das células produtoras de
testosterona, e diminuição dos hormônios masculinos. O
predomínio dos hormônios femininos nos alcoólatras do sexo
masculino leva ao surgimento de características físicas
femininas como o aumento da mama (ginecomastia). O álcool pode
afetar o desejo sexual e levar a impotência por danos causados
nos nervos ligados a ereção. Nas mulheres o álcool pode afetar
a produção hormonal feminina, levando diminuição da
menstruação, infertilidade e afetando as características
sexuais femininas.