Artigo Gerencial
A utilização da Contabilidade
Gerencial e seus métodos, como ferramenta importante na
geração de informações que auxiliem o processo decisório,
ultrapassaram os limites das organizações manufatureiras e
agora vemos sua aplicação nos mais diversos setores da
economia, desde prestadoras de serviços, como bancos e
hospitais, até entidades sem fins lucrativos, como
organizações não-governamentais.
Os gestores e contadores das
organizações governamentais ou sem fins lucrativos têm muito
em comum com suas contrapartes em organizações com fins
lucrativos. Há dinheiro a ser ganho e gasto. Há orçamentos a
ser preparados e sistemas de controle a ser projetados e
implementados. Há uma obrigação de usar os recursos
sabiamente. Se usada de maneira inteligente, a contabilidade
contribui para a eficiência das operações e auxilia as
organizações governamentais a atingir seus objetivos.
No Brasil observa-se já a algum tempo a
preocupação dos gestores dos diversos níveis da
administração pública
com o aspecto do controle.
Isso ficou ainda mais imperativo com a edição da
Constituição Federal de 1988, embora os aspectos da
legalidade e da formalidade ainda permaneçam como focos
culturalmente importantes por parte dos órgãos de controle
interno e externo, constatam-se diversas experiências
inovadoras em que os sistemas tradicionais estão sendo
gradativamente abandonados e, conseqüentemente, a
contabilidade e a auditoria passam a estar mais voltadas
para aspectos gerenciais.
O controle interno de cada um
dos Poderes tem, entre outras, a finalidade de proteger e
salvaguardar os bens e outros ativos contra fraudes, perdas
ou erros não intencionais, além de assegurar o grau de
confiabilidade das informações contábeis e financeiras. Ao
tratar do controle interno, as normas constitucionais ainda
obrigam que deverá prestar contas qualquer pessoa física ou
jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde,
gerencie, ou administre dinheiros, bens e valores públicos
ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta,
assuma obrigações de natureza pecuniária.
O controle interno-integrado
constitui o controle do Estado como pessoa jurídica de
direito público, ou seja, da entidade e o conjunto dos três
Poderes, sendo responsável pela coordenação das atividades
individuais de controle de cada um dos Poderes e atuando de
modo independente para conferir pleno sentido a sua mais
nobre função: a proteção permanente e contínua do patrimônio
público. Desse modo, o controle interno constitui uma função
permanente que não deve sofrer influências episódicas ou
sazonais, resultado dos planos ocasionais e temporais dos
governos.
Além da contribuição para o alcance dos
objetivos da economicidade, eficiência e eficácia das ações
de governo, os Sistemas de Controle Gerencial passaram a ser
um instrumento fundamental depois da chamada Lei de
Responsabilidade Fiscal. Lei essa que têm como princípios: o
planejamento, a trans-parência, o controle e a
responsabilização, que, em seu conjunto, são orientadores
para a implantação do modelo de informações gerenciais, pois
o plane-jamento e o controle são instrumentos fundamentais
para a geração de informações úteis não só para o
atendimento da Lei, como também para auxiliar o processo
decisório e conse-qüentemente melhorar os demais prin-cípios:
a transparência e a respon-sabilização.
Em decorrência dessa
realidade, este artigo tem como objetivo apresentar uma
breve revisão da literatura sobre o Sistema de Controle
Gerencial e em especial levantar os aspectos aplicáveis em
entidades governamentais.
2. SISTEMAS DE CONTROLE
GERENCIAL
Segundo a
definição de Horngren, Sundem e Stratton (2004, p. 300) o
“Sistema de controle gerencial é uma integração lógica das
técnicas para reunir e usar as informações a fim de tomar
decisões de planejamento e controle, motivar o comportamento
de empregados e avaliar o desempenho”.
Para a American
Accouting Association citada pelo professor Peixe (2002, p.
52) “o sistema de planejamento e controle gerencial consiste
de políticas, procedimentos, métodos e práticas usadas pelo
administrador de uma organização para atingir os objetivos
organizacionais”.
Portanto, podemos
inferir da definição dos autores os objetivos fundamentais
da utilização de um sistema de controle gerencial, quais
sejam:
-
Coletar informações
relevantes para a tomada de decisões;
-
Assegurar que os objetivos
orga-nizacionais sejam atingidos atra-vés do controle;
-
Comunicar os resultados
das ações a toda a organização, mo-tivando os
colaboradores;
-
Avaliar o desempenho da
orga-nização.
2.1 METAS
ORGANIZACIONAIS
O primeiro e mais
básico componente de um sistema de controle gerencial são as
metas da organização. Ao estabelecer as metas, a alta
direção da organização está estabelecendo a direção a ser
seguida, estruturando como a organização se posicionará no
mercado. Estabelecidas as metas da organização, o próximo
passo será a definição dos processos críticos necessários
para alcançá-las, desenvolvimento das medi-das de desempenho
e o monitoramento, para que os gestores possam mensurar os
resultados.
Nas entidades com fins
econô-micos as metas visam a maximização do lucro, pois é
através do lucro que os proprietários têm um retorno sobre o
investimento total aplicado na atividade que desenvolvem. Já
nas entidades sem fins lucrativos, quais seriam os objetivos
das metas? Na definição de Anthony e Herzlinger, citados
pelo professor Peixe (2002, p. 70) “(...), o sucesso de uma
organização sem fins lucrativos deveria ser mensurado pelo
quanto ela contribui para o bem-estar público”. Embora seja
de difícil mensuração, o desempenho da organização
governamental no sentido da contribuição à população, pode
ser medido parcialmente pela evolução dos indicadores
sociais, tais como: esco-laridade, mortalidade infantil,
diminuição do déficit habitacional, etc.
Estabelecidas as
metas, os gestores devem definir as Medidas de Desempenho,
que nem sempre são expressas em termos financeiros, tais
como orçamentos de operações, alvos de lucro ou retorno
exigido sobre o investimento. Um sistema de controle
gerencial bem projetado desenvolve e relata as medidas de
desempenho financeiras e não-financeiras. Aliás, tais
medidas não-financeiras podem ser mais oportunas e mais
proximamente afetadas por empregados nos níveis mais baixos
da organização, onde o produto é fabricado ou o serviço é
prestado.
As boas medidas de
desempenho deverão: relatar as metas organizacionais;
equilibrar os interesses de curto e longo prazos; ser
afetadas por ações dos gestores e dos empregados; ser
facilmente entendidas pelos empregados; ser utilizadas na
avaliação e recompensa de gestores e empregados e ser
razoa-velmente objetivas e fáceis de mensurar.
2.2 IDENTIFICANDO CENTROS
(ÁREAS) DE RESPONSABILIDADES
Para projetar um
sistema de controle gerencial que satisfaça as necessidades
da organização, os gestores precisam identificar os centros
(áreas) de responsabilidade, desenvolver medidas de
desempenho, estabelecer uma estrutura de monitoramento e
relatório, ponderar custos e benefícios e fornecer motivação
para alcançar a congruência de metas e o esforço gerencial.
Um centro (área) de
respon-sabilidade envolve um conjunto de ativi-dades e
recursos designados ao gestor, a
um grupo de gestores ou a
outros colaboradores. Um conjunto de máquinas e atividades
de obras, por exemplo, pode ser um cento de responsabilidade
para um gestor de uma secretaria de obras públicas. E em
sentido mais amplo, a entidade pública pode ser um cento de
responsabilidade para o administrador público.
Um sistema de
controle gerencial dá a cada gestor a responsabilidade por
um grupo de atividades e ações; assim, monitora e relata os
resultados das atividades e a influência do gestor naqueles
resultados. Tal sistema exerce atração inata para a maioria
dos gestores de alto nível, porque os ajuda a delegar a
tomada de decisão que herdam. Assim, os projetistas de
sistema aplicam a contabilidade por responsabilidade para
identificar quais partes da organização têm responsabilidade
primária para cada ação, bem como desenvolvem medidas de
desempenho e alvos e projetam relatórios dessas medidas por
centro de res-ponsabilidade. Os centros de
responsa-bilidades geralmente têm metas múltiplas e ações
que o sistema de controle de gestão monitora. Os centos de
responsa-bilidade, via de regra, são classificados de acordo
com suas responsabilidades financeiras, como centos de
custos, centros de resultados (lucro) ou centros de
investimentos.
Em entidades
públicas, como já foi exemplificado acima, os órgãos,
secretarias ou ainda departamentos podem ser considerados
centros de res-ponsabilidades.
2.3 MOTIVANDO OS
COLABORA-DORES DA ORGANIZAÇÃO
Para Horngren,
Sundem e Stratton (2004, p. 307) “Para alcançar o máximo
benefício a um mínimo custo, um sistema de controle
gerencial deve promover a congruência de metas e o esforço
gerencial”. A congruência de metas depende fundamentalmente
da partici-pação dos colaboradores, são eles que,
assimilando os objetivos da organização e tornando-os seus
também, tomam decisões que ajudam a satisfazer as metas
gerais da organização. O esforço gerencial é definido como o
grau da ação em direção ao atingimento das metas
estabelecidas. Para os autores supra citados (2004, p. 307)
“O esforço, aqui, significa não apenas trabalhar mais
rápido, mas também trabalhar melhor”.
A congruência de metas e o
esforço para alcançá-las em relação aos colaboradores deve
estar ligada a um sistema de recompensa. A escolha de
recompensas pertence claramente a um sistema geral de
controle gerencial, podendo ser monetárias e não-monetárias.
Os exemplos incluem aumento de salário, bônus, promoção,
elogios, auto-satis-fação, etc.
A motivação enfoca
diversas va-riáveis que energizam o comportamento humano.
Dentro deste contexto, as várias teorias discutidas por
diversos autores tratam o que efetivamente motiva as
pessoas.
Bowditch e Buono
citados pelo professor Peixe (2002, p. 55) citam David
McClellan que identificara três necessidades básicas que as
pessoas desenvolvem: “necessidades por realiza-ção, poder e
afiliação”. Podemos inferir que alguns indivíduos serão mais
motivados pela necessidade de afiliação (necessidades
sociais), enquanto outros serão motivados pela necessidade
de atingir diversas metas ou conquistar certo grau de poder
ou influencia sobre outras pessoas. Podem-se desenvolver de
pro-gramas de treinamentos para aumentar a motivação por
realização, em gerentes e subordinados, por exemplo.
Bowditch e Buono
citados pelo professor Peixe (2002, p. 59) apresentam um
modelo básico do processo de motivação, a chamada teoria das
expectativas, ou VIE:
“O modelo de motivação é uma
função de três componentes: (1) uma expectativa de
esforço-desempenho, no sentido de que um esforço maior trará
um bom desempenho (expectativa); (2) uma percepção de
desempenho-resultados, no sentido de que um bom desempenho
trará certos resultado ou recompensa (instru-mentalidade); e
(3) o valor ou atração de uma certa recompensa ou resultado
para a pessoa (valência)”.
Pode-se concluir que o indivíduo,
para se motivar, precisa dar valor ao resultado ou
recompensa, precisa ainda acreditar no esforço adicional,
que levará a um melhor desempenho, melhores resultados ou
recompensas maiores. Por exemplo, se o funcionário estiver
preparando um relatório e não tiver certeza quanto ao tipo
de relatório que a administração quer, ou perceber que tal
relatório não tem a importância devida,
pode classificar seu trabalho
como perda de tempo. Visto que o relatório poderá tomar mais
uma hora de trabalho, podendo interferir com as obrigações
familiares as expectativas de uma discordância conjugal
poderiam sobre-pujar a recompensa potencial, princi-palmente
se a definição de um relatório “útil” não estiver clara.
Embora, o individuo tivesse que trabalhar duro produzindo um
relatório de alta qualidade, esse relatório ainda poderia
não ser útil para a administração (instrumentalidade baixa).
Considerando-se
que o nível do funcionário está baixo, cada um do três
componentes do modelo poderia ser analisado, numa tentativa
de se identificar o(s) fator(es) causador(es).
Percebe-se que as
pessoas serão motivadas a produzir quando percebem que seus
esforços a levarão a um desempenho bem-sucedido e à obtenção
das recompensas almejadas. Os esforços da gerência ou
administrador de pessoas de um setor, no sentido de motivar
seus colaboradores, devem se concentrar em esclarecer o
“caminho” de um subordinado para uma meta ou objetivo
desejado.
3. A CONTROLADORIA NAS
ENTIDADES PÚBLICAS
O Sistema de
controle interno das entidades públicas deve ficar a cargo
de um órgão independente e autônomo, com seus titulares se
reportando diretamente ao gestor público. Esse órgão é a
Controladoria. É necessário esclarecer que a criação de uma
Controladoria no setor público não difere da empresa
privada, ambas mantém os princípios fundamentais do controle
e geração de informações para tomada de decisões.
Na implantação da
Controladoria não pode deixar de ter, entre outras, as
seguintes atribuições:
-
A prestação de contas ao
Poder Legislativo, por meio do Tribunal de Contas;
-
Servir, por meio de
documentos e relatórios, de instrumento de auxilio no
processo decisório;
Produzir avanços no uso dos sistemas
tradicionais de controle orçamentário, financeiro e
patri-monial, estabelecendo um elenco de indicadores
financeiros, econô-micos
e sociais que permitam a melhoria do processo decisório;
Tendo estas e muitas outras
atri-buições, a Controladoria estará efetiva-mente
melhorando os controles gerenciais para que o Gestor Público
atenda ple-namente aos programas propostos na aprovação do
orçamento.
Como responsáveis pelo Sistema
de Controle Gerencial os Controllers devem ter
autonomia e independência, veri-ficando o grau de adesão dos
agentes públicos às políticas determinadas, medi-ante
análise do desempenho da gestão administrativa e dos
controles existentes.
4. ATENDIMENTO AOS
PRINCÍPI-OS DA LEI DE RESPONSABILIDA-DE
FISCAL
A Lei de
Responsabilidade Fiscal está apoiada em quatro eixos: o
plane-jamento, a transparência, o controle e a
responsabilização, que, em seu conjunto, são orientadores
para a implantação do modelo de informações gerenciais, pois
o planejamento e o controle são instru-mentos fundamentais
para a geração de informações úteis não só para o
atendimento da Lei, como também para auxiliar o processo
decisório e conse-qüentemente melhorar os demais eixos: a
transparência e a responsabilização.
Transparência essa
que, segundo Silva (2002, p. 217), será “... concretizada
com a divulgação ampla, inclusive via Internet, (...),
permitindo identificar as receitas e despesas e a
responsabilização no caso de descumprimento das regras e
princípios estabelecidos”.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A muito se
fala em uma gestão mais profissional da coisa pública, mais
responsável, mais transparente, enfim. A mal versação dos
recursos públicos tem levado a sociedade, por meio de seus
representantes, a buscar meios de controle sobre a
administração pública, e, a criação da Lei de
Responsabilidade Fiscal veio para responder esse anseio,
punindo o Gestor que se “descuidar” do equilíbrio financeiro
da entidade pública.
Em paralelo à imposição
legal, os gestores públicos vêm percebendo a importância
das ferramentas admi-nistrativas das organizações
privadas, que, com as devidas adaptações, podem ser
implantadas com êxito nas organizações públicas. E uma
delas é a substituição dos tradicionais sistemas de
controle das entidades públicas, que serviam apenas para
cumprir obrigações legais, pelos sistemas de controle
gerencial, que torna-se uma ferramenta poderosa no
controle dos gastos e geração de informações úteis para
tomada de decisões.
Podemos
afirmar que a medida que os gestores públicos tomem
conhecimento da importância de um sistema de controle
gerencial para garantir o cumprimento de metas,
oti-mização no uso dos recursos, trans-parência nos
gastos, etc, sua implantação será mais ampla, melhorando
muito a eficiência da administração pública.
RESUMO
O artigo apresenta os
conceitos de um sistema de controle gerencial e possíveis
aplicações desses sistemas em entidades governamentais. São
comen-tados os diversos aspectos de um sistema de controle
gerencial, sua importância para a administração de recursos
e tomada de decisões, sempre enfocando a utilidade imperiosa
de um sistema como esse também em entidades sem fins
lucrativos.
Palavras-chave:Controle
Interno, Metas Organizacionais, Controladoria.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
-
Horngren, Charles T.;
Sundem, Gary L.; Stratton Willian O.;
Contabilidade Gerencial. São Paulo: Prentice
Hall, 2004.
-
Peixe, Blênio César
Severo; Finanças Públicas: Controladoria Governamental.
Curitiba: Juruá, 2002.
·
Silva,
Lino Martins da; Contabilidade Governamental: um enfoque
administrativo. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2002.