Cinema
Dois desejos profundos e
contraditórios se reconciliam no espírito do espectador de
cinema: viver grandes aventuras no espaço e no tempo e,
simultaneamente, aconchegar-se num ambiente acolhedor, a
salvo de todo o perigo externo, em silêncio e na
obscuridade. Imobilizado na poltrona de uma sala de
espetáculos, o homem do século XX viveu apaixonados romances
e travou guerras sem conta.
Cinema, ou cinematografia,
é a arte e a técnica de projetar imagens animadas sobre uma
tela, por meio do projetor. Para isso, os momentos
sucessivos que compõem um movimento são registrados por uma
máquina filmadora em filme fotográfico, fita transparente e
flexível revestida de emulsão fotográfica. Revelado o filme,
a projeção dos fotogramas em seqüência mais rápida do que
emprega o olho humano para captar as imagens faz com que a
persistência destas na retina provoque sua fusão e produza a
ilusão do movimento contínuo.
História
A história do cinema é
curta se comparada à de outras artes, mas em seu primeiro
centenário, comemorado em 1995, já produzira várias
obras-primas. Entre os inventos precursores do cinema cabe
citar as sombras chinesas, silhuetas projetadas sobre uma
parede ou tela, surgidas na China cinco mil anos antes de
Cristo e difundidas em Java e na Índia. Outra antecessora
foi a lanterna mágica, caixa dotada de uma fonte de luz e
lentes que enviava a uma tela imagens ampliadas, inventada
pelo alemão Athanasius Kircher no século XVII.
A invenção da fotografia no
século XIX pelos franceses Joseph-Nicéphore Niépce e
Louis-Jacques Daguerre abriu caminho para o espetáculo do
cinema, que também deve sua existência às pesquisas do
inglês Peter Mark Roget e do belga Joseph-Antoine Plateau
sobre a persistência da imagem na retina após ter sido
vista.
Em 1833, o britânico W. G.
Horner idealizou o zootrópio, jogo baseado na sucessão
circular de imagens. Em 1877, o francês Émile Reynaud criou
o teatro óptico, combinação de lanterna mágica e espelhos
para projetar filmes de desenhos numa tela. Já então
Eadweard Muybridge, nos Estados Unidos, experimentava o
zoopraxinoscópio, decompondo em fotogramas corridas de
cavalos. Por fim, outro americano, o prolífico inventor
Thomas Alva Edison, desenvolvia, com o auxílio do escocês
William Kennedy Dickson, o filme de celulóide e um aparelho
para a visão individual de filmes chamado cinetoscópio.
Os irmãos Louis e Auguste
Lumière, franceses, conseguiram projetar imagens ampliadas
numa tela graças ao cinematógrafo, invento equipado com um
mecanismo de arrasto para a película. Na apresentação
pública de 28 de dezembro de 1895 no Grand Café do boulevard
des Capucines, em Paris, o público viu, pela primeira vez,
filmes como La Sortie des ouvriers de l'usine Lumière (A
saída dos operários da fábrica Lumière) e L'Arrivée d'un
train en gare (Chegada de um trem à estação), breves
testemunhos da vida cotidiana.
Primórdios do filme mudo.
Considerado o criador do espetáculo cinematográfico, o
francês Georges Méliès foi o primeiro a encaminhar o novo
invento no rumo da fantasia, transformando a fotografia
animada, de divertimento que era, em meio de expressão
artística. Méliès utilizou cenários e efeitos especiais em
todos seus filmes, até em cinejornais, que reconstituíam
eventos importantes com maquetes e truques ópticos. Dos
trabalhos que deixou marcaram época Le Cuirassé Maine (1898;
O encouraçado Maine), La Caverne maudite (1898; A caverna
maldita), Cendrillon (1899; A Gata Borralheira), Le Petit
Chaperon Rouge (1901; Chapeuzinho Vermelho), Voyage dans la
Lune (1902; Viagem à Lua), baseado em romance de Júlio Verne
e obra-prima; Le Royaume des fées (1903; O reino das fadas);
Quatre cents farces du diable (1906; Quatrocentas farsas do
diabo), com cinqüenta truques, e Le Tunnel sous la Manche
(1907; O túnel do canal da Mancha).
Os pioneiros ingleses, como
James Williamson e George Albert Smith, formaram a chamada
escola de Brighton, dedicada ao filme documental e primeira
a utilizar rudimentos de montagem. Na França, Charles Pathé
criou a primeira grande indústria de filmes; do
curta-metragem passou, no grande estúdio construído em
Vincennes com seu sócio Ferdinand Zecca, a realizar filmes
longos em que substituíram a fantasia pelo realismo. O maior
concorrente de Pathé foi Louis Gaumont, que também criou uma
produtora e montou uma fábrica de equipamentos
cinematográficos. E lançou a primeira mulher cineasta, Alice
Guy.
Ainda na França foram
feitas as primeiras comédias, e nelas se combinavam
personagens divertidos com perseguições. O comediante mais
popular da época foi Max Linder, criador de um tipo
refinado, elegante e melancólico que antecedeu, de certo
modo, o Carlitos de Chaplin. Também ali foram produzidos,
antes da primeira guerra mundial (1914-1918) e durante o
conflito, os primeiros filmes de aventuras em episódios
quinzenais que atraíam o público. Os seriados mais famosos
foram Fantômas (1913-1914) e Judex (1917), ambos de Louis
Feuillade. A intenção de conquistar platéias mais cultas
levou ao film d'art, teatro filmado com intérpretes da
Comédie Française. O marco inicial dessa tendência foi
L'Assassinat du duc de Guise (1908; O assassinato do duque
de Guise), episódio histórico encenado com luxo e
grandiloqüência, mas demasiado estático.
Hollywood. Em 1896, o
cinema substituía o cinetoscópio e filmes curtos de
dançarinas, atores de vaudeville, desfiles e trens encheram
as telas americanas. Surgiram as produções pioneiras de
Edison e das companhias Biograph e Vitagraph. Edison,
ambicionando dominar o mercado, travou com seus concorrentes
uma disputa por patentes industriais.
Nova York já concentrava a
produção cinematográfica em 1907, época em que Edwin S.
Porter se firmara como diretor de estatura internacional.
Dirigiu The Great Train Robbery (1903; O grande roubo do
trem), considerado modelo dos filmes de ação e, em
particular, do western. Seu seguidor foi David Wark
Griffith, que começou como ator num filme do próprio Porter,
Rescued from an Eagle's Nest (1907; Salvo de um ninho de
águia). Passando à direção, em 1908, com The Adventures of
Dollie, Griffith ajudou a salvar a Biograph de graves
problemas financeiros e até 1911 realizou 326 filmes de um e
dois rolos.
Descobridor de grandes
talentos como as atrizes Mary Pickford e Lillian Gish,
Griffith inovou a linguagem cinematográfica com elementos
como o flash-back, os grandes planos e as ações paralelas,
consagrados em The Birth of a Nation (1915; O nascimento de
uma nação) e Intolerance (1916), epopéias que conquistaram a
admiração do público e da crítica. Ao lado de Griffith é
preciso destacar Thomas H. Ince, outro grande inovador
estético e diretor de filmes de faroeste que já continham
todos os tópicos do gênero num estilo épico e dramático.
Quando o negócio prosperou,
acirrou-se a luta entre as grandes produtoras e
distribuidoras pelo controle do mercado. Esse fato, aliado
ao clima rigoroso da região atlântica, passou a dificultar
as filmagens e levou os industriais do cinema a instalarem
seus estúdios em Hollywood, um subúrbio de Los Angeles. Ali
passaram a trabalhar grandes produtores como William Fox,
Jesse Lasky e Adolph Zukor, fundadores da Famous Players,
que, em 1927, converteu-se na Paramount Pictures, e Samuel
Goldwyn.
As fábricas de sonho em que
se transformaram as corporações do cinema descobriam ou
inventavam astros e estrelas que garantiram o sucesso de
suas produções, entre os quais nomes como Gloria Swanson,
Dustin Farnum, Mabel Normand, Theda Bara, Roscoe "Fatty"
Arbuckle (Chico Bóia) e Mary Pickford, que, em 1919, fundou,
com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e Griffith, a
produtora United Artists.
O gênio do cinema
silencioso foi o inglês Charles Chaplin, que criou o
inolvidável personagem de Carlitos, mescla de humor, poesia,
ternura e crítica social. The Kid (1921; O garoto), The Gold
Rush (1925; Em busca do ouro) e The Circus (1928; O circo)
foram os seus filmes longos mais célebres do período. Depois
da primeira guerra mundial, Hollywood superou em definitivo
franceses, italianos, escandinavos e alemães, consolidando
sua indústria cinematográfica e tornando conhecidos em todo
o mundo comediantes como Buster Keaton ou Oliver Hardy e
Stan Laurel ("O gordo e o magro"), bem como galãs do porte
de Rodolfo Valentino, Wallace Reid e Richard Barthelmess e
as atrizes Norma e Constance Talmadge, Ina Claire e Alla
Nazimova.
Realistas e expressionistas
alemães. Em 1917 foi criada a UFA, potente produtora que
encabeçou a indústria cinematográfica alemã quando florescia
o expressionismo na pintura e no teatro que então se faziam
no país. O expressionismo, corrente estética que interpreta
subjetivamente a realidade, recorre à distorção de rostos e
ambientes, aos temas sombrios e ao monumentalismo dos
cenários. Iniciara-se em 1914 com Der Golem (O autômato), de
Paul Wegener, inspirado numa lenda judaica, e culminou com
Das Kabinet des Dr. Caligari (1919; O gabinete do Dr.
Caligari), de Robert Wiene, que influenciou artistas do
mundo inteiro com seu esteticismo delirante. Outras obras
desse movimento foram Schatten (1923; Sombras), de Arthur
Robison, e o alucinante Das Wachsfigurenkabinett (1924; O
gabinete das figuras de cera), de Paul Leni.
Convictos de que o
expressionismo era apenas uma forma teatral aplicada ao
filme, F. W. Murnau e Fritz Lang optaram por novas
vertentes, como a do Kammerspielfilm, ou realismo
psicológico, e o realismo social. Murnau estreou com o
magistral Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922;
Nosferatu, o vampiro) e destacou-se com o comovente Der
letzte Mann (1924; O último dos homens). Fritz Lang,
prolífico, realizou o clássico Die Nibelungen (Os
Nibelungos), lenda germânica em duas partes; Siegfrieds Tod
(1923; A morte de Siegfried) e Kriemhildes Rache (1924; A
vingança de Kremilde); mas notabilizou-se com Metropolis
(1926) e Spione (1927; Os espiões). Ambos emigraram para os
Estados Unidos e fizeram carreira em Hollywood.
Outro grande cineasta,
Georg Wilhelm Pabst, trocou o expressionismo pelo realismo
social, em obras magníficas como Die freudlose Gasse (1925;
A rua das lágrimas), Die Büchse der Pandora (1928; A caixa
de Pandora) e Die Dreigroschenoper (1931; A ópera dos três
vinténs).
Vanguarda francesa. No fim
da primeira guerra mundial ocorreu na França uma renovação
do cinema que coincidiu com os movimentos dadaísta e
surrealista. Um grupo liderado pelo crítico e cineasta Louis
Delluc quis fazer um cinema intelectualizado mas autônomo,
inspirado na pintura impressionista. Nasceram daí obras como
Fièvre (1921; Febre), do próprio Delluc, La Roue (1922; A
roda), de Abel Gance, e Coeur fidèle (1923; Coração fiel),
de Jean Epstein. O dadaísmo chegou à tela com Entracte
(1924; Entreato), de René Clair, que estreara no mesmo ano
com Paris qui dort (Paris que dorme), no qual um cientista
louco imobiliza a cidade por meio de um raio misterioso.
Entre os nomes desse grupo, um dos mais brilhantes é o de
Germaine Dulac, que se destacou com La Souriante Mme. Beudet
(1926) e La Coquille et le clergyman (1917).
A vanguarda aderiu ao
abstracionismo com L'Étoile de mer (1927; A estrela do mar),
de Man Ray, e ao surrealismo com os polêmicos Un Chien
andalou (1928; O cão andaluz) e L'Âge d'or (1930; A idade
dourada), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, e Sang d'un poète
(1930), de Jean Cocteau.
Escola nórdica. Os países
escandinavos deram ao cinema mudo grandes diretores, que
abordaram temas históricos e filosóficos. Entre os mais
célebres estão os suecos Victor Sjöström e Mauritz Stiller e
os dinamarqueses Benjamin Christensen -- autor de Hexen
(1919; A feitiçaria através dos tempos) -- e Carl Theodor
Dreyer, que, após Blade af satans bog (1919; Páginas do
livro de Satã), dirigiu, na França, sua obra-prima, La
Passion de Jeanne D'Arc (1928; O martírio de Joana D'Arc), e
Vampyr (1931), co-produção franco-alemã.
Cinema soviético. Nos
últimos anos do czarismo, a indústria cinematográfica da
Rússia era dominada por estrangeiros. Em 1919, Lenin, o
líder da revolução bolchevique, vendo no cinema uma arma
ideológica para a construção do socialismo, decretou a
nacionalização do setor e criou uma escola de cinema
estatal.
Assentadas as bases
industriais, desenvolveram-se temas e uma nova linguagem que
exaltou o realismo. Destacaram-se o documentarista Dziga
Vertov, com o kino glaz ou "câmara-olho", e Lev Kuletchov,
cujo laboratório experimental ressaltou a importância da
montagem. Os mestres indiscutíveis da escola soviética foram
Serguei Eisenstein, criador dos clássicos Bronenósets
Potiomkin (1925; O encouraçado Potemkin), que relatava a
malograda revolta de 1905; Oktiabr (1928; Outubro ou Os dez
dias que abalaram o mundo), sobre a revolução de 1917; e
Staroye i novoye (1929; A linha geral ou O velho e o novo),
criticado pelos políticos ortodoxos e pela Enciclopédia
soviética como obra de experimentos formalistas.
Discípulo de Kuletchov,
Vsevolod Pudovkin dirigiu Mat (1926; Mãe), baseado no
romance de Maksim Gorki; Konyets Sankt-Peterburga (1927; O
fim de São Petersburgo) e Potomok Chingis-khan (1928;
Tempestade sobre a Ásia ou O herdeiro de Gengis-Khan). O
terceiro da grande tríade do cinema soviético foi o
ucraniano Aleksandr Dovzhenko, cujos filmes mais aclamados
foram Arsenal (1929), Zemlya (1930; A terra), poema
bucólico, e Aerograd (1935).
Cinema italiano. A
indústria italiana do cinema nasceu nos primeiros anos do
século XX, mas só se firmou a partir de 1910, com épicos.
melodramas e comédias de extraordinária aceitação popular. O
primeiro encontro entre a cultura e o cinema na Itália teve
a participação do escritor Gabriele D'Annunzio e culminou
quando ele se associou a Giovanni Pastrone (na tela, Piero
Fosco) em Cabiria, em 1914, síntese dos superespetáculos
italianos e modelo para a indústria cinematográfica da
década de 1920. Nesse filme, Pastrone usou cenários
gigantescos, empregou pela primeira vez a técnica do
travelling, fazendo a câmara deslocar-se sobre um carro, e
usou iluminação artificial, fato notável para a época.
Entre os títulos mais
famosos do período estão Quo vadis?, de Arturo Ambrosio,
Addio giovinezza (1918; Adeus, mocidade) e Scampolo (1927),
de Augusto Genina, ambos baseados em peças teatrais; Dante e
Beatrice (1913), de Mario Caserini, versões de Gli ultimi
giorni di Pompei (1913; Os últimos dias de Pompéia), de
Enrico Guazzoni, e outros.
Surgimento do cinema
sonoro. Desde a invenção do cinema já se experimentava em
vários países a sincronização de imagem e som. Edison foi o
primeiro a conseguir o milagre, mas os produtores não se
interessaram de imediato: a sonorização implicaria a
obsolescência de equipamentos, estúdios e salas de
espetáculos, além de altíssimos investimentos.
Nos Estados Unidos, onde
Griffith começara a perder prestígio após dirigir Broken
Blossoms (1919; O lírio partido) e Orphans of the Storm
(1921; Órfãos da tempestade), a crise levava a falências e
fusões de algumas produtoras e ao aparecimento de outras
mais audaciosas. Hollywood crescia, o estrelismo era um
fenômeno consagrado, com salários astronômicos pagos a
atores e atrizes como William S. Hart, Lon Chaney e Gloria
Swanson, mas nem sempre as receitas eram compensadoras.
A expressão mais requintada
do cinema mudo em suas diversas vertentes provinha de
cineastas do nível de Cecil B. DeMille, com The Ten
Commandments (1923; Os dez mandamentos) e King of Kings
(1927; O rei dos reis); Henry King, com Tol'able David
(1921; David, o caçula) e Stella Dallas (1925); King Vidor,
com The Big Parade (1925; O grande desfile) e The Crowd
(1928; A turba); Erich Von Stroheim, com Foolish Wives
(1921; Esposas ingênuas), Greed (1924; Ouro e maldição) e
The Merry Widow (1925; A viúva alegre), além de Ernst
Lubitsch, James Cruze, Rex Ingram, Frank Borzage, Joseph Von
Sternberg, Raoul Walsh e Maurice Tourneur. Todos eles
contribuíam para o progresso estético do cinema, mas
dependiam totalmente dos poderosos chefes de estúdio e das
rendas da bilheteria.
À beira da falência, os
irmãos Warner apostaram seu futuro no arriscado sistema
sonoro, e o êxito do medíocre mas curioso The Jazz Singer
(1927; O cantor de jazz) consagrou o chamado "cinema
falado", logo cantado e dançado. Dos Estados Unidos, os
filmes sonoros se estenderam por todo o mundo, em luta com a
estética muda. O cinema se converteu num espetáculo visual e
sonoro, destinado a um público maior, e passou a dar mais
importância aos elementos narrativos, o que levou a arte ao
realismo e à dramaticidade do dia-a-dia.
Consolidado com obras como
Hallelujah! (1929; Aleluia!), de King Vidor, e Applause
(1929; Aplauso), de Rouben Mamoulian, o cinema sonoro
resistiu à crise econômica da grande depressão e
gradativamente enriqueceu gêneros e estilos. Mas Charles
Chaplin, opondo-se ao sistema sonoro, continuou a criar
obras-primas à base de pantomima fílmica, como City Lights
(1931; Luzes da cidade) e Modern Times (1936; Tempos
modernos).
Apesar da crise, Hollywood
acreditou e investiu no país. A comédia, com Frank Capra,
era a melhor representação do otimismo que sensibilizava os
americanos, com obras aplaudidas como Mr. Deeds Goes to Town
(1936; O galante Mr. Deeds), You Can't Take It With You
(1938; Do mundo nada se leva) e Mr. Smith Goes to Washington
(1939; A mulher faz o homem). Popularizaram-se também na
década de 1930 os filmes de gângster, par a par com os
westerns, que se aprimoravam e ganhavam enredos complexos. O
problema do banditismo urbano, questão social grave, foi
abordado em filmes de impacto como Little Caesar (1930; Alma
do lodo), de Mervyn Le Roy, The Public Enemy (1931; O
inimigo público), de William Wellman, e Scarface (1932;
Scarface, a vergonha de uma nação), de Howard Hawks,
biografia disfarçada de Al Capone.
Hollywood focalizou os
heróis e vilões da saga da conquista do oeste em filmes de
ação como Stagecoach (1939; No tempo das diligências) e
muitos outros de John Ford; Raoul Walsh, que em 1930 já
experimentava a película de setenta milímetros com The Big
Trail (A grande jornada); King Vidor, com Billy the Kid
(1930; O vingador); e ainda William Wellman, Henry King,
Cecil B. DeMille, Henry Hathaway e outros.
Outras vertentes fluíram,
como o musical de Busby Berkeley e a série dançante de Fred
Astaire e Ginger Rogers; as comédias malucas e sofisticadas
que consagraram Ernst Lubitsch, Leo McCarey, Howard Hawks,
William Wellman, Gregory La Cava e George Cukor, além dos
irmãos Marx, que dispensavam diretores; e os dramas de
horror como Frankenstein (1931), de James Whale, Dracula
(1931), de Tod Browning, Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1932; O
médico e o monstro), de Roubem Mamoulian, e The Mummy (1932;
A múmia), de Karl Freund.
Finalmente floresceu o
melodrama, com torrentes de sentimentalismo, dilemas morais
e supremacia feminina. William Wyler destacou-se como
diretor romântico em Wuthering Heights (1939; O morro dos
ventos uivantes). Dentre outros realizadores que revigoraram
o gênero figura o austríaco Josef Von Sternberg, responsável
pela transformação da atriz alemã Marlene Dietrich em mito e
símbolo sexual. Mas o melodrama teve em Greta Garbo sua
maior estrela e nos diretores John M. Stahl, Clarence Brown,
Frank Borzage e Robert Z. Leonard seus principais cultores.
Realismo poético na França.
A chegada do filme sonoro levou os diretores franceses a
trocar a vanguarda experimental por uma estética
naturalista, iniciada por René Clair com Sous les toits de
Paris (1930; Sob os telhados de Paris). Clair criou um
estilo próprio de comentar a realidade com melancolia em
Million (1931; O milhão), À nous la liberté (1932; Viva a
liberdade) e outras comédias. Maior naturalismo apresentava
a obra de Jean Renoir, que desvendou com violência, ironia e
compaixão as fraquezas humanas em Les Bas-fonds (1936;
Bas-fonds), La Grande Illusion (1937; A grande ilusão) e La
Règle du jeu (1939; A regra do jogo), estes últimos votados
pela crítica como dois dos maiores filmes do mundo.
O naturalismo e o realismo
que dominaram a tela francesa na década de 1930 apresentava
personagens das classes populares em ambientes sórdidos,
tratados com poesia e pessimismo. Os diretores que
participaram com realce dessa fase foram Marcel Carné,
Jacques Feyder, Julien Duvivier, Pierre Chenal e Marc
Allegret. No âmbito populista, o maior nome foi decerto o de
Marcel Pagnol.
Outras escolas. Na
Alemanha, o cinema sonoro firmou-se com ex-discípulos do
expressionismo, como Fritz Lang, que fez M (1931; M, o
vampiro de Düsseldorf). O nazismo coibiu a criatividade e
policiou fortemente a produção. Na Inglaterra revelou-se um
mestre do suspense, Alfred Hitchcock, que iria para os
Estados Unidos em 1936. John Grierson e o brasileiro Alberto
Cavalcanti, que se iniciara na França como cenógrafo,
roteirista e diretor, desenvolveriam uma importante escola
documental que focalizava os problemas sociais.
Na Itália, apesar da
censura fascista, que só incentivava aventuras históricas e
melodramas inócuos, floresceu a comédia de costumes, uma
tendência denominada "caligráfica" por suas características
formalistas. Entre os títulos e autores desse período se
destacaram Alessandro Blasetti, em Ettore Fieramosca (1938)
e Un giorno nella vita (1946; Um dia na vida); Mario
Camerini, com Gli uomini, che mescalzoni! (1932; Os homens,
que velhacos!); Goffredo Alessandrini, Mario Soldati, Amleto
Palermi e outros. Na União Soviética, o culto da
personalidade e o "realismo socialista" impostos pelo
stalinismo não impediram o aparecimento de cineastas que
fizeram filmes de bom nível. Exemplos foram Olga
Preobrajenskaia, com Tikhii Don (1931; O Don silencioso),
Nikolai Ekk, com o mundialmente famoso Putyova v jizn (1931;
O caminho da vida), e Mark Donskoi, com Kak zakalyalas stal
(1942; Assim foi temperado o aço).
Cinema no pós-guerra. Com o
fim da segunda guerra mundial, o cinema internacional entrou
numa fase de transição cujas principais características
foram o repúdio às formas tradicionais de produção e um
inédito compromisso ético dos artistas. Assumindo atitude
mais crítica em relação aos problemas humanos, o cinema
rompeu com a tirania dos estúdios e passou a procurar nas
ruas o encontro de pessoas e realidades.
Itália. A queda do fascismo
foi acompanhada de uma revolução estética consubstanciada no
neo-realismo. De caráter político e social, os filmes desse
movimento focalizavam situações dramáticas das camadas
humildes da sociedade, com imaginação criadora e
impressionante autenticidade. Luchino Visconti, com
Ossessione (1942; Obsessão), abriu o caminho, consolidado
com Roma, città aperta (1945; Roma cidade aberta), de
Roberto Rossellini, sobre os últimos dias da ocupação
nazista de Roma. Outros diretores desse ciclo foram Vittorio
De Sica, autor de Ladri di biciclette (1948; Ladrões de
bicicleta); Giuseppe de Santis, com Riso amaro (1948; Arroz
amargo), e Alberto Lattuada, com Il mulino del Po (1948; O
moinho do Pó).
As gerações seguintes de
cineastas italianos formaram-se nessa tradição, mas
imprimiram uma marca pessoal a suas obras: obsessões
pessoais e fantasismo em Federico Fellini, realismo
melancólico em Pietro Germi, consciência social em Francesco
Rosi, contestação existencialista em Marco Bellocchio,
intelectualismo desesperado em Pier Paolo Pasolini, angústia
da incomunicabilidade em Michelangelo Antonioni.
Estados Unidos. Na década
de 1940 destacou-se Orson Welles, que contribuiu para a arte
do cinema com Citizen Kane (1941; Cidadão Kane), filme no
qual utilizou recursos técnicos que revolucionariam a
linguagem fílmica. A crise no cinema, motivada pela campanha
anticomunista da Comissão de Atividades Antiamericanas,
instigada pelo senador Joseph McCarthy, se aprofundou com a
caça às bruxas e a intolerância levou ao exílio grandes
cineastas como Charles Chaplin, Jules Dassin e Joseph Losey.
Surgiram, no entanto, valores como John Huston, que se
especializara em thrillers repletos de pessimismo como The
Maltese Falcon (1941; Relíquia macabra), The Treasure of the
Sierra Madre (1948; O tesouro de Sierra Madre) e The Asphalt
Jungle (1950; O segredo das jóias).
A essa geração pertenceram
Elia Kazan, também diretor de teatro, o austríaco Billy
Wilder, autor de comédias e da amarga sátira Sunset
Boulevard (1950; Crepúsculo dos deuses), e Fred Zinnemann,
cujo maior êxito foi High Noon (1952; Matar ou morrer). Na
década de 1950, a comédia musical experimentou grande
impulso, graças ao requintado Vincente Minnelli, ao diretor
Stanley Donen e ao dançarino Gene Kelly, responsáveis pelo
esfuziante e nostálgico Singin' in the Rain (1952; Cantando
na chuva) e o frenético e onírico On the Town (1949; Um dia
em Nova York).
A popularização da
televisão provocou séria crise financeira na indústria
americana, ampliada pelo sucesso dos filmes europeus. Os
produtores recorreram a truques como a tela panorâmica
(Cinemascope), o cinema tridimensional e superproduções como
Ben Hur (1959), de William Wyler. Mas em Hollywood ganhavam
espaço os diretores intelectualizados, como Arthur Penn,
John Frankenheimen, Sidney Lumet, Richard Brooks e outros. O
maior expoente da época foi Stanley Kubrick, antimilitarista
em Paths of Glory (1958; Glória feita de sangue) e futurista
em 2001: A Space Odyssey (1968; 2001: uma odisséia no
espaço).
O western utilizou o saber
dos veteranos e se renovou com Anthony Mann, Nicholas Ray,
Delmer Daves e John Sturges. A comédia de Jerry Lewis, no
entanto, jamais repetiu a inventividade da escola de Mack
Sennett, Buster Keaton, Harold Lloyd e outros ases da
slapstick comedy -- a comédia pastelão das décadas de 1920 e
1930.
Mais tarde, o fim dos
grandes estúdios e, em parte, as exigências de um público
jovem encaminharam para novos rumos o cinema americano. Uma
visão independente e autocrítica do sistema de vida nos
Estados Unidos tornou-se exemplar a partir da década de 1960
com Easy Rider (1969; Sem destino), de Dennis Hopper. Para
satisfazer ao numeroso público juvenil, Steven Spielberg
realizou espetáculos fascinantes, repletos de efeitos
especiais e ação ininterrupta, como Raiders of the Lost Ark
(1981; Caçadores da arca perdida) e E.T. (1982; E.T., o
extraterrestre), enquanto George Lucas revitalizava o filão
da ficção científica com o clássico Star Wars (1977; Guerra
nas estrelas). Outros destaques cabem a Francis Ford Coppola
e Martin Scorsese.
Finalmente, nas últimas
décadas do século XX, enquanto a crise econômica avassalava
os países subdesenvolvidos, incapazes de manter um cinema
competitivo, os americanos reconquistaram faixas do público
doméstico e disseminaram suas produções pela Europa, Ásia e
nos países que emergiram da redistribuição geográfica
decorrente do fim do bloco socialista. Tornaram-se
freqüentes as refilmagens e as novas abordagens de antigos
dramas românticos, ao lado da exploração contínua de
fantasias infantis, violência e sexo.
França. Depois da segunda
guerra mundial, poucos diretores antigos mantiveram intacto
seu estilo. A renovação estava à vista, como davam a
entender os filmes de René Clément. No final da década de
1950, um movimento chamado nouvelle vague, liderado pelos
críticos da revista Cahiers du Cinéma, reivindicou um
"cinema de autor" pessoal, de livre expressão artística. Era
o naturalismo que regressava sofisticado. Entre os
iniciadores estavam Claude Chabrol e François Truffaut,
diretor de Les Quatre Cents Coups (1959; Os
incompreendidos), e Jean-Luc Godard, com À bout de souffle
(1959; Acossado). Foi Godard quem melhor sintetizou as
aspirações dos novos cineastas.
Intelectualizado e
personalíssimo, Alain Resnais, com roteiro do romancista
Alain Robbe-Grillet, realizou L'Année dernière à Marienbad
(1960; O ano passado em Marienbad), um jogo intelectual com
o tempo e o espaço que homenageiava o experimentalismo do
passado. Bertrand Tavernier homenageou Jean Renoir em Un
dimanche à la campagne (1984; Um sonho de domingo).
Reino Unido. Enquanto o
país se recuperava dos estragos causados pela guerra,
consolidou-se a indústria cinematográfica, impulsionada pelo
produtor Arthur Rank, que colaborou com o ator e diretor
Laurence Olivier em Hamlet (1948). Carol Reed, com The Third
Man (1949; O terceiro homem), e David Lean, com Lawrence of
Arabia (1962), tornaram-se os mais inventivos e vigorosos
dos cineastas britânicos.
Após o medíocre decênio de
1950, salvo por comédias de costumes saídas dos estúdios da
Ealing, e o de 1960, no qual se destacaram os filmes dos
Beatles e os dramas do grupo do Free cinema, a produção
inglesa recuperou-se fugazmente com os filmes de Joseph
Losey, Hugh Hudson e Richard Attenborough. Os dois últimos
ganharam, com Chariots of Fire (1980; Carruagens de fogo) e
Gandhi (1982), o Oscar da Academia de Hollywood.
Espanha. Até o fim da
guerra civil, em 1939, o cinema espanhol foi pouco
relevante. A ditadura do general Francisco Franco manteve a
indústria cinematográfica sob controle oficial e voltada
para as reconstruções históricas. Apesar da censura, na
década de 1950 apareceram diretores que se inspiraram na
tradição realista para fazer crítica social e estudos de
comportamentos. É o caso de Luis García Berlanga, que em
Bienvenido Mr. Marshall (1952) satirizava o mundo rural e a
presença dos Estados Unidos na Espanha, e de Juan Antonio
Bardem, com Muerte de un ciclista (1955). A partir da década
de 1960, Carlos Saura tornou-se o nome de maior prestígio
internacional, com adaptações da literatura, como Carmen
(1983), e do teatro, como peças de Federico García Lorca. A
década de 1970 seria marcada pela comédia dramática
cultivada por diretores como Pedro Almodóvar e Fernando
Trueba.
América Latina. Nos países
de língua espanhola do continente americano verificou-se,
após a segunda guerra mundial, um esforço de produção quase
sempre frustrado pelas ditaduras locais. Ainda assim,
mexicanos e argentinos tiveram momentos de glória. No México
se destacaram Emilio Fernandez, vencedor do festival de
Cannes com Maria Candelaria (1948), e o espanhol Luís
Buñuel, que passou do surrealismo a um cinema eclético mas
sempre iconoclasta e realizou, em seu exílio mexicano,
filmes como Los olvidados (1950; Os esquecidos), El ángel
exterminador (1962) e Simón del desierto (1965).
Na Argentina predominaram
por algum tempo os dramas passionais e as comédias
sentimentais, contra os quais reagiram os membros da nueva
ola, a nouvelle vague argentina. Fernando Birri e Leopoldo
Torre-Nilsson, com La casa del ángel (1957), foram seus mais
importantes criadores. Anos depois, Luis Puenzo obteve, com
La historia oficial (1984), o Oscar de melhor filme
estrangeiro. A criação do Instituto Cubano de Cinema, em
1959, impulsionou a arte e a indústria, produzindo diretores
como Humberto Solás e Tomás Gutiérrez Alea e o
documentarista Santiago Álvarez.
Outros países, outras
correntes. O cinema japonês, passou a ser admirado no
Ocidente após o festival de Veneza de 1951, graças a
Rashomon, de Akira Kurosawa. Revelando rico passado, com
múltiplas influências de teatro e tradições nacionais,
desenvolveu-se com diretores de categoria: Mizoguchi Kenji,
autor de Ogetsu monogatari (1953; Contos da lua vaga) e
Kaneto Shindo com Genbaku noko (1952; Os filhos de
Hiroxima). No cinema da Índia, onde a produção era enorme
mas de pouco valor artístico, vale destacar Satyajit Ray,
diretor de Pather Panchali, laureado em Cannes em 1956.
Nos países escandinavos o
estilo do sueco Ingmar Bergman brilhou por quase três
décadas, sempre explorando o aspecto existencial do ser
humano em obras como Smultronstället (1957; Morangos
silvestres), Det sjunde inseglet (1956; O sétimo selo) e
muitos outros. Nos países do leste europeu, a orientação
oficial para o realismo socialista foi superada por autores
como o polonês Andrzej Wajda em Popiol i diament (1958;
Cinzas e diamantes), o húngaro Miklós Jacsó em
Szegenylegenyek (1966; Os desesperançados), e o soviético
Andrei Tarkovski. Na antiga Tchecoslováquia, um cinema mais
vigoroso apontou com seu supremo criador Milos Forman,
principalmente com Lásky jedné plavovlásky (1965; Os amores
de uma loura), êxito mundial que o conduziu a Hollywood.
Na Alemanha, a partir da
década de 1960, progrediu um novo cinema de caráter crítico.
Entre seus cineastas mais notáveis estavam Volker
Schlondorff, Alexander Kluge, Rainer Werner Fassbinder, Win
Wenders, Werner Herzog e Hans Jürgen Syberberg.