Cultura
Brasil
Há um Brasil.
Há muitos Brasis. Há dois Brasis.
É nesse
território - unitário e múltiplo - onde se faz uma ou várias
artes. Um "Brasil" acaba sendo um ponto de vista a partir do
qual se tem uma visão do mundo. "Antes que os portugueses
tivessem descoberto o Brasil, o Brasil tinha descoberto a
felicidade." (Oswald de Andrade, 1928). A cultura que se faz
no Brasil - como veremos - seria obra de artistas
antropófagos.
Há dois
Brasis. Estão separados por um abismo, opostos. Rural e
industrial. Há um Brasil tecnologicamente avançado e há um
Brasil onde ressoam, na literatura de cordel, acordes e
mitologias de um cancioneiro ibérico medieval. Miserável e
rico, ou dividido entre o bom selvagem e o
capitalismo selvagem. Há um Brasil formado por um
encontro de culturas e há um Brasil que, no entanto, reflete
hoje as conseqüências da escravidão. A rígida estrutura de
classes e a imobilidade social no Brasil não se alteraram
com a queda do muro de Berlim ou o ocaso do império
soviético...
Há um Brasil
sem pontos cardiais, que pouco sabe sobre diálogos
Leste/Oeste ou Norte/Sul. Este Brasil nunca entenderia a
lição de Torres-Garcia, que inverte o mapa da América do Sul
e diz que nosso Norte é Sul, ou seja, que o nosso ponto de
orientação deve ser determinado por nós mesmos. O Brasil
desprezou até agora o diálogo com os seus vizinhos. Até a
década de 80 havia grande dificuldade em assumir o bloco
cultural latino-americano (com algumas exceções como a
crítica Aracy Amaral). Foram os comissários europeus e
norte-americanos que latino-americanizaram a arte
brasileira. Tivemos medo, suspeitas e mal-estar. Temíamos
que nossas bananas fossem confundidas como procedentes de
alguma República bananeira qualquer. Havia quem preferisse
que fôssemos universais, uma espécie de filhos
mestiços da razão ocidental. Por que tanto medo? Já tínhamos
a chave do mundo: a Bienal de São Paulo, que hoje inclui
artistas de mais de 80 países.
Há um Brasil
que se lembra do mundo e outro Brasil que se esquece de si
mesmo. Esse primeiro Brasil tem museus com cinco Cézannes ou
cinco Van Goghs. O segundo Brasil não tem nenhuma obra de
Hélio Oiticica e nenhum museu até meados da década de 80. O
Brasil é também um sistema de arte da eqüidistância: a mesma
distância política que separa os grandes centros brasileiros
de arte dos centros hegemônicos europeus e norte-americanos
parece separar os centros regionais e periféricos
brasileiros dos centros hegemônicos do país (São Paulo e Rio
de Janeiro). Em outras palavras, o (neo/pós) colonialismo
das relações internacionais se reproduz como um (neo/pós)
colonialismo interno. Uma concentração de artistas e
instituições de arte corresponde a uma concentração de renda
interna em um panorama de graves desequilíbrios regionais
estruturais.
A arte
brasileira curou-se da síndrome de atributo da razão.
Livrou-se de ser uma espécie de encarnação do Verbo, de ser
uma ilustração de teorias. Desde o conto O alienista,
de Machado de Assis, a cultura do Brasil não sabe - nem quer
saber - dos limites entre a razão e a loucura transbordadas.
Antonio Manuel, realizou um filme com o título de Loucura
e cultura. "Há uma dúvida que pertence à clareza",
escreve Waltércio Caldas. As aparências não enganam, mas
tampouco garantem nada. Nelson Leirner inscreveu um porco
recheado de palha num salão de arte, no período da ditadura.
A atitude de Leirner foi a introdução de um dilema
indissolúvel para os jurados do salão oficial, um pequeno
diagrama da estrutura do Estado autoritário: se o aceitassem
como obra, os jurados demonstrariam não saber distinguir um
porco de uma obra de arte. Se o recusassem, estariam
confundindo uma obra de arte com um porco. Em última
análise, a ação de Leirner demonstrava a irracionalidade do
terror. A arte é o "exercício experimental da liberdade",
afirmava há algumas décadas o crítico Mário Pedrosa.
Poderíamos
falar, no Brasil, de uma arte de negociações. A antropofagia
(na literatura de Oswald de Andrade ou na pintura de Tarsila
do Amaral) consagra uma formação étnica, de negociação de
valores culturais entre distintos grupos nativos, europeus e
africanos. Na ditadura, os artistas construíram uma arte de
resistência e um espaço político para a sua obra (Nelson
Leirner, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Hélio Oiticica,
Lygia Clark, Antonio Dias). As relações de alteridade na
fotografia de Rosângela Rennó ou de Paula Trope, em suas
fotos de meninos de rua, tiradas com uma câmera desprezada,
ao mesmo tempo em que esses meninos também fotografavam seus
objetos preferidos com a mesma câmera e se convertiam em
sujeitos da linguagem fotográfica. No campo da retórica, o
Brasil se livrou do miserabilismo. Em troca, não perdeu de
vista o oprimido.
No Brasil, a
idéia de eqüidistância parece aludir à proximidade entre
Paraíso e Inferno e à sua equivalência. Contra um
maniqueísmo entre os dois Brasis, existe uma poética crítica
na música de Chico Buarque de Holanda e Caetano Veloso, ou
na fotografia de Miguel de Rio Branco. As superfícies de cor
de Rio Branco, ora estridentes, ora suaves, resultam, em seu
conjunto, imagens rapsódicas do Brasil, como uma terrível e
sedutora realidade que se exala como "doce suor amargo".
Uma visão
geral da música popular brasileira
Foi por volta
de 1870, no Rio de Janeiro (capital federal do país naquela
época), que as freqüentes reuniões de músicos aficionados
começaram a moldar uma forma diferente de tocar e compor.
Essa forma genuína criada naquela ocasião, com base no mesmo
tripé português-índio-negro que forjou o nosso povo, podemos
considerar o marco inicial da música popular brasileira.
Influenciada pelas valsas, polcas, modinhas (canções
populares urbanas), xotes (música que acompanha uma antiga
dança de salão de provável origem húngara) e outros gêneros
importados da época, essa nova música acabou se ramificando
em duas variações. Uma delas, mais harmônica e europeizada,
desembocou no choro. Outra, com mais ritmo e de inspiração
africana, resultou no samba.
Não se
pretende esgotar, em poucas linhas, a imensa diversidade que
oferece a música popular brasileira mais de 120 anos depois.
Ritmos regionais (como o frevo, o maracatu, o baião, o
fandango, a guarânia ou o vanerão), a música das fronteiras,
modismos circunstanciais e outras manifestações, por
absoluta falta de espaço, serão tratados em outro momento.
A seguir,
recordamos sob a perspectiva da história, a trajetótia do
choro, do samba (e das escolas de samba), da bossa nova e do
tropicalismo, apresentando um panorama sobre a forma como
estão presentes na atualidade. Evocamos também os anos
dourados do rádio, entre as décadas de 30 e 50, e o
surgimento da televisão, quando a vida cultural do país foi
redimensionada por completo.
O choro
As reuniões
musicais do século passado tinham o violão e o cavaquinho
(pequeno violão de quatro cordas, de origem européia) como
base harmônica. Não raro aparecia a flauta como instrumento
de solo. O espírito de lamento na execução acabou por fazer
do choro um gênero específico, caracterizado também pelo
caráter lúdico das improvisações e pela linguagem própria do
violão de sete cordas (único instrumento harmônico criado no
Brasil). Os conjuntos que se dedicam ao choro são chamados
regionais.
Embora tenha
enfrentado períodos de hibernação, o choro é o gênero
musical mais apreciado pelos instrumentistas brasileiros.
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Compositores pioneiros:
Joaquim Antonio Calado, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga
e Anacleto de Medeiros
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Maestros mais importantes:
Pixinguinha e João Pernambuco.
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Grandes solistas:
Benedito Lacerda, Jacob do Bandolim, Luperce Miranda, Abel
Ferreira, Altamiro Carrilho e Copinha.
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Garantia de continuidade:
Joel Nascimento, Henrique Cazes, Maurício Carrilho, Luiz
Otávio Braga, Paulo Sergio Santos, Afonso Machado, Pedro
Amorim e os conjuntos Galo Preto e Nó Em Pingo D’Água.
O samba
Gênero musical
binário, que representa a própria identidade musical
brasileira. De nítida influência africana, o samba nasceu
nas casas de baianas que emigraram para o Rio de Janeiro no
princípio do século. O primeiro samba gravado foi Pelo
telefone, de autoria de Donga e Mauro de Almeida, em
1917. Inicialmente vinculado ao carnaval, com o passar do
tempo o samba ganhou espaço próprio. A consolidação de seu
estilo verifica-se no final dos anos 20, quando desponta a
geração do Estácio, fundadora da primeira escola de samba.
Grande tronco da MPB, o samba gerou derivados, como o
samba-canção, o samba-de-breque, o samba-enredo e,
inclusive, a bossa nova.
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Compositores pioneiros:
Sinhô, Caninha, Donga e Heitor dos Prazeres.
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Maestros mais importantes:
Ismael Silva, Bide, Armando Marçal, Ataulfo Alves, Wilson
Batista, Geraldo Pereira, Noel Rosa, Ary Barroso, Zé Keti,
Candeia, Monarco, Dorival Caymmi, Cartola e Nelson
Cavaquinho.
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Principais intérpretes:
Orlando Silva, Mário Reis, Silvio Caldas, Cyro Monteiro,
Roberto Silva, Jamelão, Aracy de Almeida, Carmen Miranda,
Clementina de Jesus, Clara Nunes e Elizeth Cardoso.
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Garantia de continuidade:
Paulinho da Viola, João Nogueira, Martinho da Vila, Elton
Medeiros, Luiz Carlos da Vila, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho,
Sombrinha, Cláudio Jorge, Paulo César Pinheiro, Beth
Carvalho, Alcione e Moacyr Luz.
A Escola de
Samba
Uma coisa é o
samba. Outra, a escola de samba. O samba nasceu em 1917. A
primeira escola surgiu uma década mais tarde. Expressão
artística das comunidades afro-brasileiras da periferia do
Rio de Janeiro, as escolas existem hoje em todo o Brasil e
são grupos de canto, dança e ritmo que se apresentam
narrando um tema em um desfile linear. Somente no Rio, mais
de 50 agremiações se dividem entre as superescolas e os
grupos de acesso.
O desfile das
16 superescolas cariocas se divide em dois dias (domingo e
segunda-feira de carnaval), em um megashow de mais de 20
horas de duração, numa passarela de 530 metros de
comprimento, onde se exibem cerca de 60 mil sambistas.
Devido à enorme quantidade de trabalho anônimo que envolve,
é impossível estimar o custo de sua produção. Uma grande
escola gasta cerca de um milhão de dólares para desfilar,
mas este valor não inclui as fantasias pagas pela maioria
dos componentes, nem as horas de trabalho gratuito
empregadas na concretização do desfile (carros alegóricos,
alegorias de mão, etc.). Com uma média de quatro mil
participantes no elenco, cada escola traz aproximadamente
300 percusionistas, levando o ritmo em sua bateria, além de
outras figuras obrigatórias: o casal de mestre-sala e
porta-bandeira (mestre de cerimônias e porta-estandarte), a
ala das baianas, a comissão de frente e o abre-alas.
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Primeira escola de samba:
Deixa falar, fundada em 12 de agosto de 1928, no
Estácio, Rio de Janeiro, por Ismael Silva, Bide, Armando
Marçal, Mano Elói, Mano Rubens e outros sambistas (foi
extinta em 1933).
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Primeiro desfile oficial:
Carnaval de 1935, vencido pela Portela.
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Campeão do último desfile:
Mocidade Independente, com o enredo "Criador e criatura", de
Renato Lage.
A era de
ouro do rádio
Nos anos 30,
algumas coincidências favoreceram o auge da era do rádio.
Tanto esta como a indústria fonográfica foram
democratizadas, fazendo chegar ao Brasil várias tecnologias
em expansão, além de empresários estrangeiros. Soma-se a
isto o florescimento de uma geração singular e está
resolvida a equação capaz de explicar o grande momento de
afirmação da música popular brasileira, seja em termos de
criação, interpretação, variedade ou de concepções de
arranjos.
Noel Rosa,
Silvio Caldas e Orlando Silva já estavam na capital. A eles
se juntaram os talentos de Ary Barroso (Minas Gerais),
Dorival Caymmi (Bahia), Radamés Gnatalli (Rio Grande do Sul)
e Carmen Miranda (Marco de Canavezes, Portugal). Quando
Orlando Silva, apoiado no prestígio adquirido através do
rádio e do disco, paralisa o Vale do Anhangabaú, em São
Paulo, já não se pode tratar a nossa música como
simplesmente "popular". O que estava acontecendo era o que o
pensador francês Edgar Morin denomina "uma terceira via".
Antes do
surgimento da chamada cultura de massas, a distinção era
mais fácil. De um lado estava o popular e do outro, o
elitista (no caso da música, o erudito), talvez com exceção
da música folclórica, aceita por todos. Com o aparecimento
das novas tecnologias de difusão, todas essas formas de
cultura foram permeadas por novos conceitos, com uma lógica
própria que incorporou ou beneficiou sua divulgação, mas que
comprometeu inexoravelmente a sua pureza. Não foi diferente
no Brasil em relação à música e, talvez por essa razão, os
estudiosos gostem tanto de qualificar os anos 30 como a Era
de Ouro. Os talentos citados não estavam absolutamente
contaminados por tudo o que estava acontecendo até que, em
1950, a televisão chegou ao Brasil e o rádio entrou em
decadência.
Foi o rádio,
por exemplo, que tornou possível a carreira de Cyro
Monteiro, rechaçado pela RCA como cantor. De Francisco Alves
a Cauby Peixoto, Ângela Maria, Emilinha Borba e Marlene, o
binômio rádio-disco explica o êxito de muitas pessoas, a
maioria já citada neste texto.
A bossa
nova
Chega de
saudade, João Gilberto, 1958. Aí se encontra a pedra
fundamental da bossa nova, embora já tivesse sido lançado no
ano anterior o LP Canção do amor demais, de Elizeth
Cardoso (selo Festa), com músicas de Tom Jobim e Vinícius de
Moraes, no qual se ouviu pela primeira vez a marcação
diferente do violão de João Gilberto, um baiano
recém-chegado de Juazeiro.
A capital
federal passava por mudanças estruturais: em vez das casas
de Vila Isabel, os edifícios de Copacabana e Ipanema; em
lugar do rádio, a televisão; em substituição a Getúlio,
J.K.; das serenatas às boates. Tudo muito mais íntimo e mais
cool. O cenário estava preparado para que João
chegasse e nos ensinasse a "ser para sempre desafinados" (Saudosismo,
de Caetano Veloso).
Logo em
seguida aos shows experimentais em vários clubes do Rio e de
São Paulo, o batismo de fogo: em 1962, a bossa nova faz sua
estréia internacional em um show histórico no Carnegie Hall,
em Nova York. Pronto: a estética do sorriso e da flor, do
banquinho e do violão, do barquinho deslizando pelo suave
azul do mar estava pronta para ganhar o mundo.
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Principais compositores:
Tom Jobim, Newton Mendonça, Vinícius de Moraes, João
Gilberto, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Durvan Ferreira,
Sérgio Ricardo, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Roberto
Menescal, Oscar Castro Neves, Edu Lobo e Baden Powell.
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Principais intérpretes:
João Gilberto, Astrud Gilberto, Sylvia Telles, Nara Leão,
Leny Andrade, Wilson Simonal, Elis Regina, Nana Caymmi e Os
Cariocas.
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Principais instrumentistas:
Luiz Eça, Paulo Moura, Tenório Jr., Edson Machado, Sérgio
Mendes, Zimbo Trio, Tamba Trio, Eumir Deodato, Paulinho
Nogueira e César Camargo Mariano.
Tropicalismo
As voltas que
deu o mundo no final dos anos 60 provocaram uma súbita
agitação também no Brasil musical. Cohn-Bendit (no aspecto
político) e Bob Dylan, para não falar de Hendrix, Janis
Joplin, The Beatles, Santana e Rolling Stones, estenderam
aos trópicos suas influências e o modelo do banquinho e o
violão deixou de ser suficiente. Era indispensável assimilar
outros recursos técnicos lançados no mercado, adaptar-se à
forma harmônica imposta pelo Norte: guitarra, baixo,
teclados e bateria.
O tropicalismo
foi a melhor resposta brasileira ao novo estilo (também
humilde e popular, a jovem guarda). Suas características:
irreverência e informalidade, mas com teoria; resgate do mau
gosto, embora a ótica atacasse esse mesmo mau gosto; e uma
prática que incorporava a revolução dos costumes da época. A
teoria se baseava em Oswald de Andrade (Manifesto do
Pau-Brasil) e na Semana Modernista de 22, sendo influenciada
pelos irmãos Campos (Augusto e Haroldo), Décio Pignatary e o
maestro Rogério Duprat. Há quem creia que o movimento tenha
durado apenas o que durou o ano de 1968, tendo se esgotado
quando Caetano e Gil foram presos, logo que se decretou o
AI-5, o mais arbitrário dos atos do golpe de 64 no Brasil.
De qualquer forma, suas influências ainda podem ser sentidas
na música feita atualmente no país.
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Principais compositores:
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinan, Tom Zé
e Macalé.
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Principais intérpretes:
Gal Costa, Nara Leão (somente no LP-manifesto Tropicália),
Mutantes e Rita Lee.
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Principais instrumentistas:
Lanny Gordon, Naná Vasconcellos, Macalé, Perinho,
Albuquerque, Perinho Santana, Perna Fróes, Tuzé de Abreu e
Tuti Moreno.
O panorama
atual
O Brasil vive
uma fase musical ecumênica. Já não se sente a necessidade de
derrubar o velho para erigir o novo. Isto provém,
especialmente, do espaço que abriram os gêneros brasileiros
em diversos lugares do mundo. Samba e choro são consumidos
no Japão. A música instrumental é reverenciada pelos mais
destacados músicos de jazz do planeta e ninguém pode se
sentir atualizado (up to date) se não conhece os
principais compositores brasileiros.
Devido a esse
interesse do exterior, as companhias gravadoras e as
emissoras de rádio são mais generosas com as percentagens de
registro e execução do produto nacional. É lamentável que,
passada a fase dos festivais, a televisão tenha se tornado
uma sócia cada vez menos participante de nossos músicos. Não
existe, na programação das redes de televisão convencionais,
nenhum espaço significativo para a MPB.
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Principais compositores:
Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan, Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco, Guinga, Chico César,
Cássia Eller, Fátima Guedes, Cazuza, Renato Russo, Lobão,
Lulu Santos, Suely Costa, Alceu Valença, Fagner, Elomar,
Geraldo Azevedo, Luiz Melodia, Joyce e Jorge Benjor.
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Principais intérpretes:
Leila Pinheiro, Gal Costa, Nana Caymmi, Leny Andrade, Zizi
Possi, Elba Ramalho, Fafá de Belém, Simone, Verônica Sabino
e Itamara Koorax.
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Principais instrumentistas:
Cláudio Roditi, Márcio Montarroyos, Paulinho Trompete (trompeta),
Mauro Senise, Leo Gandelman, Widor Santiago, Ion Muniz, Ivo
Perelman, Raul Mascarenhas (sax e flauta), Raul de Souza
(trombone), Cristóvão Bastos, Wagner Tiso, Gilson Peranzetta,
Leandro Braga, Antonio Adolfo (piano), Sebastião Tapajós,
Helio Delmiro, Toninho Horta, Romero Lubambo, Dori Caymmi,
Ricardo Silveira (guitarra e viola), Rildo Hora (harmônica)
e Hermeto Paschoal (multi-instrumentista).
As danças
folclóricas
As danças e
espetáculos folclóricos no Brasil são ricas formas de
expressão artística popular. Os temas, o ritmo, a
indumentária e as coreografias revelam os três principais
componentes da cultura nacional em total interação. Há um
grande número de danças folclóricas brasileiras, que
englobam desde os caboclinhos e caiapós, dramatizações das
primeiras guerras entre os portugueses e os índios,
representadas nos estados de Pernambuco e Alagoas, até a
cavalhada de Pirenópolis, no estado de Goiás, uma
representação teatral ao ar livre, que dura três dias e
descreve a guerra entre os cristãos e os mouros na península
Ibérica. A cavalhada representa a sobrevivência da tradição
dos torneios medievais.
Capoeira
A capoeira é
uma dança de luta, ritualizada e estilizada, que tem sua
própria música e é praticada principalmente na cidade de
Salvador, estado da Bahia. É uma das expressões
características da dança e das artes marciais brasileiras.
Evoluiu a partir de um estilo de luta originário de Angola.
Nos primeiros anos da escravidão havia lutas permanentes
entre os negros e quando o senhor de escravos as descobria,
castigava ambos os bandos envolvidos. Os escravos
consideravam essa atitude injusta e criavam "cortinas de
fumaça" por meio da música e das canções, para esconder as
verdadeiras brigas. Ao longo dos anos, essa prática foi
sendo refinada até se converter em um esporte sumamente
atlético, no qual dois participantes desfecham golpes entre
si, usando apenas as pernas, pés calcanhares e cabeças, sem
utilizar as mãos. Os lutadores deslizam com grande rapidez
pelo solo fazendo estrelas e dando espécies de cambalhotas.
O conjunto musical que acompanha a capoeira inclui o
berimbau, um tipo de instrumento de madeira em forma de
arco, com uma corda metálica que vai de uma extremidade à
outra. Na extremidade inferior do berimbau há uma cabaça
pintada, que funciona como caixa de som. O músico sacode o
arco e, enquanto ressoam as sementes da cabaça, toca a corda
tensa com uma moeda de cobre para produzir um tipo de som
único, parecido com um gemido.
Os
espetáculos folclóricos
Além das
danças folclóricas, existem também no Brasil muitos
espetáculos populares de dança, verdadeiras produções
teatrais que têm sua origem em estórias da Idade Média.
Esses espetáculos, de origem portuguesa, foram se
transformando consideravelmente, devido a séculos de
convivência com as diversas culturas do Brasil. Mário de
Andrade, uma grande autoridade em folclore nacional,
classifica esses espetáculos em quatro categorias: reisados,
cheganças, pastoris e ranchos.
Reisados
Esse
espetáculo consiste em uma série de 24 expressões
folclóricas, das quais o bumba-meu-boi é a mais popular. O
enredo do boi está centrado nos infortúnios do touro
premiado, a quem um poderoso criador de gado procura
intensamente, a fim de melhorar o seu rebanho.
Cheganças
Esse
espetáculo folclórico, cuja denominação significa "chegada",
é apresentado durante a época de Natal. Descreve a chegada
por mar, dos mouros, sua derrota e, finalmente, seu batismo,
recebido por intermédio dos cristãos.
Pastoris
Sua
denominação significa "pastores". Começou a existir como um
espetáculo no qual eram entoados cânticos natalinos em
frente a um presépio que servia como preâmbulo para a missa
do galo. Atualmente é um evento secular. As mulheres
arruaceiras desfilam em filas paralelas, que recebem o nome
de filas vermelhas e azuis. Cada fila apresenta os mesmos
personagens: o maestro, Diana, o anjo formoso, a cigana, o
homem velho (um comediante), a Estrela do Norte e a Cruz do
Sul, entre outros; As meninas cantam e tocam tamboretes
acompanhadas de violões e um só instrumento de sopro.
Ranchos
Entre as
formas mais primitivas do carnaval, tal como era festejado
no Rio de Janeiro, encontravam-se os ranchos, solenes e
românticas estórias de amor representadas por dançarinos que
se movimentavam ao ritmo de marcha. Todos os anos eram
escritos novos ranchos e os grupos de dançarinos, que
representavam diferentes bairros do Rio, eram encarregados
dessa função. Competiam entre si para alcançar o
reconhecimento do público e ganhar prêmios, convertendo-se
assim, nos precursores das escolas de samba.
O carnaval
Inversão do
mundo: sobre as festas e o carnaval do Brasil
Todas as
sociedades alternam o sonho com a realidade, a rotina e os
momentos extraordinários. É quando produzem seus ritos e
festas e, com eles, constituem, consolidam e celebram seus
valores. Toda festa produz uma brecha na vida diária, porque
tem como objetivo consolidar e captar valores adormecidos
pelo cotidiano, dimensão na qual a vida se realiza presa aos
ritmos inevitáveis da produção e do consumo, do homem e da
mulher, da criança e do adulto, da casa e da rua, do parente
e do estranho, dos padrões da ordem e de seus eventuais
desvios e rupturas.
A estas
mudanças drásticas, planejadas e produzidas pela sociedade,
a estas rupturas intencionais com o cotidiano, chamamos
festas, rituais, diversões, solenidades, farras, bailes,
cerimônias, jogos e carnavais. Os nomes variam mas apontam
para a quebra controlada da rotina. Somente nas festas
pode-se ver o austero chefe de família disfarçado de
palhaço, descobrir que a autoridade política é humana
(porque também sabe rir e gosta de beber e dançar) e
contemplar a enigmática nobreza da empregada doméstica,
agora transformada em porta-estandarte de sua Escola de
Samba.
Sobre as
festas no Brasil
Podemos
dividir as festas brasileiras em duas modalidades. Existem
os "rituais de ordem", que legitimam e exacerbam as posições
sociais existentes, e os "ritos da desordem", que promovem
uma inversão do mundo e sugerem a eliminação temporária das
fronteiras entre os sexos, idades, etnias, espaços e classes
sociais.
O Brasil chama
a atenção pelo equilíbrio entre as "festas da ordem"
(dominantes nos países do chamado "primeiro mundo") e as
"festas da desordem" (hegemônicas nas sociedades
tradicionais). Assim, toda a comunidade brasileira que se
preze possui seus ritos locais - desde as festas de santo às
comemorações de datas e personagens que somente têm sentido
para aquele grupo específico. Não obstante, festejam também
as chamadas "grandes datas nacionais" (como o Dia da Pátria,
a Semana Santa) e os rituais de orgia da desordem, como o
Carnaval.
As festas
da ordem
Para o
Brasil-nação, ou seja, o Brasil concebido como uma
coletividade constituída por cidadãos e projetada em um
território, existem as comemorações da Independência e todas
as outras solenidades cívicas ou modernas que caracterizam o
universo burguês, capitalista e individualista em que
vivemos.
Ao contrário
dos países que tomamos como modelo, no entanto, não
abandonamos outras formas de celebração. Não desistimos, por
exemplo, dos rituais católicos que têm como ponto central
não o indivíduo ou o ideal igualitário liberal, mas uma
visão hierarquizada e complementar do mundo. Tampouco nos
esquecemos do carnaval, que subverte a ordem burguesa e
acentua uma sensualidade aberta, muitas vezes chocante, para
quem chega do chamado "primeiro mundo".
Na verdade, ao
mesmo tempo em que a comemoração da Independência tem como
objetivo a idéia de Estado Nacional, as solenidades da
Semana Santa ritualizam os laços de sacrifício (e
contratuais) entre este mundo e o outro; enquanto o
carnaval, com seu riso franco e seu exagero, celebra uma
renovação do mundo, relativizando, entre outras coisas, os
tabus sexuais, o trabalho se dá como obrigação e a
austeridade, como norma de vida.
Se, portanto,
os "rituais da ordem" dramatizam a modernidade, o progresso
e a independência individual, os "ritos da desordem" apontam
para relações de interdependência. Neles, todos são
diferentes, embora complementares, frente a uma comunidade
moral que precede a existência do Estado nacional. Nessas
celebrações, substituem-se as autoridades politicamente
constituídas pelas entidades que governam a sociedade e o
outro mundo: povo, personagens, santos, deuses, mortos ou
espíritos, conforme ocorre respectivamente no carnaval, nas
congadas, nos reizados, nas festas do Divino e nos rituais
afro-brasileiros do candomblé e da umbanda.
Temos,
portanto, uma curiosa polaridade no sistema de festas. Do
lado da ordem, estão as comemorações do Sete de Setembro, do
Dia da Bandeira, do Dia do Soldado, as Eleições, a Festa do
Dia do Trabalho, os rituais de posse de cargos públicos e
todas as outras celebrações que obrigam a recordar eventos
básicos da história do Brasil como nação. Do lado da
desordem, há um conjunto de festas que funciona de outro
modo.
As
celebrações da desordem
Primeiro,
porque a origem dessas festas se perde no tempo, como é o
caso dos reisados, das marujadas, das festas do Divino e do
carnaval. Depois, porque indicam ações "arcaicas" e
"elementares" - atos trans, anti ou a-históricos - como a
troca de presentes, o canto conjunto, a gargalhada irônica e
uma sexualidade sem responsabilidade jurídica. Realmente, se
sabemos bem por que vamos a um enterro, por que fazemos a
festa de Nossa Senhora de Nazaré ou o Sete de Setembro, não
sabemos o porquê do carnaval, que parece ter razões que a
racionalidade moderna, científica e burguesa desconhece.
O que mais
chama a atenção nos "rituais da desordem" e nas "festas
populares", contudo, é sua apresentação por segmentos cuja
posição social é das mais humildes, mas que, no momento da
festa, surgem como aristocracia, organização militar ou
grupo mitológico.
Dessa forma,
nas marujadas, nas congadas, nos reisados e nas festas do
Divino, a festa é organizada com o objetivo de reconstruir o
poder local. Nelas, há de tudo: generais, capitães,
sacerdotes, príncipes, reis, rainhas, embaixadores,
ajudantes de ordem, dentistas, médicos, patrões, vassalos,
caseiros, mascarados, juízes, prostitutas, mouros, cristãos
paradigmáticos e cavaleiros que o povo utiliza para formular
a sua visão crítica e cômica das elites.
Em um sentido
profundo, essas festas ressaltam, de forma cômica, uma série
de traços que tipificam as classes dominantes, como sua
rigidez hierárquica, sua fascinação por títulos honoríficos,
sua extremada submissão, sua dura autoridade, sua rede de
intrigas e suspeitas, sua mesquinhez, sua proverbial
desonestidade e sua riqueza.
O denominador
comum de todos esses ritos é a inversão do mundo, o que
permite identificar uma dura realidade social, que surge
transfigurada nos personagens fisicamente perfeitos que, a
partir do luxo das fantasias, uniformes, vestimentas ou
disfarces, distribuem beijos e graças a seus admiradores.
Assim ocorre nos desfiles carnavalescos, nos quais os pobres
não se representam como ricos, mas se transformam naquilo
que a riqueza tem de melhor: sua inerente nobreza e
autoridade. Autoridade que momentaneamente reinstaura as
obrigações que os ricos devem ter para com os pobres.
Nas "festas da
desordem", em geral, e no carnaval em particular, a
subordinação sombria da vida real é temporariamente
substituída por um drama luminoso de sedução, que traspassa
as barreiras sociais. Ali mesmo, no espaço urbano marcado
por todos os tipos de aparatos eletrônicos e por uma
modernidade individualista, um universo que obriga a aceitar
a superioridade financeira do rico de forma indiscutível,
todos - desde o presidente até o mais humilde varredor de
rua - podem tornar-se cinzentos e mudar de lugar, sendo
simultaneamente atores e espectadores.
Qual é a lição
dessas festas e do carnaval?
Ao reverenciar
uma sociedade híbrida, na qual a modernidade não surge em
estado puro e, necessariamente, se nivela com a tradição
local, ao formar uma densa paisagem social que é trans, anti
ou pós-moderna, essas festas enaltecem dois estilos de vida
que, em todas as partes, estiveram em guerra e em conflito.