Fotografia
O homem sempre procurou meios
de reproduzir fielmente a realidade a sua volta e registrar de
forma verossímil os fatos históricos. Esse sonho, acalentado
pela pintura realista, materializou-se no século XIX com a
invenção da fotografia, que desde então passou a ser utilizada
quer no campo da documentação, quer como meio de expressão
artística.
Fotografia (do grego photos,
"luz", e graphos, "gravação") é um processo técnico pelo qual
se obtém o registro de uma imagem mediante a ação da luz sobre
uma superfície (chapa, filme ou papel) revestida de uma camada
de sais de prata, que são sensíveis à luz. Por extensão,
inclui-se a formação de imagens que resultam da ação de certas
radiações invisíveis (raios ultravioleta e infravermelhos) e
imagens registradas em outros materiais sensíveis que não
contêm prata, por meio de processos químicos ou físicos ou
ambos, combinados. Outras técnicas relacionam-se com o
processo fotográfico, como o registro de imagens por raios X,
feixes eletrônicos e radiações nucleares e a gravação e
transmissão de imagens luminosas estáticas ou dinâmicas, na
forma de sinais eletromagnéticos (televisão e videoteipe).
História
A fotografia nasceu de muitas
experiências de alquimistas e químicos quanto à ação da luz.
Desde 1525 sabia-se do escurecimento dos sais de prata. O
trabalho do físico alemão Johann Henrich Schulze, em 1727, e
do químico suíço Carl Wilhelm Scheele, em 1777, comprovou que
o enegrecimento dos sais se deve à ação da luz. Após inventar
o fisionotraço e a litografia, o francês Joseph-Nicéphore
Niepce obteve, em 1817, imagens com cloreto de prata sobre
papel. Em 1822, ele fixou uma imagem pouco contrastada sobre
uma placa metálica: as partes claras em betume-da-judéia
(insolúvel sob a ação da luz) e as sombras na base metálica.
Quatro anos depois, Niepce produziu a primeira fotografia
conseguida no mundo, tirada da janela de sua casa e preservada
até hoje.
Louis-Jacques Mandé Daguerre
pesquisou com Niepce desde 1829 e dez anos mais tarde lançou o
processo chamado daguerreótipo, em que uma placa de cobre
prateada e polida, submetida a vapores de iodo, formava sobre
si uma camada de iodeto de prata. Exposta à luz numa câmara
escura (de quatro a dez minutos, conforme a iluminação do
objeto, e com abertura em torno de f/15), essa placa era
revelada em vapor de mercúrio aquecido, que aderia às partes
onde a luz incidia e mostrava as imagens, fixadas por uma
solução de tiossulfato de sódio. Embora o daguerreótipo não
permitisse cópias, o sistema de Daguerre logo se difundiu por
todo o mundo. Os tempos de exposição, de início muito longos,
encurtaram-se com o trabalho do austríaco Friedrich
Voigtländer, que em 1840 criou lentes com abertura maior, e do
britânico John F. Goddard, que ressensibilizava a placa com
bromo.
O químico britânico William
Henry Fox Talbot lançou, em 1841, outro processo para obter e
fixar imagens, o calótipo. Um papel impregnado de iodeto de
prata era exposto à luz em câmara escura, e depois a imagem
era revelada com ácido gálico e fixada com tiossulfato de
sódio. Daí resultava um negativo, que era impregnado de óleo
até tornar-se transparente. O positivo se fazia, como hoje,
por contato com papel sensibilizado. Embora o calótipo tivesse
menor definição que o daguerreótipo, foi a primeira fase na
linha de desenvolvimento da fotografia, dentro da qual o
daguerreótipo conduziria à fotogravura, processo utilizado
para reprodução de fotografias em revistas e jornais.
Em 1851, o britânico
Frederick Scott Archer inventou a emulsão de colódio úmida. A
uma solução de piroxilina em éter e álcool, adicionava um
iodeto solúvel, com certa quantidade de brometo, e cobria uma
placa de vidro com o preparado. Na câmara escura, o colódio
iodizado, imerso em banho de prata, formava iodeto de prata
com excesso de nitrato. Ainda úmida, a placa era exposta à luz
na câmara, revelada por imersão em pirogalol com ácido acético
e fixada com tiossulfato de sódio. Em 1864, o processo foi
aperfeiçoado e passou-se a produzir uma emulsão seca de
brometo de prata em colódio. Em 1874, as emulsões passaram a
ser lavadas em água corrente, para eliminar sais residuais e
preservar as placas. Três anos antes, no entanto, o britânico
Richard Leach Maddox fabricou as primeiras placas secas com
gelatina em lugar de colódio. Em 1877, grandes empresas já
dominavam o comércio de emulsões rápidas.
Filmes. Como as placas de
vidro -- suportes das emulsões -- eram frágeis e pesadas,
buscavam-se materiais leves e flexíveis. Em 1870, o americano
John W. Hyatt descobriu a celulose. O fornecimento desse
material em bobinas flexíveis, em 1875, marcou o início da
transformação. Em 1884, George Eastman e dois sócios lançaram
no mercado um aparelho (a primeira Kodak) com um rolo de
negativo de tamanho suficiente para tirar cem fotos. Essas
câmaras portáteis voltavam à fábrica para revelar o filme e
serem recarregadas. Os filmes flexíveis transparentes surgiram
com a descoberta da solubilidade da nitrocelulose no álcool de
madeira em 1889. A indústria pôs à venda, em 1891, filmes
carregáveis à luz do dia e, em 1903, filmes em embalagens de
segurança, tipo magazine. O acetato de celulose, inflamável,
foi substituído em 1908 pelo nitrato de celulose no preparo da
base do filme. Na década de 1950, o triacetato substituiu o
nitrato e, em 1956, o poliéster passou a ser usado na
fabricação de filmes com as vantagens da claridade óptica,
maior resistência e quase total tolerância à umidade.
Reveladores. O francês
Henri-Victor Regnault e o alemão Justus von Liebig descobriram
o ácido pirogálico, revelador mais forte do que o vapor de
mercúrio e o ácido gálico. Em 1861, dispensou-se o nitrato de
prata nos reveladores e descobriu-se a revelação alcalina com
pirogalol. William Abney, em 1880, revelou fotos com
hidroquinona. Outros reveladores vieram: em 1888, a
parafenilenodiamina; em 1891, o metol, e depois a fenidona.
Técnica fotográfica
A fotografia é muitas vezes
definida como a "arte de escrever com a luz". É a luz, em
grande medida, que determina a qualidade da foto. Um conceito
básico da fotografia diretamente associado à intensidade
luminosa é o de exposição, relação entre a quantidade de luz e
o tempo de sua incidência sobre o material sensível. Definida
pela fórmula E = it, a exposição é igual ao produto da
intensidade da luz pelo tempo de incidência. A sensibilidade
do filme determina a rapidez do material fotossensível, isto
é, o índice que revela a necessidade de exposição do material
para se obter um bom registro da imagem. A rapidez é
inversamente proporcional à exposição: quanto mais sensível o
material, menor o tempo de exposição.
Opacidade e densidade. O
índice de opacidade do negativo é a sua densidade, ou a
capacidade que uma área do papel ou do filme possui para
absorver a luz. As áreas de alta densidade absorvem grandes
quantidades de luz e aparecem mais escuras no negativo e mais
claras na cópia. Chama-se densidade de véu a densidade
residual de parte não exposta do material sensível. Certos
métodos de revelação ou focos de luz secundários podem criar
véu no negativo, o que se considera como defeito.
Contraste. Uma fotografia, em
preto e branco ou em cores, apresenta vários tons. Essa
variação é dada pelo contraste, que faz com que as imagens
variem das sombras e meios-tons até as altas-luzes (highlights),
partes intensamente brancas do objeto fotografado. Essa escala
de tons denomina-se gradação.
Resolução. Todo material
fotográfico tem a propriedade de registrar, de forma mais ou
menos visível, detalhes do objeto fotografado. Essa capacidade
é o poder de resolução do filme, em geral catalogado em pares
de linha por milímetro, com o objetivo de fornecer as
possibilidades da fotografia final. Há instrumentos
sofisticados que medem o desempenho das lentes e filmes, em
termos de nitidez e contraste. A partir da leitura desses
instrumentos, obtém-se um gráfico que fornece a curva MTF (de
modulation transfer function, função de transferência de
modulação).
Emulsões fotográficas. Embora
chamado comumente de "emulsão", o material sensível usado em
fotografia é na verdade uma suspensão de micropartículas de
cristais de haletos de prata dispersos num meio coloidal,
atualmente a gelatina, que os isola e protege. Os haletos que
formam a parte sensível da emulsão consistem, para as emulsões
negativas, em brometo de prata com pequena quantidade de
iodeto ou, para as positivas e papéis fotográficos, cloreto de
prata com brometo. As partículas sensíveis, ou grãos, de igual
composição cristalográfica, variam de forma, tamanho,
composição e reação à luz. Um material sensível classifica-se
em: (1) emulsões de granulação pequena, lentas, de altos
contrastes; e (2) emulsões de grãos grandes, rápidas, de menor
contraste.
Algumas emulsões não
apresentam sensibilidade para todas as cores. Os sais de prata
são sensíveis apenas ao azul, ao violeta e ao ultravioleta.
Com a adição de corantes sensibilizadores conseguem-se
emulsões sensíveis às outras cores. Quanto à sensibilidade
espectral, as emulsões fotográficas são: (1) ordinárias,
sensíveis ao azul, violeta e ultravioleta, usadas para fins
gráficos; (2) ortocromáticas, sensíveis àquelas radiações e ao
amarelo-esverdeado; (3) pancromáticas, de uso geral, sensíveis
a todas as radiações luminosas, ao máximo para o azul e ao
mínimo para o vermelho; e (4) emulsões infravermelhas, usadas
para fins técnicos.
A escala de sensibilidade dos
filmes fotográficos, adotada internacionalmente, é a ISO, e
seus índices são grafados, por exemplo, como 200/24o. A
primeira parte desse índice (200), aritmética, mostra um valor
diretamente proporcional à sensibilidade e é idêntica ao
índice ASA (de American Standard Association, ou Associação
Americana de Normas Técnicas), ainda de uso corrente. A
segunda parte, logarítmica, aumenta em 3o a cada duplicação da
velocidade e corresponde à escala DIN ainda empregada em
alguns países europeus. Um filme de 200/24o ISO tem o dobro da
sensibilidade de outro de 100/21o ISO e metade da de um filme
de 400/27o ISO. Os filmes de uso geral têm sensibilidade entre
80/20o e 200/24o ISO; os materiais de grão fino, para máxima
definição da imagem, variam de 25/15o a 64/19o ISO; e os
filmes rápidos e ultra-rápidos, para ambientes de pouca
luminosidade ou fins especiais, de 400/27o a 1600/33o.
Revelação. Para revelar o
filme é necessário tratá-lo com uma solução química que contém
vários compostos, dosados para a redução controlada dos grãos
de haletos expostos a prata metálica, de forma a converter a
imagem latente em imagem visível.
Os reveladores compõem-se de:
(1) agentes reveladores propriamente ditos, compostos
orgânicos cuja energia redutora só revela os grãos expostos.
Os principais são o amidol, que se deteriora facilmente; a
glicina, de ação lenta e poderosa; a hidroquinona, de baixa
energia e produtora de contrastes; o metol, rápido e de longa
vida útil; o paraminofenol, que, de ação rápida e suave, não
produz véu, mesmo nas altas temperaturas dos trópicos; a
parafenilenodiamina, que produz grãos muito finos, e imagem
dicróica, negra, com luz transmitida, e creme, à luz
refletida; e o pirogalol, de ação suave e lenta, que produz
imagens negras e véu amarelo e cor sépia com bom contraste.
(2) Preservadores, que
protegem da oxidação pelo ar os agentes reveladores em
solução. O mais empregado é o sulfito de sódio, amorfo ou
cristalino. Adiciona-se bissulfito de sódio e metabissulfito
de potássio à solução quando é preciso uma alta taxa de
bissulfito, sem elevar o pH. Outros preservadores são o
cloreto estanoso, o manitol, o sorbitol, o ácido benzóico, o
ácido glicólico e o ácido salicílico.
(3) Aceleradores, substâncias
alcalinas ou compostos combináveis aos sulfitos utilizados
para acelerar a atividade dos agentes reveladores. Formam
complexos que se hidrolisam, liberam íon hidroxila e produzem
um álcali. O álcali mais utilizado como ativador é o carbonato
de sódio; seguem-se os boratos, fosfato trissódico, sulfito de
sódio, hidróxidos de sódio, potássio e amônio, e álcalis
orgânicos, como a trietanolamina.
(4) Moderadores, cuja
principal função é reduzir ou eliminar o surgimento de véu. A
presença de moderadores alcalinos, como brometo de potássio,
iodeto de potássio ou cloreto de sódio, nas soluções
reveladoras, baixa a ionização dos haletos de prata e reduz a
concentração dos íons de prata, com a finalidade de moderar a
revelação. Outros moderadores empregados são compostos
orgânicos derivados do nitrogênio, que formam complexos com os
haletos de prata. São o 6-nitrobenzimidazol, o benzotriazol, o
5-clorobenzimidazol, a tiocetanalida e o tetrazol.
(5) Agentes especiais,
substâncias destinadas a atuar em condições difíceis,
adicionadas às soluções reveladoras. Os mais conhecidos são:
(a) solventes: álcoois metílico, etílico e isopropílico; (b)
abrandadores de água (para uso em águas duras, que contêm os
íons cálcio, magnésio e ferro em solução), como o
hexametafosfato de sódio; (c) agentes umedecedores (que
diminuem a tensão superficial entre a solução e a superfície a
revelar), compostos orgânicos de ácidos graxos; (d) agentes
contra inchação (para evitar o superamolecimento da gelatina);
(e) endurecedores da gelatina: alúmen, sulfato de alumínio,
formaldeído, ácido tânico; (f) controladores da penetração:
açúcar, dextrina, glicerol e outros; e (h) solventes de
haletos de prata: tiocianato de potássio, cloreto de amônio
(para revelação de grão fino), amônia e sais do amoníaco (em
processos de inversão de tonalidade).
Fixação e lavagem. Para que a
imagem fotográfica se torne permanente, é necessário dissolver
todos os halógenos de prata, sensíveis à luz, que se mantêm na
emulsão após a revelação. A fixação é o processo de conversão
dos halógenos em sais complexos solúveis em água. Adicionam-se
aos banhos fixadores substâncias que interrompem a revelação,
evitam véu e endurecem a gelatina. O fixador mais empregado é
o tiossulfato de sódio, chamado comumente hipossulfito ou hipo.
Os banhos fixadores classificam-se em: (1) banhos que contêm
15% a 40% de hipossulfito em água (quando não é preciso
endurecer a gelatina ou no caso em que a presença de um ácido
alteraria a granulação ou mudaria a tonalidade da cópia); (2)
banhos fixadores neutros, que usam agente fixador o sulfito de
sódio, de propriedades antivéu e vida útil mais longa; (3)
banhos ácidos, que neutralizam o revelador, param a revelação
e evitam o véu, e têm também tiossulfato e bissulfito de
sódio; (4) banhos ácidos endurecedores, com tiossulfato de
sódio, sulfito de sódio, ácido acético e alúmen de potássio.
A lavagem, que remove os
reagentes em excesso formados no processo de fixação, é em
geral feita em água corrente ou em soluções de água com água
oxigenada e amônia. O tempo de lavagem é de vinte minutos,
para filmes; vinte a sessenta minutos, para papel de cópia de
gramatura simples; e 35 a 120 minutos, para papel de gramatura
dupla.
Fotografia em cores. A
primeira fotografia colorida foi feita em 1891, mas os
princípios básicos da foto em cor como a conhecemos devem-se a
James C. Maxwell, que fotografou fitas coloridas através de
filtros vermelhos, verde e azul. A partir dos negativos,
Maxwell produziu três transparências positivas em preto e
branco; projetou-as sobre uma tela, simultaneamente, por meio
de três lanternas, cada uma delas com luz correspondente à cor
do filtro usado no negativo. A imagem reproduzia as fitas
coloridas.
Ducos du Haron, em 1869,
expôs os métodos básicos da foto colorida: o aditivo e o
subtrativo. No método aditivo, em desuso, a cor branca se
produz pela adição do vermelho, do verde e do azul, tanto pela
projeção simultânea de três imagens monocromáticas sobre uma
tela; como pela projeção das imagens em rápida sucessão na
tela; ou pela formação de pequenas imagens monocromáticas
justapostas.
Nos métodos subtrativos, três
negativos são feitos separadamente com luzes vermelha, verde e
azul. Em seguida, produzem-se positivos com as cores
complementares às usadas para elaborar o negativo, e os três
são copiados simultaneamente sobre o papel branco ou outro
filme. O negativo feito com luz vermelha é copiado em
azul-esverdeado (ciano), o de luz azul é copiado em amarelo e
o de luz verde em magenta. O processo foi lançado em 1935 pela
Eastman Kodak (Kodachrome): ao invés de tratar os negativos
separadamente ou simultaneamente um a um, faz-se uma
superposição integral dos três (tripack ou monopack).
Câmara fotográfica
Aparelho que executa a
exposição do material sensível à luz, a câmara funciona com
base no princípio óptico da câmara escura, conhecido desde 400
a.C. e estudado por Alhazen, Roger Bacon, Leonardo da Vinci,
Girolamo Cardano, Danielo Barbiero e Ignazio Danti. A câmara
escura originalmente consistia num quarto totalmente sem luz,
no qual uma das paredes tinha um orifício, através do qual se
projetava na parede oposta uma imagem invertida. A primeira
câmara fotográfica foi fabricada por Alphonse Giroux por
encomenda de Daguerre (1839), em Paris. Consistia em duas
caixas de madeira que deslizavam uma dentro da outra para
focalizar; uma lente acromática, com tampa metálica capaz de
funcionar como obturador; um vidro fosco para a focalização; e
um suporte para as placas sensíveis. Surgiram mais tarde
outros modelos mas, depois que Talbot inventou as câmaras com
caixas telescópicas, não houve grandes modificações.
Descrição e funcionamento. A
câmara fotográfica consta dos seguintes componentes: (1) o
obturador, que permite a entrada da luz na câmara por tempo
determinado; (2) a lente, elemento que capta a imagem; (3)
suportes para o material sensível; (4) um invólucro
impermeável à luz que sustenta a lente e suportes para o
material na posição correta; e (5) um visor para mostrar o
objeto que se pretende fotografar. São acessórios o
equipamento para iluminação artificial (fotolâmpadas e flash),
tripé, filtros, lentes intercambiáveis, telêmetros, fotômetros
e outros.
Diafragma e obturador. O
orifício que era atravessado pela luz nas antigas câmaras tipo
"caixote" foi substituído por um diafragma ajustável, que pode
variar a abertura e a quantidade de luz que o filme receberá.
As diferentes aberturas são designadas pela notação f/N, em
que N, na maioria das câmaras modernas, pode ser: f/1,4, f/2,
f/2,8, f/4, f/5,6, f/8, f/11, f/16 e f/22 (o número f é obtido
dividindo-se a distância focal da objetiva pelo diâmetro de
seu elemento frontal).
Enquanto o diafragma controla
a quantidade de luz, o obturador fixa a velocidade da
exposição. As câmaras mais sofisticadas permitem várias
velocidades de exposição, hoje, em geral, 1 seg, 1/2 seg, 1/4
seg, 1/8 seg, 1/15 seg, 1/30 seg, 1/60 seg, 1/125 seg, 1/250
seg, 1/500 seg e 1/1.000 seg e, em alguns modelos eletrônicos,
1/4.000 seg ou velocidades ainda maiores. O tipo mais comum de
obturador (compur) é montado entre os elementos anteriores e
posteriores da lente. Ao ser pressionado o disparador, vários
setores circulares saltam concentricamente e voltam à posição
primitiva. Posteriormente disseminou-se o tipo de obturador de
cortina horizontal.
A nitidez da imagem é maior
quando a lente está ajustada de acordo com a distância exata
ao objeto. Como normalmente uma cena inclui objetos a
diferentes distâncias da câmara, há uma perda natural de
nitidez. Dentro de uma certa faixa, no entanto, a perda de
nitidez é quase imperceptível. Essa faixa é a chamada
profundidade de campo. Além de controlar a quantidade de luz
que atinge o filme em determinado período de tempo, a abertura
do diafragma determina também a profundidade de campo. Quanto
menor a abertura (número f elevado), maior a profundidade de
campo. Para "parar" um movimento, unem-se velocidade alta, que
limita o tempo de incidência de luz, e maior abertura do
diafragma. Com velocidades inferiores a 1/50 seg, a câmara
deve ser apoiada num tripé, para se manter firme.
Objetivas. As câmaras simples
têm uma só lente, montada no orifício que deixa a luz
refletida pelo tema atingir o filme. As mais sofisticadas usam
sistemas ópticos anastigmáticos que, pela justaposição de duas
ou mais lentes, corrigem as aberrações ópticas. Distância
focal é aquela entre o centro óptico da objetiva e o plano do
filme, quando um objeto afastado está em foco. As câmaras são
normalmente equipadas com lentes de distância focal quase
iguais à diagonal do filme que usam. A objetiva normal de uma
câmara que utilize filme 135 (24mm x 36mm), tem distância
focal de 50mm. Lentes com distâncias focais inferiores à lente
normal são chamadas grandes-angulares, enquanto as de
distância superior são denominadas teleobjetivas. Quanto maior
a distância focal da lente, menor a profundidade de campo.
Grande-angular. Equipada com
uma objetiva grande-angular, a câmara reproduz uma área maior
do assunto. Emprega-se muito em fotografias arquitetônicas e
de interiores. É necessário aproximar bem a câmara do objeto
para obter uma imagem grande.
Teleobjetiva. Com ângulo de
visão mais estreito que a lente normal, a teleobjetiva
reproduz uma área menor do tema, mas em escala maior. É útil
para fotos de modelos de difícil aproximação, como crianças,
animais, detalhes arquitetônicos e cenas desportivas.
Zoom. Lente de distância
focal variável, a zoom pode ser utilizada, com continuidade,
como grande-angular, lente normal ou teleobjetiva. Dessa
forma, o operador, sem sair do lugar, passa de um plano
aproximado a uma cena distante.
Iluminação. A exposição
correta pode ser medida com o auxílio de fotômetros, tabelas e
calculadoras. O tipo de iluminação determina a forma como a
foto reproduzirá o tema. A posição e a orientação da luz pode
ser usada para criar efeitos de contraste, suavização do tema
ou achatamento dos planos. Se a luz é insuficiente, o
fotógrafo utiliza iluminação artificial. As fontes mais comuns
são a photoflood e o popular flash. Photoflood é uma lâmpada
possante, operável na corrente comum, que produz uma luz
contínua. O flash produz luz intensa mas de duração
momentânea. É valioso na fotografia de objetos em movimento
sob luz fraca. Flash e câmara têm de ser sincronizados para
operar ao mesmo tempo.
Principais tipos de câmaras.
As câmaras podem ser classificadas de acordo com o tipo de
filme que usam ou com o visor com que operam. Atualmente, a
maioria das câmaras usa filmes de rolo de 35mm de largura, com
até 36 fotos (filme 135), embora também sejam comuns os filmes
de 9,5mm (110) e 16mm (126). Já os profissionais empregam de
preferência filmes 135 ou 120 (6 x 6cm). Todas as câmaras
podem ser agrupadas em não-reflex e reflex. Nas primeiras, a
visão da imagem através do visor é direta e não corresponde
exatamente àquela registrada no filme. Nas outras, um sistema
de espelhos e prismas entre a lente e o visor permite que o
fotógrafo veja exatamente a imagem que será registrada. As
câmaras reflex podem ter uma lente, quando são chamadas SLR
(de single-lens reflex, de lente monocular reflex), ou duas,
as TLR (de twin-lens reflex, lente reflex geminada). Na década
de 1990, a incorporação de objetivas zoom fixas às câmaras de
35mm deu origem a uma nova categoria: a ZLR (zoom-lens reflex).
A câmara de estúdio, ou de
fole, é muito utilizada por fotógrafos profissionais para a
produção de fotos de alta qualidade, principalmente para a
publicidade. Quase sempre montado num tripé, esse equipamento
emprega folhas de filme de 10,2 x 12,7cm. Outro tipo de
câmara, a de revelação instantânea, criada em 1947, pode
produzir cópias coloridas em apenas um minuto, a partir de um
filme especial. Esse equipamento tem importante aplicação em
perícias técnicas, como as realizadas por companhias de
seguros; em testes de iluminação para fotos de estúdio; e na
medicina, nos exames de endoscopia.
Automação. No final do século
XX, a incorporação da eletrônica às câmaras foi a principal
tendência da indústria de equipamentos fotográficos. As
câmaras mais modernas oferecem recursos automáticos de
focalização, sistema de medição de luz e flash. A máquina é
capaz de ajustar o foco, pelo emprego de raios infra-vermelhos
ou sinais ultra-sônicos. Em alguns modelos, o fotógrafo
escolhe um ponto de focalização, em outros, o sistema
seleciona a imagem mais nítida para focalizar ou detecta para
onde o fotógrafo está olhando. Sensores eletrônicos acionam o
flash, quando a iluminação não é adequada, e selecionam
velocidades de disparo, para compensar movimentos do objeto
fotografado, e aberturas de lente, de acordo com a luz
ambiente.
Fotografia eletrônica. Os
dispositivos de gravação de imagens fotográficas em suportes
magnéticos surgiram como conseqüência natural da evolução dos
computadores e dos videocassetes. O primeiro equipamento de
gravação magnética de fotografias em disquetes e fitas foi
demonstrado pela Sony, em 1981. Em 1990, a Kodak anunciou o
lançamento do Photo CD, capaz de varrer imagens de 35mm e
digitalizá-las em discos compactos. As imagens registradas
podem ser reproduzidas por meio de um aparelho de televisão ou
monitor de computador ou, ainda, impressas em papel. Além de
competir com as máquinas convencionais, esse tipo de
equipamento é capaz de transmitir a imagem por linha
telefônica.
Aplicações da fotografia
Campo tecnológico. A
tecnologia é um amplo campo de aplicação para a fotografia:
ela registra radiações de comprimento de onda invisíveis ao
olho humano; integra radiações muito fracas de modo a obter um
registro visível; mede intensidade de radiação ou registra
movimentos rápidos imperceptíveis ao observador. Em biologia,
metalurgia e petrografia, a foto microscópica é grande
auxiliar do pesquisador. Também na espetrografia pode-se
fotografar com filmes pancromáticos ou comuns, sensíveis ao
azul para a zona ultravioleta. Adaptam-se filmes para
fotografar com luz infravermelha, no escuro e na neblina,
através da pele, para estudos de obras de arte e têxteis
falsificados ou deteriorados. A fotografia com raios
ultravioleta é usada no exame de documentos falsificados,
restaurações, detecção de escrita invisível ou de impressões
dactiloscópicas.
Fotografias de alta
velocidade são de extrema importância na ciência e na
tecnologia, pois possibilitam o registro de uma fase ou de uma
seqüência de fases de acontecimentos muito rápidos, como, por
exemplo, explosões. Em astronomia, a observação visual através
do telescópio já foi quase inteiramente substituída pela
fotografia. Em artes gráficas, processos de impressão, como o
offset, ou de composição (fotocomposição), utilizam a
fotografia. Também na topografia um papel importante é
exercido pela fotografia, com destaque para os processos de
levantamento aerofotogramétrico.
Fotojornalismo. Até o final
do século XIX, quando foi aperfeiçoado o processo da
autotipia, com a introdução e o aprimoramento das retículas,
as primeiras publicações a ilustrar as notícias (Illustrated
London News, Harper's Weekly) usavam uma reprodução
xilográfica da foto. A primeira reprodução de uma foto em
jornal apareceu no New York Daily Graphic, em 1880, e o
primeiro jornal a ser ilustrado exclusivamente com fotos foi o
London Daily Mirror, em 1904.
Antes de ser empregada na
imprensa, a foto foi usada como documentação para reportagens
de fundo social. Uma das fotorreportagens pioneiras foi a
série de Jacob Riis, do New York Evening Sun, em 1887, sobre
os cortiços de Nova York. Publicadas no jornal, as fotos foram
depois reunidas no livro How the Other Half Lives (1890; Como
vive a outra metade). Na década de 1920, com o aperfeiçoamento
de câmaras, filmes e iluminação artificial, surgiu e logo se
difundiu o instantâneo. Em 1930, o alemão Stefan Lorant
definiu: "A câmara é o caderno de notas do repórter
experiente."
Fotografia como arte
Os primeiros fotógrafos eram
gravadores, pintores e desenhistas, como Niepce, Daguerre ou
Fox Talbot, e queriam um meio melhor de captar a realidade. A
fotografia surgiu juntamente com outros processos de
multiplicação de originais. William Newton formulou a primeira
estética da fotografia em 1853: seria dever do fotógrafo
aderir às leis das belas-artes e fazer as fotos mais
"parecidas às obras de arte". O livro de Henry P. Robinson,
Pictorial Effect in Photography (1869; Efeito pictórico em
fotografia), é um repertório de fórmulas acadêmicas, aplicadas
nos anos seguintes. Oliver W. Holmes pugnava por uma
fotografia direta, funcional e sem retoques, divorciada das
belas-artes.
Uma entidade londrina, The
Linked Ring, organizou salões de fotografia para "colocar a
fotografia no mais alto nível artístico". Nos Estados Unidos,
em 1902, Alfred Stieglitz e amigos fundaram a Photo-Secession,
que realizou mostras fotográficas de vanguarda e comprovou a
autonomia da arte fotográfica, pela qual se expressaram
mestres como Paul Strand, Edward Steichen e Edward Weston.
Nas décadas de 1920 e 1930,
talvez como reflexo do pós-guerra, surgiu nos Estados Unidos
um estilo de fotografia mais realista, que, na Alemanha, foi
representado pelo movimento "Nova Objetividade". No mesmo
período, o trabalho do húngaro André Kertész e o estilo que o
francês Henri Cartier-Bresson começou a criar -- que ele
chamaria, mais tarde, de busca do "momento decisivo" --
ajudaram a transformar o fotojornalismo num gênero de arte.
Fotografia no Brasil
Antecedentes. A
daguerreotopia chegou ao Brasil, em 1840, trazida pelo abbé
Combes, capelão de um navio-escola francês e autor das três
primeiras fotos tomadas em solo brasileiro: do Paço Imperial,
do chafariz de mestre Valentim e da praia do Peixe, no Rio de
Janeiro. O primeiro brasileiro a possuir uma câmara daguerre
foi o imperador Pedro II, fotógrafo amador. Marc Ferrez,
mestre dos primórdios da fotografia no Brasil, trouxe as
chapas secas, os autocromos de Lumière e os papéis à base de
brometo. Rompeu com o espírito retratista e mercantil e
fotografou, pela primeira vez, índios e navios em alto-mar.
Outros nomes importantes
foram Musso, retratista do início do século XX; Paulino
Botelho, da Gazeta de Notícias que, em 1905, voou no balão
Portugal para tirar fotos aéreas da cidade; e Augusto Malta,
que fotografou o incêndio da Companhia Telefônica, o
desabamento do Clube de Engenharia, em 1906, e o lançamento ao
mar do navio Minas Gerais, em 1908.
No Museu Histórico Nacional
há fotos sobre a guerra do Paraguai, que mostram tropas
fardadas, ruínas da igreja de Humaitá e o acampamento das
forças brasileiras. Há outras feitas na Vila do Rosário, em
1870, em que aparecem o conde d'Eu, comandante-chefe
brasileiro da última fase da guerra do Paraguai, e seu
estado-maior. Outras fotos mostram a missa campal em ação de
graças pela assinatura da Lei Áurea, em 1888; e o embarque, em
1889, da família imperial brasileira, rumo ao exílio.
No primeiro aniversário da
república, Marc Ferrez fotografou a festa de comemoração
diante do quartel do Exército. Juan Gutiérrez, fotógrafo e
fototipista espanhol, registrou no Rio de Janeiro, na década
de 1880, a revolta da Armada e documentou a campanha de
Canudos, onde teria morrido. Algumas de suas fotos ilustram
edições antigas de Os sertões, de Euclides da Cunha. Outras
coleções importantes dos primeiros tempos da fotografia no
Brasil pertencem ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo e ao
do Rio de Janeiro, onde está o acervo de Malta; à Cinemateca
Brasileira, em São Paulo; ao Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro; ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro; e ao
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de
Janeiro, que inclui parte da coleção de Gutiérrez.
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