Sociedade (Sociologia)
Isolado de seus semelhantes,
o ser humano é incapaz de desenvolver suas potencialidades
intelectuais e torna-se selvagem como um animal da floresta.
Esse fenômeno foi observado na prática em crianças que
sobreviveram por anos em meios naturais, afastados do convívio
social.
Sociedade é o agrupamento de
indivíduos entre os quais se estabelecem relações econômicas,
políticas e culturais. Numa sociedade existe unidade de língua
e cultura e seus membros obedecem a leis, costumes e tradições
comuns, unidos por objetivos que interessam ao conjunto, ou às
classes que nele predominam. Em sentido estrito, confunde-se
com a comunidade política que vive num estado nacional e seus
limites são as fronteiras políticas e geográficas do estado. A
idéia de sociedade pressupõe um contexto de relações humanas
no qual ocorre a interdependência entre todos e cada um de
seus componentes, que subsiste tanto pelo caráter unitário das
funções que cada membro desempenha como pela interiorização
das normas de comportamento e valores culturais dominantes em
cada comunidade.
Toda a humanidade pode ser
considerada como uma única sociedade, mas em sentido
sociológico fala-se de sociedade como um sistema funcional
abstrato, sem identificação com um país ou cultura
determinados, ou então de forma plural no tempo (sociedade
antiga, medieval, moderna etc.) e no espaço (sociedade
americana, mexicana, japonesa, brasileira etc.).
No interior das sociedades se
observa a formação de grupos de pessoas cujos interesses
coincidem em certa medida, como as famílias, os clãs, as
comunidades e as associações. Desses conjuntos, que geralmente
mantêm estrutura própria, os mais significativos são as
comunidades e as associações. A comunidade é uma sociedade
geograficamente localizada, de estrutura definida, cujos
membros têm um modo de vida comum. Pode constituir-se em
dimensão geograficamente reduzida, como um povoado, ou
estender-se por um país de extensão continental. A associação
tem características específicas e delimitadas: é um
agrupamento organizado de indivíduos que visam à consecução de
objetivos comuns.
Entre os modelos modernos de
associação estão os partidos políticos e os sindicatos, que
têm a finalidade de defender interesses específicos de
determinadas classes sociais e de categorias profissionais.
Outro exemplo de associação é o estado, que tem a função
básica de preservar a segurança e o bem-estar dos grupos
sociais que vivem sob seu domínio. O estado, no entanto, só
forma uma sociedade perfeita quando não lhe faltam os
elementos essenciais de uma sociedade natural: unidade de
língua e cultura, história e tradição comuns. Diferentes
nações muitas vezes formam um estado, mas nem todas as nações
têm existência como estado.
Tipos de sociedades. Não
existe acordo entre os especialistas sobre os elementos
essenciais que possam servir de base para uma classificação
consistente das sociedades, com valor e alcance universais.
Observam-se, porém, duas grandes tendências: a que adota
critérios externos à própria organização, como o estado de
conhecimento ou das técnicas de trabalho, e a que se fixa em
critérios internos, como o grau de simplicidade ou
complexidade da organização social.
Ao primeiro grupo pertenceu
Auguste Comte, pioneiro da ciência empírica e teórica da
sociedade, que chamou de sociologia, e na idéia de uma ordem
cultural como elemento constitutivo da sociedade. Fundamentou
sua teoria da sociologia em duas proposições correlatas: a lei
dos três estados e o teorema segundo o qual as ciências
teóricas formam uma hierarquia em cujo ápice está a
sociologia.
Comte baseou-se no nível dos
conhecimentos para estabelecer a evolução da sociedade por
três estados que se sucedem: no primeiro há uma sociedade
teológica de estrutura militar, fundamentada na propriedade e
na exploração do solo; no segundo, uma sociedade de legistas,
caracterizada pela distinção clara entre o poder temporal e o
poder espiritual; e no terceiro há uma sociedade industrial ou
positivista, na qual aplicam-se as ciências positivas à ordem
natural para transformar as condições materiais, com o
surgimento da indústria.
Karl Marx e Friedrich Engels
fundamentaram a estrutura da sociedade capitalista nas
relações de produção e sua evolução pela luta de classes. Na
produção de bens materiais, os homens entram em relações
necessárias, independentes de sua vontade. Essas relações de
produção correspondem a um dado grau de desenvolvimento das
forças produtivas materiais e o conjunto dessas relações forma
a estrutura econômica da sociedade. É possível distinguir, em
qualquer sociedade, a base econômica, ou infra-estrutura, e a
superestrutura, constituída pelas instituições jurídicas e
políticas e pelas ideologias.
A estrutura social de uma
sociedade é, assim, uma totalidade articulada em que os
elementos que a compõem têm sua função determinada pelo lugar
que ocupam no todo. O conceito de modo de produção é teórico,
isto é, não existe na realidade empírica e se refere à
totalidade social global. É constituído por uma estrutura
global formada por três estruturas regionais (econômica,
jurídico-política e ideológica), uma das quais domina as
outras, embora a estrutura econômica seja sempre determinante,
em última instância.
Na maior parte das
sociedades, porém, a produção de bens materiais não se efetua
de uma só forma. O mais freqüente é que numa mesma sociedade
convivam diversos modos de produção, subordinados a um modo de
produção dominante, que lhes impõe leis de desenvolvimento,
embora continuem existindo com relativa autonomia. Essa
realidade social empírica, historicamente determinada, é
referida com o conceito de formação social. A teoria da
história representa o estudo da sucessão descontínua dos
diferentes modos de produção.
Marx e Engels dividiram as
sociedades em seis grupos: a comunidade tribal, agrupamento
primitivo de famílias; a sociedade asiática, caracterizada
pelo despotismo; a sociedade antiga, na qual as relações de
classe estabeleciam-se entre cidadãos e escravos; a sociedade
germânica, rural e profundamente individualista; a sociedade
feudal, extremamente hierarquizada; e a sociedade capitalista,
marcada pelo domínio da burguesia e com relações de classe
nitidamente afirmadas. Previram o surgimento de uma sétima
sociedade, a comunista, na qual desapareceriam as classes
sociais.
No grupo de autores que
classificam as sociedades a partir de critérios internos
destacam-se Herbert Spencer, Talcott Parsons e Émile Durkheim.
Spencer baseou-se na doutrina do evolucionismo para elaborar
sua teoria sociológica, na qual a premissa básica é a analogia
orgânica, isto é, a identificação entre sociedade e organismo
biológico: tanto a sociedade como os organismos se distinguem
da matéria inorgânica pelo crescimento visível durante sua
existência; tanto as sociedades como os organismos aumentam em
complexidade de estrutura à medida que crescem em tamanho; e
uma diferenciação progressiva de funções acompanha a
diferenciação progressiva da estrutura da sociedade e dos
organismos.
O fato principal da "lei
geral da evolução" é o movimento das sociedades, de simples
para os diversos níveis das sociedades compostas. Spencer fez,
assim, a distinção entre sociedades simples (grupos nômades,
carentes de organização política e com incipiente divisão de
trabalho) e sociedades complexas (nas quais as funções sociais
e econômicas multiplicam-se). As sociedades compostas surgiram
da agregação de algumas sociedades simples; a agregação de
sociedades compostas deu origem às duplamente compostas.
Durkheim estabeleceu uma
diferença entre sociedade primitiva, caracterizada pela
"solidariedade mecânica", de forte consciência coletiva; e a
sociedade complexa dominada pela "solidariedade orgânica", de
marcada diferenciação social. A solidariedade mecânica
predomina quando existe grande semelhança entre os indivíduos
da sociedade, que partilham sentimentos, adotam os mesmos
valores e admitem as mesmas crenças. A solidariedade orgânica
é o consenso resultante da diferença, fenômeno que caracteriza
a sociedade moderna.
Parsons buscou a
diferenciação das sociedades na capacidade de adaptação de sua
organização social, de tal modo que à maior capacidade de
adaptação generalizada corresponde uma complexidade crescente.
Classificou as sociedades em três tipos fundamentais: as
sociedades primitivas, com escasso grau de diferenciação e
forte componente religioso; as sociedades intermediárias,
identificadas pelo emprego da escrita e por sua estrutura de
classes; e as sociedades modernas, que se distinguem pela
preponderância do direito, inspirado no que Max Weber chamou
de "racionalidade formal".
Evolução da sociedade.
Quaisquer que sejam os fundamentos em que os cientistas
sociais se baseiam, todos estão de acordo em que a sociedade
sofreu um processo gradual de transformação ao longo do tempo.
O tipo mais primitivo de organização social que se conhece é a
ordem comunal ou tribal, em que os indivíduos viveram juntos
para garantir a sobrevivência de todos. Esses agrupamentos
dedicavam-se à busca nômade de alimentos e instalavam-se de
forma provisória em cavernas e acampamentos. À medida que se
esgotavam as reservas naturais ou as condições climáticas
assim o exigissem, mudavam-se para outros sítios mais
favoráveis ao grupo.
O domínio do fogo deflagrou
uma verdadeira revolução tecnológica. Permitiu o
aperfeiçoamento dos utensílios e sua transformação em armas
para a caça que, junto à extração de alimentos vegetais, era a
fonte de alimentação. A domesticação de animais marcou uma
etapa importante da evolução da sociedade primitiva: o momento
da transição de um estado nômade para uma forma de vida
sedentária, em locais geográficos permanentes. Surgiram as
tribos, agrupamentos de indivíduos ligados por laços de
parentesco. Mas a permanência em espaço circunscrito limitou o
acesso às fontes alimentares, basicamente caça, pesca e coleta
de frutos e raízes silvestres. A necessidade de ampliar os
estoques alimentares levou à atividade agrícola e mais uma
etapa foi alcançada com a conversão do pastoreio e da
agricultura nas principais fontes de subsistência. Surgiram os
primeiros proprietários da terra, dominadores da economia
tribal.
O domínio das técnicas de
utilização dos metais marcou mais uma etapa importante na
evolução social. A divisão de trabalho acentuou-se e
possibilitou maior concentração de riqueza nas mãos de alguns
indivíduos. Permitiu o aumento das atividades de troca entre
indivíduos ou entre grupos, o que deu origem ao comércio. A
igualdade econômica inicial deixou aos poucos de existir e
surgiu o regime da propriedade privada dos meios de produção.
A sociedade escravista surgiu
quando a propriedade sobre os objetos e a terra ampliou-se
para a posse de seres humanos, os prisioneiros de guerra. Seu
fundamento econômico reside na possibilidade de cada indivíduo
ser capaz de produzir mais do que o necessário para a própria
sobrevivência, ou seja, um excedente, passível de ser
apropriado por outrem. O processo de acumulação de riqueza
acentuou-se e algumas famílias tornaram-se mais ricas com o
uso da mão-de-obra escrava, barata e abundante.
O modelo de sociedade baseado
no trabalho escravo declinou em função da inexistência de
estímulo para que o trabalhador escravizado executasse as
funções mais complexas que progressivamente lhe foram sendo
exigidas. O progresso das técnicas produtivas e a necessidade
de maior produtividade impuseram uma revolução nas relações de
produção: o trabalho livre, com retribuição de certa forma
proporcional ao esforço despendido, que se implantou com o
sistema feudal. Com uma hierarquia rígida, o feudalismo
fundava-se basicamente na existência de três classes: a
nobreza e o clero, que formavam a classe dominante, no topo da
pirâmide social; um segmento intermediário formado por
artesãos e comerciantes; e, na base, os servos que eram, em
sua maioria, descendentes dos antigos escravos ou camponeses
arruinados. A posição dentro da hierarquia social era
determinada pelos costumes e leis, que davam à classe
dominante enormes privilégios políticos, econômicos e sociais.
A sociedade burguesa surgiu
com a decadência econômica da nobreza e do clero e a
acumulação de riquezas pelos comerciantes, beneficiados
sobretudo pelas grandes descobertas marítimas e a ampliação
extraordinária das atividades mercantis e industriais. A
partir da revolução industrial, desencadeou-se um processo que
se traduziu em transformações radicais em todas as áreas da
atuação humana. No novo modo de produção, o trabalho humano
transformou-se em bem econômico e as associações de artesãos
deram lugar às fábricas, onde trabalhavam operários
assalariados. A liberdade de comércio tornou-se a síntese de
todas as liberdades e a produção e o consumo chegaram a
regiões geográficas até então isoladas. As ciências e as artes
universalizaram-se. Surgiu a sociedade urbana, centralizada, a
partir do crescimento físico e econômico dos burgos, e em seu
interior formaram-se novas classes sociais.
Cultura. Ao longo do processo
de mudanças econômicas e sociais dos agrupamentos sociais,
surgiram e desenvolveram-se, ao mesmo tempo, as formas de
comportamento e as ideologias que se traduzem nas
manifestações culturais do grupo social. A cultura condicionou
todas as atividades dos indivíduos e do grupo social --
habitação, hábitos de convivência, papéis sociais, relações
dos indivíduos entre si, dos indivíduos com os diferentes
grupos, dos grupos entre si e com o conjunto social, ritos
religiosos, alimentação, trabalho, legislação e outras áreas.
Essas mesmas atividades exerceram sobre a cultura uma ação
recíproca. Surgiram as artes, a linguagem, os costumes, as
leis, as religiões, as concepções filosóficas e ideológicas,
em resumo, tudo o que integra uma cultura e identifica uma
sociedade.
Características da sociedade
tecnológica moderna. Na sociedade tecnológica, o ser humano
não vive mais num meio natural e sim num meio técnico, que
interpõe entre o homem e a natureza uma rede de máquinas e
técnicas apuradas. O homem explora a natureza, domina-a e
utiliza-a para seus fins. Em decorrência da expansão dos
recursos técnicos, a estrutura da sociedade tecnológica
resulta muito mais complexa do que a da sociedade tradicional.
Quatro fatores contribuíram para essa mudança social tão
profunda: a tecnologia, um avançado sistema monetário e
creditício, a crescente divisão do trabalho e a migração em
massa da mão-de-obra do setor primário de produção
(agricultura, caça, pesca e mineração) para os setores
secundário (indústria) e terciário (comércio, transportes,
profissões liberais etc).
Em conseqüência da ruptura
entre as funções de produtor e consumidor, desempenhadas no
passado pelos mesmos indivíduos, e da multiplicação artificial
das necessidades de consumo (e por isso esse tipo de sociedade
também é denominado "sociedade de consumo"), a organização
social desdobrou os papéis sociais atribuídos a uma mesma
pessoa. Um indivíduo é ao mesmo tempo pai de família,
empregado de uma fábrica e membro de um clube, de um partido
político, de um sindicato, de uma igreja etc. Por conseguinte,
os riscos de conflito entre os papéis são muito maiores do que
na sociedade tradicional.
As sociedades modernas
apresentam uma extrema divisão de trabalho. As profissões se
especializam cada vez mais e uma forte competitividade atua
como meio de seleção no mercado de trabalho. A necessidade de
controle nas empresas, na administração pública e nas
inumeráveis instituições (esportivas, políticas,
profissionais, religiosas etc.) confere a essas sociedades um
caráter eminentemente burocratizado. É também uma sociedade
basicamente urbana, na qual a concentração demográfica, a
diversidade das profissões e as desigualdades na distribuição
de renda promovem uma profunda divisão de classes com
interesses conflitantes.
A fraqueza do indivíduo
isolado levou à proliferação de grupos de interesse
(sindicatos, associações profissionais, sociedades agrárias
etc.). A multiplicidade de associações dá lugar à existência
de diversas elites que representam, ou dizem representar, uma
determinada comunidade (etnia, sindicato, partido político
etc.). Essas elites lutam entre si, atuando como pontas de
lança de seus respectivos grupos de interesse, o que leva o
conflito a constituir-se em elemento permanente da organização
social fragmentada e diversificada da sociedade tecnológica.
A mentalidade dominante na
sociedade tecnológica também difere sensivelmente da que
predomina na sociedade tradicional. A força da tradição é
substituída pela racionalidade e a valorização da instrução. A
mentalidade tecnológica prefere a mudança, que associa ao
progresso, à permanência de costumes e valores. Em
conseqüência, a desmitificação do mundo pela racionalidade e a
ciência supõe uma profunda transformação da ética e da moral
tradicionais, minando profundamente as crenças religiosas, num
processo denominado "secularização".
Organização social. A unidade
estrutural do grupo ou da sociedade traduz-se no conjunto das
diferentes maneiras de co-adaptação e coordenação das
atividades individuais e sociais, isto é, na organização
social. Sistema de relações entre os membros de um grupo ou
entre os grupos de uma sociedade, a organização social implica
sempre direitos e deveres reciprocamente aceitos. Seu
princípio básico é o da coordenação social, isto é, da
harmonia social, que equivale ao papel que cada membro exerce
em cooperação com os demais integrantes do grupo.
A manutenção da organização
social de um grupo traduz-se pelas instituições, que devem
funcionar em interação, pelas classes em que a sociedade se
divide, de acordo com critérios econômicos ou políticos, e
pelos grupos sociais, conjuntos de pessoas ligadas por
interesses e objetivos comuns. Essas instituições adquirem
formas específicas no interior da organização social, que se
traduzem em associações religiosas, políticas, financeiras,
familiares etc.
As formas de organização
social variam de acordo com os grupos humanos, cujos
integrantes adotam comportamentos aceitos pelo conjunto. As
variações aceitáveis orientam-se pelo padrão estabelecido e
representam um compromisso entre a rigidez do padrão e as
circunstâncias do momento.
Em cada sociedade há uma
hierarquia de valores materiais e não-materiais que diferem
segundo os grupos e de acordo com a importância que se atribui
a cada um dos elementos que integram sua cultura. Assim,
observam-se na organização social as diversas formas de
casamento, os tipos de parentesco, a estrutura da família, as
formas de governo, as relações comerciais e de trabalho e
muitas outras.
A organização social depende
basicamente da conservação das funções sociais e da divisão
social do trabalho. A conservação das funções sociais
refere-se à permanência e à continuidade da vida social: a
sociedade deve manter íntegras suas instituições, ao longo das
gerações que se sucedem, embora adote modificações naturais
introduzidas de modo gradual pelos novos integrantes. A
divisão social do trabalho garante que todas as funções
necessárias ao funcionamento da sociedade sejam preenchidas.