DENGUE NO
BRASIL
Dengue,
doença infecciosa tropical e subtropical, caracterizada por
febre e dor intensa nas articulações e músculos, inflamação
dos gânglios linfáticos e erupção da pele. O agente causador
é um vírus transmitido de pessoa a pessoa pelos mosquitos do
gênero Aedes, principalmente o Aedes aegypti.
Há quatro tipos de vírus causadores da dengue. O nome da
doença se deve ao fato de que, ao atacar as articulações,
faz o paciente mover-se com um andar requebrado ("dengoso"
ou "cheio de dengues").
O mosquito se infecta ao picar uma pessoa
contaminada e, após oito a 11 dias incubando o vírus, pode
transmiti-lo a outra pessoa. A forma mais grave da doença é
a dengue hemorrágica, que causa hemorragia gastrintestinal e
das mucosas e pode provocar choque e até a morte. O vírus
responsável pela forma hemorrágica chegou ao Brasil em
meados da década de 1980, depois de ter provocado uma
epidemia em Cuba.
A guerra e as migrações provocaram um aumento
dos casos de leishmaniose visceral. O comportamento humano
está associado à explosão das doenças sexualmente
transmissíveis. O grande avanço nos transportes possibilita
também maior intercâmbio de microorganismos e de seus
transmissores, como os insetos que transmitem dengue e
malária. A construção de represas vem sendo associada ao
aumento de casos de esquistossomose e a surtos de febre do
vale do Rift. O crescimento populacional, associado a um
processo de urbanização descontrolada, contribuiu para a
disseminação da dengue e da cólera. Alterações no clima
parecem ter sido responsáveis por surtos de síndrome
pulmonar por hantavírus.
Aedes aegypti,
principal transmissor da dengue e da febre amarela urbana.
Oriundo do Velho Mundo, esse mosquito acompanhou o homem em
sua migração pelos continentes. Atualmente é considerado um
mosquito cosmopolita, encontrado nas regiões tropicais e
subtropicais, principalmente em locais de grande
concentração humana.
No Brasil, o Aedes aegypti foi
introduzido no período colonial e causou sérias epidemias de
febre amarela urbana. Em 1955, foi erradicado do país.
Contudo, como outros países do continente não tiveram a
mesma preocupação, o mosquito foi reintroduzido em 1967,
iniciando logo depois uma alarmante propagação da dengue.
Hoje, ocorre nos estados litorâneos, no Centro-Oeste, em
Minas Gerais e em Tocantins.
Febres hemorrágicas,
grupo de doenças agudas, de origem viral. São as mais
preocupantes moléstias emergentes, por provocarem extensas
epidemias e apresentarem índices altos de mortalidade. As
mais conhecidas no Brasil são a febre amarela, hoje restrita
à sua forma silvestre, e a síndrome hemorrágica da dengue,
ou dengue hemorrágica. Outras três famílias de vírus também
causam essas doenças: arenavírus, bunyavírus e filovírus.
Entre os primeiros, figuram os vírus Junin, Machupo e Sabiá,
responsáveis pelas febres hemorrágicas argentina, boliviana
e brasileira. Entre os segundos, destacam-se os hantavírus,
que causam síndrome pulmonar e febre hemorrágica com
síndrome renal, ambas já registradas no país. Dos filovírus,
o mais conhecido é o Ebola, que provocou surtos na África.
Veja o Texto a seguir:
O vetor do dengue
O dengue é transmitido pela fêmea do mosquito
Aedes aegypti, que também é vetor da febre amarela. Qualquer
epidemia das duas doenças está diretamente ligada à
concentração do mosquito, ou seja, quanto mais desses
insetos, mais elas se farão presentes.
O Ae. aegypti surgiu na África (provavelmente
na região nordeste) e de lá espalhou-se para Ásia e
Américas, principalmente através do tráfego marítimo. No
Brasil, chegou no século XVIII com as embarcações que
transportavam escravos, já que os ovos do mosquito podem
resistir, sem estar em contato com a água, por até um ano.
Em 1955, uma grande campanha realizada pela
Organização Pan-Americana de Saúde chegou a erradicar o Ae.
aegypti do Brasil e de diversos outros países americanos. No
entanto, a campanha não foi completa e o mosquito permaneceu
presente em várias ilhas do Caribe, Guianas, Suriname,
Venezuela e sul dos Estados Unidos, de onde voltou a
espalhar-se. No fim da década de 70, o Brasil novamente
contava com a presença do vetor em suas principais
metrópoles.
Hoje em dia, considera-se a erradicação do
Ae. aegypti praticamente impossível devido ao crescimento da
população, ocupação desordenada do ambiente e à falta de
infra-estrutura dos grandes centros urbanos. A
industrialização também dificulta o enfrentamento desse tipo
de inseto, já que os novos produtos descartáveis por ela
produzidos (tais como copos e garrafas de plástico) são
eliminados de forma incorreta e acabam por transformar-se em
possíveis focos para a multiplicação do Ae. aegypti. Assim,
o máximo que se pode fazer é controlar a presença do
mosquito.
O Ae. aegypti tem se caracterizado como um
inseto de comportamento estritamente urbano, sendo raro
encontrar amostras de seus ovos ou larvas em reservatórios
de água nas matas. Mesmo assim, macho e fêmea alimentam-se
da seiva das plantas, presentes, sobretudo, no interior das
casas, apesar de só ela picar o homem em busca de sangue
para maturar os ovos. Em média, cada Ae. aegypti vive em
torno de 30 dias e a fêmea chega a colocar entre 150 e 200
ovos de cada vez. Ela é capaz de realizar inúmeras posturas
no decorrer de sua vida, já que copula com o macho uma única
vez, armazenando os espermatozóides em suas espermatecas
(reservatórios presentes dentro do aparelho reprodutor). Uma
vez com o vírus da dengue, a fêmea torna-se vetor permanente
da doença e calcula-se que haja uma probabilidade entre 30 e
40% de chances de suas crias já nascerem também infectadas.
Os ovos não são postos na água, e sim
milímetros acima de sua superfície, em recipientes tais como
latas e garrafas vazias, pneus, calhas, caixas d'água
descobertas, pratos de vasos de plantas ou qualquer outro
que possa armazenar água de chuva. Quando chove, o nível da
água sobe, entra em contato com os ovos que eclodem em pouco
mais de 30 minutos. Em um período que varia entre cinco e
sete dias, a larva passa por quatro fases até dar origem a
um novo mosquito.
Experiências demonstram que a melhor
oportunidade para enfrentar o Ae. aegypti se dá na fase
larval, pois o mosquito tem apresentado resistência aos
inseticidas. A presença dos mosquitos depende muito das
condições climáticas (mais chuvas, mais mosquitos) e de
políticas públicas. Especialistas ainda consideram os
guardas sanitários a melhor maneira de controlar a presença
do Ae. aegypti, pois somente visitas periódicas feitas de
casa em casa são eficientes para combater o mosquito e
ensinar a população a enfrentar o inseto. Além disso, faz-se
necessário um constante monitoramento de terrenos baldios,
casas abandonadas e quaisquer outros logradouros que possam
servir de possíveis focos para a procriação do vetor do
dengue.
Perguntas mais freqüentes (respondidas por
Anthony Guimarães):
1) Por que o DDT e a utilização de aviões e
helicópteros (como já ocorreu nos EUA) é eficiente para
outros mosquitos e ineficiente para combater o Ae. aegypti?
R: Nos EUA, e em outros lugares, o uso de aviões para
pulverizar inseticida destina-se ao controle de insetos,
inclusive mosquitos, que freqüentam rotineiramente ambientes
extradomiciliares (fora das casas). O Ae. aegypti permanece
quase que exclusivamente dentro das casas, onde inseticidas
pulverizados de avião não atingem. Nos EUA o controle visava
o transmissor da Febre do Nilo, um mosquito do gênero Culex
e que não vive dentro das casas.
2) Qual o ambiente preferido pela fêmea. Em
quais condições (temperatura, ventos) ela não sobrevive ou
não se torna ativa? Onde elas são mais comumente
encontradas?
R: As fêmeas e os machos (que geralmente acompanham as
fêmeas) ficam dentro das casas (sob mesas, cadeiras,
armários etc.). A temperatura ideal fica em torno dos 24 e
28 oC. Temperaturas acima dos 32 oC e abaixo dos 18 oC
costumam inibir a atividade do Ae. aegypti e quando ficam
acima dos 40 oC e abaixo dos 5 oC são letais.
3) Há possibilidade de outra espécie de Aedes
transmitir dengue? Se existe, até aqui, o que impede isso de
acontecer?
R: Sim. O Ae. albopictus também pode transmitir dengue. A
transmissão não é comum porque o Ae. albopictus não costuma
freqüentar o domicílio como o Ae. aegypti.
4) Das formas de prevenção (complexo B, borra
de café, água sanitária, levedo de cerveja, vela de
andiroba, repelentes, inseticida caseiro etc), quais são
realmente eficientes?
R: Levedo de cerveja e complexo B não devem ser utilizados,
pois, nas dosagens capazes de afugentar os mosquitos, podem
ser prejudiciais à saúde. Borra de café pode ser eficiente
dentro de uma rotina periódica a cada dois dias. Água
Sanitária não tem se mostrado eficaz nas dosagens
preconizadas (uma colher de chá para um litro d'água), em
altas concentrações pode matar a larva em 24h. Vela de
andiroba tem eficácia parcial e pode ser usada em ambientes
fechados com no máximo 12 metros quadrados. Repelentes e
inseticidas caseiros podem ser usados seguindo as
recomendações da embalagem ou recomendação médica no caso de
crianças e pessoas sensíveis.
5) Existe algum meio natural para combater o
Ae. aegypti? Tais como vermes que parasitam as larvas,
predadores naturais etc.
R: O mecanismo natural mais eficaz para o Ae. aegypti é o
bioinseticida BTI (Bacillus thuringiensis israelensis), que
ataca a larva do Ae. aegypti e pode ser utilizado em
reservatórios domésticos, inclusive caixa d'água. Predadores
naturais (larvas e ninfas de insetos, nematódeos, pequenos
vertebrados), que também atacam as larvas de mosquitos, não
se criam em reservatórios domésticos, onde estão as larvas
do Ae. aegypti.
6) Até que ponto a utilização de venenos,
como o DDT e os larvicidas podem afetar o meio ambiente?
Quais (se existirem) seus efeitos colaterais?
R: Qualquer inseticida usado indiscriminadamente traz danos
ao meio ambiente. O contato direto e permanente com produtos
químicos pode ocasionar desequilíbrio ambiental e problemas
a saúde do homem. Por esse motivo o uso desses inseticidas é
restrito aos órgãos governamentais ou credenciados, que
possuem equipes de técnicos capazes de eleger a dosagem e o
inseticida a ser utilizado.
7) O vírus causa problemas ao mosquito?
R: Não.
8) Como é o ciclo do vírus dentro do
mosquito?
R: Para se tornar infeccioso ao homem o vírus passa por um
período de incubação no mosquito de 10 dias. Após essa fase
o mosquito estará infectado para o resto da vida e
transmitirá o vírus em todas as picadas que realizar.
9) Quais as principais linhas de pesquisa
desenvolvidas na Fiocruz em relação ao Aedes?
R: O Ae. aegypti talvez seja o mosquito mais bem estudado
até hoje. O seu controle está diretamente relacionado à
eliminação dos criadouros domésticos, considerando-se os
conhecimentos existentes sobre a sua biologia. No campo da
entomologia (parte da ciência que estuda os insetos), a
Fiocruz vem desenvolvendo várias linhas de pesquisa sobre a
biologia e ecologia de mosquitos vetores de doenças no
Brasil:
1. Potencialidade de espécies silvestres
transmissoras de arboviroses e malária conviverem com o
homem em áreas peri-urbanas, rurais e turísticas.
2. O impacto causado pela construção de
hidrelétricas, atividades de mineração (inclusive garimpos
clandestinos) e assentamento de novos colonos ("sem terra")
em áreas com alto risco de doenças transmitidas por
mosquitos (malária, febre amarela silvestre e outras
arboviroses).
3. Estudos sobre a biologia e ecologia de
mosquitos em ambiente silvestre (Parques Nacionais e
Estaduais), visando fornecer subsídios para o controle
daqueles que eventualmente venham a transmitir doenças ao
homem.
Fonte: Anthony Érico Guimarães, entomologista da Fiocruz