Hermafroditismo
Hermafroditas são os indivíduos que possuem
simultaneamente tecidos ovarianos e testiculares.
Em 75% dos casos os dois tipos de tecidos
estão presentes em duas gônadas mistas que são denominadas
ovotéstis; em outros casos há um testículo de um lado e um
ovário no outro lado do corpo; pode também haver um
ovotéstis de um lado e um testículo ou um ovário do outro
lado.
A genitália interna dos hermafroditas depende
da gônada existente. Quando há um testículo e um ovário
desenvolve-se um vaso deferente no lado do testículo e uma
trompa do lado oposto. Se houver ovotéstis de ambos os
lados, a genitália interna é geralmente apenas feminina, o
que ocorre também quando há um ovotéstis e uma gônada,
principalmente quando esta é um ovário. Seja como for, a
quase totalidade dos hermafroditas possui um útero.
Os genitais externos geralmente apresentam
tendência de masculinização; é o que ocorre em 70% dos
casos. Desse modo os indivíduos são criados como meninos,
embora geralmente apresentem anomalias como hipospadia e
criptorquidismo; quando jovens, apesar de serem
psicossocialmente meninos, muitas vezes apresentam
menstruação e ginecomastia, o que leva à sua identificação
ao atingirem a puberdade. Se forem criados como meninas
geralmente apresentam na puberdade crescimento excessivo do
clitóris e falta de menstruação. O tratamento inclui
hormonioterapia e correção cirúrgica dos genitais alterados,
com o que os hermafroditas com predominância masculina ou
feminina podem levar vida normal e até se reproduzir.
Cerca de 65% dos hermafroditas apresenta
cariótipo feminino, sendo os demais cromossomicamente
masculinos ou, então, mosaicos, Isto é, indivíduos que
possuem tipos diferentes de células, algumas masculinas e
outras femininas. Em um caso de mosaicismo é viável a
hipótese de que tenha havido dispermia, ou seja, um
espermatozóide fecundou o óvulo e outro fecundou um
corpúsculo polar, desenvolvendo os dois zigotos num mesmo
indivíduo. Na maioria dos casos, no entanto, a causa do
hermafroditismo é desconhecida.
Pseudo-Hermafroditismo Masculino
Nestes casos o cariótipo á masculino, havendo
vários graus de feminização das genitálias Interna e
externa.
Nos casos extremos, os Indivíduos afetados
pela Síndrome da feminização testicular nascem com genitália
externa feminina e são criados como meninas, tendo
desenvolvimento físico e psíquico tipicamente femininos.
Contudo, possuem testículos alojados seja na
região inguinal, seja no abdome ou, ainda, nos grandes
lábios. Sua vagina é curta e termina em fundo cego;
evidentemente são estéreis e não menstruam (Isto é, têm
amenorréia primária), sendo exatamente esta característica
que leva o indivíduo afetado ao médico quando, então, sua
anomalia pode ser identificada. Os condutos genitais
internos são, na maioria dos casos, masculinos, visto que os
testículos produzem o hormônio antimülleriano.
Essa síndrome decorre da falta de resposta
dos tecidos aos hormônios masculinos. A insensibilidade das
células se deve à falta de receptores celulares tanto à
testosterona como à sua forma ativa que é a
5-alfa-diidrotestosterona; assim, apesar desses hormônios
serem produzidos normalmente eles não se unem às células
onde deveriam agir
Sendo incapazes de responder aos andrógenos
em qualquer época da vida, esses Indivíduos se desenvolvem
como mulheres à custa dos estrógenos que são produzidos
pelos testículos e pelas supra-renais. Como a testosterona
não atua neles, mesmo que a anomalia seja percebida na
infância, a aplicação deste hormônio não traz nenhum
resultado e nem mesmo uma cirurgia pode conferir o sexo
masculino a eles. Esse tipo de intersexualidade corresponde
ao caso 4 no quadro da página 91.
A eliminação dos testículos de um jovem
afetado não é recomendável, pois eles são uma fonte de
estrógenos para essas pessoas; contudo, os testículos têm a
tendência de desenvolver tumores na idade adulta, pelo que é
recomendável extirpá-los após os 20 anos quando o
desenvolvimento sexual já se completou.
Da mesma forma como no pseudo-Hermafroditismo
feminino, há formas atenuadas de pseudo-hermafroditismo
masculino, com os Indivíduos apresentando na puberdade
características masculinas incompletas, tais como falta de
barba, pênis pequeno e ginecomastia (crescimento das mamas).
Podem, nesses casos, apresentar desejo sexual e
espermatogênese normais; admite-se que neles os receptores
celulares aos hormônios tenham alguma atividade, de modo que
para eles é indicado tratamento hormonal (visto que
respondem à testosterona) e correção cirúrgica dos defeitos
congênitos.
Ha dúvidas quanto à forma de herança, pois se
algumas evidências indicam herança autossômica dominante com
expressão apenas em indivíduos XY, outras sugerem que a
anomalia seja determinada por um gene situado no cromossomo
X.
Pseudo-Hermafroditismo Feminino
Tipicamente, esses casos correspondem aos
indivíduos que cromossômica e internamente são femininos,
mas que exibem graus variados de masculinização da genitália
externa.
A masculinização pode ter várias causas:
· produção excessiva de andrógenos pelas
supra-renais; é o que se denomina síndrome adrenogenital;
· andrógenos provenientes da placenta ou da
mãe;
· andrógenos ingeridos pela gestante para
evitar aborto.
A síndrome adrenogenital decorre da produção
excessiva de andrógenos pelas supra-renais, os quais têm um
efeito virilizante sobre o feto, seja ele masculino ou
feminino. O problema deriva da inibição de qualquer uma das
enzimas relacionadas com a síntese dos hormônios
glicocorticóides das supra-renais, denominados cortisol e
corticosterona, que se formam a partir do colesterol, como é
ilustrado abaixo.
Em todos os casos, no entanto, a secreção dos
glicocorticóides é diminuída, de modo que a hipófise é
estimulada a secretar continuamente altas quantidades do
hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), que age sobre as
supra-renais estimulando-as a metabolizar mais colesterol.
A causa da virilização é que derivados do
colesterol formados antes do bloqueio transformam-se em
andrógenos, que são responsáveis pela masculinização do
embrião.
Após o nascimento, estes hormônios são
responsáveis por uma sexualidade precoce que se manifesta
através de crescimento físico acelerado na primeira infância
(que, contudo, é logo interrompido pela soldadura dos
ossos), pelo crescimento do clitóris nas meninas e do pênis
nos meninos, pelo aparecimento em ambos de pilosidade
pubiana e axilar, por interesses sexuais incluindo ereção e
ejaculação nos meninos e fantasias eróticas nos dois sexos.
Tais desenvolvimentos físico e sexual
prematuros freqüentemente causam sentimentos de
inferioridade e desajustamento em virtude da incoerência
entre a idade cronológica e a física. Assim, os adultos
aguardam daquela criança física e sexualmente desenvolvida
um comportamento amadurecido, enquanto que entre os demais
componentes da sua faixa etária os interesses sexuais
prematuros causam desconfiança.
Visando normalizar o desenvolvimento
anatômico é indicado o tratamento com glicocorticóides que
compensam a deficiência destes hormônios e inibem a secreção
de ACTH; desta forma, impede-se a produção anormal de
andrógenos, evitando, assim, as alterações físicas. O
atendimento psicossexual envolve o aconselhamento
psicológico que visa integrar as pessoas afetadas em grupos
de idade social superior ao de sua idade cronológica. Não
costumam ocorrer, no entanto, desordens no comportamento
sexual, tal como maior inclinação para a homossexualidade.
A anomalia é devida a um gene autossômico
recessivo e sua incidência é de 1:25.000 nascimentos.