História da Moeda
Origem da Moeda: o Escambo e o
Desenvolvimento da Atividade Econômica
Os primeiros grupos humanos, em geral
nômades, não conheciam a moeda e recorriam às trocas diretas
de objetos (chamada de escambo) quando desejavam algo que
não possuíam. Esses grupos, basicamente, praticavam uma
exploração primitiva da natureza e se alimentavam por meio
da pesca, caça e coleta de frutos. Num ambiente de pouca
diversidade de produtos, o escambo era viável.
O escambo apresenta alguns problemas no que
se refere ao desenvolvimento das atividades econômicas de
uma maneira geral. Ele exige uma dupla coincidência de
desejos, porque quem pescasse e quisesse, por exemplo, um
machado, teria que achar uma outra pessoas que fabricasse
machados e quisesse, exatamente, peixes. Outro problema diz
respeito à indivisibilidade dos objetos nas trocas diretas.
Montoro Filho (1992) exemplifica esse problema salientando a
dificuldade que um fabricante de canoas teria se quisesse
tomar um cafezinho.
A primeira revolução agrícola foi modificando
o sistema baseado no escambo. A vida nômade foi
gradativamente cedendo lugar para sedentária e a produção
passou a diversificar-se com a introdução de utensílios de
trabalho. A divisão social do trabalho começa a se
manifestar e os integrantes do grupo ganham funções
específicas como guerreiros, agricultores, pastores,
artesãos e sacerdotes Dessa maneira, a divisão do trabalho
provocou sensíveis mudanças na vida social. A atividade
econômica tornou-se mais complexa; o numero de bens e
serviços exigidos para satisfação das necessidades do grupo
aumentou, por consequência, a "dupla coincidência de
desejos" torna-se mais difícil; a troca torna-se fundamental
para a sobrevivência do grupo social
A partir de então, alguns bens de aceitação
são eleitos como intermediários de trocas, exercendo,
portanto, função de moeda.
A moeda pode ser conceituada como um
intermediário de trocas
"que serve como medida de valor e que tem
aceitação geral. (...) esta aceitação geral é um fenômeno
essencialmente social. Além disso, como a moeda representa
um poder de aquisição, desde o momento em que é recebida até
o momento em que é dada em pagamento de outra transação, ela
também se caracteriza como uma reserva de valor" (LOPES e
ROSSETTI, 1991: 18).
Evolução Histórica da Moeda
As primeiras moedas foram mercadorias e
deveriam ser suficientemente raras, para que tivessem valor,
e, como já foi dito, ter aceitação comum e geral. Elas
tinham, então, essencialmente valor de uso; e como esse
valor de uso era comum e geral elas tinham,
conseqüentemente, valor de troca). O abandono da exigência
do valor de uso dos bens, em detrimento do valor de troca,
foi gradativo.
Entre os bens usados como moeda estão o gado,
que tinha a vantagem, de multiplicar-se entre uma troca e
outra — mas, por outro lado, o sal na Roma Antiga; o
dinheiro de bambu na China; o dinheiro em fios na Arábia.
"As moedas-mercadorias variaram amplamente de
comunidade para comunidade e de época para época, sob
marcante influência dos usos e costumes dos grupos sociais
em que circulavam" . Assim, por exemplo, na Babilônia e
Assíria antigas utilizava-se o cobre, a prata e a cevada
como moedas; na Alemanha medieval, utilizavam-se gado,
cereais e moedas cunhadas de ouro e prata; na Austrália
moderna fizeram a vez de moeda o rum, o trigo e até a carne.
Com o tempo, as moedas-mercadorias foram
sendo descartadas. As principais razões para isso foram:
·
Elas não cumpriam satisfatoriamente a
característica de aceitação geral exigida nos instrumentos
monetários. Além disso, perdia-se a confiança em mercadorias
não homogêneas, sujeitas à ação do tempo (como no caso dos
gados citado acima), de difícil transporte, divisão ou
manuseio.
·
A característica valor de uso e valor de
troca tornava o novo sistema muito semelhante ao escambo e
suas limitações intrínsecas.
Os metais preciosos passaram a sobressair por
terem uma aceitação mais geral e uma oferta mais limitada, o
que lhes garantia um preço estável e alto. Além disso, não
se desgastavam, facilmente reconhecidos, divisíveis e leves.
Entretanto, havia o problema da pesagem.
Em cada transação, os metais preciosos
deveriam ser pesados para se determinar seu valor. Esse
problema foi resolvido com a cunhagem, quando era impresso
na moeda o seu valor. Muitas vezes, entretanto, um soberano
recontava as moedas para financiar o tesouro real. Ele
recolhia as moedas em circulação e as redividia em um número
maior, apoderando-se do excedente. Esse processo gerava o
que conhecemos como inflação, uma vez que existia um maior
número de moedas para uma mesma quantidade de bens
existentes
Os primeiros metais utilizados como moeda
foram o cobre, o bronze e, notadamente, o ferro. Por serem,
ainda, muito abundantes, não conseguiam cumprir uma função
essencial da moeda que é servir como reserva de valor. Dessa
maneira, os metais não nobres foram sendo substituídos pelo
ouro e pela prata, metais raros e de aceitação histórica e
mundial
O desenvolvimento de sistemas monetários demandaram o
surgimento de um novo tipo de moeda: a moeda-papel. A
moeda-papel veio para contornar os inconvenientes da moeda
metálica (peso, risco de roubo), embora valessem com lastro
nela. Assim surgem os certificados de depósito, emitidos por
casas de custódia em troca do metal precioso nela
depositado. Por ser lastreada, essa moeda representativa
poderia ser convertida em metal precioso a qualquer momento,
e sem aviso prévio, nas casas de custódia A
moeda-papel abre espaço para o surgimento da moeda
fiduciária, ou papel-moeda, modalidade de moeda não
lastreada totalmente. O lastro metálico integral mostrou-se
desnecessário quando foi constatado que a reconversão da
moeda-papel em metais preciosos não era solicitada por todos
os seus detentores ao mesmo tempo e ainda quando uns a
solicitavam, outros pediam novas emissões. A passagem da
moeda-papel para o papel-moeda é tida como uma das mais
importantes e revolucionárias etapas da evolução histórica
da moeda A falência do sistema privado de emissões (quando,
em diversos momentos da História, todos resolviam
reconverter seus papéis-moeda em metais preciosos) levou o
Estado a controlar o mecanismo das emissões e a exercer seu
monopólio. Após o uso de diversos sistemas de conversão que
se mostraram fracassados, os sistemas monetários de quase
todos os países, depois da Grande Depressão gerada pela
crise de 1929-33, com a exceção dos Estados Unidos — que
mantiveram o lastro metálico proporcional até 1971 —,
adotaram o sistema fiduciário. Hoje, esses sistemas
apresentam inexistência de lastro metálico,
inconversiblidade absoluta e monopólio estatal das emissões
Desenvolve-se, juntamente com a moeda fiduciária, a chamada
moeda bancária, escritural (porque corresponde a lançamentos
a débito e crédito) ou invisível (por não ter existência
física). O seu desenvolvimento foi acidental (LOPES e
ROSSETTI, 1991), uma vez que não houve uma conscientização
de que os depósitos bancários, movimentados por cheques,
eram uma forma de moeda. Eles ajudaram a expandir os meios
de pagamento através da multiplicação de seu uso. Hoje em
dia, a moeda bancária representa a maior parcela dos meios
de pagamento existentes.
Criada pelos bancos comerciais, essa moeda
corresponde à totalidade dos depósitos à vista e a curto
prazo e sua movimentação é feita por cheques ou por ordens
de pagamento — instrumentos utilizados para sua
transferência e movimentação Atualmente, as duas formas de
moeda utilizadas são a fiduciária e a bancária, que têm
apenas valor de troca.
Funções da Moeda
Para aprofundar as utilizações da moeda
descritas acima, quando foi feita a sua conceituação, estão,
a seguir, as principais funções da moeda relacionadas por
Cavalcanti e Rudge:
·
"Intermediária de trocas:
Superação do escambo, operação de economia
monetária, melhor especialização e divisão social do
trabalho, transações com menor tempo e esforço, melhor
planejamento de bens e serviços;
·
Medida de valor:
Unidade padronizada de medida de valor, denominador comum de
valores, racionaliza informações econômicas constrói sistema
agregado de contabilidade social, produção, investimento,
consumo, poupança;
·
Reserva de valor:
Alternativa de acumular riqueza, liquidez por excelência,
pronta aceitação consensual;
·
Função liberatória:
Liquida débitos e salda dívidas, poder garantido pelo
Estado;
·
Padrão de pagamentos:
Permite realizar pagamentos ao longo do tempo, permite
crédito e adiantamento, viabiliza fluxos de produção e de
renda;
·
Instrumento de poder:
Instrumento de poder econômico, conduz ao poder político,
permite manipulação na relação Estado-Sociedade" (CAVALCANTE
e RUDGE, 1993: 37).
Poupança e Investimento
Os grupos humanos organizados acumulam renda
através da produção. A parte da renda utilizada chama-se
consumo e a não consumida transforma-se em poupança. Assim,
a renda é a soma do consumo e da poupança; e a poupança, por
sua vez, é a diferença entre a renda e o consumo.
Para captar poupanças e recursos de
investimento são criados os títulos e valores mobiliários
para satisfazer os motivos acima citados. São títulos de
crédito as Letras de Câmbio, Certificados de Depósito
Bancário (CDB), quotas de fundos de renda fixa etc.
Aplicação de recursos (dinheiro ou títulos) em
empreendimentos que renderão juros ou lucros, em geral em
longo prazo. Num sentido amplo, o termo se aplica tanto à
compra de máquinas, equipamentos e imóveis para instalação
de unidades produtivas, como à compra títulos financeiros
(letras de câmbio, ações etc.). Nesses termos, investimento
é toda aplicação de dinheiro com expectativa de lucro.
Assim, o agente que quiser aumentar seu patrimônio através
do investimento, no sentido de aplicar dinheiro "com
expectativa de lucro", poderá buscar essas rendas monetárias
nos mercados acionários oferecidos nas Bolsas de Valores.
Repartição da Renda
As causas estruturais da pobreza
O ponto de partida para uma abordagem séria e
objetiva da problemática da pobreza é a constatação de que,
tal como existe no Brasil - são cerca de 44 milhões de
pessoas que sobrevivem em condições extremamente precária,
com uma renda mensal inferior a meio salário mínimo1 -, a
pobreza não é um fenômeno isolado, conjuntural ou residual,
que possa ser resolvido pela via filantrópica ou
assistencialista, nem constitui uma "deformação" do
funcionamento da economia e da sociedade brasileiras. Pelo
contrário, a pobreza, assim como a desigualdade e a exclusão
social, é uma manifestação inerente à dinâmica de um mesmo
processo - o desenvolvimento e funcionamento do capitalismo
nas condições específicas da realidade brasileira. Em
conseqüência, a natureza destes fenômenos só pode ser
plenamente apreendida em sua relação com os fatores
estruturais que determinam a geração e reprodução contínua,
sob diferentes modalidades em cada fase da nossa evolução
histórica, dos estados de pobreza e marginalidade social.
As
características estruturais da sociedade brasileira,
marcadas pelo passado colonial e escravocrata- um padrão de
inserção externa subordinada e dependente e uma organização
social interna calcada no monopólio da terra, na
concentração brutal da riqueza e em profundas
desigualdades sociais e regionais -, embora tenham assumido
expressões distintas pari passu as transformações no sistema
de produção, não alteraram seus elementos constitutivos
essenciais. Um traço predominante foi o padrão autoritário
de intervenção do Estado na economia e na sociedade,
construído a partir de uma estrutura de poder em que o
monopólio institucional da elite e a escassa
representatividade dos interesses populares nas instâncias
de decisão política e econômica restringiram a vigência
efetiva dos direitos individuais e sociais da maioria da
população.
Em síntese, as relações de produção que se estabelecem ao
longo do tempo, apesar das modificações no contexto social
(urbano e rural) e político, tenderam a preservar e
reproduzir os elementos de heterogeneidade e polarização da
estrutura social, que são os determinantes imediatos dos
fenômenos de pobreza, desigualdade e exclusão social.
A concentração de renda e riqueza: fator
determinante.
Nesta perspectiva, o eixo central da
problemática da pobreza é a desigualdade na distribuição da
riqueza e, em grande medida como subproduto desta, a
concentração da renda. Outros vetores - a estrutura
altamente regressiva do sistema tributário vigente no país,
o padrão de acumulação historicamente baseado no arrocho
salarial, o mercado de trabalho fundado na precarização do
emprego, o padrão de gasto público que reproduz a exclusão
social, o baixo grau de escolaridade e a precariedade do
ensino público, e os efeitos da inflação, por exemplo -
amplificam e realimentam o processo de concentração e
polarização da estrutura distributiva2 . Dentro deste
contexto, a pobreza é a expressão extrema da desigualdade
social. É a ausência total de garantias de direitos sociais
básicos.
A questão da concentração da riqueza e da renda em nosso
país pode ser avaliada de diversas perspectivas, mas seus
indicadores, em todos os casos, são dramaticamente absurdos.
Comecemos pela terra, cuja apropriação originariamente
concentrada, com o conseqüente controle exercido sobre a mão
de obra, determina o padrão distributivo que se perpetuaria
no país. Completados mais de quatro séculos e meio do
processo de monopolização territorial e formação do
latifúndio inaugurado com as capitanias hereditárias e
preservado, em sua versão pós-colonial, pela Lei de Terras
de 1850, o grau de concentração da propriedade agrária no
país atinge ainda níveis extraordinariamente elevados.
Segundo o Censo
Agropecuário de 1995/6, existiriam no país 5.050.307
estabelecimentos rurais, ocupando uma área total de
353.611.247 hectares. A comparação entre os pontos extremos
da estrutura fundiária é ilustrativa do grau de concentração
e polarização existente. Os estabelecimentos com menos de 10
hectares - são 2.518.628 unidades - ocupam uma área de 7,9
milhões de hectares, inferior à área ocupada por somente 37
estabelecimentos com 100.000 hectares ou mais de superfície,
que é da ordem de 8,3 milhões de hectares. A superfície
média destes 37 estabelecimentos é de mais de 224.000
hectares, ou seja mais de 74.000 vezes o tamanho médio do
grupo de pequenos estabelecimentos com menos de 10 hectares,
que é de apenas 3,0 hectares .
É precisamente neste segmento de pequenos produtores - ao
qual haveria que adicionar a maior parte da população
agrícola excluída do acesso à terra - que se concentram os
fenômenos de pobreza relativa e absoluta no campo.
Agregue-se o fato de que o desenvolvimento do capitalismo na
agricultura, ao gerar uma concentração da propriedade do
capital ainda maior do que a da propriedade da terra,
contribuiu para reproduzir e amplificar o processo de
concentração e polarização da distribuição da renda no setor
rural. O quadro geral do país não difere substancialmente
deste perfil das áreas rurais. De acordo com um estudo
recente de caráter global4 , que considera o conjunto da
população brasileira e, além da terra, inclui outros ativos,
1% da população, pouco mais de 1,5 milhão de pessoas
equivalentes a cerca de 400 mil famílias, controla 17% da
renda nacional e 53% do estoque líquido de riqueza privada
do país, que em 1995 era avaliado em 2.022 bilhões de
dólares. Só para comparar, nos Estados Unidos, por exemplo,
que não são propriamente um modelo em termos de distribuição
eqüitativa da renda e da riqueza, os percentuais
correspondentes ao 1% mais rico da população são de 8% e 26%
respectivamente.
A renda familiar média deste grupo atinge US$ 400.000 por
ano - 25 vezes maior que a renda média dos restantes 99% da
população - e sua riqueza familiar média alcança US$
2.700.000 - equivalente a cerca de 110 vezes a riqueza média
do restante da população.
Ampliando
a análise para os 10% mais ricos da população, segmento que
envolve uma população de cerca de 16 milhões de habitantes e
cerca de 4 milhões de famílias, as disparidades continuam
enormes. A participação deste segmento na renda total atinge
aproximadamente 48%, com o que sua renda média familiar
anual se situa em torno de US$ 96.000.
No outro extremo da escala de distribuição, 40% da população
- ou seja 64 milhões de pessoas, em torno a 13 milhões de
famílias - se apropriam de aproximadamente 8% da renda
nacional, o que eqüivale a uma renda familiar média de US$
1.000 por ano.
Somados, os 20% mais ricos - uma população de
32 milhões de pessoas e 8 milhões de famílias - se apropriam
de quase 65% da renda nacional, ficando 27% para os
restantes 40% da população que integram os extratos de
rendas médias e médias-baixas.
Este quadro se reflete, com maior ou
menor gravidade, nas diversas regiões do país5 . A melhor
distribuição se verifica em São Paulo, onde o 40% mais
pobres da população detém 10,3% da renda estadual enquanto
os 10% mais ricos recebem 42,1%. No outro extremo, a região
Nordeste apresenta a pior distribuição: os 40% mais pobres
recebem 7,5% da renda regional, contra 52,1% recebidos pelos
10% mais ricos. A questão da pobreza têm uma
territorialidade, as desigualdades regionais aprofundam o
processo de empobrecimento da população e sua superação deve
estar no centro de um novo modelo de desenvolvimento.
Não é por acaso o Brasil possui um dos piores padrões de
distribuição de renda e riqueza de toda economia mundial. E
este é o fator determinante da pobreza.
Os efeitos da
concentração da riqueza - terra, ativos imobiliários, bens
de capital, ativos financeiros, etc - sobre a renda são
amplificados pelas políticas públicas regressivas adotadas
pelos governantes de turno.
A política tributária é um exemplo emblemático nesta
matéria. Nossa estrutura tributária está fortemente calcada
sobre as transações de bens e serviços (impostos indiretos).
Segundo um estudo recente, em 1998 a carga tributária sobre
o consumo alcançou 41%, enquanto a incidente sobre o capital
foi de apenas 24%6 . Nos países da OCDE, para citar um
padrão de comparação, a situação é inversa: em 1990, os bens
de consumo representavam 30% da arrecadação total e a
tributação sobre os lucros e rendimentos chegava a mais de
38%.
Além disso, no Brasil o trabalho é tributado mais
intensamente do que o capital. Enquanto nos países da OCDE
as alíquotas efetivas médias no período 1980/91 eram da
ordem de 32,8% sobre o trabalho e 38,4% sobre o capital, no
nosso caso a tributação efetiva atingia 19,3% para o
trabalho e apenas 8,2%. Um outro estudo mais recente
confirma esta distorção do sistema tributário: a carga
tributária incidente sobre os salários varia entre 32% para
os que ganham até 2 salários mínimos e 37% para os segmentos
com níveis de remuneração acima de 30 salários mínimos,
enquanto a carga tributária média do conjunto da economia,
nos últimos anos, tem girado em torno a 29% ou 30% do PIB9 .
No outro extremo, 42% dos 66 maiores bancos que atuam no
país não recolheram imposto de renda no ano de 1998 e mais
da metade das 530 maiores empresas também não pagam imposto
de renda, além do fato que circulariam na economia cerca de
825 bilhões de reais - quase um outro PIB - que não tem
registros na contabilidade da Receita Federal .
O resultado de tudo isso é que o
peso dos tributos para as famílias de baixa renda é maior do
que para aquelas com níveis mais elevados de renda, o que
acentua a desigualdade provocada pela concentração da
riqueza. No caso dos alimentos, por exemplo, cuja carga
tributária média é da ordem de 13,48% nas grandes regiões
metropolitanas, os mais prejudicados são as pessoas que
ganham menos de R$ 372 mensais. Enquanto no grupo de renda
superior a 30 salários mínimos o peso dos impostos varia
entre 0,29% e 0,38%, no caso das famílias mais pobres, que
ganham até dois salários-mínimos e que gastam a maior parte
de sua renda em alimentos, a mera isenção de impostos sobre
os produtos da cesta básica representaria um ganho entre 4%
(Rio de Janeiro, S. Paulo e Belo Horizonte) e 8% (Brasília,
Fortaleza, Belém e Salvador). Um
outro fator relevante na configuração e reprodução do quadro
de desigualdade e pobreza que caracteriza a sociedade
brasileira tem sido a administração dos salários através de
diversas políticas e mecanismos econômicos, institucionais e
de coação extra-econômica, seja para "socializar" os custos
de ajustes cíclicos da economia ou de flutuações do mercado
externo, seja para viabilizar ou aumentar a lucratividade do
capital aplicado nas diferentes esferas do sistema
econômico. Em consequência, os salários médios têm sido
mantidos em patamares baixos - quando não são reduzidos em
termos reais - inclusive em fases de acelerada expansão
econômica. Durante a
ditadura, por exemplo, que levou a extremos o modelo
autoritário de intervenção do Estado no mercado de trabalho
- revogando o poder normativo da justiça do trabalho,
limitando brutalmente as liberdades sindicais e debilitando
a capacidade de negociação dos trabalhadores - os salários
foram fortemente comprimidos embora a economia tenha
alcançado taxas de crescimento sumamente elevadas (11,2%
entre 1968 e 1973 e 6,7% de 1974 a 1980). O padrão de
acumulação vigente neste período levou a um significativo
aumento das desigualdades sociais: a participação dos 10%
mais ricos da população na renda nacional passou de 39,66%
em 1960 para 47,89% em 1980, enquanto a parte correspondente
aos 40% mais pobres caiu, no mesmo intervalo, de 11,45% para
9,73% .
Conotação similar tiveram as políticas de corte
inflacionário e a maior parte dos planos de estabilização,
que penalizaram sistematicamente os salários, ao tempo em
que asseguravam as rendas relativas à propriedade e ao
capital. Exemplo recente foi a fase inicial de preparação do
Plano Real, quando a implantação da URV deixou livre os
preços mas fixou os salários com base na média dos 4 meses
anteriores, reduzindo, de fato, seu poder de compra. De
outro lado, os ganhos salariais que ocorreram imediatamente
após todos os processos de estabilização monetária foram
logo a seguir corroídos pelo processo econômico, como também
ocorreu, ainda que menos abruptamente, com o Plano Real.
Uma análise da evolução da situação salarial na Grande São
Paulo mostra que desde 1985, quando recrudescem as tensões
inflacionárias, até maio de 1995, o rendimento médio real
dos ocupados acumulou uma queda de 42%13 . A trajetória do
salário mínimo apresenta um padrão similar. Depois de
alcançar seu valor relativo mais alto nos anos 50, quando
chegou a representar 2,7 vezes a renda per capita nacional -
hoje representa algo em torno de 30% -, o valor real do
salário mínimo foi sistematicamente corroído pela inflação.
Medido em reais de junho de 1996, o valor real do salário
mínimo passou de R$ 592,96 em 1940 para R$ 373,71 em 1980,
R$175,96 em 1990 e R$ 107,14 em junho de 1996 .
Não é de estranhar então que o salário mínimo no Brasil seja
um dos menores da América Latina e corresponda a
aproximadamente um sétimo dos valores vigentes em países
como Grécia e Espanha, que constituem a periferia imediata
do mundo industrializado.
Estas tendências de deterioração da situação salarial estão
presentes inclusive no período mais recente, quando
prevaleceu uma relativa estabilidade de preços. Em efeito,
no final do ano passado os salários na indústria de
transformação já estavam 15% mais baixos do que em meados de
1994, mostrando que as perdas acumuladas a partir de 1995
não só consumiram todo o ganho inicial do Plano Real como
fizeram com que os rendimentos dos assalariados regredissem
ao mesmo nível do início da década. Isto estaria indicando
que os substanciais aumentos de produtividade alcançados
pela indústria nos últimos dez anos não foram sequer
parcialmente repassados para os trabalhadores, tendo sido
apropriados, segundo tudo indica, pelas empresas e pelos
bancos15. Paralelamente, a porcentagem dos assalariados que
trabalham mais que a jornada legal na ocupação principal, na
região metropolitana de São Paulo, aumentou entre 1994 e
1997 nos setores indústria de transformação, comércio e
serviços.
O efeito destas políticas regressivas - não só
da inflação - se expressa na tendência à contínua redução da
participação dos salários da renda nacional. que de 55,5% em
1959 caiu para menos de 40% em meados dos anos 80. Outros
dados, de uma revisão das contas nacionais que está sendo
realizada pelo IBGE, indicam que a participação dos salários
no PIB passou de 45% em 1990 e para 38% em 1996. Neste
último período, o excedente operacional bruto (que engloba
lucros, juros e aluguéis) aumentou seu peso relativo de 33%
para 41%. Comparem-se essas cifras com a proporção dos
rendimentos salariais na renda nacional em alguns países
desenvolvidos (os dados são do período 1982/86): 63,5% na
Inglaterra, 59,2% nos Estados Unidos, 58,8% no Japão, 54,5%
na França e 52,6% na Alemanha17 .
Em resumo, do período
ditatorial, em que o arrocho salarial se justificava pela
tese de que "primeiro é preciso crescer para depois
distribuir" - a economia de fato cresceu mas a distribuição,
como se viu, foi regressiva - ao neoliberalismo
contemporâneo, que agregou a estabilidade como "pré-condição
do crescimento" - e os preços foram, de fato, relativamente
estabilizados, mas a economia se estagnou e o desemprego
explodiu - a tão esperada redistribuição vai sendo
postergada e a desigualdade continua aumentando. Os
trabalhadores vivem sempre correndo atrás das perdas, antes
derivadas da inflação e agora resultantes da manutenção de
uma aparente estabilidade, que mantém controlados os preços
às custas de uma deterioração contínua dos fundamentos
macroeconômicos, de uma instabilidade social crescente e da
desestruturação da economia nacional.
RAZÕES DO
MONOPÓLIO
Os magníficos resultados financeiros da
colonização agrícola do Brasil abriram perspectivas
atraentes à utilização econômica das novas terras. Sem
embargo, os espanhóis continuaram concentrados em sua tarefa
de extrair metais preciosos. Ao aumentar a pressão de seus
adversários, limitaram-se a reforçar o cordão de isolamento
em torno do seu rico quinhão.
A forma como estavam organizadas as relações entre Metrópole
e colônias criava uma permanente escassez de meios de
transporte; e era a causa de fretes excessivamente elevados.
A política espanhola estava orientada no sentido de
transformar as colônias em sistemas econômicos o quanto
possível auto-suficientes e produtores de um excedente
líquido -na forma de metais preciosos-que se transferia
periodicamente para a Metrópole.
Sendo a Espanha o centro de uma inflação que
chegou a propagar-se por toda a Europa, não é de estranhar
que o nível geral de preços tenha sido persistentemente
mais elevado nesse país que em seus vizinhos, o que
necessariamente teria de provocar um aumento de importações
e uma diminuição de exportações. Em conseqüência, os metais
preciosos que a Espanha recebia da América sob a forma de
transferências unilaterais provocavam um fluxo de importação
de efeitos negativos, sobre a produção interna, e altamente
estimulante para as demais economias européias.
O abastecimento de manufaturas das grandes
massas de população indígena continuou a basear-se no
artesanato local, o que retardou a transformação das
economias de subsistência preexistentes na região.
Cabe portanto admitir que um dos fatores do
êxito da empresa colonizadora agrícola portuguesa foi a
decadência mesma da economia espanhola, a qual se deveu
principalmente à descoberta precoce dos metais preciosos.
Referencias bibliográfica
Singer,Paul .Aprender Economia, Editora
Contexto.São Paulo. 2002
Furtado,Celso, Editora Companhia Nacional .
São Paulo.