AS METAMORFOSES NO MUNDO DO TRABALHO
Fichamento/Cabrera: 18/06
Observa-se, no universo do mundo do trabalho
no capitalismo contemporâneo, uma múltipla processualidade:
de um lado verificou-se uma desproletarização do
trabalho industrial, fabril, nos países de capitalismo
avançado, com maior ou menor repercussão em áreas
industrializadas do Terceiro Mundo. Em outras palavras,
houve uma diminuição da classe operária industrial
tradicional. Mas, paralelamente, efetivou-se uma expressiva
expansão do trabalho assalariado, a partir da enorme
ampliação do assalariamento no setor de serviços;
verificou-se uma significativa heterogeneização do trabalho,
expressa também através da crescente incorporação do
contingente feminino no mundo operário ; vivencia-se também
uma subproletarização intensificada, presente na
expansão do trabalho parcial, temporário, precário,
subcontratado, “terceirizado”, que marca a sociedade dual
no capitalismo avançado, da qual os gastarbeiters na
Alemanha e o lavoro nero na Itália são exemplos do
enorme contingente de trabalho imigrante que se dirige para
o chamado Primeiro Mundo, em busca do que ainda permanece do
welfare state, invertendo o fluxo migratório de
décadas anteriores, que era do centro para a periferia.
O mais brutal resultado dessas
transformações é a expansão sem precedentes na era moderna,
do desemprego estrutural, que atinge o mundo em
escala global. Pode-se dizer, de maneira sintética, que há
uma processualidade contraditória que, de um lado,
reduz o operariado industrial e fabril; de outro, aumenta o
subproletariado, o trabalho precário e o
assalariamento no setor de serviços. Incorpora o trabalho
feminino e exclui os mais jovens e os mais velhos. Há,
portanto, um processo de maior heterogeneização,
fragmentação e complexificação da classe trabalhadora.
Vamos procurar, nas páginas que seguem, dar
alguns exemplos deste múltiplo e contraditório processo, em
curso no mundo do trabalho. Faremos isso fornecendo alguns
dados somente com o objetivo de ilustrar estas tendências.
Comecemos pela questão da desproletarização
do trabalho fabril, industrial. Na França, em 1962, o
contigente operário era de 7,488 milhões. Em 1975, esse
número chegou a 8,118 milhões e em 1989 reduziu-se para
7,121 milhões. Enquanto em 1962 ele representava 39% da
população ativa, em 1989 esse índice baixou para 29,6%
(dados extraídos notadamente de Economie et Statistiques,
L’INSEE, in Bihr, 1990; ver também Bihr, 1991: 87-108).
Frank Annunziato, referindo-se às oscilações
na força de trabalho nos EUA, transcreve os seguintes dados
(em milhares):
Indústria
|
1980 |
1986 |
Variação (%) |
|
Agricultura |
3.426 |
2.917 |
-14,8 |
|
Mineração |
1.027 |
724 |
-29,5 |
|
Construção |
4.346 |
4.906 |
+12,8 |
|
Manufatura |
20.286 |
18.994 |
-6,3 |
|
Transp. e Serv. Público |
5.146 |
5.719 |
+11,1 |
|
Grande Comércio |
5.275 |
5.719 |
+8,7 |
|
Pequeno Comércio |
15.035 |
17.845 |
+18,6 |
|
Finanças, seguros e bens |
5.159 |
6.297 |
+22,0 |
|
Governamental |
16.241 |
16.711 |
+2,8 |
|
Serviços |
11.390 |
22.531 |
+97,8 |
Os dados evidenciam, de um lado, a retração
dos trabalhadores da indústria manufatureira (e também da
mineração e dos trabalhadores agrícolas). De outro lado,
tem-se o crescimento explosivo do setor de serviços que,
segundo o autor, inclui tanto a “indústria de serviços”
quanto o pequeno e grande comércio, as finanças, os seguros,
o setor de bens imóveis, a hotelaria, os restaurantes, os
serviços pessoais, de negócios, de divertimentos, da saúde,
os serviços legais e gerais. (Annunziato, 1989; 107).
A diminuição do operariado industrial também
se efetivou na Itália, onde pouco mais de um milhão de
postos de trabalho forma eliminados, havendo uma redução da
ocupação dos trabalhadores na indústria, de 40% em 1980,
para pouco mais de 30%, em 1990 (Stuppini, 1991:50).
Outro autor, num ensaio mais prospectivo, e
sem a preocupação da demonstração empírica, procura indicar
algumas tendências em curso, decorrentes da revolução
tecnológica: lembrar que projeções do empresariado japonês
apontam como objetivo “eliminar completamente o trabalho
manual da indústria japonesa até o final do século. Ainda
que possa haver nisto certo ufanismo, a exposição deste
objetivo deve ser levada a sério” (Schaff, 1990; 28).
Em relação ao Canadá, transcreve informações
do Science Council of Canada Report (n.33, 1982) “que
prevê a moderna taxa de 25 % de trabalhadores que perderão
seu emprego até o final do século em conseqüência da
automação”. E, referindo-se às previsões norte-americanas,
alerta para o fato de que “serão eliminados 35 milhões de
empregos até o final do século em conseqüência da automação”
(Schaff, 1990: 28).
Pode-se
dizer que nos principais países industrializados da Europa
Ocidental, os efetivos de trabalhadores ocupados na
indústria representam cerca de 40% da população ativa no
começo dos anos 40. Hoje, sua proporção se situa próxima dos
30%. Calcula-se que baixará a 20 ou 25% no começo do próximo
século (Gorz, 1990a e 1990b).
Esses dados e tendências evidenciam uma
nítida redução do proletariado fabril, industrial, manual,
especialmente nos países do capitalismo avançado, quer em
decorrência do quadro recessivo, quer em função da automação
da robótica e da microeletrônica, gerando uma monumental
taxa de desemprego estrutural.
Paralelamente a essa tendência, há outra
também extremamente significativa, dada pela
subproletarização do trabalho, presente nas formas de
trabalho precário, parcial, temporário, subcontratado,
“terceirizado”, vinculados à “economia informal”, entre
tantas modalidades existentes. Como diz Alain Bihr
(1991:89), essas categorias de trabalhadores têm em comum a
precariedade do emprego e da remuneração; a
desregulamentação das condições de trabalho em relação às
normas legais vigentes ou acordadas e a conseqüente
regressão dos direitos sociais, bem como a ausência de
proteção e expressão sindicais, configurando uma tendência à
individualização extrema da relação salarial.
A título de exemplo: na França, enquanto
houve uma redução de 501 mil empregos por tempo completo,
entre 1982 e 1988 deu-se, no mesmo período, o aumento de 111
mil empregos em tempo parcial (Bihr, 1990). Em outro
estudo, o mesmo autor acrescenta que essa forma de trabalho
“a típica” não pára de se desenvolver depois da crise: entre
1982 e 1986, o número de assalariados em tempo parcial
aumentou em 21,35% (Bihr, 1991: 51). Na mesma direção segue
este relato: “A atual tendência dos mercados de trabalho é
reduzir o número de trabalhadores ‘centrais’ e empregar cada
vez mais uma força de trabalho que entra facilmente e é
demitida sem custos... Na Inglaterra, os ‘trabalhadores
flexíveis’ aumentaram em 16%, alcançando 8,1 milhões entre
1981 e 1985, enquanto os empregos permanentes caíram em 6%,
ficando em 15,6 milhões... Mais ou menos no mesmo período,
cerca de um terço dos dez milhões de novos empregos criados
nos EUA estavam na categoria ‘temporário’” (Harvey,
1992:144).
André Gorz acrescenta que aproximadamente 35
a 50% da população trabalhadora britânica, francesa, alemã e
norte-americana encontra-se desempregada ou desenvolvendo
trabalhos precários, parciais, que Gorz denominou de
“proletariado pós-industrial”, expondo a dimensão real
daquilo que alguns chamam de sociedade dual (Gorz,
1990: 42 e 1990a).
Ou seja, enquanto vários países de
capitalismo avançado viram decrescer os empregos em tempo
completo, paralelamente assistiram a um aumento das formas
de subproletarização, através da expansão dos trabalhadores
parciais, precários, temporários, subcontratados, etc.
Segundo Helena Hirata, 20% das mulheres no Japão, em 1980,
trabalhavam em tempo parcial em condições precárias. “Se as
estatísticas oficiais contavam 2.560 milhões de assalariados
em tempo parcial em 1980, três anos depois a Revista
Economisto de Tóquio estimava em 5 milhões o conjunto
das assalariadas trabalhando em tempo parcial.” (Hirata,
1986: 9).
Desse incremento da força de trabalho, um
contingente expressivo é composto por mulheres, o que
caracteriza outro traço marcante das transformações
em curso no interior da classe trabalhadora. Esta não é
“exclusivamente” masculina, mas convive, sim, com um enorme
contingente de mulheres, não só em setores como o têxtil,
onde tradicionalmente sempre foi expressiva a presença
feminina, mas em novos ramos, como a indústria
microeletrônica, sem falar do setor de serviços. Essa
mudança na estrutura produtiva e no mercado de trabalho
possibilitou também a incorporação e o aumento da exploração
parcial, em trabalhos “domésticos” subordinados ao capital
(veja-se o exemplo da Benetton), de tal modo que, na Itália,
aproximadamente um milhão de postos de trabalho, criados nos
anos 80, majoritariamente no setor de serviços, mas com
repercussões também nas fábricas, foram ocupados por
mulheres (Stuppini, 1991:50). Do volume de empregos em tempo
parcial gerados na França entre 1982 e 1986, mais de 880%
foram preenchidos pela força de trabalho feminina (Bihr,
1991: 89). Isso permite dizer que esse contingente tem
aumentado em praticamente todos os países e, apesar das
diferenças nacionais, a presença feminina representa mais de
40 % do total da força de trabalho em muitos países
capitalistas avançados (Harvey, 1992: 146 e Freeman, 1986:
5).
A presença feminina no mundo do trabalho nos
permite acrescentar que, se a consciência de classe é uma
articulação complexa, comportando identidades e
heterogeneidades, entre singularidades que vivem uma
situação particular no processo produtivo e na vida social,
na esfera da materialidade e da subjetividade,
tanto a contradição entre o indivíduo e sua classe,
quanto aquela que advém da relação entre classe e
gênero, tornaram-se ainda mais agudas na era
contemporânea. A classe-que-vive-do-trabalho é tanto
masculina quanto feminina. É portanto, também por isso,
mais diversa, heterogênea e complexificada. Desse modo, uma
crítica do capital, enquanto relação social, deve
necessariamente apreender a dimensão de exploração presente
nas relações capital/trabalho e também aquelas opressivas
presentes na relação homem/mulher, de modo que a luta pela
constituição do gênero-para-si-mesmo possibilite
também a emancipação do gênero mulher.
Além da desproletarização relativa do
trabalho industrial, da incorporação do trabalho feminino,
da subproletarização do trabalho, através do trabalho
parcial, temporário, tem-se, como outra variante deste
múltiplo quadro, um intenso processo de assalariamento dos
setores médios, decorrentes da expansão do setor de
serviços. Vimos que, no caso dos EUA, a expansão do setor de
serviços – no sentido amplo em que é definido pelo censo
realizado pelo Departamento de Comércio daquele país – foi
de 97,8% no período de 1980/1986, sendo responsável por mais
de 60% de todas as ocupações (não incluído o setor
governamental) (Annunziato, 1989: 107).
Na Itália, “contemporaneamente cresce a
ocupação no setor terciário e no de serviços, que hoje
ultrapassa 60% do total das ocupações” (Stuppini, 1991: 50).
Sabe-se que essa tendência atinge praticamente todos os
países centrais.
Isso permite indicar que “nas pesquisas
sobre a estrutura e as tendências de desenvolvimento das
sociedades ocidentais altamente industrializadas
encontramos, de modo cada vez mais freqüente, sua
caracterização como ‘sociedade de serviços’”. (Offe, Berger,
1991: 11). Deve-se afirmar, entretanto, que a constatação do
crescimento desse setor não nos deve levar à aceitação da
tese das sociedades pós-industriais, pós-capitalistas,
uma vez que se mantém, “pelo menos indiretamente, o
caráter improdutivo, no sentido da produção global
capitalista, da maioria dos serviços. Pois não se trata de
setores com acumulação de capital autônomo; ao contrário, o
setor de serviços permanece dependente da acumulação de
capital autônomo; ao contrário, o setor de serviços
permanece dependente da acumulação industrial propriamente
dita e, com isso, da capacidade das indústrias
correspondentes de realizar mais-valia nos mercados
mundiais. Somente quando essa capacidade se mantém para toda
a economia nacional em conjunto, os serviços industriais e
não-industriais (relativos a pessoas) podem sobreviver, e
expandir-se” (Kurz, 1992:209).
Por fim, há ainda uma outra conseqüência
muito importante, no interior da classe trabalhadora, que
tem uma dupla direção: paralelamente à redução
quantitativa do operariado industrial tradicional dá-se
uma alteração qualitativa na forma de ser do
trabalho, que de um lado impulsiona para uma maior
qualificação do trabalho e, de outro, para uma maior
desqualificação. Comecemos pela primeira. A redução da
dimensão variável do capital, em decorrência do
crescimento da sua dimensão constante – ou, em outras
palavras, a substituição do trabalho vivo pelo
trabalho morto – oferece, como tendência, nas unidades
produtivas mais avançada, a possibilidade de o trabalhador
aproximar-se do que Marx (1972:228) chamou de “supervisor e
regulador do processo de produção”. Porém, a plena
efetivação dessa tendência está impossibilitada pela própria
lógica do capital. É elucidativa esta longa citação de Marx,
onde aparece a referência que fizemos acima.
“O intercâmbio de trabalho vivo por trabalho
objetivado (...) é o último desenvolvimento da relação de
valor e da produção fundada no valor. O suposto desta
produção é, e segue sendo, a magnitude de tempo imediato de
trabalho, a quantidade de trabalho empregado como fator
decisivo na produção da riqueza. À medida, entretanto, que a
grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza efetiva
torna-se menos dependente do tempo de trabalho e da
quantidade de trabalho empregados, do que frente aos agentes
postos em movimento durante o tempo de trabalho, que por sua
vez – su powerful effectiveness – não guarda relação
alguma com o tempo de trabalho imediato que custa sua
produção, mas que depende mais do estado geral da ciência e
do progresso da tecnologia, ou da aplicação desta ciência à
produção. (...) A riqueza efetiva se manifesta melhor – e
isto o revela a grande indústria – na enorme desproporção
entre o tempo de trabalho empregado e seu produto, assim
como na desproporção qualitativa entre trabalho, reduzido a
uma pura abstração, e o poderio do progresso de produção
vigiado por aquele. O trabalho já não aparece tanto como
encerrado no processo de produção, senão que, melhor, o
homem se comporta como supervisor e regulador em relação ao
processo de produção do mesmo. O trabalhador já não
introduz o objeto natural modificado, como um anel
intermediário entre a coisa e ele, mas insere o processo
natural que transforma em industrial, como meio entre si
mesmo e a natureza inorgânica, a qual domina. Apresenta-se
ao lado do processo de produção. Em lugar de ser agente
principal. Nessa transformação, o que aparece como pilar
fundamental da produção e da riqueza não é nem o trabalho
imediato executado pelo homem nem o tempo que este trabalha,
senão a apropriação de sua própria força produtiva geral,
sua compreensão da natureza e seu domínio da mesma graças à
sua existência como corpo social; em uma palavra, o
desenvolvimento do indivíduo social. O roubo do tempo de
trabalho alheio, sobre o qual se funda a riqueza atual,
aparece como uma base miserável comparado com este
fundamento, recém-desenvolvido, criado pela grande
indústria. Logo que o trabalho, em sua forma imediata, tiver
deixado de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de
trabalho deixa, e tem de deixar, de ser sua medida e,
portanto, o valor de uso. O sobretrabalho da massa
deixou de ser condição para o desenvolvimento da riqueza
social, assim como o não trabalho de uns poucos deixa
de ser a condição para o desenvolvimento dos poderes gerais
do intelecto humano. Com isso, se desmorona a produção
fundada no valor de troca... Desenvolvimento livre das
individualidades e, por conseguinte, tem-se a não redução do
tempo de trabalho necessário com vistas a criar
sobretrabalho, mas, em geral, redução do trabalho necessário
da sociedade a um mínimo, ao qual corresponde então a
formação artística, científica, etc., dos indivíduos graças
ao tempo que se torna livre e aos meios criados para todos”
(idem: 227-229).
Evidencia-se, entretanto, que essa
abstração era uma impossibilidade na sociedade
capitalista. Como o próprio Marx esclarece, na seqüência do
texto: “O capital mesmo é a contradição em processo, (pelo
fato de) que tende a reduzir a um mínimo de tempo de
trabalho, enquanto que, por outro lado, converte o tempo de
trabalho em única mediada e fonte de riqueza. Diminui, pois,
o tempo de trabalho na forma de tempo de trabalho
necessário, para aumentá-lo na forma de trabalho excedente;
põe, portanto, em medida crescente, o trabalho excedente
como condição – question de vie et de mort – do
(trabalho) necessário. Por um lado desperta para a vida
todos os poderes da ciência e da natureza, assim como da
cooperação e do intercâmbio social, para fazer com que a
criação da riqueza seja (relativamente) independente do
tempo de trabalho empregado por ela. Por outro lado, mensura
com o tempo de trabalho estas gigantescas forças sociais
criadas desse modo e as reduz aos limites requeridos para
que o valor já criado se conserve como valor. As forças
produtivas e as relações sociais – umas e outras, aspectos
diversos do desenvolvimento do indivíduo social - aparecem
frente ao capital unicamente como meios para produzir,
fundando-se em sua mesquinha base. De fato, todavia,
constituem as condições materiais para fazer saltar esta
base pelos ares” (idem: 229).
Portanto, a tendência apontada por Marx –
cuja efetivação plena supõe a ruptura à lógica do capital
- deixa evidenciado que, enquanto perdurar o modo de
produção capitalista, não pode se concretizar a eliminação
do trabalho como fonte criadora de valor, mas, isto sim, uma
mudança no interior do processo de trabalho, que decorre do
avanço científico e tecnológico e que se configura pelo peso
crescente da dimensão mais qualificada do trabalho,
pela intelectualização do trabalho social. A citação
que segue é elucidativa: “...com o desenvolvimento da
subsunção real do trabalho ao capital ou do modo de
produção especificamente capitalista, não é o operário
industrial, mas uma crescente capacidade de trabalho
socialmente combinada que se converte no agente real
do processo de trabalho total e, como as diversas
capacidades de trabalho que cooperaram e formam a máquina
produtiva total participam de maneira muito diferente no
processo imediato da formação de mercadorias, ou melhor, dos
produtos – este trabalha mais com as mãos, aquele trabalha
mais com a cabeça, um como diretor (manager), engenheiro
(engineer), técnico, etc., outro, como capataz
(overloocker), um outro como operário manual direto, ou
inclusive como simples ajudante – temos, que mais e mais
funções da capacidade de trabalho se incluem no conceito
imediato de trabalho produtivo, e seus agentes no
conceito de trabalhador coletivo, de que a oficina
consiste, sua atividade combinada se realiza materialmente
(materialiter) e de maneira direta num produto total que, ao
mesmo tempo, é um volume total de mercadorias; é
absolutamente indiferente que a função de tal ou qual
trabalhador – simples elo desse trabalho coletivo – esteja
mais próxima ou mais distante do trabalho manual
direto”(Marx, 1978: 71-72).
O caso da fábrica automatizada japonesa
Fujitsu Fanuc, um dos exemplos de avanço tecnológico, é
elucidativo. Mais de quatrocentos robôs fabricam, durante as
24 horas do dia, outros robôs. Os operários, quase
quatrocentos, trabalham durante o dia. Com métodos
tradicionais seriam necessários cerca de 4 mil operários
para se obter a mesma produção. Em média, a cada mês, oito
robôs são quebrados, e a tarefa dos operários consiste
basicamente em prevenir e reparar aqueles que foram
danificados, o que traz um volume de trabalho descontínuo e
imprevisível. Existem ainda 1.700 pessoas nos trabalhos de
pesquisa, administração e comercialização da empresa (Gorz,
1990b: 28). Embora seja um exemplo de um país e de uma
fábrica singulares, permite constatar, por um lado, que nem
mesmo neste exemplo não houve a eliminação do trabalho,
mas sim um processo de intelectualização de uma
parcela da classe trabalhadora. Mas, nesse exemplo atípico,
o trabalhador já não transforma objetos materiais
diretamente, mas supervisiona o processo produtivo em
máquinas computadorizadas, programa-as e repara os robôs em
caso de necessidade (id. ibid.).
Supor a generalização
dessa tendência sob o capitalismo contemporâneo – nele
incluído o enorme contingente de trabalhadores do Terceiro
Mundo – seria um enorme despropósito e acarretaria como
conseqüência inevitável a própria destruição da economia de
mercado, pela incapacidade de integralização do processo de
acumulação de capital. Não sendo nem consumidores, nem
assalariados, os robôs não poderia participar do mercado. A
simples sobrevivência da economia capitalista estaria, esse
modo, comprometida (ver Mandel, 1986: 16-17).
Também tematizando sobre a tendência em
direção a uma maior qualificação ou intelectualização do
trabalho, outro autor desenvolve a tese de que a imagem do
trabalhador manual não mais permite dar conta do novo
trabalho operário nas indústrias. Este converteu-se em
vários ramos mais qualificados, o que se constata, por
exemplo, na figura do operador vigilante, do técnico de
manutenção, do programador, do controlador de qualidade, do
técnico da divisão de pesquisa, do engenheiro encarregado da
coordenação técnica e da gestão da produção. As antigas
clivagens estariam sendo questionadas pela necessária
cooperação entre os trabalhadores (Lojkine, 1990: 30-31).
Há, portanto, mutações no universo da classe
trabalhadora, que varia de ramo para ramo, de setor para
setor, etc. Desqualificou-se em vários ramos, diminuiu em
outros, como no mineiro, metalúrgico e construção naval,
praticamente desapareceu em setores que foram inteiramente
informatizados, como nos gráficos, e requalificou-se em
outros, como na siderurgia, onde se pode presenciar “a
formação de um segmento particular de ‘operários técnicos’
de alta responsabilidade, portadores de características
profissionais e referências culturais sensivelmente diversas
do restante do pessoal operário. Eles se encontram, por
exemplo, nos postos de coordenação nas cabines de operação a
nível de altos fornos, aciaria, vaza contínua... Observa-se
fenômeno similar na indústria automobilística, com a criação
dos “coordenadores técnicos” encarregados de assegurar os
reparos e a manutenção de instalações altamente
automatizadas, assistidos por profissionais de nível
inferior e de especialidades diferentes.” (idem: 32).
Paralelamente a esta tendência se acrescenta outra, dada
pela desqualificação de inúmeros setores operários,
atingidos por uma gama diversa de transformações que
levaram, de um lado, à desespecialização do operário
industrial oriundo do fordismo e, por outro, à massa de
trabalhadores que oscila entre os temporários (que não tem
nenhuma garantia no emprego) aos subcontratados,
terceirizados (embora se saiba que há, também, terceirização
em segmentos ultraqualificados), aos trabalhadores da
“economia informal”, enfim, a este enorme contingente que
chega até a faixa de 50% da população trabalhadora dos
países avançados, quando nele se incluem também os
desempregados, que alguns chamam de proletariado
pós-industrial e que preferimos denominar de
subproletariado moderno.
No que se refere à desespecialização dos
operários profissionais em decorrência da criação dos
“trabalhadores multifuncionais”, introduzidos pelo
toyotismo, é relevante lembrar que esse processo também
significou um ataque ao saber profissional dos operários
qualificados, a fim de diminuir seu poder sobre a produção e
aumentar a intensidade do trabalho. Os trabalhadores
qualificados enfrentaram esse movimento de desespecialização
como um ataque à sua profissão e qualificação, bem como ao
poder de negociação que a qualificação lhes conferia,
realizando inclusive greves contra esta tendência (Coriat,
1992b: 41). Já nos referimos, anteriormente, ao caráter
restrito da polivalência introduzida pelo modelo japonês.
A segmentação da classe trabalhadora se
intensificou de tal modo que é possível indicar que, no
centro do processo produtivo encontra-se o grupo de
trabalhadores, em processo de retração em escala mundial,
mas que permanece em tempo integral dentro das fábricas, com
maior segurança no trabalho e mais inserido na empresa. Com
algumas vantagens que decorrem desta “maior integração”,
esse segmento é mais adaptável, flexível e geograficamente
móvel. “Os custos potenciais da dispensa temporária de
empregados do grupo central em época de dificuldade podem,
no entanto, levar a empresa a subcontratar, mesmo para
funções de alto nível (que vão dos projetos à propaganda e à
administração financeira), mantendo o grupo central de
gerentes relativamente pequeno” (Harvey, 1992: 144).
A periferia
da força de trabalho compreende dois subgrupos
diferenciados: o primeiro consiste em “empregados em tempo
integral com habilidades facilmente disponíveis no mercado
de trabalho, como pessoal do setor financeiro, secretárias,
pessoal das áreas de trabalho rotineiro e de trabalho manual
menos especializado”. Esse subgrupo tende a se caracterizar
por uma alta rotatividade no trabalho. O segundo grupo
situado na periferia “oferece uma flexibilidade numérica
ainda maior e inclui empregados em tempo parcial, empregados
casuais, pessoal com contato por tempo determinado,
temporários, subcontratação e treinados com subsídio
público, tendo ainda menos segurança de emprego do que o
primeiro grupo periférico”. Esse segmento tem crescido
significativamente nos últimos anos (conforme classificação
do Institute of Personnel Management in Harvey,
1992:144).
Evidencia-se, portanto, que ao mesmo tempo
em que se visualiza uma tendência para a qualificação
do trabalho, desenvolve-se também intensamente um
nítido processo de desqualificação dos trabalhadores,
que acaba configurando um processo contraditório que
superqualifica em vários ramos produtivos e
desqualifica outros.
Estes elementos que apresentamos nos
permitem indicar que não há tendência generalizante e
uníssona, quando se pensa no mundo do trabalho. Há, isto
sim, como procuramos indicar, uma processualidade
contraditória e multiforme. Complexificou-se, fragmentou-se
e heterogeneizou-se ainda mais a
classe-que-vive-do-trabalho. Pode-se constatar,
portanto, de um lado, um efetivo processo de
intelectualização do trabalho manual. De outro lado, e
em sentido radicalmente inverso, uma desqualificação e mesmo
subproletarização intensificadas, presentes no trabalho
precário, informal, temporário, parcial, subcontratado, etc.
Se é possível dizer que a primeira tendência – a
intelectualização do trabalho manual – é, em tese, mais
coerente e compatível com o enorme avanço tecnológico, a
segunda – a desqualificação - mostra-se também plenamente
sintonizada com o modo de produção capitalista, em sua
lógica destrutiva e com sua taxa de uso decrescente
de bens e serviços (Mészáros, 1989: 17). Vimos também que
houve uma significativa incorporação do trabalho feminino no
mundo produtivo, além da expressiva expansão e ampliação da
classe trabalhadora, através do assalariamento do setor de
serviços. Tudo isso nos permite concluir que nem o
operariado desaparecerá tão rapidamente e, o que é
fundamental, não é possível perspectivar nem mesmo um
universo distante, nenhuma possibilidade de eliminação da
classe-que-vive-do-trabalho.