Paradigma
do Estilo de Vida Ativa
“Paradigmas são as realizações científicas universalmente
reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e
soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma
ciência.”
(Kuhn, 1997)
A par
das evidências de que o homem contemporâneo utiliza-se cada
vez menos de suas potencialidades corporais e de que o baixo
nível de atividade física é fator decisivo no
desenvolvimento de doenças degenerativas sustenta-se a
hipótese da necessidade de se promoverem mudanças no seu
estilo de vida, levando-o a incorporar a prática de
atividades físicas ao seu cotidiano. Nessa perspectiva, o
interesse em conceitos como “ATIVIDADE FÍSICA”, “ESTILO DE
VIDA” e “QUALIDADE DE VIDA” vem adquirindo relevância,
ensejando a produção de trabalhos científicos vários e
constituindo um movimento no sentido de valorizar ações
voltadas para a determinação e operacionalização de
variáveis que possam contribuir para a melhoria do bem-estar
do indivíduo por meio do incremento do nível de atividade
física habitual da população.
Da
análise às justificativas presentes nas propostas de
implementação de programas de promoção da saúde e qualidade
de vida por meio do incremento da atividade física,
depreende-se que o principal argumento teórico utilizado
está fundamentado no paradigma contemporâneo do estilo de
Vida Ativa.
Tal
estilo tem sido apontado, por vários setores da comunidade
científica, como um dos fatores mais importantes na
elaboração das propostas de promoção de saúde e da qualidade
de vida da população. Este entendimento fundamenta-se em
pressupostos elaborados dentro de um referencial teórico que
associa o estilo de vida saudável ao hábito da prática de
atividades físicas e, consequentemente, a melhores padrões
de saúde e qualidade de vida. Este referencial toma a forma
de um paradigma na medida em que constitui o modelo
contemporâneo no qual se fundamentam a maioria dos estudos
envolvendo a relação positiva entre atividade física, saúde,
estilo de vida e qualidade de vida. Identifica-se, neste
paradigma, a interação das dimensões da promoção da saúde,
da qualidade de vida e da atividade física dentro de um
movimento denominado aqui de Movimento Vida Ativa, o qual
vem sendo desencadeado no âmbito da Educação Física e
Ciências do Esporte, cujo eixo epistemológico centra-se no
incremento do nível de atividade física habitual da
população em geral.
O
pressuposto sustenta a necessidade de se proporcionar um
maior conhecimento, por parte da população, sobre os
benefícios da atividade física e de se aumentar o seu
envolvimento com atividades que resultem em gasto energético
acima do repouso, tornando os indivíduos mais ativos.
Neste
cenário, entende-se que o incremento do nível de atividade
física constitui um fator fundamental de melhoria da saúde
pública.
Atividade Física & Saúde
Uma
tendência dominante no campo da Educação Física estabelece
uma relação entre a prática da atividade física e a conduta
saudável. A fisiologia do exercício nos mostra inúmeros
estudos sustentando esta tese.
Nesta
linha, Matsudo & Matsudo (2000) afirmam que os principais
benefícios à saúde advindos da prática de atividade física
referem-se aos aspectos antropométricos, neuromusculares,
metabólicos e psicológicos. Os efeitos metabólicos apontados
pelos autores são o aumento do volume sistólico; o aumento
da potência aeróbica; o aumento da ventilação pulmonar; a
melhora do perfil lipídico; a diminuição da pressão
arterial; a melhora da sensibilidade à insulina e a
diminuição da freqüência cardíaca em repouso e no trabalho
submáximo. Com relação aos efeitos antropométricos e
neuromusculares ocorre, segundo os autores, a diminuição da
gordura corporal, o incremento da força e da massa muscular,
da densidade óssea e da flexibilidade.
E, na
dimensão psicológica, afirmam que a atividade física atua na
melhoria da auto-estima, do auto conceito, da imagem
corporal, das funções cognitivas e de socialização, na
diminuição do estresse e da ansiedade e na diminuição do
consumo de medicamentos. Guedes & Guedes (1995), por sua
vez, afirmam que a prática de exercícios físicos habituais,
além de promover a saúde, influencia na reabilitação de
determinadas patologias associadas ao aumento dos índices de
morbidade e da mortalidade. Defendem a inter-relação entre a
atividade física, aptidão física e saúde, as quais se
influenciam reciprocamente. Segundo eles, a prática da
atividade física influencia e é influenciada pelos índices
de aptidão física, as quais determinam e são determinados
pelo estado de saúde.
Para a
melhor compreensão deste modelo definem as variáveis que o
compõem:
·
Atividade Física é definida, segundo
Caspersen (1985) como qualquer movimento corporal produzido
pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético
maior do que os níveis de repouso.
·
Saúde, de acordo com Bouchard (1990), é
definida como uma condição humana com dimensões física,
social e psicológica, cada uma caracterizada por um
continuum com pólos positivos e negativos. A saúde positiva
estaria associada à capacidade de apreciar a vida e resistir
aos desafios do cotidiano e a saúde negativa associaria-se à
morbidade e, no extremo, à mortalidade.
·
Para a Aptidão física, adotam a definição de
Bouchard et al.(1990): um estado dinâmico de energia e
vitalidade que permita a cada um, funcionando no pico de sua
capacidade intelectual, realizar as tarefas do cotidiano,
ocupar ativamente as horas de lazer, enfrentar emergências
imprevistas sem fadiga excessiva, sentir uma alegria de
viver e evitar o aparecimento das disfunções hipocinéticas.
Nesta
definição distinguem a aptidão física relacionada à saúde da
aptidão física relacionada à capacidade esportiva. A
primeira reúne os aspectos bio-fisiológicos responsáveis
pela promoção da saúde; a segunda refere-se aos aspectos
promotores do rendimento esportivo.
O
modelo em questão vem orientando grande parte dos estudos
cujo enfoque é a relação entre a atividade física e saúde na
perspectiva da aptidão física e saúde (Barbanti,1991;
Böhme,1994; Nahas et al.,1995; Freitas Júnior,1995;
Petroski,1997; Lopes, 1997; Ribeiro,1998; Fechio,1998;
Glaner,1998; Zago et al.,2000).
Para
Marques (1999), esta perspectiva contemporânea de relacionar
aptidão física à saúde representa um estado multifacetado de
bem-estar resultante da participação na atividade física.
Supera a tradicional perspectiva do “fitness”,
preconizada nos anos 70 e 80 - centrada no desenvolvimento
da capacidade cardiorrespiratória - e procura
inter-relacionar as variáveis associadas à promoção da
saúde. Remete, pois, segundo Neto (1999) a um novo conceito
de exercício saudável, no qual os benefícios ao organismo
derivariam do aumento do metabolismo (da maior produção de
energia diariamente) promovido pela prática de atividades
moderadas e agradáveis.
Conforme Neto (1999), o aumento em 15 % da produção
diária de calorias - cerca de 30 minutos de atividades
físicas moderadas - pode fazer com que indivíduos
sedentários passem a fazer parte do grupo de pessoas
consideradas ativas, diminuindo, assim, suas chances de
desenvolverem moléstias associadas à vida pouco ativa.
Entidades ligadas à Educação Física e às Ciências do
Esporte como a Organização Mundial de Saúde (OMS), o
Conselho Internacional de Ciências do Esporte e Educação
Física (ICSSPE), o Centro de Controle e Prevenção de Doença
- USA (CDC), o Colégio Americano de Medicina Esportiva
(ACSM), a Federação Internacional de Medicina Esportiva
(FIMS), a Associação Americana de Cardiologia e o Centro de
Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do
Sul (CELAFISCS) preconizam que sessões de trinta minutos de
atividades físicas por dia, na maior parte dos dias da
semana, desenvolvidas continuamente ou mesmo em períodos
cumulativos de 10 a 15 minutos, em intensidade moderada, já
são suficientes para a promoção da saúde (Matsudo,1999).
Nesta mesma direção, encontram-se numerosos trabalhos de
abordagem epidemiológica assegurando que o baixo nível de
atividade física intervém decisivamente nos processos de
desenvolvimento de doenças degenerativas (Powell et al.,
1985).
Dentre
os estudos mais expressivos envolvendo esta linha de
pesquisa, tem-se o estudo de Paffenbarger (1993). Analisando
ex-alunos da Universidade de Harvard, o autor observou que a
prática de atividade física está relacionada a menores
índices de mortalidade. Comparando indivíduos ativos e
moderadamente ativos com indivíduos menos ativos, verificou
que a expectativa de vida é maior para aqueles cujo nível de
atividade física é mais elevado. Com relação ao risco de
morte por doenças cardiovasculares, respiratórias e por
câncer, o estudo sugere uma relação inversa deste com o
nível de atividade física .
Estudos experimentais sugerem que a prática de
atividades de intensidade moderada atua na redução de taxas
de mortalidade e de risco de desenvolvimento de doenças
degenerativas como as enfermidades cardiovasculares,
hipertensão, osteoporose, diabetes, enfermidades
respiratórias, dentre outras. São relatados, ainda, efeitos
positivos da atividade física no processo de envelhecimento,
no aumento da longevidade, no controle da obesidade e em
alguns tipos de câncer (Powell et al.,1985; Gonsalves,1996;
Matsudo & Matsudo,2000).
Destas
constatações infere-se que a realização sistemática de
atividades corporais é fator determinante na promoção da
saúde e da qualidade de vida.
Qualidade de vida
Recentemente, a relação atividade física e saúde vem
sendo gradualmente substituída pelo enfoque da qualidade de
vida, o qual tem sido incorporado ao discurso da Educação
Física e das Ciências do Esporte. Tem, na relação positiva
estabelecida entre atividade física e melhores padrões de
qualidade de vida, sua maior expressão.
Observa-se, nos eventos científicos, nacionais e
internacionais, realizados nos últimos anos, a ênfase dada a
esta relação. Muitas são as declarações documentadas neste
sentido.
O
Simpósio Internacional de Ciências do esporte realizado em
São Paulo em outubro de 1998, promovido pelo CELAFISCS com o
tema Atividade Física : passaporte para a saúde,
privilegiou em seu programa oficial a relação
saúde/atividade física/qualidade de vida destacando os seus
aspectos funcionais e anatomo-funcionais.
Os
resumos e conferências publicadas nos anais do Congresso
Mundial da AIESEP realizado no Rio de Janeiro, em janeiro de
1997, cujo tema oficial foi a Atividade Física na
perspectiva da cultura e da Qualidade de Vida, destacam
a relação da qualidade de vida com fatores
morfo-fisiológicos da atividade física.
No I
Congresso Centro-Oeste de Educação Física, Esporte e Lazer,
realizado em setembro de 1999, na cidade de Brasília,
promovido pelas instituições de ensino superior em Educação
Física da região Centro-Oeste, o tema da atividade física e
saúde representou 20% dos trabalhos publicados nos anais. A
temática da atividade física e qualidade de vida foi objeto
de discussão em conferências e mesas redondas. Também neste
evento observa-se a ênfase dada aos aspectos biofisiológicos
da relação atividade física/saúde/qualidade de vida.
Vários
autores e entidades ligados à Educação Física ratificam este
entendimento.
Katch
& McArdle (1996) preconizam a prática de exercícios físicos
regulares como fator determinante no aumento da expectativa
de vida das pessoas.
A
Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (1999), em
posicionamento oficial, sustenta que a saúde e qualidade de
vida do homem podem ser preservadas e aprimoradas pela
prática regular de atividade física.
Matsudo
& Matsudo (1999, 2000), reiteram a prescrição de atividade
física enquanto fator de prevenção de doença e melhoria da
qualidade de vida.
Lima
(1999) afirma que a Atividade Física tem, cada vez mais,
representado um fator de Qualidade de Vida dos seres
humanos, possibilitando-lhes uma maior produtividade e
melhor bem-estar.
Guedes
& Guedes (1995) reconhecem as vantagens da prática de
atividade física regular na melhoria da qualidade de vida.
Nahas
(1997) admite a relação entre a atividade física e qualidade
de vida. Citando Blair (1993) & Pate (1995), o autor
identifica, nas sociedades industrializadas, a atividade
física enquanto fator de qualidade de vida, quer seja em
termos gerais, quer seja relacionada à saúde.
Silva
(1999), ao distinguir a qualidade de vida em sentido geral
(aplicada ao indivíduo saudável) da qualidade de vida
relacionada à saúde (aplicada ao indivíduo sabidamente
doente) vincula à prática de atividade física à obtenção e
preservação da qualidade de vida.
Dantas
(1999), buscando responder em que medida a atividade física
proporcionaria uma desejável qualidade de vida, sugere que
programas de atividade física bem organizados podem suprir
as diversas necessidades individuais, multiplicando as
oportunidades de se obter prazer e, consequentemente ,
otimizar a qualidade de vida.
Lopes
& Altertjum (1999) escrevem que a prática da caminhada
contribui para a promoção da saúde de forma preventiva e
consciente. Vêem na atividade física um importante
instrumento de busca de melhor qualidade de vida.
O
“Manifesto de São Paulo para a promoção de Atividades
Físicas nas Américas” - publicado na Revista Brasileira
Ciência e Movimento (jan/2000) - destaca a necessidade
de inclusão da prática de atividade física no cotidiano das
pessoas de modo a promover estilos de vida saudáveis rumo a
melhoria da qualidade de vida.
Fora
dos círculos acadêmicos, os meios de comunicação
constantemente veiculam informações a respeito da
necessidade de o homem contemporâneo melhorar sua qualidade
de vida por meio da adoção de hábitos mais saudáveis em seu
cotidiano.
Neste
contexto, a Federação Internacional de Educação Física -
FIEP, elaborou o “Manifesto Mundial de Educação Física -
2000”, o qual representa um importante acontecimento na
história da Educação Física pois pretende reunir em um único
documento as propostas e discussões efetivadas, no âmbito
desta entidade, no decorrer do século XX..
O
manifesto expressa os ideais contemporâneos de valorização
da vida ativa, ou seja, ratifica a relação entre atividade
física, saúde e qualidade de vida e prioriza o combate ao
sedentarismo como objetivo da Educação Física (formal e não
formal) por meio da educação para a saúde e para o lazer
ativo de forma continuada.
Novos olhares sobre a relação Atividade Física e Saúde
Diferentes visões acerca da atividade física, da
qualidade de vida e da saúde foram acima apresentadas.
Correspondem a visões bastante disseminadas e aceitas no
domínio da Educação Física. Em comum, nestas análises,
encontramos o acentuado viés biológico que as marca e as
caracteriza. Este, historicamente, tem sido a base da
formação do profissional de Educação Física.
Segundo compreendemos, a questão não nos parece
suficientemente resolvida deste ponto de vista. A relação
entre atividade física e saúde envolve uma multiplicidade de
questões. Resolvê-la exclusivamente pelo paradigma
naturalista é desconhecer a complexidade do tema. O ser
humano não pode ser reduzido à dimensão biológica pois é
fruto de um processo e de relações sociais bem mais amplas e
abrangentes.
Neste
contexto, as Ciências Sociais oferecem importante
contribuição para o debate ao conceber o homem segundo uma
lógica distinta daquela estritamente bio-fisiológica. No
entender dessas ciências, a realidade não é um dado unívoco,
mas uma construção social, que varia segundo a história, as
diferentes estruturas e os diferentes processos sociais.
Na
perspectiva naturalista, pouca atenção tem sido dada aos
interesses políticos e econômicos associados à saúde, à
aptidão física e aos estilos de vida ativa. Esta visão
assumiu uma postura eminentemente individualista e
biologicista no qual elaborou-se o conceito de vida
fisicamente ativa independentemente de uma análise cultural,
econômica e política, desconsiderando as contradições
estruturais que limitam as oportunidades de diferentes
grupos sociais.