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O doping nos jogos olímpicos de Atenas


Muitos atletas se arriscam, apesar dos testes

Um novo escândalo de doping abalou o glamour da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Atenas. Justamente duas estrelas do esporte grego estão sob suspeita de fazerem uso de substâncias proibidas para melhorar o desempenho. Foi-se o tempo em que o importante era competir?

No dia da festa de abertura das Olimpíadas em Atenas, o país anfitrião foi surpreendido com a notícia de provável doping envolvendo duas estrelas do esporte grego, os velocistas Kostas Kenteris e Ekaterini Thanou. A dupla simplesmente não apareceu a um controle antidoping, atitude considerada suspeita para quem não tem nada a temer.

Kenteris e Thanou deveriam prestar depoimento ao Comitê Olímpico Internacional (COI), nesta sexta-feira (13/08), mas não compareceram devido a um acidente de motocicleta. Ambos estão hospitalizados e só deverão receber alta na segunda-feira (16/08), quando então serão interrogados.

 

Thanou é campeã européia nos 100 metros rasos. Kenteris, campeão olímpico, europeu e mundial nos 200 metros rasos, era o mais cotado para acender a pira olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos. As más línguas dizem que a internação seria uma manobra para abafar o caso e acalmar a imprensa.
 

Jogo de esconde-esconde

Seja como for, tudo leva a crer que o tal ditado "o importante é competir" está completamente fora de moda. Pelo jeito ele foi substituído por "o importante é ganhar", a qualquer custo, a qualquer preço, por qualquer risco. Casos de doping deixaram de ser uma exceção em competições esportivas e passaram a ser algo corriqueiro. E pior, uma verdadeira guerra de esconde-esconde. 

Por um lado, na ânsia de conquistar vitórias, alguns atletas, inclusive de alta categoria e com caráter supostamente acima de qualquer suspeita, consomem drogas cada vez mais sofisticadas para melhorar o desempenho. Do outro lado estão cientistas e médicos, que desenvolvem e realizam testes cada vez mais específicos para diagnosticar a presença de substâncias proibidas no organismo dos competidores.
 

Tentando driblar o controle

Uma das mais modernas drogas é o hormônio do crescimento. Usado para ajudar crianças com alterações no desenvolvimento ósseo, este hormônio foi adotado pelos atletas por causar aumento de vários tecidos, inclusive o muscular, proporcionando mais força e velocidade. Além disso, era difícil de ser diagnosticado em exames antidoping.

Em Atenas, é justamente este hormônio que está na mira da Agência Mundial Antidoping (WADA). Diversos métodos para detectar a presença do hormônio do crescimento serão realizados durante os Jogos Olímpicos. Um deles foi desenvolvido por Christian Strasburger, do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

O teste desenvolvido pelo médico alemão consegue diferenciar o hormônio fabricado pelo próprio corpo e o geneticamente fabricado em laboratório entre 24 a 36 horas depois de ter sido absorvido pelo organismo. Por ser quase imperceptível, esta diferença era, até pouco tempo atrás, difícil de ser atestada nos controles antidoping. Com o aprimoramento do exame, a situação sofreu uma inversão. Agora são os atletas que fazem uso desta substância que estão em desvantagem. 


Em prol do espírito esportivo

De acordo com o Comitê Olímpico Internacional, serão realizados mais de três mil exames de urina e outros 400 testes de sangue durante as Olimpíadas de Atenas. A operação custará mais de cinco milhões de euros. Todos os atletas sabem que podem ser chamados a qualquer momento para um controle antidoping. Mesmo assim, há quem se arrisque pelo sonho de uma medalha.

"Cada teste positivo é uma vitória na luta contra o doping", resumiu Richard Pound, presidente da WADA. E não custa lembrar que é também um alento para os que realmente disputam os Jogos com o verdadeiro e aparentemente tão em desuso espírito esportivo.

Nenhuma outra modalidade esportiva apresenta tantos casos de doping nas Olimpíadas de Atenas quanto o halterofilismo. Dez atletas já foram pegos em exames antidoping. Será que só as drogas podem dar chances de vitória?

A imagem do halterofilismo é a pior possível nas Olimpíadas de Atenas. Nada menos do que dez levantadores de peso já foram pegos em exames antidoping, com doses elevadas de esteróides anabolizantes no organismo, entre outras substâncias proibidas. O que mais surpreende é que os atletas sabem que em caso positivo de doping eles estão arriscando a carreira. Mesmo assim, isto parece não intimidá-los.

Primeiro foi o escândalo envolvendo as estrelas do esporte grego, os velocistas Kostas Kenteris e Ekaterini Thanou, que simplesmente não compareceram a um exame antidoping e depois tentaram driblar a Comissão Disciplinar do Comitê Olímpico Internacional (COI). Os dois acabaram desistindo das Olimpíadas para não ter que enfrentar o vexame ainda maior de serem expulsos dos Jogos.

Depois, foi a vez do mundo voltar os olhos para o halterofilismo, quando a lista de atletas confirmados em casos de doping ultrapassou em muito o que poderia ser considerado aceitável. Na segunda-feira (16/08), a quarta colocada nas Olimpíadas de Sydney na categoria mosca, Khine Nan, de Mianmá, foi proibida de competir. De lá até sexta-feira (20/08), foram confirmados nove novos casos nesta modalidade esportiva. E a lista pode ficar ainda maior.
 

Prova definitiva

"Nós seguimos com rigor as diretrizes do Comitê Olímpico Internacional e da Agência Mundial Antidoping (WADA)", frisou Tamas Ajan, presidente da Federação Internacional de Halterofilismo (IWF), lembrando que a entidade condena o uso de substâncias proibidas na prática deste esporte "que tem uma tradição a zelar".

Nem todos os atletas pegos em Atenas são principiantes tentando se sobressair a qualquer custo. O mais recente caso é prova disso. Trata-se do halterofilista grego Leônidas Sampanis, que ganhou bronze na categoria pena. O exame constatou a presença de testosterona acima da média no sangue.

Sampanis alegou que sempre teve um índice elevado de testosterona, afirmando que nunca usou drogas para melhorar o desempenho. Apesar das justificativas, o que vale mesmo é o exame, prova definitiva e incontestável. Se o segundo teste também for positivo, o grego terá que devolver a medalha.
 

Expulsão garantida

Outro nome famoso com doping comprovado nestas Olimpíadas é o do turco Sahbaz Sule, campeão europeu em 2002. O curioso é que no Campeonato Mundial de Halterofilismo de  2003, Sule ficou com a medalha de bronze na categoria leve depois que o então terceiro colocado, Gevorg Davtyan, da Armênia, foi desclassificado... por doping!

A vice-campeã mundial na categoria superpesado, a russa Albina Chomitsch, Nital Scharipov, da Kirgízia, Wafa Ammouri, do Marrocos, Victor Chislean, da Moldávia, Zoltan Kecskes, da Hungria, e as indianas Tratima Kumari Na e Sanamachu Chanu completam a lista de halterofilistas que não passaram no teste antidoping em Atenas. Todos estão ameaçados de ficar dois anos proibidos de participar de competições, além de serem automaticamente excluídos desta e das próximas Olimpíadas, de Pequim em 2008.
 

Mudança de mentalidade

A Federação Internacional de Halterofilismo realiza controles periódicos em seus atletas. Entre 1º de janeiro e 30 de julho de 2004 foram realizados mais de mil exames antidoping em todo o mundo. Seis dias antes dos Jogos Olímpicos, todos os halterofilistas foram submetidos a novos testes.

"O Comitê Olímpico Internacional elogia o trabalho e a determinação da Federação Internacional de Halterofilismo na luta contra o doping através da realização de exames sistemáticos em seus atletas", salientou Jacques Rogge, presidente do COI. Apesar de todas essas medidas, que deveriam coibir o uso de substâncias proibidas, alguns atletas ainda acreditam que podem passar imunes nos testes. Nesses casos, seria preciso mudar a mentalidade destes esportistas. E isto é o mais difícil.

Autoria: Rodrigo Braga Coneglian

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