Conflito moral
Eduardo Portella oferece um “banquete”. O
local do encontro são os Champs Èlysses, atual residência do
ex-ministro. A data, 18 de junho, é fixada pelo
aniversariante. Célia Portella tem cuidado especial com o
cardápio e a lista dos convidados pois não se trata de um
banquete qualquer e sim de um “Symposion platônico”. No
“menu” esta incluído um Discurso sobre a Moralidade,
atendendo um pedido do homenageado. Durante séculos não
houve “elogio ao amor” comparável. Ao reunir Sófocles,
Aristóteles, Kant, Hegel, Piaget, Kohlberg e obviamente
Habernas. Portella sugere retomar, neste novo “Symposium”,
a questão da moralidade sob novas óticas, sem romper a
tradição socrática. Segue aqui o relato fiel desse memorável
banquete.
Valendo-me do exemplo dado por
Platão, sugiro que concentremos nossos diálogos num único
tema: o conflito moral. Trata-se de um tema de especial
interesse do nosso homenageado, preocupado em desenvolver,
juntamente com o seu amigo Apel, uma nova ética discursiva.
O Elogio ao Amor, feito durante o banquete em casa de
Aghaton, forneceu os fundamentos para a discussão sobre
Moralidade. A amizade que nos une foi um dos critérios que
norteou a seleção dos presentes. A afinidade eletiva em
torno do tema proposto, o critério definitivo.
A luz do tema proposto, pensei logo
em Sófocles. Ninguém melhor do que ele para por em cena um
conflito moral com fim trágico. Aristóteles, seu
conterrâneo, retomou, como é do conhecimento de todos, a
reflexão sobre o bem, o belo e o verdadeiro, integrantes do
“Elogio ao Amor”, em sua Ética de Nicomaco. Nessa falou-nos
da felicidade e justiça como ingredientes da moralidade e
fez o elogio a temperança, virtude moral que se adquire com
a experiência orientada pela razão. Por isso mesmo, sua
reflexões sobre a razão pratica de certa forma completa e
contradiz o pensamento dos seus colegas gregos. Sua tese do
“imperativo categórico” e da moralidade baseada na autonomia
do individuo e na razão, alocou a questão da moralidade na
vontade legisladora do sujeito espistemico livre, cuja ação
se orienta no principio moral da justiça, generalizável,
segundo ele a todos os seres racionais. Com essa concepção
revolucionaria da moralidade, o meu amigo entra, a meu ver,
em conflito com a lei da polis grega e do Estado prussiano.
Hegel, que esta aqui do meu lado que o diga. Enquanto
admirador e critico de Kant sublinhou a polaridade entre
“Moralitat” e “Stitlichckeit”, ou se assim o quiserem, entre
a consciência individual e realidade social, dialetizando-a.
Ao tomar a palavra terá oportunidade de elucidar seu ponto
de vista. Finalmente, fiz questão da presença de Piaget e
Kohlberg. Como é do conhecimento de todos, Kohlberg, alem ed
amigo e contemporâneo, é o autor que teve enorme influencia
sobre a formulação Ética Discursiva de nosso homenageado.
Piaget, por sua vez, foi o pai intelectual de Kohlberg,
transpondo a discussão sobre a moralidade do plano
filosófico para o plano da pesquisa empírica. Todos
conhecemos seus trabalhos sobre a gênese dos princípios
morais que orientam a ação na criança. Kohlberg deu
continuidade a esse trabalho e desenvolveu o instrumentário
metodológico e empírico, capaz de discriminar seis estágios
progressivos da moralidade. O conflito moral por ele
idealizado ocupou nos EUA dos anos 70 mais de 50% das
publicações psicológicas. Habernas, o homenageado desta
noite, dispensa aqui maiores comentários. Terá tempo
suficiente para discursar. Não convidei outros especialistas
do assunto, entre os quais muitos colegas americanos, para
manter a intimidade e a descontração do grupo.
Feitas essas observações gerais, passo a palavra a Sófocles.
Sófocles
Basta recorrer a mitologia grega. A
receita é fácil: utilizo-me da tragédia como forma
literária. Darei destaque neste drama aos filhos de Édipo
com Jocasta: Antígona, Ismênia, Eteocles, Polinice. Creio
que sua relação com Creonte, o tirano de Tebas, fornece
excelente material para conflito, se lembrarmos que Creonte
é irmão de Jocasta, cunhado e tio de Édipo, como é tio dos
filhos de Édipo, a quem sucedeu no trono.
Explicitado o local dos
acontecimento, esclareço ainda as circunstancias.
Os irmãos de Antígona, Eteocles e
Polinice, lutam em campos opostos, na entrada de Tebas:
Eteocles a favor, Polinice contra Creonte. Creonte decide
prestar todas as homenagens a Eteocles, assegurando-lhe um
enterro conforme aos costumes da cidade. Antígona propõe a
irmã, enterra Polinice , conforme a lei da familia, dos
deuses, contrariando a proibição de Creonte, Ismênia
lembra-a do castigo anunciando: quem enterrar Polinice
contra a vontade de Creonte será punido com a morte.
Antígona não considera as advertências da irmã e executa o
funeral de Polinice. Um guarda anuncia o acontecido a
Creonte. Este da ordens para trazer a culpada. Enquanto isso
o coro dos velhos reflete sobre a natureza humana,
dilacerada entre dois sistemas de valor, a lei da familia e
a lei da polis. O guarda entra com Antígona, deixando-a
a sos com Creonte. Antígona não nega o feito. Não reconhece
em Creonte a autoridade da lei. Nada mais fácil para Creonte
que condenar Antígona é sua sobrinha. Para complicar, o
filho de Creonte busca apoio moral junto a Ismênia, sem
obtê-lo. Ismênia defende a ação da irmã. Creonte considera
ambas loucas. Procura o apoio de Hêmon, seu filho, que
igualmente contesta a legitimidade de condenar Antígona a
morte. O corifeu e o coro advertem Creonte sobre o abuso do
poder, sugerindo que considere também a lei da familia ou
dos deuses. Alegando os interesses da polis e a necessidade
do respeito as suas leis, Antígona é enclausurada numa cela
subterrânea, para que morra de fome e sede. O coro e o
corifeu ouvem seu lamento, o desespero de morrer antes de
ter conhecido os prazeres da vida. O sábio cego dirigi-se
diretamente a Creonte, criticando sua decisão. Sua vontade
de tirano não representa a lei da cidade mas a desrazao. A
lei da cidade não pode ignorar a lei do sangue e da familia.
Creonte resiste, se opõe aos argumentos do sábio, tem terror
em ceder e revistar sua decisão, mas acaba se convencendo do
seu erro. A sorte já foi consumada, a tragédia concretizada:
Hêmon, sabendo do destino da noiva, mata-se diante do seu
tumulo. Eurídice recebe a noticia da morte dão filho, segue
o seu exemplo. Com o filho morto no braço Creonte se
defronta com a esposa desfalecida. Chegou sua vez de
lastimar-se, de desejar a própria morte, pois a vida lhe
será castigo. Nenhum mortal escapa do seu destino, nenhum
mortal consegue evitar o sofrimento que os deuses lhe
reservam. Os orgulhosos recebem por suas grandes palavras o
troco sob forma de golpes da sorte.
Somente ao longo dos anos eles
aprenderão a ser sábios”
Seria essa minha contribuição para
o debate.
Aristóteles
Estou plenamente de acordo com
Sófocles quanto aos fundamentos da questão moral: seu
objetivo central é a felicidade dos homens, seu instrumento
a “sabedoria”. Ou, na minha terminologia, a prudência. Para
na molesta-los com definições, diria que Tirésias
representa, na peça de Sófocles, a sabedoria, não a
prudência. Essa pressupõe experiência e ação. Por isso, a
sabedoria de Tirésias não pode ajudar a Creonte na decisão.
Creonte, sim. Defrontava-se com um conflito moral duplo: o
conflito entre duas leis as quais devia lealdade e o
conflito entre reflexão e ação. Tirésias, com sua sabedoria
reforçou a reflexão, necessária para qualquer decisão. E
Creonte, isso precisa ser dito em sua defesa, não se fechou
a voz da razão. Reconheceu seu erro e procurou corrigi-lo.
Lamentavelmente, tarde demais. O saber e a reflexão teórica
sobre um conflito moral são insuficientes no momento da
pratica, ou seja, da opção por uma ou outra alternativa de
ação, em favor de uma “lei”. Na minha opinião, quem viveu o
maior conflito moral nesta tragédia foi Creonte. O trágico
desse personagem se encontra justamente no fato de ele ter
ouvido todos os pontos de vista, de ter se deixado demover
de sua decisão inicial, tomada em nome da lei da cidade,
reconhecendo o ponto de vista contrario, representa por
Antígona. O drama de Creonte consistiu no fato de a
sabedoria, por si so, não o proteger do erro. Este consistiu
em ter agido precipitadamente, condenando Antígona. Somente
então percebeu que perdera o que mais importa ao seu humano,
a vida. Perdeu a razão de ser sua própria vida, perdendo a
vida de Hêmon e Eurídice. E perdeu a razão de ser rei e
tirano, graças a contestação e morre da nova geração de
tebanos, encarnada por seu filho e suas sobrinhas, de cuja
legitimidade precisava, para validar a lei da polis.
Faltou-lhe prudência, ou seja, experiência de vida associada
a sabedoria. Creonte foi vitima dessa falta de prudência.
Creonte agiu e errou, por isso sofreu as conseqüências de
sua ação e adquiriu, dolorosamente, experiência. Creonte
agiu precipitadamente. Mas ele foi menos implacável que
Antígona. Ismênia era mulher, portanto uma mente infantil,
pouco sabia. O coro entende das leis gerais, mas não de sua
aplicação no caso singular. Tirésias, com sua sabedoria
consegue demover Creonte de sua posição extrema. Apesar da
lei da polis lhe dar razão, procura uma solução mediadora,
encontra uma posição mediana, corrige seu extremismo, faz
valer a temperança. Creonte transformou-se, enquanto agia,
num homem sábio e prudente, encontrou o “meio”, evitou os
extremos. O tirano abatido e amargurado, derrotado
pelo destino, agora é homem moralmente competente, por ter
adquirido prudência e temperança, produtos da experiência de
vida, conseqüência de ação.
Lamento, se me estendo demais. Mas
creio que Antígona também merece algumas palavras. Não sei
se Sófocles teve intenção de situar nesse personagem da
tragédia o conflito moral central. Na minha opinião, esse
personagem tem valor moral inferior ao de Creonte, apesar de
sua aparente nobreza. Antígona também esta dilacerada, tendo
consciência da existência de duas leis contrarias e
excludentes. Enquanto mulher, que nós gregos, colocamos
primordialmente no oikos e não na polis, ela obviamente agiu
corretamente. Defendeu a lei do sangue, ou como muitos
preferem, a lei natural. Foi mais conservadora e mais
inflexível que Creonte. Ao fixar-se na lei do sangue
contrariou essa própria lei, condenando-se a morte. Tinha
conhecimento da lei da polis. Ao agir como agiu, questionou
sua validade. Antígona menosprezou a lei da cidade e as
advertências feitas em seu nome por Ismênia, e Creonte.
Agiu, conforme a lei dos oikos e do sangue, enterrando o
irmão Polinice. Com seu ato, Antígona ameaçou de morte todos
aqueles que lhe queriam bem: Ismênia, Hêmon e Eurídice.
Antígona optou conscientemente pela
morte, cortando-se, assim, toda e qualquer possibilidade de
realização moral, de obtenção de felicidade. Também ela,
como Creonte, agiu precipitadamente, sem refletir. Somente
depois de definida sua morte, se da conta do que esta
perdendo com a vida: toda e qualquer chance de realização e
felicidade. Ao enterrar o irmão, agiu, movida não pela razão
mas pela emoção. Agiu precipitadamente. Não teve tempo nem
oportunidade de virar prudente. Mas do ponto de vista moral,
foi o personagem que viveu o menor conflito moral.
Kant
Eu defendo, como Aristóteles, a
vida como o principio moral supremo. Toda ação humana deve
orientar-se no sentido da preservação da vida. Creonte foi o
primeiro a desrespeitar, condenando Antígona a morte. Ele
poderá objetar que Antígona não lhe deixara opção, ao
enterrar o irmão, contra sua vontade. E mais, Creonte
enquanto “vontade legisladora”, enquanto homem dotado de
razão e poder, enquanto cidadão da polis e seu representante
supremo, tinha condições de adaptar-se as leis, agindo
segundo sua própria consciência moral. A fraqueza do
personagem fica patente quando busca respaldo para sua
decisão em outros dois personagens, igualmente fracos, ou
quando alega a força da lei da polis. Creio que Sófocles
traçou muito bem o perfil desse tirano. Sua força se baseia
no poder que concentra em suas mãos, que lhe conferem as
leis da polis. Não faz uso da razão. Essa somente passa a
pensar em sua decisão, depois de lembrado pelo sábio, um
homem com traços divinos como Tirésias, que já transcendeu
as fronteiras do bem e do mal. Decididamente, minha simpatia
não esta com Creonte. Ouso afirmar que ele não “sofreu”
nenhum conflito moral prévio. Creonte “sofreu” as
conseqüências praticas de suas ações irrefletidas. Admito
que essa sofrimento o tenha levado a refletir mais, antes de
agir e a ouvir a voz interna da razão.
Apesar de ter, como meu precursor e
mestre Aristóteles, certas reservas quanto ao sexo feminino,
não acreditando que as mulheres possam ser seres racionais
comparável aos homens, faço uma exceção no caso de Antígona.
Avaliando friamente sua ação, a luz dos critérios da razão,
eu diria que seu comportamento moral foi decidido superior
aos demais. Pois Antígona foi a única que agiu com pleno
conhecimento de causa. A revolta de Antígona contra Creonte,
e por extensão contra a polis, tem no tratamento injusto que
Creonte da aos seus dois irmãos. Concordo com Aristóteles na
forma, mas não na substancia de que Antígona não viveu, um
conflito moral. Sua consciência moral, impregnada de
justiça, impôs-lhe, como um imperativo categórico. Mas essa
opção não foi ditada por uma paixão cega, e sim por um
principio moral universal, que independe da experiência e se
calca na razão.
Hegel
No meu parecer, não faz sentido
atribuir a um ou outro personagem do drama de Sófocles uma
posição superior ou inferior em uma suposta escala da
moralidade. O conflito moral não se esgota na consciência
moral individual, necessariamente subjetiva. A consciência
moral somente atinge sua realização, a Sittlichkeit ou corpo
social. A primeira nos da conta da consciência moral
subjetiva em sua gênese, a segunda caracteriza o resultado,
quando a consciência moral se reconhece como parte
integrante de um sistema de leis e princípios morais
objetivados. Kant chamou esse sistema de o sistema dos
costumes. Prefiro o termo “Sittlichkeit”, o qual mantém a
conotação kantiana do sistema de leis, sem abrir mão da
dimensão da moralidade, enquanto consciência moral subjetiva
que assume um compromisso com o todo objetivado, do qual se
compreende como emanação.
Peço desculpa se fui abstrato e
genérico. Certamente poderei explicitar melhor o que
pretendo dizer, se seguir o exemplo dos meus interlocutores,
reformulando o meu pensamento com auxilio dos elementos e
personagens oferecidos por Sófocles neste drama de Antígona.
Discordo integralmente da interpretação dada por Kant e
Aristóteles. Levando em conta o que disse anteriormente,
acredito que ambos os personagens se dão conta da
fragilidade de suas ações, enquanto atores isolados e
mortais.
Os dois personagens principais da
peça relacionam-se entre si, numa dialética implacável. Como
nesta, Creonte e Antígona representam os extremos
antagônicos de uma polaridade. A dialética desencadeada pela
ação de um e outro personagem fez cada um dos dois passar
por diferentes momentos. No final do movimento, as posições
se inverteram: Creonte, o defensor da lei da polis, acaba
sujeito a lei divina; e Antígona, já condenada, acaba
questionando essa ultima, segundo a qual agiu, apelando para
os cidadãos de Tebas, num esforço desesperado de ser
compreendida segundo os paradigmas a lei da polis. Não
aceita a dialética interna da lei divina, em nome da qual
sepultou Polinice, pois reconhece que dessa vez caberá a ela
ficar sem lamentações e sepultamento depois de morta.
Discordo de Aristóteles quando
atribui a Antígona uma flexibilidade incondicional.
Antígona, em seu lamento aos cidadãos de Tebas, reconhece
seu erro, aceita a critica: o mortal que se arroga o direito
de defender a lei da familia, emanação dos deuses, entra em
choque com a lei da polis, feita pelos mortais, sem
conquistar a piedade dos deuses. Discordo de Kant. Antígona
não é a encarnação da justiça. O coro a condena por sua
audácia: nenhum mortal sacode impunemente o pedestal divino
da justiça. Para o coro, Antígona não representa a razão e
sim o desejo.
Da mesma forma Creonte. Longe de
representar a temperança e a prudência, no final do
movimento dialético, como pretende Aristóteles, este
personagem se desdobra em seu contrario. O tirano todo
poderoso, mantenedor da ordem e justiça da polis, provocou
com sua ação a inversão dos papeis. O juiz se transforma em
vitima de sua própria justiça, homem sem lei e convicção.
Onde havia orgulho, sobrou humildade, onde havia certeza,
restaram duvidas. Discordo também, como já era de esperar,
das criticas feitas pelo meu mestre Kant.
Neste movimento de inversão dos
papeis e das perspectivas adotadas, em que Antígona apreende
a perspectiva dos cidadãos da polis e Creonte se identifica
com a postura de Antígona, ambos os personagens saem
enriquecidos, compreendendo a polaridade e complexidade dos
dois sistemas de valores, das duas formas da lei. No caso
da peça, a consciência moral dos dois sujeitos,
personificados em Antígona e Creonte, é compreendida e
incorporada pelos anciãos de Tebas. Lamenta igualmente os
erros de Creonte, mas lembra que errar é humano.
A síntese proclamada pelo coro se
da na conciliação das duas leis, a da cidade e a dos deuses,
da justiça humana e divina na singularidade, no momento
preciso em que os sistemas de valores deixam de ser
universais e se encarnam no particular num momento concreto
de conflito que decorre de ações humanas especificas.
A tragédia de Antígona e Creonte
mostra que essa síntese é impossível para a consciência
moral individual.
Kant tem razão, quando afirma que a
consciência moral esta calcada na justiça. Mas na medida em
que consciência se relaciona a outra consciência e se
mediatiza através da ação, buscando sua concretização no
mundo, ela experimenta, vivencia o seu contrario. Por isso
dou razão a Aristóteles, quando introduz a ação e a
experiência como ingredientes indispensáveis da moralidade.
Kant permanece abstrato e vazio quando condena a consciência
moral a inação. A “Sittlichkeit”, representada pelo coro,
esta mais próxima da concepção morsa aristotélica que da
kantiana. Vejo no sujeito racional kantiano, confiante na
vontade legisladora orientada pela razão, um precursor de
Robespierre. Em vez da razão iluminista, liberada e
emancipatoria, antecipo a razão enfurecida, sanguinária,
auto-afirmativa, a critica que se materializou no período do
Terror.
Kant
Permitam-me assumir a defesa da
razão pratica e do sujeito iluminado, racional que defendo.
Aristóteles
Eu também gostaria de responder a
Hegel.
Piaget
Graças a minha formação de biólogo,
psicólogo e epistemologo, cientista, transporei o debate do
plano filosófico, para o cientifico, assim como também
Aristóteles se tomou a liberdade de transpor a sua analise
do plano literário ao filosófico. Com Aristóteles
compartilho a convicção de que a consciência moral é
construída graças a ação e interação dos atores. Com Kant
une-me na idéia do sujeito racional, cuja consciência moral
se fundamenta na razão, no respeito a pessoa humana e na
reciprocidade. E, Hegel forneceu-me em sua Fenomenologia do
Espírito o modelo da psicogênese da moralidade infantil. A
consciência moral, segundo o meus estudos detalhados, da
interação, da maturação e dos processos de equilibração
interna, não podendo, ser postulada como existente. A
criança não constrói sua consciência moral é construída, a
partir de dentro, processando o material posto a disposição
pelo mundo externo. Nesta concepção aproximo-me de Hegel.
Mas o que para ele é movimento do pensamento, enquanto
conceito, de uma consciência subjetiva abstrata. Nosso
estudo sobre o julgamento moral em crianças mostrou que
estas passa, diferentes estágios da consciência moral.
No estagio da consciência moral
autônoma, os nosso jovens são capazes de aceitar ou rejeitar
um sistema de normas, justificando-o com argumentos
racionais, intersubjetivos, reconhecidos pelos outros.
O conflito moral vivido pelos
personagens principais da peça pode, ser retomado sob outra
ótica. Se Antígona ainda tem como desculpa a sal pouca
idade, isso não se aplica a Creonte. Antígona conhece as
leis e normas que regem o funcionamento do seu grupo: a
familia. Creonte conhece as leis e as normas que valem em
seu grupo: cidadãos de Tebas. O problema dos dois
personagens consiste no fato de a sociedade grega ter
isolado as mulheres do oikos.
Quem demonstrou ter maturidade
moral na peça foi Tirésias. Este sim, incorpora na peça
aquilo que eu chamaria de autonomia moral plena.
Kohlberg
Como nosso anfitrião já antecipou,
minhas pesquisas sobre a questão da moralidade procuram dar
continuidade aos trabalhos iniciados por Piaget. A
construção do pensamento e da moralidade se da por estágios.
Os estágios inferiores cedem as superiores da organização
cognitiva, mas são incorporados nesse que os sucedem.
Concordo com Piaget quando atribui a Tirésias o estagio mais
elevado da moralidade de todos os personagens da peça. Na
minha terminologia que ainda lhes procurarei detalhar isso
corresponde ao “stage six”.
Não quero transformar esse banquete
em uma leitura dos meus trabalhos. Não divirjo de Piaget
quando classifico Antígona e Creonte nos blocos dos atores
convencionais. Um e outro personagem, pelo menos no começo
do drama, orientam sua ação segundo normas convencionais
pré-estabelecidas: Antígona, seguindo a lei da familia,
Creonte a da cidade. Mas admito com Hegel que há uma
evolução dos personagens no desenrolar da peça. Nossas
pesquisas mostram que também durante a entrevista clinica, o
dialogo do entrevistador com o entrevistado, há mudança de
perspectivas, tomadas de consciência que podem resultar numa
alteração da estrutura moral. Antígona, apesar de
consultar-se somente com Ismênia e discutir com Creonte,
acaba modificando sua posição. De um escalonamento inicial
em minha escala moral passa assim do “stage three” ao “stage
four”. Verdade é que o drama não lhe da tempo e espaço para
desenvolver mais sua argumentação. O que dela ouvimos não
nos permite classifica-la, alem do estagio quatro. Essa
capacidade de assumir o ponto de vista do outro, já o
distingue com um candidato ao “stage five”, pois se da conta
da necessidade de preservar os direitos individuais face a
lei da polis. Creio que nessa caracterização do conflito
moral, Creonte ganha alguns pontos a mais em relação a
classificação piagetiana, pelo simples fato de nosso
instrumental ser mais diferenciado.
Analisemos ainda os dois
personagens a luz das três óticas que sugeri. Tomando como
ponto de partida o conteúdo intríseco do valor moral
defendido, Antígona esta certa. Distingue Eteocles e lhe
assegura, em nome da lei da polis, um enterro digno,
respeitando assim também a lei da familia. O conflito entre
os dois sistemas de lei so existe em caso de Polinice, pela
aplicação arbitraria e tirânica da lei da cidade, por parte
de Creonte.
Creonte justifica seu tratamento
diferencial de Eteocles e Polinice: o defensor da polis não
pode ser equiparado ao traidor. “o inimigo morto jamais é
amigo”, alem disso, jamais se deve ceder a uma mulher, e não
se aprende sabedoria dos mais jovens, mas sim dos mais
velhos. A contra-argumentaçao de Tirésias merece ouvidos.
Enquanto Antígona não vê razão para
ceder, estando convicta da superioridade da lei que orienta
sua ação, Creonte tem suas razoes para condenar Antígona e
as faz valer desde inicio, mas acaba cedendo aos argumentos
de Tirésias e do corifeu, que lhe fornecem razoes
convincentes para rever sua decisão original.
Antígona quanto Creonte são
incapazes de exprimir o ponto de vista moral correto, pelo
simples ato de cada um defender um ponto de vista isolado.
Nossos personagens movimentam-se no interior da linguagem
quotidiana comum, sem terem necessidade de examinar as
aspirações de validade.
Os dois heróis da pela entram em
coque frontal quando examinam os princípios ou normas que
orientam a ação respectiva, rejeitando inclusive as
justificativas apresentadas para legitima-las. Creonte
questiona a validade da norma estabelecidas pela lei divina
ou da familia, introduzida por Antígona, alegando a
legitimidade e legalidade de sua norma, estabelecida por
Creonte, mesmo estando em vigência.
A saída para esse conflito, que sem
duvida cai no âmbito de uma teoria ética, no contexto da
ética discursiva aqui esboçada, que Antígona e Creonte
suspendessem o dialogo cotidiano, transformando-o
temporariamente em um discurso pratico. Para concluir, no
discurso pratico que estará fundamentando a nova Ética de
Tebas ficara claro que justiça e solidariedade são os
ingredientes indispensáveis de qualquer sistema de normas
que considere os interesses de todos os membros ou
participantes do discurso.
Aristóteles
Enquanto isso, o corpo de Polinice
seria devorado pelos urubus. Os deuses incriminariam
Antígona: a inação já a tornaria culpada em termos da lei
dos oikos. Creonte ganharia tempo, a lei da polis teria
prevalecido. Os erros de decisões anteriores em que agimos
ou deixamos de agir no momento certo nos fazem adquirir
experiência.
Kohlberg tem razão quando sublima a
possibilidade de uma educação moral. Creio que a nossa única
divergência se refere ao momento desse aprendizado.
Habernas
Concordo com suas objeções.
Antígona morre, por precipitar, irrefletidamente. Da mesma
maneira Creonte: precipitou-se em condenar Antígona, sem dar
conta das conseqüências desastrosas que sua decisão traria
para si e os seus.
Kant não gostou da interpretação de
Hegel, quando esse fez alusão ao terrorismo intríseco a
consciência moral subjetiva absoluta, convencida da sua
pureza e correção. Tivemos recentemente na Republica Federal
da Alemanha um episodio muito semelhante, que deve ser do
conhecimento de todos por isso não vou mais me estender.
Kant
Não posso concordar com a
identificação de Antígona com a historia alemã, vendo nelas
a encarnação viva do imperativo categórico. Antígona não
nenhum terrorista(como foi com a heroína da historia alemã),
ao contrario, foi vitima. A, moça alemã, ao contrario,
recorreu a violência, para fazer valer seu ponto de vista,
matando dezenas de pessoas, em nome de um conceito de
justiça permeado pelo ódio da luta de classes. Por um lado,
repudio qualquer principio moral que se traduza em ações que
transformem outras pessoas em mero instrumento da ação.
Neste sentido, acho que Piaget e Kohlberg respeitam melhor o
espírito da minha ética, apesar do recurso ao empirismo, que
eu preferia dispensar. Sempre tive simpatias pelas idéias
democráticas desenvolvidas pelo meu contemporâneo Rosseau.
Nesse sentido eu concordo com Habernas, em sua ética
discursiva, uma solução viável de validação universal dos
valores por mim postulados.
Hegel
Apesar, continuo achando que o
imperativo categórico abstrai dos conteúdos e deveres da
ação, talvez por temer mesclar-se com a vida, a ação, o
trabalho do conceito, pretendendo ser um conceito puro,
anterior a qualquer experiência. Pela razão, o universalismo
abstrato me parece estéril, geral e o particular precisam
movimentar-se, mergulhar em seus contrários e sintetizar-se
no caso singular, concreto.
O conflito entre Antígona e Creonte
significa essa concretização e singularizarão. A lei da
familia e da cidade representavam, ambos o aspecto geral,
enquanto Antígona e Creonte são sua manifestação particular.
Gostei da reformulação que Habernas
da ao problema, confesso que não me ocorreu considera-la uma
condição da possibilidade do conhecimento, como não me
ocorreu pensar no ato lingüístico.
Habernas
Permitam-me apenas completar
algumas reflexões sobre a ética discursiva por meio das
quais penso ter avançado em um terreno ainda inexplorado. O
conflito moral encenado não é uma fantasia louca do
dramaturgo; ela é tirada, da mitologia, isto é das vivencias
do povo grego, é uma produção coletiva, os conteúdos morais
são fornecidos pela própria vida, não são produzidos pelos
filósofos, mas trabalhados por eles.
A teoria da ação comunicativa, do
dialogo e da comunidade comunicativa. Fatos e normas podem
ter o mesmo tratamento no discurso. Mantivemos contudo a
distinção entre discurso teórico e discurso pratico do mundo
vivido.
É preciso obter a aceitação
consensual da norma, considerando todos os efeitos
colaterais e inesperados que ela venha produzir, uma vez
posta em pratica, todos aqueles que participam do discurso
pratico e todos os demais da comunidade comunicativa que
mais cedo ou mais tarde possam ser atingidos pelos efeitos
colaterais, produzidos pela aplicação da norma.
Portella
Já é tarde. Vou pedir um cafezinho.
Sartre
Me desculpem pela interrupção, mais
fiquei sabendo desse symposium e resolvi comparecer. No
século XVIII, para o ateísmo dos filósofos, suprime-se a
noção de Deus, mas não a idéia de que a essência precede a
existência. O homem possui uma natureza humana, esta
natureza, que é o conceito humano, encontra-se em todos os
homens, o que significa que cada homem é um exemplo
particular de um conceito universal - o homem; para Kant
resulta de tal universalidade que o homem da selva, o homem
primitivo, como o burguês, estão adstritos à mesma definição
e possuem as mesmas qualidades de base. Assim, pois, ainda
aí, a essência do homem precede essa existência histórica
que encontramos na natureza. Que significará aqui o dizer-se
que a existência precede a essência? Significa que o homem
primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só
depois se define. O homem é, não apenas como ele se concebe,
mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da
existência, como ele se deseja após este impulso para a
existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o
primeiro princípio do existencialismo. è também a isso que
se chama a subjetividade, isso, senão que o homem tem uma
dignidade maior do que uma pedra ou uma mesa? Porque o que
nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou que é
consciente de se projetar no futuro.
Não quero me demorar por isso vou
concluir. Embora os projetos humanos possam ser diferentes,
pelo menos nenhum deles permanece inteiramente obscuro para
mim, pois todos eles não passam de tentativas para transpor
esses limites, ou para afasta-los, ou para nega-los, ou para
se adaptar a eles.
Todos
Agradecemos pela sua explicação
Sartre.
Portella
Obrigado meus senhores e minhas
felicitações por suas inestimáveis contribuições.
Faremos o brinde ao aniversariante
no salão.
Existencialismo
É um humanismo
O existencialismo é um humanismo
A
maior parte das pessoas que utilizam este termo ficariam bem
embaraçadas se o quisessem justificar [...]
O que torna o caso complicado é que
há duas espécies de existencialistas: de um lado há os que
são cristãos, e entre eles incluirei Jaspers e Gabriel
Marcel, de confissão católica; e de outro lado, os
existencialistas ateus, entre os quais há que incluir
Heidegger, os existencialistas franceses e a mim próprio. O
que têm de comum é simplesmente o fato de admitirem que a
existência precede a essência, ou, se quiser, que temos de
partir da subjetividade.
Que é que em rigor se deve entender
por isso?
Consideremos um objeto fabricado,
como por exemplo um livro ou um corta-papel: tal objeto foi
fabricado por um artífice que se inspirou de um conceito;
ele reportou-se ao conceito do corta-papel, e igualmente a
uma técnica prévia de produção que faz parte do conceito, e
que é no fundo uma receita.
Assim, o corta-papel é ao mesmo
tempo um objeto que se produz de uma certa maneira e que,
por outro lado, tem uma utilidade definida, e não é possível
imaginar um homem que produzisse um corta-papel sem saber
para que há de servir tal objeto. Diremos pois que, para o
corta-papel, a essência - quer dizer, o conjunto de receitas
e de características que permitem produzi-lo e defini-lo -
precede a existência: e assim a presença, frente a mim, de
tal corta-papel ou de tal livro está bem determinada. Temos,
pois, uma visão técnica do mundo, na qual se pode dizer que
a produção precede a existência.
Quando concebemos um Deus criador,
esse Deus identificamo-lo quase sempre como um artífice
superior; e qualquer que seja a doutrina que consideremos,
trate-se duma doutrina como a de Descartes ou a de Leibniz,
admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos a
inteligência ou pelo menos a acompanha, e que Deus, quando
cria, sabe perfeitamente o que cria. Assim o conceito do
homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de um
corta-papel no espírito do industrial; e Deus produz o homem
segundo técnicas e uma concepção, exatamente como o artífice
fabrica um corta-papel segundo uma definição e uma técnica.
Assim o homem individual realiza um certo conceito que está
na inteligência divina.
No século XVIII, para o ateísmo dos
filósofos, suprime-se a noção de Deus, mas não a idéia de
que a essência precede a existência. Tal idéia nos
encontramo-la um pouco em todo o lado: encontramo-la em
Diderot, em Voltaire e até mesmo num Kant. O homem possui
uma natureza humana; esta natureza, que é o conceito humano,
encontra-se em todos os homens, o que significa que cada
homem é um exemplo particular de um conceito universal - o
homem; para Kant resulta de tal universalidade que o homem
da selva, o homem primitivo, como o burguês, estão adstritos
à mesma definição e possuem as mesmas qualidades de base.
Assim pois, ainda aí, a essência do homem precede essa
existência histórica que encontramos na natureza.
O existencialismo ateu, que eu
represento, é mais coerente. Declara ele que, se Deus não
existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a
essência, um ser que existe antes de poder ser definido por
qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz
Heidegger, a realidade humana. Que significará aqui o
dizer-se que a existência precede a essência? Significa que
o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e
que só depois se define.
O homem, tal como o concebe o
existencialista, se não é definível, é porque primeiramente
não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si
próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que
não há Deus para a conceber.
O homem é, não apenas como ele se
concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe
depois da existência, como ele se deseja após este impulso
para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal
é o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso
que se chama a subjetividade, e o que nos censuram sob este
mesmo nome. Mas que queremos dizer nós com isso, senão que o
homem tem uma dignidade maior do que uma pedra ou uma mesa?
Porque o que nós queremos dizer é que o homem primeiro
existe, ou seja, que o homem antes de mais nada é o que se
lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no
futuro.
O homem é antes de mais nada um
projeto que se vive subjetivamente, em vez de ser um creme,
qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe
anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, e
o homem será antes de mais o que tiver projetado ser. Não o
que ele quiser ser. Porque o que entendemos vulgarmente por
querer, é uma decisão consciente, e que, para a maior parte
de nós, é posterior àquilo que ele próprio se fez. Posso
querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me;
tudo isso não é mais do que a manifestação duma escolha mais
original, mais espontânea do que o que se chama vontade.
Mas se verdadeiramente a existência
precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é.
Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo
o homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total
responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o
homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o
homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas
que é responsável por todos os homens. [...]
Quando dizemos que o homem se
escolhe a si, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a
si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao
escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com
efeito, não há dos nossos atos um sequer que ao criar o
homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem
do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou
aquilo, é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos,
porque nunca podemos escolher o mal o que escolhemos é
sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja
para todos. Se a existência, por outro lado, precede a
essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo que
construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos
e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é
muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda
a humanidade. [...]
Antes de mais, que é que se entende
por angústia?
O existencialista não tem pejo em
declarar que o homem é angústia. Significa isso: o homem
ligado por um compromisso e que se dá conta de que não é
apenas aquele que escolhe ser, mas de que é também um
legislador pronto a escolher, ao mesmo tempo que a si
próprio, a humanidade inteira, não poderia escapar ao
sentimento da sua total e profunda responsabilidade.
Decerto, há muita gente que não vive em ansiedade; mas é
nossa convicção que esses tais disfarçam a sua angústia, que
a evitam [...]
E quando se fala de desamparo,
expressão querida a Heidegger, queremos dizer somente que
Deus não existe e que é preciso tirar disso as mais extremas
conseqüências. O existencialista opõe-se muito a um certo
tipo de moral laica que gostaria de suprimir Deus com o
menor dispêndio possível.
Quando à volta de 1880 alguns
professores franceses tentaram construir uma moral laica,
disseram mais ou menos isto: Deus é uma hipótese inútil e
dispendiosa, vamos pois suprimi-la, mas torna-se necessário,
para que haja uma moral, uma sociedade, um mundo policiado,
que certos valores sejam tomados a sério e considerados como
existindo a priori: é preciso que seja obrigado, a
priori, ser honesto, não mentir, não bater na mulher,
ter filhos, etc., etc... Vamos pois aplicar-nos a uma
pequena tarefa que permita mostrar que estes valores
existem, apesar de tudo, inscritos num céu inteligível,
embora, no fim de contas, Deus não exista.
Por outras palavras, e é essa,
creio eu, a tendência de tudo o que se chama em França o
radicalismo - nada será alterado, ainda que Deus não exista;
reencontraremos as mesmas normas de honestidade, de
progresso, de humanismo e, quanto a Deus, teremos feito dele
uma hipótese caduca que morrerá em sossego e por si própria.
O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito
incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele
toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível;
não pode existir já o bem a priori, visto não haver
já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não
está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso
ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente
estamos agora num plano em que há somente homens.
Dostoiewsky escreveu: “se Deus não
existisse, tudo seria permitido”. Aí se situa o ponto de
partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se
Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado,
já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade
a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para
ele.
Se, com efeito, a existência
precede a essência, não será nunca possível referir uma
explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras
palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é
liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não
encontramos diante de nós valores ou imposições que nos
legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de
nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores,
justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o
que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser
livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no
entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é
responsável por tudo quanto fizer. [...]