Deuses e Mitos na Vida dos Gregos
O espaço dos deuses na vida dos gregos
Para muitos povos, a religião, através dos
valores transmitidos por suas crenças e das práticas
que realizam em seus rituais, organiza a vida da sociedade.
E assim era entre os gregos.
Na nossa sociedade, uma mesma religião muitas vezes
não atinge um povo inteiro, mas somente parte dele.
Assim, num mesmo país é possível haver
várias comunidades religiosas distintas, cada uma
com seu sistema de crenças e ritos. Na cidade de São
Paulo, por exemplo, podemos encontrar católicos, protestantes
de orientações diversas, testemunhas-de-jeová,
umbandistas, espíritas, etc. Todas essas comunidades
freqüentemente fazem parte de uma rede maior, muitas
vezes com uma sede central em algum lugar específico.
Por exemplo, os católicos romanos de todas as cidades
onde eles existem constituem uma comunidade mundial com sede
em Roma.
Na Grécia Antiga, as várias cidades-estados
eram parte de uma mesma comunidade religiosa: tinham as mesmas
crenças e rituais, tanto que se faziam representar
num santuário comum, Delfos, e se uniam para rituais,
como, por exemplo, os que aconteciam nas festas pan-helênicas,
como as Olimpíadas.
A religião, em todos os seus aspectos, diz respeito
ao universo sagrado, ou seja, aquele que ultrapassa os poderes
e as virtudes humanas, que as transcende e que contém
verdades absolutas. O conteúdo desse universo sagrado
são as divindades e seus poderes, os mitos e lendas.
Para que o universo profano (não sagrado) entre em
contato com o sagrado é preciso realizar uma série
de ações significativas, os rituais, praticados
segundo o conhecimento da tradição religiosa,
transmitido por pessoas que tiveram a incumbência de
guardá-lo e ensiná-lo às gerações
seguintes.
Entre os gregos, a tradição religiosa era transmitida
oralmente por poetas como Homero e Hesíodo, que viveram
entre os séculos IX a.C. e VIII a.C., inspirados por
divindades ligadas à música e à poesia,
as Musas. Seus relatos foram retomados por dramaturgos dos
séculos V a.C. e IV a.C.
As divindades
A religião cristã crê em um único
deus, sendo considerada monoteísta, mas apesar disso
mantém um conjunto de cultos independentes e ao mesmo
tempo interligados, que dão conta dos vários
aspectos da vida humana, através das devoções
e rituais ligados aos muitos santos.
Entre os gregos, a religião era politeísta,
ou seja, eram vários os deuses em que acreditavam
e que davam origem a diversas crenças, cultos e práticas
religiosas.
Os fenômenos da natureza, entre os gregos, às
vezes eram divindades, como a Noite, outras vezes estavam
estreitamente ligados aos deuses. O relâmpago, por
exemplo, era resultado da ação de Zeus, e por
isso os lugares atingidos pelos raios eram considerados sagrados,
diferenciados dos outros lugares em que não havia
manifestação dos deuses, os lugares comuns,
ou profanos. Os gregos acreditavam que a água causava
os tremores de terra e, como tudo o que se relacionava à água
era relativo a Posêidon, então o deus do mar
era chamado sacudidos de terra.
As almas dos antepassados também eram cultuadas pelas
famílias, através de uma série de rituais
que ficavam a cargo das mulheres.
Havia ainda os seres imortais, com poderes extraordinários
e considerados deuses; alguns eram originários de
tradições de outros povos. Deméter,
por exemplo, deusa da terra, se assemelhava às antigas
deusas da fertilidade, comuns no período Neolítico;
Afrodite, deusa do amor, seria uma deusa da tradição
mesopotâmica, Astarté; Dioniso e Hefesto teriam
vindo do Oriente, da Índia.
Acreditava-se que esses deuses habitavam o monte Olimpo,
na Tessália, embora algumas versões localizassem
sua morada no céu. São doze os principais:
Zeus, deus do trovão, o mais poderoso dos deuses,
o que voa; Hera, sua esposa; Posêidon, deus dos mares,
o que treme a terra; Deméter, deusa da fertilidade
da terra; Apolo, deus da música; Atena, deusa da sabedoria;
Afrodite, deusa do amor; Hefesto, deus do fogo e da metalurgia;
Ares, deus da guerra; Hermes, o deus mensageiro; Ártemis,
deusa caçadora; Héstia, deusa dos lares. Havia
outros deuses tão importantes quanto esses, e que às
vezes figuravam entre os doze deuses do Olimpo: Plutão
ou Hades, senhor do reino dos mortos, e Dioniso, deus do
vinho, da euforia, ou ainda Hebe, deusa da juventude.
Os mitos
Atualmente, a compreensão do valor dos deuses gregos é possível
através dos relatos contidos nos mitos, que são
narrações de verdades essenciais para a compreensão
da natureza, do universo, do ser humano e da sociedade. Ao
conjunto de mitos dá-se o nome de mitologia, que constitui
a memória de uma soma de valores e de uma espécie
de conhecimento.
O mito da origem do mundo
A narrativa da origem do mundo, segundo os gregos, a partir
da versão de Hesíodo, no poema Teogonia (isto é, "nascimento
dos deuses"), é o texto que transcrevemos.
Primeiro nasceu Caos, a existência indistinta; depois
nasceram a Terra (Gaia) e Eros. [...] Caos gerou a Noite,
que gerou o Dia. A Terra gerou o Céu (Urano), as Montanhas
e o Mar; uniu-se ao Céu (Urano) e gerou os Titãs,
Réia, Têmis, Memória, os Ciclopes, fabricantes
do raio, os Gigantes, de cinqüenta cabeças e
cem braços, e Cronos, o tempo.
[...] Guiados por Eros, os deuses se reproduzem: há os
filhos da Noite, entre os quais estão a Morte, o Sono,
os Sonhos e as Parcas, divindades do destino, de cujos desígnios
nem os deuses escapavam, que eram três: Fiandeira,
Distribuidora e Inflexível; e a linhagem do Mar. Nereu
e as várias Nereidas, suas filhas, Espanto, Ceto,
entre vários outros.[...]
O Céu (Urano) detestava os filhos, e escondia-os na
Terra; até que ela, atulhada, criou uma foice e deu-a
a seus filhos, para que castrassem o pai. Todos ficaram com
medo, mas Cronos aceitou a missão, e, ao entardecer,
quando o Céu se deitava junto com a Terra, a cumpriu.
[...] A partir daí começa o domínio
da segunda geração de deuses, encabeçados
por Cronos. Cronos sabia que ia ter um destino semelhante
ao do seu pai, ser destronado por um de seus filhos; então
os engolia à medida que iam nascendo do ventre de
Réia. Foi assim com Hera, Deméter, Héstia,
Hades e Posêidon; quando Zeus nasceu, Réia deu
uma pedra para Cronos engolir e escondeu o filho, que cresceu
e cumpriu o destino de destronar o pai. Como ele fez isso
não é dito, mas fez Cronos vomitar seus irmãos.
Depois disso, aliado aos outros deuses e aos Gigantes, derrotou
os Titãs numa guerra terrível, na qual os deuses
se aliaram aos Gigantes, filhos da Terra.
O domínio de Zeus marca a terceira geração
de deuses. Ele repartiu o mundo com seus irmãos. Posêidon
ficou com os mares, Hades com o mundo subterrâneo,
e a ele próprio coube o céu. Essa geração
também teve muitos filhos. De Zeus e Deméter
nasceu Perséfone: de sua união com Memória
nasceram as Musas; com Leto, Apolo e Ártemis; com
Hera, Ares, Hebe e Ílitia; com Maia, Hermes; com Sêmele,
Dioniso. Mas a primeira esposa de Zeus, Métis, a astúcia,
foi engolida por ele, porque estava destinada a dar à luz
dois filhos: um era Atena, e o outro seria aquele que destronaria
seu pai. Zeus engoliu Métis e ficou astucioso, e gerou
Palas Atena, que nasceu de sua cabeça.
(Hesíodo, Teogonia)
Assim como a do mundo, a origem do homem é relatada
por inúmeros mitos que falam de seus antepassados:
em algumas regiões eram considerados filhos da Terra,
em outras eram formigas transformadas, ou seres feitos a
partir do barro ou da areia.
Num fragmento atribuído a Hesíodo, encontra-se
uma história sobre a origem dos habitantes da ilha
de Egina, segundo a qual a deusa Egina teve um filho com
Zeus, Éaco, que ficou inteiramente só na ilha.
Ao tornar-se adulto, a solidão o aborrecia. Para acabar
com essa solidão, Zeus converteu as formigas da ilha
em homens e mulheres, concedendo a Éaco um povo chamado
urirmidões.
Havia também mitos sobre relações entre
pais e filhos. Um exemplo é o mito de Édipo,
que foi tratado pelo dramaturgo Sófocles na tragédia Édipo-Rei.
É
dipo era filho do rei de Tebas, Laio, e sem saber matou seu
próprio pai, casando-se com sua mãe, Jocasta,
que ele não conhecia. Tudo isso aconteceu porque quando Édipo
nasceu seus pais foram informados de uma profecia que relatava
seu destino. Para evitá-lo, ordenaram a um criado
que matasse o menino. Porém, penalizado com a sorte
de Édipo, ele o entregou a um casal de camponeses
que morava longe de Tebas para que o criassem. Édipo
soube da profecia quando se tornou adulto. Saiu então
da casa de seus pais adotivos para evitar a tragédia,
ignorando que aqueles não eram seus legítimos
genitores. Eis que, perambulando pelos caminhos da Grécia,
encontrou-se com Laio e seu séquito, que, insolentemente,
ordenou que saísse da estrada. Édipo reagiu
e matou os integrantes do grupo, sem saber que estava matando
seu verdadeiro pai.
Continuou a viagem até chegar a Tebas, dominada por
uma Esfinge, que devorava as pessoas que não decifrassem
seu enigma: “Qual o animal que anda com quatro patas
ao amanhecer, duas ao meio dia e três ao entardecer?”. Édipo
decifrou o enigma, respondendo: o homem. A Esfinge morreu, Édipo
tornou-se herói de Tebas e casou-se com a rainha,
Jocasta, a mãe que desconhecia.
Esse mito grego foi relido pelo psicanalista austríaco
Freud, que nele encontrou pistas para elaborar suas idéias
acerca da relação dos filhos com o genitor
do sexo oposto.
Assim como são vários os mitos sobre a relação
entre os homens, também são muitos os que dizem
respeito à relação entre os deuses e
os homens. Um deles, por exemplo, é o de Prometeu,
outro é o de Pandora.
Prometeu era um titã, portanto, descendente de Urano,
como Cronos, e derrotado por Zeus, conforme a história
de Hesíodo. Titãs, segundo o mesmo Hesíodo,
seriam “aqueles que por presunção teriam
tentado realizar uma grande obra porém foram punidos”.
Essa grande obra foi partilhar a audácia do plano
divino com os homens. O que aconteceu da seguinte maneira:
O titã Jápeto, irmão de Cronos, tinha
dois filhos que se tornaram o elo entre os deuses e os humanos:
Prometeu (que quer dizer “o astuto”) e Epimeteu
(que quer dizer “o que só aprende depois do
erro”). Segundo Platão, depois que os deuses
fizeram as criaturas com uma mistura de terra e fogo, deram
aos irmãos Prometeu e Epimeteu a incumbência
de dar a cada uma delas a capacidade que lhe fosse mais adequada.
Para essa tarefa eles tinham um certo prazo, ao fim do qual
as criaturas sairiam das trevas do centro da terra para a
luz. Eles combinaram que Epimeteu faria o serviço
e Prometeu o verificaria. E assim foi feito. Epimeteu distribuiu
força, alimentos, velocidade, proteção
a todos, de tal forma que as criaturas pudessem sobreviver;
no entanto, deixou o homem nu, sem nenhum atributo que o
protegesse. Quando Prometeu foi verificar o trabalho de seu
irmão, percebeu perplexo a situação
do homem. Resolveu roubar as artes de Hefesto e Atena - a
metalurgia e a tecelagem - e o fogo, que deram ao homem a
sabedoria e as condições para enfrentar os
problemas da vida cotidiana. Por isso os homens têm
uma maior proximidade com os deuses do que as outras criaturas.
Mas também por isso Prometeu foi castigado.
Ficou acorrentado por trinta mil anos no pico mais alto
do Cáucaso, tendo o fígado picado por um pássaro,
até que Hércules, o semideus filho de Zeus,
o libertou. Segundo alguns, sua libertação
deveu-se ao fato de Zeus querer tornar seu filho famoso,
porém outros interpretam-na como recompensa por Prometeu
ter guardado o segredo da deposição de Zeus.
Segundo as várias versões da história
de Prometeu, sua libertação exigiu que ele
deixasse um outro imortal sofrendo em seu lugar. Quem tomou
para si o sofrimento de Prometeu foi o centauro Quíron,
que fora ferido acidentalmente por Hércules. Quíron
passou a ser identificado com a invenção da
arte de curar.
O mito da criação da mulher
A primeira mulher surgiu como uma represália de Zeus
contra o roubo do fogo por Prometeu, segundo o relato de
Hesíodo:
Filho de Jápeto, sobre todos hábil em tuas
tramas,/apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas;/grande
praga para ti e para os homens vindouros!/Para esses em lugar
do fogo eu darei um mal e/todos se alegrarão no ânimo,
mimando muito este mal.
Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dos deuses;/
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente/terra à água
misturar e aí pôr humana voz e/força,
e assemelhar de rosto às deusas imortais/esta bela
e deleitável forma de virgem; e a Atena/ensinar os
trabalhos [...]/ em seu peito, Hermes Mensageiro[...]/mentiras,
sedutoras palavras e dissimulada conduta/forjou, por desígnios
de Zeus. [...] E a esta mulher chamou /Pandora porque todos
os que têm olímpica morada/deram-lhe um dom,
um mal aos homens que comem pão.
(Hesíodo, Os trabalhos e os dias.)
Essa mulher foi dada de presente ao irmão de Prometeu,
Epimeteu (o que vê depois), e trouxe consigo, em uma
caixa (em algumas versões, num jarro), todos os dons
maléficos que os deuses lhe deram. Proibiu-lhe abri-Ia,
mas ele, cada vez mais curioso, não agüentou
e, vendo-se sozinho, abriu-a. De dentro saíram as
doenças, as infelicidades, todos os males que os homens
não conheciam até então. Desde esse
dia os homens passaram a sofrer, e os longos e despreocupados
festins que tinham com os deuses nunca mais aconteceram.
As mudanças da humanidade do ponto de crista da mitologia
As sociedades antigas imaginavam que ao longo do tempo
as formas de vida da humanidade, sempre ligadas aos deuses,
sofriam transformações. Dividiam, assim, o
tempo em épocas que em geral demonstravam uma degradação
nas condições de vida. E muito freqüente
encontrarmos quatro épocas entre os gregos. Porém,
segundo o que nos conta Hesíodo, até enquanto
viveu, houve cinco épocas ou raças. A raça
de ouro, a raça de prata, a raça de bronze,
a raça dos heróis e a raça de ferro.
A raça de ouro não tinha nenhum problema característico
da humanidade: dor, sofrimento, tristeza e penúria.
Terminou porque não temia os deuses, e por isso foi
destruída.
A raça de prata era uma raça inferior, que
vivia na infância por longo tempo e quando chegava à adolescência
sofria muito, por insensatez e por excesso. Nada a continha,
nem o respeito aos deuses. Por isso, Zeus a escondeu sob
a Terra para que não o desonrasse.
A raça de bronze era terrível e forte como
o bronze, e matou-se a si mesma.
A raça dos heróis:
[...] raça divina de homens e heróis e são
chamados semideuses, geração anterior à nossa
na terra sem fim. A estes a guerra má e o grito temível
da tribo a uns [...] fizeram perecer pelos rebanhos de Édipo
combatendo, e a outros, embarcados para além do grande
mar abissal, a Tróia lavaram por causa de Helena de
belos cabelos, ali certamente remate de morte os envolveu
todos e longe dos humanos, dando-lhes sustento e morada Zeus
Cronida Pai nos confins da terra os confinou.[...]
A raça de ferro:
Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça,
mais cedo tivesse morrido ou nascido depois. Pois agora é a
raça de ferro e nunca durante o dia cessarão
de labutar e penar e, nem à noite de se destruir;
e árduas angústias os deuses lhes darão.
Entretanto a esses males bens estarão misturados.
Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá,
no momento em que nascerem com têmporas encanecidas.
[...] vão desonrar os pais tão logo estes envelheçam
e vão censurá-los, com palavras duras insultando-os;
cruéis; sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder
retribuir aos velhos pais os alimentos; [...] a todos os
homens miseráveis a inveja acompanhará, ela,
malsonante, malevolente, maliciosa ao olhar. Então,
ao Olimpo, da terra de amplos caminhos, com os belos corpos
envoltos em alvos véus, à tribo dos imortais
irão, abandonando os homens, Respeito e Retribuição;
e tristes pesares vão deixar aos homens mortais. Contra
o mal força não haverá!
(Hesíodo, Os trabalhos e os dias.)
Quanto à vida depois da morte, os gregos acreditavam
que a morada dos mortos era o Hades, domínio do irmão
de Zeus, Plutão. Localizava-se nos subterrâneos,
rodeado de rios, que só poderiam ser atravessados
pelos mortos. Os mortos conservavam a forma humana, mas não
tinham corpo, não se podia tocá-los. O Hades
tinha uma espécie de cão de guarda, o terrível
Cérbero de três cabeças. Os mortos vagavam
pelo Hades, mas também apareciam no local do sepultamento.
Havia rituais cuidadosos nos enterros, e os mortos eram cultuados,
principalmente pelas famílias em suas casas.
Também havia a ilha dos bem-aventurados, um local
de eterno prazer, reservado aos heróis, que eram criaturas
especiais, às vezes humanos consagrados por atos de
extrema bravura; outras vezes semideuses, filhos de deuses
e humanos, que também tinham realizado grandes feitos.
Cultos ou rituais
As divindades gregas, como as de todas as religiões,
são consideradas seres dotados de consciência
como o homem, porém com poderes superiores aos humanos.
Uma vez que as divindades são seres conscientes, os
homens pretendem relacionar-se com tal poder superior atingindo
suas consciências da mesma forma como fazem entre si:
através de laços afetivos e de trocas, que
se realizam por sacrifícios, preces, oferendas e por
sistemas de consultas, - os oráculos -, que muitas
vezes são realizadas nos templos.
Os sacrifícios
Os sacrifícios eram uma forma de repetir os banquetes
dos deuses com os homens, quando ambos partilhavam da vítima
do sacrifício, seguindo um ritual no qual um animal
doméstico era conduzido em procissão, ao som
de flautas, até o altar exterior do templo; os participantes
e o animal eram ornados com coroas de flores. A solenidade
acontecia no exterior do templo, e poucos podiam nele entrar,
pois era a casa do deus. Acreditavam que o deus efetivamente
morava ali, senão sempre, pelo menos de vez em quando.
No altar, o animal era morto, depois aberto para que os
sacerdotes lessem nas suas entranhas, especialmente no
fígado,
uma mensagem que mostrasse a disposição dos
deuses. Se ela fosse favorável, os ossos do animal,
envoltos em gordura, eram postos no fogo, junto com ervas
aromáticas, e a fumaça subia aos deuses. Certas
carnes eram assadas no mesmo fogo do altar e comidas pelos
participantes; o restante da carne do animal era cozido e
dividido em partes iguais para ser consumido dentro ou fora
do templo, por alguns ou por todos os participantes da cerimônia.
Alguns pedaços eram reservados ao sacerdote que presidia
a cerimônia. Qualquer cidadão podia exercer
essa função.
O ritual em geral era esse que foi descrito, mas havia
variações.
Em algumas ocasiões eram oferecidos frutos e cereais,
sem que houvesse carne ou sangue na cerimônia. Outros
sacrifícios exigiam a queima total da vítima;
eram chamados holocaustos, e geralmente serviam para aplacar
a cólera de divindades terríveis, como Deméter
ou Hades. Essas variações no rito aconteciam
conforme o tempo e o lugar.
Os oráculos
Entre os gregos havia templos dedicados aos vários
deuses, e em alguns deles existiam oráculos, sistemas
de interpretação da sabedoria dos deuses, que
se comunicavam com os homens que vinham pedir conselhos ou
saber do futuro. Muitas vezes a consulta não era pessoal,
envolvia uma cidade inteira, sobretudo em épocas de
guerra ou de peste.
As maneiras de os deuses responderem às perguntas
variavam. Por exemplo, em Delfos, no oráculo de Apolo,
o deus respondia pela boca de uma sacerdotisa, a Pítia
ou Pitonisa, que entrava em transe e incorporava o deus,
mais ou menos como os filhos-de-santo nos terreiros de umbanda
e candomblé. Em outros templos, o homem podia ocupar
a função de intermediário entre os homens
e os deuses. Um exemplo disso era o que ocorria no oráculo
de Zeus, em Dodona, onde sacerdotes interpretavam o balançar
das folhas dos carvalhos sagrados como a fala do deus.
A consulta ao oráculo era uma ocasião solene,
como uma visita ao próprio deus, e exigia vários
rituais, como podemos ler neste relato de Pausânias,
que descreveu, em suas viagens pela Grécia, como era
o oráculo de Trofônio, uma divindade local absorvida
por Zeus.
O que acontece no oráculo é o seguinte: quando
uma pessoa está decidida a descer ao oráculo
de Trofônio, deve se alojar num certo lugar por alguns
dias. Nesse tempo, entre outras regras para a purificação,
se abstém de banhos quentes, banhando-se apenas no
rio Hercyna. Deve sacrificar a Trofônio, a Apolo, a
Cronos, a Zeus rei, a Hera do carro e a Deméter Europa.
Nos sacrifícios um adivinho está presente,
e olha nas entranhas da vítima para ver se Trofônio
vai receber a pessoa que desce. A melhor vítima para
revelar a disposição de Trofônio é uma
ovelha, sacrificada por aquele que procura o oráculo
na noite em que desce, invocando
Agamedes, parceiro de Trofônio. Se as entranhas da
ovelha indicarem, ele pode ir. Primeiro ele é levado
ao rio Hercyna por dois meninos de treze anos, que o banham.
Depois é levado por sacerdotes até algumas
fontes, das quais ele deve beber a água do esquecimento
e da memória, para se livrar de seus pensamentos e
para se lembrar do que acontecer durante sua descida ao oráculo.
Há uma imagem que só é mostrada aos
que vão visitar o deus, que é então
reverenciada. Daí se pode entrar no oráculo,
que fica numa caverna na montanha, na qual se entra por uma
escada. Lá dentro, o suplicante encontra um buraco,
no qual deve entrar passando primeiro os pés. Depois
que seus joelhos passam ele é puxado como que por
um fio. Lá dentro fica sabendo do futuro, ouvindo
ou vendo, conforme o caso. Quando volta, é levado
pela mão dos sacerdotes até a cadeira da memória,
onde conta tudo aquilo que soube pelo oráculo. Depois é levado
ao alojamento, paralisado pelo terror. Gradualmente vai melhorando,
e recupera a faculdade de rir. [...] O que eu conto não é de
ouvir dizer; eu mesmo consultei o oráculo de Trofônio.
(Pausânias.)
Além dos oráculos, os gregos acreditavam em
presságios, sinais significativos que eram interpretados
como um aviso dos deuses, como o vôo das aves, que
em certas ocasiões eram identificados como bons ou
maus. Na Guerra de Tróia, por exemplo, os troianos
foram intimidados por uma águia que voava com uma
serpente nas suas garras, ensangüentada, ainda viva,
que picou a ave perto do pescoço, e eles acreditaram
que era um presságio de Zeus.
Os mistérios
Os mistérios eram celebrações secretas
e tinham o objetivo de proporcionar ao iniciado uma vida
melhor, após a morte. Os mais famosos eram realizados
em Elêusis, perto de Atenas, e eram consagrados a Deméter,
mas também havia mistérios consagrados a Mitra
e a Ísis (divindades estrangeiras) e a
Dioniso. Como era proibido ao iniciado revelar suas experiências
nesses rituais, muito se imagina sobre eles, mas pouco se
sabe, pois as descrições só fazem alusões
e não descrevem exatamente como eram os rituais.
Pausânias narra um culto de mistério:
[...] À direita, saindo do templo, há um espelho
na parede. Quem olha nele não se vê, ou vê uma
imagem muito pequena, enquanto que os deuses (as estátuas
do templo) podem ser vistos claramente. Mais à frente é o
lugar onde os arcádicos celebram os mistérios,
e sacrificam à Amante muitas vítimas. Mas eles
não cortam a garganta das vítimas, como nos
outros sacrifícios; cada um corta um membro da vítima,
ao acaso. A essa Amante os arcádios cultuam mais do
que a qualquer outro deus, e dizem que é filha de
Deméter e Posêidon. Amante é o seu apelido,
assim como Virgem é apelido da filha de Deméter
e Zeus. Mas, enquanto se sabe que o nome da Virgem é Perséfone,
o nome da Amante eu temo revelar para os não iniciados.
Mais além, há o santuário da Amante,
cercado por um muro de pedra; dentro crescem, de uma só raiz,
um carvalho e uma oliveira sempre verdes. Há também
um altar a Posêidon cavalo, e aos outros deuses também.
No último deles há uma inscrição
que diz que aquele é um altar comum a todos os deuses.
(Pausânias)
O convívio de deuses e homens na vida da cidade
As festas
As festas eram sempre ocasiões de relação
com os deuses. As Panatenéias, festas em homenagem
a Atena, realizadas todos os anos, começavam com uma
procissão que partia do bairro dos ceramistas (o Cerâmico)
e atravessava o centro de Atenas para levar solenemente à Acrópole
o peplo (manto), bordado todos os anos por jovens previamente
escolhidas. Ele se destinava a vestir a estátua do
culto de Atena. Os sacerdotes e todos os grupos sociais da
cidade, incluindo os representantes dos metecos, formavam
um longo cortejo cuidadosamente ordenado e acompanhado por
efebos a cavalo. Chegando à Acrópole, sacrificavam
quatro bois e quatro carneiros, diante do velho templo de
Atena; depois, tantas vacas quantas fossem necessárias
para alimentar toda a gente da cidade.
Havia, ainda, festas em honra de Apolo, as Pianépsias,
ou festas das sementeiras, quando se ofereciam ao deus um
prato de favas e vários outros legumes, misturados
com farinha de trigo. Depois levavam em procissão
um ramo de oliveira envolvido em lã e carregado de
frutos da primeira safra, o que consideravam um talismã de
fertilidade.
Nessas festas de significado estritamente religioso, havia
concursos que possibilitavam o exercício da excelência,
o que os gregos chamavam de areté, em várias
atividades: atlética, lírica, musical, dramática
(tragédia ou comédia). Até a beleza
física era motivo de competição nos
concursos de beleza, tanto entre mulheres como entre homens.
Os prêmios eram simbólicos, do ponto de vista
material: a grande recompensa do vitorioso era receber honras
de herói. Nas Panatenéias, por exemplo, o prêmio
do atleta vencedor da corrida com archotes era o azeite das
oliveiras sagradas de Atena, em ânforas chamadas panatenaicas,
cuja decoração incluía: de um lado,
Atena Promacos (a que combate na primeira fila) de pé,
entre duas colunas; e, de outro, a representação
do concurso pelo qual o prêmio foi concedido.
Um concurso que só ocorria em festivais era o de teatro,
sempre presidido por um sacerdote do culto a Dioniso. Os
festivais eram as únicas ocasiões em que havia
representações dramáticas, que tinham
sempre o intuito de mostrar a conduta humana e refletir sobre
ela. Havia três gêneros de espetáculos
teatrais: as tragédias, as sátiras e as comédias.
As tragédias apontavam as conseqüências
terríveis de um comportamento desmedido, ao qual davam
o nome de hybris. As sátiras e as comédias
também tinham função educativa, apontando
o ridículo da condição humana através
de personagens estereotipados e ridículos. Podemos
encontrar um exemplo nos personagens de Aristófanes,
em As Nuvens, e ainda os dramas satíricos. As tragédias
se diferenciavam das comédias e das sátiras
não só pelo sentido do texto, mas pelas máscaras
e roupas específicas usadas pelos atores, bem como
pela linguagem utilizada - enquanto a tragédia exigia
uma linguagem elevada, a comédia permitia o uso de
palavrões.
Intrigas e paixões dos deuses entre si e pelos homens
Apesar de os deuses terem poderes incríveis - voar
pela Grécia, dominar as forças da natureza,
a imortalidade -, eles eram muito parecidos com os humanos
nas suas emoções: raiva, ciúme, tristeza,
amor, desejo, alegria, eram sentimentos compartilhados com
os homens. Constantemente se apresentavam aos mortais sob
forma humana, por eles se apaixonavam e com eles tinham filhos,
gerando os semideuses.
Os deuses, como os homens, eram ambiciosos e intrigantes:
muitos templos eram construídos em cada cidade, porém
apenas um deus poderia ter o encargo de ser seu patrono.
Os deuses podiam ter várias cidades sob sua proteção,
o que era motivo de disputa entre eles.
Uma outra ocasião em que exercitavam suas raivas era
nas guerras entre os homens, nas quais tomavam partido. Na
Guerra de Tróia, por exemplo, quando os gregos chefiados
por Agamêmnon foram resgatar Helena, raptada por Páris
num ato de traição, alguns deuses apoiaram
os gregos e outros apoiaram os troianos.
Todos os deuses estavam reunidos; brindavam com as taças
de ouro enquanto contemplavam a cidade dos troianos.
Zeus disse: - Duas deusas protegem Menelau, Hera e Atena.
Ao adversário de Menelau (Enéas), Afrodite
ajuda; ainda hoje o livrou da morte. Todavia, a vitória
cabe a Menelau, amado de Ares. Deliberemos sobre o desfecho
desse caso: incitaremos a guerra terrível ou lançaremos
a paz sobre os dois povos? Hera, furiosa, disse: - Queres
então anular os meus esforços? Faz como entenderdes,
mas nem todos nós, os outros deuses, te aprovaremos.
[...] Foi então que Palas Atena deu um ardor e audácia
ao filho de Tideu, Diomedes [...], e empurrou-o para o meio,
para o ponto mais cerrado do tumulto. [...]
Ora, Diomedes perseguia Cípris (Afrodite) com o bronze
impiedoso. Sabia que ela era uma deusa sem bravura [...].
Quando a alcançou, feriu-a na mão. Correu então
o sangue divino da deusa [...] e ela soltou um grande grito
[...].
Diomedes gritou-lhe: - Filha de Zeus, abandona a guerra
e o morticínio. Não basta que seduzas mulheres
sem valor? Se voltares à guerra, penso que a guerra
te fará arrepiar, mesmo que te limites a assistir.
[...]
Atena disse: - Filho de Tideu, Diomedes, não temas,
nesta ocorrência, nem Ares nem qualquer outro imortal,
tão grande é minha ajuda. [...] Quando Ares,
flagelo dos humanos, viu Diomedes, foi direto a ele; tentou
atingi-lo, mas Atena desviou o golpe; Diomedes tirou sua
lança, e Atena reforçou o golpe, atingiu o
deus. Ares então gritou como dez mil homens, e subiu
para os céus para se lamentar com Zeus, que respondeu:
- Não venhas te lamentar. Tenho-te como o mais odioso
dos deuses, pois só te comprazes na discórdia.
(Homero, Ilíada.)
Além dos amores e emoções, os deuses
tinham outras qualidades humanas; o espaço da mulher,
na sociedade da pólis, por exemplo, era o mesmo que
o da deusa Héstia, e o dos homens correspondia ao
do deus Hermes, como foi visto no capítulo anterior.
Da mesma forma, todos os artesãos eram identificados
a Hefesto (o deus ferreiro), os navegantes a Posêidon,
os guerreiros a Ares, os reis a Zeus, e assim por diante.
Os deuses também tinham uma vida política semelhante à dos
homens: as decisões de Zeus eram comunicadas e discutidas
em assembléia.
Segundo um relato de Homero, Zeus convocou uma assembléia
para comunicar sua decisão sobre a Guerra de Tróia.
Zeus, do alto do Olimpo, ordenou a Têmis que chamasse
os deuses à Assembléia. [...] Não faltou
sequer um dos rios, sequer uma das ninfas que habitam as
florestas e as nascentes dos rios; Aquele que sacode a terra
também veio, e perguntou: Por que, ó Fulminante,
chamas de novo os deuses à Assembléia? Será por
causa dos troianos e dos aqueus? Zeus respondeu: Sim, foi
por isso; preocupo-me com esses homens. Vou ficar sentado
no Olimpo, e assistir à batalha como a um espetáculo;
vão vocês, os outros deuses, ajudar um dos dois
partidos, cada um conforme sua idéia [...].
(Homero, Ilíada)
Bibliografia:
"
Grécia - A vida cotidiana na cidade-Estado",
Teresa Van Acker, Ed. Atual
"
As Instituições Gregas", Claude Mossé,
Ed. 70, Lisboa
"
História", Heródoto, Ed. UNB
Jean-Pierre Vernant - Mito e religião na Grécia
Antiga. Ed. Papirus
http://www.culturabrasil.pro.br/mitologianagrecia.htm