As
Vidas Dos Filósofos
A filosofia é um assunto
(perdão, uma actividade) que tem uma história; e como
progride tão pouco, se é que progride realmente alguma
coisa, a sua história é, consequentemente, mais importante
do que a história de outras disciplinas. O especialista
instantâneo bem sucedido tem de se equipar com um
conhecimento prático desta história, se quiser singrar na
charlatanice.
Para os propósitos deste
livro, confinar-nos-emos quase exclusivamente à filosofia
ocidental, essa admirável tradição que começou na Grécia no
século VII a.C. Há uma boa razão para esta opção. A
filosofia da tradição ocidental é um tipo de projecto muito
diferente da filosofia oriental. Numa próxima secção daremos
alguns conselhos sobre como ser apropriadamente evasivo
acerca de temas como a Meditação, o Budismo, a Religião
Indiana, as Pessoas com Cabeças Rapadas e Túnicas Amarelas
Imundas, e outras ameaças sociais do género.
Portanto, esta secção contém
factos mais ou menos interessantes sobre alguns filósofos
mais ou menos famosos, factos esses de natureza tanto
biográfica como filosófica, dispostos de maneira mais ou
menos cronológica.
Os primeiros filósofos gregos
são geralmente conhecidos por pré-socráticos, apesar de isto
ser enganador: nem todos viveram antes de Sócrates, e, em
qualquer caso, não constituíram uma escola coerente; na
verdade, a maioria deles não constituíram sequer indivíduos
coerentes.
Ninguém sabe por que começou a
filosofia quando começou; o especialista instantâneo
ambicioso com inclinações marxistas pode tentar oferecer uma
explicação em termos de uma dialéctica inexorável de forças
históricas, mas nós não o recomendamos. Uma característica
notável de muitos pré-socráticos é a sua tentativa de
reduzir os constituintes materiais do Universo a uma ou mais
Substâncias básicas, tais como a Terra, o Ar, o Fogo, as
Sardinhas, os Gorros de Lã Velhos, etc.
Tales de Mileto (c. 620-550
a.C.) foi o primeiro filósofo reconhecido. Poderão ter
existido outros antes dele, mas ninguém sabe quem foram. Ele
ficou conhecido principalmente por defender duas coisas:
1) Tudo é feito de Água;
e
2) Os ímanes têm alma.
O leitor poderá pensar que não
foi um princípio muito prometedor.
aximandro (c. 610-550) pensava
que tudo era feito do Apeiron, uma concepção que tem um
certo encanto espúrio, até percebermos que não quer
realmente dizer coisa alguma.
Anaxímenes (c. 570-510)
aventurou-se corajosamente numa direcção completamente nova,
apesar de não menos arbitrária, ao afirmar que na realidade
tudo era feito de Ar, uma perspectiva talvez mais plausível
na Grécia do que, por exemplo, no Barreiro.
Heraclito (c. 540-490)
discordou, defendendo antes que tudo era feito de Fogo. Mas
ele avançou um passo mais, afirmando que tudo estava num
estado de fluxo e que tudo era idêntico ao seu oposto,
acrescentando que não podemos entrar duas vezes no mesmo
rio, e que não existe qualquer diferença entre o Caminho a
Subir e o Caminho a Descer, o que mostra que nunca foi ao
Bairro Alto numa sexta-feira à noite. Vale por vezes a pena
referir de passagem (o que constitui sempre a melhor maneira
de nos referirmos ao que quer que seja em filosofia) a
«Metafísica de Heraclito», para falar da sua doutrina do
fluxo, desde que não tenhamos de explicar seja o que for.
Heraclito era muito admirado por Hegel (q.v.), o que nos diz
talvez mais sobre Hegel do que sobre Heraclito.
itágoras (c. 570-10), como
qualquer aluno da primária sabe, inventou o triângulo
rectângulo; na verdade foi mais longe, ao acreditar que tudo
era feito de números. Acreditava também numa forma extrema
de reincarnação, defendendo que uma larga gama de coisas
improváveis, incluindo os arbustos e os feijões, têm alma, o
que tornava a sua dieta bastante problemática, acabando por
ser indirectamente responsável pela sua bizarra morte
(q.v.).
Empédocles (c. 500-430), um
notável médico e político siciliano do século V,
completamente doido (veja-se Mortes para mais detalhes),
pensava que tudo era feito de Terra, Ar, Fogo e Água,
misturando-se ou separando-se tudo através do Amor e da
Discórdia, ganhando cada um, à vez, a proeminência no ciclo
do eterno retorno, espelhando assim o cosmos, em grande
escala, o casamento suburbano típico.
Depois vêm os eleatas,
Parménides (520-430) e Melisso (480-420), que foram ainda
mais além. Em vez de afirmarem que tudo era na realidade
feito de uma substância, defenderam antes que na realidade
só havia uma única Coisa, grande, esférica, infinita, imóvel
e imutável. Toda a aparência de variedade, movimento,
separação entre objectos, etc., era uma Ilusão. Esta teoria
extraordinariamente contra-intuitiva (por vezes conhecida
por Monismo, da palavra grega «mono», que quer dizer
«dispositivo antiquado de gravação») revelou-se
surpreendentemente popular, sem dúvida por estar de acordo
com a experiência que as pessoas têm com algumas
instituições, como os Correios e a EDP.
O seu sucessor, Zenão
(500-440), avançou um conjunto de argumentos paradoxais para
mostrar que nada pode mover-se. Aquiles e a Tartaruga são
ainda discutidos, tal como a Flecha: argumentou ele que esta
não podia realmente mover-se, o que, a ser verdade, teria
sido uma boa notícia para S. Sebastião. Os argumentos tratam
de saber em grande parte se o Espaço e o Tempo são
infinitamente divisíveis, ou se um deles, ou ambos, é feito,
ou são feitos, de quanta indivisíveis — mencione isto para
dar a Zenão um ar moderno; se lhe pedirem explicações, mude
de assunto.
Os últimos dos pré-socráticos
são os atomistas Demócrito (c. 450-360) e Leucipo (450-390).
Diz-se por vezes que eles anteciparam a teoria atómica
moderna. Isto é completamente falso, e o especialista
instantâneo ganha alguns pontos ao dizê-lo, pela simples
razão que o que há de crucial nos átomos democritianos é a
sua indivisibilidade, ao passo que o que há de crucial nos
átomos modernos é o facto de não serem indivisíveis. O
leitor pode também fazer notar que Demócrito não gostava de
sexo, apesar de não se saber se tal se devia a razões
teóricas ou a algum infeliz revés pessoal.
É tudo quanto aos
pré-socráticos; vamos agora ao próprio homem que lhes deu o
nome, Sócrates (469-399). Sócrates não escreveu coisa
alguma: dependemos de Platão no que respeita a qualquer
informação sobre ele, e é uma vexata quaestio (uma boa
expressão) saber até que ponto Platão reproduziu as ideias
de Sócrates, ou se limitou unicamente a usar o seu nome. Não
se deixe enredar nesta questão: uma boa manobra é afirmar,
com um certo desdém arrogante, que o que conta é o conteúdo
filosófico, e não a sua origem histórica.
Platão (427-347) acreditava
que os objectos comuns do quotidiano, como as mesas e as
cadeiras, eram meras cópias «fenoménicas» imperfeitas de
Originais perfeitos que existiam no Céu para serem
apreciados pelo intelecto, as chamadas Formas. Também há
formas de itens abstractos tais como a Verdade, a Beleza, o
Bem, o Amor, os Cheques Carecas, etc. Esta posição trouxe
algumas dificuldades a Platão: se tudo o que vemos,
sentimos, tocamos, etc., deve a sua existência a uma Forma
Perfeitamente Boa, têm de haver Formas Perfeitamente Boas de
Coisas Perfeitamente Horríveis. O próprio Platão menciona o
cabelo, a lama e a sujidade; mas nós podemos pensar em
exemplos muito melhores, tais como peúgas brancas com
sapatos pretos, caramelos de Badajoz e galos de Barcelos.
Platão parece ser imensamente
sobrestimado como filósofo; se não acredita em mim, veja o
seguinte argumento tipicamente platónico, tirado do Livro II
da República:
1) Aquele que distingue
as coisas com base no conhecimento (presumivelmente, em vez
de
ser com base no mero
preconceito) é um filósofo;
2) Os cães de guarda
distinguem as coisas (neste caso, os visitantes) consoante
os conhecem
ou não (esta é uma
verdade cara aos carteiros); ergo
3) Todos os cães de
guarda são filósofos.
Experimente usar de vez em
quando este argumento, para ver como se sai.
Outra manobra útil de
aproximação a Platão é argumentar uma das duas ideias
seguintes:
1) que ele era um
feminista;
2) que não era.
Ambas as afirmações podem ser
sustentadas e acabar por revelar-se úteis (em ocasiões
diferentes, claro). O indício para 1) é o facto de Platão
afirmar no Livro 3 da República que as mulheres não devem
ser discriminadas em questões de emprego unicamente por
serem mulheres. A favor de 2) é o facto de, imediatamente a
seguir, Platão comentar que uma vez que as mulheres são por
natureza muito menos talentosas do que os homens, esta
«liberalização» não faz de qualquer maneira diferença
alguma.
Depois de Platão vem
Aristóteles (382-322), por vezes conhecido como o Estagirita,
que ao contrário do que pode parecer não é o embrião de um
estagiário, mas um nativo de Estagira, na Macedónia. Foi
aluno de Platão e esperava suceder-lhe como director da
Academia. Sentiu-se, por isso, ultrapassado quando Espeusipo
(não é necessário saber seja o que for sobre ele) ficou com
o lugar, abandonando ofendido a Academia para fundar a sua
própria escola, o Liceu — que não deve ser confundido com o
lugar misterioso onde os nossos pais perderam a inocência.
Aristóteles era estupidamente
brilhante. Desenvolveu a Lógica (na verdade, inventou-a), a
Filosofia da Ciência (que também inventou), a Taxonomia
Biológica (sim, também foi inventada por ele), a Ética, a
Filosofia Política, a Semântica, a Estética, a Teoria da
Retórica, a Cosmologia, a Meteorologia, a Dinâmica, a
Hidrostática, a Teoria da Matemática e a Economia Doméstica.
Não é aconselhável dizer seja o que for que não seja
elogioso em relação a ele, mas o especialista instantâneo
atrevido pode aventurar-se a lamentar a inclinação
excessivamente Teleológica da sua Biologia, ou comentar que
apesar de a sua teoria lógica ser um feito notável, ela foi
no entanto, como é óbvio, ultrapassada pelos
desenvolvimentos modernos devidos a Frege e Russell (q.v.).
Mas tenha cuidado com estas afirmações, e nunca as produza
se estiver a falar com um matemático, mesmo que este seja
muito novo. Uma linha de abordagem muito mais segura
consiste em depreciar moderadamente os aspectos mais
caricatos da Biologia de Aristóteles, dos quais o seguinte
argumento sobre a estrutura dos genitais das cobras é um
exemplo:
As cobras não têm pénis
porque não têm pernas; e não têm testículos por serem tão
compridas. (De
Generatione Animalum)
Aristóteles não oferece
qualquer argumento para sustentar a sua primeira alegação, a
não ser a suposição geral a que somos conduzidos de que caso
contrário o órgão em causa seria penosamente arrastado pelo
chão; mas a segunda deriva da sua teoria da reprodução. Para
Aristóteles, o sémen não é produzido nos testículos, mas na
espinal medula (os testículos funcionam aparentemente como
uma espécie de sala de espera do esperma vagabundo); além
disso, o sémen frio é estéril, e quanto mais tiver de
viajar, mais arrefece (daí o facto conhecido, comenta ele,
de os homens com
pénis compridos serem
estéreis). Assim, uma vez que as cobras são tão compridas,
se o sémen parasse algures no caminho, as cobras seriam
estéreis; mas as cobras não são estéreis; logo, não têm
testículos. Este esplêndido argumento é um exemplo de
Teleologia Excessiva, ou de uma explicação em termos de fins
e objectivos, que neste caso põe na verdade tudo de pernas
para o ar.
Depois de Aristóteles a
filosofia fragmentou-se cada vez mais. Fundaram-se várias
escolas rivais para complementar, e desancar, as já
existentes Academia e Liceu. As grandes novidades do
princípio do século III a.C. são os estóicos, os epicuristas
e os cépticos.
Os estóicos acreditavam
perversamente numa Providência Divina que tudo abarcava,
apesar de todos os dados em contrário, tais como a
ocorrência de desastres naturais, o triunfo das injustiças e
a existência de hemorróidas. Crisipo, talvez o mais
proeminente, e sem dúvida o mais palavroso dos estóicos,
argumentou que as pulgas tinham sido criadas por um
Providente Benevolente para não deixar as pessoas dormir de
mais. Os estóicos contribuíram também com alguns
desenvolvimentos importantes na teoria da lógica, o que lhes
permitiu formular alguns tipos de argumentos que tinham
escapado a Aristóteles. Mas o especialista instantâneo não
deve preocupar-se muito com isso.
Os epicuristas, assim chamados
em nome do seu fundador, Epicuro (342-270) defendiam que o
nosso Fim era o prazer, consistindo este na satisfação dos
desejos, o que era um bom começo. Mas depois deram a volta
às coisas, afirmando que isto não significava que ter muito
prazer era uma coisa boa; pelo contrário, uma pessoa devia
limitar o número dos seus desejos, para que assim não
acabasse por ficar com muitos desejos por satisfazer — um
projecto que tem como consequência uma vida miseravelmente
chata (e que, a ser cumprido, implicaria a completa
reestruturação das fantasias do adolescente típico). Este
ponto de vista é lógico, e ainda mais divertido, e, é claro,
completamente oposto àquela ideia da filosofia como a
procura do Inefável e do Inatingível — a União Mística com o
Criador, a Empatia Total com o Cosmos, ou uma Noite com a
Claudia Schiffer. Assim:
Por prazer entendemos a
ausência de dor física e mental. Não se trata de beber, nem
de
festas orgiásticas, nem
da satisfação com mulheres, rapazes ou peixe. (Extraído de
Carta a Menécio)
Não sabemos aonde foi ele
buscar a ideia do peixe, mas asseguramos-lhe que está no
texto. A outra característica importante do epicurismo era a
sua versão da Teoria Atómica, que era como a de Demócrito,
excepto que, para preservar o Livre Arbítrio, os epicuristas
defendiam que de vez em quando os átomos davam uma guinada
imprevisível, causando colisões, mais ou menos como os
motociclistas acelerados das cidades. Defendiam também que
apesar de os deuses existirem, se estão nas tintas para os
homens porque têm mais que fazer.
A outra grande escola deste
período, os cépticos, não acreditavam em nada. O seu
fundador, Pirro de Elis (c. 360-270), não escreveu quaisquer
livros (presumivelmente porque não acreditava que alguém os
leria, se acaso os escrevesse), apesar de alguns cépticos
posteriores — inutilmente, poderemos pensar — o terem feito,
sendo de notar Tímon, que escreveu um livro de sátiras
chamado Silloi, Enesidemo e Sexto Empírico. A linha de
argumento principal consistia em afirmar que nenhum dado dos
sentidos era digno de confiança, apesar de poder ser
agradável, e que, consequentemente, ninguém podia ter a
certeza fosse do que fosse. Na verdade, ninguém podia ter a
certeza que não se podia ter a certeza fosse do que fosse.
Para sustentar esta ideia, ofereceram algumas versões do
Argumento da Ilusão, que Descartes iria usar mais tarde.
Diz-se que o cepticismo de
Pirro era tal que os amigos tinham de o impedir,
repetidamente, de cair nos precipícios e nos rios e de
caminhar de encontro a carros em andamento, o que não devia
dar-lhes qualquer descanso, apesar terem sido aparentemente
muito eficientes, pois morreu com uma idade bastante
avançada. Diz-se que visitou os gimno-sofistas indianos, ou
«filósofos nus», assim chamados devido ao hábito de fazerem
seminários em pêlo. Uma vez ficou tão irritado com as
perguntas insistentes que lhe dirigiam em público que se
despiu completamente (talvez por influência dos
gimno-sofistas), mergulhou no ilusório Rio Alfeu, e nadou
vigorosamente para longe, uma táctica que o especialista
instantâneo fortemente pressionado pode considerar imitar.
Havia mais algumas escolas
menores que tentavam alcançar a ribalta, nomeadamente os
cínicos, que eram os mestres do comentário sarcástico, e uma
desgraça se apareciam para jantar. Um deles, Crates, era
conhecido por irromper nas casas das pessoas para as
insultar. O cínico mais famoso foi Diógenes, que vivia numa
barrica para fugir aos impostos, e que ficou conhecido por
ter uma vez dito a Alexandre Magno, com uma certa aspereza,
para lhe sair da frente para não lhe tapar o sol. Costumava
também escandalizar as pessoas por comer, fazer amor e
masturbar-se em locais públicos, quando e onde lhe dava
vontade.
Pode ser útil fingir um certo
afecto pelos cínicos: estavam-se completamente nas tintas
para o que as outras pessoas pensavam deles, sendo por isso
modelos da Temperança Filosófica, ou idiotas chapados,
dependendo do seu ponto de vista. É irrelevante o ponto de
vista adoptado, mas certifique-se de que adopta um qualquer.
A filosofia vagueou no mundo
greco-romano sob da protecção imprevisível dos imperadores
romanos, cujas atitudes para com os filósofos variavam
consideravelmente. Marco Aurélio, por exemplo, foi ele
próprio um filósofo; Nero, por outro lado, matava-os. A
influência do cristianismo começou a fazer-se sentir neste
período, e a filosofia sofreu com isso.
Agostinho, que por qualquer
razão bizarra se tornou um santo, apesar da sua pródiga vida
sexual e da sua famosa oração a Deus («faz-me casto — mas
ainda não») teve algumas ideias interessantes: antecipou o
Cogito de Descartes (penso, logo existo; refira-se sempre a
isto como «o Cogito»), e desenvolveu uma teoria do tempo
segundo a qual Deus está fora da corrente temporal de
acontecimentos (sendo Eterno e Imutável, não tinha outra
saída), o que quer dizer que o Todo-Poderoso nunca sabe a
que horas são as coisas, mais ou menos como os maquinistas
da CP.
Havia também os neoplatónicos,
alguns dos quais eram cristãos, enquanto outros não, mas
cujos nomes parecem todos começar por P. Os que eram
cristãos dedicavam-se a mostrar que Platão tinha na
realidade sido cristão, uma ideia que exige uma
reorganização temporal surpreendente, para não dizer
implausível. Os neoplatónicos tinham a tendência para falar
de Coisas Abstractas com Letras Maiúsculas, tais como o Uno
e o Ser, de uma maneira que ninguém percebia. Isto não é um
problema exclusivo deles: Heidegger fez o mesmo, mas é claro
que ele era alemão, e isso é o tipo de coisa que se espera
de um alemão. Encontrará talvez pessoas que cultivam alguma
admiração por esta gente; não hesite em afastá-los
sumariamente, especialmente Plotino, Porfírio e Proclo,
apesar de poder admitir relutantemente que o último tinha
umas ideias interessantes sobre Causas.
Depois disso veio a Idade das
Trevas, e a chama da filosofia, como os historiadores
palavrosos gostam de dizer, foi mantida no mundo árabe, e em
mosteiros que ou eram tão remotos ou tão pobres que não
valia a pena saquear. A pouca filosofia que existia na
Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica,
centrando-se sobre disputas tais como se Deus era Uma pessoa
em Três ou Três pessoas Numa, a natureza exacta da
Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na
cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem
realmente fazê-lo).
Vale talvez a pena chamar a
atenção para Córdova, no sul de Espanha, que estava ocupada
pelos árabes, e que era o país natal do maior filósofo
judeu, Maimónides, e do grande filósofo árabe, Averróis.
Algumas pessoas dirão que o maior filósofo árabe foi Avicena,
e não Averróis — mas não se renda (o dogmatismo compensa).
Durante várias centenas de anos, os judeus, os árabes e os
cristãos conseguiram viver todos juntos. A intolerância
religiosa, apesar de ser perene, não tem sido um facto
invariável da vida.
Na Europa, a filosofia começou
a renascer no século XI com Anselmo, outro dos santos
filosóficos, que ficou famoso por ter inventado o
enganadoramente chamado Argumento Ontológico da existência
de Deus, que é notável pela sua implausibilidade, pela sua
longevidade, e pela dificuldade em ser refutado. É assim:
pense numa coisa maior do que a qual nada pode existir; mas
a existência é ela própria uma propriedade que torna uma
coisa melhor. (Esta alegação, implausível quando aplicada à
halitose e aos bebés, torna-se mais persuasiva se a entidade
em questão for boa em todos os outros aspectos.) Logo, se
esta coisa maior do que a qual nada pode ser pensado (i.e.,
Deus) não existisse, poderíamos imaginar a existência de
outra coisa ainda maior, nomeadamente, um Deus existente,
que teria todas as propriedades do primeiro, mais a
existência como bónus. Mas nós podemos conceber este último.
Logo, Deus tem de existir. O próprio Anselmo afirma que foi
Deus que lhe enviou uma visão com o argumento pouco depois
do pequeno almoço, no dia 13 de Julho de 1087, numa altura
em que ele estava a passar um mau bocado com a sua fé. Este
é assim o único grande argumento da história da filosofia
cuja descoberta pode ser datada com precisão. A não ser,
claro, que Anselmo estivesse a contar lérias.
O próximo santo
filosoficamente importante foi Tomás de Aquino (1225-74),
que foi responsável em grande parte pela reintrodução de
Aristóteles no mundo ocidental. (Aristóteles foi
delicadamente ignorado durante séculos por académicos que
não gostavam de admitir que não sabiam grego.) São Tomás é
também o único filósofo oficialmente reconhecido pela Igreja
Católica. Tornou-se conhecido por propor as Cinco Vias para
provar a existência de Deus — não tinha ficado muito
impressionado com Anselmo. Não precisa de saber quais são
essas Cinco Vias, mas pode talvez fazer notar que não existe
qualquer diferença significativa entre as primeiras três, de
maneira que Tomás de Aquino estava a exagerar um bocado.
Ele é também o autor de dois
argumentos interessantes contra o incesto. Em primeiro
lugar, o incesto tornaria a vida familiar ainda mais
infernalmente complexa do que já é; em segundo lugar, o
incesto entre irmãos devia ser proibido porque se ao amor
típico dos casais se juntasse o amor típico dos irmãos, o
vínculo resultante seria de tal maneira poderoso que
resultaria em relações sexuais anormalmente freqüentes. É
uma infelicidade que São Tomás não defina este último
conceito intrigante. Podemos também duvidar seriamente se
teve realmente irmãos ou irmãs.
Quanto ao resto dos
escolásticos medievais, como são conhecidos devido à sua
predilecção pedagógica para o intenso pedantismo, a maioria
dos mais importantes parecem ter sido franciscanos. Deve
afastar-se decididamente deles, ou pelo menos dos
pormenores. Poderá recordar que Duns Escoto (1270-1308) era
na verdade irlandês, e que era além disso, segundo Gerard
Manley Hopkins, «o mais dotado decifrador do real», seja o
que for que isso queira dizer. Outro nome que vale a pena
usar é o de Guilherme de Ockham (c. 1290-1349), considerado
universalmente o maior lógico medieval, e conhecido
sobretudo pela «Navalha de Ockham», com a qual pôs fim a
séculos de filosofia hirsuta. A Navalha é usualmente citada
segundo a fórmula «As Entidades não devem ser Multiplicadas
sem Necessidade», ou, melhor ainda, em latim: «Entia non
sunt multiplicanda praeter necessitatem» (i.e., Não
Inventes). O especialista instantâneo ganha alguns pontos
extra se comentar que esta formulação não se encontra, na
verdade, em parte alguma da oeuvre extraordinariamente
logorreica de Ockham.
A idade moderna da filosofia
começa efectivamente com a descoberta, na renascença, do
cepticismo grego; foi traduzido por Lorenzo Valla e usado
por Michel de Montaigne. Depois de ascender de Valla para
Montaigne, a epistemologia céptica formou a base a partir da
qual Descartes iria reconstruir uma filosofia positiva.
René Descartes, (1596-1650),
como quase todos os ensaios dos caloiros de filosofia lhe
dirão, foi o Pai da Filosofia Moderna. Descartes foi em
muitos aspectos uma personagem apaixonante: tinha muita
dificuldade em levantar-se de manhã, e inventou o Cogito
(lembre-se de o chamar sempre assim) enquanto estava
escondido num quarto aquecido da Baviera, em 1620, para ver
se escapava à tropa. Nunca casou, mas teve uma filha
ilegítima. É aconselhável decorar o famoso slogan filosófico
de Descartes em pelo menos três línguas, pois em português
rende muito pouco. O próprio Descartes publicou-o em latim e
em francês: Cogito, ergo sum; «Je pense, donc je suis» (a
versão do Discours de la Méthode, que é menos conhecida do
que a das Meditações latinas, constituindo portanto um
material melhor para o especialista instantâneo). Os
especialistas instantâneos mais experientes podem
divertir-se oferecendo versões em alemão, servo-croata,
hindustani, etc. Descartes chegou à conclusão que pelo menos
isso era certo, depois de tentar sistematicamente duvidar de
tudo o resto, tendo começado com coisas comparativamente
simples, como as laranjas, o queijo e os números reais,
avançando depois gradualmente para as verdadeiramente
difíceis, como Deus e a sua senhoria.
Descartes descobriu que podia
duvidar da existência de tudo, excepto da realidade dos seus
próprios pensamentos. (Ele tinha mesmo algumas dúvidas
quanto ao seu próprio corpo, e com razão, a acreditar nos
retratos que nos chegaram.) Partindo desta certeza
inabalável, Descartes passou à «reconstrução de uma ponte
metafísica» (use esta expressão: soa bem) para chegar à
realidade comum, por meio da demonstração da existência de
Deus (exactamente como fez ele tal coisa não deve
preocupar-nos: basta saber que o fez), acabando assim por
deixar tudo mais ou menos como estava antes. Mas a filosofia
é mesmo assim, como mais tarde diria Wittgenstein. O leitor
pode legitimamente perguntar-se no seu íntimo se valeu a
pena o esforço: mas não deixe jamais transparecê-lo.
A partir desta altura a
filosofia começa a mostrar sinais de se dividir em duas
tradições, a britânica e a continental. Este tipo de
comentário enfurece os franceses e os alemães que, não sem
alguma razão, gostam de pensar que têm tradições
independentes — por isso vem mesmo a jeito quando falamos
com eles.
Os britânicos tendem a ser
agrupados como empiristas, o que quer dizer que, tal como o
nome sugere, constroem os seus sistemas com base no que pode
ser sentido, observado, ou objecto de experiência. As
personagens mais importantes parecem uma anedota racista:
era uma vez inglês (Locke), um irlandês (Berkeley) e um
escocês (Hume). Mas quem gosta de anedotas ficará
desapontado ao descobrir que, apesar dos estereótipos,
Berkeley era muito esperto e Hume muito generoso.
Mas comecemos com John Locke
(1632-1704), que pensava que os objectos tinham dois tipos
de atributos:
1.Qualidades Primárias, como a
Extensão, a Solidez e o Número, tidas como inseparáveis e
inerentes aos próprios objectos, e
2.Qualidades Secundárias,
tais como a Cor, o Sabor e o Cheiro, que parecem estar nos
objectos, mas que estão na verdade em quem percepciona.
(Qualquer pessoa que tenha passado há pouco tempo por um
campo recentemente adubado com estrume de cavalo pode
sentir-se na disposição de duvidar disto.)
Que há-de fazer-se ao certo
com atributos como a Extrema Maldade, que parece
simultaneamente estar espalhada e ser objectiva, ninguém
sabe: mas ele defendia que o Feio, tal como o Belo, são
relativos, o que significa que ainda podemos ter esperança.
Locke pensava também que não
tínhamos Ideias Inatas (sendo assim, a mente de um
recém-nascido seria uma tabula rasa, uma ardósia limpinha:
tal como muitas mentes de adultos, a julgar pelas
aparências) e que todo o nosso conhecimento do mundo
exterior ou foi directamente derivado do mundo exterior, ou
indirectamente extrapolado a partir dele. Isto deu-lhe
alguns problemas para conseguir dar conta de conceitos
altamente abstractos, como o Número, o Infinito e a Cantina
Universitária. Locke defendeu ideias interessantes sobre a
Identidade Pessoal — como me distingo
das outras mentes? Qual é o
Conteúdo da Continuidade da minha Personalidade? Serei eu a
mesma Pessoa que casou com a minha mulher à cinco anos? Se
sou, ainda estou a tempo de fazer alguma coisa? etc. —,
sustentando que nem todos os Homens eram Pessoas, pois para
se ser uma Pessoa exige-se um certo nível de
auto-consciência, e que nem todas as Pessoas eram Homens. A
razão pela qual ele acreditava nesta última ideia devia-se
unicamente à sua crédula aceitação de uma história de um
viajante latino-americano que afirmava ter conhecido no Rio
de Janeiro uma arara inteligente que falava português.
George Berkeley (1685-1753),
apesar das desvantagens de ser simultaneamente irlandês e
bispo, era mais radical. Defendia que as coisas só existiam
se fossem percepcionadas («Esse est percipi»: não se esqueça
desta), e a razão pela qual ele acreditava nesta ideia
extraordinária, que ao que parece ele pensava ser no entanto
simples senso comum, é que era impossível pensar numa coisa
impercepcionada, pois no momento em que tentamos pensar nela
como coisa impercepcionada já estamos, por pensar nela, a
percepcioná-la.
A filosofia de Berkeley esteve
fortemente em voga, e teve a virtude de irritar imenso o Dr.
Johnson, que afirmou tê-lo refutado ao dar um pontapé numa
pedra — uma forma particularmente pouco filosófica de
refutação que falhou completamente o ponto de Berkeley. As
pessoas que defendem estas ideias chamam-se idealistas (ver
Glossário). Tal como a maior parte das coisas em filosofia,
os idealistas são mais ou menos lunáticos; G. E. Moore
comentou uma vez que os idealistas só acreditam que os
comboios têm rodas quando estão nas estações, uma vez que
não as podem ver quando viajam. Segue-se também, o que é
muito interessante, que as pessoas não têm corpos a não ser
quando estão nuas, um facto que, a verificar-se, tornaria
completamente inútil grande parte da especulação quotidiana.
O sucessor natural deste
género de ideias é uma forma de cepticismo: e é aqui que
entra Hume (1711-76). Hume publicou o seu primeiro livro, o
Treatise of Human Nature, em 1739, e ficou um bocado
ofendido porque ninguém lhe ligou nenhuma. Sem se deixar
abater, no entanto, limitou-se a reescrevê-lo e a publicá-lo
com outro título (Enquiry Into Human Understanding), e as
pessoas deram-lhe imediatamente importância e atenção.
A perspectiva geral é que a
Enquiry é muito inferior ao Treatise: o especialista
instantâneo pode tentar opor-se a esta perspectiva (a
Enquiry tem pelo menos a virtude de ser muito mais pequena).
Entre as coisas que é útil saber sobre Hume contam-se o
facto de ele ter oferecido um tratamento original das
causas, de acordo com o qual as causas e os efeitos são
unicamente os nomes que damos aos acontecimentos ou itens
que foram repetidamente observados juntos: a «Conjunção
Constante». Tente notar que, na Enquiry, as três formulações
de Hume deste princípio não são equivalentes: uma faz das
causas condições necessárias dos seus efeitos; uma segunda
fá-las condições suficientes; e a terceira parece ser
ambígua. E o leitor pode comentar que este princípio não
consegue distinguir as causas dos efeitos colaterais. Hume
pensava também que o Livre Arbítrio e o Determinismo podiam
ser compatíveis: duvide disto delicadamente.
Entretanto, de volta ao
continente, temos de dar conta de indivíduos como Espinosa
(1634-77), um polidor de lentes de Amesterdão. Foi muito
admirado (mas não, aparentemente, pelos seus contemporâneos,
que primeiro o excomungaram publicamente, tendo depois
tentado assassiná-lo, quando isso não deu resultado) pelo
seu Sistema Ético, que pôs de pé como um conjunto de
deduções formais em geometria. Não é surpreendente, devido
ao seu método, que ele tivesse sido um forte Determinista,
tendo acreditado ainda numa Necessidade Lógica inabalável. A
melhor aproximação a Espinosa é equilibrar uma certa
admiração pelo homem, com um leve sentido de desapontamento
por ter usado um sistema tão impróprio para um tema como a
ética. A ética, pode dizer-se sentenciosamente (como na
realidade o fez Aristóteles), não é apropriada para ser
exibida num sistema formal axiomático.
Leibniz (1646-1716) é
popularmente conhecido através da caricatura de Pangloss, no
Cândido de Voltaire, o parvo optimista que pensa que estamos
no melhor dos mundos possíveis, o que é um completo
disparate. Contudo, Leibniz só escreveu coisas desse género
para reconfortar os monarcas. Podia pensar-se que eles já
tinham conforto suficiente, mas não. Leibniz escreveu também
muito sobre assuntos Lógicos e Metafísicos, mas estas
especulações não foram publicadas durante a sua vida, porque
não eram muito reconfortantes para os monarcas. No caso
improvável de este nome vir a lume, reflicta tristemente na
diferença entre a qualidade do pensamento privado de
Leibniz, e a pobreza das suas afirmações públicas.
O espaço não nos permite dizer
muito sobre os filósofos franceses do século XVIII, cujas
figuras de proa foram Voltaire, Rousseau e Diderot. Eles são
notáveis por terem sido todos presos ou exilados, ou ambas
as coisas. Está cada vez mais na moda exaltar a
originalidade, o instinto, a humanidade e a excelente prosa
erótica de Diderot, desprezando os outros, acrescendo ainda
que vale a pena cultivá-lo mais que não seja porque pouco do
que ele escreveu, excluindo La Réligieuse, está
correntemente disponível em português. Experimente
introduzir na conversa La Reve de d’Alembert ou Jacques Le
Fataliste — e nunca se esqueça de mencionar que ele vivia da
escrita de textos porno.
O Marquês de Sade é um bom
investimento, parcialmente por ser um exemplo de um
aristocrata maluco com um comportamento extravagantemente
desviante, mas também devido ao seu tipo particularmente
louco de filosofia do estado de natureza: o seu mote poderia
ter sido qualquer coisa como «se sabe bem, não hesites».
Sabia bem, ele não hesitou e acabou preso por causa disso.
Pode mencionar a Philosophie dans le Boudoir, uma mistura
extraordinária de filosofia política, moral e
sócio-biológica com muito sexo sadomasoquista
imaginativamente coreografado. Pode perguntar-se
suspeitosamente se a sua filosofia terá sido levada
suficientemente a sério (na verdade foi: mas não precisa de
o mencionar).
O que nos conduz aos alemães
do século XIX. O nosso conselho é este: evite-os a todo o
custo. Tudo o que precisa de saber do seu precursor, Kant,
pode encontrar-se noutra secção (ver Ética). Tudo o que
todas as pessoas sabem sobre Hegel pode escrever-se num
postal ilustrado, e mesmo assim seria ininteligível. Ele
possuía, de forma muito avançada, esse talento comum aos
advogados, entusiastas de computadores e filósofos alemães,
que consiste em tornar o basicamente simples fantasticamente
complexo.
Começou por usar a palavra «dialéctica»
para referir as inter-relações das forças históricas
opostas, sendo assim importante para a pré-história do
marxismo. Para além disso, a terminologia filosófica alemã
pode impressionar bastante, quando usada convenientemente
(v. glossário). O mesmo se pode dizer, mais ou menos, de
Schopenhauer.
Nietzsche (1844-1900) era um
excêntrico, sendo por isso o assunto ideal para as
vernissages. As opiniões contemporâneas têm tendência para o
classificar juntamente com Wagner como um proto-fascista;
ele era sem dúvida alguma anti-semita, mas na Prússia do
século XIX toda a gente o era. Ele achava que Deus estava
morto, ou pelos menos de férias, e odiava fanaticamente as
mulheres, apesar de ser duvidoso se ele chegou realmente a
conhecer alguma.
Avançou também a doutrina do
Eterno Retorno, de acordo com o qual tudo acontece
repetidamente, uma e outra vez, exactamente da mesma
maneira. Ele achava que isto era reconfortante, mas na
verdade condena-nos a uma eternidade de um tédio repetitivo,
ou, alternativamente, se cada retorno for precisamente igual
a todos os outros de maneira a que nenhum contenha memórias
de nenhum outro, não faz qualquer diferença. Nietzsche ficou
definitivamente louco em 1888 (algumas pessoas diriam que já
estava louco há muito mais tempo) e começou a escrever
livros com capítulos intitulados Por Que Sou Tão Esperto, e
Por Que Escrevo Livros Tão Bons.
Entre os não alemães do século
XIX, deve mencionar Kierkegaard, mais que não seja para
mostrar que sabe pronunciar o nome: «Quírquegôr». O filósofo
francês mais notável deste período foi Henri Bergson. Era um
Vitalista, acreditando portanto que o que distinguia a
matéria animada da inanimada era a presença na primeira de
um misterioso Élan Vital, uma força misteriosa e indefinível
que por alguma razão desaparece do corpo humano na
adolescência. Conseguiu também, o que é notável, escrever um
longo livro sobre o riso que não contém uma única boa piada.
O que nos conduz aos americanos.
A contribuição originalmente
americana para a filosofia foi o pragmatismo, que não é,
como na política, uma designação alternativa para uma
rejeição esfarrapada e indulgente de quaisquer princípios,
mas antes a crença de que a verdade e a falsidade não são
absolutas mas sim uma questão de convenção, ou que, como
alguns filósofos modernos gostam de dizer, «estão em
aberto.» Pensando melhor, talvez o pragmatismo tenha afinal
qualquer coisa a ver com a política. Esta ideia foi
defendida por William James e John Dewey. Se citar estes
nomes, não se esqueça que James era irmão do romancista
Henry James.
Isto conduz-nos ao fim da
secção histórica desta exposição: os filósofos do século XX
serão tratados numa outra secção (e com um bocado mais de
cuidado, uma vez que muitos deles ainda estão vivos, podendo
portanto vir a processar-me).
AS MORTES DOS FILÓSOFOS
Acabámos portanto a vida dos
filósofos. Segundo os epicuristas, a morte nada é para nós —
mas apesar da opinião deles, incluímos a seguinte lista de
mortes filosóficas bizarras, para efeitos de completude.
Há duas tradições no que
respeita à morte de Empédocles. De acordo com uma delas, ele
morreu de uma perna partida; mas a outra defende que ele
saltou para a cratera do Monte Etna para provar assim que
era um deus. Não se sabe como poderia isto constituir tal
prova.
Heraclito, contudo, contraiu
hidropisia em resultado de viver de erva e de outras plantas
numa encosta de uma montanha, numa veneta misantrópica. Ao
ser informado pelos médicos que o seu estado não tinha cura,
tomou o tratamento a seu cargo, obrigando-se a ser coberto
da cabeça aos pés com estrume, sendo depois deixado na rua
(ou talvez tivesse acontecido apenas que ninguém o queria em
casa). Segundo o historiador Diógenes Laércio, «ele não
conseguiu tirar o estrume, e, estando assim irreconhecível,
foi devorado pelos cães». Talvez os cães não o tivessem
devorado se soubessem quem era.
Nunca mencione a morte de Sócrates com cicuta numa cela
ateniense; mas se tiver a infelicidade de alguém lho
mencionar, tente fazer notar que a descrição da sua morte no
Fédon de Platão é completamente inconsistente com os efeitos
conhecidos da cicuta: por isso, alguém estava a mentir.
Pitágoras foi uma vítima do
seu próprio vegetarianismo extremo. Ao ser perseguido por
vários clientes insatisfeitos, chegou a um campo de feijão,
e, para não o pisar, ficou onde estava, acabando assim por
ser morto.
Crínis, o estóico (uma escola
famosa pela sua atitude imperturbável e indiferente em
relação aos aspectos terrenos) morreu de medo com um guincho
de um rato. A filosofia estóica nunca conseguiu recuperar
completamente deste revés.
Crisipo, o estóico, por outro
lado, morreu a rir de uma das suas terríveis anedotas. Um
macaco de uma velha, assim reza a história, comeu uma vez
uma grande quantidade dos figos de Crisipo, após o que este
lhe ofereceu o seu odre, dizendo «É melhor ele dar um golo
para acompanhar os figos», após o que desatou às
gargalhadas. Depois morreu. Com um sentido de humor assim,
não temos de nos sentir culpados se pensarmos que foi uma
sorte nenhum dos seus 700 livros ter sobrevivido.
Diógenes terá morrido de uma
das seguintes três maneiras:
1) Porque não se deu ao
trabalho de respirar.
2) Devido a uma grave
indigestão em resultado de comer polvo cru.
3) Por ter sido mordido
no pé ao dar polvo cru aos seus cães.
Depois do período antigo a
qualidade das mortes filosóficas decaiu consideravelmente,
apesar de valer talvez a pena registar que Tomás de Aquino
morreu na retrete, tal como já tinha acontecido a Epicuro.
Francis Bacon morreu em resultado de uma pneumonia que
apanhou quando tentava congelar uma galinha na neve, em
Hampstead Heath. É talvez o único homem que morreu em
resultado de uma investigação relacionada com a comida, e
não por a ter efectivamente comido.
Finalmente, Descartes teve a
pouca sorte de morrer por se levantar demasiado cedo.
Atraído pela corte da Rainha Cristina da Suécia, descobriu
para seu horror que ela queria ter explicações diárias e que
a única hora que tinha livre era às cinco da manhã. O choque
matou-o.