Freud e A Interpretação
dos Sonhos
Cem anos atrás,
Freud sonhava... Também escrevia e o saber produzido - ainda
hoje - nos diz respeito.
A crença mantida
na antigüidade, de que os sonhos
eram enviados pelos deuses afim de ordenar as ações dos
homens, constitui ainda hoje uma convicção popular. Basta
lembrarmos do sonho do faraó, proposto a José na Bíblia, das
sete vacas gordas seguidas por outras sete magras que devoram
as primeiras. O significado era uma profecia de sete anos de
fome no Egito.
Esse método de
interpretação simbólica é tão difundido como outro de
decifração, onde para cada elemento onírico encontra-se um
significado correspondente, estabelecido nos livros de sonhos
com tabelas de palavras-chaves e lugares comuns.
É a partir de Freud que o sonho torna-se objeto de pesquisa
científica com o livro, A Interpretação dos Sonhos, resultando
na criação de um novo método de interpretação psicanalítica.
Não há dúvida que aquela era uma grande descoberta, mais ou
menos original. Sim, porque mesmo que eternamente fosse
admitido algum sentido para os sonhos, a novidade freudiana,
foi fazer deles, através de uma práxis, uma via régia.
A eficácia
analítica operava a partir de três perspectivas simultâneas.
Primeiro, na prática clínica, tratava-se do melhor dos
caminhos para atingir os pensamentos recalcados do paciente.
Depois, por ser o meio mais adequado para um conhecimento
teórico do aparelho psíquico; e finalmente, por se constituir
o melhor dos argumentos para levar os seus leitores a admitir
a existência do inconsciente, conceito mor da psicanálise.
- No entanto,
será que Freud disse tudo que poderia ser dito? Todavia,
quantas outras coisas sabemos atualmente sobre o assunto, como
saldo positivo, tanto da experiência analítica, quanto das
ciências humanas, as cognitivas e as
conjecturais?
Um século depois da iniciativa freudiana, os sonhos, o sonhar,
a vida onírica e a arte da interpretação continuam tirando o
sono dos interessados em questionar a realidade, considerando
que ela é apenas diurna.
Em 1999, a
efeméride convida para um balanço e um recenseamento da outra
cena. A psicanálise teria bastante para discutir, mas nunca
poderia ser a dona da questão. Pelo contrário, os sonhos são
um território específico que - embora não autônomo - convoca
todos os saberes competentes a se manifestarem, em função de
um desafio que se mantém tão vivo agora, como sempre foi na
noite dos tempos.