Heráclito e Parmênides
INTRODUÇÃO
Nesse trabalho
discutiremos as diferenças entre Parmênides e Heráclito, seus
conceitos, suas diferenças, especialmente seus pensamentos
mais significativos e populares. Tais como as constantes
modificações de Heráclito e o ser perfeito de Parmênides
Heráclito
procura explicar o mundo pelo desenvolvimento de uma natureza
comum a todas as coisas e em eterno movimento. Ele afirma a
estrutura contraditória e dinâmica do real. Para ele, tudo
está em constante modificação. Daí sua frase "Não nos banhamos
duas vezes no mesmo rio", já que nem o rio nem quem nele se
banha são os mesmos em dois momentos diferentes da existência.
Parmênides, ao contrário, diz que o ser é unidade e
imobilidade e que a mutação não passa de aparência. Para
Parmênides, o ser é ainda completo, eterno e perfeito.
Heráclito e
Parmênides
O SURGIMENTO DA
FILOSOFIA ENTRE O SER E O VIR-A-SER
I-PARMÊNEDES
Conta-se que
Parmênides certa vez disse a respeito de Heráclito: "Fora com
os homens que nada sabem e parecem ter duas cabeças! Junto
deles está tudo, também seu pensamento, em fluxo. Eles admiram
as coisas perenemente mas precisam ser tão surdos quanto cegos
para misturarem assim os contrários!".
De fato,
enquanto um se baseava na lenta e dolorosa escalada da lógica
pura, e outro muitas vezes parecia estar guiado pela intuição
e até por um misticismo confuso, era natural que não apenas
discordassem, mas que se desenvolvessem ânimos entre eles. No
entanto, esse conflito nos é fundamental, pois teria sido o
primeiro choque de idéias que ainda hoje encontra força e
significado; afastando-se lentamente da Filosofia da Natureza
e do misticismo de Pitágoras, Heraclito e Parmênides começam a
desbravar um território que ainda hoje nos assombra - o estudo
dos seres e dos não - seres. Ao questionar o que eles são, até
que ponto eles são válidos e reais, ponto de divergência entre
os dois, o que é, como ocorre e se ocorre o vir -a- ser ( isto
é, não ser então tornar-se ) eles partem para um estudo mais
aprofundado da realidade além de onde a ciência ou qualquer
outra área do conhecimento com a exceção da filosofia
alcançam.
Parmênides
nasceu em Eléia na Itália, por volta de 530 a. c. Sua
filosofia, dita Eleata, contrasta-se com a de Heráclito, dita
Jônica, por seu tom cinza, frio e penetrante, mostrando um
processo lógico de passos lentos, porém firmes; a filosofia de
Parmênides pode ser dividida em duas fases, que servem
inclusive para dividir o pensamento pré- socrático; em sua
primeira fase, o pensamento de Parmênides é feito a partir de
um sistema físico- filosófico; quando ele parte, no entanto,
para a teoria do Ser, ele marca a divisão entre um pensamento
anaximândrico e o pensamento parmenídico. Nos interessa,
logicamente, apenas a segunda parte, onde se concentra o que
há de inovador em sua filosofia;
O primeiro passo
tomado por Parmênides é tentar ordenar a realidade; para isso,
faz uso de duas classes; aquelas que são, e aquelas que não
são- ao observar a luz e a escuridão, por exemplo, observou
que a escuridão nada mais era que a negação as luz; como uma
qualidade negativa; a partir daí partiu para outros pares de
opostos, leve e pesado, sutil e denso, passivo e ativo, terra
e fogo, frio e quente, etc. Parmênides relacionava uma das
características à luz, ou positiva, e a sua oposta, à
escuridão, ou negativa; depois que passou a denominá-las,
simplesmente, "ser" ( positiva ) e não- ser ( negativa ) , e
postula também, que "O Ser é, e o Não- Ser não é". Nessa
seleção dos opostos, em vários momentos evidencia-se a
disposição para um pensamento lógico livre de intuições sem
fundamentos, uma característica que, aliás, marca Parmênides.
Parmênides
estava, então, diante de um grande problema; ele precisava
explicar como ocorre o movimento, ou o vir - a- ser ( ou seja,
a mudança; um não- ser que se torna ser, ou um ser que se
torna não- ser ). Foi então que Parmênides fez uma constatação
sem precedente- ao decidir por seguir a lógica, somente a
lógica, Parmênides descobriu que não sabia de nada com
certeza- livre de certezas intuitivas, não fosse questionável,
nada que fosse realmente claro e certo. Assim, Parmênides
partiu em uma busca por um pensamento fundamental, algo que
fosse evidente em si. Em Parmênides, esse pensamento se
manifestou como o Princípio da Identidade- "o que é, é", ou
seja, "n" é igual a "n", e somente igual a "n"- se "n" for
igual a "a", então nada mais pode ser do que "n" ( você não
pode ser igual e diferente ao mesmo tempo). Isso parecia ser
tão óbvio e tão evidente que parecia ilógico que não fosse
verdade.
Aqui entram as
complicações de Parmênides- diante do Ser e do Não- Ser, e da
Identidade, ele não podia enxergar um caminho para que
ocorresse o vir-a - ser O Ser é, e o Não- ser não é, pensava
Parmênides: como pode-se dizer que "algo era", ou "algo será"?
o ser não pode vir do não- ser, pois o não- ser, é o nada e
nada pode surgir do nada; e se viesse do Ser, o que seria isso
senão a criação de si mesmo? O perecimento- o deixar de ser-
também sofre do mesmo problema. Nesse momento, Parmênides
marcha para sua conclusão final- não há mudança, e, portanto,
não há distinção entre seres e não- seres. O homem que
criticara Heráclito por sua cegueira e surdez agora tinha como
palavra de ordem a negação do que os "sentidos mentirosos" lhe
mostravam- o Ser é Uno, um único grande Ser eterno que jamais
se altera e a qual tudo, Seres e Não -Seres, são apenas
ilusões de si mesmo.
É possível
observar tocantes semelhantes de Parmênides e outros eleatas
como Xenófanes com o Hinduísmo, e até mesmo com correntes de
pensamentos que florescem em nosso tempo; e, embora várias
críticas possam ser feitas a Parmênides, talvez a mais
fundamental seja quanto a seu curso da lógica- hoje pensamos
que a razão que deve se adequar à realidade, e não o
contrário; assim, se a "lógica pura e bruta" diz que tudo é
uma ilusão, então a falha deve estar na lógica, e não no
mundo. Parmênides desenvolveu também um profundo estudo do
infinito, juntamente com seu discípulo Zeno ( ou Zenão de
Eléia ).
II-HERÁCLITO
Parmênides cai
no repouso universal; já um fragmento dos escritos de
Heráclito diz: "Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e
nada fica parado... Você não consegue se banhar duas vezes no
mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão
fluindo...É na mudança que as coisas acham repouso..."
De fato,
enquanto Parmênides duvida do vir - a- ser, Heráclito faz
deles um dos seus pontos de partida; dessa maneira, afirma que
nada é permanente, que tudo está em constante mutação,
incessantemente; nesse ponto enxerga-se um paralelo curioso
com o pensamento oriental, embora as civilizações de onde
surgiram conceitos tão semelhantes ainda não tivessem entrado
em contato com umas com as outras; a respeito de sua vida,
Heráclito nasceu em Efésios; conhecido por desprezar quase
todos, senão todos, os pensadores e poetas da sua época, não
teve mestre, dizendo na adolescência que "não sabia nada", e,
na idade adulta, que "sabia tudo". Heráclito, em seu
comportamento anti-social, resolveu se afastar da cidade e
habitar os campos, se alimentando apenas de ervas, o que lhe
trouxe hidropisia, que acabou lhe matando. Conta-se que teria
retornado a Efésios e perguntado se seria possível curá-lo
esvaziando seus intestinos; como diziam que não, dizem que
deitou em praça pública e deu o comando que lhe cobrissem de
esterco, para que o calor fizesse evaporar a água que tanto
lhe atormentava; tendo então morrido por sob uma pilha de
esterco, alguns dizem que teria sido sepultado na própria
praça pública, enquanto outros dizem que ele teria sido
devorado pelos cachorros que ali passavam.
Heráclito foi
também conhecido por Skoteinós, que quer dizer "O Obscuro"- de
fato, seus pensamentos muitas vezes parecem contraditórios e
sem sentido, e apesar de seu amor declarado por Lógos ( a
lógica, a razão ) ele não parece disposto a se utilizar tão
exclusivamente dela, como Parmênides, mesmo que seus
pensamentos a respeito da lógica tenham sido de fundamental
importância para grandes pensadores como Aristóteles e Hegel.
Heráclito declara que tudo está em mutação, mas apenas o que
permanece é- e o que permanece, senão a própria mudança?
Assim, ele denomina como Lógos essa lei universal da mudança-
o modo com que as coisas mudam- e ainda: "Todos fazemos e
dizemos segundo a participação do Lógos. Por isso devemos
seguir apenas a este entendimento universal. Muitos, porém,
vivem como se tivessem um entendimento próprio; o
entendimento, porém, não é outra coisa que a interpretação ( o
tomar consciência, a exposição, a convicção ) dos modos da
ordenação do todo. Por isso, na medida em que tomamos no saber
dele, estamos na verdade; mas, na medida em que temos coisas
particulares ( próprias ) , estamos na ilusão"
Heráclito também
parte da divisão do universo entre dois pólos, "Seres" e "Não-
Seres", e, também, enxerga a unidade entre eles. No entanto,
enquanto a unidade de Parmênides é idêntica e imutável, a de
Heráclito é "tensionada entre dois pólos"; assim, mesmo que o
Ser e o Não- Ser sejam parte e coabitem o mesmo, e, como diz
em suas obscuras palavras, "O ser é tão pouco como o não- ser;
o devir é e também não é", mesmo apesar de tudo isso, não quer
dizer que você possa descartá-los como simples ilusão. Dessa
maneira, enquanto os eleatas mergulham fundo em busca da
essência verdadeira, daquilo que factualmente existe,
Heráclito faz uso de uma representação, o que, não se pode
negar, é um avanço considerável. A partir dessa nova visão dos
pares de opostos Heráclito cria idéias interessantes a partir
de pares como "o todo e a parte", "o que se une e o que se
opõe"; dessa idéia de que os pólos sejam simples abstrações e
habitem o mesmo, conclui que, em suas próprias palavras, "O
Um, diferenciado de si mesmo, une-se consigo mesmo, como a
harmonia do arco e da lira". Essa harmonia seria Lógos, a
razão, que une os opostos em sons consoantes; como a
composição grega é horizontal e não vertical, por harmonia
entende-se a maneira como sons tocados em sequência
equilibram-se entre si; daí a metáfora torna-se perfeita, como
mudança.
Heráclito também
teve uma participação marcante juntamente dos jônicos,
voltando-se novamente aos modelos físico- filosóficos; e nesse
ponto a partir de diferentes fontes encontra-se diferentes
visões a respeito de qual seria a essência ontológica; essas
aparentes contradições parecem ruir, pelo outro lado, quando
se lembra que nada era permanente para Heráclito ( senão Lógos,
a mudança em si ) , e que ele parece estar mais preocupado com
determinar o ciclo de mudanças e a maneira como esta ocorre- e
daí a indicação do tempo como uma das essências ontológicas.
Mesmo assim, ele acende e se apaga.
De um lado, um
mundo em repouso, onde tudo que se movimenta é ilusão, nascida
da lógica; pelo outro lado, um mundo onde tudo é movimentado,
onde as coisas nascem mas, nas palavras de Buda, "Você deveria
saber que todas as coisas nesse mundo são efêmeras- unir-se
significa inevitavelmente separar-se. Não se entristeça, pois
tal é a natureza da vida", uma visão gerada pela razão, mas
também por um recém-nascido método especulativo, baseado em
como Lógos alcança a mente humana, e, no fundo, muitos traços
se intuição e misticismo, condenáveis não ao pensador, mas ao
ser humano por trás dele. E assim nascia a Filosofia.
BIBLIOGRAFIA
www.geocites.com/jornal_agora/HerundelEl.htm