A natureza humana segundo
Freud e Cal Rogers
INTRODUÇÃO
Um dos pontos mais contraditórios entre a teoria psicanalítica
e a teoria centrada na pessoa é aquele que diz respeito à
natureza humana. Os autores que abordam essas teorias,
freqüentemente, enfatizam tal aspecto. Parece não haver
dúvidas de que a posição de Rogers
é nitidamente otimista em confronto com a de Freud.
O
processo experiencial e o contexto
sociocultural e histórico, de cada um, talvez possam ser
responsabilizados pelas ênfases que dão às suas abordagens.
Rogers, americano, filho de pais
de princípios religiosos rígidos, porém afetivos no trato com
as crianças, faziam com que prevalecesse em família um clima
de união e de valor ao trabalho, embora mantivessem uma vida
social bem reduzida, o que de certo modo influenciou a postura
tímida e isolada do jovem Rogers.
Nasceu em janeiro de 1902 e morreu em fevereiro de 1987,
participando, portanto, dos conflitos deste quase final de
século. Considerado um revolucionário tranqüilo, por
Farson , pela maneira como
contribuiu para mudar vários aspectos da psicologia e de
outras áreas, é sem dúvida alguma um marco referencial na obra
psicológica existente. Freud, filho de pais judeus, perseguido
pelo nazismo, sofreu durante toda a sua vida a discriminação
pela sua origem, por conta disso, desde cedo aprendeu a se
opor ao ambiente e a manter "um certo grau de independência de
julgamentos". Foi obrigado, ainda por conta da perseguição
nazista, a se exilar no final da sua vida na Inglaterra, onde
morreu em 1939, de câncer. Nascido no ano de 1856, em
Freiberg,
Morávia, pequena cidade situada na atual Eslováquia ,
sofreu os entraves de duas guerras mundiais. Além disso, sua
época, marcada pela repressão sexual, trouxe-lhe experiências
profissionais bem diferentes das de
Rogers. Foi o criador da Psicanálise e influenciou,
igualmente, várias áreas do conhecimento, além da Psicologia.
É
evidente que o modo como os terapeutas percebem o homem, é
grandemente responsável pela forma como se conduzirão,
enquanto profissionais, daí a importância desse estudo. Por
outro lado, tais concepções, trazem fortes implicações para a
gerência de suas próprias vidas.
A
NATUREZA HUMANA SEGUNDO FREUD
O
modelo de homem apresentado pela psicanálise pode ser resumido
nos seguintes termos, de acordo com Kline
(1988):
O homem tem dois impulsos principais: sexualidade e agressão,
juntos com motivos determinados pelo meio ambiente, tais como
os conflitos de Édipo e de castração, que exigem expressão.
Uma vez que estes operam um sistema de energia fechado, a
expressão é vital. Através da mediação do ego em defesas bem e
malsucedidas a expressão direta e indireta, na forma de
sintomas neuróticos e atos simbólicos, é conseguida. Este
modelo de homem necessita de um alto grau de controle na
sociedade e saídas institucionalizadas para os impulsos. Sem
esses, de acordo com o modelo freudiano, viveríamos de forma
arriscada (p.143).
Freud considera, na sua teoria, a pulsão de vida e a pulsão de
morte como faces da mesma moeda, dando a entender que
eros e
tanatos têm o mesmo peso. Todas as duas formas de
energias transitam livremente no inconsciente, cujo único
objetivo consiste em aliviar suas tensões, segundo o princípio
do prazer e de acordo com o processo primário. Para ele, o
homem é possuidor de um permanente conflito entre forças
antagônicas existentes em seu interior.
O
id totalmente inconsciente, não obstante, nem bom nem mal,
abstém-se de qualquer lógica ou racionalidade e faz tudo o que
lhe é possível fazer para atingir seus objetivos, ou seja:
livrar-se da pressão de energias, das quais ele é o próprio
reservatório. O ego, por sua vez, gerado que foi pelo id, no
sentido de facilitar-lhe a obtenção do prazer, tenta a todo
custo servir de mediador entre as exigências dele e as
exigências da realidade externa, reduzindo ou adiando o seu
prazer, em prol de uma racionalidade aceitável. Um terceiro
elemento, oriundo do ego, ganha força com o complexo de Édipo
e de castração, e também participa desse jogo de poder.
Trata-se do superego, o aliado da cultura, na perpetuação das
normas e dos valores sociais. Agora, o ego, além de mediador
entre as exigências do id, do superego e da realidade externa,
precisa se fortalecer para dominar o mais possível o conteúdo
inconsciente e escrever a sua própria história, pois, como
vocês devem estar lembrados, o ego e o superego têm o seu lado
obscuro ou inconsciente.
Quando apreciamos a obra freudiana, observamos que toda ela é
marcada por um certo ceticismo em relação ao homem. Sendo a
natureza humana, na sua visão, determinada, sobretudo, pelas
pulsões e forças irracionais, oriundas do inconsciente; pela
busca de um equilíbrio homeostático;
e pelas experiências vividas na primeira infância.
Tudo o que o homem construiu - as artes, as ciências, suas
instituições e a própria civilização - num contexto mais
amplo, não passa de sublimações dos seus impulsos sexuais e
agressivos. Neste sentido, pode-se afirmar que, sem as defesas
é impossível a civilização, e que uma sociedade livre e sem
necessidade de controle está fora de cogitação.
Considerando que a psicanálise, enquanto tratamento, tem por
objetivo restaurar a harmonia entre o id, o ego e o superego,
parece que, só através da mesma, o indivíduo tem alguma chance
de mudar esse quadro determinista. Mas, o próprio Freud não se
mostrava muito otimista, ao afirmar: (...)"a análise não se
propõe abolir a possibilidade de reações mórbidas, e sim
proporcionar ao ego do paciente liberdade para optar de uma
maneira ou de outra".(Cit. por
May, 1982, p.218)
Na teoria psicanalítica os neuróticos são atormentados por
sentimentos de culpa constantes, pelo fato de possuírem um
superego forte e um ego fragilizado.
Tais sentimentos tendem a impossibilitar ou diminuir a
expressão pulsional, o que provoca
nele um sentimento, freqüente, de frustração. Ao passo que, os
psicóticos são indivíduos dominados pelo seu id, pois, em
decorrência da quebra de suas defesas, eles perderam o contato
com a realidade. O ego precisa ser restaurado para que ele
volte aos padrões normais de funcionalidade.
Freud considerava o complexo de Édipo como núcleo das
neuroses. Isso significa que, a menos que aprendamos a chegar
a um acordo com nosso amor e ódio ambivalentes em relação aos
nossos pais e possamos aceitar os sentimentos edipianos, não
negá-los, reprimi-los ou encená-los, nunca poderemos formar
relacionamentos emocionais adequados com outras pessoas, e a
necessidade de expressar e receber afeição, conforme é vista
na criança, nunca poderá ser satisfeita. Essa é uma causa
primária da perturbação neurótica (Kline,
1988, p.40).
Por outro lado, percebemos nos psicanalistas uma tendência
para enfatizar os aspectos destrutivos da natureza humana.
Freud fez diversos comentários sobre a supressão do conteúdo
psíquico desagradável em sua nona conferência que tratava da
censura onírica. O auditório protestava contra o fato de que a
psicanálise atribuía muito do comportamento a uma
predisposição fundamental para o mal. Freud procurou mostrar
que o auditório não enxergava a vileza egoística da natureza
humana e o fato de que o homem não é muito digno de confiança
a tudo o que se refere a vida sexual. Falou ainda da guerra
que devastava a Europa, dando a entender que tanta destruição
não poderia ser desencadeada por uns poucos homens ambiciosos
e sem princípios, se essas tendências destrutivas não
existissem na maior parte da humanidade. Afirma Freud: 'Não é
nosso propósito negar a nobreza humana, nem fizemos nada para
diminuir seu valor. Ao contrário, mostrei-lhes não apenas o
desejo do mal que é censurado mas também a censura que o
suprime e o torna irreconhecível' (Riviere,
cit. por
Stefflre & Grant, 1976, p.159).
Toda obra freudiana se apresenta repleta de afirmações que
traduzem seu pessimismo com relação ao homem, quer quando se
refere ao "princípio do prazer" quer quando se refere a
repressão necessária para suplantar a marcante hostilidade
presente, em cada um de nós, na sua opinião.
A
hostilidade humana, ao que tudo indica, não tem limites: o
homem é hostil não só a sociedade como também a seus
companheiros mais próximos. É, pelo menos isso, o que nos
afirma Freud no trecho abaixo:
A
sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada pela
desintegração por causa dessa hostilidade primária dos homens
entre si... A cultura tem de recorrer a todo reforço possível
a fim de eregir barreiras contra o
instinto agressivo dos homens... Daí... seu mandamento ideal
de amor ao próximo como a si mesmo ser realmente justificável
pelo fato de que nada está tão completamente em desacordo com
a natureza humana original. (Freud (1930),
cit. por Walker, 1957, p.3)
Diante de um ser tão hostil e
desintegrador, nada mais natural do que a sociedade
fazer uso do seu poder de coerção.
Parece mais provável que cada cultura seja edificada sobre a
coerção e a renúncia instintiva; é duvidoso que, sem coerção a
maioria dos homens esteja pronta para submeter-se ao trabalho
necessário para adquirir novos meios de suportar a vida. A
gente tem, eu penso, de contar com o fato de que em todos os
homens estão presentes tendências destrutivas e, portanto,
anti-sociais e anti-culturais e que, num grande número de
pessoas, são bastantes fortes a ponto de lhes determinar o
comportamento na sociedade. (Freud, cit.
por Walker, 1957, p.2).
Como podemos perceber, Freud acreditava, em um homem cujo
organismo era grandemente dominado pelas suas pulsões
destrutivas. Diante desse quadro predominantemente hostil,
parece que não havia outra saída a não ser a da coerção
social, como elemento coibidor
desse aspecto tão forte de sua natureza. Cabendo, portanto, a
cada cultura, no seu processo de desenvolvimento, aprender a
controlar os desejos do id, de acordo com os seus próprios
valores. De qualquer modo, "até o início da idade adulta, na
maioria das sociedades, o id terá sido domesticado. Quando não
o é, o indivíduo costuma ser considerado muito especial,
louco, mal, sagrado, ou qualquer combinação dos quatro". (Kline,
p.24/5)
Mas, ao que parece, ao longo de sua história, Freud reformulou
alguns dos seus pontos de vista, passando a enfatizar, também
outros aspectos da constituição humana. Aliás, a revisão e
reformulação de conceitos, a largueza de percepções e de
coragem para voltar atrás, quando necessário, sempre fizeram
parte do dia a dia desse homem de natureza positiva.
É
dele os seguintes dizeres: "Senhores - como sabem, nunca nos
vangloriamos de que nosso conhecimento e nossa capacidade
fossem completas e definitivas. Tanto anteriormente como na
atualidade estamos dispostos a arrostar as imperfeições de
nosso entendimento, aprender coisas novas e a modificar nossos
método sem qualquer sentido que possa melhorá-los (Cit.por
Ekstein, in Burton,1978,p.26). A
ênfase que Freud deu, posteriormente, ao ego, parece indicar
uma nova perspectiva em relação a natureza humana:
Anteriormente, Freud dizia que a psicanálise tinha como
objetivo terapêutico tornar consciente o inconsciente. Isso
estava em conexão com o modelo topográfico, antes da
introdução do modelo estrutural e do ponto de vista
adaptativo. Mais tarde, ele se expressou sobre o objetivo da
análise em termos de onde estava o id, lá estará o ego,
referiu-se realmente à necessidade de desenvolver a técnica de
modo não apenas a tornar consciente o inconsciente, mas também
a fortalecer a organização do ego de tal maneira que ela não
tivesse de se defender do passado mediante a repressão, que
fosse capaz de suportar e restaurar a continuidade entre o
passado e o presente, e que usasse essa continuidade no
sentido da adaptação, isto é, da capacidade para novas
soluções de problemas (Ekstein, in
Burton, 1978, p.27/8).
Em setembro de 1932, numa correspondência dirigida ao físico
Albert Einstein, Freud explica a sua teoria dos instintos.
Considerando a síntese feita por Freud da teoria das pulsões,
inicialmente, ele nos fala da existência de dois instintos
presentes no homem, segundo sua hipótese: o erótico, que tende
a preservar e a unir; e o agressivo, cuja tendência é matar e
destruir.
Uma vez colocada a oposição entre o amor e o ódio, Freud
continua esclarecendo que devemos nos abster de colocar juízos
éticos e de valor, haja vista que, essas pulsões são
importantes ao homem na mesma medida.
Assim, por exemplo, o instinto de auto preservação certamente
é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição
a agressividade, para atingir seu propósito. Muito raramente
uma ação é obra de um impulso instintual
único. Como conseqüência de um pouco de especulação, podemos
supor que esse instinto está em atividade em toda a criatura
viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir à condição
original de matéria inanimada. Portanto, merece, ser
denominado instinto de morte, ao passo que os instintos
eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte
torna-se instinto destrutivo quando , com o auxílio de órgãos
especiais é dirigido para fora, para objetos. O organismo
preserva sua própria vida por assim dizer, destruindo uma vida
alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua
atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir
numerosos fenômenos normais e patológicos a essa
internalização do instinto de
destruição. Por outro lado, se essas forças se voltam para a
destruição do mundo externo, o organismo se aliviará e o
efeito deve ser benéfico. Isto serviria de justificação
biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos
contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam
mais perto da natureza do que a nossa resistência, para a qual
também é necessário encontrar uma explicação (Freud (1932),
1976, p.252/4).
Freud deixa claro, como podemos observar na conclusão deste
trecho, que os "impulsos condenáveis e perigosos" são
justamente os que mais próximos estão da natureza humana.
Continuando, ele esclarece que, "de nada vale tentar eliminar
as inclinações agressivas do homem"(...). Não há maneira de
eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se
tentar desviá-lo num grau tal que não necessitem encontrar
expressão na guerra" (p.255).
Em seguida, apresenta algumas sugestões, que ele denomina
métodos indiretos para acabar com a guerra:
Se o desejo de aderir a guerra é um efeito do instinto
destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o
seu antagonista. Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos
vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a
guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro
lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um
objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual.(...) O
segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação.
Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses
importantes produz essa comunhão de sentimento, essas
identificações. E a estrutura da sociedade se baseia nelas, em
grande escala (p.255).
A
outra sugestão refere-se a educação dos líderes, no sentido de
se evitar o abuso de poder cometido, geralmente, pelas
autoridades. Pois, segundo ele, uma vez que, os homens tendem
a se classificar em líderes e seguidores, faz-se necessário
uma melhor atenção à educação daqueles que não se deixam
intimidar e têm por objetivo a busca da verdade e o comando
das massas submissas.
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