[continuação]
Continuando, diz ele, "é desnecessário dizer que as usurpações
cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição
estabelecida pela igreja contra a liberdade de pensamento não
são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A
situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que
tivesse subordinado sua vida instintual
ao domínio da razão" (p.256).
Finalmente, Freud conclui: "Mas uma coisa podemos dizer: tudo
o que estimula o crescimento da civilização trabalha
simultaneamente contra a guerra." (p.25)
Apesar do ponto de vista freudiano ter se mantido o mesmo, ao
longo de sua obra, percebe-se uma nova postura em relação à
técnica de combate: no início, marcantemente, caracterizada
pelo controle e pela coerção, mais para o final, a arma
sugerida era o amor e a liberdade, o que parece indicar uma
abertura, ainda que precária, em relação a natureza humana;
ou, pelo menos, uma crença maior na força do amor e da
liberdade, como elementos indispensáveis à união e ao
crescimento dos indivíduos, ao contrário da coerção.
A
NATUREZA HUMANA SEGUNDO ROGERS
Ao
estudarmos a teoria rogeriana, nos
deparamos com um posicionamento bastante diferente daquele que
vimos quando estudamos a teoria freudiana, no que se refere a
natureza humana. Nela destaca-se a grande confiança que
Rogers sentia pelo homem. A grande
crença que ele sentia na capacidade do indivíduo é, assim,
enunciada: "O ser humano tem a capacidade, latente ou
manifesta, de compreender-se a si mesmo e de resolver seus
problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e
eficácia necessárias ao funcionamento adequado" (Rogers
& Kinget, 1977, p.39).
Acredita ele que, se o homem não possui lesões ou conflitos
estruturais profundos, apresenta esta capacidade. E que esta é
uma característica inerente ao homem que independe de
aprendizagem. Todavia, para que esta potencialidade logre a
sua atualização, é necessário um clima de calor humano,
desprovido de ameaças ou desafios à imagem que a pessoa faz de
si mesma.
. A
concepção de uma natureza "angélica"
do homem, atribuída a Rogers,
encontra-se, portanto, bem longe da verdade.
Dizia Rogers: Não possuo visão
ingênua da natureza humana. Tenho bem consciência de que para
se defender e movido por medos intensos, indivíduos podem e,
de fato, se comportam de modo incrivelmente destrutivo,
imaturo, regressivo, anti-social e nocivo (Rogers,
1961, p.27.).
Mas
a compreensão de Rogers a respeito
da natureza humana vai além dessa constatação: Contrariamente
à opinião que vê os mais profundos instintos do homem como
sendo destrutivos, observa-se, quando o homem é,
verdadeiramente, livre para tornar-se o que ele é no mais
fundo de seu ser, quando é livre para agir conforme sua
natureza, como um ser capaz de perceber as coisas que o
cercam, então ele, nitidamente, se encaminha para a
globalidade e a integração. Como já disse em outra publicação
(Rogers, 1961, p.105).
Quando o homem é de todo um homem, quando ele é o seu
organismo completo, quando a percepção da experiência, esse
atributo peculiarmente humano, está operando na sua máxima
plenitude, então se pode confiar nele, então seu comportamento
é construtivo. Nem sempre será convencional, nem sempre será
conformista. Será individualizado. Mas será também socializado
(Rogers, in Burton, 1978, p.195).
Apesar de sua grande confiança no homem,
Rogers sabe que somente consciente dos fatos que o
cercam, poderá o indivíduo tomar decisões acertadas. E
preocupa-se ante a consciência de que a nossa sociedade, na
pele dos políticos, dos funcionários do governo, da indústria,
da extrema direita e da extrema esquerda, entre outros,
estejam todos empenhados em esconder os fatos ( Cf.
Rogers, in Evans, 1977).
Ao
longo de sua experiência, ele constatou que muitos dos
sentimentos, considerados positivos, como o amor, a confiança
e a bondade são, muitas vezes, aqueles mais profundamente
recalcados, e não somente aqueles impulsos socialmente
proibidos.
É, justamente, por conta de suas observações, enquanto
terapeuta, que ele é levado a não acreditar que, uma vez
liberada a camada mais profunda da natureza humana, nos
depararíamos com um id incontrolável e destrutivo.
As
observações de Rogers o
conduziram, realmente, a uma idéia bem diferente da natureza
humana, o que, num certo sentido, a identifica com o próprio
fluxo da vida. E, referindo-se àquelas pessoas com quem ele
trabalhou nas salas de fundo dos hospitais estaduais, ele
afirma que as condições em que se desenvolveram essas pessoas
têm sido tão desfavoráveis que suas vidas quase sempre parecem
anormais, distorcidas, pouco humanas. E no entanto, pode-se
confiar que a tendência realizadora está presente nessas
pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta em
que se empenham para crescer e ser, utilizando-se dos recursos
que acreditam ser os disponíveis. Para as pessoas saudáveis,
os resultados podem parecer bizarros e inúteis, mas são uma
tentativa desesperada da vida para existir. Esta tendência
construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na
pessoa (Rogers, 1983, p.41).
A
abordagem centrada na pessoa considera a tendência realizadora
ou atualizante como uma motivação
polimorfa. Ao nível do comportamento, esta tendência pode
assumir diversas formas, em consonância com as necessidades
presentes no organismo. Mas a busca de satisfação dessas
necessidades será feita no sentido de promover a auto-estima e
não de diminuí-la, exceto quando algumas delas,
particularmente as básicas, tornam-se excessivamente urgentes.
Como
se sabe, as teorias vigentes que tratam da motivação, tendem a
descrevê-la a partir do modelo utilizado pela biologia,
segundo o qual o organismo procura reduzir suas tensões e
restabelecer um estado de equilíbrio. A teoria freudiana, por
exemplo, considera esse modelo.
Rogers discorda dessa orientação,
pois, para ele, os organismos estão sempre em busca, num
eterno vir-a-ser, de um modo bem
diferente do equilíbrio homeostático
preconizado por Freud quando diz: "O sistema nervoso é... um
aparelho que deveria se manter, se fosse possível, num estado
de completa não estimulação", haja vista que, quando privado
de estimulação externa, ele se abre para uma imensidão de
estímulos internos, muitas vezes, semelhantes, aqueles dos
relatos de experiências cósmicas. No seu entendimento, somente
um organismo doente, mantém-se num equilíbrio passivo.
Portanto, segundo ele, a homeostase
não pode se constituir na orientação última do organismo, haja
vista que ele está sempre à procura de estímulos mais
complexos. No homem, essa busca de estímulos mais
enriquecedores é denominada curiosidade.
Os organismos estão sempre em busca de algo, sempre iniciando
algo, sempre 'prontos para alguma coisa'. há uma fonte central
de energia no organismo humano. Essa fonte é uma função do
sistema como um todo, e não uma parte dele. A maneira mais
simples de conceituá-la é como uma tendência à plenitude, à
auto-realização, que abrange não só a manutenção mas também o
crescimento do organismo (Rogers,
1983, p.44).
A
tendência de se valorizar um ou outro aspecto de sua
constituição, não pode ser feita sem acarretar prejuízo à
compreensão do que seja ser uma pessoa. "Creio que o homem é
mais sábio do que o seu intelecto considerado isoladamente e
que as pessoas (que funcionam bem) aprendem a confiar em sua
experiência como a mais satisfatória e sábia indicação para o
comportamento apropriado."(Rogers
& Wood, in Burton, 1978, p.196)
CONCLUSÃO
"O
homem nem é bom nem é mau, ele simplesmente é". De fato,
atribuir-se ao homem uma energia agressiva, como o fez Freud,
não significa caracterizá-lo como mau. Do mesmo modo,
atribuir-se ao indivíduo, uma natureza positiva, como defende
Rogers, não implica em dizer que o
homem é bom, mas sim que existe nele uma tendência para o
crescimento - para a atualização do seu potencial - como,
aliás, é visível em todos os seres vivos.
É
inegável a ênfase que Freud dá aos aspectos destrutivos do
homem. A necessidade, colocada por ele, no sentido de
controlar e de coibir o indivíduo, devido ao perigo que ele
poderia representar para a sociedade, leva-nos a concluir que
o homem, preconizado por Freud, não é, socialmente falando,
muito digno de confiança.
Em
Rogers observa-se o inverso, pois
ele acredita que é justamente um contexto coercitivo, onde o
indivíduo não pode expandir-se, ou melhor, atualizar o seu
potencial, o que o torna hostil ou anti-social. Caso
contrário, nada temos a temer, pois, seu comportamento tenderá
a ser construtivo. "Será individualizado. Mas será também
socializado" (Rogers &
Wood, in Burton, 1978, p.195).
Freud enfatiza o homem determinado por forças inconscientes,
que necessitam do controle social para sua própria manutenção
e da sociedade. Rogers enfatiza o
homem auto-determinado, apesar de perceber e colocar na sua
apreciação os limites dessa possibilidade.
Não
resta dúvida de que a história de vida das pessoas e a maneira
como vivenciaram essa história, podem influenciar no modo como
se conduzem socialmente. Os próprios autores, em questão,
foram influenciados pelas suas histórias, ao desenvolverem
pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto.
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