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  Matérias :: Filosofia

 

  Autoria: Flávio Andrada
 


[continuação]

Continuando, diz ele, "é desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão" (p.256).

Finalmente, Freud conclui: "Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra." (p.25)

Apesar do ponto de vista freudiano ter se mantido o mesmo, ao longo de sua obra, percebe-se uma nova postura em relação à técnica de combate: no início, marcantemente, caracterizada pelo controle e pela coerção, mais para o final, a arma sugerida era o amor e a liberdade, o que parece indicar uma abertura, ainda que precária, em relação a natureza humana; ou, pelo menos, uma crença maior na força do amor e da liberdade, como elementos indispensáveis à união e ao crescimento dos indivíduos, ao contrário da coerção.

A NATUREZA HUMANA SEGUNDO ROGERS

Ao estudarmos a teoria rogeriana, nos deparamos com um posicionamento bastante diferente daquele que vimos quando estudamos a teoria freudiana, no que se refere a natureza humana. Nela destaca-se a grande confiança que Rogers sentia pelo homem. A grande crença que ele sentia na capacidade do indivíduo é, assim, enunciada: "O ser humano tem a capacidade, latente ou manifesta, de compreender-se a si mesmo e de resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessárias ao funcionamento adequado" (Rogers & Kinget, 1977, p.39).

Acredita ele que, se o homem não possui lesões ou conflitos estruturais profundos, apresenta esta capacidade. E que esta é uma característica inerente ao homem que independe de aprendizagem. Todavia, para que esta potencialidade logre a sua atualização, é necessário um clima de calor humano, desprovido de ameaças ou desafios à imagem que a pessoa faz de si mesma.

. A concepção de uma natureza "angélica" do homem, atribuída a Rogers, encontra-se, portanto, bem longe da verdade.
Dizia Rogers: Não possuo visão ingênua da natureza humana. Tenho bem consciência de que para se defender e movido por medos intensos, indivíduos podem e, de fato, se comportam de modo incrivelmente destrutivo, imaturo, regressivo, anti-social e nocivo (Rogers, 1961, p.27.).

Mas a compreensão de Rogers a respeito da natureza humana vai além dessa constatação: Contrariamente à opinião que vê os mais profundos instintos do homem como sendo destrutivos, observa-se, quando o homem é, verdadeiramente, livre para tornar-se o que ele é no mais fundo de seu ser, quando é livre para agir conforme sua natureza, como um ser capaz de perceber as coisas que o cercam, então ele, nitidamente, se encaminha para a globalidade e a integração. Como já disse em outra publicação (Rogers, 1961, p.105).

Quando o homem é de todo um homem, quando ele é o seu organismo completo, quando a percepção da experiência, esse atributo peculiarmente humano, está operando na sua máxima plenitude, então se pode confiar nele, então seu comportamento é construtivo. Nem sempre será convencional, nem sempre será conformista. Será individualizado. Mas será também socializado (Rogers, in Burton, 1978, p.195).

Apesar de sua grande confiança no homem, Rogers sabe que somente consciente dos fatos que o cercam, poderá o indivíduo tomar decisões acertadas. E preocupa-se ante a consciência de que a nossa sociedade, na pele dos políticos, dos funcionários do governo, da indústria, da extrema direita e da extrema esquerda, entre outros, estejam todos empenhados em esconder os fatos ( Cf. Rogers, in Evans, 1977).

Ao longo de sua experiência, ele constatou que muitos dos sentimentos, considerados positivos, como o amor, a confiança e a bondade são, muitas vezes, aqueles mais profundamente recalcados, e não somente aqueles impulsos socialmente proibidos.
É, justamente, por conta de suas observações, enquanto terapeuta, que ele é levado a não acreditar que, uma vez liberada a camada mais profunda da natureza humana, nos depararíamos com um id incontrolável e destrutivo.

As observações de Rogers o conduziram, realmente, a uma idéia bem diferente da natureza humana, o que, num certo sentido, a identifica com o próprio fluxo da vida. E, referindo-se àquelas pessoas com quem ele trabalhou nas salas de fundo dos hospitais estaduais, ele afirma que as condições em que se desenvolveram essas pessoas têm sido tão desfavoráveis que suas vidas quase sempre parecem anormais, distorcidas, pouco humanas. E no entanto, pode-se confiar que a tendência realizadora está presente nessas pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta em que se empenham para crescer e ser, utilizando-se dos recursos que acreditam ser os disponíveis. Para as pessoas saudáveis, os resultados podem parecer bizarros e inúteis, mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na pessoa (Rogers, 1983, p.41).

A abordagem centrada na pessoa considera a tendência realizadora ou atualizante como uma motivação polimorfa. Ao nível do comportamento, esta tendência pode assumir diversas formas, em consonância com as necessidades presentes no organismo. Mas a busca de satisfação dessas necessidades será feita no sentido de promover a auto-estima e não de diminuí-la, exceto quando algumas delas, particularmente as básicas, tornam-se excessivamente urgentes.

Como se sabe, as teorias vigentes que tratam da motivação, tendem a descrevê-la a partir do modelo utilizado pela biologia, segundo o qual o organismo procura reduzir suas tensões e restabelecer um estado de equilíbrio. A teoria freudiana, por exemplo, considera esse modelo.

Rogers discorda dessa orientação, pois, para ele, os organismos estão sempre em busca, num eterno vir-a-ser, de um modo bem diferente do equilíbrio homeostático preconizado por Freud quando diz: "O sistema nervoso é... um aparelho que deveria se manter, se fosse possível, num estado de completa não estimulação", haja vista que, quando privado de estimulação externa, ele se abre para uma imensidão de estímulos internos, muitas vezes, semelhantes, aqueles dos relatos de experiências cósmicas. No seu entendimento, somente um organismo doente, mantém-se num equilíbrio passivo.

Portanto, segundo ele, a homeostase não pode se constituir na orientação última do organismo, haja vista que ele está sempre à procura de estímulos mais complexos. No homem, essa busca de estímulos mais enriquecedores é denominada curiosidade.
Os organismos estão sempre em busca de algo, sempre iniciando algo, sempre 'prontos para alguma coisa'. há uma fonte central de energia no organismo humano. Essa fonte é uma função do sistema como um todo, e não uma parte dele. A maneira mais simples de conceituá-la é como uma tendência à plenitude, à auto-realização, que abrange não só a manutenção mas também o crescimento do organismo (Rogers, 1983, p.44).

A tendência de se valorizar um ou outro aspecto de sua constituição, não pode ser feita sem acarretar prejuízo à compreensão do que seja ser uma pessoa. "Creio que o homem é mais sábio do que o seu intelecto considerado isoladamente e que as pessoas (que funcionam bem) aprendem a confiar em sua experiência como a mais satisfatória e sábia indicação para o comportamento apropriado."(Rogers & Wood, in Burton, 1978, p.196)

CONCLUSÃO

"O homem nem é bom nem é mau, ele simplesmente é". De fato, atribuir-se ao homem uma energia agressiva, como o fez Freud, não significa caracterizá-lo como mau. Do mesmo modo, atribuir-se ao indivíduo, uma natureza positiva, como defende Rogers, não implica em dizer que o homem é bom, mas sim que existe nele uma tendência para o crescimento - para a atualização do seu potencial - como, aliás, é visível em todos os seres vivos.

É inegável a ênfase que Freud dá aos aspectos destrutivos do homem. A necessidade, colocada por ele, no sentido de controlar e de coibir o indivíduo, devido ao perigo que ele poderia representar para a sociedade, leva-nos a concluir que o homem, preconizado por Freud, não é, socialmente falando, muito digno de confiança.

Em Rogers observa-se o inverso, pois ele acredita que é justamente um contexto coercitivo, onde o indivíduo não pode expandir-se, ou melhor, atualizar o seu potencial, o que o torna hostil ou anti-social. Caso contrário, nada temos a temer, pois, seu comportamento tenderá a ser construtivo. "Será individualizado. Mas será também socializado" (Rogers & Wood, in Burton, 1978, p.195).

Freud enfatiza o homem determinado por forças inconscientes, que necessitam do controle social para sua própria manutenção e da sociedade. Rogers enfatiza o homem auto-determinado, apesar de perceber e colocar na sua apreciação os limites dessa possibilidade.

Não resta dúvida de que a história de vida das pessoas e a maneira como vivenciaram essa história, podem influenciar no modo como se conduzem socialmente. Os próprios autores, em questão, foram influenciados pelas suas histórias, ao desenvolverem pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EVANS, R. - Carl Rogers: o homem e suas idéias - Martins Fontes, SP, 1979.

FREUD S. - (1933 [1932]) Novas Conferências Introdutórias Sobre a Psicanálise, Imago, Ed. Standard Brasileira, RJ, 1976, vol. XXII.

_______ - ( )Mal-Estar na Civilização - Imago, Peq. Col. da Obra de Freud, Livro 8, RJ, 1974.

JUSTO, Henrique - Carl Rogers, Liv. Stº. Antonio, RS, 1978, 4ª ed.

KLINE, P. - Psicologia e Teoria Freudiana, Imago, RJ, 1988.

LAPLANCHE, J. L. & PONTALIS, J.-B. - Vocabulário de Psicanálise, Moraes Editores, Lisboa, 1976.

ROGERS, C. R. - Tornar-se Pessoa, Martins Fontes, Lisboa, 1974, 2ª ed.

ROGERS, C. R. & KINGET, G. M. - Psicoterapia e Relações Humanas - Interlivros, BH, 1977, 2ª ed. vol.I, II

ROGERS, Carl R. - Liberdade de Aprender na Nossa Década, RS, Artes Médicas, 1985.

ROGERS, Carl & ROSENBERG, Rachel - A pessoa Como Centro, SP,
EPU, 1977.

ROGERS, Carl et. alii - Em busca de Vida, SP, Summus Editorial, 1983.

 

   

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