Eletromagnetismo
Parte
da física que estuda as propriedades elétricas e magnéticas da matéria, em
particular as relações estabelecidas entre elas.
Conta
uma lenda grega que o pastor Magnes se surpreendeu ao ver como a bola de ferro
de seu bastão era atraída por uma pedra misteriosa, o âmbar (em grego,
elektron). A história demonstra como é antigo o interesse pelos fenômenos
eletromagnéticos.
Denomina-se
eletromagnetismo a disciplina científica que estuda as propriedades elétricas
e magnéticas da matéria e, em especial, as relações que se estabelecem entre
elas.
Histórico.
A existência de forças naturais de origem elétrica e magnética fora
observada em contextos históricos independentes, mas só na primeira metade do
século XIX um grupo de pesquisadores conseguiu unificar os dois campos de
estudo e assentar os alicerces de uma nova concepção da estrutura física dos
corpos.
No
final do século XVIII Charles-Augustin de Coulomb e Henry Cavendish haviam
determinado as leis empíricas que regiam o comportamento das substâncias
eletricamente carregadas e o dos ímãs. Embora a similaridade entre as características
dos dois fenômenos indicasse uma possível relação entre eles, só em 1820 se
obteve prova experimental dessa relação, quando o dinamarquês Hans Christian
Oersted, ao aproximar uma bússola de um fio de arame que unia os dois pólos de
uma pilha elétrica, descobriu que a agulha imantada da bússola deixava de
apontar para o norte, orientando-se para uma direção perpendicular ao arame.
Pouco
depois, André-Marie Ampère demonstrou que duas correntes elétricas exerciam mútua
influência quando circulavam através de fios próximos um do outro. Apesar
disso, até a publicação, ao longo do século XIX, dos trabalhos do inglês
Michael Faraday e do escocês James Clerk Maxwell, o eletromagnetismo não foi -
nem começou a ser - considerado um autêntico ramo da física.
Variáveis
e magnitudes. Os fenômenos eletromagnéticos são produzidos por cargas elétricas
em movimento. A carga elétrica, assim como a massa, é uma qualidade intrínseca
da matéria e apresenta a particularidade de existir em duas variedades,
convencionalmente denominadas positiva e negativa. A unidade elementar da carga
é o elétron, partícula atômica de sinal negativo, embora sua magnitude não
resulte em entidade suficiente para cálculos macroscópicos normais. Como
unidade usual de carga usa-se então o coulomb; o valor da carga de um elétron
equivale a 1,60 x 10-19 coulombs.
Duas
cargas elétricas de mesmo sinal se repelem, e quando de sinais contrários se
atraem. A força destas interações é diretamente proporcional a sua
quantidade de carga e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as
separa. Para explicar a existência dessas forças adotou-se a noção de campo
elétrico criado em torno de uma carga, de modo que a força elétrica que vai
atuar sobre outra carga distanciada da primeira corresponde ao produto da
quantidade de carga desta primeira por uma grandeza chamada intensidade de campo
elétrico. A energia que este campo transmite à unidade de carga chama-se
potencial elétrico e geralmente se mede em volts.
Uma
das variáveis magnéticas fundamentais é a indução magnética, intimamente
relacionada com a intensidade do campo magnético. A indução representa a força
magnética exercida sobre um corpo por unidade de carga elétrica e de
velocidade. A unidade de indução magnética é o tesla, que equivale a um
weber por metro quadrado; o weber é uma medida de fluxo magnético (grandeza
que reflete a densidade dos campos magnéticos). Tanto a intensidade de campo elétrico
e magnético quanto a indução magnética apresentam um caráter vetorial e,
por conseguinte, para descrevê-las adequadamente devem-se definir, para cada
uma, sua magnitude, direção e sentido.
Por
correlacionar a eletricidade e o magnetismo, adquiriu função especial no campo
da física a noção de corrente elétrica, entendida como a circulação de
cargas livres ao longo de um material condutor. Sua magnitude é determinada
pela intensidade da corrente, que é a quantidade de cargas elétricas livres
que circulam pelo condutor em um tempo determinado. Chama-se ampère a unidade
de intensidade de corrente resultante da passagem em um condutor de um coulomb
de carga durante um segundo. Essa unidade tornou-se a mais importante do ponto
de vista eletromagnético, levando o sistema internacional de unidades a ter a
notação MKSA: metro, quilograma, segundo, ampère.
Indução
eletromagnética. No decorrer do século XIX, as experiências de Örsted e Ampère
demonstraram a influência que as correntes elétricas exercem sobre os
materiais imantados, enquanto Faraday e Joseph Henry determinaram a natureza das
correntes elétricas induzidas por campos magnéticos variáveis no espaço.
Os
resultados de suas pesquisas, fundamento da indução eletromagnética,
constituem a base do eletromagnetismo. Outros postulados enunciam a existência
de dois pólos elétricos, positivo e negativo, independentes e separados, e de
dois pólos magnéticos inseparáveis de nomes diferentes (norte e sul). Ampère,
estimulado pelas descobertas de Örsted, aprofundou-se na pesquisa das forças
magnéticas provocadas nas proximidades de uma corrente elétrica e demonstrou
que esses impulsos se incrementam na razão direta da corrente e na razão
inversa da distância ao fio pelo qual ela circula. Comprovou, além disso, que
as forças induzidas estão em grande medida condicionadas pela orientação do
fio condutor.
Ao
aproximar-se um ímã de uma pilha elétrica observa-se uma variação em sua
força eletromotriz, que é a medida da energia fornecida a partir de cada
unidade de carga elétrica nela contida. Essa alteração é interrompida quando
se imobiliza o ímã, e adquire sinal contrário quando este é afastado.
Deduz-se daí que os campos magnéticos produzem correntes elétricas em um
circuito e que o sentido de seu fluxo tende a compensar a perturbação
exterior, com a indução simultânea de um campo magnético oposto ao inicial.
Analogamente,
uma corrente elétrica que circula em um condutor gera um campo magnético
associado que, como efeito derivado, induz no condutor uma corrente de sentido
contrário ao da inicial. Esse fenômeno é conhecido como auto-indução, e a
relação entre o campo magnético e a intensidade da corrente induzida por ele
é fornecida por um coeficiente denominado indutância, que depende das características
físicas e geométricas do material condutor. A unidade de medida de indução
é o henry, definido como a grandeza gerada entre dois circuitos dispostos de
forma tal que quando num deles a intensidade varia em um ampère por segundo
seja induzida no outro uma força eletromotriz de um volt.
Interpretação
do eletromagnetismo. Desde o advento das idéias inovadoras de Isaac Newton,
estabeleceu-se uma interpretação causal do universo segundo a qual todo efeito
observado obedeceria a forças exercidas por objetos situados a certa distância.
Nesse contexto histórico nasceu a teoria eletromagnética, segundo a qual as
atrações e repulsões elétricas e magnéticas resultavam da ação de corpos
distantes.
Era
preciso, pois, encontrar a verdadeira causa final dessas forças, buscando-se
uma analogia com a massa gravitacional de Newton e, simultaneamente, explicar de
forma rigorosa os mecanismos de interação eletromagnética entre os corpos.
Coube a Ampère, a partir de seus trabalhos sobre correntes elétricas, expor a
teoria da existência de partículas elétricas elementares que, ao se deslocar
no interior das substâncias, causariam também os efeitos magnéticos. No
entanto, em suas experiências, ele não conseguiu encontrar essas partículas.
Por
outro lado, Faraday introduziu a noção de campo, que teve logo grande aceitação
e constituiu um marco no desenvolvimento da física moderna. Concebeu o espaço
como cheio de linhas de força -- correntes invisíveis de energia que
governavam o movimento dos corpos e eram criadas pela própria presença dos
objetos. Assim, uma carga elétrica móvel produz perturbações eletromagnéticas
a seu redor, de modo que qualquer outra carga próxima detecta sua presença por
meio das linhas do campo. Esse conceito foi desenvolvido matematicamente pelo
britânico James Clerk Maxwell, e a força de seus argumentos acabou com a da idéia
de forças que agiam sob controle remoto, vigente em sua época.
Os
múltiplos trabalhos teóricos sobre o eletromagnetismo culminaram em 1897,
quando Sir Joseph John Thomson descobriu o elétron, cuja existência foi
deduzida do desvio dos raios catódicos na presença de um campo elétrico. A
natureza do eletromagnetismo foi confirmada ao se determinar a origem das forças
magnéticas no movimento orbital dos elétrons ao redor dos núcleos dos átomos.
Ondas
eletromagnéticas. O conceito de onda eletromagnética, apresentado por Maxwell
em 1864 e confirmado experimentalmente por Heinrich Hertz em 1886, é utilizado
para demonstrar a natureza eletromagnética da luz.
Quando
uma carga elétrica se desloca no espaço, a ela se associam um campo elétrico
e outro magnético, interdependentes e com linhas de força perpendiculares
entre si. O resultado desse conjunto é uma onda eletromagnética que emerge da
partícula e, em condições ideais - isto é, sem a intervenção de qualquer
fator de perturbação - se move a uma velocidade de 299.793km/s, em forma de
radiação luminosa. A energia transportada pela onda é proporcional à
intensidade dos campos elétrico e magnético da partícula emissora e fixa as
diferentes freqüências do espectro eletromagnético.
Aplicações.
A teoria eletromagnética é muito usada na construção de geradores de energia
elétrica, dentre estes destacam-se os alternadores ou geradores de corrente
alternada, que propiciam maior rendimento que os de corrente contínua por não
sofrerem perdas mediante atrito. A base do alternador é o eletroímã, núcleo
em geral de ferro doce e em torno do qual se enrola um fio condutor revestido de
cobertura isolante. O dispositivo gira a grande velocidade, de modo que os pólos
magnéticos mudam de sentido e induzem correntes elétricas que se invertem a
cada instante. Com isso, as cargas circulam várias vezes pela mesma seção do
condutor. Os eletroímãs também são utilizados na fabricação de elevadores
e instrumentos cirúrgicos e terapêuticos. Seu uso abrange diversos campos
industriais, uma vez que os campos que geram podem mudar de direção e de
intensidade