Energia
O
núcleo do futuro
Dez anos depois do desastre
de Chernobyl,
vários países fecharam os
reatores. Mas há programas
nucleares bem administrados e
viáveis. Afinal, o que fazer
com a energia atômica daqui
por diante?
Entre Pripiat, na
Ucrânia, e Paris, há 1 999 quilômetros e um abismo mental. O
vulto da usina de Chernobyl domina o horizonte de Pripiat,
onde não restou um habitante. Lá, energia nuclear é sinônimo
de morte. Depois da explosão do reator número 4, na madrugada
fatídica de 26 de abril de 1986, a radiação varreu tudo. A
cidade foi abandonada e a roda do parque de diversões que
seria inaugurada na festa de 1° de maio nunca girou. O
acidente inutilizou uma área equivalente a um Portugal e meio,
140 000 quilômetros quadrados. Por centenas de anos.
A Europa despertou
como se estivesse em um pesadelo. Itália, Alemanha, Suécia,
Finlândia, Suíça, Holanda e Espanha deram marcha a ré nos
programas nucleares e fecharam usinas. Para eles, o risco de
um acidente igual era insuportável. Mas há usinas precárias
nos antigos países socialistas que ainda ameaçam toda a
vizinhança européia.
A solução, então,
é fechar tudo? Se depender do Canadá, do Japão ou da França,
onde reator nuclear é sinônimo de progresso, a resposta é não.
Os franceses passam muito bem e 75% da energia no país vêm do
átomo. Exportam usinas, reprocessam urânio, armazenam lixo
radioativo e têm dois reatores de última geração. Tudo com
aprovação das pesquisas de opinião pública. “Virar as costas
para o átomo é burrice”, diz Jean Paul Chaussade, diretor de
comunicação científica da Electricité de France (EDF). “O
petróleo e o gás vão se esgotar em quarenta anos. Os
combustíveis fósseis poluem mais e o impacto ambiental das
hidroelétricas é muito maior. A alternativa atômica é cada vez
mais barata e segura”. Hoje, entre Pripiat e Paris, o futuro
balança. Virando a página, você vai saber por quê.
O
sucesso da virada à francesa
No caso de
funcionamento inadequado, a ordem é fechar tudo. Faz parte
dessa política manter a população informada sem esconder nada,
ao contrário do que fazem os países do leste europeu até hoje.
Na verdade, a França é movida pelo átomo. Os reatores são
instalados perto dos consumidores, diminuem os custos de
transmissão e eliminam a dependência de recursos naturais.
Sim, são perigosos. Mas geram menos lixo e menos poluição do
que termoelétricas a carvão. Além disso, o quilowatt nuclear
custa 2,5 vezes menos que o quilowatt do cata-vento e doze
vezes menos do que o quilowatt solar.
A EDF reutiliza o
urânio dos reatores e reprocessa o dos países que não dominam
essa tecnologia. Também está na ponta com a operação de dois
fast-breeders, o Phenix e o Super-Phenix, reatores de neutrons
rápidos que, ao contrário dos comuns, reaproveitam boa parte
do plutônio que utilizam. Com tudo isso, o preço da energia
nuclear despencou (veja gráfico abaixo). E há muita oferta de
urânio a preço baixo no mercado.
A França produziu 55
toneladas de lixo radioativo em 1996. Quase 1 quilo por
cidadão. É muito? “Depende”, diz Chaussade. “Há seis anos
produzíamos 100 toneladas por ano”. Há dois centros de
armazenamento, em La Hague, no norte do país, e Aube, no
centro-leste. O primeiro já está lotado. Aube deverá servir
mais vinte anos.
O lixo é tratado
segundo a radioatividade. Em cada quilo, 950 gramas têm fraca
intensidade (esgota-se em 30 anos), 45 gramas têm média
intensidade (o metal contaminado das cúpulas dos reatores
é perigoso durante centenas de anos) e 5 gramas têm alta
radioatividade (dura centenas de milhares de anos). Os de
fraca intensidade são estocados em barris e mergulhados em
concreto. Os de média e alta passam por um tratamento químico
que separa aço, urânio e plutônio e, depois, são vitrificados
em tubos revestidos de concreto ou betume. Então, são
armazenados a 600 metros de profundidade.
O programa nuclear
francês conquistou tanta autonomia que, durante anos, pôde
ignorar protestos contra as explosões nucleares submarinas
conduzidas pelos militares no Atol de Mururoa, no Oceano
Pacífico. Foram 181 testes, em trinta anos. Só foram suspensos
em janeiro de 1996, sob a pressão de uma das maiores vaias
mundiais que a França já sofreu.
Uma opção para quem não tem outras saídas
O Japão não tem
carvão, petróleo nem rios. Também não tem espaço suficiente
para instalar grandes painéis fotovoltaicos e captar energia
solar em larga escala. Por isso, há vinte anos a produção de
quilowatt atômico vem aumentando. Em 1973, representava 0,6%
de toda a eletricidade produzida no país. Em 1996, saltou para
30%. Trata-se, já, do terceiro maior parque nuclear do mundo:
51 reatores em operação. Sem maiores problemas. A opção
é preciosa para os países com poucas opções energéticas, que
teriam de importar carvão ou petróleo.
Os japoneses
reprocessam urânio na usina de Tokai e também na Europa, em
centrais da Inglaterra e da França. O tráfego de navios
carregados de material radioativo é alvo de protestos
constantes dos ecologistas do Greenpeace. Também fazem
pesquisa de ponta com fast-breeders, operando com sucesso o
reator de Monju. Mas não resolveram a questão do lixo. Por
enquanto, guardam os dejetos em locais provisórios à espera de
uma definição posterior do que fazer com eles.
O risco de um
novo Chernobyl
Ignalina na
Lituânia, Kozloduy na Bulgária, Medzamor na Armênia, Sosnovy
Bor na Rússia. No leste europeu há várias usinas candidatas à
catástrofe. A começar pela própria Chernobyl que, além do
reator destruído, que virou um túmulo de concreto, mantém
outros três em funcionamento. Só nos últimos dois anos, houve
três incidentes em Chernobyl. E, como no tempo da guerra fria,
as autoridades ucranianas demoraram meses para notificar a
AIEA, a Agência Internacional de Energia Atômica.
“Com o
desaparecimento da União Soviética”, diz Hans-Friedrich Meyer,
da IAEA, “a situação no leste europeu, que já era ruim, ficou
pior: a manutenção e o controle se deterioraram e os defeitos
continuam lá.” Mas a maior complicacão é que os países do
antigo bloco socialista dependem mesmo dessas geringonças.
Ignalina, por exemplo, fornece 80% da eletricidade da
Lituânia.
Em números exatos, o
leste da Europa tem 58 problemas. Ou melhor, 58 reatores, de
dois tipos: o VVER e o RBMK. No primeiro, faltam controles
duplos. Se os controles principais pifam, não há reservas.
Outra debilidade é a cúpula de aço, que é vulnerável à
variação brusca da temperatura da água usada para
refrigerá-la. No segundo, o calcanhar de Aquiles são os 33
quilômetros de 1700 tubos que carregam combustível dentro dele
e são vulneráveis ao bombardeio con-tínuo da radiação de
nêutrons. Mal controladas, suas soldas podem se romper. Além
disso, diz Chaussade, da EDF, “a mistura entre vapor nuclear e
água, no coração do reator, é malfeita e tende a multiplicar a
potência das reações. O que se torna grave pela falta de uma
instalação de confinamento que as contenha”.
Saldo controverso
Foi isso o que
aconteceu em Chernobyl. Ao ser detectado o mal funcionamento,
a máquina foi desligada, mas a anomalia fez com que, em dez
segundos, a potência da central fosse multiplicada cem vezes,
provocando a explosão. Em contato com o ar, o urânio pegou
fogo. Toneladas de partículas 140 exatamente foram
liberadas no ambiente. Uma nuvem sinistra de radioatividade
atravessou a Europa.
Até hoje, o saldo
é controverso. A Greenpeace fala em 60 000 mortos a longo
prazo. O Instituto de Radiologia de Kiev admite 31 mortos e 50
000 contaminados. Um estudo da Organização de Cooperação e
Desenvolvimento Econômico indica que a incidência de câncer na
tiróide na área de Chernobyl aumentou mais de cem vezes. Por
tudo isso, como diz Chassaude, “o ideal seria parar os VVER de
primeira geração e todos os RBMK”.
Países como a
Eslováquia melhoraram a segurança das centrais. Mas outros,
como a Bulgária e a Ucrânia, por incrível que pareça,
barganham para conseguir mais recursos financeiros uma
espécie de chantagem com o próprio risco. Em abril de 1996, a
Ucrânia recebeu dos sete países mais desenvolvidos do mundo
uma proposta de 2,3 bilhões de dólares para fechar os reatores
ativos de Chernobyl. Alegou que teria de compensar a perda
importando eletricidade e pediu 5 bilhões de dólares. Não
houve negócio. Será difícil esquecer Chernobyl
Estados Unidos
Têm 109 reatores funcionando.
Desde o acidente de Three Miles Island, em 1979, a expansão
nuclear foi congelada. Têm três depósitos lotados de lixo
radioativo. A Califórnia rejeitou um projeto federal para
estocar dejetos.
França
Têm 56 reatores gerando 75% da
eletricidade nacional. Está na ponta no tratamento do lixo
atômico. Lidera o ranking dos exportadores.
Canadá
Maior exportador de urânio do
mundo. Desenvolveu uma tecnologia avançada de reatores. Tem 21
usinas produzindo 19% da eletricidade do país.
Grã-Bretanha
Tem 35 reatores gerando 25% de
sua eletricidade. Reprocessa e armazena dejetos vitrificados.
Tem grandes reservas de petróleo, gás e carvão.
Itália
Fez um plebiscito e fechou seus
quatro reatores.
Suécia
Quer fechar suas doze usinas
até 2010.
Alemanha
Endureceu as regras de segurança
e fechou todas os reatores da antiga Alemanha Oriental
Rússia
Tem as piores usinas do mundo.
Os problemas de manutenção são crônicos. Há tráfico ilegal de
urânio e de materiais radioativos.
Japão
Têm 51 reatores gerando 30% da
eletricidade. Reprocessa combustível na França e na
Inglaterra.
China
Têm três reatores. É o maior
importador de tecnologia nuclear. Comprou um pacote de dez
reatores franceses por 25 bilhões de dólares.
Há 442 reatores funcionando em
36 países
Nuclear, não obrigado
Sete países europeus fecharam
reatores e cancelaram os
programas nucleares.
Em novembro de 1987,
sob impacto da explosão de Chernobyl, os italianos foram às
urnas para um plebiscito. Votaram não à energia nuclear. Meses
depois, foi fechada a usina de Latina. As obras dos reatores
de Caorso, Trino e Montalto di Castro também foram
paralisadas. O último acabou virando uma termoelétrica a gás
natural.
Os italianos não foram os
únicos. Depois de Chernobyl, Alemanha, Suíça, Suécia,
Finlândia, Bélgica, Holanda e Espanha decidiram pelo mesmo
não. Boa parte da opinião pública da europa ocidental não está
disposta a correr o risco.
Antipatia industrial
Na
Suécia, o parlamento votou uma lei prometendo fechar as doze
usinas do país até 2010. Mas deputados e ecologistas enfrentam
a oposição poderosa de sindicalistas e empresários. O
argumento é que parar reatores e buscar alternativas
energéticas custa de 20% a 30% a mais do que mantê-los
funcionando. Para economizar o equivalente, teriam que ser
cortados empregos. Daí a antipatia da indústria pelas causas
ecológicas.
Na Alemanha, a
solução foi híbrida. Apesar de não haver decisão oficial
proibindo novas instalações e de vinte reatores continuarem
operando , nenhum outro foi construído desde Chernobyl. Os
alemães endureceram as regras de segurança e fecharam todas as
nove usinas da antiga Alemanha Oriental. Em compensação,
ficaram mais dependentes do carvão, que exige um alto subsídio
do governo. O emprego de milhares de mineiros é mantido, mas a
poluição gerada anula a vantagem ecológica do abandono do
átomo.
O
vaga-lume atômico
O programa nuclear brasileiro
sobrevive graças a um
paradoxo: gastou demais para ser desativado.
Em novembro de 1976,
o Brasil assinou um acordo na Alemanha com a empresa KWU, do
grupo Siemens, para a construção de oito reatores nucleares.
Em vinte anos, nenhum ficou pronto. A usina Angra 2, em Angra
dos Reis (RJ), consumiu 5,8 bilhões de dólares e requer mais
1,2 bilhão para ser concluída. As obras foram retomadas em
março passado e deverão acabar, diz-se, em 1999. No total,
serão 7 bilhões de dólares por um reator de 1 300 megawatts
que pode ser adquirido pronto, hoje, por 1,5 bilhão de
dólares. Na praia de Itaorna, ao lado de Angra 2, jaz,
quase sempre desligado, o reator de Angra 1, anterior ao
acordo com a Alemanha. É um PWR-Westinghouse, uma espécie de
Fusca 1967, comprado nos Estados Unidos naquele ano. Seu
apelido é vaga-lume. Quando está ligado, gera 650 megawatts.
Mas como o nome indica, vive piscando. Mais apagado que aceso.
Tem um dos mais baixos índices de eficiência do mundo.
Coleção de erros
O
programa nuclear brasileiro coleciona atrasos, multas, juros e
erros como as fundações mal calculadas de Itaorna que,
afinal, quer dizer “pedra mole” em Tupi. “Angra 2 é um desses
casos além do ponto de não-retorno”, diz o ex-ministro do Meio
Ambiente, José Goldemberg. “Desistir significa assumir um
prejuízo maior do que o necessário para concluir”. Essa também
é a opinião de Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coordenação de
Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): “Apesar do
desperdício monstruoso de dinheiro, concluir Angra 2 tem
alguma racionalidade.”
Mas, se serve para
Angra 2, o raciocíno não serve para Angra 3 que a Eletrobrás
também pretende construir em Itaorna, sob o argumento de que
40% dos equipamentos já foram comprados. “Eles que vendam tudo
para o Irã ou a Índia”, aconselha Goldemberg. “Angra 3 é um
absurdo”, concorda Pinguelli. “Não tem justificativa
energética. São os alemães que estão pressionando o Brasil
para comprar a mercadoria.”
Nesses vinte anos de
más experiências, a maior conquista foi feita pelo Centro
Experimental de Aramar, da Marinha, em Iperó (SP), que
desenvolveu um método próprio de enriquecimento de urânio em
ultracentrífugas. Com isso, garantiu o abastecimento dos
reatores e livrou o país do método alemão de enriquecimento
por jet nozzle, que, na verdade, nunca funcionou. Em 1990, o
Brasil dispunha de 10 562 profissionais na área nuclear. Hoje
tem 8 275. “Reina desânimo e desmotivação”, diz o professor de
Energia Nuclear José Carlos Borges, da UFRJ. Questões
tecnológicas importantes, como a do lixo radioativo,
permanecem abertas. Até o direito básico da população de Angra
à segurança está mal resolvido ou pelo menos mal explicado.
Para os críticos, o Plano de Evacuação da cidade em caso de
acidente é uma ficção. Tem tudo para dar errado.
A
casa dos horrores nucleares
O arsenal mais terrível do
mundo tem seu lugar
para a posteridade - se é
que haverá alguma.
Um museu americano guarda uma
completa
coleção de bombas atômicas e
mísseis para turista ver.
Na manhã de 6 de
agosto de 1945, quase ao fim da Segunda Guerra Mundial, o
bombardeiro B-29 americano Enola Gay lançou a ainda não
testada bomba de urânio Little Boy sobre a cidade de Hiroxima,
a sudoeste de Honshu, a principal ilha japonesa. Ela rebentou
no ar a 600 metros de altura e liberou uma energia equivalente
a 20 quilotons (20 mil toneladas) do explosivo químico TNT,
matando 64 mil pessoas instantaneamente. Três dias depois,
após sobrevoar inutilmente durante 45 minutos um segundo alvo,
a cidade de Kokura, sem visualizá-la, o avião mudou de rumo. E
Fat Man, outra bomba, esta de plutônio, arrasou mais da metade
da área de Nagasaki, no sul do Japão. Passados seis meses, 40
mil pessoas haviam morrido. O número de vítimas poderia ter
sido ainda maior e incluir cidadãos americanos caso o mau
tempo não tivesse afastado o bombardeiro 1500 metros do alvo:
isso salvou a vida de 1300 prisioneiros de um campo de
concentração japonês desconhecido dos Estados Unidos.
A devastação causada
por essas bombas acabou de vez com a guerra, provocou espanto
e horror no mundo inteiro, mas não impediu o desenvolvimento
das armas atômicas - muito ao contrário. Elas instituíram o
chamado “equilíbrio do terror”, sustentado pelas mais de 25
mil ogivas nucleares das duas superpotências, Estados Unidos e
União Soviética, capazes de exterminarem múltiplas vezes a
vida na Terra. O potencial das bombas de fusão, ou termo
nucleares, é da ordem de 60 megatons (60 milhões de toneladas
de TNT). É como se cada ser humano se tivesse tornado um refém
da paz armada. É inegável também que o arsenal nuclear exerce
uma atração algo mórbida sobre muita gente. E um lugar onde
isso pode ser percebido claramente é o Museu Atômico Nacional,
que funciona na cidade de Albuquerque, no estado americano do
Novo México. “As pessoas se alegram de conhecer a tecnologia
das armas atômicas”, comenta Joni Hezlep, o diretor do Museu.
“Grátis! Educativo!
Fascinante!”, proclama o folheto distribuído aos quase 150 mil
turistas que todo ano percorrem o ambiente escuro do velho
hangar de helicópteros, hipnotizados pela visão de 68 armas
nucleares iluminadas, imagens de cogumelos atômicos e pôsteres
com a história das bombas. Sentado ao lado de uma Mark-17, a
primeira bomba termonuclear desenhada para ser lançada de
avião, o turista aperta um botão e logo aparece na tela de TV
um filme das primeiras provas realizadas com ela. Esta versão
moderna de “casa dos horrores” reúne sobras de guerra e
material de treinamento.
O orçamento do Museu
é suficiente para a permanente renovação do acervo. Exemplares
de safras recentes da indústria bélica repousam, ainda
encaixotados, atrás do hangar, entre a sucata de um jato
supersônico F-105, peças de foguetes e uma coleção de
mísseis,. Segundo o historiador do Museu, Richard L. Ray, a
intenção não é chocar e sim conservar e exibir os equipamentos
como parte da História. “Todo mundo sabe o que faz uma bomba
desta. Não precisamos mostrar corpos carbonizados”, justifica.
Ele conta que dois sobreviventes de Hiroxima e Nagasaqui
visitaram o Museu o acharam um boa idéia, apesar de não ter
fotos que lembrem o martírio japonês. Ao observar as réplicas
de Fat Man e Little Boy, lembra o historiador, os dois caíram
de joelhos a chorar.
A maioria das armas
expostas tem nomes muito atrativos: Lulu (bomba de explosão em
profundidade submarina). Walleye (bomba de planagem), Honest
John (míssil terra-ar) e David Crockett, SUBROC e ASROC
(foguetes de lançamento submarino e anti-submarino). Os
arsenais nucleares encontram-se divididos em três categorias:
os mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), lançados de
terra; os mísseis lançados de submarinos (SLBMs), de menor
porte e precisão; e os bombardeiros estratégicos. Para o
observador atento, as armas mais antigas traem suas origens. É
que muito da evolução ocorrida até se chegar aos mísseis
modernos derivou das pesquisas desenvolvidas durante a guerra,
há quase meio século, pela Alemanha nazista.
De fato, no dia 8 de
setembro de 1944, cinco minutos depois de ser disparada de
Haia, a capital da Holanda, então sob domínio alemão, a uma
velocidade de 5 mil quilômetros por hora, caía em Londres o
primeiro foguete nazista, batizado de V-2. Estava inaugurada a
era das armas automáticas de longo alcance. Com a vitória dos
aliados em 1945, mais de cem especialistas alemães, a começar
pelo físico Wernher von Braun, foram acolhidos nos Estados
Unidos (os russos também carregaram tantos quanto puderam).
Além do pessoal, os americanos tomaram setenta dos mais
avançados foguetes alemães para testes de treinamento. União
Soviética, França e Inglaterra trataram igualmente de obter
informações sobre foguetes e mísseis. A história dos testes
nucleares também faz parte do roteiro do Museu Nacional. Toda
semana, caravanas de turistas percorrem 200 quilômetros no
escaldante deserto do Novo México até a Base Aérea de
Alamogordo, para conhecer ao local da primeira explosão
atômica do Mundo.
Mais de mil pessoas
se aglomeram na cratera aberta pela bomba, enquanto os
alto-falantes repetem sem parar a gravação da contagem
regressiva original e o som autêntico da explosão. Em um
reboque próximo, outra réplica de Fat Man mais parece a
caricatura de uma bomba que o potente patriarca de uma família
já excessivamente prolífera. Nesse desolado lugar, às 5h30 do
dia 16 de julho de 1945, o Fat Man original explodiu no alto
de uma torre de aço de 30 metros de altura.
Os cientistas
acompanharam a explosão em abrigos subterrâneos a quase 100
quilômetros de distância. Primeiro foi uma luz intensa
iluminando montanhas a 16 quilômetros, depois uma súbita onda
de calor e um grande estrondo, assim que as ondas de choque
ecoaram no vale. Uma bola de fogo surgiu rapidamente, seguida
do cogumelo de 12 mil metros que iria tornar-se a imagem mais
ameaçadora do século. A bomba havia gerado uma força explosiva
equivalente a 20 mil toneladas de TNT. Rodeando o local da
torre há uma cratera de mais de 300 metros de diâmetro por 3
de profundidade. A intensa pressão e o calor gerado pela
fissão dos átomos fundiram a areia a ponto de convertê-la em
uma matéria sólida, cristalina, de cor verde-jade. Essas
pedras verdes se chamam trinitita, devido ao nome em código do
projeto de teste - Trinity.
Sob o intenso sol do
deserto, os turistas passeiam agachados, buscando trinitita.
Aparentemente, não leram por inteiro o folheto que adverte:
“Já que este material ainda retém um pequeno nível de
radiação, que pode representar risco se suas partículas de pó
forem inaladas ou ingeridas, pede-se não recolher pedras ou
escavar o solo”. Todo o lugar ainda é ligeiramente radioativo.
O programa informa que “as crianças pequenas e as mulheres
grávidas correm maior risco potencial” e avisa as pessoas que
não comam, bebam, fumem ou levem animais domésticos ali.
Enquanto se ouve um discurso ao ar livre de Robert Krohn, um
dos cientistas que testemunharam a explosão, não é incomum ver
sacerdotes de seitas místicas, seguidos de grupos vestidos de
branco, gritando para exorcizar a “semente da destruição”. As
poucas sementes que germinaram ali, mais de quarenta anos
depois do teste, mostram na verdade que o terreno volta a dar
sinal de vida, não de destruição.
Carregando o seu
souvenir radioativo, o turista da era atômica prossegue seu
passeio, seguindo ao norte de Albuquerque até Los Alamos, o
lugar onde a bomba foi efetivamente concebida. Ali funciona o
Museu Científico Bradbury, a outra face do Museu Atômico
Nacional. As salas bem iluminadas estão cheias de recordações
dos primeiros dias da energia nuclear e, se se esquecer
Hiroxima, o equilíbrio do terror e o acidente de Chernobyl,
fica até fácil admirar essa grande conquista científica. De
fato, o controle do poder do átomo representa um dos maiores
resultados da atividade humana organizada. Em menos de cinco
anos, cientistas de diferentes nacionalidades, trabalhando em
várias frentes de pesquisa, transformaram a teoria em
realidade. Foi o físico italiano Enrico Fermi (1901 - 1954)
quem iniciou as primeiras experiências. Ele realizou uma série
de testes com o urânio e o tório radioativos, recebendo o
Prêmio Nobel em 1938 pelo que se acreditou serem novos
elementos químicos.
A palavra grega
átomo quer dizer, como se sabe, indivisível, e a idéia de
partir a unidade básica da matéria ainda era estranha para os
cientistas. Naquele mesmo ano, entretanto, os físicos
austríacos Lise Meitner e Otto Frisch provaram que Fermi
obtivera, isto sim, a quebra do núcleo de urânio em elementos
menores, com grande liberação que, a partir de determinada
quantidade de material, a chamada massa crítica, a fissão do
núcleo do átomo criaria uma rápida reação em cadeia gerando
ainda mais energia. O boneco de gesso em tamanho natural do
físico J. Robert Oppenheimer, o responsável pelo laboratório
de Los Alamos, recebe os visitantes do Museu Bradbury com um
olhar triste. Na verdade, muitos dos cientistas envolvidos no
projeto de construção da bomba não comemoraram propriamente o
seu sucesso.
Num documento
conhecido como Franck Report, eles pediram ao governo
americano que não utilizasse a bomba. Mas o imprevisto
aconteceu - o presidente Franklin Roosevelt morreu e Harry
Truman assumiu, autorizando o bombardeio ao Japão. Desde
aquela época, a energia nuclear saiu definitivamente do
controle de um punhado de cientistas para se tornar
propriedade cada vez mais comum. A França começou
desenvolvendo energia nuclear para fins pacíficos, passando em
1960 a testar suas próprias armas. Os chineses começaram seu
programa nuclear em 1958 com a ajuda soviética. Em 1964
testaram sua primeira arma de urânio e avançaram rápido para o
estágio dos mísseis termonucleares, alcançado em explosão
nuclear em 1980. A Índia também realizou uma explosão nuclear
em 1974, demonstrando que não só os países ricos podem ter
armas desse porte.
Calcula-se que já
tenham sua bomba ou estejam em condições de produzi-la a curto
prazo cerca de vinte outros países, entre eles África do Sul,
Argentina, Brasil, as duas Coréias, Formosa, Irã, Iraque,
Israel, Líbia e Paquistão. Ironicamente, a ameaça da
proliferação de armas nucleares no Terceiro Mundo coincide com
o sepultamento (que se espera definitivo) da Guerra Fria entre
os blocos militares comandados por Washington e Moscou. Nas
palavras de Joni Hezlep, de Albuquerque, “as armas que se
podem ver num museu são as mais importantes: servem para
lembrar que são um seguro de vida; é uma maneira terrível de
ver o problema, mas a realidade é essa. São dissuasivas, não
são?”
Os
arsenais que ameaçam a Terra....
O projeto para a
construção de armas termonucleares ou bombas H (de hidrogênio)
começou já em 1942, paralelamente ao desenvolvimento das armas
de fissão, mas não foi uma prioridade, mesmo depois da guerra,
pois dependia de um potente sistema de aquecimento. Para se
ter uma idéia da potência desse sistema, basta dizer que o Sol
é uma bomba termonuclear, que consome deutério, o hidrogênio
radioativo, a 10 milhões de graus centígrados. Em uma bomba,
só a energia liberada por um mecanismo de fissão forneceria a
temperatura suficiente para a ignição do combustível de
deutério. A fissão ou quebra do núcleo - utilizada nas bombas
lançadas contra o Japão - com certeza fundiria os átomos de
deutério, liberando energia muitas vezes superior.
Tamanha energia
despertou muitos cientistas para o fato de que o efeito
devastador dessas armas não se restringiria a alvos militares
e eles torciam para que ela jamais fosse produzida. Mas com a
Guerra Fria entre EUA e URSS essa esperança foi por água
abaixo. A informação dos primeiros computadores nos
laboratórios militares simplificou cálculos tidos como quase
impossíveis, viabilizando o teste inicial com a bomba H em
1952. As ogivas termonucleares, junto com a miniaturização e o
refinamento dos mecanismos de controle de sua direção,
representaram um salto tecnológico significativo no
aperfeiçoamento dos arsenais atômicos na década de 50.
São dessa época os
mísseis de longo alcance Pershing, Atlas (o primeiro
intercontinental), Titan I e II, capazes de acertar com uma
precisão de 200 metros um alvo a até 8 mil quilômetros, como a
distância entre a capital brasileira, Brasília, e a cidade
americana de Nova York. O desenvolvimento de combustíveis
sólidos, mais facilmente armazenados, levou à criação, em
1958, do míssil submarino Polaris, além do Minuteman, o
primeiro a ser lançado de um silo subterrâneo, como os que
aparecem no filme O dia seguinte. Suas versões mais recentes
datam de 1971. Trata-se do Minuteman III e do Poseidon, cujas
múltiplas ogivas podem ser dirigidas a alvos diferentes após o
lançamento.
A última palavra em arma nuclear
nos Estados Unidos é o míssil MX, ou Peacekeeper (Mantenedor
da paz), desenhado para lançar 21 ogivas de 10 megatons cada
para alvos separados a mais de 8 mil quilômetros. A
Inglaterra, que desenvolveu o míssil Blue Streak logo após a
Segunda Guerra Mundial, cancelou o seu programa de pesquisas
em 1960. A França aproveitou a tecnologia de foguetes no
desenvolvimento do veículo espacial Diamant. A União Soviética
seguiu os americanos na corrida armamentista, produzindo a
série Frog de grandes foguetes de combustível sólido, além de
inúmeros mísseis: Scud, Skean, Savage, SS-6, Sark, Serb,
Sawfly, todos eles altamente móveis, montados em veículos de
transporte ou submarinos nucleares.
Os foguetes Sasin e
Scrag, de 1964, foram responsáveis pelos lançamentos de
veículos em órbita. E foi o míssil soviético Sandal, montado
em Cuba, que quase provocou a Terceira Guerra Mundial em 1962.
Diante do bloqueio e das ameaças de ação militar dos Estados
Unidos, os mísseis foram desmontados e retirados. A mesma
sorte não tiveram os habitantes do atol de Bikini, no Pacífico
Sul. Eles é que foram removidos, pouco antes dos primeiros
testes atômicos americanos, em 1946. A explosão de 23 bombas
ali fez desaparecer várias ilhas e transformou toda a região
num inferno radioativo.
Face a face com a
bomba
Mais de 100 testes nucleares
ao ar livre sacudiram o Deserto de Nevada, nos Estados Unidos,
a partir de 1951. As seqüelas que deixaram só em anos recentes
vieram a público. Este é o tema do texto a seguir.
Saint George, no
estado americano de Utah, situa-se no coração da região
mórmon. Aí, como em muitas outras tranqüilas cidades que
pontilham o deserto, a vida e a morte são vistas como dádivas
do céu. Por-tanto, em 27 de janeiro de 1951, foi como mais um
sinal de divina inspi-ração governamental que os cidadãos de
Saint George aceitaram uma de-tonação atômica que devastou o
sítio de testes de Nevada — a primeira de mais de uma centena
que brotariam no local nos doze anos seguintes. Mas o programa
americano de testes de armas nucleares nunca foi benigno,
fa-to que só se tornou claro em anos re-centes, quando vieram
a público documentos até então secretos.
Nuvens de radiação,
tão tóxicas quanto às liberadas pela explosão do reator
soviético em Chernobyl, verteram resíduos rosados sobre pontos
tão distantes como a Nova Inglaterra, a mais de 2 000
quilômetros, envenenando o leite, matando o gado e afetando
moradores ao longo da trajetória. Milhares de soldados, com
ordem de realizar manobras ao pé das detonações, foram
expostos a debilitadoras doses de radiação, da mesma forma que
eletricistas ou encanadores empregados no sítio de teste. Nos
anos seguintes, ex-militares, funcionários do sítio de testes
e gente da vizinhança foram vítimas de câncer em proporção
alarmante.
Ao contrário de
muitos civis feridos em guerra, essas vítimas da Guerra Fria
não foram advertidas sobre as ameaças contra sua saúde. Na
verdade, foram submetidas a uma cruel campanha de
desinformação. Soldados no sítio de testes receberam
informações falsas: “O sol, e não a bomba, é seu pior
inimigo”. Mulheres que sofriam efeitos do envenenamento pela
radiação — perda de cabelo, sérias queimaduras da pele —
tiveram alta dos hospitais próximos com diagnósticos de
“neurose” ou de “síndrome de dona-de-casa”. Quando uma
moradora da área ameaçada relatou à Comissão de Energia
Atômica (AEC em sigla inglesa) que seu filho e vários vizinhos
haviam morrido, aparentemente de câncer induzido pela
radiação, ouviu seca resposta: “Vamos manter o senso de
proporção sobre a chuva radioativa”.
Quaisquer riscos a
que a mulher e seus vizinhos “pudessem” ter sido expostos
“representavam um pequeno sacrifício” em nome da dissuasão (ou
seja, do fortalecimento bélico do país). Poucos documentos
expressam de modo tão eloqüente o tributo humano àquele
“pequeno sacrifício” quanto as fotos de Carole Gallagher. De
1983 a 1990, ela viveu e viajou em diversos Estados do oeste e
sudoeste. Em áreas que a AEC antes designara como
“virtualmente inabitadas”, Gallagher ganhou a confiança de
diversos veteranos, funcionários do sítio de testes e
moradores da área de risco, involuntariamente expostos à
radiação.
Os retratos que
colheu retêm a tradição do humanismo: diretos e sutis,
trágicos mas nunca apelativos. Seria fácil descartar o
trabalho de Gallagher como um desafortunado capítulo de uma
história encerrada. O Decreto de Compensação por Exposição à
Radiação, de 1990, estende às vítimas um pedi-do oficial de
desculpas e uma oportunidade de indenização. Os testes
nucleares subterrâneos, realizados a partir de 1961 em Nevada,
podem ter fim dentro de pouco tempo em virtude de uma decisão
assinada em agosto de 1992 pelo então presidente George Bush.
Mas, para as personagens de Gallagher, as feridas da Guerra
Fria continuam abertas.
Críticos do Decreto
de Compensação apontam que ele oferece parca recompensa — de
50 000 a 100 000 dólares — e somente a alguns segmentos da
população atingida. Regiões com direito a compensação fazem
divisa com regiões que não têm esse direito, quase ao acaso.
Dos mais de vinte tipos de câncer classificados pela Academia
Nacional de Ciências como radiogênicos (ou causados por
radiação), o decreto considera que apenas treze dão direito a
remuneração. Também não prevê pagamentos à segunda geração das
vítimas: isto é, crianças com defeitos de nascimento, câncer
ou outros danos nos cromossomos, resultantes da exposição dos
pais à radiação.
Recursos interpostos
sob outras leis, válidas apenas para ex-soldados, levaram ao
pagamento de menos de 3% das reivindicações feitas até meados
de 1993. Isso evidencia, dizem os críticos, que tanto as leis
como sua aplicação são inadequadas. E, afinal, mesmo os testes
subterrâneos representam risco para pessoas que vivem na
direção que o vento sopra, a partir do local da explosão. Dos
mais de 760 testes subterrâneos conhecidos, pelo menos 126
liberaram radioatividade para a atmosfera, embora as doses
tenham se tor-nado relativamente pequenas desde 1971. Persiste
também o problema de os vazamentos radioativos não serem
anunciados.
Em maio de 1986, por
exemplo, au-toridades no sítio de testes tentaram disfarçar a
radiação gerada pela detonação “poderoso carvalho”: deixaram
que a poeira letal escapasse no momento que os ventos sopravam
resíduos de Chernobyl sobre o local. Não é coincidência que os
testes são realizados, ou que se deixam escapar os vazamentos,
apenas quando o vento sopra para leste, direção oposta às
cidades de Los Angeles e Las Vegas. Um técnico do Departamento
de Energia (DOE) explicou esse procedimento a Gallagher
dizendo que “as pessoas em Utah (Estado que fica a oeste de
Nevada) não ligam a mínima para radiação”.
Tal explicação é
típica do menosca-bo que a indústria federal de armas
nucleares manifesta sobre a segurança de seus empregados, do
público e do meio ambiente. No ano passado, o DOE teve de
responder em tribunal à acu-sação de ter ajudado a fábrica de
ar--mas Rocky Flats, perto de Golden, no Colorado, a esconder
crimes ambientais da Agência de Proteção Ambiental. No Novo
México, está para ser aberto um depósito de resíduos nucleares
que não satisfaz nenhum dos regulamentos ambientais federais.
Portanto, o que a câmara de Gallagher registra não é uma
triste anomalia de outras épocas, mas as primeiras vítimas de
uma traição à confiança popular. Quando lhes dão face e voz,
elas expressam dignidade e exigem a verdade de maneira tão
suave e poderosa quanto à radiação que assombra nossas vidas.
Ken Case: o “caubói
atômico” , como era conhecido pelos outros funcionários do
sítio de testes, foi contratado pela Comissão de Energia
Nuclear, nos anos 50, com a função de conduzir gado para a
região de impacto imediato das detonações, momentos depois de
acontecerem. Assim os cientistas de Los Alamos podiam medir os
efeitos da radiação. Case sofreu onze intervenções cirúrgicas,
inclusive para tirar o rim e boa parte do intestino, antes de
morrer em 1985.“Eles tiveram câncer e nós também”, disse o
ex-funcionário sobre os animais que conduzia. “Eles apenas
morreram mais depressa.”
Walter Adkins com a mulher,
Marvel: motorista de ônibus no sítio de testes, teve
tumores na pele, esôfago e pulmão, morrendo em 1988. Foi
surpreendido pela chuva radioativa de Banenberry, um teste
subterrâneo realizado em 1970, do qual vazou grande quantidade
de radiação para a atmosfera. “Ela veio caindo como uma coisa
de aspecto rosado. Eu podia vê-la em minha mão. Me disseram: a
radiação nunca vai prejudicá-lo.”
Della Truman: como muitos
outros moradores da cidade de Enterprise, uma área de risco em
Utah, desenvolveu nódulos na tireóide por beber leite
contaminado com iodo radioativo. Embora tenha sido diversas
vezes examinada por médicos da Comissão de Energia Nuclear,
nunca foi informada dos resultados dos exames. Morreu em 1987
de um ataque cardíaco induzido por “tempestade da tireóide”,
uma grave aceleração do metabolismo. Seu filho Preston Jay
Truman sofre de problemas radiogênicos crônicos. “Na escola
nos mostraram um filme chamado A de átomo, B de bomba, conta
ele. Muitos de nós, que crescemos naquele período, pensávamos:
C de câncer, D de desaparecimento”.