DESENVOLVIMENTO, SUSTENTABILIDADE E AGRICULTURA FAMILIAR
1 Introdução
O trabalho
pretende mostrar a concepção de desenvolvimento que se
difundiu no mundo ocidental, após a segunda guerra mundial, e
que se transformou numa ideologia, numa crença, principalmente
entre os países mais pobres. A concepção de desenvolvimento
como sinônimo de crescimento econômico, ao longo do tempo, dá
sinais de insustentabilidade e traz conseqüências sérias do
ponto de vista econômico, social e ambiental. As bases de
sustentação do modelo eram frágeis.
Pretendemos
abordar o desenvolvimento rural que utiliza a mesma lógica do
desenvolvimento global, onde a modernização da agricultura é o
ponto de convergência de todas as políticas, tanto
macroeconômicas como setoriais. Esta modernização alavancada
pelo Estado, numa aliança com grande produtores e as
indústrias ligadas a agricultura, marginaliza muitos pequenos
agricultores familiares, polui, degrada. Dentro deste processo
de modernização, ocorrem transformações que mudam
profundamente as relações entre os agentes nos sistemas
agroalimentares. Ao analisar o processo de desenvolvimento
rural ocorrido a partir dos anos 50, evidentemente,
procuraremos mostrar a insustentabilidade do processo.
No decorrer
do trabalho mostraremos também, que o desenvolvimento e a
agricultura podem ser construídos sobre bases sustentáveis,
dentro de uma nova visão e de um novo paradigma. Existem
fatores que determinam a sustentabilidade econômica, social e
ambiental e que devem estar presentes em qualquer processo de
desenvolvimento.
Consideramos
a participação, entendida como exercício de cidadania e
democracia social, um instrumento fundamental na busca do
desenvolvimento, tanto global como da agricultura. A
participação deve se dar ao longo de todo o processo desde o
diagnóstico, a pesquisa, a proposição de políticas e programas
que visam atacar os problemas, até a gestão social e avaliação
dos mesmos. Neste aspecto, o planejamento do desenvolvimento
local ganha força.
E por fim,
procuraremos mostrar que a agricultura familiar deve ser a
base social de um novo desenvolvimento rural construído sobre
um novo paradigma. Existem características que mostram que a
agricultura familiar permite uma melhor gestão dos recursos
naturais e que por conseguinte possibilita o desenvolvimento
sustentável no meio rural.
2 O
desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico
A idéia de
desenvolvimento, a partir do século XX, e de modo especial
após a segunda guerra mundial, ganha força entre os países
"periféricos". Passa a ser um componente ideológico da
civilização ocidental, tanto capitalista como socialista. As
teorias e princípios econômicos, tanto socialistas como
capitalistas, dão lugar de destaque ao Estado como o agente
capaz de promover avanços no campo técnico e econômico.
Para Almeida
(1997), a noção de progresso que vigorou até a década de
trinta, era entendida como um movimento evolucionista, na
direção do crescimento e da ampliação do conhecimento. Não era
restrito ao campo das ciências, mas referia-se sobretudo às
melhorias nas condições de vida. Assumia um sentido parcial e
prático. À medida que a noção de progresso se alargou em
termos gerais, virou crença, ideologia. O termo progresso,
após os anos trinta passa a se denominar desenvolvimento,
entendido como crescimento econômico.
A visão de
progresso como sinônimo de crescimento, considerava que se as
nações mais pobres conseguissem crescer, automaticamente, toda
a população do país se beneficiaria deste progresso, deste
crescimento, o que na prática não ocorreu em país algum do
mundo que experimentou este modelo, pelo contrário, agravou os
problemas da pobreza, da concentração da renda e da degradação
ambiental.
Outro
aspecto desta concepção é que, a receita dos países ricos para
alcançar o desenvolvimento, serviria também aos
subdesenvolvidos, tanto no aspecto do uso dos recursos
naturais, das tecnologias, como nos caminhos a serem seguidos,
incluindo aqui, a crença de que o progresso é algo natural a
todos os povos, e portanto, possível de ser alcançado.
Considerou apenas o aspecto quantitativo do desenvolvimento,
ou seja, o aspecto do crescimento econômico. Este crescimento
foi insuficiente, incapaz de dar respostas às transformações
estruturais dos sistemas socioeconômicos.
Este modelo
de desenvolvimento por imitação atingiu, não apenas o processo
de industrialização dos países pobres, mas transformou de
forma profunda os hábitos de consumo da população, padronizou
"necessidades" e sistemas de produção na agricultura,
desconsiderando questões culturais. Homogenizou hábitos de
consumo e tecnologias de produção, independente dos aspectos
regionais, culturais e ambientais. Implementou um padrão único
de desenvolvimento.
O modelo de
desenvolvimento que foi adotado estava baseado em energia
fóssil não renovável e em sistemas de produção, como os da
agricultura, altamente demandantes de imputs de
energia. Este modelo também estava baseado na transferência de
recursos naturais dos países mais pobres para os países mais
ricos, fazendo com que os ecossistemas fossem seriamente
afetados. Citamos como exemplo a extração de minérios nos
países do sul, que são consumidos nos países do norte
(industrializados).
O processo
de produção agrícola, com tecnologias "modernas" que poluem,
destroem ecossistemas, como é o caso do avanço das fronteiras
agrícolas sobre o cerrado e florestas, desconsiderando os
impactos e a capacidade de suporte destes ambientes, faz parte
da concepção de progresso e crescimento a qualquer preço.
O modelo é
concentrador de renda e de riqueza, entre os países
industrializados e os mais pobres, e a concentração de renda
se dá, também, dentro dos países mais pobres, onde uma casta
social detém em suas mãos grande parte da riqueza do país.
Enquanto uma grande maioria não atinge o consumo necessário
para satisfazer as necessidades básicas, uma minoria composta
pelas populações dos países ricos e uma classe privilegiada
minoritária dos países pobres, consome, esbanja, polui, e é
responsável por mais de 80% do consumo de recursos naturais no
mundo.
A propósito
dos desperdícios, Sachs (s/d), diz que tanto a pobreza quanto
a riqueza podem provocar desperdícios. Os ricos desperdiçam
porque consomem mais recursos naturais do que o necessário, e
os pobres porque superutilizam os recursos que possuem. Um
exemplo típico é a questão da distribuição da terra. Enquanto
alguns possuem mais do que o necessário para ter uma vida
digna, quem possui pouca terra tem que utilizá-la de forma
intensiva a ponto de degradá-la, às vezes.
Este caminho
para alcançar o desenvolvimento não considerou o aspecto da
diversidade, da situação histórica particular de cada
sociedade, os recursos disponíveis, as expectativas, os
anseios e necessidades dos povos, não teve como pensamento
central a questão da equidade social, supondo que o
crescimento inevitavelmente levaria a ela. Em última análise,
esta concepção reduziu a idéia de desenvolvimento à
modernização, ou no mínimo, confundiu desenvolvimento com
modernização. Almeida (1997) procurando desfazer essa confusão
diz que a modernização faz referência à capacidade que um
sistema social tem de produzir a modernidade, e o
desenvolvimento indica a vontade dos diferentes atores sociais
de transformar a sociedade. A modernização é um processo, o
desenvolvimento é uma política.
A América
latina é um exemplo é um exemplo de cópia do processo de
desenvolvimento. Embora ela tenha procurado analisar seus
problemas de forma original, as soluções sempre apontaram para
os caminhos percorridos pelos países desenvolvidos. É o caso
do desenvolvimento via substituição de importações, onde a
industrialização tinha por objetivo tirar os países do
subdesenvolvimento, resolver o problema da deterioração das
trocas entre produtos agropecuários exportados pelos países
subdesenvolvidos e importação de manufaturas de alto valor
agregado. As plantas industriais e a tecnologia eram aquelas
utilizadas pelos países industrializados. Trilhou-se aquilo
que Sachs chama de caminho mimético de desenvolvimento.
A idéia
central deste modelo de desenvolvimento teve como base o
paradigma do humanismo ocidental, que propugna o
desenvolvimento socioeconômico pelo avanço técnico-científico,
que asseguraria o crescimento, o progresso das virtudes
humanas, das liberdades e dos poderes do homem. Ela propunha
seguir rumo a, para algo melhor, dentro de uma posição
ativa.
A noção de
desenvolvimento, dentro desta visão, se impõe como algo
evidente, universal, que pode ser aplicado em todas as regiões
ou países, de forma homogênea, em todas as situações, regimes
e culturas.
Na
agricultura, o desenvolvimento assumiu a forma e significado
de modernização. Assim como em outros setores da economia, na
agricultura, a modernização e o desenvolvimento não atingiram
a todos de forma igual.
A
modernização do setor rural no Terceiro mundo, salvo poucas
exceções, não foi acompanhada da modificação da estrutura
agrária, que é um fator determinante na questão da
sustentabilidade econômica, social e ambiental da pequena
produção familiar.
O
desenvolvimento como foi pensado deu mostras de que não se
sustenta. A noção de progresso associada à idéia de perfeição,
evolução, crescimento, válida para qualquer povo, em qualquer
momento histórico, se esgotou. Se de um lado ele conseguiu um
crescimento econômico rápido, por outro, gerou desigualdades,
pobreza, concentrou renda, degradou os recursos naturais, não
permitiu que as pessoas exercessem o seu direito mais sagrado
que é o exercício da cidadania, das escolhas, o direito de
decidir sobre os destinos da própria vida.
O modelo de
desenvolvimento em vigor provou, também, que somente os
mecanismos de mercado associados ao crescimento não induzem
espontaneamente à equidade social, nem proporcionam a melhor
eficiência alocativa de recursos naturais, no que diz respeito
à sustentabilidade, no médio e longo prazo. É necessária uma
coordenação pública. A presença do Estado e da sociedade civil
dentro de um processo de cooperação é fundamental para se
alcançar a o desenvolvimento equitativo, que não degrade o
ambiente e que seja capaz de sustentá-lo por longo do tempo.
Acreditamos
ser possível uma outra forma de desenvolvimento que considere
o aspecto econômico, social, cultural, que promova
transformações nas estruturas (sociais e mentais) da
sociedade. É possível o econômico, sinônimo de crescimento,
que impera no modelo de desenvolvimento vigente, interagir com
os aspectos socioculturais, transformando-se num instrumento
de melhoria de vida para "todos" os homens. O desenvolvimento
deve ter como o centro das preocupações as relações harmônicas
entre os homens e a natureza, passando necessariamente, antes
pelas relações harmônicas entre os homens. Estas,
necessariamente, passam pela justiça social, pela distribuição
da renda, da terra, pela relocação da riqueza no mundo, pela
equidade no acesso aos fatores de produção, aos fatores de
sobrevivência e serviços básicos necessários a uma vida digna,
e pelo respeito à diversidade no seu sentido amplo (cultural,
ambiental...). Como diz Boaventura Souza Santos (1995),
..."temos que ser iguais quando a diferença nos inferioriza e
temos que ser diferentes quando a igualdade nos
descaracteriza".
3 O
desenvolvimento rural, insustentabilidade do modelo e a
agricultura familiar
A noção de
desenvolvimento agrícola, na Europa e nos EUA, ganha força nas
décadas de 50 e 60. Almeida (1997), diz que sob a ação
conjugada do Estado, das indústrias agroalimentares e de uma
camada de agricultores "empresariais", o setor agrícola se
insere cada vez mais no sistema econômico; leis são impostas
nesses países visando transformar a agricultura, "setor"
ideologicamente considerado "arcaico", tradicional, em atraso,
em setor "moderno", participando do crescimento econômico
nacional.
Ele tinha
como meta atingir o estágio urbano de modernidade. A
agricultura buscou integrar-se ao crescimento econômico geral,
aumentando sua produtividade num intercâmbio de compra e venda
crescente com a indústria, tanto a montante quanto a jusante.
Este intercâmbio se dá com a indústria química, de máquinas e
equipamentos agrícolas e indústria processadora entre outras.
A
agricultura, dentro desta visão de desenvolvimento rural,
passa a ter uma uma função secundária dentro da cadeia. Sua
função passa a ser de fornecedora de matérias-primas,
mão-de-obra barato para a indústria, além de ser consumidora
de produtos industriais.
Para Almeida
(1997), o conteúdo ideológico da modernidade na agricultura
passa a incorporar quatro grandes elementos ou noções: a idéia
de desenvolvimento econômico e político, ou seja a noção de
crescimento (fim da estagnação e do atraso); a noção de
abertura, técnica, econômica e cultural, com conseqüente
aumento de heteronomia; a noção de especialização (fim
da polivalência), associada ao triplo movimento de
especialização da produção, da dependência à montante e à
jusante da produção agrícola e a inter-relação com a sociedade
global; e o aparecimento de um novo tipo de agricultor,
individualista, competitivo e questionando a concepção
orgânica de vida social da mentalidade tradicional.
A integração
da agricultura à agroindústria possui um significado que vai
além da questão quantitativa (comprar, produzir e vender
mais). Ela traz consigo transformações estruturais profundas
(de produção, comercialização e nas relações econômicas e
sociais entre agentes dentro das cadeias).
É dentro
deste conjunto de transformações que aparece o termo
desenvolvimento rural, uma vez que, a dimensão do crescimento
quantitativo não mais é suficiente para expressar o conjunto
das mudanças e relações que se estabelecem entre a
agricultura, a indústria e o conjunto da economia.
Neste
contexto de transformação, o padrão de desenvolvimento rural
era dado, era gestado a partir da indústria, com a anuência do
Estado. Os planos de desenvolvimento propostos pelo Estado
definem o que os agricultores devem fazer em termos técnicos
para se desenvolver. As políticas de desenvolvimento enquadram
os agricultores dentro de um padrão de modernização que levam
"automaticamente ao desenvolvimento". As políticas de
desenvolvimento tinham a tarefa de levar os agricultores
"atrasados" à modernização, principalmente, os agricultores
familiares.
Na ótica do
desenvolvimento sob o paradigma da modernização, o padrão
moderno, desenvolvido, é o que é adotado pelos agricultores
empresariais, medido pelo grau de intensificação das
atividades. A modernização é dada como o único caminho para o
desenvolvimento. As políticas de desenvolvimento deveriam
privilegiar ações em direção à modernização, desvalorizando
formas de produção que não se enquadrem nos ditos padrões
modernos de desenvolvimento. A diversidade e diferenciação das
formas de produção são consideradas empecilhos para o
desenvolvimento e modernização da agricultura. Neste sentido o
êxodo rural é inevitável e desejável, a fim de deixar o
caminho livre aos inovadores e aos que "querem" se
desenvolver.
Na
agricultura cometeu-se o mesmo equívoco que no processo de
industrialização e copiou-se o modelo de desenvolvimento rural
adotado pelos países industrializados. Insistiu-se que, o
modelo de desenvolvimento rural dos países ricos era possível
e bom para todos os povos. A modernização, da forma como foi
concebida, era o único caminho para o desenvolvimento. A
diferenciação e a diversidade da agricultura só atrapalhavam.
A irracionalidade deste padrão levou muitos pequenos
agricultores familiares à miséria, à dependência, à perda de
identidade e ao êxodo rural.
No Brasil, o
processo de modernização da agricultura inicia no final da
década de 50, com a mecanização agrícola. As políticas de
modernização seguiram a mesma lógica dos países
industrializados. Nem de longe havia preocupação com a
sustentabilidade do processo.
As políticas
setoriais até a metade da década de 60 eram direcionadas para
produtos específicos, como por exemplo, política para o café,
algodão, cana-de-açúcar. A partir de 1965, com a criação do
SNC (sistema nacional de crédito), o país busca, efetivamente,
a modernização da agricultura e a diversificação da produção
agropecuária. Diversificação, aqui, não é sinônimo de
policultivo.
A
modernização e diversificação da produção se deu dentro de uma
aliança entre o Estado, os grandes produtores rurais e o
capital agroindustrial. O crédito era farto, público e
subsidiado, e durou até a crise e ajuste dos anos 80. Era o
principal instrumento de modernização agrícola e
estabelecimento dos complexos agroindustriais.
Neste
contexto, Delgado (1986), coloca que os produtores familiares
tiveram acesso marginal a este crédito, e como conseqüência
acesso marginal à modernização. Os que tiveram acesso, o
fizeram por estarem ligados ao capital agroindustrial. A
estrutura agrária que não foi tocada no processo de
modernização, aliada a questão do crédito e acesso a
tecnologias adequadas de produção, fizeram com que muitos
pequenos agricultores abandonassem o campo ou lá permanecessem
em estado de pobreza.
A década de
80, em termos macroeconômicos caracteriza-se pela crise e
ajuste da economia. Marca o fim do crédito rural subsidiado,
embora muitos setores do capital agro-industrial continuam
recebendo apoios compensatórios indiretos. O crédito
subsidiado é substituído pela "Garantia de Preços Mínimos"
O fim do
crédito subsidiado tem implicâncias sobre o modo de
financiamento do setor rural. As taxas de juros positivas
fizeram com que o autofinanciamento fosse uma alternativa de
viabilização da produção. Os bancos selecionam os clientes. E
neste rol de beneficiários estão os empresários rurais ligados
às agroindústrias, ao comércio ou serviços. Estes passam a
gozar de privilégios junto ao banco, que pequenos tomadores
(pequenos agricultores) não tem acesso. Outra conseqüência do
fim do crédito subsidiado foi a integração de capitais entre
os bancos e grupos econômicos, que tinham interesses na
produção agrícola e mercado de terras, principalmente dentro
das chamadas novas fronteiras agrícolas, expandindo o negócio
bancário para além do crédito. A mudança nas formas e fontes
de captação de recursos para o crédito rural e a redução dos
recursos para a agricultura, com a exacerbação da especulação
financeira, foram conseqüências da mudança no crédito rural..
Neste
período, ou seja, a partir dos anos 80, dentro de um plano de
produção interna dentro da lógica da modernização, os pequenos
produtores tiveram uma pequena redução nas taxas de juros nos
financiamentos de custeio, o que não chega a compensar o
processo marginal a que foram submetidos ao longo dos anos.
Mesmo com taxas de juros menores, estas eram positivas.
Evidentemente, os pequenos agricultores foram novamente os
mais prejudicados com as mudanças, porque o volume de dinheiro
a eles destinado continuou sendo pequeno.
A década de
90 é marcada pelos planos de estabilização da economia e pela
liberalização dos mercados. A agricultura, como os demais
setores da economia, são submetidos a uma concorrência
internacional severa. A agricultura, e principalmente a
produção familiar, é submetida a um jogo de concorrência
internacional, num contexto de forte protecionismo por parte
dos EUA, Europa e Japão, principalmente. Internamente, a
agricultura familiar é afetada pela questão dos juros, pela
pouca disponibilidades de crédito, é afetada por
especificidades inerentes a ela, como a impossibilidade de
produção em escala, dificuldade de acesso à tecnologias, e é
afetada também pelo ambiente concorrencial que a submete a um
processo de seleção para o fornecimento de matéria-prima para
as agroindústrias.
A
modernização da agricultura no Brasil, acontece quase da mesma
forma que nos países industrializados, com uma
particularidade, aqui ela se dá dentro de uma aliança entre o
capital agro-industrial, os grandes produtores e o Estado,
excluindo os pequenos produtores, ou relegando-os a um segundo
plano. Ela acontece por vontade e ação consciente do Estado.
Também aqui a modernização da agricultura tem a função de
fornecer mão-de-obra barata para o setor urbano, fornecer
matéria-prima para a indústria e ser consumidora de produtos
industriais.
O
desenvolvimento rural concebido como sinônimo de modernização,
teve implicâncias sérias na questão da sustentabilidade, tanto
econômica, como social e ambiental, dentro da agricultura de
um modo geral, e principalmente, dentro da agricultura
familiar.
Falando
especificamente da agricultura familiar, a modernização que
consegui inserir nos mercados uma parcela de agricultores,
mesmo que de forma subordinada ao capital agro-industrial,
comercial ou financeiro, a nível de Brasil, também é
responsável pela marginalização de um número muito grande de
famílias de pequenos agricultores familiares.
O
desenvolvimento rural estruturado sobre o paradigma da
modernização dá sinais de que não é sustentável, e deixa uma
série de conseqüências que fazem repensar o processo de
desenvolvimento rural.
Apesar de
todos os avanços técnicos da agricultura moderna, ela ainda
continua a depender de processos e recursos naturais. E a
degradação dos recursos naturais podem inviabilizar os atuais
sistemas de produção agrícola, além de comprometer o uso para
gerações futuras.
Os sinais de
que o modelo de desenvolvimento rural se esgotou podem ser
constatados nos sistemas de produção agrícola, que carregam um
elevado grau de ineficiência energética e causam impactos
ambientais como a erosão dos solos, a poluição das águas e dos
solos por nitratos, fosfatos e agrotóxicos, a contaminação dos
agricultores e dos alimentos, a destruição das florestas, a
diminuição da biodiversidade e dos recursos genéticos e a
destruição dos recursos não renováveis.
Altieri,
citado por Ehlers (1996), diz que um ecossistema deve ser
considerado insustentável quando acusa:
·
redução da capacidade produtiva provocada por
erosão do solo ou contaminação dos mesmos por agrotóxicos;
a mecanização e uso do solo de forma intensiva propiciaram
condições para que o processo de erosão se acentuasse,
reduzisse os teores de matéria orgânica, tendo como
conseqüência a redução da fertilidade natural dos solos, da
produção e produtividade. Aqui os recursos naturais
representados pelo solo são induzidos a produzir
artificialmente, e com uso de tecnologias não apropriadas, de
forma intensa, acima da capacidade natural sustentável dos
mesmo. O ritmo de acumulação e exploração dos recursos
naturais, antes da modernização da produção, nas pequenas
propriedade familiares, era dado pela capacidade natural de
produção dos solos. Eram utilizadas técnicas naturais, como
adubação verde para melhorar de forma sustentável a produção.
A dimensão da produção de suínos, por exemplo, era dada pela
capacidade de produção de alimento para estes suínos, que por
sua vez dependia do potencial de produção dos solo,
naturalmente. Os sistemas de produção, tanto animais como
vegetais eram equilibrados, interdependentes, integrados e
sustentáveis.
Os
agrotóxicos colocados indiscriminadamente sobre as plantas,
animais e sobre o solo, são responsáveis pela poluição dos
recursos naturais, e em especial a água, como mostram estudos
no mundo inteiro. Os agrotóxicos substituíram métodos naturais
de controle de pragas e doenças, simplificaram a questão do
controle das pragas, desconsiderando a complexidade e o
potencial dos ecossistemas no equilíbrio do meio.
·
A redução da capacidade homeostática, tanto dos
mecanismos de controle de pragas como nos processos de
reciclagem de nutrientes,
é outro sinal de insustentabilidade. Como falamos
anteriormente, a visão simplificada e a desconsideração do
potencial tamponante do meio, fizeram com que o homem perdesse
um forte aliado na resolução dos problemas de controle de
pragas, doenças e reciclagem de nutrientes, além de torná-lo
dependente da agroquímica.
·
Um aspecto de insustentabilidade é a redução
da capacidade "evolutiva" do sistema, em função da erosão
genética ou da homogenização genética provocada pelas
monoculturas. Muito material genético, que vinha sendo
cultivado por pequenos agricultores ao longo do tempo, se
perdeu ou acabou nas mão das empresas melhoradoras, hoje,
protegidas pelas leis de patentes. No lugar dos materiais
genéticos heterogêneos entraram materiais híbridos, homogêneos
que tornaram os agricultores dependentes das empresas
produtoras. A biogenética torna os agricultores cada vez mais
dependentes do capital. Além de espécies para cultivo, o
processo de modernização fez com que ocorresse uma erosão de
espécies silvestres. Algumas foram apropriadas e patenteadas
por grandes empresas estrangeiras do ramo da farmacologia.
Assim podemos citar inúmeros casos. É importante que se frise
que junto com a erosão genética, vai uma parte da cultura, dos
costumes e tradições dos povos.
·
A redução da disponibilidade e qualidade de
recursos que atendam necessidades básicas (acesso à terra,
água, etc.)
é fator de insustentabilidade de um ecossistema.
A redução da
disponibilidade do fator terra, por exemplo, afeta a
sustentabilidade nos seus diversos aspectos. A pouca
disponibilidade de terra "obriga" o agricultor a usar de forma
intensiva o solo visando tirar dele sua sobrevivência. O uso
intensivo do solo, acima de sua capacidade, provoca seu
esgotamento. A pouca disponibilidade de terra pelas famílias
rurais impossibilita a obtenção de uma renda capaz de
satisfazer as necessidade básicas de forma digna. O
esgotamento dos recursos naturais, a impossibilidade de
investimentos para recuperação, o baixo retorno que a terra
dá, levam os agricultores à pobreza e miséria. O acesso
quantitativo e qualitativo aos recursos naturais determinam a
capacidade de acumulação dentro do sistema capitalista. A
escassez dos mesmo leva à insustentabilidade econômica, social
e ambiental. Neste sentido, a sustentabilidade do
desenvolvimento rural, passa pela reforma agrária, e pelo
acesso a outros recursos naturais como a água, por exemplo.
·
Altieri cita como último sinal de
insustentabilidade dos ecossistemas, a redução da
capacidade de utilização adequada dos recursos disponíveis,
principalmente devido ao emprego de tecnologias impróprias.
Há outros
sinais que apontam para a insustentabilidade da agricultura
moderna, principalmente no ambiente da agricultura familiar.
Um deles é que a modernização da agricultura não foi uma
escolha dos pequenos agricultores. Além de se inserirem de
forma marginal no processo, não tiveram possibilidade de
escolha de caminhos a seguir no processo de produção. O
sistema agrícola de produção familiar era diversificado,
atendia especificidades e diversidades regionais, com produção
quase auto-suficiente, pouco dependente de energia externa ao
sistema, equilibrado, onde o limite da produção era dado pela
capacidade de suporte dos recursos naturais e o aumento da
produtividade se dava pelos estímulos racionais ao meio. Este
sistema "atrasado" possuía um grau de autonomia elevado, de
baixo custo, e trazia consigo conhecimentos acumulados ao
longo do tempo, além de uma cultura que lhe dava suporte. A
modernização destruiu esta cultura e forma de produção, impôs
um padrão homogêneo de produção que está centrado nos
interesses do capital. Tornou o agricultor altamente
dependente de recursos externos à propriedade.
A renda
agrícola ao longo do processo de modernização caiu entre os
pequenos agricultores, levando ao empobrecimento e ao êxodo.
Caiu por dois motivos, primeiro porque o processo de produção,
dependente de recursos externos à propriedade, vai aumentando
gradualmente seus custos. E o segundo, porque a produtividade,
dependente basicamente de fatores externos à propriedade, não
se sustenta. Há uma queda de produtividade ao longo do tempo.
O crédito, a
assistência técnica e extensão rural, pública e privada e a
pesquisa, salvo alguns grupos de profissionais e instituições,
continuam apontando para o sentido da modernização irracional
da agricultura. Continua reproduzindo a lógica do
desenvolvimento rural e agrícola da modernização conservadora.
A palavra de ordem é a competitividade e qualidade, sem que se
discuta a fundo o sentido de competitividade, considerando os
balanços energéticos, as condições de produção de cada agente,
a diversidade ambiental, e o processo de produção ao longo do
tempo, em fim, se discuta o processo no seu sentido econômico,
social, e ambiental. O parâmetro qualidade é dado mais pela
estética e acabamento final, que pelo valor em si do produto,
computada aí a forma de produção, e as características
intrínsecas do produto, como valor nutritivo, sabor, textura e
outras.
Por último
achamos que o grande sinal da insustentabilidade do
desenvolvimento rural em vigor, é o fato de ele não admitir ou
ignorar a participação das pessoas, de modo especial os
pequenos agricultores, na discussão, formulação de propostas e
gestão social dos planos de desenvolvimento rural. Ele
obstaculiza o exercício da cidadania.
4
Desenvolvimento e sustentabilidade
Da crise do
desenvolvimento vigente nascem, como um movimento de revisão e
contestação, conceitos como os de desenvolvimento sustentável
e de agricultura sustentável.
O
desenvolvimento com a preocupação da sustentabilidade dos
sistemas econômico, social e ambiental, dá origem àquilo que
passou a se denominar de desenvolvimento sustentável.
A
preocupação com o desenvolvimento sustentável é um sinal claro
que o modelo de desenvolvimento vigente é insustentável ou
inadequado do ponto de vista econômico, social e ambiental. É
o reconhecimento de que os recursos naturais são limitados e
que o desenvolvimento deve trilhar um caminho de maior justiça
social.
Existem
muitas definições de "desenvolvimento sustentável" (DS), não
entraremos na discussão dos conceitos, mas alguns elementos
parecem estar presentes em todas as definições. O conceito
introduz a questão da sustentabilidade econômica, social e
ambiental.
Para Almeida
(1998) o debate sobre o DS está polarizado entre duas linha
básicas. De um lado o conceito/idéia como sendo gestada dentro
da esfera da economia e a partir dela é pensado o social.
Incorpora-se a natureza à cadeia de produção (a natureza passa
a ser um bem capital); e do outro a idéia que tenta quebrar a
hegemonia do discurso econômico e a expansão da esfera
econômica, indo além da visão instrumental, restrita, que a
economia impõe ao conceito.
Todos
concordam que o DS traduz anseios de que o desenvolvimento
concilie crescimento econômico e a conservação dos recursos
naturais, por um longo período de tempo. Para alguns o
desenvolvimento sustentável se dará pela simples mudança de
paradigma tecnológico. Para outros, dependerá de mudanças mais
amplas, que passam inclusive pela superação do industrialismo.
A concepção
"econômica" do desenvolvimento sustentável aponta para
mecanismos de mercado como solução para condicionar a produção
à capacidade de suporte dos recursos naturais, inclusive
aqueles de taxação de poluição. Vimos que os mecanismos de
mercado somente, não levam à sustentabilidade. Eles são
incapazes de realizar uma ação redistributiva no sentido de
preservar o meio, de distribuir os frutos do crescimento
econômico, em fim, eles não são capazes de se sobrepor à
lógica que promoveu a atual crise social e ambiental, eles
fazem parte dela.
A concepção
de um desenvolvimento sustentável que garanta a diversidade
democrática sinaliza para o sentido oposto da concepção
econômica colocada anteriormente. Dentro desta visão, as
decisões políticas da sociedade tem papel fundamental no
desenvolvimento sustentável. Almeida (1997), citando Carvalho,
diz que a economia não deve ser tomada como instituinte do
campo social, mas instituída por este; as alternativas para o
futuro são escolhas que devem fundar-se, fundamentalmente no
campo da política.
Esta linha
de concepção entende o desenvolvimento sustentável como
garantia da diversidade democrática, de autodeterminação dos
povos, de respeito à diversidade cultural, natural e
biológica, da participação nas suas diferentes formas, como
escolhas políticas, deslocando a racionalidade econômica para
o campo da ética.
Apesar
dessas linhas de pensamento, alguns pontos parecem ser
consensuais: o primeiro é a necessidade de se deter o consumo
excessivo dos países ricos e de uma minoria da população dos
países pobres; dada a não-sustentabilidade geral, a longo
prazo, de nossos atuais padrões de utilização de recursos, o
desenvolvimento qualitativo por parte dos ricos deve liberar
recursos para o crescimento urgente dos países pobres. Um
segundo aspecto de consenso é a necessidade de considerar as
metas ecológicas e econômicas como não conflitantes. Parte-se
do princípio de que o econômico não se sustenta, não sobrevive
sem os sistemas ecológicos que lhe dão sustentação. Há uma
complementaridade indissociável entre ambos. E um terceiro
ponto de convergência é que devemos subestimar e não
superestimar o poder da tecnologia.
A noção de
sustentabilidade, tomada como base para uma nova interpretação
dos processos econômicos, sociais e de equilíbrio dos
ecossistemas parece ser interessante, uma vez que, pode
remeter à sociedade a capacidade de produzir um novo
desenvolvimento, redimensionando suas relações com a natureza
e com os indivíduos.
Embora
Ehlers (1996) a considere um tanto imprecisa, apresentamos
como definição de desenvolvimento sustentável aquela
apresentada pelo relatório Brundtland. "A humanidade é capaz
de tornar o desenvolvimento sustentável, de garantir que ele
atenda às necessidades do presente sem comprometer a
capacidade de as gerações futuras atenderem as suas. O
conceito de desenvolvimento sustentável tem limites, não
limites absolutos, mas limitações impostas pelo estágio atual
da tecnologia e da organização social, no tocante aos recursos
ambientais, e pela capacidade de a biosfera absorver os
efeitos da atividade humana"
Apesar das
diferentes formas de ver o desenvolvimento sustentável,
algumas questões são importantes e consensuais. Primeiro é que
os países desenvolvidos devem reduzir o consumo de recursos
naturais, uma vez que são responsáveis pelo consumo de mais de
80% dos recursos naturais do planeta; um segundo ponto é que
os países pobres têm que crescer, distribuir renda para
satisfazer as necessidades, de forma digna, utilizando métodos
e tecnologias originais e adequadas de produção, dentro dos
diversos setores da economia, incluindo a agricultura; é
necessário que os frutos deste crescimento beneficiem a todos
os cidadãos dos países pobres; este crescimento, como já
fizemos menção, deve atentar para a preservação dos recursos
naturais, de modo que as gerações futuras também, possam
usufruir destes recursos.
Estes pontos
consensuais contemplam o aspecto econômico, o aspecto social,
e o aspecto do zelo pelo uso e preservação dos recursos
naturais.
- Sachs
(1998) analisa o desenvolvimento sustentável do ângulo do
ecodesenvolvimento. O ecodesenvolvimento é a abordagem do
desenvolvimento numa perspectiva ampla, que considera a
ecologia natural e a ecologia cultural. É sensível à
diversidade de situações. Considera os aspectos econômicos,
sociais e ambientais. Ele está assentado sobre o planejamento
participativo, equilibrado entre o poder de mercado, o Estado
e a sociedade civil. Busca a harmonização entre objetivos
econômicos, sociais e ambientais. Esta harmonização se dá
dentro da modulação da demanda social, ou seja no consumo em
seu sentido amplo e no estilo de vida, na escolha da função de
produção, ou seja a combinação de espaço, energia, recursos
naturais, tecnologias e trabalho humano; e ainda se dá também
pela gestão do ambiente visando a modulação de demanda e
oferta social.
O
ecodesenvolvimento se assenta sobre três pilares: o primeiro é
a autonomia de decisões e busca de um modelo endógeno de
desenvolvimento, próprio para cada cultura, para cada contexto
histórico e cada meio; o segundo pilar é a consideração das
necessidade de todos os homens e de cada homem, necessidades
materiais e imateriais, através do sentido da existência,
traduzidas num projeto; e o terceiro pilar é a prudência
ecológica. É a busca do desenvolvimento em sintonia com a
natureza.
Para se
atingir o ecodesenvolvimento são colocados alguns desafio como
a modificação do estilo de vida, que passa pela satisfação das
necessidades sociais, redução dos desperdícios e cuidados com
o meio ambiente; outro desafio é a redistribuição das
atividades econômicas para reduzir concentração da riqueza,
nas regiões e entre regiões; um terceiro desafio é a redução
dos gastos de energia e promoção de energia renovável; uma
quarto é a reciclagem dos recursos não-renováveis, gestão
ecológica dos recursos, conservação de recursos naturais como
a água, solo.e por fim, temos o planejamento local que deve
traduzir proposições concretas, que atendam as necessidades
reais das comunidades sem, no entanto, se isolar.
Sachs coloca
que todo o planejamento do desenvolvimento deve levar em conta
cinco dimensões de sustentabilidade:
a.
sustentabilidade social - entendido como
processo de desenvolvimento onde o crescimento está a serviço
da construção de uma civilização com maior equidade na
distribuição de renda e bens, de modo a reduzir as diferenças
entre ricos e pobres.
b.
Sustentabilidade econômica - possível através
da alocação mais eficiente dos recursos públicos e privados. A
eficiência econômica deve ser avaliada em termos macrossociais,
e não apenas através do critério da rentabilidade empresarial
de caráter microeconômico.
c.
sustentabilidade ecológica - é dada pela
capacidade de suporte dos ecossistemas, pela redução do uso
dos recurso não-renováveis, pela redução da emissão de
resíduos, pelo equilíbrio no consumo dos recursos naturais
entre países ricos e pobres, pela pesquisa de tecnologias
menos poluidoras, de baixo custo e eficientes, tanto para o
meio rural como para o meio urbano, e finalmente, ela é dada
pelas normas adequadas que visem a proteção do ambiente.
d.
Sustentabilidade espacial - dirigida para a
obtenção de uma configuração rural-urbana mais equilibrada e
uma melhor distribuição territorial dos assentamentos humanos
e das atividades econômicas.
e.
Sustentabilidade cultural - inclui a procura de
raízes endógenas de processos de modernização e de sistemas
agrícolas integrados, processos que busquem mudanças dentro da
continuidade cultural e que traduzam o conceito normativo de
ecodesenvolvimento em um conjunto de soluções específicas para
o local, o ecossistema, a cultura e a área.
5 A
sustentabilidade na agricultura
No caso
específico da agricultura, os sinais claros de degradação
ambiental e ineficiência energética dos sistemas produtivos,
levaram a repensar os fundamentos da moderna agricultura. Isso
envolveu pesquisadores e pessoas ligadas aos meio ambiente. A
pressão dos consumidores sobre o governo no sentido de zelar
pela qualidade e salubridade dos alimentos e preservação do
meio ambiente, deu mais consistência à luta.. Neste sentido,
além dos atores sociais já mencionados, as organizações não
governamentais tiveram papel importante. Isso ocorreu a partir
da segunda metade dos anos 80.
Evidentemente, que este movimento contrariava muitos
interesses, entre eles os das indústrias ligadas ao setor
agrícola, à montante e à jusante da agricultura. Este setores
começaram a pressionar e armar estratégias para combater o
movimento. Acusaram o movimento de pregar o retrocesso da
agricultura. Os que pregavam uma alternativa à agricultura
moderna contra argumentavam, tentando convencer a sociedade
que aquilo que se estava propondo era a "agricultura do
futuro". E que o modelo de agricultura desenvolvido, até
então, era insustentável do ponto de vista econômico, social e
ambiental. Era preciso buscar uma forma de agricultura
sustentável.
A chamada
agricultura sustentável, através de estudos realizados por
grupos de pesquisa no EUA, provou que os métodos alternativos
de produção são viáveis do ponto de vista econômico, garantem
bons níveis de produtividade e minimizam os danos ambientais.
Os estudos mostraram que as propriedades que utilizam métodos
alternativos de produção são eficientes, competitivas e podem
até superar as propriedades convencionais.
Deste
embate, algo de positivo ficou. A noção de sustentabilidade
passa a fazer parte dos meios agronômicos e se torna uma
espécie de objetivo comum, principalmente na sociedade
Americana e Européia, e depois se espalhou pelo mundo.
Embora haja
uma diversidade de definições a respeito de agricultura
sustentável, segundo Ehlers (1996), todas as definições
incorporam os seguintes itens: a manutenção a longo prazo dos
recursos naturais e da produtividade agrícola, o mínimo de
impactos adversos ao ambiente, retorno adequado aos
produtores, otimização da produção das culturas com mínimo de
insumos químicos, satisfação das necessidades humanas de
alimentos e de renda, atendimento das necessidades sociais das
famílias e das comunidades rurais.
A busca da
sustentabilidade na agricultura pode se dar de duas formas: a
primeira que é a dominante no meio técnico-científico e
econômico, aposta nos avanços da biotecnologia para superar as
barreiras biológicas impostas à produção agrícola. A
biotecnologia levaria ao aumento da produtividade e produção,
sem pressionar o ambiente. Esta forma de sustentabilidade está
assentada no mesmo paradigma da moderna agricultura. A segunda
forma, busca a sustentabilidade através da harmonização das
atividades agrícolas com as qualidades do meio. Esta forma se
contrapõe ao modelo químico-mecanizado. Este modelo,
preocupa-se com os aspectos tecnológicos e com os componentes
econômicos e sociais dos agroecossistemas. Este modelo dá
origem à agroecologia.
O
desenvolvimento rural dentro do enfoque da agroecologia aborda
os problemas rurais de forma sistêmica, considerando a
diversidade ambiental, a pressão demográfica, as relações
econômicas e as organizações sociais da região em questão.
As
estratégias de desenvolvimento rural da agroecologia
consideram como critérios de desempenho de programas, a
sustentabilidade ambiental, a equidade social, e também a
produtividade.
A
agricultura sustentável, dentro da ótica da agroecologia,
adota como princípio a menor dependência possível de insumos
externos e a conservação dos recursos naturais.
A
sustentabilidade da agricultura vai além do aspecto puramente
tecnológico, ou econômico. Ela necessita de uma nova
orientação dos padrões de organização sócio-econômica, técnica
e espacial do meio rural. Isso implica dizer que a
sustentabilidade da agricultura vai além do setor rural.
Para
Almeida, Cordeiro e Petersen (1996), a dimensão essencial,
estratégica da sustentabilidade está na criação de uma cultura
ecológica que penetre, motive e mobilize as instituições
encarregadas da elaboração da implantação das políticas
públicas, que seja igualmente incorporada pelas organizações
da sociedade civil e por outros agentes sócio-econômicos e
políticos, direta ou indiretamente relacionados com a
agricultura. Isso levará tempo. No entanto, é necessário que
se traduza, no curto prazo, em metas políticas e em pautas de
cooperação do Estado com a sociedade civil, no sentido de
reverter os paradigmas econômicos, técnico-científicos,
ideológicos, institucionais e políticos que dão sustentação ao
modelo da agricultura químico-mecanizada e ao mesmo tempo
criar condições para o aparecimento de um novo paradigma para
o desenvolvimento agrícola. É necessário também mudar a
concepção das políticas e programas setoriais.
A Construção
de um novo paradigma implica, necessariamente, na mudança da
ótica da pesquisa, do ensino em ciências agrárias, no
ajustamento das políticas macroeconômicas, agrícolas e
agrárias; em apoio efetivo da sociedade (governo, sociedade
civil) a um projeto de conversão da agricultura; na defesa,
restauração e fortalecimento da agricultura familiar; na
ênfase aos processos locais e regionais de desenvolvimento,
sem se isolar do contexto macro, com uma efetiva participação
da população na discussão, proposição, execução e gestão
social dos processos locais de desenvolvimento; e implica
também, na formação de uma consciência social crítica. Esta
mudança de paradigma requer ações de transição de curto e
médio prazo e requer a participação da sociedade através do
seu largo espectro de organizações.
6
Agricultura familiar, sustentabilidade e participação
Por uma
questão de justiça social, pois foi de certa forma alijada do
processo de modernização agrícola e do desenvolvimento global
do país, e porque a organização dos sistemas produtivos e a
lógica econômica da agricultura familiar induz a uma melhor
gestão dos recursos naturais, esta deve ser fortalecida e tida
como base social no processo de desenvolvimento rural dentro
de um novo paradigma. Este novo paradigma deve ser fundado na
sustentabilidade sócio-econômica, técnica e ambiental.
Almeida,
Cordeiro e Petersen (1996), colocam uma série de razões pelas
quais a agricultura familiar possibilita melhores condições de
sustentabilidade, desde que lhe sejam dadas condições:
·
a primeira é que por ser uma ocupação econômica
que combina a exploração familiar e a organização de
profissionais, ela incorpora uma estratégia de equilíbrio
entre parâmetros econômicos, sociais e ambientais;
·
o funcionamento econômico da agricultura
familiar não se fundamenta na maximização da rentabilidade do
capital e na geração de lucro no curto prazo, mas está
orientado para o atendimento das necessidades das famílias e
para a manutenção do potencial produtivo da terra, percebido
como um patrimônio;
·
a propriedade familiar é uma unidade de
produção e consumo, por este motivo ela valoriza a
diversidade, os policultivos, criações, distribuídos de forma
equilibrada no espaço e no tempo;
·
a unidade de produção familiar pela sua
extensão, pela organização do trabalho, favorece os cuidados
técnico nas operações de manejo, na medida em que é ela que
toma as decisões e também as coloca em prática;
·
a agricultura familiar mantém uma relação de
simbiose com a terra que ela conhece e controla. Ela valoriza
as potencialidades do meio implementando nele suas estratégias
de reprodução econômica.
·
Dentro da perspectiva ambiental, a agricultura
familiar favorece uma maior e melhor distribuição territorial
das atividades de exploração do meio, pela melhor
possibilidade de adaptação e circunscrição das mesmas a
unidades ecológicas mais definidas e homogêneas;
·
E por fim, a agricultura familiar é portadora
de grande eficácia coletiva. Através da pluriatividade ela
encoraja e favorece o planejamento, o desenvolvimento local e
a gestão coletiva dos recursos naturais, sua distribuição
eqüitativa e sua administração mais equilibrada e sustentada.
Pelas
características que a agricultura familiar apresenta, a
democratização do acesso aos recursos naturais, a terra, a
água e outros, bem como o fortalecimento da mesma, é uma
necessidade social e um fator de melhor gestão, conservação
dos recursos naturais, além prover uma melhor organização
econômica daquele ambiente, sempre dentro de uma perspectiva
de sustentabilidade.
É dentro
desta perspectiva também, que se justificam as políticas de
reforma agrária, as políticas diferenciadas para a agricultura
familiar. Esta políticas devem fazer parte de um projeto
maior, global de desenvolvimento sustentável. A agricultura
familiar não pode receber estímulos, dentro do velho paradigma
da modernização conservadora, com a finalidade de resolver ou
amenizar os problemas de desemprego urbano. Ela tem que ser
estimulada por uma questão de justiça social, equidade, além
dela representar a melhor opção em termos de sustentabilidade
econômica, social e ambiental.
E como
último aspecto deste trabalho, queremos chamar a atenção para
a questão da participação como um elemento fundamental da
sustentabilidade, tanto da agricultura como do processo de
desenvolvimento como um todo.
A
participação aqui deve ser entendida como um direito do
cidadão e um exercício à cidadania, e não como uma outorga de
espaço limitado dentro do processo de desenvolvimento, seja
rural ou global.
Quando se
faz menção à participação, estamos falando da possibilidade
concreta dos agricultores familiares poderem participar do
diagnóstico, da discussão, do planejamento, da execução, da
pesquisa, da gestão social dos programas e políticas e da
avaliação dos mesmos. Isso implica no desenho de metodologias
que permitam a produção conjunta do conhecimento aplicável ao
desenvolvimento.
A
capacitação dos agricultores familiares, bem como o
fortalecimento de suas instituições para o exercício da
participação, é um ponto fundamental para o avanço da
democracia social. Neste sentido é muito importante o
conhecimento , pelos agricultores familiares e suas
instituições, dos sistemas de tomada de decisão nas instâncias
local, regional, nacional e até internacional, para que possam
participar ativamente, influir nas políticas macroeconômicas,
e se articular com outros agentes sociais, visando a
elaboração de políticas setoriais e diferenciadas sustentáteis.
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