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Correntes demográficas
A existência de um problema
demográfico é quase unanimidade nos dias de hoje. Mas as
divergências sobre o sentido dos dados estatísticos, e,
sobretudo sobre os caminhos para um equacionamento, são
acentuadas. Há três grandes linhas de interpretação: uma,
neomalthusiana; outra, que acredita na auto-regulação; e
outra, de cunho católico, que conjuga auto-regulação e
intervenção sábia do ser humano. Esta última corrente não só
apresenta uma originalidade em sua gênese, como também na
análise dos fatos e na proposta de soluções. Ao mesmo tempo
em que apregoa a necessidade de um planejamento familiar e
de uma política demográfica, ela o faz com pressupostos
antropológicos e teológicos surpreendentes, conjugando o
respeito absoluto à vida em todas as suas formas e a
intervenção sábia do ser humano. Para esta última corrente
só há solução do problema demográfico se economia e política
trilharem outros caminhos, fundados na distribuição mais
justa dos recursos da terra e na solidariedade.
De
acordo com os números da ONU, a Terra já se aproxima dos 6
bilhões de habitantes, provavelmente este habitante de
número 6 bilhões nascerá num país pobre, com altas taxas de
natalidade. E em 2050 esse número poderá chegar a 9 bilhões
e 400 milhões. Por volta do ano 8.000 a.C. (antes de
Cristo), calcula-se, por meios estatísticos e científicos,
que a população mundial girava em torno de 5 milhões de
pessoas.
No ano de 1650 d.C. (depois de
Cristo), a população mundial atingia a cifra de 500 milhões.
Indicando que a população do planeta dobrava a cada 1500
anos. Passado mais 200 anos, isto é 1850, a população dobrou
chegando a 1 bilhão de pessoas. Passaram mais 80 anos,
dobrou novamente, em 1930, a população chegava aos 2
bilhões. Em 1975, isto é, 45 anos depois dobrava de novo,
chegando a 4 bilhões de pessoas, chegando ao ano 2000 com 6
bilhões de pessoas. É o que se pode chamar de crescimento
exponencial, ou explosão demográfica.
Este crescimento populacional
dos últimos séculos colocou em evidência Thomas Robert
Malthus (1766-1834), economista e sacerdote da igreja
anglicana do século XVIII, que ganhou celebridade com a
teoria (teoria malthusiana) exposta em "Um Ensaio Sobre o
Princípio da População", onde faz uma análise profunda a
respeito da explosão demográfica do Planeta, afirmando que
jamais teríamos uma sociedade feliz devido à tendência
(estatística) de que as populações sempre cresceriam mais
que os meios de sua subsistência. Segundo Malthus, a
produção de alimentos cresce em progressão aritmética e a
população em progressão geométrica, gerando fome e miséria
das grandes massas. A natureza corrige essa desproporção por
meio das guerras e epidemias, que reduzem a população.
Malthus recomenda ao governo antecipar-se à natureza negando
assistência social às populações.
-
Foi estabelecida por
Thomas Robert Malthus (1766-1834); estabelece que:
a população cresce geometricamente (2, 4, 8, 16, 32, 64,
128,…); a produção de alimentos cresce aritmeticamente
(2, 4, 6, 8, 10,...);
-
Conseqüência: morte
por fome;
-
Solução: só
procriam os mais aptos (os mais abastados
economicamente), que corresponde à teoria
segregacionista (ponto de vista socioeconômico).
No final do século XIX, as
teorias Malthusianas começaram a ser esquecidas. O
desenvolvimento da tecnologia agrícola aumentou o índice de
produção de alimentos, o avanço da medicina, as condições
econômicas e sociais dos países foram melhorando e as taxas
de natalidade foram caindo. Atualmente, todos os países
desenvolvidos apresentam níveis baixos de crescimento
vegetativo.
O que contribuiu para a
explosão demográfica nos países subdesenvolvidos a partir da
década de 50?
Até o fim da Segunda Guerra
Mundial, os países subdesenvolvidos apresentavam uma
dinâmica populacional equilibrada, similar a da Europa antes
da Revolução Industrial (século XVIII). As taxas de
natalidade eram elevadas (muitos nascimentos), mas as taxas
de mortalidade também eram elevadas (muitas mortes), que
resultava num crescimento vegetativo moderado (equilibrado).
Contudo, a partir de 1950(após a Segunda Guerra Mundial),
esses países subdesenvolvidos começaram a ser beneficiados,
por novos produtos e procedimentos obtidos nos países
desenvolvidos, com novos medicamentos, vacinas, programas de
prevenção de doenças, controle de doenças epidêmicas, etc,
fato este que colaborou para a redução das taxas de
mortalidade, logo resultando no crescimento da população,
que em 45 anos "pulou" de 2 bilhões para 4 bilhões.
Surgindo neste período a
preocupação com o crescimento populacional, fez surgir uma
nova teoria sobre o crescimento populacional. Essa nova
teoria defendida principalmente pelos países desenvolvidos
ficou conhecida como Teoria Neomalthusiana.
A Teoria Neomalthusiana
defendia a implantação de políticas de controle de
natalidade nos países subdesenvolvidos a partir da
utilização dos diversos métodos anticoncepcionais. Para os
neomalthusianos, o crescimento da população provocava o
atraso do crescimento econômico.
Em
oposição aos neomalthusianos surge a Teoria Reformista,
que afirmam: não é o crescimento da população que provoca
o atraso econômico, e sim o atraso econômico que provoca o
crescimento populacional. A situação social precária, a
miséria e a má distribuição de renda é que provocariam o
atraso econômico.
A
única possibilidade de controlar o crescimento populacional
seria realizar reformas sociais e econômicas que
possibilitassem uma melhor distribuição de recursos e a
conseqüente elevação do nível de vida da população. Com
melhor nível de vida as populações estariam mais instruídas
para o controle da natalidade. Uma família deve, por si
própria, decidir o número de filhos de acordo com seus
desejos e suas possibilidades financeiras.
A
favor da teoria dos reformistas está o fato de que na
maioria dos países desenvolvidos não houve a aplicação de
nenhuma lei para o controle de natalidade - as taxas
diminuíram naturalmente à medida que o padrão econômico e
social da população melhorou.
Desde a década de 30 até a
década de 60, o governo brasileiro desenvolveu uma política
demográfica nitidamente populacionista.
A
Constituição de 1934 foi a primeira a explicitar essa
política populacionista. Ela atribuía ao Estado a
incumbência de socorrer as famílias de prole numerosa.
A Constituição de 1937 avançou ainda mais, ao afirmar que
"às famílias numerosas serão atribuídas compensações na
proporção de seus encargos".
Em 1941, no governo Getúlio
Vargas, foi criado um decreto-lei que obrigava as pessoas
solteiras ou viúvas, maiores de 25 anos, a pagar um
adicional de 1% sobre o imposto de renda devido.
Na Constituição de 1946, o
artigo 164 assegurava o amparo às famílias de prole
numerosa. Os pais que tivessem mais de 6 filhos tinham
direito a um abono especial.
A crescente necessidade de
mão-de-obra (numerosa e barata), para sustentar o
desenvolvimento industrial, e a preocupação do governo em
povoar os vazios demográficos do interior do país
(Centro-Oeste e Amazônia) serviram de estímulo permanente à
política natalista ou populacionista. Nos anos 60, foram
criados o auxílio-natalidade (1960) e o salário-família
(1963).
·
Auxílio-natalidade: pagamento de um salário mínimo, aos
pais, quando do nascimento de um filho.
·
Salário-família: pagamento mensal de 5% do salário
mínimo local, para cada filho, até os 14 anos de idade.
Foi essa política demográfica
natalista que, somada à situação de pobreza e ignorância da
população e ajudada pela redução das taxas de mortalidade,
produziu a maior explosão demográfica do mundo.
Esses dois benefícios continuam em vigor, porém com seus
valores originais alterados. No caso, por exemplo, do
salário-família: em 1995 quem ganhava até 249,80 reais
por mês, recebia 6,66 reais de salário-família por
filho; mas quem ganhava mais de 249,80 reais ficava com
83 centavos por filho.
A preocupação com o
crescimento populacional não é de hoje. Está presente desde
os primórdios da humanidade. Só que, enquanto num passado
não muito distante ela se configurava no sentido de se obter
uma aceleração, em períodos mais recentes ela aponta
exatamente no sentido inverso. Quando Malthus, em 1789,
publicou seu conhecido Essay on the Principles of
Population já se podia detectar uma fundada inquietação,
mas em setores relativamente pequenos da sociedade, e ainda
assim menos dramática. A preocupação generalizada e mais
aguda, contudo, só se faz presente nos últimos cinqüenta
anos. Hoje, a ruptura do equilíbrio natural, conhecido em
outras épocas, carrega consigo muitas e graves inquietações
para todos. Assim mesmo, porém, esta consciência quase
unânime sobre o fato esconde acentuadas divergências.
Estas já despontam no próprio diagnóstico; acentuam-se na
hora da interpretação; atingem seu ápice no momento em que
pedem um equacionamento.
1. Fato reconhecido por
todos: existe um problema
O reconhecimento da existência
de um grave problema demográfico vem fundamentado por
números e índices inquestionáveis: a população cresce
aceleradamente, trazendo em seu bojo inúmeros problemas
relacionados com a alimentação, habitação, educação, saúde,
ecologia, qualidade de vida, etc. A questão se torna
mais angustiante nas grandes concentrações urbanas,
principalmente nas denominadas megalópoles, por sinal já bem
numerosas: elas se encontram diante de impasses estruturais
praticamente insolúveis, mesmo quando situadas em nações
desenvolvidas. O problema se torna evidente em termos de
regiões e camadas pobres: é nelas que a aceleração se torna
inegável e os problemas são detectáveis a olho nu.
Entretanto, um olhar mais
cuidadoso faz perceber que o problema não é regionalizado,
mas sim que nos encontramos diante de um desafio planetário:
vivemos cada vez mais num mundo sem fronteiras,
caracterizado por grande mobilidade populacional e pela
repercussão imediata sobre todos, mesmo no caso de desafios
aparentemente regionais. A globalização é um fato em todos
os sentidos, sobretudo no que se refere aos aspectos
negativos: tudo hoje é gigantesco para todos.
Se é compreensível a
sensibilidade de organismos internacionais, quase sempre
originários e sediados no Primeiro Mundo, a assertiva de uma
sensibilidade manifesta pelas religiões, mormente a
Católica, pode parecer surpreendente. Com freqüência, a
Igreja Católica e a concepção ética por ela veiculada
parecem andar na contramão: elas pareceriam ignorar o
problema demográfico e se oporiam, sistematicamente, a
qualquer tipo de planejamento familiar e, mais ainda, a
qualquer política demográfica. É o que teria ficado, uma vez
mais, claro na recente Conferência Mundial sobre "População
e Desenvolvimento", realizada no Cairo. Ao menos à primeira
vista, estaríamos diante de uma falta de consciência da
gravidade dos problemas demográficos e de uma recusa
sistemática na busca de soluções.
Contudo, pelo menos a partir
da década de 60, sucessivos documentos oficiais oriundos das
mais altas instâncias hierárquicas da Igreja Católica, como
a Mater et Magistra, Gaudium et Spes, Populorum
Progressio, não deixam margem para dúvidas: por um lado,
reconhecem claramente a existência de um problema; por
outro, se negam a compartilhar tanto dos diagnósticos quanto
dos caminhos de solução normalmente pleiteados. Assim se
percebe que as verdadeiras questões éticas se localizam mais
na interpretação de dados aparentemente objetivos e,
conseqüentemente, nos caminhos tidos como naturais de
equacionamento.
2. Dificuldade: em que
consiste o problema?
Nesta altura ninguém ousaria
negar a qualidade científica da demografia. Como qualquer
outra ciência, ela merece credibilidade. Contudo,
paradoxalmente, os dados científicos geram uma série de
questões que vão levar a diagnósticos e a buscas de
equacionamento bem diferente.
2.1. Os senões inerentes à
demografia como ciência
A demografia é uma ciência
humana, e não uma ciência exata. Se é verdade que nem
mesmo as ciências denominadas de "exatas" conseguem escapar
totalmente das coordenadas ideológicas, isto vale muito mais
para as ciências humanas. Elas nunca são totalmente
objetivas, seja por passarem, forçosamente, por um
sujeito, individual ou social, seja pelo seu próprio
objeto, que é o ser humano em suas diversificadas
concretizações históricas e culturais. Reconhecidamente, até
em países desenvolvidos, a coleta de dados tem sempre
implícita uma certa precariedade: quem garante que os
entrevistados estejam fornecendo respostas objetivas? A
desconfiança de uma significativa parcela da população no
que se refere a enquetes é bem conhecida já desde os
recenseamentos do Império Romano.
Mas existem ao menos três
outros ângulos a serem considerados e que relativizam a
objetividade de dados demográficos: as inerentes projeções
para o futuro, a diversidade de situações e a hermenêutica
dos eventuais fatos. No que se refere a projeções, elas só
podem contar com as constantes, enquanto a realidade humana
se caracteriza por uma série de variáveis de ordem
histórico-cultural que, de alguma forma, constituem algo de
"imponderável". Para verificar esta assertiva basta pensar
numa tendência, relativamente recente, de retardar o
nascimento dos filhos. Enquanto num passado não muito
distante ter logo filhos, e preferivelmente uma família
numerosa, era motivo de orgulho, atualmente, em muitos
setores isto é considerado como manifestação de
irresponsabilidade. E, de qualquer forma, as estatísticas
não podem apreender as "ondas" de cunho mais ou menos
ideológico que emergem e desaparecem rapidamente, mas que
influem decisivamente no comportamento humano: o que é
moderno hoje torna-se facilmente antiquado amanhã.
Acrescentem-se a isto conjunturas sócio-econômicas e
políticas, que também mudam com freqüência, e se perceberá
que fazer projeções demográficas, ainda que seja algo
necessário, comporta sempre um risco.
Ao se falar genericamente de
problema demográfico, pode-se oferecer a impressão de que
ele se concretiza mais ou menos da mesma forma, em toda
parte. Se é verdade que ele desponta em toda parte, não é
menos verdade que ele aponta para realidades diferentes, e
por vezes até opostas. Com efeito, no contexto do Terceiro
Mundo e das regiões mais pobres, ele aponta tanto para o
excesso de população quanto para o acelerado índice de
crescimento; já no contexto do Primeiro Mundo ele aponta
para o envelhecimento da população resultante do
significativo aumento da média de vida e os reduzidos
índices de nascimento. Por aí já se percebe que a verdadeira
questão se localiza no nível hermenêutico.
2.2. As diversas
interpretações possíveis
Poderíamos dizer que existem
ao menos três grandes correntes hermenêuticas que tentam
interpretar os dados demográficos: as de cunho malthusiano e
neomalthusiano; as que acentuam mecanismos auto-reguladores
e as que conjugam auto-regulação e exigência de uma
redefinição histórica no modo de se entender e de se
estruturar as sociedades humanas.
Sabidamente, as hermenêuticas
alarmistas, que só falam em termos de "explosão
demográfica", não remontam ao próprio Malthus, mas aos
neomalthusianos. Malthus foi um fervoroso pastor
protestante, pai de prole numerosa e de concepção ética que
hoje seria denominada como moralizante. Apesar de sua
conhecida tese de progressão geométrica da população,
contraposta à progressão aritmética da alimentação, nunca
propugnou métodos que hoje se alinhariam entre os
contraceptivos: suas teses apontam muito mais para o
autocontrole das pessoas e do casal. Já os neomalthusianos,
liderados por Margareth Sanger, desde o início se
caracterizaram por diagnósticos alarmistas e por apregoar
medidas restritivas drásticas, que pouco levam em
consideração o prisma ético.
Os partidários da
auto-regulação, entre os quais se destacou Josué de Castro,
partem do desmentido histórico da tese de Malthus, bem como
de uma concepção histórico-antropológica, para garantir
diagnósticos menos dramáticos e equacionamentos menos
drásticos. Para eles, com a demografia sucede algo parecido
ao que ocorre em relação ao crescimento da pessoa humana: há
momentos de aceleração, desaceleração e estabilização. Os
fatores mais determinantes são os alimentares e os
socioculturais. Esta intuição talvez pudesse ser hoje
traduzida como "desenvolvimento integral". Este seria o
melhor contraceptivo e o melhor caminho para o
equacionamento do problema demográfico. Particularmente no
que se refere à reprodução das populações pobres, é
necessário tomar como ponto de partida outro postulado: os
pobres não são pobres porque se multiplicam tanto e tão
rapidamente, mas se multiplicam tanto e tão rapidamente
porque são pobres.
Desta forma, a terceira
corrente hermenêutica, sintonizada com a concepção ética da
Igreja Católica, mostra certa semelhança com a anterior, mas
opõe-se totalmente ao neomalthusianismo. Entretanto, esta
terceira hermenêutica apresenta traços bem originais e um
pouco mais complexos. Ela se funda em pressupostos ao mesmo
tempo antropológicos e teológicos, pouco conhecidos do
grande público. Daí a conveniência de se proceder a uma
análise mais cuidadosa.
3. Leitura e solução
originais
Não por acaso existem leituras
e posturas diferentes de uma mesma realidade. Elas se
originam de pressupostos antropológicos e éticos diferentes.
É na linha dos pressupostos que se configura a originalidade
intrigante da ética de cunho católico.
3.1. Três pressupostos que
geram uma concepção diferente
Três são os pressupostos que
sustentam o posicionamento ético da Igreja Católica no que
tange à transmissão da vida e, conseqüentemente, à questão
demográfica: o da origem divina de todas as coisas; o do ser
humano constituído à imagem e semelhança de Deus; e o da
administração de todas as coisas, a ser sabiamente efetuada
pelo ser humano, em consonância com planos divinos.
De uma forma ou outra, todas
as correntes éticas acenam, mais ou menos explicitamente,
para Alguém, ou algo, que transcende a razão humana na sua
imediatez. Isto se evidencia desde as primeiras elaborações
éticas, oriundas do mundo grego. O próprio termo ethos
já se reveste de um sabor transcendente: é uma reverência
que, embora escondida, sustenta toda normatividade, ao mesmo
tempo que ultrapassa toda norma concreta. A crença numa
origem divina aponta para uma sabedoria que norteia todas as
coisas. Nada surgiu por acaso, nem sem destino. Por isso
mesmo não cabe à ética criar o que não existe, mas desvelar
o criado e as normas a ela subjacentes. Isto vale sobretudo
quando se aborda a transmissão da vida humana e a construção
da sociedade. Trata-se de tarefa difícil, uma vez que
ninguém pode falar de Deus e de seus planos senão por meio
de mediações humanas. Mas se estes existem, então é somente
por meio do seu penoso desvelamento que poderemos trilhar um
caminho verdadeiramente humano.
Da crença de que tudo revela
uma face de Deus decorre o respeito à vida em todas as suas
expressões e em todos os momentos. Para a ética cristã a
capacidade de transmitir a vida humana é algo que se coloca
na linha de um dom extraordinário. Daí a conseqüente e
inegociável atitude de reverência diante do milagre da vida,
em todas as suas múltiplas formas, que se renova
constantemente.
A convicção de que cabe ao ser
humano administrar sabiamente tudo o que existe nos
distancia de concepções deterministas e providencialistas na
construção do mundo e da história. O que se pressupõe é uma
criatividade quase divina, na qual o ser humano é o primeiro
protagonista. Só que para administrar sabiamente todo o
criado pressupõe-se que este ser humano assuma sua condição
criatural, não se considerando senhor ou senhora, mas irmão
e irmã; não dono, mas exatamente apenas administrador. Está
claro que a administração sábia não exclui, mas pressupõe as
ciências e a tecnologia, pois é por meio delas que se
consegue penetrar mais profundamente nos segredos da Criação
e administrá-la com sabedoria.
3.2. "Sim" ao planejamento
e "sim" à política demográfica
Entretanto, os grandes
desafios nesta tarefa não se encontram fora, e sim dentro do
ser humano. Pois nele se concentram todas as
potencialidades, como também todas as contradições
encontradas no mundo circunstante. Conhecer-se a si mesmo,
descobrir os segredos da existência, desentranhar os
caminhos da realização pessoal e social é uma tarefa
primeira, pois a administração sábia do universo está a ela
intimamente vinculada. E aqui emerge mais claramente o
porquê das preocupações éticas da Igreja com referência à
transmissão da vida humana e à demografia: é neste nível que
ocorre o teste mais decisivo de atitude de busca humilde
para desvendar e administrar sabiamente os mistérios da
vida, ou atitude de prepotência, que leva à desumanização.
Infelizmente, quando se trata
de planejamento familiar, além de não se ter presente este
amplo quadro de pressupostos antropológicos e éticos, em
geral se tem uma compreensão empobrecida do posicionamento
teológico católico. Sem mais rodeios, é preciso deixar claro
que o que caracteriza este posicionamento não é o "não", mas
o "sim": "sim" ao amor profundo e humanizante; "sim" à vida
a dois assumida com senso de responsabilidade; "sim" à
política demográfica; "sim" ao planejamento familiar. Os
últimos dois "sim" podem parecer surpreendentes, mas nem por
isso são menos claros e menos categóricos.
Entretanto, a bem da verdade,
é preciso deixar claro que não é qualquer tipo de controle
da natalidade em nível pessoal que merece o nome de
planejamento familiar. Este não se coloca simplesmente em
nível dos métodos, mas de posturas de vida. O centro das
preocupações neste particular aponta muito mais para uma
concepção de vida, de sexualidade, de relacionamento humano,
de produção e distribuição dos recursos humanos. E é a
partir de uma inegociável atitude de reverência diante do
mistério da vida, particularmente da vida humana e do
estreito vínculo entre amor e transmissão da vida, que se
compreende este posicionamento aparentemente contraditório:
"sim" ao planejamento familiar e "não" à contracepção. O ser
"contra" é decorrência lógica de um ser "a favor" de uma
atitude básica, sem a qual se esvai a dignidade humana e a
nitidez de sua grandiosa tarefa. Uma coisa é planejar,
por meio de um mais profundo conhecimento dos mecanismos da
vida; outra é guiar-se por uma mentalidade contraceptiva,
onde a transmissão da vida emerge como uma ameaça às pessoas
e à sociedade.
Também não é qualquer tipo de
controle populacional que merece o nome de política
demográfica. Assim, não estamos diante de uma verdadeira
política demográfica quando, por medidas arbitrariamente
restritivas, se consagra o status quo de gritantes
desigualdades em todos os níveis. Igualmente, não se trata
de política demográfica quando as nações e as camadas mais
privilegiadas impõem ideologicamente um controle sobre as
multidões empobrecidas, controle que se constitui no
carro-chefe da dominação nos níveis político, econômico e
cultural. A verdadeira política demográfica consiste no que
se denomina de promoção humana integral, com os conseqüentes
desdobramentos nos níveis alimentar, habitacional e
educacional, decorrentes de uma distribuição mais adequada
de todos os recursos humanos. Assim, a política demográfica
tem tudo a ver com a justiça, e muito a ver com o "holismo"
apregoado para outros campos.
3.3. O equacionamento exige
mudanças radicais
Neste contexto é necessário
acentuar, com todas as letras, que nem a ética nem a Igreja
Católica têm métodos de planejamento familiar. Estes são
científicos. Como também não têm soluções mágicas para o
problema demográfico. Mas, certamente, elas pressupõem
mudanças de concepções de vida e outra rota para a
construção de uma sociedade mais humana. A insistência sobre
atitudes de vida é uma decorrência lógica do já
anteriormente explicitado. Além disso, por mais estranho que
este posicionamento possa parecer, o que mais surpreende é
que grande parte da sociedade não perceba a contradição na
qual ela mesma se envolve: adere, com entusiasmo, à nova
consciência ecológica; adere, com o mesmo entusiasmo, à
pró-biótica, à alimentação natural, à medicina alternativa,
e ao mesmo tempo se nega a admitir sequer uma hipótese
semelhante quando se trata da transmissão da vida. Afirmar
que a natureza é detentora de recursos surpreendentes, que
devem ser administrados, não contradiz em nada a seriedade
científica. Pelo contrário, as ciências sempre avançaram na
exata medida em que ousaram ultrapassar as evidências de uma
época. Já bem diziam os gregos antigos que a identidade
profunda dos seres se esconde por trás das aparências. E só
atinge a sabedoria da vida quem é capaz de romper as
barreiras das aparências e evidências, particularmente
quando estas são trabalhadas ideologicamente.
Distanciada do
providencialismo simplista, contudo, esta corrente vai
acentuar a necessidade de uma intervenção humana, no sentido
de uma reestruturação histórica da sociedade e de alguns de
seus pressupostos correntes, seja em termos econômicos seja
em termos políticos. Se é verdade que a terra é
suficientemente generosa para suprir as necessidades básicas
de todos, certamente ela é incapaz de corresponder à
voracidade do consumismo das chamadas sociedades avançadas.
Da mesma forma, é evidente que, na medida em que a maior
parte dos recursos forem canalizados para a fabricação de
armamentos, eles serão insuficientes para responder a um
padrão de vida digno para todos. Assim, o desperdício, o
luxo e o armamentismo são os fatores mais determinantes para
inviabilizar qualquer solução humana do problema
demográfico.
É muito difícil chegar a uma
conclusão quando a questão é demografia. Ninguém é tão
ingênuo para não perceber que estamos diante de uma questão
muito complexa, com inúmeros ângulos diferentes. Afinal,
tanto o problema demográfico como o ecológico não são
meramente setoriais. São expressões setoriais do problema
global da humanização dos seres humanos e de todo o
universo. Com certeza a ética, sozinha, não conseguirá
viabilizar um equacionamento adequado. Mas, também, com
certeza sem a ética não iremos muito longe. Pelo contrário,
estaremos trilhando o caminho de uma ainda maior
desumanização. Alguns pressupostos éticos básicos, assumidos
por todos, independentemente de crenças religiosas, são o
único ponto de partida que nos acena para um futuro melhor
para todos.
FRANCO, Roberto Carlos; MAGALHÃES, Soraia Fernadez;
Geografia; Ed. Frase; 1º edição-2001; pág.106/107.
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