Deslocamento compulsório
da população indígena
Neste trabalho, abordo o deslocamento
compulsório, em 1987, de aproximadamente um terço do total da
população indígena Waimiri-Atroari para outras partes da
Reserva Indígena, em conseqüência da inundação de uma grande
extensão do seu território provocada pelo fechamento das
comportas da Usina Hidrelétrica de Balbina.
Passo a examiná-lo, brevemente, a partir de uma
reflexão mais ampla sobre a política indigenista do Programa
Waimiri-Atroari (convênio FUNAI/ELETRONORTE) - PWAIFE, que vem
impedindo, aos antropólogos independentes dos seus quadros, o
acompanhamento deste processo.
Na década de 1970, iniciaram-se as obras de
construção da UHE Balbina, próxima à Cachoeira Balbina no rio
Uatumã. A área desapropriada em 19812, quando as obras da
barragem já estavam adiantadas, abrange o então projetado
reservatório da UHE Balbina e a sua área de influência, que
atingiu toda a rede hídrica do rio Uatumã e Igarapé Santo
Antônio do Abonari. No mesmo ano, manipulações cartográficas
foram realizadas pela Paranapanema (Baines 1991b, 1991c) que
mudaram o curso superior do rio Uatumã para o sudoeste e
rebatizaram o antigo alto rio Uatumã como "Pitinga", com a
finalidade de "legalizar" o desmembramento de uma área de
aproximadamente 526.800 hectares da então Reserva Indígena
Waimiri-Atroari. A Reserva Indígena foi desfeita e redefinida
pelo Decreto Presidencial No.86.630 de 23.11.81, desmembrando
justamente a área previamente invadida por empresas
mineradoras do Grupo Paranapanema junto com uma vasta extensão
do território indígena a ser inundada posteriormente pelo
reservatório da UHE Balbina.
A partir de 1987, o Programa Waimiri-Atroari
(convênio FUNAI/ELETRONORTE) - PWAIFE, substituiu a Frente de
Atração Waimiri-Atroari (FAWA) da FUNAI (1970-1987), passando
a dirigir a política indigenista nesta área. O Programa
Waimiri-Atroari (PWAIFE), financiado pela ELETRONORTE, tem
previsão para 25 anos de duração. Partiu da decisão para a
construção da Usina Hidrelétrica de Balbina, sem consultar
anteriormente a população Waimiri-Atroari. O Programa de
assistência (Termo de Compromisso Nº. 002/87, de 3/4/1987,
entre a FUNAI e a ELETRONORTE), "objetivando a implantação de
programa de apoio às comunidades indígenas Waimiri-Atroari, em
vista da inundação de parte de suas terras imemoriais pela -
UHE Balbina", foi criado na fase final das obras da barragem e
poucos meses antes do fechamento das comportas em outubro de
1987, o que resultou na inundação de uma área de cerca de
2928,5 km2 (Mapa da Influência Antrópica da Hidrelétrica de
Balbina, CSR, IBAMA, Brasília, 1992).
Toda a área inundada fazia parte do território
dos Waimiri-Atroari até o início da década de 1970, e cerca de
311 km2 da área inundada estão dentro do território que foi
demarcado para os Waimiri-Atroari depois do desmembramento de
1981. Todos os afluentes dos rios Uatumã e Abonari tornaram-se
inabitáveis, com a putrefação da floresta submersa. Assim, o
atual PWAIFE oferece uma infra-estrutura assistencial
subordinada ao fato consumado da inundação de uma parte do
território indígena e modificação irreversível do ambiente.
Eduardo Viveiros de Castro & Lúcia M.M. de Andrade afirmam que
estas "medidas paliativas e tardias, de caráter cosmético,
tomadas quando todas as decisões referentes à obra já foram
efetuadas" são usadas para criar "uma falsa idéia de
`participação'" (1988:16).
A ELETRONORTE junto com a FUNAI realizaram,
tardiamente, o deslocamento dos aldeamentos de Tobypyna (Abonari)
e Taquari para os locais denominados Samaúma e Munawa
(rebatizado Taquari) respectivamente, pouco antes que as
comportas da UHE Balbina foram fechadas em outubro de 1986.
Como mostra Márcio Ferreira da Silva (UNICAMP), que realizou
pesquisas antropológicas junto aos Waimiri-Atroari em 1987
(1993:14) para a sua tese de doutorado, e cuja pesquisa na
área foi (como a minha) interrompida, a mudança da população
Waimiri-Atroari de Tobypyna, no Igarapé Santo Antônio do
Abonari, para o "médio Curiaú, escolhida pelos então
indigenistas do Programa Waimiri-Atroari (PWA), causou uma
série de constrangimentos políticos" (Silva 1993:35).
Referindo-se às transferências em conseqüência
da inundação do reservatório da UHE Balbina, Silva observa que
A `teoria
oficial' ... que postula a distinção de duas `etnias', os `Waimiri'
e os `Atroari' desempenhou um papel predominante no episódio.
Agentes do truculento Programa Waimiri-Atroari da FUNAI/ELETRONORTE
... procuraram defender a transferência do grupo para a região
escolhida no médio Curiaú com base no fato de que se tratava
de um grupo `Waimiri' que iria, a final, para a vizinhança de
outros grupos `Waimiri' (Silva, 1993:161, nota 29).
Silva
adverte para os perigos de uma "teoria oficial" criada por uma
instituição com dimensões e poderes empresariais como o PWAIFE.
Revela que argumentos baseados em critérios raciais como
diferenças de estatura, compleição física e tonalidade de
pele, foram defendidos pelo próprio supervisor do PWAIFE, como
evidências da distinção entre "Waimiri" e "Atroari"3,
acrescentando que: "Esta hipótese não mereceria maiores
atenções aqui se não tivesse adquirido, como disse há pouco, o
estatuto de uma `teoria oficial'" .
Continuam Viveiros de Castro & Andrade: "Até
abril de 1987 - faltando apenas sete meses para o represamento
do rio - não existia qualquer plano de transferência dos
grupos que terão as aldeias inundadas (Ibid. p.17)". Apontam
alguns dos problemas do deslocamento dos grupos para o
interior da reserva indígena, já ocupado por outras aldeias, e
as conseqüências políticas e econômicas (Ibid. p.17), e
ressaltam os "prejuízos que, repetimos, não são indenizáveis
em dinheiro ou programa de apoio" (Ibid. p.17). Torna-se
evidente que a indenização nos termos atuais, de um Programa
assistencial de somente 25 anos de duração é absolutamente
inadequada.
Além disso, a política do PWAIFE revela que os
deslocamentos dos Waimiri- Atroari fazem parte de uma atuação
autoritária de controle e de co-optação que a sua
administração exerce sobre os índios (Baines 1993a; 1993b).
Sua atuação indigenista encaixa-se nos padrões apontados por
João Pacheco de Oliveira (1990) para a região norte da
Amazônia desde a implantação do Projeto Calha Norte,
demonstrando estreitos laços com a política desenvolvimentista
do Estado, política articulada com os interesses de grandes
empresas estatais e privadas. Isso fica evidente pelo fato do
próprio gerente do PWAIFE, ter assinado, entre 1986 e 1989,
como testemunha, vários "Termos de Compromisso" entre a
Mineração Taboca (do Grupo Paranapanema) e alguns Waimiri-
Atroari, de natureza extremamente desigual, favorecendo a
empresa mineradora, além de uma "Declaração" firmada por cinco
capitães Waimiri-Atroari em 15.05.87 e as correspondências
entre a FUNAI e a empresa datadas de junho de 1989, abrindo
toda a área indígena dos Waimiri-Atroari à exploração mineral
exclusivamente pela Paranapanema..
Entretanto, a própria redação do documento e a
assimetria da proposta revelam que os capitães Waimiri-Atroari
que o assinaram não foram informados adequadamente das
conseqüências desastrosas para a sobrevivência do seu grupo
étnico, já ameaçada por invasões recentes da mesma empresa, do
avanço de mineradoras sobre o restante do seu território.
Revela, ao contrário, que os capitães foram aliciados por
pressões empresariais articuladas por funcionários do PWAIFE.
Os capitães vêm sendo incentivados a aceitar o serviço fiel à
administração como garantia de privilégios, um acesso desigual
a bens manufaturados, e status.
Apesar destes "Termos de Compromisso" entre a
Paranapanema e os Waimiri- Atroari haverem sido invalidados, o
processo de co-optação desencadeado entre os líderes
Waimiri-Atroari estabeleceu uma precedência no sentido de
prepará-los para as intenções da Paranapanema em estabelecer
acordos diretos entre a empresa e estes líderes. Isso, assim
que for concluída a legislação, atualmente em elaboração, que
regulamenta a lavra mecanizada por empresas mineradoras
privadas em áreas indígenas.
O PWAIFE recorreu à manipulação de informações
caluniosas a respeito da minha pesquisa antropológica, junto
aos próprios Waimiri-Atroari, para criar uma atitude negativa
quanto à minha presença na área. Há de se lembrar, também, que
no mesmo dia em que o gerente do PWAIFE programou a minha ida
à área, no pretexto de uma "reunião de consulta" com os
Waimiri-Atroari, mas na verdade, para me "expulsar" sob
acusações de ser "ligado a interesses contrários ao
desenvolvimento da comunidade indígena Waimiri-Atroari", o
mesmo gerente assinou, como testemunha, junto com alguns
Waimiri- Atroari e o então superintendente da FUNAI, mais um
"Termo de Compromisso" com a Paranapanema.
Apesar dos impedimentos à continuidade de
pesquisas antropológicas iniciadas antes da instalação do
PWAIFE, a administração indigenista vem adotando uma política
de seletivamente proibir ou permitir pesquisas antropológicas
conforme os seus próprios critérios. O PWAIFE autorizou a
realização de algumas pesquisas que não examinaram a política
indigenista na área, apresentando-as para os Waimiri-Atroari
como de interesse tanto para os índios como para o PWAIFE (uma
pesquisa etno-botânica junto aos Waimiri- Atroari e outra
pesquisa antropológica sobre medicina indígena), procurando um
aval legitimador científico para a sua atuação.
O Termo de Compromisso No. 002/87, que criou o
PWAIFE, incluiu o deslocamento de quatro "capitães"
Waimiri-Atroari, em abril de 1987, à Usina Hidrelétrica de
Tucuruí "para terem conhecimento real do que significará a
inundação..." Considerando que as obras da UHE Balbina estavam
adiantadas, o deslocamento serviu para convencer os Waimiri-
Atroari a aceitar um fato consumado, e da inutilidade de
resistir à invasão do seu território, além de aumentar o
prestígio destes capitães perante os outros índios como
porta-vozes indígenas da administração.
A população do aldeamento de Tobypyna foi
relocada, via Manaus, para a bacia do rio Curiuaú, enquanto a
população do aldeamento de Taquari foi relocada pelo PWAIFE
para um local num igarapé afluente do médio rio Alalaú, a
poucos quilômetros da estrada BR- 174. Neste local, o
desmatamento foi feito, apressadamente, com tratores, e uma
habitação comunal foi construída em cima de um alicerce de
cimento planejado por indigenistas do PWAIFE. Como na época da
FAWA, seguia-se a política neo-tradicionalista de mandar os
Waimiri-Atroari conformar-se às idéias dos indigenistas a
respeito de como deveria ser o índio.
A expectativa por parte de alguns dos
dirigentes do PWAIFE de implantar agroindústrias para comércio
de frutas e beneficiamento de castanha revela que, de maneira
parecida com a FAWA, a administração indigenista atual
continua agindo como uma "instituição total", ao "implantar" o
que se julga ser melhor para os Waimiri-Atroari.
Projetos de criação de gado continuam sendo
implantados de maneira autoritária, em colaboração com a
empresa mineradora Paranapanema, constando nos próprios
relatórios do PWAIFE4. Os projetos pecuários, que vêm sendo
implantados desde a época da FAWA, são um exemplo claro de
como a administração indigenista define e planeja as
aspirações Waimiri-Atroari dentro de uma estrutura burocrática
empresarial que, em si, subordina os índios e impede que eles
tenham espaço para agir com autonomia.
Iintenções de alguns dos seus integrantes, a
nova forma de dominação pode ser caracterizada como
empresarial, incorporando a dinâmica das pressões empresariais
sobre os próprios índios (Baines 1993a), Alguns exemplos desta
dinâmica manifestam-se na política indigenista. O PWAIFE
institucionalizou o uso de camisetas brancas com o nome da
"tribo" e a foto de um Waimiri-Atroari impressos no tecido,
revelando outra dimensão empresarial do seu indigenismo, ao
massificar, arregimentar, e moldar os Waimiri-Atroari com
farda do próprio PWAIFE, reforçando a reificação "da tribo"
(conforme a definição desta feita pelos dirigentes do PWAIFE).
Na época da FAWA, o indigenismo, apesar de não ter chegado a .
este nível de sofisticação empresarial, realizava uma política
de "modificação dirigida" dos Waimiri-Atroari (Baines, 1991a,
Capítulo VIII).
A ELETRONORTE preocupa-se em divulgar uma
imagem pública favorável dos seus programas indigenistas (o
Programa Waimiri-Atroari e o Programa Parakanã) em que a
política indigenista oficial é apresentado como um "indigenismo
alternativo", como forma de compensar os indígenas pelos danos
causados pela construção de grandes hidrelétricas.
Como mostra
Silva, apesar de "práticas indigenistas relativamente
distintas de sua antecessora" e de
Quanto ao controle seletivo sobre o acesso à
área por pesquisadores, no meu caso, em 1989, após a FUNAI,
inicialmente, haver concedido a autorização para pesquisa,
alguns funcionários do PWAIFE criaram obstáculos, afirmando
que minha pesquisa "não era de interesse do Programa nem dos
índios", e incentivaram os Waimiri-Atroari através do uso de
informações falsas, a não aceitar a minha presença na área.
Vale ressaltar que o PWAIFE é constituído de funcionários
tanto da FUNAI quanto da ELETRONORTE, sendo o próprio gerente
funcionário da FUNAI. Embora o indigenismo do PWAIFE apresente
algumas diferenças do indigenismo da FUNAI na época da FAWA, o
atual pode ser caracterizado como uma nova faceta do "indigenismo
oficial", apesar da política publicitária que faz a
ELETRONORTE, elogiando a sua própria atuação como "indigenismo
alternativo".
O PWAIFE tem desvalorizado, e tentado destruir
ou omitir, pesquisas antropológicas que não foram feitas sob o
seu controle. Ironicamente, alguns dirigentes do PWAIFE têm
criticado os "antropólogos", alegando que estes querem que os
Waimiri- Atroari permaneçam "em situação de estufa", o que, à
luz das proibições seletivas à pesquisa antropológica, só pode
ser entendido como um artifício de retórica para tentar
justificar o controle que o PWAIFE vem exercendo sobre os
Waimiri-Atroari e os pesquisadores. De fato, a própria atuação
do PWAIFE tem mantido os Waimiri-Atroari numa situação de
encapsulamento, ou de liberdade vigiada, controlando o seu
acesso inclusive a informações, atuação criticada por vários
antropólogos.
O controle que a ELETRONORTE vem exercendo
sobre pesquisas antropológicas na área dos Waimiri-Atroari
aponta para o potencial perigo do Setor Elétrico patrocinar
"pesquisas tuteladas" aos seus interesses para, assim, exercer
um controle absoluto sobre o acesso às áreas indígenas onde
realiza tais Programas e sobre o tipo de pesquisas
antropológicas permitidas. O controle é facilmente legitimado
através de depoimentos de líderes indígenas incorporados na
administração indigenista como portavozes dos interesses da
empresa.
Para concluir, vale mencionar a política de
demografia adotada pelo PWAIFE.
Estatísticas demográficas sobre os
Waimiri-Atroari revelam que, durante toda a sua história
documentada até os dias de hoje, os dados contraditórios
apresentados refletem mais sobre as fontes que sobre o número
de índios (Baines 1994). Em 1983, após ter visitado todos os
aldeamentos, aldeias então habitadas, e ter realizado contatos
pessoais com todos os Waimiri-Atroari sobreviventes das ondas
de epidemias que os assolaram durante os anos anteriores,
calculei a população total em torno de 332 indivíduos5 (Baines,
1991a:78). Pelo número de aldeias e capoeiras abandonadas
durante a década anterior a 1983, e as suas próprias
referências constantes a mortes em massa nas aldeias, é
evidente que os Waimiri- Atroari, como outras populações
indígenas, sofreram uma depopulação maciça, sobretudo como
conseqüência de epidemias de doenças introduzidas pelo contato
interétnico (vide, por exemplo, Ribeiro 1979:272-316 [1956],
Galvão & Simões 1966:43).
Reduzida ao seu ponto mais baixo em 1983, de
332 indivíduos - 164 homens e 168 mulheres, dos quais 216
tinham menos de 20 anos de idade, houve uma rápida recuperação
populacional nos anos seguintes (Silva, 1993:70). Um dos
fatores que favoreceu esta recuperação populacional é o grande
número de jovens, possivelmente uma conseqüência dos programas
de vacinação realizados entre as crianças durante o período da
FAWA, a partir do início da década de 1970. Além disso, como
afirma McGrew, no caso de epidemias de gripe, "Embora as
crianças contraiam a doença com mais facilidade, os adultos,
sobretudo os enfermos e idosos, sofrem uma taxa de mortalidade
mais alta" (McGrew, 1985:150 apud. Cook & Lovell, 1991:223).
Crosby frisa que uma longa história de contato interétnico não
conduz inevitavelmente à destruição total dos índios, "mas
sim, a uma depopulação abrupta, seguida por uma recuperação
populacional (...) quando aqueles índios com pouca imunidade
(...) já faleceram, e os sobreviventes mais resistentes passam
a se reproduzir" (1973:39).
A recuperação populacional muito rápida entre
os Waimiri-Atroari, a partir de 1983, pode ser interpretada
por vários fatores: a proporção alta de sobreviventes jovens
(116 do sexo feminino com menos de 20 anos de idade em 1983);
a doutrinação por um contingente extremamente alto de
funcionários índios da FUNAI, de grupos aculturados, durante o
início da década de 1980, da necessidade de recuperar a
população de "índios", dizimados pelos "brancos". Muitos dos
funcionários índios da FUNAI constantemente exigiam acesso
sexual às mulheres Waimiri-Atroari sob o pretexto de serem
"índios também" em oposição aos "brancos"6, e assim
"autorizados pela FUNAI" a ter acesso . sexual às mulheres
Waimiri-Atroari.
Depois de uma depopulação drástica inicial nos
aldeamentos da FAWA, a recuperação extremamente rápida pode
ser atribuída, sobretudo, ao fato de que os sobreviventes,
muitos dos quais haviam sido vacinados durante os anos
anteriores, adquiriram uma certa imunidade às doenças
introduzidas, além de terem acesso a um atendimento de saúde
muito mais eficiente que, certamente, contribuiu para a
redução da taxa de mortalidade.
Apesar da rápida recuperação populacional dos
Waimiri-Atroari nos últimos anos ser um dos principais temas
da política empresarial de marketing do PWAIFE7, essa
recuperação iniciou-se antes da sua implantação. Como mostra
Silva, a partir das estatísticas demográficas obtidas durante
sua própria pesquisa na área e as de uma equipe de vacinação
do Instituto de Medicina Tropical de Manaus (IMTM) em 1987,
comparadas com as estatísticas demográficas obtidas durante as
minhas pesquisas para 1983, e dados do PWAIFE para 1991, a
população Waimiri-Atroari teve uma recuperação populacional
muito acelerada antes do início do PWAIFE:
A
consideração isolada deste parâmetro (a taxa de crescimento
populacional) não permite, evidentemente, uma avaliação
precisa da melhoria ou da deterioração das condições gerais de
vida desta população, e, muito menos, do impacto do Programa
Waimiri-Atroari, através de seus sub-programas (Silva,
1993:70).
Apesar de fornecer um serviço de atendimento de
saúde muito mais eficiente que o serviço extremamente
deficiente da FAWA, o PWAIFE optou por sistematicamente
excluir dos seus relatórios administrativos e propaganda as
estatísticas demográficas baseadas em pesquisas antropológicas
realizadas antes da sua implantação, citando estatísticas a
partir de 1987, data do convênio entre a FUNAI e a ELETRONORTE.
Esta opção serve aos interesses do PWAIFE, deixando parecer
que a recuperação populacional dos Waimiri-Atroari ocorreu
depois da implantação do PWAIFE e exclusivamente como
conseqüência da sua atuação, exagerando assim sua eficácia e
apresentando-o como se fosse a salvação dos Waimiri-Atroari.
Deve ser ressaltado, que este é um dos principais argumentos
usados pela ELETRONORTE para "legitimar" o PWAIFE, incluindo
tentativas de diluir problemas sérios da sua administração
apontados por pesquisadores que realizaram pesquisas
antropológicas de doutoramento nesta área (Silva 1993:54-57;
Baines 1992a; 1992b; 1993a).
Num folheto de propaganda9, elogiando a
política e a atuação da ELETRONORTE junto aos índios
Waimiri-Atroari e Parakanã cujas terras foram inundadas,
respectivamente, pela UHE Balbina e UHE Tucuruí, afirma-se que
"eram (os Waimiri- Atroari) aproximadamente 1.500 em 1974 e em
1987 estavam reduzidos a 374 pessoas" (página 6)10, seguido
por um elogio dos benefícios fornecidos pelo PWAIFE, e
estatísticas demográficas para o período de junho de 1987 a
dezembro de 1991. As estatísticas apresentadas revelam que a
população era de 417 indivíduos em junho de 1987 (página 11),
em plena contradição com o que foi afirmado na página 6 do
mesmo folheto.
Conforme este folheto, o crescimento médio
anual para o período de junho de 1987 a dezembro de 1991 foi
um pouco mais alto que a taxa fornecida por Silva para o
período de julho de 1987 a julho de 1991, porém abaixo da taxa
de crescimento para o período dos quatro anos anteriores ao
PWAIFE. Não é apenas excessivamente alta a estimativa da
população Waimiri-Atroari para 197411, mas, a história
documentada da recuperação populacional para o período de 1983
a 1987 é, novamente e convenientemente omitida, fazendo a
política paliativa e tardia do PWAIFE conformar, verbalmente,
ao mito indigenista de salvação dos seus mentores.
A mesma estratégia foi adotada num filme
documentário divulgado a nível nacional na televisão em abril
de 199412, em que, mais uma vez, as estatísticas demográficas
baseadas em pesquisas antropológicas realizadas antes de 1987
foram omitidas. Esta manipulação de estatísticas demográficas
é usada no filme como o argumento principal para legitimar o
PWAIFE, junto com o fato da demarcação e homologação da
Reserva Indígena durante a sua gestão, apresentando-o como um
grande sucesso na história da política indigenista: "uma
proposta indigenista diferente", que, nas palavras do seu
supervisor, "conseguiu colocar em prática o que todos os
indigenistas sonhavam". Declara-se, pomposamente, no fim do
filme, que o PWAIFE "parece ter revertido o quadro terminal de
um povo".
O texto do filme, depois de apresentar algumas
críticas à UHE Balbina, ressalta que a partir de 1987, a
criação de um Departamento de Meio Ambiente na ELETRONORTE
marca uma mudança básica na política da empresa. Os
deslocamentos compulsórios dos Waimiri-Atroari dos aldeamentos
de Tobypyna e Taquari atingidos pela inundação e a sua
relocação em Samaúma e Munawa respectivamente, são
apresentados neste filme documentário como se os locais novos
tivessem sido "escolhidos pelos próprios índios". Silva
(1993:48; 54-55; 161-163) revela como a "teoria oficial" sobre
os Waimiri- Atroari, que orientou o planejamento e a
efetivação desses deslocamentos compulsórios por funcionários
da administração indigenista, levou à criação de numa situação
de extrema tensão entre os Waimiri-Atroari no caso do
deslocamento de Tobypyna para Samaúma13.
De fato, o que representa esta mudança na
política da empresa é uma tendência recente entre empresas
estatais e privadas de criar uma retórica "de preocupação
ambiental" e . "ecológica" para os projetos de desenvolvimento
de grande escala na região amazônica14 (vide Albert 1991, para
uma discussão da estratégia de "ecologização" da retórica
desenvolvimentista na Amazônia).
Este filme documentário ressalta também o papel
de indenizações na salvação dos Waimiri-Atroari, ao permitir o
financiamento de projetos assistenciais. Levando em
consideração que em outras áreas os projetos de
desenvolvimento de grande escala como hidrelétricas e de
mineração têm trazido enormes prejuízos para as populações
indígenas, o papel das indenizações em mitigar estes prejuízos
é altamente questionável.
Freqüentemente as indenizações são mal
administradas, e usadas para criar dependências e aliciar
líderes indígenas a aceitar acordos extremamente desiguais com
as empresas envolvidas. Isto é, quando não há corrupção
indisfarçada, a constituição de clientelas locais, e a
neutralização de quaisquer críticas, além de um aumento em
desigualdades entre os índios que conduz a divisões e
transtornos sociais (Viveiros de Castro & Andrade 1988:7;
Oliveira 1990:22-23).
Um artigo de propaganda "A Brazilian Tribe
Escapes Extinction", escrito por Cherie Hart, foi publicado
numa edição especial da Revista World Development: Aiding
Remote Peoples, vol.04, nº.2, 1991, do PNUD. Como no filme
documentário acima mencionado, após declarações que admitem
que a UHE Balbina "atualmente é considerada uma atrocidade
ambiental"15, o artigo argumenta que, "Numa mudança dramática
na sua política, a ELETRONORTE... criou um Departamento de
Meio Ambiente em 1987", e, como conseqüência disso, "Para os
Waimiri-Atroari as mudanças nas atitudes dos brasileiros
significam a salvação da extinção".
Na primeira página (e na página 17) do Jornal
do Brasil, de 20 de setembro de 1993, outra matéria
jornalística afirma com respeito aos Waimiri-Atroari:
"Reduzidos a apenas 400 pessoas no final da década passada,
eles são hoje 570 índios e retomaram o crescimento
populacional de 12% ao ano". Acrescenta-se que "A extinção
parecia próxima em meados dos anos 80, quando o povo (...)
estava reduzido a apenas 400 indivíduos", e que com as
indenizações da ELETRONORTE, "por iniciativa própria, estão
realizando projetos ambientais...". Conforme as estatísticas
apresentadas no folheto de propaganda acima citada (nota 9), e
aquelas apresentadas nesta matéria jornalística, a população
aumentou de 532 no final de 1991 a 570 até setembro de 1993,
revelando um crescimento médio anual, neste período de um ano
e nove meses, abaixo (e longe do alegado 12%) do crescimento
médio anual de 6,05% apresentado por Silva para o período de
1983-1987 anterior à implantação do PWAIFE.
Estes exemplos de propaganda tendenciosa podem
ser interpretados como tentativas de defender interesse
empresariais, distorcendo a atuação de uma administração
indigenista que, a partir de 1987, seletivamente tem proibido
a continuação de pesquisas antropológicas junto aos
Waimiri-Atroari. E esta proibição tem sido exercida em nome da
autodeterminação indígena. Os líderes Waimiri-Atroari têm sido
sujeitos a campanhas publicitárias intensivas, e incorporados
às mesmas, sendo assim, impedidos de ter acesso a informações
que lhes dariam oportunidades de questionar os interesses
empresariais atrás desta política indigenista. Isto é um
exemplo claro da maneira em que pressões exercidas por grandes
empresas podem produzir uma retórica de autodeterminação
indígena que escamoteia as imensas desigualdades da situação
de contato interétnico entre grandes empresas e populações
indígenas. Deve se lembrar que uma nova estratégia de empresas
mineradoras do Grupo Paranapanema, empenhadas em avançar sobre
o território dos Waimiri-Atroari (no qual alegam existir
alguns dos depósitos de cassiterita mais ricos e extensos do
Brasil), é de favorecer a demarcação da área indígena e
exercer seu poder econômico, num relacionamento desmedidamente
assimétrico (Cardoso de Oliveira 1976:56), para tentar
persuadir os líderes Waimiri-Atroari a assinar acordos diretos
entre a comunidade indígena e as empresas, em troca de
indenizações na forma de royalties para financiar projetos
assistenciais de desenvolvimento comunitário.
BIBLIOGRAFIA
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Notas
1. Trabalho apresentado no Seminário "A QUESTÃO
ENERGÉTICA NA AMAZÔNIA: Avaliação e perspectiva
sócio-ambientais", Belém, 12 a 15 de setembro de 1994.
2. O Decreto Presidencial Nº 85.898, de
13-04-81, declarou de utilidade pública, para fins de
desapropriação, uma área de aproximadamente 10.344,90 km2,
encravada na área delimitada para a Reserva Indígena
Waimiri-Atroari.
3. Para uma discussão sobre a construção dos "Waimiri"
e dos "Atroari" na história do indigenismo nesta área, e a
apropriação desta divisão pelos índios, vide Baines
1991a:210-216. (Silva, 1993:48).
4. Relatório do Programa Waimiri-Atroari,
convênio FUNAI/ELETRONORTE, 1990.
5. Levando em consideração o tempo necessário
para realizar todos os contatos, incluí os nascimentos e
óbitos registrados pela FUNAI durante aquele ano.
6. O delegado regional da FUNAI retirou muitos
dos funcionários índios da área em 1985. Nas suas palavras: "A
situação estava muito séria, com problemas de bebida alcoólica
entre funcionários indígenas e problemas sexuais entre índias
e funcionários. (O capitão principal) fez uma relação nominal
das pessoas envolvidas, quase trinta pessoas... Era um erro
muito grande levar estes índios (funcionários da FUNAI) a
trabalhar com os Waimiri-Atroari" (Baines 1991a:278).
5. Para um resumo das estatísticas demográficas
segundo sexo e idade, vide Baines 1991a:77, Fig.
7. Que inclui um filme de propaganda de 9
minutos, em português, inglês, e italiano, usado nos vôos
internacionais da VARIG. O filme apresenta o PWAIFE como a
salvação dos Waimiri- Atroari, omitindo cuidadosamente
estatísticas demográficas fundamentadas em pesquisas
antropológicas para o período de 1983-1987, e termina com uma
declaração que a sobrevivência da memória dos Waimiri-Atroari
é uma obrigação que a ELETRONORTE assumiu. A ELETRONORTE
publicou também folhetos coloridos de propaganda sobre o
Programa Waimiri- Atroari, patrocinou a publicação de matérias
jornalísticas na imprensa local e nacional, além de
comercializar cartões postais e camisetas com desenhos
Waimiri-Atroari. O PWAIFE também organizou um Seminário em
Manaus em 1990, durante o qual a minha tese de doutorado foi
publicamente depreciada como "fofocologia" por seu gerente, e
uma exposição Waimiri-Atroari no Shopping de Manaus, em 1993.
8. A matéria, "Vaimiris suportam provações e
sobrevivem com valentia", em que o jornalista Orlando Farias
afirma que "a tribo iniciou o ano de 91 com uma grande festa
para saudar o nascimento do 500º vaimiri, contabilizando um
número intrigante até mesmo para a Funai: uma taxa de
crescimento demográfico de 7% ao ano, 5% mais alta que a da
própria população brasileira. Intrigante ainda é o fato de a
mortalidade infantil ter desaparecido".
9. Eletronorte: Eletrobrás: Ministério de Minas
e Energia, Ambiente Desenvolvimento: omunidades Indígenas,
s.d.
10. Silva (1993:69) afirma, baseado em suas
próprias estatísticas e nas do Instituto de Medicina Tropical
de Manaus (IMTM), que em 1º de julho de 1987 a população
Waimiri-Atroari era de 420 indivíduos.
11. Ressalto (Baines 1991a:74-78) que os dados
demográficos referentes aos Waimiri-Atroari no passado são
muito imprecisos e contraditórios, raramente havendo menção de
como foram calculados ou os motivos. Contudo, segundo o Censo
Indígena do S.P.I., de agosto de 1959, havia 957
Waimiri-Atroari em contato com os Postos Indígenas de Camanaú
e Alalaú. O telegrafista Raimundo Pio de Carvalho Lima, em
ofício de 16-06-65, dirigido ao Chefe regional do S.P.I.,
relata que os "Waimirís" eram aproximadamente 600, porém não
especifica quais aldeias ele abrange nesta categoria. O
sertanista da FUNAI, Gilberto Pinto Figueiredo Costa, que
havia andado extensivamente nas aldeias, além de as haver
sobrevoado, no Relatório da FAWA de 27- 10-73, admitiu que "A
Frente de Atração não possui dados reais sobre o número de
indígenas... Contudo, estimativas do signatário do presente
Relatório, dão de 600 a 1.000 o número de índios". Em
07-08-77, o sertanista Sebastião Nunes Firmo, em Relatório do
Coordenador da FAWA, estimou a população Waimiri-Atroari em
torno de 500. .
12. Energia Elétrica no Brasil - Obras
Amazônicas, roteiro e direção de Romain Lesage.
13. Silva menciona (1993:161) que ele não teve
oportunidade de observar o deslocamento de Taquari para Munawa
14. Vide, por exemplo, o trabalho do então
funcionário da Paranapanema, Hanan (1991), apresentado por
Otávio Lacombe no Seminário Internacional, "A Desordem
Ecológica na Amazônia", Belém, 31 de outubro de 1990, e também
no "Simpósio sobre Política Mineral", Câmara dos Deputados,
Comissão de Minas e Energia, Brasília, D.F., 19-20/06/90.
Neste trabalho, Hanan cita a Mina de Pitinga, localizada na
área desmembrada, em 1981, da Reserva Indígena Waimiri-Atroari,
como exemplo da "preservação do meio ambiente", argumentando
que o Grupo Paranapanema assumiu este compromisso, "aplicado
... com destaque, nas atividades de mineração na Amazônia"
(1991:303). Hanan acrescenta que "No complexo Pitinga tem-se
como filosofia básica a harmonização da atividade minerária
com a proteção ambiental e com o desenvolvimento regional"
(1991:304). A violenta destruição ambiental na área ocupada
pela Mina de Pitinga e a contínua poluição do rio Alalaú com
detritos desta mina (Baines 1991b; 1991c; 1993a:238; Isto É,
20 de maio de 1987, p.41), seriamente prejudicando a pesca e a
saúde dos índios neste principal rio que atravessa o
território dos Waimiri-Atroari, e do qual os índios dependem
para sua subsistência, revelam que o alegado "compromisso" da
Paranapanema com a preservação do meio ambiente não passa de
uma retórica "verde" para escamotear a destruição ambiental.
15. A construção da UHE Balbina tem sido muito
criticado como um grande projeto inviável em termos da baixa
produção de energia elétrica comparada aos imensos
investimentos, e a vasta área inundada com prejuízos
ecológicos e humanos irreversíveis. A obra atendeu, em
primeiro lugar, aos interesses das grandes empresas
construtoras, de gerar lucros.
Stephen G. Baines
stephen@unb.br