El Niño
Um ano depois de sua última aparição, que durou de 1992 a 1995, o principal
causador de transtornos climáticos no planeta já está de novo em ação. E
com força total.
Quando
ele chega, tudo muda de lugar. Ventos que durante milênios sopravam num mesmo
sentido passam a correr de trás para a frente. Chuvas viram secas, calor dá
lugar a frio e o que era gélido começa a torrar. O responsável por tudo, o El
Niño, é o primeiro indício descoberto pelos meteorologistas de que o clima
pode mudar em escala planetária num período muito curto, praticamente de um
ano para outro. Nesta reportagem você vai descobrir como se arma o escarcéu, o
que a ciência sabe sobre ele e como os seus efeitos vão se espalhar pelo
planeta entre o final deste ano e o começo do ano que vem.
Uma
língua de calor numa gangorra de ar
O
alarme veio dos sensores do satélite americano Noaa, o poderoso vigilante do
clima do mundo. No dia 2 de março, eles registraram uma manchinha de calor no
Pacífico, a cerca de 100 quilômetros da costa do Peru. Como logo ficaria
provado, ali estava o primeiro sinal de que o clima, este ano, ia sair dos
trilhos. Era um embrião do El Niño, que, tecnicamente, é exatamente isso: um
aquecimento acima do normal das águas do Pacífico.
Em
março, elas estavam só 1 ou 2 graus Celsius acima dos 24,5 que são normais.
Em 15 de setembro, seis meses e meio depois, a diferença tinha chegado a 5
graus. E continuou subindo. E a manchinha no mar virou uma língua de calor, com
quase 10 000 quilômetros de extensão por 2 000 de largura.
"A
rapidez da evolução do El Niño foi um espanto", disse à SUPER o
especialista Gilvan Oliveira, do Cptec, o Centro de Previsão de Tempo e Estudos
Climáticos, em Cachoeira Paulista. No dia 9 de junho, o Cptec fez bonito: foi a
primeira instituição do mundo a matar a charada. Foi ele quem anunciou que a
manchinha de calor, que logo se transformaria na grande língua, era de fato a
instalação do El Niño. Era quente, líquido e certo: logo viriam as inundações,
tempestades, nevascas e secas.
Se
o El Niño causa tudo isso, o que é, afinal, que causa o El Niño? A melhor
resposta existente parece piada: o que causa o El Niño é uma gangorra. Sempre
que a pressão atmosférica sobe no Oceano Índico, ela desce no Pacífico. E
vice-versa. Notados há poucas décadas, o El Niño e a gangorra são traços
milenares do clima. A gangorra intrigante, que foi ironizada quando anunciada
pelo inglês Gilbert Walker, em 1928, não só era para ser levada a sério,
como está na raiz desse hospício instalado no nosso planeta. Louco não foi o
descobridor da gangorra da pressão. Louco mesmo era o clima.
Dois
jeitos de ser
O
El Niño nasce porque a atmosfera muda de cara.
Dentro da
atmosfera, o ar circula junto à linha do equador como se estivesse encanado.
Ele gira entre a superfície e o topo da atmosfera formando circuitos fechados,
chamados células de Walker. Uma ao lado da outra, elas dão a volta ao mundo.
Em 1928, o inglês Gilbert Walker viu que as células amarravam a pressão
atmosférica entre dois oceanos: o Índico e o Pacífico. Se a pressão aumenta
de um lado, ela diminui do outro, e vice-versa. Ou seja, se o ar pressiona o
cidadão contra o solo de um lado, do outro ele sobe e alivia a força, do
outro. O jogo das pressões corre pelas células e dá a volta ao mundo. Você
vai ver, aqui, como esse jogo cria o El Niño.