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  Matérias :: Geografia :: Brasil

  Autoria: Francisco Roberto Caporal



A Extensão Rural no Rio Grande do Sul:

Da tradição "Made in USA" ao paradigma agroecológico.

Por: Francisco Roberto Caporal

1- INTRODUÇÃO

A extensão rural, no Brasil, foi introduzida a partir de 1948, com o apoio econômico de organizações públicas e privadas dos Estados Unidos, como parte dos programas de ajuda ao desenvolvimento do Terceiro Mundo. Outra parte deste apoio se consumaria através de assessoria de experts estadounidenses, formados no seio da Sociologia institucionalizada naquele país, o que determinou a influência do pensamento social dominante nos USA, naqueles tempos, sobre a conformação do extensionismo brasileiro.

Portanto, para se entender o desenvolvimento da atividade de extensão em nosso país, bem como as razões que levaram-na a seguir uma determinada - e muitas vezes equivocada – estratégia de ação, é importante ter claro que os modelos, objetivos e prática da extensão rural brasileira não nasceram de uma demanda local e, ademais, também não se desenvolveram apoiados em uma base teórica que correspondesse à realidade do meio rural e do desenvolviemento agrário brasileiro.

Só para recordar, a extensão rural institucionalizada nasceu nos Estados Unidos à raiz da crise agrária que se seguiu à Guerra Civil, em um contexto de desenvolvimento acelerado das forças produtivas e de mudança profunda nas relações capitalistas de produção, passando a constituir-se numa das ferramentas de política destinadas a diminuir os efeitos prejudiciais que aquele modelo de desenvolvimento causava nas comunidades rurais. Ademais, respondia a demandas das organizações de agricultores, que procuravam o apoio do Estado para deter os problemas gerados pelo avanço do capitalismo no campo: problemas de mercado, de alta dos preços dos insumos, de êxodo rural, etc...

Ademais, como é sabido, a extensão rural nos Estados Unidos nasceu sob a orientação da "sociologia da vida rural", com clara inclinação pelos "estudos de comunidade", o que estabeleceu as bases teórico-metodológicas para o posterior Serviço Cooperativo de Extensão Rural. Cabe assinalar que o modelo que seria institucionalizado partia de alguns presupostos determinados pelas políticas gerais do desenvolvimento capitalista que estava em marcha. Entre estes se destacava a lógica do modelo de desenvolvimento urbano-industrial, segundo a qual se faria necessário uma forte transformação na agricultura para que este setor pudesse oferecer suporte ao desejado crescimento industrial. Este modelo adotava a suposição de que a urbanização era um caminho único e irreversível, de modo que o meio rural deveria intregar-se ao meio urbano, como forma de se alcançar um desenvolvimento homogeneizado.

Assim, e partindo desta base, o modelo de extensão rural criado nos Estados Unidos da América foi transferido para o Brasil, em uma época em que o debate sobre a problemática do desenvolvimento estava centrado na procura de elementos capazes de explicar o atraso do nosso país, relativamente aos centros desenvolvidos, de modo a permitir que fossem estabelecidos mecanismos para superar o subdesenvolvimento. Nas dicotomias clássicas, muito ao gosto dos teóricos daquela época, o meio rural brasileiro era visto como o setor atrasado e era responsabilizado pelos problemas do desenvolvimento. Dada esta visão, pensava-se que o meio rural deveria ser transformado, adaptando-se ao modelo geral de desenvolvimento, que propunha uma política deliberada de desenvolvimento industrial, também no Brasil.

Seguindo as recomendações dos manuais da época, se desconsiderou o fato de que o subdesenvolvimento era um dos resultados do desenvolvimento e da acumulação capitalista, que se acelerava nos centros industrializados (fora e dentro do país). Nesta perspectiva a política para o agro partia da compreensão de que o setor rural era atrasado e que, necessariamente, deveria se "modernizar". Além disso, os problemas políticos, econômicos e sociais dos anos 50 ( crise do modelo agro-exportador, déficit na balança comercial, etc...) abriam espaços para abrigar estratégias que supunham a necessidade de qualificar e expandir a produção agrícola, razão pela qual era benvinda a idéia de um serviço de incentivo e suporte à modernização da agricultura.

Foi assim que, a partir de 1948, foram criadas no Brasil as organizações de extensão rural, sob o nome de Associações de Crédito e Assistência Rural – ACAR. Até o final da década dos 50, estas organizações já estavam presentes em quase todos os estados brasileiros. No Rio Grande do Sul, como parte do mesmo movimento, foi criada, em 1955, a ASCAR – Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural, hoje conhecida como EMATER/RS – Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensao Rural, criada em 1977, e que funciona em conjunto com a ASCAR.

2- A LÓGICA DO EXTENSIONISMO RURAL NO BRASIL E SUAS MUDANÇAS

Segundo nossa análise, a extensão rural no Brasil e no Rio Grande do Sul se desenvolveu como uma instituição que, vinculada ao setor público, destinavasse a atuar no sentido de apoio às comunidades rurais. Isto, entretanto, ocorreu sob diferentes enfoques e a partir de distintas prioridades, todas elas determinadas pelo modelo de desenvolvimento geral e estabelecidas segundo as exigências que o modelo impunha à agricultura.

Em seu primeiro período, o extensionismo pode ser identificado a partir de seu foco, como sendo o momento do Assistencialismo Familiar. Neste período, que vai da institucionalização dos serviços até 1960, a extensão centrou sua atenção nas famílias e comunidades mais pobres, desenvolvendo um trabalho notadamente assistencialista. Os agentes atuavam com um olho na família e outro na agricultura. O lar e as melhorias nas condições gerais de saúde e bem-estar eram as preocupações centrais dos extensionistas, e ocupavam um status similar à questões como o crescimento da produção da agrícola. O crédito rural orientado era uma ferramenta para ajudar nos processos de mudança. A extensão adotava o chamado enfoque clássico. Este enfoque priorizava ações tidas como educativas, cujo objetivo central era melhorar a produção e a produtividade agropecuária, supondo que com isto "naturalmente" se alcançaria melhorias na renda das famílias de modo que estas pudessem ascender a um mais elevado nível de bem-estar.

Este momento da extensão rural passou para a história do extensionismo, quando, a partir de 1960, mudaram os rumos da política agrícola, em resposta às novas exigências do modelo de desenvolvimento. Começaria, na década dos 60, o período do difusionismo ou, como preferem alguns, o período do produtivismo. Passou-se a exigir da extensão rural uma ação mais eficiente e intensamente orientada a aumentar a produção e a produtividade da agricultura, em particular dos produtos destinados à exportação. A partir de então, a extensão passaria a dedicar-se à modernizaçao agrícola, contribuindo para a introdução de fortes mudanças na base técnica da agricultura brasileira e, em consequência, para a crescente subordinação do setor agrícola a elos estabelecidos à montante e à juzante da produção, no âmbito das cadeias agro-industriais. A orientação teórica da extensão, desde este momento, foi a "difusão de inovações", e esta se apoiava em uma política de crédito rural que priorizava os médios e grandes agricultores. Os agentes da extensão passaram a atuar por linha de produto, focando sua atenção na agropecuária e em seus resultados imediatos, o que levou a uma drástica redução de sua preocupação para com família rural. Para aquele modelo, o que interessava era o crescimento físico continuado da produção, sendo relegados a um segundo plano todas as preocupações com as externalidades negativas de tal estratégia de modernização e crescimento econômico.

A partir de 1964, depois do Golpe Militar, se seguiram 20 anos nos quais a modernização do agro foi o centro das ações de todas as políticas públicas para o meio rural. Crédito, Pesquisa e Extensão Rural foram articulados sob uma mesma lógica difusionista e modernizadora. A Reforma Agrária, uma alternativa presente na legislação federal de 1964, foi deixada de lado e prevaleceu o esforço no sentido da "modernizaçao conservadora" – mudança na base técnica, sem tocar na estrutura agrária e na concentração da posse da terra. Durante todos estes anos, a extensão rural concentrou suas ações na busca de resultados econômicos imediatos, ainda que, em meados dos anos 70, tenha sido posta em andamento uma política de ação diferenciada, em apoio às camadas mais empobrecidas da populaçao rural – as chamadas família de "baixa renda". Entretanto, esta orientação, embora estivesse presente nos manuais, permaneceria na periferia da nova proposição de trabalho implantada pela Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensao Rural – EMBRATER.

A EMBRATER, empresa de âmbito nacional, criada na metade da década dos 70, para coordenar os serviços de assistência técnica e extensão rural em todo o país, nascia como parte de mais uma orientação de política pública da ditadura militar, que criando uma empresa nacional de pesquisa (EMBRAPA) e outra de assistência técnica e extensão rural, pretendia concentrar os esforços de políticas agrícolas na transferência de tecnologias de produção agropecuária, mediante pacotes tecnológicos centrados nas VAR (Variedades de Alto Rendimento) e na massiva adoção de todos os insumos químicos e outras tecnologias que acompanhavam estas variedades para que elas pudessem dar as respostas esperadas em termos de produção e produtividade.

Entretanto, nas diretrizes da EMBRATER do ano de 1979, seriam incorporadas orientações gerais sobre o tema da participação dos agricultores no planejamento das ações em nível municipal, bem como nas comunidades rurais. Ao mesmo tempo, se propunha uma ação mais cuidadosa com o meio ambiente. Nesta perspectiva foram introduzidos programas apoiados pelo Banco Mundial, na linha das energias alternativas, da tração animal e das tecnologias adaptadas. Estas mudanças não tiveram maior impacto, não porque fossem inadequadas, senão porque foram, mais uma vez, trabalhadas a partir da ideologia difusionista. Mais ou menos por esta época, preocupado com a "ineficiência" dos serviços de extensão, o Banco Mundial impulsionaria e financiaria projetos que tinham como centro a aplicação de uma nova metodologia, conhecida como Enfoque de Capacitaçao e Visita, que visava acelerar o processo de difusão de inovações técnicas na agricultura.

Foi somente no fim do período da ditadura militar que a extensão rural brasileira começou a experimentar novos rumos. Estes começaram a ocorrer ao mesmo tempo em que se reorganizavam os movimentos sociais e sindicais e se reestabeleciam as condições políticas para garantir o direito às críticas das diferentes formas de ação do Estado, no campo e nas cidades. Para o que aqui nos interessa, cabe lembrar que na ocasião nascia uma dura crítica ao extensionismo, particularmente articulada a partir das organizações de base das igrejas, em especial dos setores vinculados às Pastorais da Terra e da Juventute, assim como de algumas ONGs. No entanto, ainda que as críticas fossem duras e orientadas a questões centrais da prática extensionista (se baseavam, sobretudo, nas propostas de Paulo Freire), estas também tinham sua atenção nas questões relacionadas aos problemas gerados pela modernização agrária como a diferenciação social, o êxodo rural, a degradação ambiental, a contaminação por pesticidas, a concentração da terra, etc..., os quais apareciam associados à prática convencional da extensão rural.

Pouco a pouco, tais críticas passaram a se introduzir nos "Aparelhos do Estado", permitindo que seus seguidores, muitos deles funcionários destes aparelhos, passassem a encontrar um ambiente cada vez mais favorável para apresentar posições "alternativas" às políticas tradicionais. Entretanto, em que pese sua ressonância positiva junto à sociedade, estas propostas não encontravam maior apoio institucional, ficando na marginalidade. Assim que, apesar destes movimentos contestadores internos e externos à extensão, foi só a partir do fim da ditadura militar que o extensionismo experimentou um momento de reflexão mais profundo sobre sua própria prática.

A partir de 1985, com a mudança na direção central da EMBRATER, toma posse na presidência da empresa um seguidor da pedagogia de Paulo Freire, que propõe, já no seu primeiro discurso, um outro enfoque para a ação extensionista. Tratava-se de um processo radical de participação dos agricultores, que propugnava pela necessidade de uma extensão rural democrática e popular, orientada para o mercado interno, para a agricultura de subsistência e que, portanto, priorizasse os pequenos agricultores. Iniciava-se, naquele momento, outra fase da extensão brasileira: o período do "Repensar da Extensão".

Internamente à empresa de extensão rural do Rio Grande do Sul, um movimento iniciado pelos funcionários daria lugar a uma nova construção de diretrizes e objetivos institucionais. O movimento conseguiu estabelecer umas bases alternativas para a empresa de extensão do Estado, que foram consolidadas em um amplo seminário, cujo documento final, de setembro de 1987, foi intitulado "Seminário: Extensão Rural - enfoque participativo". Contudo, sem contar com o apoio oficial da empresa e ignoradas pelos dirigentes da empresa, as novas bases extensionistas ficaram à margem das ações e caíram no esquecimento.

Mesmo assim, sem contar com o apoio formal da empresa, muitas ações passaram a orientar-se por perspectivas inovadoras e diferentes das diretrizes formais. Inclusive, alguns trabalhos de extensionistas na perspectiva da produção de base ecológica, assim como a participação de muitos funcionários na luta contra os pesticidas e em apoio à reforma agrária, podem ser citados como exemplos de ações que ocorriam por iniciativas individuais e que se contrapunham ao modelo dominante, realizadas por funcionários da EMATER/RS.

Embora tenha contribuido para a formação de uma nova consciência sobre a prática extensionista, o movimento do "Repensar da Extensão", no Rio Grande do Sul, perdeu sua força de transformação em razão das limitações impostas pelas políticas de desenvolvimento rural, pelas normas da empresa e pelos limites e reações dos próprios agentes do aparelho do estado, seja por sua formação seja por sua resistência à mudanças. Em 1990, o governo brasileiro (presidente Fernando Collor de Mello), na esteira das políticas neoliberais, extinguiu a EMBRATER. Já não existindo uma empresa nacional de coordenação, as empresas dos estados passaram a ser orientadas, desde então, pelas políticas dos governos dos estados federados. A União, a partir de 1990, e até hoje, não conseguiu (ou não quis) articular as ações de extensão rural no Brasil.

Desde então, os diferentes governos estaduais implantaram suas próprias políticas para a extensão rural. Em vários Estados brasileiros ocorreram mudanças institucionais, muito mais de formato do que de objetivos e metodologias e, de uma forma geral, as empresas de extensão perderam a importância que haviam tido enquanto parte importante das políticas públicas para o meio rural. Os anos 90 foram anos de crises na extensão rural, em todo o País. Neste período muitas daquelas empresas não conseguiram entender os desafios dos novos tempos, e submergiram atacadas pelas políticas de tipo neoloberal que impuseram a diminuição do tamanho do Estado e, em conseqüência, o fim ou a redução de estruturas públicas mais debilitadas e que não contavam com o apoio explícito da sociedade, a exemplo dos aparelhos de extensão.

No Rio Grande do Sul, a EMATER/RS seguiu merecendo apoio, ainda que parcial, dos sucessivos governos do estado, bem como das representações de agricultores. Com isto, a empresa manteve sua organização e ampliou sua área geográfica de atuação a quase totalidade dos municípios do Estado.

Desde então, "Por Quê e Para Quem" deveria existir a extensão agrária passaram a ser as perguntas-chave. A resposta certa só seria possível a partir de uma leitura correta do cenário sócio-político e dos novos interesses da sociedade. Este parece ter sido o principal acerto da extensão rural do Rio Grande do Sul, quando, no início de 1999, se propôs a uma mudança profunda, incorporando os desafios sociais e ambientais que apareciam com destaque tanto nas demandas de setores urbanos como nas pautas políticas das organizações de representação dos agricultores.

3 – A NOVA EXTENSÃO RURAL NO RIO GRANDE DO SUL

Com a vitória do Partido dos Trabalhadores – PT, nas eleições de 1998, começou a desenhar-se uma nova perspectiva para a extensão rural pública do Rio Grande do Sul. O Governo Democrático e Popular – GDP, que passaría a ocupar o poder a partir de janeiro de 1999, tinha outro enfoque para o desenvolvimento rural, e reservava outro papel para a empresa de extensão rural.

O programa do GDP destacava, pelo menos, quatro linhas básicas ou eixos centrais da política pública para o meio rural. Estas linhas estabeleciam as diretrizes principais e, em conseqüência, a necessidade de concretar mudanças na extensão. Tratava-se, particularmente, de enfrentar desafios relativamente a: Reforma Agrária e assentamento de agricultores sem terra; mudança no modelo de desenvolvimemto rural, fortalecendo as demandas e o desenvolvimento de base local; apoio a agricultura familiar e outros setores que tinham ficado à margem das políticas de modernização; necessidade de mudança no padrão tecnológico que havia sido dominante na fase da Revolução Verde. Além disso, todos os esforços deveriam passar a ser orientados para a busca de segurança alimentar da população.

Como parte das novas políticas do Estado, cabe ressaltar que o GDP tem como eixo central, em sua estratégia de governo, a participação popular e o controle social dos cidadãos sobre as instituições públicas. Como veremos mais adiante, estas políticas influenciaram as reorientações adotadas pela EMATER/RS.

Por último, sob o ponto de vista da mudança de modelos convencionais para estilos de agricultura e de desenvolvimento rural sustentáveis, se entende, no GDP, que é fundamental a participação dos serviços públicos. Ainda que se reconheça a importância e o papel das ONGs e de outras entidades, acredita-se que o Estado e os governos que estejam interessados em apoiar estes processos de mudança têm que fazê-lo mediante apoio concreto e direto, de modo a viabilizar que tal processo alcance e beneficie o maior número de pessoas possível.

Além disso, se o objetivo é contruir novos processos de desenvolvimento, é necessário a ação do Estado, pois não se pode deixar que as "forças do mercado" atuem livremente. Ao mercado e aos agentes comercias nele envolvidos, não interessam os problemas dos pequenos agricultores, nem os impactos ambientais das tecnologias. As empresas privadas agem visando principalmente o resultado financeiro de seus negócios, de modo que enfrentar os problemas sócio-ambientais do desenvolvimentismo é tarefa que, além de exigir a ação concreta e oportuna do setor público, requer o envolvimento direto e a participação ativa e protagônica da sociedade organizada.

A partir destes pressupostos, a EMATER/RS começou a realizar ações de mudança interna para se adaptar às novas políticas do Estado, para o desenvolvimento rural. Tais mudanças passaram a ter em conta as exigências da sociedade, quanto ao estilo de desenvolvimento e quanto à adequada prática de extensão rural, necessária para atender a estes novos postulados. As orientações para as mudanças foram buscadas nas conclusões de congressos de extensionistas e eventos sobre extensão rural, assim como em documentos de seminários e encontros de organizações de agricultores familiares e de movimentos organizados, como o MST, o MPA, o MMTR, o MAB e o MSTR. Tendo isto em consideração, buscou-se estabelecer uma base teórica sólida, a partir de textos e teses, que pudesse orientar a elaboração de uma proposta de extensão capaz de adequar-se a estas novas realidades. Se iniciariam, assim, as transformações profundas na extensão rural do Rio Grande do Sul.

3.1 – Passos na construção da nova extensão rural gaúcha

O estabelecimento das condições básicas para a construção de um estilo de extensão rural compatível com a realidade, e capaz de dar respostas aos anseios da sociedade gaúcha, está ocorrendo em conformidade com um conjunto de etapas e processos, coerentes e articulados entre si, cada um deles atendendo a determinados objetivos estratégicos.

Num primeiro momento, entendeu-se como sendo importante a modificação da composição do Conselho de Administração da EMATER/RS, de modo que fossem incluídas as organizações de representação dos agricultores familiares, por ser este o público da nova extensão rural. Em que pese a resistência de parte de alguns setores, particularmente daqueles representativos dos grandes produtores, o Conselho aprovou a proposta da Direção da empresa, incorporando ao Conselho de Administração representações do MMTR (Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais), do MST (Movimento dos Agricultores Sem-Terra), do MPA ( Movimento dos Pequenos Agricultores), da CUT-Rural (Setor Agrário da Central Única dos Trabalhadores) e da COCEARGS (Cooperativa Central dos Assentamentos de Reforma Agrária), além da FETAG (Federação de Sindicatos de Trabalhadores Rurais), que já participava do Conselho. Com isso, passou a ser garantida uma ampla participação e representação dos agricultores familiares no fórum onde se decidem as políticas da empresa de extensão rural, seu orçamento e seus planos anuais de trabalho.

O segundo passo focalizou a construção interna de processos da mudança, envolvendo aspectos da cultura interna, relacionamento externo e questões estruturais. Exemplificando: os especialistas do escritório central passaram a priorizar ações técnicas de apoio às equipes regionais e municipais, sem a função hierárquica tradicionalmente atribuida aos especialistas. Mais tarde, as Divisões Técnica e de Planejamento, então existentes no escritório central, foram fundidas, criando-se a Divisão de Apoio Técnico ao Desenvolvimento Rural Sustentável.

Ao mesmo tempo, foi iniciado um novo processo de Planejamento Estratégico para a empresa, com o apoio de uma consultoria externa. Para dar direção ao planejamento estratégico foi formado, então, um coletivo de representação dos funcionários que, em conjunto com a Diretoria, passou a estabelecer a nova Estratégia Empresarial da EMATER/RS. Este segundo momento resultou em um amplo e rico processo de participação dos empregados e de consulta às bases das organizações de agricultores familiares e outras instituições, formulando-se, a partir daí, a nova Missão, Valores, Visão, Objetivos e Estratégias da Extensão Rural do Rio Grande do Sul.

Nossa Missão passou a ser: Promover a construção do desenvolvimento rural sustentável, com base nos princípios da Agroecologia, através de ações de assistência técnica e extensão rural, mediante processos educativos e participativos, com o objetivo de fortalecer a agricultura familiar e suas organizações, de modo a incentivar o pleno exercício da cidadania e a melhoria da qualidade de vida.

Ao executarmos esta Missão pretendemos ser vistos (Visão) como uma Instituição de referência em Extensão Rural, comprometida e atuante nos processos de desenvolvimento rural sustentável. Por isto, nos comprometemos com os seguintes Valores: Conduta ética e cidadania; cooperação e solidariedade; gestão democrática e transparente; incentivo e respeito à participação; preservação do meio ambiente e da vida; e, conhecimento e credibilidade.

Ao mesmo tempo, foram estabelecidos os novos objetivos estratégicos da EMATER/RS, que são os seguintes:

Sustentabilidade: Buscar um crescente apoio à conservação, à manutenção e ao manejo de agroecossistemas sustentáveis, de modo que, apesar das restrições ecológicas e das pressões sócio-econômicas, possam ser alcançados e mantidos níveis adequados de produção agrícola.

Estabilidade: Atuar de forma conjunta com os agricultores familiares e suas organizações, com o objetivo de integrar os recursos disponíveis localmente e outros que estejam ao alcance dos mesmos, com vistas a obter uma estabilidade na produção que seja compatível com as condições ambientais, econômicas e socioculturais predominantes.

Produtividade: Apoiar os agricultores familiares na seleção de tecnologias de produção capazes de reduzir os riscos e otimizar o uso dos recursos internos, de modo a alcançar, na totalidade dos sistemas agrícolas, níveis de produtividade compatíveis com a preservação do equilíbrio ecológico.

Eqüidade: Contribuir para a consolidação de estratégias associativas que fortaleçam os laços de solidariedade e que propiciem a justa distribuição do produto gerado nos agroecossistemas, de modo que se atendam a requisitos de segurança alimentar e geração de renda para todas as famílias envolvidas.

Qualidade de vida: Agir interativamente nas áreas econômica, sociocultural e ambiental, de forma a maximizar o emprego e gerar renda desconcentradamente, promovendo a defesa da bioversidade e da diversidade cultural, o incremento da oferta de produtos limpos, a soberania alimentar e a qualidade de vida da população.

A partir destas construções, em um nível mais abstrato, das bases e princípios a serem seguidos, passaram a ser desenhadas e executadas as estratégias para a implementação da nova extensão rural, coerentes com a Missão e Objetivos.

Como parte do mesmo processo, EMATER/RS decidiu que o trabalho de seus funcionários deveria passar a se concentrar exclusivamente no apoio à agricultura familiar, incluindo neste grupo as famílias assentadas nos programas de reforma agrária. Foram, além disso, incluídos outros públicos especiais para o trabalho da nova extensão rural: os povos indígenas e os pescadores artesanais. Todos eles fazem parte das prioridades dos programas do Governo do Estado.

3.2 - Outras ações para consolidar a transformação

Diversas ações foram iniciadas com o objetivo de levar os objetivos à prática. Entre elas destacamos:

a.      Mobilização: para dar visibilidade à nova postura da EMATER/RS, foram realizadas, em todas as regiões do estado, 12 reuniões com a participação de funcionários, políticos, técnicos locais e representantes de administrações municipais, assim como representações de diferentes organizações, cooperativas e associações de agricultores, para um dia de debates sobre Desenvolvimento Rural Sustentável e Agroecología. Nestas reuniões participaram ao redor de 1.300 pessoas.

b.      Divulgação da Missão e o encaminhamento dos novos Objetivos: uma ampla divulgação da Missão, Objetivos e Público da extensão passou a ser realizada em todas as regiões. Foram realizados 10 Seminários, com a participação de 1.800 funcionários e outros convidados.

c.       Capacitação: partindo da constatação de que grande parte das dificuldades para a mudança na ação da extensão rural está relacionada com a formação dos extensionistas, foi estabelecido, a partir de uma construção coletiva com professores de universidades, consultores e outros expertos, um programa de Formação Técnico-Social. Para levar a cabo uma tarefa de tal complexidade, o programa foi iniciado a partir de um conjunto de oficinas e de um curso de "Formação de Formadores". Com os participantes deste curso, foi estabelecido um programa básico de capacitação em Desenvolvimento Rural Sustentável com enfoque nos princípios da Agroecologia e metodologias participativas. Os cursos, com duração de 4 semanas, tiveram sua realização descentralizada, de modo que cada uma das dez regiões administrativas da EMATER/RS se encarregasse da formação de seus técnicos. Isto permitiu realizar, em um curto espaço de tempo, um massisso processo de formação dos extensionistas. No total, entre 1999 e 2000 foram realizados cursos para mais de 1000 técnicos. Em 2000 foram realizados 27 cursos para 824 pessoas.

d.      Outras ações de formação: iniciamos em 1999/2000, 02 cursos à distância, via Internet, para 149 extensionistas, em nível de especialização em Desenvolvimento Rural Sustentável e Políticas Públicas para a Agricultura. A realização destes cursos conta com o apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro – CPDA e da ONG Red-CAPA. Em 2001, estamos oferecendo um curso de especialização, em nível de Mestrado, para 18 Supervisores Regionais, além de manter o programa de pós-graduação, já em execução na empresa, que oferece, todos os anos, sete bolsas para mestrado e três vagas para o Doutorado (atualmente, um funcionário da EMATER/RS se encontra no programa de doutorado do ISEC – Universidade de Córdoba-Espanha). Além disso, ainda no ano 2000, foram realizados 16 Cursos de formação em Agroecología, para 456 técnicos (inclusive contando com o apoio de Miguel Altieri e Clara Nichols).

e.      Seminários: em 1999 foi realizado o I Seminário Estadual sobre Agroecologia e, em novembro de 2000, a EMATER/RS e outras entidades organizaram o I Seminário Internacional sobre Agroecologia, reunindo, em Porto Alegre, mais de 1.000 participantes, durante três dias. Entre os participantes estiveram cerca de 200 técnicos da EMATER/RS. Também foi realizado um grande número de pequenos seminários regionais, com a participação dos professores Eduardo Sevilla Guzmán (Universidade de Córdoba-Espanha), Stephen Gliessman (Universidade de Berkley-USA) e outros especialistas no tema.

f.        A nova Revista: como forma de ampliar o debate e garantir um espaço para a divulgação de trabalhos científicos e artigos sobre Agroecologia, Desenvolvimento Sustentável e Agricultura Familiar, foi lançada a revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, de periodicidade trimentral e tiragem impressa de 2.500 exemplares, inteiramente organizada e editada pela EMATER/RS, já estando editado o sexto número. A revista, como outros textos, está disponível na Internet, na página www.emater.tche.br.

g.      Outras publicações: a EMATER/RS, como parte de seu programa de formação, apoiou o Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para editar a tradução do livro do professor Stephen Gliessman, intitulado Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável e organizou quatro seminários com o professor Gliessman, no interior do Estado, para o lançamento do livro, com palestras em universidades e instituições de pesquisa, abrindo o caminho para um debate ainda pouco presente nestes ambientes – a Agroecologia como enfoque científico. Também foram editadas duas cartilhas, elaboradas por técnicos da EMATER/RS, sendo uma sobre Práticas e Métodos para uma agricultura de Base Ecológica e outra sobre Manejo Ecológico dos Solos. Neste momento está sendo editada outra cartilha, descrevendo tecnologias e processos de produção desenvolvidos localmente por técnicos da EMATER/RS e agricultores. Foram produzidos também, outros materiais de estudo, como a edição de duas apostilhas com textos sobre agricultura familiar, meio ambiente e produção ecológica, em espanhol, autorizados por seus autores.

h.      Nossa página Web e outros meios de comunicação: ao mesmo tempo em que se buscava melhorar os conteúdos da nossa página na Internet, abrindo links para temas como Agroecologia, Transgênicos e Desenvolvimento Rural Sustentável, Reforma Agrária e outros, todos em construção, iniciamos a publicação de um jornal bimensal para a divulgação dos avanços na consolidação de nossa missão. Além disso, temos uma equipe de produção que está encarregada de veicular cerca de 100 programas diários de rádio e um programa semanal de TV (aberta e por satélite), com audiência que estrapola os limites do estado. Este programa duração de uma hora, e vai ao ar todos os domingos pela manhã, contribuindo com o processo de informação e socialização dos conhecimentos gerados, além de experiências dos agricultores.

i.        Contratação de novos técnicos: para levar adiante a proposta e dar conta do crescimento ocorrido no trabalho, foram contratados em 1999/2000, 203 novos técnicos para o trabalho de campo. Foram, também, ampliadas as equipes de apoio dos 10 Escritórios Regionais, mediante seleção interna. Estas unidades passaram a contar com técnicos de informática e jornalistas. Além disso, está em processo a contratação de novos 328 funcionários, que se incorporarão ao trabalho até agosto de 2001. Deve-se destacar que o perfil desejado dos novos profissionais contratados e a contratar foi estabelecido de forma conjunta entre técnicos e representação de agricultores.

j.        Infraestrutura: por último, o processo de transformação exigiu medidas de apoio ao trabalho dos técnicos e administrativos. Neste sentido, foram comprados mais de cem novos carros (EMATER/RS conta com uma frota de 1.300 veículos) e foram adquiridos computadores para todos os escritórios que ainda não possuiam. Neste momento cerca de 98% dos 450 escritórios municipais têm possibilidade de acesso à Internet. Dadas estas condições, encontra-se em elaboração um Sistema de Gestão Participativa, que permitirá o monitoramento, on line, das ações de ATER, mediante o acesso via Internet de todas as unidades operativas.

4- A ESTRUTURA E O ORÇAMENTO DE EMATER/RS

EMATER/RS tem seu orçamento formado por recursos obtidos junto a programas do Governo Federal, recursos do Governo do Estado e de convênios com os municípios onde atua. Além disso, possui uma fonte própria de recursos financeiros obtida, principalmente, pelos serviços de classificação de produtos de origem vegetal. No ano de 2000, o total de recursos gerenciados pela empresa alcançou a soma de R$ 76.469.145,32.

O estrutura de pessoal da empresa esteve constituída, em 1999/2000, por 2.158 funcionários, distribuidos da seguinte forma: Escritório Central – 240 (11,12%), Escritórios Regionais – 196 (9,08%), Escritórios Municipais e de Classificação – 1.623 (75,21%) e outros (em Cursos de pós-graduação ou cedidos a outras instituições) – 99 (4,59%). Em 2000, houve um crescimento de 1,7% na força de trabalho.

Os Escritórios Regionais da Emater/RS, em número de dez, são responsáveis pela supervisão e apoio às equipes dos escritórios municipais. As equipes regionais estão formados por: Gerente e Sub-gerente, 5 a 8 Supervisores de Microrregiões, 6 a 8 Assistentes Técnicos Regionais, 1 técnico em Informática, 1 Jornalista, 1 técnico em Contabilidade e pessoal de apoio administrativo (3 a 4 por escritório).

Os 450 Escritórios Municipais (no Rio Grande do Sul existem 496 municípios) são responsáveis pela assistência direta às famílias rurais. Para atuar nos municípios, a EMATER/RS realiza convênios com as Prefeituras e estas pagam cotas relativas ao número de técnicos designados para formar parte da equipe de cada escritório municipal. O número de técnicos por município pode variar de acordo com as possibilidades da empresa, da demanda local, do número de agricultores familiares e outros públicos prioritários, e em consonância com o interesse do governo municipal.

Neste momento, em razão da demanda gerada por agricultores e prefeituras municipais, a EMATER/RS está procedendo a abertura de mais 30 Escritórios Municipais, o que ampliará a cobertura da empresa à quase totalidade dos muncípios do estado do Rio Grande do Sul que têm a agricultura como um importante setor econômico. Isto é, o Rio Grande do Sul passará a contar com escritórios da EMATER/RS em 480 de seus 496 municípios.

5 – UMA APROXIMAÇÃO ÀS BASES TEÓRICAS DA NOVA EXTENSÃO RURAL

O mais importante aspecto da transformação pela qual está passando a extensão rural do Rio Grande do Sul é, sem dúvida, a mudança no enfoque do trabalho extensionista. Depois de mais de quatro décadas de extensionismo convencional, a empresa de extensão passou a adotar novas bases teóricas e metodológicas, para orientar sua ação. Não é este o lugar para tratar o tema em profundidade, entretanto há que dizer que, em todos os níveis, a começar pela direção da empresa, se procurou o estabelecimento de umas bases sólidas para estas mudanças. Algumas delas já assinalamos antes, mas é importante destacar aqui que EMATER/RS passou a adotar um novo conceito de extensão, que orienta para uma Extensão Rural Agroecológica.

A extensão rural agroecológica pode ser definida como um processo de intervenção de caráter educativo e transformador, baseado em metodologias de investigação-ação participante que permitam o desenvolvimento de uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção e sistematização do conhecimentos que lhes permita incidir conscientemente sobre a realidade, com o objetivo de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente equitativo e ambientalmente sustentável, adotando os princípos teóricos da agroecologia como critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo.

Ainda que brevemente, podemos dizer que a Extensão Rural Agroecológica, se sustenta em alguns elementos fundamentais e orientadores de ações que devem estar dirigidas à construção de contextos de sustentabilidade compatíveis com a noção de "desenvolvimento local agroecológico" (Sevilla Guzmán, 1999). Por isto mesmo, este novo enfoque de extensão rural não aceita os conceitos "ecotecnocráticos" de sustentabilidade, por entender-se que existem inevitáveis relações entre o desenvolvimento sustentável desta corrente e a globalização neoliberal, baseada no mercado e na insustentável relação centro-periferia que "determina o estabelecimento de pautas de desigualdade social e de distribuição do poder, da propriedade, da riqueza, do status e dos privilégios, tanto em nível internacional como no interior de uma sociedade específica" (Sevilla Guzmán e Alonso Mielgo, 1994).

Como já detalhamos em outro texto (Caporal, 1988, Caporal e Costabeber, 2000b), o marco teórico para uma Nova Extensão Rural orienta-se pela busca contínua de estratégias que impulsionem padrões sócio-culturalmente desejáveis, apoiados na evolução histórica dos grupos sociais e em sua coevolução com o agroecossistema em que estão inseridos. Isto implica a construção de contextos de sustentabilidade e de resistência etnoecológica, compatíveis com a realidade do público beneficiário. Exige a aceitação de que a agricultura familiar é, ao mesmo tempo, unidade de produção, consumo e reprodução, funcionando mediante uma lógica claramente distinta daquela associada à agricultura capitalista. Ademais, requer a compreensão de que os agricultores tradicionais estão submetidos a um contexto específico, cuja socialização se dá mediante processos de aprendizagem, experimentação e erro, mediados pelo conhecimento de processos biológicos e sociais presentes no entorno.

Para uma prática comprometida com esta nova extensão rural, também é fundamental entender-se que o saber dos camponeses se desenvolve na rede social que associa ambiente doméstico e grupo de trabalho, onde a "conduta reprodutiva rural" é o resultado de uma acumulação de conhecimentos sobre o sistema de trabalho que não vêm de livros e textos, mas da relação entre pessoas, ambiente e suas interações (Iturra, 1993). Nesta perspectiva, a busca de sustentabilidade implica reconhecer a existência deste saber, construído ao longo da história de vida dos grupos sociais. Portanto, a prática extensionista deverá ser desviada de sua histórica concepção difusionista e dar lugar a uma prática social baseada na "aprendizagem", isto é, na construção de saberes adequados para impulsionar estilos de agricultura e manejo dos recursos naturais capazes de estabelecer patamares crescentes de sustentabilidade.

Então, mais do que dispor de um conceito preciso sobre o significado da expressão desenvolvimento sustentável, necessitamos construir saberes ecológicos, agronômicos, sociais e econômicos que permitam desenvolver, de forma participativa, processos "toleráveis" de exploração da natureza, e que sejam compatíveis com as exigências de reprodução social da agricultura familiar, em seus diferentes segmentos. Em poucas palavras, na concepção da Extensão Rural Agroecológica, entendemos que o meio ambiente e a sociedade constituem os pilares básicos de qualquer proposta de extensão rural dirigida à promoção da qualidade de vida, inclusão social e resgate da cidadania no campo, implicando a busca permanente de contextos de sustentabilidade.

Este modelo de extensão baseia-se, portanto, no "paradigma agroecológico". Este, por sua vez, se constitui num enfoque de intervenção multidisciplinar que vem sendo construído a partir de uma necessidade real de enfrentamento da crise, já cientificamente comprovada, do atual modelo tecnológico e de organização da produção que são dominantes na agricultura (Martínez Alier, 1994). Esta crise se manifesta sob múltiplas dimensões, e sua superação depende de novos conhecimentos, adaptados às reais circunstâncias sócioeconômicas e culturais das populações rurais. Nesse sentido, a Agroecologia, enquanto enfoque científico, oferece ferramentas importantes para subsidiar a intervenção da Nova Extensão Rural e a promoção de estratégias que conduzam ao desenvolvimento rural sustentável. Cabe advertir, aqui, que não se deve confundir Agroecologia com estilos de produção de base ecológica, pois isto levaria a um equívoco profundo, distorcendo a orientação geral do novo enfoque extensionista que estamos propondo.

Dadas estas breves incursões teóricas, podemos assinalar alguns dos elementos e conseqüências que seguem à definição de Extensão Rural Agroecológica e que devem se fazer operativos na prática dos agentes. Em primeiro lugar, desde a nova formação dos extensionistas, a que nos referimos antes, lhes são oferecidos novos conhecimentos sobre os princípios da Agroecologia, como enfoque científico e sobre desenvolvimento rural sustentável, além de ferramentas básicas como são as metodologias participativas, como, por exemplo, a utilização democrática do DRP (Diagnóstico Rural Participativo).

Portanto, estando o esforço da nova extensão rural gaúcha concentrado no sentido de buscar o desenvolvimento rural sustentável, se faz necessário trabalhar para o estabelecimento de patamares crescentes de melhorias em, pelo menos, seis dimensões da sustentabilidade: ambiental, social, cultural, econômica, política e ética. A melhoria destas seis dimensões pode ser verificada mediante indicadores que nos informem sobre os avanços que estamos alcançando. Estes indicadores ainda estão em construção e passarão a ser adotados na EMATER/RS a partir de julho de 2001. Em nível de campo, estamos estimulando e capacitando os extensionistas para a adoção do método MESMIS, como forma de medir e acompanhar a evolução dos processos de desenvolvimento na direção da sustentabilidade.

Por outro lado, o trabalho da nova extensão rural, como vimos, deve partir da convicção de que a sustentabilidade exige a construção de estilos de agricultura sustentável, ou seja, da massificação de processos produtivos capazes de garantir, no decorrer do tempo, a produção de biomassa, de animais e de outros bens de uso, mantendo a capacidade de renovação dos agrossistemas, isto é, sem comprometer a base dos recursos naturais. Portanto, sem qualquer dúvida, propugna-se por avanços em rumo frontalmente oposto àquele que está associado aos pacotes da Revolução Verde. Atuar com base neste novo enfoque implica entender que não há receitas, pois cada agroecossistema e cada sistema cultural exigirão um processo distinto de intervenção técnica. Além disso, cabe destacar a necessidade de uma nova forma de compreender e estabelecer a relação entre a agronomia e a ecologia.

Metodologicamente, busca-se enfatizar ações baseadas em um novo enfoque educativo. Este novo enfoque exige que compreendamos que o saber dos extensionistas não deve e não pode ser o saber dominante e, muito menos, o único saber válido. Ao contrário, a intervenção dos agentes deve ser respeitosa para com o conhecimento e às culturas locais, e partir sempre de um adequada estudo e compreensão sobre a coevolução entre os homens de uma dada comunidade e seu meio ambiente. Desde a lógica da nova extensão rural, se reconhece, portanto, que agricultores e técnicos têm igual papel nos processos de construção de estratégias de desenvolvimento, assim como na adaptação de tecnologias adequadas para as situações locais e específicas, onde atuam. Se faz necessário, portanto, integrar os aspectos culturais, socioeconômicos e ambientais, característicos de cada realidade local, no desenho de agroecossistemas sustentáveis e de distintos estilos de agriculturas.

Isto nos leva à necessidade de construir formas de trabalho capazes de potencializar processos de desenvolvimento endógeno, valorizando o uso dos recursos localmente disponíveis, com atenção para o uso sustentável dos recursos naturais. Deste modo, as estratégias de desenvolvimento conduzidas pela extensão que propomos e que estamos levando à prática no Rio Grande do Sul, não podem se orientar simplesmente por metas de crescimento econômico, de produção e de produtividade. Estas estratégias devem assumir uma orientação pluridimensional e buscar objetivos que incluam desejos e necessidades de mudança nas condições econômicas, sem perder de vista as condições de segurança alimentar, melhores níveis de educação, de saúde e de bem-estar, contribuindo, ao mesmo tempo, para o alcance de melhores patamares de eqüidade social e de sustentabilidade ambiental dos sistemas agrícolas.

6 – COMO CONCLUSÃO: algumas ações gerais da EMATER/RS

No ano de 2000, a empresa ofereceu seus serviços gratuitos de Assistência Técnica e Extensão Rural a 582.751 pessoas do meio rural, entre homens, mulheres e jovens rurais, que foram beneficiados por algum tipo de apoio.

Em alguns programas houve uma maior concentração de esforços, como foi o caso do Programa RS Rural, que tem por objetivos a diminuição da pobreza e à recuperação e preservação ambiental. Através deste programa, em suas diferentes modalidades, foram elaborados 4.140 projetos, para cerca de 50.000 famílias. Como parte deste programa, a EMATER/RS atuou ainda com 938 famílias de pescadores artesanais, 2.091 famílias indígenas e 1.994 famílias de agricultores assentados pelo programa de Reforma Agrária. Mais de R$ 100.000.000,00 em crédito rural foram disponibilizados pelo Governo do Estado e utilizados por estas famílias.

Outro programa de impacto, que está em desenvolvimento no Rio Grande do Sul, é o Pró-Guaíba. Este programa é destinado a projetos em Microbacias Hidrográficas, na bacia do Rio Guaíba, para financiamento à práticas de recuperação ambiental e produção agrícola de base ecológica. Foram realizadas ações em 198 microbacias, em 131 municípios.

Ademais, a EMATER/RS atuou em programas de capacitação de agricultores, realizando mais de 700 pequenos cursos, com a participação de, aproximadamente, 15.000 agricultores.

Sabemos que é ainda muito cedo para falar de resultados. Com certeza os resultados mais relevantes, que contemplam mudanças institucionais e socioambientais, são lentos. Sabemos que estes exigem tempo de maturação e incorporação que, especialmente numa sociedade e numa empresa complexa, onde não faz muito tempo a única alternativa era a da Revolução Verde, evoluirão a um rítmo compatível com o tamanho do desafio. Apesar disso, alguns sinais desta mudança já podem ser observados, em diferentes regiões do estado do Rio Grande do Sul.

Podemos destacar que o debate sobre o novo modelo de desenvolvimento e a correspondente proposta de mudança no modelo de agricultura está presente em todos os municípios do estado e já foram registradas mais de cem experiências em Agroecologia. Um estudo, ainda não concluido, mostra que já existem mais de trinta feiras de produtos ecológicos no estado. Há, pelo menos, 3.770 agricultores(as), em 170 municípios, produzindo produtos ecológicos para o mercado, ainda que ocupando pequenas áreas.

Além disso, temos já um grande número de atividades em produção de plantas medicinais, sementes e tubérculos "crioulos", recuperados de antigas bases da biodiversidade local. Galinhas e porcos criados ao ar livre também aparecem como parte do novo estilo de produção. Merece destaque a ocorrência de um importante processo de transição agroecológica na produção leiteira. De forma inédita e inovadora, centenas de agricultores estão manejando suas vacas mediante sistemas de pastoreio rotativo, sem o uso de remédios químicos, adotando o uso de medicamentos localmente desenvolvidos, a maioria deles a partir de extratos de plantas.

Nossa expectativa é que um grande salto até uma nova agricultura e um novo estilo de desnvolvimento rural no Rio Grande do Sul ocorra nesta segunda metade do ano de 2001, o que responderá às exigências crescentes dos consumidores, e aparecerá como conseqüência do interesse de produtores e de técnicos em contribuir no processo de mudança em curso. Entretanto, esta é apenas uma maneira de medir os resultados. No campo, encontramos outras mudanças significativas, na forma de agir dos extensionistas, nos processos participativos de planejamento das ações para o desenvolvimento rural sustentável, além de um grande número de ações potencializadoras da melhoria da qualidade de vida das populações rurais.

Os fatos demonstram, que a Extensão Rural do Rio Grande do Sul já não é a mesma. Como aparato vinculado ao setor público, através de convênio com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, a EMATER/RS é, com certeza, a única empresa da América Latina com esta dimensão estrutural, com esta nova concepção teórica-metodológica e com este novo modelo de ação. Acreditamos, de forma convicta, que as mudanças que estão em processo levarão a extensão rural de nosso estado a se consolidar como paradigma de uma nova extensão rural: uma Extensão Rural Agroecológica. E, dependendo do contexto político nacional que se estabeleça nos próximos anos, esta nova forma de estrutura e de ação experimentada pela Extensão Rural gaúcha poderá se transformar, assim esperamos, em um exemplo a ser seguido pelo extensionismo do setor público brasileiro.

 
 

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