Manguezal
A costa brasileira apresenta, numa superfície
de cerca de 20 mil km2, desde o Cabo Orange, no Amapá, até o município
de Laguna, em Santa Catarina, uma estreita faixa de floresta chamada manguezal
ou mangue. Este é composto por um pequeno número de espécies de árvores e
desenvolve-se principalmente nos estuários e na foz dos rios, onde há água
salobra e local semi-abrigado da ação das ondas, mas aberto para receber a água
do mar. Trata-se de ambiente com bom abastecimento de nutrientes, onde, sob os
solos lodosos, há uma textura de raízes e material vegetal parcialmente
decomposto, chamado turfa. Nos estuários, os fundos lodosos são atravessados
por canais de marés (gamboas), utilizados pela fauna para os seus
deslocamentos entre o mar, os rios e o manguezal.
O Brasil tem uma das maiores extensões
de manguezais do mundo. Menosprezado no passado, pois a presença do mangue
estava intimamente associada à febre amarela e à malária, enfermidades já
controladas, a palavra mangue, infelizmente, adquiriu o sentido de desordem,
sujeira ou local suspeito. O manguezal foi durante muito tempo considerado um
ambiente inóspito pela presença constante de borrachudos, mosquitos pólvora e
mutucas. As florestas escuras, barrentas, sem atrativos estéticos e infectadas
por insetos molestantes fez com que, até meados da década de 70, se pensasse
que o progresso do litoral marinho fosse equivalente a praias limpas, aterros
saneados, portos confinados por concreto e experimentos de cultivo para
aproveitar os terrenos dos velhos manguezais. Embora seja grande a importância
econômica e social do manguezal, este enfoque foi em parte responsável pela
construção de portos, balneários e rodovias costeiras em suas áreas,
diminuindo a extensão dos mangues.
Ao contrário de outras florestas, os
manguezais não são ricos em espécies, porém destacam-se pela grande abundância
das populações que neles vivem. Por isso podem ser considerados um dos mais
produtivos ambientes naturais do Brasil.
Somente três árvores constituem as
florestas de mangue: o mangue vermelho ou bravo, o mangue branco e o mangue
seriba ou seriuba. Vivem na zona das marés, apresentando uma série de adaptações:
raízes respiratórias (que abastecem com oxigênio as outras raízes enterradas
e diminuem o impacto das ondas da maré), capacidade de ultrafiltragem da água
salobra e desenvolvimento das plântulas na planta materna, para serem
posteriormente dispersas pela água do mar. A flora do manguezal pode ser
acrescida de poucas espécies, como a samambaia do mangue, a gramínea Spartina,
a bromélia Tillandsia usneoides, o líquen Usnea barbata (as
duas últimas conhecidas como barba de velho e muito semelhantes entre si) e o
hibisco.
No Norte do País, as espessas florestas
de mangue apresentam árvores que podem atingir 20 metros de altura. Na região
Nordeste há um tipo de manguezal conhecido como "mangue seco", com árvores
de pequeno porte em um substrato de alta salinidade. Já no Sudoeste brasileiro,
apresenta aspecto de bosque de arbustos.
O chão escuro do mangue é coberto por
água na preamar. Ricas comunidades de algas crescem sobre as raízes aéreas
das árvores, na faixa coberta pela maré, e, entre elas, encontram-se algas
vermelhas, verdes e azuis. Os troncos permanentemente expostos e as copas das árvores
são pobres em plantas epífitas. Bactérias e fungos decompõem as folhas do
manguezal e a cadeia alimentar é baseada no uso dos detritos resultantes desta
decomposição.
Quanto à fauna, destacam-se várias espécies
de caranguejos, formando enormes populações nos fundos lodosos. As ostras,
mexilhões, berbigões e cracas se alimentam filtrando da água os pequenos
fragmentos de detritos vegetais, ricos em bactérias. Há também espécies de
moluscos que perfuram a madeira dos troncos de árvores, construindo ali os seus
tubos calcários e se alimentando de microorganismos que decompõem a lignina
dos troncos, auxiliando a renovação natural do ecossistema através da queda
de árvores velhas, muito perfuradas.
Os camarões também entram nos mangues
durante a maré alta para se alimentar. Muitas das espécies de peixes do
litoral brasileiro dependem das fontes alimentares do manguezal, pelo menos na
fase jovem. Entre eles estão bagres, robalos, manjubas e tainhas. A riqueza de
peixes atrai predadores, como algumas espécies de tubarões, cações e até
golfinhos. O jacaré de papo amarelo e o sapo Bufo marinus podem, ocasionalmente,
ser encontrados.
Aves típicas são poucas, devido à
pequena diversidade florística; entretanto, algumas espécies usam as árvores
do mangue como pontos de observação, de repouso e de nidificação. Estas aves
se alimentam de peixes, crustáceos e moluscos, especialmente na maré baixa,
quando os fundos lodosos estão expostos. Entre os mamíferos, o coati é
especialista em alimentar-se de caranguejos. A lontra, hábil pescadora, é freqüente,
assim como o guaxinim.
Os manguezais, usados pelos homens dos
sambaquis há mais de 7 mil anos e, a partir de então, pelas populações que
os sucederam, fornecem uma rica alimentação protéica para a população litorânea
brasileira. A pesca artesanal de peixes, camarões, caranguejos e moluscos é
para os moradores do litoral a principal fonte de subsistência.
Embora protegido por lei, o manguezal
ainda sofre com a destruição gratuita, poluição doméstica e química das águas,
derramamentos de petróleo e aterros mal planejados.