Canudos
- A luta pela utopia real
“El hombre era alto y tan flaco que parecía siempre de perfil.”
Eis o líder Antônio Conselheiro, no romance de Mario Vargas Llossa, La
Guerra del fin del mundo. Não era nem tão alto nem tão magro. No entanto
a descrição é perfeita. Llosa captou bem o espírito do Conselheiro, ao esboçar-lhe
os traços físicos. Um homem ascético, um místico com pudor de santidade, líder
que não guiava o povo mas irradiava paz e confiança. Um homem manso, mas que
vai levantar-se contra as injustiças. Que não decreta a guerra nem a ela
incita, mas endurece quando chega a batalha.
Antônio Conselheiro é um dos personagens mais caluniados da história
do Brasil. Fanático, louco, supersticioso, traidor, ignorante e arruaceiro -
dos documentos oficiais estes rótulos passam aos livros de história. Apenas
recentemente começou a mudar a imagem falsa que construíram para Conselheiro.
Nasceu no Ceará, em 1828, na vila de Quixeramobim. Aos seis anos fica órfão
de mãe. Antes de completar oito o pai casa-se de novo e o menino Antônio
Vicente Mendes Maciel será muito maltratado pela madrasta. Torna-se tímido e
lembrará a infância como um “período de dor”, mas aprende aritmética,
geografia, latim e francês.
Aos vinte e sete anos, com a morte do pai, toma conta da venda da família.
Está cheio de dívidas que paga a duras penas. Casa-se com uma prima. Abandona
o comércio, vai ser empregado e finalmente juiz de paz em Campo Grande. Depois
vive em Ipu, onde se torna requerente do fórum. O casamento não dá certo e
sua mulher foge com um soldado.
A partir daí Antônio Conselheiro começa a perambular pelo sertão.
Conhecia o sofrimento do povo, a quem defendia no fórum. Nas suas andanças
entra em contato íntimo com a miséria. Liga-se à Joana Imaginária, escultora
de imagens em barro e madeira, e o misticismo vai tomando conta da sua vida. Com
Joana tem um filho e deixa ambos em 1865. Andando, vai para Pernambuco e
Alagoas. Passa por Segipe e chega à Bahia.
Já não vaga à toa. Vai construindo cemitérios e igrejas de elegante
arquitetura, a pedido dos padres. A imagem já é a do conselheiro que entra
para a história: uma bata azul, barbas grisalhas, alpercatas e bordão. Come
frugalmente - frutas e verduras.
E prega.
É quando começam a vigiá-lo, porque embora seu discurso seja católico,
diverge um tanto dos padres. Percebe que os padres estão sempre do lado dos
fortes e ricos; fica com os humildes. Uma espécie de anarquista místico:
figura impressionante com sua barba e bata azul, chapelão, bolsa com livros e
caderno onde anota o que pensa. Fala contra o latifúndio, diz que a salvação
do homem virá pelas suas obras e declama os evangelhos em latim.
Discursa vibrando o bordão, escandindo as palavras. Não demora, é
preso: o povo já o ouvia atentamente, era um perigo à ordem. Em 1876, não
tendo do que acusá-lo a não ser de falar a verdade, denunciam-no como
assassino da mãe e da esposa.
Inventa-se uma história fantástica para explicar como ele matou a mãe:
ela o havia convencido a simular uma viagem e esconder-se, para comprovar a traição
da mulher. Assim fez. Escondido, viu um vulto chegar à sua casa e preparar-se
para pular a janela. Seria o amante da mulher: Conselheiro matou--o a tiros. Em
seguida entrou e assassinou a mulher. Quando foi conhecer o amante, virando o
cadáver, descobriu que era sua mãe , autora da intriga para que ele matasse a
mulher.
A partir daí começam a explicar a peregrinação de Antônio Maciel
pelos sertões: estaria alucinado e pretendia compensar o assassinato de sua mãe
com sua loca pregação. A história, evidentemente mentirosa, pois sua mãe
morreu em 1834, quando ele tinha seis anos, e a sua esposa estaria viva em
Sobra, serviu para enviá-lo preso a Salvador. Nunca quis falar sobre o
“crime” às autoridades, preferindo responder a qualquer pergunta com sua
pregação mística, o que aumentava a crença de que era mesmo assassino e .
sobretudo, louco.
A prisão de Antônio Conselheiro inquieta o povo. As autoridades baianas
mandam-no para o Ceará, com a recomendação de não o deixarem voltar a Bahia,
onde os padres não o viam com bons olhos. Em Fortaleza, para onde o remetem,
chega maltratado pelas torturas. É a própria imagem de um santo do sertão:
magro, seco, vegetariano, dormindo no chão duro e falando que é preciso obter
o céu aqui na terra.
Finalmente em 1º de julho de 1876 libertam-no. De tudo, ele tira um
ensinamento: é pior difamar do que agredir um homem. Nas sua prédicas, ao
comentar a injusta prisão, cita Santo Agostinho: “Mas ofenderam Nosso Senhor
Jesus Cristo seus inimigos d’Ele murmuraram do que quando o crucificaram.”,
como relata Edmundo Moniz em A guerra social de Canudos.
Livre ele volta à Bahia. Agora tem uma missão. Fez o seu aprendizado e
soube o preço. Não é um louco e menos um vagabundo, com a “tendência
acentuada para a atividade mais inquieta e mais estéril, o descambar para a
vadiagem mais franca”, como afirma preconceituosamente Euclides da Cunha.
É um líder do povo.
Deus e o diabo pelejam na terra do sol.
A terra é o próprio inferno, terra do cão, por isso ele sempre vence.
A batalha tem que ser ganha trazendo o céu para a terra. Então venceremos o
Satanás.
Não é coisa de doido.
Não é fanatismo.
É o povo que entende da pregação de Antônio Conselheiro, quando ele
propõem um cristianismo primitivo
nos sertões da Bahia. O povo viu os bons morrerem pela independência , ali
mesmo na Bahia, e ela não veio, ou chegou para os ricos continuarem explorando.
Assistiu o 13 de maio e continuou escravo: não tinha mais pelourinho, mas o
jagunço do senhor de terras substituiu mais brutalmente o
capitão-de-mato, expulsando o lavradordas roças. E por fim, a malfadada
republica, coisa de ateus e maçons, confirmando o mando do coronel e garantindo
suas terras ociosas.
Essa visão simples e mitificada não é, apesar das aparências,
alienada ou mística. Ela trata de entender, sentir e viver criticamente uma
situação que não se pode teorizar, pela própria opressão social e política
da sociedade brasileira. Não sabendo explicar teoricamente, não sendo possível
planejar politicamente , aplica uma espécie de “crítica mágica”
para repudiar a realidade. O misticismo no caso, deixa de ser uma alienação
para ser a única arma do sertanejo.
Esse peculiar “sentir religioso”
é uma forma de separar-se ideologicamente das classes dominantes.
Lembrando Feuerbach, Rui Facó, em Cangaceiros e fanáticos, diz que:
“Ao
elaborarem variantes do cristianismo, as populações oprimidas do sertão
separavam-se ideologicamente das classes e grupos que as dominavam, procurando
suas próprias vias de libertação. As classes dominantes, por sua vez,
tentando justificar o seu esmagamento pelas armas - e o fizeram sempre -
apresentavam-nas como fanáticos, isto é, insubmissos religiosos extremados e
agressivos.”
O sertanejo criou sua religião própria, citando ainda Facó, que lhe
serve de instrumento para a luta libertária. A igreja, por outro lado,
estabelece uma “religião oficial”, denunciando estes “desvios” libertários
das massas como ofensa aos seus dogmas, quando na verdade ofendem essencialmente
o sistema de poder. Em Canudos, como em muitos outros movimentos, a igreja fez
“o papel de polícia ideológica no meio rural, antecipando-se às forças
repressivas”.
Os sertanejos que se uniram em Canudos tentaram construir uma sociedade
socialista, segundo Edmundo Moniz:
“...
tendo em vista o fato da burguesia unir-se aos latifundiários quando se apossou
do poder político com a proclamação da República em vez de efetivar a
reforma agrária, tarefa histórica que lhe competia realizar.”
Um dos dramas do povo brasileiro é essa incapacidade de dar o passo
decisivo nos grandes momentos históricos. Ao separar-se o Brasil de Portugal as
classes dominantes afastaram o povo da luta, em duras repressões, e por isso
perdeu-se a oportunidade de liquidar o escravismo já em 1822 ou 24, como
propunha, embora dubiamente, José Bonifácio. Perderíamos duas oportunidades
de modernizar a economia brasileira: em 13 de maio de 1888 e no 15 de novembro
de 1889, quando não se promoveu uma mais justa distribuição de terras e
controle do poder absoluto dos latifundiários.
Canudos será a resposta mais trágica do povo sertanejo, tentando
livrar-se da condição miserável a que era submetido pelo grande latifúndio.
Nesse sentido, é movimento raro na história do Brasil: o único de que não
participam as elites intelectuais ou políticas. Todo ele é feito por gente do
povo, com idéias próprias, elaborando um cristianismo peculiar que, ao contrário
da visão predominante, é extremamente lúcido, já que a consciência crítica
condiciona-se à sua realidade social, sua fonte geradora.
A ideologia de Canudos, portanto, tem que ser entendida a partir de uma
realidade material. Porém, intelectuais e jornalistas ligados as classes
dominates tentaram transformar essa força original e lúcida em expressão fanática,
destacando seu discurso místico.
Poucos marxistas, inclusive, percebem que Canudos nega a religião como
“um sol fictício”, como dizia Marx, para se mover “em torno de si
mesmo” . Os intelectuais que reportam e explicam Canudos fazem-no com a visão
de sua classe; são incapazes, justamente por pertencerem às classes
dominantes, de entender a inversão revolucionária que os sertanejos fizeram -
a harmonia entre seus reais interesses de classe e uma ideologia específica. Da
mesma forma são incompetentes ou insensíveis para comover-se com a condição
humana do sertanejo, visto como o “outro”, o “marginal”, o “jagunço”,
o “bandido” ou por fim, como todos eles entendem, inclusive Euclides da
Cunha, o inimigo.
Em meio a esse quadro, Antônio Conselheiro vai pelos setões, pregando e
convencendo o povo. Fala de Deus e da religião, de forma que o povo entende que
também se fala de justiça e igualdade. Fala da possibilidade de um novo mundo,
livre da exploração e miséria. Cita, desmentindo ser um ignorante, s grandes
utópicos, como Tomás Morus, por exemplo.
Prega a obediência civil como reação às leis injustas.
Acontece que no sertão todas as leis são injustas: a lei é a do
senhor latifundiário. A “lei civilizada” é ficção para uso e deleite dos
intelectuais da elite, influenciados por estranhas “ciências” européias
que os induzem a acreditar que mestiços e pobres são uma raça inferior.
Desde 1888 Conselheiro vinha sendo seguido por multidões de ‘gente
inferior” - ex-escravos, vagabundos, marginalizados. Uma de suas primeiras ações
nesse período acontece em Bom Conselho, quando reúne o povo, faz uma breve prédica
e manda arrancar o edital de cobrança de impostos. O povo obedece, queima o
edita e faz festa, com foguetes e banda. Começa a trajetória propriamente política
do Conselheiro. Uma patrulha de 35 soldados tente prende-lo mas é dispersada
pelo povo. Daí para frente será sempre perseguido como um perigo social. É
então que depois de muito ameaçado leva seu povo, e todos os que chegam, para
o Belo Monte e ali funda a sua utopia.
Bem real, enquanto durou.
A cidade foi levantada em 1893, perto do rio Vaza-Barris. Chamava-se Belo
Monte, mas passou para a historia como Canudos, nome dado pelos inimigos,
referindo-se aos bambus que ali cresciam, como canudos, e, aos mesmo tempo
negando-lhe o carisma de seu verdadeiro nome. A notícia correu pelos setões.
Fazendas e vilas despovoavam-se porque em Belo Monte “havia descido o céu”.
Não tinha polícia do governo e o trabalho era igual para todos. Não se
pagavam impostos e bastava levantar casa onde o Conselheiro indicasse. Toda a
produção era distribuída de acordo com as necessidades de cada um.
Nunca houve roubo.
Nunca houve opressão.
Todos eram livres e iguais.
Todos trabalhavam.
E rezavam, dando graças ao Senhor Bom
Jesus.
Canudos teve 35 mil habitantes. De longe, parecia um presépio: as casas
amontoavam-se, desordenadamente. Só havia uma rua
e, no seu início, a primeira igreja, onde Antônio Conselheiro pregava.
Posteriormente começou-se a construir outra capela.
Muitas vezes apresentou-se a cidade de Belo Monte como uma prova da
incapacidade dos sertanejos, mas tudo nela, como demonstra bem Edmundo Moniz em A
guerra social de canudos, tinha razão de ser. A aparente confusão das
casas obedecia uma estratégia de defesa, pois o Conselheiro sabia que o governo
da República os atacaria. As casas eram dispostas de forma impedir uma invasão
de tropas regulares, servindo cada uma de trincheira para a outra.
Canudos não tinha cadeia. Os presos, raros os inadaptados ao regime de
igualdade, eram detido em casas comuns e depois expulsos. Antônio Conselheiro
teve o cuidado de verificar, antes de decidir-se pelo local, que para chegar a
Belo Monte qualquer invasor teria de atravessar caminhos difíceis e próprios
para emboscadas.
Ali erigiu sua utopia.
Uma utopia real, que nunca teve polícia ou cobrador de impostos. Onde,
ao contrário do sertão, havia duas escolas para as crianças. Onde as decisões
eram tomadas à noite, após o trabalho, com a participação de todos.
Plantavam-se e criavam-se cabras.
Uma das fontes de renda de comunidade foi a venda das peles de cabra, que
a Republica exportava, inclusive. A importância da cabra na economia de
Canudos, alias, é um estudo ainda a ser feito. Dava o alimento - leite e carne
- e o couro para roupas e sapatos. O excedente vendia-se a comerciantes que o
levavam para Salvador: a exportação do couro de cabra chegou a ser um dos mais
importantes itens da economia baiana. Dos chifres desses animais os sertanejos
faziam pentes, bijuterias, piteiras para cachimbos e, quando chegou a guerra, até
balas de munição.
Canudos era um oásis no deserto da fome brasileira: ali não havia miséria
alguma. Enfim era um magnífico exemplo para o povo e não podia ser aceito
pelas classes dominantes. Era prova de que é possível,
e quem o provava era um bando de “fanáticos” e mestiços, tendo um
estranho profeta maluco a guiá-los.
Se Canudos não fosse destruída outros
Belos Montes surgiriam pelo sertão baiano. Começou então uma campanha
contra a comunidade sertaneja. Primeiro foram os padres, para lá enviados na
tentativa de convencer os “conselheiristas” de que viviam em pecado e
heresia. Embora fossem admitidos e tivessem liberdade de pregar tanto quanto o
Conselheiro, ninguém os ouvia. Eles chegavam prometendo o céu para depois da
morte, mas o povo de Canudos já o tinha transferido para a terra ,
expulsando o diabo e vivendo com recato e pudor, livre e satisfeito nas suas
necessidades básicas; os padres eram gordos e gordurosos, defensores dos coronéis
que defloravam as filhas do povo e deixavam o povo morrer de fome.
Com uma utopia tão real não houve discurso que vencesse. Em alguns
sentidos Canudos antecipou-se às conquistas que, ainda hoje, são de pequenos
grupos sociais. Por exemplo, a mãe solteira era bem acolhida e o casamento era
uma opção: o amor livre era respeitado e a mulher que não quisesse casar não
era obrigada a abster-se sexualmente. Numa sociedade livre como a de Canudos
isso era normal, e foi aproveitado pelo cinismo dos padres para denunciar a
comunidade como depravada. Mesmo quando se sabia que os padres do interior
baiano, na época, eram amamcebados e cheios de filhos que raramente conheciam.
Nunca houve estupro ou violência sexual em Canudos, até a chagada das
tropas do governo para “civilizar” o sertão. Quando se dizia a Antônio
Conselheiro que uma moça solteira se entragara-se a um homem, ele respondia com
seu pitoresco comentário: “Surgiu o destino de todas; passou por baixo da árvore
do bem e do mal.”
Ninguém atirava a primeira pedra.
Numa comunidade pacífica, onde ninguém atira pedras, isolada em meio ao
sistema capitalista brutal como o existente no Brasil, o poder logo atira
bombas. As bombas já tinham começado a atingir Antônio Conselheiro dez anos
antes, em 1887, quando o bispo da Bahia dizia que ela estava “pregando
doutrinas subversivas e fazia grande mal a região e ao Estado”.
Em 1887 o Estado a que ele “fazia mal” era monárquico. No entanto um
dos pretextos para se destruir Canudos foi o seu monarquismo, não faltando a
denúncia de que Conselheiro recebia dinheiro e armas de fora do Brasil para
derrubar a República. Durante a guerra chegou-se a noticiar que ele tinha
oficiais austríacos comandando seus homens.
O pretexto para a guerra contra Canudos foi a pretensa invasão de uma
vila, por Conselheiro, para conseguir madeira. Na verdade, por trás de tudo, o
motivo real era destruir um “mau exemplo” de liberdade popular. Havia também
o interesse político no episódio, favorecendo as disputas entre os
republicanos.
Canudos enfrentou quatro expedições militares. A cada uma delas,
repelida, seguiu-se outra mais forte, com mais soldados. Na verdade são cinco
expedições, pois a ultima, teve uma derrota, retrocedeu e rearmou-se para
finalmente destruir Canudos.
A primeira expedição, com cem soldados comandados pelo tenente Pires
Ferreira, partiu de Salvador em 7 de novembro de 1896. Dirigiu-se a Juazeiro,
que pretensamente seria invadida por Conselheiro em busca de madeira. Não houve
invasão alguma e o normal seria a volta dos soldados, mas o tenente resolveu
encontrar os “inimigos” pela estrada do Uauá, pretendendo chegar até
Canudos. Desinformado sobre Canudos e seu líder, não acata e acha absurdas as
advertências do povo de Juazeiro de que sua missão é suicida. Na tarde de 12
de novembro de 1896, antecipando em um dia
a saída para não começar a campanha contra os “fanáticos
supersticiosos” no dia 13, começa, com dois guias, a marcha pelos duzentos
quilômetros que o separam de Canudos.
No dia 19 está em Uauá com seus soldados. Ao despertar, na manhã
seguinte, percebe uma multidão de “conselheiristas” que chegam de Canudos
- mulheres, velhos
e crianças em procissão, cantando e rezando - para fazer-lhe um apelo
pela paz.
Porém, pensando que fosse uma cilada a tropa abre fogo. Uma pequena
guarda que acompanhava a procissão reagiu com seus trabucos antiquados. Os
caboclos comandados por Quinquin Coiam atacam os soldados com foices e paus. Os
soldados se apavoram e gastam toda a munição, trava-se uma luta corpo a corpo
durante cinco horas. Morrem dez soldados, um sargento e os dois guias, ficando
vinte feridos. O médico militar enlouquece, impressionado com a luta.
Essa primeira tentativa absurda de “conquistar” Canudos, terminada em
rápida derrota, irritou as autoridades. As expedições seguintes seriam
definitivas e bem armadas. Tornava-se uma ‘questão de honra”: em todo país
a notícia de que um bando de fanáticos vencera a tropa do governo causava críticas
e inquietação. Dentro do Exército nascia um sentimento de desforra: era
inadmissível ser derrotado por uns pouco jagunços.
Os militares que fariam a guerra contra o Conselheiro pouco sabiam de
Canudos. Tanto da sua situação geográfica e física -
cinco mil casas “atravancadas” sobre várias colinas
- quanto do seu tipo de
comunidade. Avaliavam mal o significado dos duzentos quilômetros que separavam
esta vila da estação ferroviária, em Queimadas, sem nenhuma intermediária.
Dirigiam-se para lá tropas de todo o Brasil, para combater num terreno
muito diferentes do que conheciam. As dificuldades de abastecimento agravavam-se
com o precário transporte por terras onde os sertanejos emboscavam. A sede
central desse exército ficava em Salvador, a seiscentos quilômetros de
Canudos.
Enquanto esse exército dependente de marchava, sofrendo fome algumas
vezes, a divisão de tarefas em Canudos facilitava os preparativos para a resistência.
O tipo de luta dos sertanejos -
guerrilha, emboscada, tocaia, ataques com pouca gente seguidos de fuga
- permitia-lhes usar armas
leves e antiquadas, tirando grande proveito dos facões e foices. Podiam
fabricar ferrões e lanças em suas forjas e consertar nas suas oficinas as
armas de fogo.
A segunda expedição, chefiada pelo major Febrônio de Brito, teve
trezentos soldados do exército e cem da polícia militar baiana. A confusão se
estabeleceu de início: tanto o governador da Bahia como o comandante do
distrito militar do governo federal davam ordens, pretendendo cada um impor sua
autoridade. Aos quatrocentos soldados Febrônio conseguiu juntar mais 250, além
de metralhadoras e canhões, e em 25 de novembro de 1896 partiu para Monte
Santo, de onde atacaria Canudos.
Essa expedição não tinha marchado 25 quilômetros quando foi retida:
uma nova tropa, agora chefiada pelo coronel Pedro Tamarindo, deveria unir-se a
ela.
Depois de várias intrigas políticas entre o governados Luís Viana e as
autoridades federais, só em 25 de dezembro de 1896 o major Febrônio chegou a
Monte Santo. Tinha razão seiscentos soldados, dois grandes canhões e duas
modernas metralhadoras. Organiza-se e somente em 12 de janeiro de 1897 marcha
para vencer Antônio Conselheiro.
Seria fácil: por isso deixou um terço da munição em Queimadas e
recusou a ajuda em mantimentos de alguns fazendeiros. Marchava para uma
“guerra padrão”. Em três colunas, com artilharia pesada entrou na
caatinga. Dois dias depois, com os soldados já exaustos verificou surpreso que
a “munição de boca” tinha acabado. Estavam a dez quilômetros de Canudos e
seria perigoso voltar, teriam que avançar, combater e vencer, para escapar da
fome.
O sol baiano queimava. Carros de bois ficavam sem tração: os tropeiros
contratados fugiram levando os animais. Os soldados tiveram que empurrar os
carros. Era 15 de janeiro de 1897. De repente, viram o inimigo: sertanejos
entrincheirados nas pedras, insultando-os:
-
Avança, fraqueza do governo!
O susto foi grande. Os oficiais tiveram trabalho para impedir a debandada
da tropa, mas o canhão, que pela primeira vez soou naquelas terras, confundiu
momentaneamente os sertanejos. No entanto, comandados por João Grande, um negro
esperto e corajoso, logo aprendeu a evitar o bombardeio. O combate durou cinco
horas. Às 15 horas os sertanejos silenciaram seus trabucos e desapareceram.
Ignorante das táticas dos sertanejos, o major Febrônio acreditou ter
ganho a batalha: afinal conquistaram a posição, mas veio o dia seguinte, 16 de
janeiro, e de surpresa os sertanejos atacaram com armas brancas. A luta foi
entre facões e punhais, foices e baionetas. Raros tiros à queima roupa. Os
oficiais perderam o controle sobre os soldados. Não tardou os sertanejos
“fugiram”. Novamente o major Febrônio entendeu ter havido vitória ao seu
lado.
Não demorou a perceber o engano: estavam cansados, não haviam
progredido realmente, e, o mais grave, tinha gastado quase toda a munição,
ficando praticamente sem projéteis para a artilharia. Assim, estavam
impossibilitados de conquistar Canudos. Não havia saída: teriam que se
retirar, pois um novo confronto com os sertanejos poderia ser o fim. A retirada
foi terrível. O caboclo Pageú,
que ficaria famoso, tornou ainda
mais sofrida a figa oficial, atacando de surpresa onde o terreno dificultava a
caminhada da tropa.
Finalmente os sertanejos encurralaram os soldados em Bendegó de Baixo.
Por pouco não conseguem exterminar a tropa. Os fugitivos chegam a Monte Santo
esfarrapados, famintos, carregando os feridos. A população recebe-os com visível
desprezo. A notícia se espalha: Conselheiro pôs a “fraqueza do governo” a
correr.
É então que entra em cena um dos mais trágicos personagens dessa
guerra contra o povo do sertão. O coronel
Moreira César foi escolhido para chefiar a terceira expedição contra Canudos.
Truculento, epiléptico, frágil e obcecado, é um dos mais conceituados
militares republicanos florianistas, justamente porque exerceu essas
“qualidades” reprimindo os federalistas de 1893, em Santa Catarina.
Em 3 de fevereiro de 1897 deixa o Rio, com destino a Salvador, de onde
partirá para a caatinga, na tentativa de pôr fim ao reinado de Antônio
Conselheiro. Chefiará uma grande tropa : terá 16 milhões de tiros disponíveis
para o mais moderno armamento que o exército brasileiro dispõe. Leva oficiais
experimentados e muito dinheiro. Não pode falhar, pensa o governo.
No entanto, repete todos os erros de Febrônio. Seus soldados usam as
tradicionais fardas azul-vermelhas, destacando-se como alvo fácil na caatinga.
O pano do uniforme prende-se aos espinhos do mandacaru, dificultando os
movimentos, enquanto os sertanejos protegem-se com suas roupas de couro de
cabra. Além de tudo, obcecado por um ataque global, Moreira César não leva em
conta a extrema mobilidade dos sertanejos, que aparecem e somem entre o mato,
evaporando em meio às pedras.
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