Civilização do açúcar
Antes de ter sido um país identificado com o café, o Brasil
assinalou sua presença na economia mundial pela produção de
açúcar. Tanto assim que palavras como "melaço" e "mascavo"
ou "mascavado", mesmo que transmudadas em formas
anglicizadas (molasses, muscovado), logo se tornaram
correntes no vocabulário do comércio internacional.
Entende-se por ciclo do açúcar a fase da história do Brasil
marcada pela produção de açúcar nos engenhos nordestinos.
Começou pouco depois da descoberta e acarretou profundas
conseqüências sociológicas e culturais, até o século XVIII.
As formas de vida social, política e cultural decorrentes da
economia açucareira no Nordeste constituíram matéria de
numerosos estudos, depois do livro pioneiro de Gilberto
Freire, Casa grande & senzala (1933).
Origens. Durante a Idade Média, as poucas quantidades de
açúcar consumidas na Europa procediam do Oriente, de onde é
nativa a cana-de-açúcar, sendo o comércio desse artigo
monopolizado por Veneza. Em meados do século XV a cana foi
introduzida pelos portugueses na ilha da Madeira e pelos
espanhóis nas Canárias. Seu cultivo prosperou tanto que o
açúcar das novas possessões ibéricas passou a chegar à
Europa a preços muito baixos, popularizando o consumo de um
produto que até então se limitara às moradias dos ricos, aos
hospitais e aos boticários, que o utilizavam apenas como
base de preparados farmacêuticos.
Estimulados pelos bons frutos colhidos com a concorrência à
república veneziana, os portugueses trouxeram para o Brasil,
logo depois da descoberta, as primeiras mudas de cana. Da
capitania da qual se originaria São Paulo, a de São Vicente,
por onde a planta entrou na colônia e onde se estabeleceram
os primitivos engenhos, a cana-de-açúcar se irradiou sem
demora por todo o litoral brasileiro.
Implantação dos engenhos. O primeiro engenho de açúcar de
que se tem notícia no Brasil foi instalado em São Paulo por
volta de 1532. Três anos mais tarde já havia alguns outros
funcionando em Pernambuco, onde iriam assumir extraordinária
importância. Depois de 1550 começou a produção de açúcar na
Bahia, cujos primeiros engenhos foram destruídos pelos
índios. Na ilha de Itamaracá PE, em 1565, a produção já era
florescente, e na década seguinte foram instalados os
primeiros engenhos de Alagoas. Nessa mesma época, grande
parte das várzeas e morros pouco a pouco ocupados pela
cidade do Rio de Janeiro constituía um vastíssimo canavial
que alimentava no mínimo 12 grandes engenhos.
No final do século XVI, o Brasil já se convertera no maior
produtor e fornecedor mundial de açúcar, com um artigo de
melhor qualidade que o procedente da Índia e uma produção
anual estimada em seis mil toneladas, cerca de noventa por
cento das quais eram exportadas para Portugal e distribuídas
na Europa.
Ao açúcar fabricado no Brasil abriram-se mercados
grandemente vantajosos. Sabe-se que antes de 1500 os
europeus, em geral, só adoçavam seus alimentos e bebidas com
um pouco de mel. Compreende-se assim que, ao revolucionar
com o açúcar o sistema europeu de alimentação, o Brasil
recém-descoberto tenha assegurado aos portugueses
rendimentos mais regulares ou estáveis que as riquezas do
Oriente. Também se compreende que a atenção dos portugueses,
a princípio concentrada no Oriente, se voltasse para o
Brasil. Por isso, as áreas brasileiras mais favoráveis ao
cultivo da cana foram, quase de súbito, alteradas em sua
configuração e paisagem pela presença de famílias
patriarcais, vindas de
Portugal com capitais suficientes para se estabelecerem
feudalmente.
A escolha do produto tropical não fora casual. Contava a seu
favor a experiência dos colonos portugueses com o cultivo da
cana e a manufatura do açúcar na Madeira e outras ilhas do
litoral africano. Da Madeira, de fato, a produção de açúcar
passara ao arquipélago dos Açores, ao de Cabo Verde e à ilha
de São Tomé. Essa experiência anterior teve enorme
importância para a implantação de engenhos no Brasil, pois
familiarizou os portugueses com os problemas técnicos
ligados à lavoura da cana e ao fabrico do açúcar, motivando
em Portugal, ao mesmo tempo, a invenção e o aperfeiçoamento
de mecanismos para os engenhos.
A primeira grande inovação tecnológica na indústria
brasileira do açúcar só iria ocorrer nos primeiros anos do
século XVII. Nos melhores engenhos, a cana era até então
espremida entre dois cilindros horizontais de madeira,
movidos a tração animal ou por roda-d’água. Para uma segunda
espremedura, com a qual se obtinha mais caldo, usavam-se
também pilões, nós e monjolos. O novo tipo de engenho
adotado compunha-se de três cilindros verticais muito
justos, cabendo ao primeiro, movido por roda-d’água ou
almanjarra, fazer girar os outros dois. Em caldeiras e
tachos, o caldo era a seguir fervido para engrossar, posto
em formas de barro e levado à casa de purgar para ser
alvejado. A nova técnica se difundiu por todo o Brasil, com
os engenhos mais eficientes substituindo os antigos.
Progressão das lavouras. Foi sobretudo nas zonas de clima
quente do litoral do Nordeste e do Recôncavo baiano que os
efeitos do plantio da cana se tornaram mais evidentes.
Processou-se ali a primeira transformação mais extensiva da
paisagem natural, com o desbravamento das matas e sua
substituição por grandes canaviais que penetraram ao longo
dos vales e subiram pelas encostas dos morros. Os cursos dos
rios perenes favoreceram a atuação dos engenhos, como vias
de escoamento da produção açucareira até os portos de
embarque situados na costa.
Com o incremento da produção, multiplicaram-se os bangüês e
as grandes moradias rurais dos senhores da nova riqueza
agrária. Para manter essa riqueza, instalou-se uma corrente
contínua de transplantação de escravos africanos, alojados
nas senzalas, símbolos de uma era tenebrosa da agricultura
brasileira.
A princípio, as superfícies cultivadas com cana
distribuíam-se em quinhões chamados "partidos", ora obtidos
por compra, ora por ocupação desordenada. Plantavam-se ainda
as "terras de sobejo", ou as que eram acrescentadas por
fraude, nas medições, às áreas legalmente vendidas. Além dos
escravos, com o tempo também lavradores livres passaram a
trabalhar em terras que pertenciam aos engenhos. Alguns
mantinham seus canaviais em áreas arrendadas; outros
plantavam não só cana, como ainda pequenas roças de
subsistência, constituídas principalmente por milho,
mandioca e feijão. Em geral, os lavradores livres serviam-se
dos engenhos a que estavam agregados para fazer açúcar, em
troca de uma parte da produção. Todos eles formavam, na
verdade, uma clientela de importância vital, pois só com o
concurso das lavouras subsidiárias ou dependentes muitos
engenhos podiam manter-se em atividade ininterrupta durante
os meses da safra.
Em sua grande maioria, os que se dedicavam às lavouras de
subsistência vegetavam à sombra da tolerância dos senhores
de engenho, que desse modo contavam com recursos para o
abastecimento de suas próprias famílias. Sobre os vastos
conjuntos de agregados os senhores exerciam uma autoridade
que variava conforme o sistema de trabalho ou a forma de
ocupação da terra. A condição do pessoal dos engenhos, por
conseguinte, sujeitava-se a variações jurídicas, econômicas
e sociais, escalonadas desde a dos negros escravos até a dos
lavradores dos "partidos", que moíam "cana livre". Entre os
dois extremos, situavam-se os lavradores livres como
pessoas, contudo dependentes da propriedade senhorial das
terras, que eram obrigados à moenda e cujas colheitas
passaram significativamente a ser rotuladas como "cana
cativa".
Aspectos sociológicos: a casa-grande. Com seu complexo
esquema de funcionamento, o engenho de açúcar foi a forma de
exploração agrária que melhor assumiu, no Brasil colonial,
as características básicas da grande lavoura. Isso porque,
além dos trabalhos de cultivo do solo, o engenho requeria
toda uma série de operações exaustivas, com aparelhamento de
obtenção difícil e mão-de-obra abundante.
Com seus vários prédios para moradia e instalações fabris --
a casa da moenda, a das fornalhas, a dos cobres e a de
purgar, além de galpões para estocar o produto --, o engenho
constituía um pequeno aglomerado humano: um núcleo de
população. De início, ocupava apenas uma clareira na
floresta, onde se amontoavam as construções de adobe e cal.
Com a progressiva expansão das lavouras pelas áreas em
torno, a clareira primordial se converteu não raro num
esboço de aldeia, mas muitos dados sociológicos básicos já
haviam sido definidos naquele mundo fechado sob o poder dos
senhores.
A casa-grande, residência do senhor de engenho, assobradada
ou térrea e sempre bem imponente, constituía o centro de
irradiação de toda a atividade econômica e social da
propriedade. A casa-grande se completava com a capela, onde
as pessoas da comunidade, aos domingos e dias santificados,
reuniam-se para as cerimônias religiosas. Próximo se erguia
a senzala, habitação dos escravos, classificados como
"peças", que se contavam às centenas nos maiores engenhos.
Os rios, vias de escoamento do açúcar, eram também com
freqüência as únicas estradas de acesso: por eles vinham as
toras que alimentavam as fornalhas do engenho e os gêneros e
artigos manufaturados adquiridos alhures, como tecidos e
louças, ferramentas e pregos, papel e tinta, barris de vinho
ou de azeite.
A casa-grande, a senzala, a capela e as casas destinadas ao
fabrico do açúcar definiam o quadrilátero que dava a um
típico engenho sua conformação mais comum. Outras
construções, em número variável, podiam servir de residência
ao capelão, ao mestre de açúcar, aos feitores e aos poucos
trabalhadores livres que se ligavam às atividades do engenho
por seus ofícios, como barqueiros, carpinteiros, pedreiros,
carreiros ou calafates.
Na maior parte do território brasileiro, ao que parece,
predominaram os pequenos engenhos, com reduzido número de
escravos e movidos pela força animal. Contudo, no final do
século XVIII considerava-se indispensável um mínimo de
quarenta escravos para que um engenho pudesse moer
"redondamente" durante as 24 horas do dia. Na mesma época,
grandes engenhos da capitania do Rio de Janeiro mantinham
sob a chibata várias centenas de escravos, como o da Ordem
de São Bento, que chegou a ter 432.