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  Matérias :: História :: Brasil

  Autoria: Alinne Mayte Terhorst


 

 

O CONTESTADO 

 

Houve por volta de 1912 uma rebelião sertaneja que ficou sendo denominada “Guerra do Contestado”. Apesar de pouco compreendida, e vista de modo geral como uma guerra, a rebelião iniciou-se algumas décadas antes da guerra, e é resultado de muitas polemicas. De terras, religião, agrupamentos, e também política.

Em Santa Catarina, ainda inesplorada, há duas regiões fisiográficas distintas entre si: a  litorânea e a do planalto, o limite que é dado pela Serra Geral; separa as duas regiões de forma intransponível pelas serras geral e do mar.

Uma série de serras no planalto serve de divisor das águas das duas grandes bacias hidrográficas pelas águas que correm para o Sul e a do Rio Iguaçu, pelas águas que correm para o Norte. Ambas as bacias depois correm para oeste.

As serras dividem a região das bacias do Iguaçu e do Uruguai; são elas; Espigão, Esperança, Caçador, Taquara Verde, Xanxerê e Fartur
A maior bacia hidrográfica no planalto é a do rio Uruguai.

No longo percurso do rio Uruguai, em direção Oeste, até a confluência do Peperi-Guaçu, que recebe outros tributários do lado catarinense, como o rio do Peixe, rio Jacutinga, rio Chapecó, rio das Antas, etc...
O rio do Peixe, localiza-se no Planalto do Meio-Oeste, daí a denominação Alto Vale do rio do Peixe na cabeceira e Baixo Vale do rio do Peixe, próximo à confluência com o rio Uruguai. No outro lado está a bacia hidrográfica formada pelo rio Iguaçu. É menor e menos acidentada que a do rio Uruguai.
Tem como principais afluentes os rios, Jangada,  Timbó,  Paciência e  Negro. Suas águas correm em direção ao Oeste, até alcançar o rio Paraná. Os afluentes de ambas, distribuídos entre os vales das serras.
O rio Iguaçu compõe parte da divisa entre os estados de Santa Catarina e Paraná, abrangendo zonas da região contestada.
No tempo dos redutos as fronteiras entre os estados estavam indefinidas e geravam muita polêmica. A questão lindeira também constituiu-se em agravante na já conturbada região.
Uma população reduzida, mais ou menos na metade do séc XVI,  que surgiu, dando origem às primeiras povoações litorâneas: São Francisco, Desterro e Laguna. Constituindo os primitivos focos litorâneos que não penetrariam pelo sertão adentro.
Embora próximos, o litoral e o planalto eram separados por barreiras naturais, sendo a serra Geral, por muito tempo, obstáculos intransponível entre ambos.
Desta forma povoava-se o litoral e no sertão construía-se uma história bem diferente. Tinham outra origem, outros costumes, outra índole, outra cultura, enfim, outra história...
Os primeiros contatos dos colonizadores com a região oeste, são remotos. Em 1541 é possível que Alvar Nunes tenha atravessado a região; desembarcando no litoral de Santa Catarina e seguindo por terra até Assumpção, teria galgado a serra pelo vale do Itapocu, ao sul da barra do São Francisco, atravessando o Rio Negro e o Iguaçu.
Por volta de 1600, os jesuítas espanhóis se aproximaram bastante da região compreendida entre o Uruguai e o Iguaçu.
Serviram de alvo para os bandeirantes paulistas, em busca dos aldeamentos,  o território passa ser conhecido pelos bandeirantes  paulistas por  “Ibituruna” na caça aos índios  aldeados. Até que os bandeirantes mudam a orientação: Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. A região de Ibituruna que,  em função  desses movimentos, não resultou  povoada.

O gado vacum, se multiplicava em larga quantidade na vasta região ainda despovoada, segundo as leis da natureza.

Foi somente com o ciclo de ouro, que se tornaram conhecidos os caminhos da região serrana catarinense. Pois tornou-se o trajeto mais curto e mais cômodo nos sertões catarinense.
O planalto foi apenas o caminho dos tropeiros do sul. O caminho que ligava o extremo sul ao centro do Brasil. Que até então, só perde a importância com a chegada do trem de ferro e dos barcos a vapor, passando os campos de Lages, Curitibanos, seguindo pelo o Paraná no rumo de Sorocaba.
A partir deste trajeto, outras áreas mais para o  Oeste foram sendo conhecidas, como campos de Guarapuava. Uma passagem para o Rio Grande pelo passo de Goio-ên e Nonoai.
A descoberta de novos caminhos e o conhecimento da região, aos poucos, encorajavam o povoamento dos vastos espaços ocupados anteriormente somente pelos aborígenes locais.
A importância econômica que representava a criação de gado e a existência de vastas áreas próprias para este fim, impulsionaram a vinda dos primeiros moradores.
A ocupação da região teve como eixo condutor principalmente a criação de gado.
 Na região Sul do planalto serrano, abrangendo a vasta área dos campos, que se desenvolveu esta sociedade pastoril.
A estrutura social da região do contestado, destaca o poderio ilimitado dos proprietários das terras e suas relações com seus subordinados.

 Garantia o exercício da chefia política regional.
O sistema de organização da sociedade pastoril ficava dividido em classes, incluindo as principais formadas por: coronéis, fazendeiros, lavradores, peões, e agregados.
Os lavradores, geralmente mais afastados das fazendas de criação de gado, dedicavam-se a pequenas plantações. Os caboclos, que se estabeleciam nas terras como posseiros, tiravam da natureza o sustento, levando uma vida pacata e de privações.
Entre lavradores, caboclos, pequenos plantadores de tabaco e criadores de porcos encontra-se “a grande massa dos colonos estrangeiros, alemães, polacos e rutenos.”
Impossibilitados de ter acesso a terra, muitos iam para o sertão. Formado tipicamente por sertanejos que, abandonados e esquecidos pelos governantes, viveram isolados até o inicio do século passado.
Quando lembraram destes pobres sertanejos, foi para expusá-los das terras de que tiveram a sobrevivência. Não é difícil entender porque os sertanejos partiram para os redutos. Pois já desolados e expulsos das terras nas quais formaram suas raízes.
Após sua expulsão, das terras, o que restou foi apenas alguns dos costumes e hábitos alimentares de certa importância para os sertanejos. Foi nesse período que implantou-se o uso da Erva-mate como hábito, tanto medicinal como alimentar. 
Com a difusão do hábito, a Erva-mate tornou-se um dos mais importantes produtos de exportação.
O seu manejo, era dividido em etapas: O corte, o sapeco, a secagem, o quebramento, a peneiração e o ensaque.
Esta atividade rendeu boas fortunas em Santa Catarina e Paraná. Não para os colonos que a plantavam e a preparavam em todas as suas etapas de produção. Mas sim para os governantes e capitães, que comandavam todos os passos de produção e controlavam principalmente seus derivados lucros.
A fiscalização e a cobrança de impostos era intensa por parte dos governantes estaduais de Santa Catarina e do Paraná. Postos fiscais eram instalados na região por ambos os estados, uma vez que a questão lindeira estendia-se indefinida.
Para os ervateiros e peões ervateiros a situação de marginalização continuava, não sendo difícil compreender o quanto significavam as palavras de conforto e esperança trazidas pelos monges.
Os brasileiros buscavam definições com os habitantes dos países vizinhos. Os limites interestaduais também causaram disputas acirradas e, por vezes, a diplomacia deixou a desejar.
O alvará de 12 de fevereiro de 1821 criou a Província de Santa Catarina e, desta data em diante, Lages passou a pertencer a esta província de Santa Catarina.

 A descoberta e ocupação dos Campos de Palmas, feitas pelos paulistas, gera algumas polemicas.
Curitiba, que era a quinta comarca de São Paulo, é elevada à categoria de Província e receber por herança a fastidiosa questão lindeira. A área disputada foi ampliada, pois além dos Campos de Palmas, Rio Negro também entrou nas pretenções do Paraná.
Até a Proclamação da Republica,  em que as províncias se transformaram em estados, nada estava definido.
Em 1881, Brasil e Argentina levantaram uma questão lindeira que ficou conhecida por Questão de Palmas ou de Misiones. A divisa internacional passava pelos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, porém, alegravam os argentinos que os referidos rios deveriam ser o Chapecó e o Jangada.
A questão  foi solucionada em 1895 com o arbitramento do presidente norte-americano, Grover Cleveland, concedendo ganho de causa ao Brasil.
Província do Paraná instala uma Estação Fiscal em Chapecó. Por sua vez, Santa Catarina responde, instalando outra no Uruguai. Outros  postos fiscais são instalados, pelo governo paranaense, junto à Estrada Dona Francisca,  nas proximidades de São Bento. Diante dos protestos dos colonos da localidade e também do governo catarinenses, que tentava mostrar que São Bento sempre pertenceu à Santa Catarina, o Paraná retira a força policial que havia enviado para São Bento. Rio Negro  mandaram destruir algumas pontes próximos a São Bento. Assim, é concedido ganho de causa a Santa Catarina. O Paraná recorreu da decisão. O Supremo Tribunal Federal confirma em definitivo a sentença em favor de Santa Catarina.

 É neste ambiente de hostilidade entre Estados vizinhos que surgem  em primeiros ajuntamentos em torno de José Maria.
Foi somente em 1916 que um acordo colocou ponto final nas disputas. Os limites no território contestado, ficaram assim definidos:

 “... o rio Negro, desde suas cabeceiras até a sua foz no rio Iguaçu, e por este até a ponte da Estrada de Ferro S.Paulo – Rio Grande; pelos eixos desta ponte e da mesma estrada a de ferro até sua intercepção com o eixo da estrada de rodagem que atualmente liga a cidade de Porto União da Vitória à cidade de palmas; pelo eixo da referida estrada de rodagem até o seu encontro com o rio Jangada; por este acima até a sua intercepção com a linha divisória das águas dos rios Iguaçu e Uruguai. E por esta linha divisória das ditas águas na direção geral de Oeste até encontrar a linha que liga as cabeceiras dos rios Santo Antonio e Peperi-Guaçu, na fronteira Argentina” (PIAZZA, p.597, apud, VALENTINI, p. 39)

O acordo foi atacado com constrangimento pelas populações dos dois estados.
Nesse mesmo período foi iniciada a construção da estrada de ferro, ligando o centro do país ao o sul. Onde existem questões de interesses geopolíticos sobre a região, justificando a construção da ferrovia e colonização da região.
O governo brasileiro promovido a colonização estabelecendo imigrantes estrangeiros em áreas estratégicas.

 A ferrovia cruzaria por perto do território pretendido pela Argentina e que causara a famosa Questão de Palmas.
Com a cogitação da construção da ferrovia e a eminente futura valorização das terras circunvizinhas, despertou-se o interesse dos fazendeiros em adquirir terras devolutas ainda existe na região.
As facilidades aumentaram, principalmente por causa dos governos estaduais pretendiam firmar domínio administrativo sobre o contestado.

 A construção da ferrovia teve inicio em 1890. Em Santa Maria da Bocca do Monte rumo á região central do Brasil.
A liberação da construção da estrada de ferro para a empresa, concedia benefícios, como a cessão de terras marginais.
Foram várias empresas que atuaram nos diversos trechos da extensa ferrovia até seu final. Bem como:

  • Brazil Railway Company.

  • Companhia Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande.

 Esta poderosa Companhia norte-americana, além de controlar ferrovias, controlava também portos, industrias, empresas pecuárias, madeireiras e de colonização, e investiu pesado na região, também em outros setores.
Quando ocorre um estremecimento nas relações Brasil e Argentina. A crise não descartava a possibilidade de um confronto armado e a ligação ferroviária para a fronteira ainda não estava concluída. Ás pressas, foram contratados milhares de trabalhadores, para garantir a imediação conclusão da ferrovia.
Distribuídos ao longo dos trechos, logo se evidencia a exploração a que eram submetidos os trabalhadores dessa construção. Que para manter a ordem e defender os interesses da companhia, formaram um corpo de seguranças especial, que através da violência, garantiam a justiça própria.
Cerca de 8.000 trabalhadores, encontravam-se na região, e  com o término dos serviços de construção, não foram levados de volta as suas localidades de origem, conforme prometido anteriormente. Ficaram deixados na região.
A Cia norte-americana Brazil Railway também investiu. Criou-se Southern Brasil Lumber and Colonization Company com objetivo de explorar as terras laterais à ferrovia.
E a Concessão foi feita pelo governo brasileiro de uma grande área localizada nas margens da ferrovia implantada na região do contestado.

 ´´ A estrada obtivera do governo federal um concessão de terras equivalente a uma  superfície de nove quilômetros para lado do eixo, ou igual a o produto da extensão quilométrica da estrada multiplicando por 18. A área  total assim obtida deveria ser escolhida e demarcada, sem levar em conta sesmaria nem posse, dentro se uma zona de trinta quilômetros, ou seja quinze para cada lado`` (QUEIROZ, Op. Cit., p.04 apud VALENTINI, p. 43) 

Essas áreas eram pelo governo consideradas devolutas, embora, existiam moradores estabelecidos na região de longa data. Mas que pela falta de instrução não haviam formalizado a posse das terras que habitavam e tiravam seu sustento.  

Sem os termos de posse em mãos eram desalojados sumariamente. 

A Lumber também montou duas serrarias. Em Três Barras, foi instalada a maior serraria da América do Sul. Para a vasta exploração de madeiras de lei que eram abundantes na região. Tudo, com a concessão do governo, que não se importava com os sertanejos que há muito habitavam a região e simplesmente davam espaço para os exploradores.  

Os lotes de terra de onde retirava-se a madeira foram vendidas para colonos estrangeiros, desta forma que influíram para região os imigrantes descendentes de europeus. Que são considerados até hoje os colonizadores da região. Onde se via-se concretizar as pretensões do governo brasileiro. 

As praticas dos monges encontraram grande receptividade entre os sertanejos, qualquer palavra de conforto era bem vinda, justiça divina tornava-se esperança, uma vez que  a justiça deixaria a desejar. 

A igreja e a crença, serviu como apoio aos sertanejos desolados.  Franciscanos e monge fizeram parte do universo religioso dos sertanejos, que influenciaram profundamente o povo do Contestado. 

Os colonizadores vencendo as distancias, afastando os índios, derrubando as florestas e estabelecendo povoados eram auxiliados com a tarefas dos padres que abençoavam as obra dos desbravadores e conquistavam novas almas. 

O processo de colonização acorre tardiamente, assim, bem como a presença da religião católica, nessa região. Serias dificuldades enfrentaram os frades nesse trabalho pioneiro. Aliada ao desinteresse geral havia outra barreira a ser enfrentada pelos missionários. As pregações dos monges seriam os maiores obstáculos. 

As missas realizadas pelos Franciscanos eram bem aceitas pelos sertanejos. Em seu modo simples de professar a fé, apreciavam tanto as pregações dos padres quanto os conselhos dos monges. 

O catolicismo rústico praticada pela gente de Serra-Acima  era fortemente impregnando de praticas mágicas de origem medieval européia, indígena ou africana. Manifestava-se espontaneamente em qualquer zona rural, munindo mortais de poderes sobrenaturais e justificavas de sorte ou azar. Nas circunstâncias em que viviam os sertanejos, em estados de desprendimento e abandono, era perfeitamente compatível e aceitação de conselhos, crenças em profecias e em castigos sobrenaturais. 

A figura do monge é inseparável da vida sertaneja e, é parte integrante desta vida, representando o papel do padre, acentuando o caráter religioso e místico. 

Os sertanejos, desprezando os frades, dedicam-se ás verdades dos monges. 

Os sertanejos ouviam as palavras dos frades com certa desconfiança. E como nunca viam João Maria tocar em dinheiro, acreditavam que a santificação incluía desprendimento desprezo dos valores materiais. 

Como o surgimento dos redutos outras mudanças ocorreram, o próprio catolicismo rústico é submetido pela chamada Santa Religião. Inserem, a instituição de uma nova ordem religiosa. 

Todo o povo da região conhece João Maria. O personagem lendário faz parte da vida das pessoas que acreditam nele como em qualquer outro santo da religião católica. Reservam para sua fotografia um lugar no altar rude que conservam nos lares ou nos cruzeiros e águas santas que marcam a passagem do monge pela religião 

Atribuem a ele prodígios e milagres, mas de acordo com o escritor mudam as referencias sobre os monges. Para Frei Rogério o que os monges fizeram aos juntos aos sertanejos foi um grande mal, expondo-lhes a mercê de qualquer embusteiro. 

Durante muito tempo, a responsabilidades pelos trágicos acontecimentos ocorridos, são expiados nas costas dos monges. 

Sobre o monge João Maria de Agostini: 

Em muitos comentários sobre João Maria, os depoentes fazem questão de frisar que se referem ao verdadeiro monge, simplificando a forma cristalizada de crenças no monge. 

O primeiro aparecer, em meados do século XIX. Trata-se de João Maria de Agostini ou - Agostinho – italiano, que nasceu em Piemonte em 1801. Sua vida é ignorada. Não há referências sobre a chegada de João Maria ao Brasil. Na Câmera Municipal de Sorocaba, Província de São Paulo. Deixa o termo de estrangeiro datado de 24 de dezembro de 1844. 

Sobre suas característica físicas sabe-se que possuía ´´estatura baixa , cor clara, cabelos grisalhos, olhos pardos, nariz regular, barba cerrada, rosto comprido``. Como sinal particular registrou-se que era aleijado dos três dedos da mão esquerda. 

Vivendo numa gruta no morro de Araçoiaba, o apontam como homem piedoso, de vida rigorosamente sóbria e severa, dedica a Deus. 

Como Sorocaba era ponto de parada de peões, tropeiros, operários, e camponeses, fez que esses logo espalhassem a fama do monge que passou a ser procurado por inúmeros visitantes. 

O monge, às vezes assistia à missa na capela da Fabrica de Ferro de Ipanema, não se sabe ao certo que rumo o monge tomou, apenas é possível comprovar a sua passagem pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul através do testemunho de artigos de jornais que mencionam sua presença. 

Embora as datas apresentam-se contraditórias, e confusos locais e trajetos palmilhados pelo monge, há noticias em jornais que trazem copiosos esclarecimentos. 

O monge solicitou audiência ao Presidente da Província. Apresentando-se, teria dito estar cumprindo uma promessa e solicitou a imagem de Santo Antão que estava numa igreja dos Sete Povos das Missões. Em setembro, estava no Campestre com imagem do Santo numa capela. 

“Era italiano mais, dizia ele em São Paulo, donde retirou-se, enveredando por ínvias selvas (quem sabe Por quantos meses de arriscada peregrinação) ate a fronteira do Paraguai. Daí foi obrigado a sair. Atravessou o Rio Paraná, depois a Lagoa Yberá, numa pequena canoa: seguiu a pelo território deserto das Missões Correntinas, até o extinto povo de São Tome, hoje restaurado e elevado a cidade. Desceu pelo Uruguai até São Borja foi bem acolhido. Deu ai o nome de João Maria Agostini. Em poucos dias começoi sua peregrinação a pé foi dar, com mais de 580 quilômetros, de marcha, ao Serro de Botucaraí, a onde pouco demorou e regressou a Campestre, perto de Santa Maria, por onde já havia passado. Nesta situação agreste e merencória, escolheu um serro elevado a à base deste uma fonte cristalina, à qual atribuía a virtude de curar inúmeras enfermidades... Após alguns sucessos reais e aparentes após uma boa colheita em esmolas, o ermitão resolveu, auxiliado por alguns devotos, levantar, o no alto do Serro, uma ermitã nessa foi colocado uma imagem de Santo Antão, abade da Tebaida, imagem que existia em poder de um morador do lugar e fora pertencendo aos povos das Missões.” 

Apesar dos desencontros das datas e das poucas pistas sobre o itinerário do monge, quando partiu de Sorocaba, adentrou pelo sertão tendo chegado a Paraguai, depois São Borja e em seguida Santa Maria. Na passagem pelas missões teria tomado conhecimento da referente imagem e teria escolhido Campestre como local ideal para construção da capela. Conquistando permissão para fixar-se naquele local. 

A partir de 1848 João Maria  é considerado como “milagreiro”. No sitio onde acampou, tornou-se um verdadeiro capo de atração para doentes de todos os males. As noticias do monge e a existência das águas miraculosas ressoaram nos estados vizinhos, no Uruguai e também na Argentina. Verdadeira multidão de romeiros acorria ao Campestre em busca dos efeitos terapêuticos das águas. 

O Presidente da Província solicitou um exame das águas denominadas – Santas. O General Andréa manda prender João Maria que se encontra no Cerro do Botucaraí. E no relatório do Dr. Thomaz Antunes de Abreu, encontra-se a comprovação de que as águas examinadas “não contém princípios além dos, que são comuns em águas  potáveis”. 

João Maria é transferido para a Santa Catarina, por ordem do General Andréa. E solicita que lhe deixasse solitário na Ilha de Arvoredo. 

Após sair da ilha, o  monge encontra-se no ano de 1851, na cidade da lapa no Paraná, abrigando numa gruta, tal como havia feito antes em Sorocaba e Botucarí. 

Aumentando a crença do monge. 

Em sua peregrinação teria monge chegado ao Registro do Rio Negro e Mafra, em 1851. A tradicional cruz da cidade de Mafra teria sido plantada pelo monge juntamente com outras 18 em julho de 1851. 

Em 1856 estava o monge em Lages, e posteriormente em Otacílio Costa mencionou este “filho da floreta”,  peregrino que repousava debaixo de árvores e alimentava-se de ervas. 

O tempo que permaneceu nos lugares por onde passou e os caminhos trilhados de um  lugar ao outro, são desconhecidos. No final da vida teria regressado para seu primitivo abrigo em Sorocaba. Nestes últimos tempos esteve sempre entregue as orações e devoções. Faleceu em 1865. 

Envoltas em mistérios estão as circunstancias da sua morte.Varias versões circulam. Desapareceu, portanto, envolto de mistério. O que nuca desapareceu é sua memória. 

Enquanto sobre João Maria de Jesus o que podemos dizer é que: 

Um segundo monge perambulou pela região sul do país, no final do século XIX. Foi conhecido pelo nome de João Maria de Jesus. Procurou identificar-se a João Maria Agostini, com quem apresentava alguns pontos comum. 

O nome do primeiro fez reviver a sua memória, ampliou área em que mesma se tornaria conhecida e tornou uma só pessoa as que verdadeiramente duas. Chegou em Lages em 1892.

“O monge é um tipo especial que convém ser conhecido. Caminha só por este sertões, nada conduz, nada pede. Se chega a uma casa, dão- lhe de comer, ele só aceita o que e mais frugal e em pequena quantidade não dorme dentro das casas a não ser noites de chuva torrencial. Conversa com os moradores sem ostentação sem impostura, sua conversa e calma como que fala para si só, porem todos o ouvem, todos lhe obedecem, sua figura  e humilde. Porem todos respeitam e estimam. Nunca diz para onde vai, nem quando. Anoitecer e não amanhecer, raramente, porem, passa por um lugar mais de uma vez. Quer chova , quer os rios estejam transbordando vai-se. Não canoas e ele passa, ninguém sabe dizer como passou”. 

Registrada a área de atuação do monge, em toda  a região missioneira. Após um descanso nas margens do Rio do Peixe. 

“Seu nome será  lembrado eternamente no meio desse povo que não compreende senão as coisas simples e naturais.” 

A passagem de João Maria em União da Vitória no ano de 1896, é registrada. De “sotaque espanhol” andava cumprido uma promessa e aconselhava os sertanejos. Costumava acampar onde tinha água boa e não permitia que acompanhassem. Aceitava apenas oferendas de alimentos como queijo, leite e verduras. 

“Era um homem de seus cinqüentas a sessenta anos, de estatura media, vestido pobre, mas decentemente”. João Maria assiste a missa, ouvindo o sermão em que o padre aconselha ao povo no sentido de não seguir conselhos dos monges. Frei Rogério indaga-lhe sobre sua origem e seus propósitos. 

“- Eu nasci no mar – criei-me em Buenos Aires, e faz onze anos que tive um sonho, percebendo nele claramente que devia caminhar pelo mundo durante quatorze anos, sem comer carne nas quartas-feiras, sextas-feiras e sábados, e sem pousar na casa de ninguém. Vi-o claramente.” 

Segundo pesquisas feitas, seu nome era Atanás Marcat, sendo de origem francesa.  

“João Maria a todos atendia bondosamente, recitava, aconselhava o bem, recusava pagamento em dinheiro, apenas recebendo presentes de cavalos, porcos, vacas, etc., sendo que o mesmo esta distribuindo entre seus inúmeros afilhados por ele mesmo batizado. A população sertaneja, então inculta, porem ordeira, estava vivamente fanatizada pelo velho monge.” 

Não restam duvidas sobre a existência dos dois monges João Maria. Não foram uma única pessoa, pois as datas das idades não coincidem. Outra diferença entre tantas, era que o primeiro era italiano de Piemonte, o segundo nascera no mar, criara-se em Buenos Aires e falava co sotaque espanhol. 

João Maria de Jesus perambulou mais adotando um estilo itinerante, não estabelecendo paradeiros em grutas. A sua proteção geralmente, era a copa das arvores. 

Não aceitava dinheiro nem certos alimentos, bem como não permitia ajuntamentos de pessoas em torno de si. Também plantava cruzes, muitas delas até hoje conservada pelo povo. 

Não deixou de também utilizar as águas e receitar ervas para alivio de males. 

Existem pontos de divergências entre os dois monges, o que mais claramente possibilita a distinção e a prova de que não existia apenas “O João Maria”. 

João Maria de Agostini chegou de dirigir-se a povo nas missões rezadas pelo padre Antonio Dias de Arruda. João Maria de Jesus ou Atanás Marcaf, foi repreendido por Frei Rogério por fazer interpretações errôneas da S. Escritura, pregar penitencia, profetizar calamidades e principalmente batizar crianças, que era oficio dos padres da religião oficial. 

Outro ponto é o posicionamento político-partidário de João Maria de Jesus, pois era monarquista, como acusava a republica pelos males que estavam ocorrendo. 

Um dos exemplos é a situação jurídica das terras devolutas da união, a partir da proclamação da Republica. 

As profecias, entre elas e da que surgiriam linhas de burros pretos, de ferro, carregando pessoas; vinda de gafanhotos de ferro, que ia ocorrer guerra; que viriam cercas de espinhos, entre muitas outras. 

Nos pousos que fazia o monge, quando se retirava, o pessoal recolhido todos os carvões e levava para casa. Onde serviam para fazer simpatias e também como remédios. 

As estampas que existiam são João Maria de Jesus, basicamente são três as mais conhecidas e difundidas na região. Entre elas uma que foi reproduzida por um fotógrafo de Caxias do Sul. 

O desaparecimento do João Maria de Jesus está envolto em mistérios não diferindo muito de suas imprevista chegadas e partidas por lugares por onde andava. Simplesmente desapareceu se deixar rastro de si. 

João Maria identificou-se com os sertanejos, na sua presença as esperanças renasciam a as suas palavras confortavam. Os sertanejos acreditavam estar diante de um santo que ensinava a sobriedade, o jejum, a vida digna, a caridade, não só praticava como também aconselhava-os a fazerem o mesmo. 

Como fim sobre José Maria, o que se sabe: 

Com o desaparecimento de João Maria restaram apenas as lembranças, exaltando-o como conselheiro do bem. Venerado como um santo.  

A chegada na região de grandes companhias estrangeiras, na colonização e a construção da ferrovia  marginalizavam ainda mais aqueles que já eram desassistidos pelas autoridades. 

No ano der 1912 correram boatos de que João Maria havia reaparecido em Campos Novos. 

Fazendo-se conhecer por José Maria de Santo Agostinho, o curandeiro instalou-se na fazenda do Coronel Henrique de Almeida. 

José Maria apresentou-se como sendo irmão de João Maria de Agostini. Na verdade apresentava muitas diferenças dos monges que antecederam e mais tarde descobriu-se sua verdadeira identidade, chamava-se Miguel Lucena de Boaventura. 

O novo monge não tinha a constituição mística dos anteriores. Comparação e diferenças foram feitas em época posterior por historiadores que rastrearam a vida desses personagens. Detalharam suas atitudes e modos de pregação, aspectos complexos que passavam desapercebido aos sertanejos. 

A fama de José Maria espalhou-se rapidamente, principalmente após curar a mulher do fazendeiro Francisco Almeida. E, foi coroado pelo ato de não aceitar as recompensas em terras e ouro oferecidos pelo fazendeiro. 

José Maria sabia ler e escrever, possuía uns cadernos onde anotava as propriedades medicinas, consultando-o na ora de receitar aos seus pacientes. 

Observou-se também que José Maria não dispensava o auxilio de outras pessoas em suas tarefas, inclusive articulando serviços e, opondo-se literalmente aos monges anteriores, admite o gosto de popularidade. 

Também simpatizava com o regime monárquico. 

Mudou para Taquaruçu onde achou muitos adeptos que, com as respectivas famílias permaneciam a sua volta. O deslocamento de José Maria, está relacionado com a  realização da tradicional festa do Senhor Bom Jesus. 

Permaneceu em Taquaruçu mais de um mês o que desagrava o Coronel da região. Para Albuquerque, Intendente Municipal de Curitibanos, aquilo não passava de manobra políticas de seus opositores, ligado a seu maior adversário político. 

De inicio Albuquerque solicita José Maria venha até sua casa, o que não fez o monge. Parte então uma intimação e, mesmo assim, José Maria não foi à casa de Albuquerque. Que para eximir-se da responsabilidade de atacar o monge, telegrafou para o compadre e Governador se Santa Catarina, Vidal Ramos, comunicando que os fanáticos haviam proclamado a monarquia nos sertões de Taquaruçu. 

O pretexto foi uma trova de versos de porfia onde o verso vencedor finalizou com um "viva a monarquia", sendo repetido pelos espectadores. 

O telegrama do coronel alarmou Florianópolis e Curitiba, tendo repercussão na imprensa do Rio de Janeiro. O presidente da Republica Marechal Hermes da Fonseca, foi informado de que no Sul iniciara-se uma greve sublevação com intuito de restaurar a monarquia. 

José Maria e seus seguidores, depois de passar por Campos Novos e Catanduvas, onde acamparam, estabeleceram nos Campos do Irani, então município de Palmas, no Paraná. 

O governador do Paraná sabendo da chegada de José Maria e seus homens em território paranaense, julgou tratar-se de manobras do governador catarinense, a fim de guarnecer o contestado cem tropas federais e garantir assim a execução do Supremo Tribunal Federal, no caso dos limites. 

As noticia agitaram o país. No Estado do Paraná os ânimos inflaram-se. Foi assimilado como invasão de um "bando armado de catarinense" na zona litigiosa, para garantir o direito de Santa Catarina. 

Ao chegar no Município de palmas, o Regimento encontrou o Coronel Domingos Soares, chefe político da zona, preocupado com os fatos, empenhou-se a contornar a situação. Enquanto as tropas ficarem acampadas, um piquete com o Tenente Busse é acompanhado por Domingos Soares no rumo do Irani. No caminho encontram-se com João Varela e com José Júlio Farrapo, criadores de gado das redondezas, que ainda tentam explicar ao comandante que José Maria não quer briga. 

João Gualberto impôs a condições de não atacar se o monge se apresentasse com maior urgência no seu acampamento. Domingos Soares, acompanhado por quatros pessoas, vai até o acampamento do monge e tenta persuadi-lo. João Gualberto é taxativo, impondo suas condições em caráter resoluto e irrevogável: ou José Maria se apresentava de imediato ou era atacado. 

Temendo ser maltratado José Maria, solicitou 24horas para voltar a Santa Catarina. 

João Gualberto, ao saber da resposta, disse que atacaria no clarear do dia e mandou preparar as cordas que havia trazido de Curitiba, para levar amarados os fanáticos. Foi alertado da inferioridade numérica por Domingos  Soares que lavou as mãos da decidida resolução do comandante. 

Na madrugada do dia 22 de outubro de 1912, à frente de 64 homens, João Gualberto atacou o reduto, onde havia pouco mais de 200 sertanejos. 

“No meio da luta, José Maria caiu prostrado por uma bala.” (QUEIROZ, p.106-7 apud VALENTINI, p. 72). 

José Maria de retirava para o morro encantado do Taió para regressar no exercício encantado de São Sebastião. Por algum tempo os sertanejos permaneceram nos seus ranchos, mais ou menos calados. Depois de um ano juntaram-se nos redutos para esperarem juntos a volta de José Maria. Aguardavam a sua ressurreição. 

Internados nas matas das regiões permaneceram muitos sertanejos. Do Irani carregaram o desgosto da pela morte do líder e as armas abandonadas pelos soldados. Gente que andava sem destino e que alimentava a crença na ressurreição de José Maria. 

Devido ao grande numero de redutos e as diversidades entre ambos, a descrição abrange os mais conhecidos, alguns que foram denominados redutos do mor. 

O conseqüente confronto com a polícia do Paraná em 22 de outubro de 1912, a dispersão dos sobreviventes, somente um ano depois os sertanejos principiaram a se reunir em acampamentos que posteriormente serão denominados redutos. 

No decorrer dos anos seguintes significou problemas de grandes proporções. Distintas fases que alcançou o movimento desde o primeiro agrupamentos de Taquaruçu em 1913 até a dispersão total no reduto São Pedro em dezembro de 1915. 

O tamanho e o numero de habitantes que faziam parte de um reduto pode variar. Alguns redutos chegaram a ter milhares de habitantes. O Santa Maria, por exemplo, chegou a ter aproximadamente 5 mil habitantes. 

As guardas, em geral, ocupavam uma posição de vanguarda em relação ao reduto. Nas guardas a inferioridade numérica e bélica dos sertanejos quase desaparecia devido a posição estratégicas de defensores que assumiam. 

O avanço era dificultado o ocasionavam grande números de baixas. A principal atividade dos piquetes era trazer gado para o redutos, mantimentos, armas, enfim, o que fosse necessário, sem considerar a quem pertencem. 

Nos redutos, todos podiam usufruir do gado, dos alimentos e mesmo do dinheiro. Só não eram utilizados em comum os animais de montaria e as armas, consideradas pertences pessoais que, entretanto, não poderiam ser compradas ou vendidas entre irmãos. 

Em sua fase final, enquanto as forças de exercito, das policias estaduais e vaqueanos reprimiam a ação dos piquetes de arrebatamento nas fazendas e povoados, este diminuíram em números de participantes e limitaram a distancias a percorrer. 

Quanto a vida nos Redutos, sabe-se que nos redutos reuniam-se pessoas de todas as classes e condições sociais. Peões, criadores, pequenos, médicos e grandes fazendeiros. 

E o entusiasmo religioso animava e garantiam a fraternidade. Com certeza muitos alcançaram a vida melhor do que aqueles que levaram se os ranchos isolados. A fartura de carne, e de erva para o chimarrão e de produtos de roças deixava os moradores dos redutos alegres e eufóricos. 

Comenta-se que Adeodato teria matado sua mulher Maria Firmina para casar se com Mariazinha, viúva do comandante Francisco Alonso, pois as leis dos redutos não permitiam bigamia. 

As cerimônias religiosas de purificação, batizados e casamentos eram realizados pelos lideres religiosos. Os preceitos morais eram rigidamente obedecidos, pois qualquer desvio ocasionava em  penalidades. 

Para protegerem-se das armas inimigas carregavam  sempre consigo, dentro de patuás, orações que julgavam poderosas para fechar o corpo. 

A principio estavam a serviço da virgem compondo a guarda de honra e auxiliando nas formas. De Caraguatá em diante estavam a serviço do comandante geral. Alem de participarem efetivamente nos momentos decisivos dos combates, obedeciam ordens, aterrorizavam os vacilantes e os inimigos do comandante. 

O sonho da convivência fraterna, com passar do tempo, transformar-se-ia em pesadelo. Os ataques das forças oficiais espalhariam o constante medo e a morte nos redutos que eram destruídos e queimados após serem tomados. 

Seguiam-se a fome, a miséria, as doenças... 

Alguns dos Principais Redutos conhecidos foram:

 

1.      Taquaruçu 

Taquaruçu localiza-se no interior do município de Fraiburgo. Contava com poucos residenciais, tinha como moradia principalmente a casa do comerciante Paraxedes Gomes Damasceno.

 

2.      Caraguatá 

Caraguatá localizava-se em Perdizes Grandes e foi criado antes da destruição de Taquaruçu. Os motivos do deslocamento dos sertanejos de Taquaruçu para Caraguatá estão relacionadas às predições do menino de Deus, Joaquim. Que recebeu “o aviso” do iminente ataque das forças do governo. 

Caraguatá localizava-se na área sobe posse de Manoel Alves de Assunção Rochas, que estavam sendo contestadas. 

 

3.      Bom Sossego 

Em Bom Sossego, surgiu logo depois um novo reduto. As improvisadas ruas desembocavam numa praça central. No inicio, permaneceu a mesma formação de Caraguatá.  

Maria Rosa, continuava sendo ouvida. Elias era comandante geral e Venuto Bahiano o comandante de briga. 

Redutos menores pipocaram por toda a região. Cada qual com seus comandantes. Da noite para o dia organizava-se uma nova irmandade, que nem sempre, tinha ligações com reduto mor. 

 

4.      Caçador 

Francisco Alonso de Souza ordenou que o reduto fosse transferido para Caçador. Ordenou os moradores das vizinhanças que viessem de pronto para o reduto ou seriam considerados peludos. 

Pessoas de influencia se engajaram no movimento. Em Canoinhas, aderiram: Aleixo Gonçalves, Capitão da Guarda Nacional, com larga experiência militar: Bonifácio José dos Santos, antigo maragato, e ainda Antonio Tavares Junior. 

Em Curitibanos, por motivos políticos, aderiram Paulino Pereira e os irmãos Sampaio, acompanhados mais de 40 homens armados. 

 

5. Santa Maria 

O reduto mor de Santa Maria foi, sem duvidas o que ficou marcado pelos seguintes combates e pelo grande número de mortos, ocorridas não apenas pelas armas, mas também pela fome e doenças. A destruição deste reduto marcou o fim da Campanha do Contestado, sob o comandante do General Setembrino. 

Para alcançar o local era necessário transpor obstáculo naturais galgando peraus e ladeiras. Espalhou-se o mito de que Santa Maria era o “chão sagrado”  e ali todos seriam imortais. Peludo ali não chegaria. O pessoal outras guardas e redutos, que iam sendo tomadas pelas forças legais, convergiam para Santa Maria, que chegou a ter, aproximadamente 5.000 habitantes. 

 

6.      São Miguel 

Em poucos dias, São Miguel transformou-se em novo reduto, e a vida começava a transcorrer normalmente, com antes da grande ofensiva das forças legais. As formas continuavam sendo realizados com antes, comandadas por Elias de Moraes e Adeodato  ainda era comandante geral. 

Em São Miguel, Adeodato controlava a situação praticamente sozinho e seu poder tornou incontestável. As suas ordens eram cegamente executadas e passou matar por qualquer motivo. 

 

7. São Pedro 

A mudanças de São Miguel para São Pedro ocorreu por ordem de Adeodato, que resolveu instalar outra cidade santa nas margens do Rio Timbó. 

O numero de moradores de São Pedro era grande. Ao mesmo tempo em que viva milhares de pessoas em São Miguel, ou depois em São Pedro, havia outro reduto chamado Pedras Brancas que também contava com grande números de habitantes, comandos por Sebastião de Campos. 

Cantador domador e tropeiro, Adeodato Manoel Ramos ou também Joaquim José de Ramos como se denominava é natural de Cerrito, município de Lages. 

Aprendeu o oficio de tropeiro e outras lides do campo. Durante vários anos trabalharam juntos  como peões. 

A sua habilidade como tropeiro e domador redeu-lhe o oficio de capataz de um fazenda de gado nos arredores de Perdizes Grandes, pertencente a Manoel Dias, sua capacidade de liderança deve-se sua potente voz. 

Era comum entre os sertanejos comunicarem-se através de versos. A porfia era apreciada como divertimento que todos gostavam. Adeodato na prisão improvisava versos com as mais variedades finalidades 

Outra características atribuída Adeodato é que, posteriormente, lhe trouxe grandes proveitos: a habilidade que possuía no manejo de armas. 

Entrando para os Redutos, a região conflagrada foi aumentando e adesão ao movimento acorrida espontaneamente, por influencias de parentes e amigos, ou aconteciam pelas forças dos piquetes de coerção. Adeodato, no começo não aderira ao movimento. 

Participou como outro qualquer. A sua bravura rende-lhe um posto no piquete xucro de Francisco Alonso. 

O novo comandante seria escolhido entre os que faziam parte do reduto, e entre os que desejavam tomar parte do novo comandante, os partidários de Maria Rosa. Tinham como principal nome Antoninho, menino de Deus do reduto de São Sebastião. 

Os partidários de Antoninho eram acusados de traírem o movimento, querendo que todos sertanejos se entregassem. 

Elias de Moraes e Eusébio, contrariados, optaram por que lhes parecia melhor (Adeodato Manoel) como Comandante Geral de todos os Redutos. 

Ao regressar já estava consagrado; Já era o novo chefe. 

Antoninho, antes da chegada de Adeodato, ainda tentou transferir o reduto-mor de Caçador para reduto de São Sebastião no Timbòzinho. Foi preso por Aleixo Gonçalves e trazido para Caçador. 

Em dezembro de 1914, Adodato ordenou que o reduto mor fosse transferido de Caçador para o vale de Santa Maria. A mudança deu-se ao fato das forças legais fecharam cada vez mais o cerco e por Santa Maria localizar-se numa área estratégica privilegiada. 

A fortaleza natural, onde foi organizado reduto-mor de Santa Maria, aparentava ser verdadeiramente um “chão sagrado”, uma “cidade santa” que os sertanejos acreditavam construir. Transformou-se em pouco tempo no palco da maior batalha que os sertões conheceram até então. 

Desde a data que o General Setembrino assumiu o comando das forças do governo, até a destruição total do reduto de Santa Maria, incluindo piquetes, guardas e redutos circunvizinhos , foi um período de grande mortandade de lado a lado 

As guardas e redutos que iam sendo desalojados pelas forças oficiais convergiam para Santa Maria, prova  de que destruir Santa Maria não seria tarefa fácil para exercito, a marcha do Comandante Potiguara com sua coluna assinalava os momentos decisivos da campanha. 

A tropa de Potiguara, depois de fazer um percurso de 19 léguas, de Canoinhas até Santa Maria, em dez  dias de seguidos combates, atinge o âmago da fortificação: alcançaram o coração do reduto de Santa Maria. A exaustão dos soldados de Potiguara, o grande numero de feridos, a morte do único da expedição, de soldados e de oficiais, eram indicadores da situação dramática das tropas. Por outro lado, Adeodato, com seus homens ainda tenta impedir a tomada do reduto, concentrando as enfraquecidades forças contra o invasores que se encontravam no centro da cidade santa. E o momento oportuno, em que a coluna sul consegue transpor a forte guardada da entrada do vale, anteriormente intransponível, então abandonada. A junção das duas colunas assinalou a destruição final do Santa Maria. 

Para Adeodato, a batalha estava perdida, mas a guerra ainda não, enquanto as brasas ainda ardiam em Santa Maria, o comandante rumava para São Miguel. 

Ao contrário das boas lembranças que havia de Caraguatá, no tempo de Maria Rosa, o tempo de Santa Maria, no comando de Adeodato, são marcados por um cotidiano de sofrimento: guerra, fome, doença e morte. A doença mais grave que acometia caboclos era o tifo, e não foi uma única vez que se manifestou de forma epidêmica. 

A fome castigava. Não possuindo roças e impedidos de saírem para coletar frutas, mel e caçar, os sertanejos não tinham o que comer. 

Alimentar perto de 5.000 pessoas não era fácil, com o cerco militar complicou-se mais. O gado arrebanhado anteriormente e que estava na mangueira, foi sendo abatido, pois carneavam de dez a doze cabeças por dia. Conta o senhor Miguel: 

Na tentativa de saciar a fome apelavam para frutas de imbuia, miolos de xaxim, brotos, mel e caça, o que fosse possível encontrar nos arredores. Muitas crianças morreram de fome.

Há unanimidade nos depoimentos, quando afirmam que comiam tudo que fosse de couro, além de cavalos.

Calcula-se que mais de 3.000 sertanejos se entregaram em janeiro de 1915. Desta fase até o final do conflito, nem todos os que se entregaram tiveram a mesma sorte.  

Por outro lado, para fugir dos redutos também não era fácil. Quem falhasse na tentativa de fuga enfrentaria a fúria de Adeodato, podendo pagar com a pena capital. 

Era na verdade o Regime do Terror. Quando foi dissolvida a expedição militar, a guarnição da região ficou a cargo de reduzidas tropas do exército nas principais cidades da região.  

Adeodato se defendeu dizendo que matou a mulher porque fora por ela enganado. Miguel Correa confirma que Adeodato também matou Joaquim Germano. Não há dúvida que o Comandante praticou o terror interno de forma crescente, referindo-se à violência. 

Explorando em crueldade, Adeodato chegou a proibir qualquer tipo de lamentação. Era proibir chorar. Até mesmo as viúvas deveriam conformar-se silenciosamente, porque assim tinha que ser. 

Andando pelo reduto, principalmente na ocasião das formas, simplesmente puxava o revólver e atirava, eliminando um companheiro. 

O derradeiro Reduto foi São Pedro, nas margens do rio Timbó, onde atualmente se localiza a sede do município de Timbó Grande. E as regras de Adeodato continuam vigorando nos redutos, atemorizando e controlando com maior obstinação. 

Agravaram-se os fatos quando evidenciou-se novamente a fome aguda; o espaço foi delimitado para que ninguém se afastasse do reduto; poucos conseguiam ordem para partir em busca de alimentos. 

O povo do reduto andava desanimado, já não havia mais o entusiasmo de antes, e o fervor religioso estava esmorecido. 

Quando chega o ano de 1915, no mês de outubro, o reduto de Pedras Brancas, fora tomado, e incendiado por vaqueanos comandados por Lau Fernandes e por praças da polícia militar de Santa Catarina. 

Para aqueles que haviam se dispersado não sobrou muitas alternativas, entregarem-se as forças ou ir para o reduto de Adeodato. 

O reduto estava com os seus dias contados, e ainda assim, teve quem optou por São Pedro, onde foram recebidos a contragosto, aumentando a fome no reduto. 

Ainda no ano de 1915, no mês de dezembro, os moradores de São Pedro, foram surpreendidos enquanto rezavam. Em uma ação rápida, os vaqueanos em meio ao pânico geral, puseram fim ao ultimo reduto, que não fora em nada diferente dos anteriores. Transpondo cadáveres,  incendiando ranchos e saqueando míseros pertences, as forças atacantes espalham o pavor. 

Apesar de ter escapado Adeodato não chegou reerguer novo reduto. Os sertanejos eram maltrapilhos famintos, doentes e moribundos. Muitos, vencidos pela fraqueza, caiam pelo caminho e ali, esperavam a morte.

Depois de vagar alguns dias pelas matas, com um pequeno grupo de pessoas doentes e famintas, chegou as margens do rio Tamanduá. Onde declarou a guerra perdida e ordenou que ninguém o seguisse.  

Mariazinha o acompanhou, onde logo mais foi morta por Adeodato, que continuou vagante pelas matas, tentando escapar de piquetes vaqueanos, até ser preso. 

Marcando profundamente a Guerra do Contestado, e a memória dos que presenciaram os acontecimentos. Ainda hoje, permanece na imaginação do povo, apontado como personagem abominável, e até culpado pelo fracasso. 

Em divulgação aos fatos relativos à Campanha do Contestado, condenaram os sertanejos, de modo geral, e não apenas Adeodato. Teriam sido os únicos responsáveis pelo terrível episódio. Encontrou-se nos caboclos os culpados, condenando-os ao silêncio pelo fato de terem sido vencidos. 

De São Francisco, Adeodato foi levado para Florianópolis para o interrogatório com o chefe de polícia, Admitiu sua qualidade de comandante e procurou justificar as mortes que lhe atribuíram. 

Na cadeia de Curitibanos aguardou o julgamento. Foi julgado, e condenado a pena máxima permitida por lei. Trinta anos de cadeia. Que deveria ser cumprida em curitibanos mas por questões de segurança foi remetido a Lages. De onde, numa noite de ventania juntamente com mais dois presos fugiu. Sua fuga durou pouco, fora encontrado completamente embriagado, e sem resistência foi recapturado. Desta vez foi enviado para Florianópolis onde cumpriu o resto da pena.   

 

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