Da
Monarquia à República
RESENHA CRÍTICA
Da Monarquia à
República: momentos decisivos, 5ª edição, VIOTTI, Emília da Costa, São
Paulo, 1987 (p. 321 – 361).
As
razões consagradas tradicionalmente em nossa historiografia são suficientes
para dar conta do processo que resultou na superação da monarquia e conseqüente
instalação da República no Brasil? No trabalho em epígrafe, a historiadora
Emília Viotti afirma que não. Segundo ela, é " lugar – comum"
entre os historiadores sustentar a explicação histórica em cima de argumentos
recorrentes e justapostos que não passam de interpretações superficiais e
pouco objetivas. "Faltam estudos sistemáticos e de conjunto sobre a questão
e as versões tradicionais continuam repetidas nos manuais didáticos," (p.
326) .
Para
consubstanciar sua tese, Viotti propõe uma espécie de revisionismo historiográfico
em que discute a qualidade das fontes selecionadas para a elaboração do
discurso (documentos testemunhais) e o tipo de leitura que se pode realizar em
função dos limites pertinentes à natureza de tais fontes (paixão, ignorância,
inexatidão, etc.). De igual modo afirma que as primeiras versões apresentadas
pelos monarquistas que consideravam a República um ato de insubordinação e
revanchismo, e pelos Republicanos, necessárias correções de vícios, estavam
eivadas de ressentimentos derivados de antagonismos entre tais grupos.
Para Viotti, o discurso produzido na 2ª década do século XX é marcado pelo
presentismo justificador e pela influência positivista que opõe a noção de
"ação individual x processo." É, de fato, na 3ª década do século
XX que a historiografia realiza progresso. "Abandonando as versões
subjetivas dos testemunhos, procuram os historiadores explicar a queda da
Monarquia pela inadequação das instituições vigentes ao progresso do país".(p.225)
E, desse modo, inaugura-se nova perspectiva de abordagem do episódio . É nesse
particular que reside a contribuição da autora: fazer uma releitura do episódio
com mudança de enfoque, promovendo reparos nas versões até então elaboradas
e, assim, estabelecer novos parâmetros para a compreensão do processo de
construção do projeto republicano no Brasil .
Após
examinar, ponderar e expurgar os excessos da argumentação tradicional (a
alegada tríade de questões: da abolição, militar e religiosa)estabelece o
que na sua visão seriam os verdadeiros pressupostos para a eclosão do
movimento republicano: as contradições entre os diversos interesses de grupos
econômicos distintos; a distância das províncias em relação ao centro do
poder e, por fim, a dificuldade de acomodação política das novas forças econômicas
(muito condicionadas pela nova ordem econômica mundial então vigente) que
acabaram por arrastar o regime monárquico a um nível de inércia que o
inviabilizou definitivamente como projeto de governo. Enfatiza, ainda , a
necessidade de atualizar o discurso historiográfico em razão dos novos
horizontes da historiografia, o que ,segundo defende ,ajuda a ampliar o campo
conceitual do historiador.
Emília
Viotti da Costa é professora emérita de História da América Latina da
Universidade de Yale (EUA), professora emérita da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da USP e autora dos livros "Da Senzala à Colônia"
(Unesp), "Coroas de Glória", "Lágrimas de
Sangue"(Companhia das Letras), entre outros. A historiadora, em tela, segue
a linha da história social .