NUTRIÇÃO
PARENTERAL
A Nutrição Parenteral pode ser utilizada
tanto como terapia exclusiva quanto como de apoio, dependendo
basicamente da capacidade fisiológica de digestão
e/ou absorção de cada paciente. Defini-se
pela administração endovenosa de macro e
micronutrientes, por meio da via periférica ou central.
As principais indicações são depleção
das proteínas plasmáticas, perda significativa
ou incapacidade de manutenção do peso corpóreo,traumas
e cirurgias.
A indicação adequada,a manutenção
dos controles bioquímicos,clínicos e antropométricos
permitem diminuir as complicações infecciosas,metabólicas
ou de infusão.
O retorno gradual e o mais precoce possível à alimentação
oral é a condição a ser alcançada
em toda terapia de nutrição parenteral.
INTRODUÇÃO
Entende-se por Nutrição Parenteral a administração
de nutrientes como glicose e proteínas, além
de água, eletrólitos, sais minerais e vitaminas
através da via endovenosa, permitindo assim a manutenção
da homeostase, já que as calorias e os aminoácidos
necessários são supridos (3,9).
Tal método pôde ser observado já no
século XIV, porém seus primeiros resultados
não se mostraram satisfatórios. As primeiras
soluções glicosadas e hidrossalinas apareceram
no início do século XVII, mas somente no
século XX, mais especificamente 1968, houve a sistematização
da Nutrição Parenteral através da
proposta de Dudrick da Universidade da Pensilvania, a qual
provava a eficácia e a aplicabilidade segura do
uso do método (3,4,5,8,9).
A Nutrição Parenteral é utilizada
normalmente como terapia de apoio (complementando as necessidades
nutricionais de pacientes em que via enteral não
consegue suprí-las) ou terapia exclusiva (onde uso
da via enteral é proibida), sendo que em ambos casos
ela pode combater desnutrição, podendo até reverter
quadro imunológico (4).
VIAS DE ADMINISTRAÇÃO
As vias utilizadas para a administração da
alimentação parenteral são a periférica
e a central. Na primeira podem ser somente oferecidas soluções
hipoosmolares, hipoconcentradas e as gorduras. Já na
segunda há infusão de soluções
hipertônicas de glicose e proteínas, vitaminas
entre outros.
A via mais utilizada é a central, sendo que a canulação
da veia subclávica (por via infraclavicular) é a
rotineiramente usada para ter acesso à veia cava
superior. O catéter deve posicionar-se no átrio
direito, o que deve ser verificado através de RX(2).
Estipulada a via de administração, a solução
pode ser instalada, respeitando sempre as condições
estabelecidas quanto ao volume e as calorias, situação
esta controlada através da velocidade do gotejamento.
As soluções base são hipertônicas,
logo necessitam ser infundidas em veia central. Estas soluções
são compostas por 500 ml de solução
de glicose 50% (fornece aproximadamente 1000kcal) adicionados
em 500ml solução de aminoácido 10%
(fornece aproximadamente 200 kcal); há ainda o acréscimo
de eletrólitos e polivitamínicos (em função
das quantidades insuficientes de ácido fólico
e vitamina B12 nos polivitaminicos, há necessidade
de aplicação intramuscular dos mesmos). Já as
gorduras são fornecidas sob forma de emulsão
10% (500ml aproximadamente 450 kcal) por meio da via periférica,
não havendo risco de flebite. Outra vantagem da
emulsão é o seu elevado aporte energético
em volumes reduzidos, além de fornecer os ácidos
graxos essenciais.
INDICAÇÕES
Como já foi dito anteriormente, a Nutrição
Parenteral pode ser usada como apoio ou exclusivamente,
para aqueles casos em que o uso da via enteral é contra
indicada, a seguir os mesmos serão expostos:
- Traumas: normalmente levam a estados hipermetabólicos
(perda elevada de N e alto gasto energético), logo
a única terapia capaz de suprir tais necessidades é a
parenteral. Isto é possível através
do fornecimento de emulsões lipídicas que
apresentam alto teor calórico.
- Fístulas Enterocutâneas: a desnutrição é uma
das maiores causas de mortalidade em pacientes com esta
patologia, logo a Nutrição Parenteral nesses
casos tem objetivo de recuperar o estado nutricional desses
pacientes. Estudos apontam que o tratamento convencional
de fístula associada à Nutrição
Parenteral tem promovido recuperação e fechamento
precoces.
- Insuficiência Hepática: todos os nutrientes
têm seus metabolismos alterados, principalmente as
proteínas. A competição entre aminoácidos
ramificados e aromáticos é favorável
já que há síntese de proteínas
no músculo (ideal para reparação hepática)
e reduzem o catabolismo (conseqüente diminui produção
de amônia), logo aos pacientes com tal patologia
são fornecidas altas concentrações
de aminoácidos ramificados e baixa concentração
de aromáticos.
- Insuficiência Renal Aguda: caracteriza-se pela
retenção nitrogenada e hiperosmolaridade.
Apesar disso, a oferta de proteínas deve ser normal,
com intuito de evitar desnutrição energético
protéica. A solução protéica
fornece aproximadamente 15g de aminoácidos, mantendo
assim o equilíbrio metabólico com os carboidratos.
- Pancreatite Aguda: a Nutrição Parenteral
objetiva, nesse caso, o repouso pancreático fundamental
para recuperação das funções
e evitar hemorragias/necrose tecidual. Nestes casos, a
emulsão lipídica deve ser utilizada com cuidado
(10% VCT), e as soluções devem ser hiperglicídicas
e hiperproteicas para fortalecer aporte calórico.
- Enteropatias Inflamatórias: nessas patologias
há necessidade de repouso, redução
de secreção e motilidade intestinal, porém
a desnutrição deve ser controlada para que
os resultados da cirurgia sejam satisfatórios.
Portanto, após expostas as indicações,
pode-se afirmar novamente que a Nutrição
Parenteral é destinada àqueles pacientes
que possuem a via oral e/ou gastrointestinal impossibilitadas
de serem usadas (3,4,5), com gasto metabólico elevado,
decorrente de doença/trauma e que apresentam aporte
calórico proteico insuficiente, além de ser
usado como preparo de pacientes no pré operatório.
Existem três indicadores que são utilizados
para apontar os pacientes de risco (1,5), os quais são
fortes candidatos ao suporte nutricional via NP, são
eles:
•
perda de 10% ou mais peso corpóreo;
•
albumina sérica abaixo de 3g/dL;
•
transferina sérica com valores inferiores a 220
mg/dL.
CONTROLES
Após a Nutrição Parenteral ser instalada,
alguns recursos são usados no controle e/ou na verificação
da aceitação do método (3,4,5,9),
dentre os quais podem ser citados:
-avaliação nutricional
:
• curva de peso: antes de iniciar e, posteriormente de 3/3
dias
•
circunferência do braço: antes de iniciar
e, posteriormente semanalmente
•
prega cutânea: antes de iniciar e depois semanal
•
contagem linfocitária
•
testes cutâneos de sensibilidade: antes de iniciar
e depois a cada semana
-exames laboratoriais :
• hemograma completo: antes de iniciar; em dias alternados
na 1a semana e depois semanalmente
• glicemia: antes de iniciar; em dias alternados na 1a semana
e posteriormente uma vez por semana
• colesterol total: antes de iniciar e, dependendo do caso
repetidas vezes
•
triglicerídeos: idem acima
• hemocultura: semanalmente
•
glicosúria: 6/6 horas
•
dosagem de proteínas de vida média curta
(ex: pré-albumina): antes de iniciar; em dias alternados
e depois semanalmente
-balanço hídrico: diariamente
COMPLICAÇÕES
Quanto às complicações observadas
relacionadas à Nutrição Parenteral
(3,4,5,9), valem ser ressaltadas as:
•
Infecciosas (septicemia): são as mais graves, já que
os pacientes usuários da Nutrição
Parenteral estão, geralmente, debilitados previamente(1).
São decorrentes de contaminação, seja
das soluções ( o que é mais raro)
, do catéter ou do momento de inserção
do mesmo.
•
Não Infecciosas: estão relacionadas a problemas
na introdução do catéter, podendo
ocorrer: pneumotórax, hemotórax, má posição
de catéter, flebotrombose, hidrotórax, hidromediastino,
lesão nervosa, lesão arterial (subclávica),
perfuração miocárdica, laceração
da veia, etc.
•
Metabólicas: são decorrentes de alterações
do metabolismo dos nutrientes utilizados nas soluções
infundidas.
Estas podem se dar quanto:
-aos carboidratos: hiperglicemia e coma hiperosmolar não
cetônico (decorrentes de intolerância à glicose),
diurese osmótica, hipoglicemia (decorrente de aumento
da produção insulínica endógena
associada a insulina exógena);
-aos lipídeos: deficiência de ácidos
graxos essenciais, hipertrigliceridemia;
-aos aminoácidos: hiperamoniemia, acidose metabólica
hiperclorêmica (resultante da liberação
de ácido clorídrico por parte dos aminoácidos
cristalinos utilizados);
-aos eletrólitos: hipofosfatemia (leva diminuição
do transporte de oxigênio e da capacidade de coagulação
sangüínea), hipo/hiperpotassemia e hipo/hipernatremia;
-às vitaminas: hipervitaminose A e D (por serem
lipossolúveis têm tendência ao acúmulo
no organismo), hipovitaminose K, B12 e de ácido
fólico;
-aos oligoelementos: deficiência principalmente de
Cobre, Selênio e Zinco;
-ao excesso de oferta hídrica.
Lembrando sempre que, assim que possível o desmame
da Nutrição Parenteral, deve ser realizado
gradativamente para a alimentação enteral
e posteriormente para via oral, mais fisiológica
e menos custosa.
CONCLUSÃO
Pode-se observar e concluir que a
Nutrição
Parenteral, se bem aplicada, é um recurso de extrema
importância na manutenção e/ou melhora
do estado de saúde dos pacientes de pequeno, médio
e alto risco, seja em âmbito hospitalar quanto domiciliar.
A Nutrição Parenteral pode ser interpretada
como terapêutica extremamente segura, quando seus
procedimentos técnicos e de higienização
são seguidos rigorosamente pelos profissionais.
Caso contrário, é uma via direta à septicemia
e um conseqüente perigo para a sobrevivência
dos pacientes.
Referências bibliográficas citadas
1 Archer,S.B; Burnett,R.J e Fisher, J.E. -Current uses
and abuses of total parenteral nutrition : Adv Surg 29
: 165-89, 1996.
2 Collier,S e LO,C. -Advances in parenteral nutrition :Curr
Opin Pediatr 8 (5) : 476-82, 1992.
3 Corrêa,C.A e cols. -Nutrição Parenteral
: Acta med.(Porto Alegre) : 360-83, 1984.
4 Faintuch,J e cols. -Indicações e respostas
da nutrição parenteral em pacientes cirúrgicos
com câncer : Rev.Hosp.Clin.Fac.Méd.Univ.São
Paulo 36 (5) : 194-7, 1981.
5 Karkow,F.J e Kuse,M.T. -Nutrição Parenteral
prolongada : experiência e valorização
do método: Rev.AMRGS 27 (4) : 476-81, 1983.
6 Lipsky,C.L e Spear,M.L. -Recent advances in parenteral
nutrition : Clin perinatol 22 (1) : 141-55, 1995.
7 Pennington,C.R; Powell-Tuck,J e Shaffer,J. -Review article
: artificial nutritional support for improved patient care
: Aliment Pharmacol Ther 9 (5) : 471-81, 1995.
8 Rasslon,S e cols. -Nutrição parenteral
domiciliar :Rev.Paul.méd 101(6): 222-7,1983.
9 Santos,M.F e cols. Sistematização de nutrição
parenteral :Rev.bras.cir 7 (4) :237-42,1982.
Trabalho Desenvolvido no Centro de Nutrição
da Universidade São Marcod e Centro de Adolescentes
UNIFESP - Artigo Publicado no Jornal Brasileiro de Medicina
(JBM), Edição de Julho/2001 - Vol.81 - N° 1.