Paralisia Cerebral
INTRODUÇÃO
A Paralisia Cerebral foi descrita em 1843, quando William
John Little, um ortopedista inglês, descreveu 47
crianças portadoras de rigidez espástica.
O termo PC foi introduzido por Freud enquanto estudava
a “Síndrome de Little”. Segundo este último, "paralisia
cerebral é uma desordem do movimento e da postura,
persistente, porém variável, surgida nos
primeiros anos de vida pela interferência no desenvolvimento
do Sistema Nervoso Central, causada por uma desordem
cerebral não progressiva."
O termo paralisia cerebral (PC) é usado para descrever
um grupo de disfunções dos movimentos e da
coordenação motora. É considerado
por muitos autores inadequado, pois significaria uma ausência
total de atividades físicas e mentais, o que não
ocorre nestes quadros. Talvez fosse mais correto o emprego
do termo genérico, “criança com lesão
cerebral”.
A PC tem mantido a mesma incidência nos últimos
anos. A das formas moderadas e severas está entre
1,5 e 2,5 por 1000 nascidos vivos nos países desenvolvidos;
mas há relatos de incidência geral, considerando
todos os níveis de comprometimento de até 7:1000.
O dano causado pela paralisia cerebral pode ser desde muito
leve até gravíssimo. Cada indivíduo
PC é totalmente diferente do outro. Dependendo de
quais áreas do cérebro foram afetadas, pode
ocorrer rigidez ou espasmo muscular, movimentos involuntários,
falta de coordenação motora, problemas com
a fala, com a visão, com a audição,
percepção tátil, convulsão
e déficit intelectual.
1 DA PATOLOGIA
Atualmente, o termo Paralisia Cerebral vem sendo usado
como o significado do resultado de um dano cerebral ,
que leva à inabilidade, dificuldade ou o descontrole
de músculos e de certos movimentos do corpo. O
termo Cerebral quer dizer que área atingida é o
próprio Sistema Nervoso Central e a palavra Paralisia
refere-se ao resultado do dano ao mesmo, afetando os
músculos e coordenação motora, dos
portadores desta condição especial de ser
e estar no mundo.
As crianças afetadas por Paralisias Cerebrais têm
uma perturbação do controle de suas posturas
e dos movimentos do corpo, como conseqüência
de uma lesão cerebral. Estas lesões possuem
diversas causas, freqüentemente devido à falta
de oxigenação antes, durante ou logo após
o parto, não existindo dois casos semelhantes, pois
algumas crianças têm perturbações
sutis, quase imperceptíveis, aparentando serem "desajeitadas" ao
caminhar, falar ou usar as mãos, enquanto que as
submetidas a lesões cerebrais mais graves, a exemplo
de casos de anóxia neonatal, podem apresentar incapacidade
motora acentuada, impossibilidade de falar, andar e se
tornam dependentes para as atividades cotidianas.
1.1 Tipos
Dependendo da localização das lesões
e áreas do cérebro que foram afetadas, as
manifestações podem ser diferentes. Há três
formas (tipos) mais comuns e pode-se classificar um quarto
tipo de Paralisia Cerebral que seria uma combinação
de 2 ou mais formas.
O córtex controla os pensamentos, os movimentos
e as sensações. Uma anormalidade nela pode
resultar na Paralisia Cerebral do tipo Espástica.
Caracterizada por aumento e paralisia de tonicidade dos
músculos. Pode haver um lado do corpo afetado (hemiparesia),
os membros inferiores (diplegia), ou os 4 membros (quadriplegia).
Os Gânglios da Base ajudam a organizar os movimentos
finos e delicados. Uma anormalidade deles pode resultar
na Paralisia tipo Atetóide. Caracterizada por distonia
(variações da tonicidade muscular) e movimentos
involuntários afetando o Sistema Extra-Piramidal.
O cerebelo controla e coordena os movimentos, as posturas
e nosso equilíbrio. Uma anormalidade nele pode resultar
na PC tipo Atáxica. Esta se caracteriza por diminuição
da tonicidade muscular, dificuldade para se equilibrar
com descoordenação dos movimentos, podendo
haver movimentos trêmulos das mãos e fala
comprometida.
Os tipos mistos de paralisia cerebral ocorrem com freqüência:
quando a criança combina características
dos vários quadros, embora tenha predominância
maior de um deles. De acordo com os membros atingidos pelo
comprometimento neuro-muscular podemos ter o grupo das
displegias onde as crianças apresentam um comprometimento
maior das extremidades inferiores do que das superiores;
o grupo das crianças com quadriplegia que apresenta
um comprometimento do corpo todo e o grupo das hemiplegias
onde a criança apresenta um dimídio (lado)
do corpo comprometido.
1.2 CAUSAS
Há 3 tipos de fatores que predominam, apesar de
que as categorizações iniciais dos tipos
de PC têm-se mostrado inconsistentes, pois uma única
criança pode mudar de uma categoria diagnóstica
para outra durante o processo de maturação.
a) Fatores pré-natais: São aqueles que aparecem
antes do nascimento e citamos como principais causas: Alterações
genéticas e/ou congênitas, sendo as mais importantes
doenças infecciosas contraídas durante a
gravidez (toxoplasmose, rubéola, herpes, sífilis),
exposição prolongada e inadequada aos Raios-X,
uso de drogas e/ou álcool durante a gravidez, hidrocefalia,
hemorragias do período gestacional, eclampsia, diabetes
gravídica, etc.
b) Fatores peri-natais: Os problemas seriam causados por
complicações ocorridas no momento do parto,
que causariam sofrimento fetal com baixa oxigenação
cerebral e conseqüente lesão do Sistema Nervoso
Central, um exemplo clássico é a falta de
oxigênio.
c) Fatores pós-natais: Ocorrem após o nascimento
da criança e secundariamente a processos infecciosos
do sistema nervoso central , principalmente encefalites
e meningites, abscessos cerebrais, traumatismos cranianos,
dentre outros.
1.3 Prevenção
Acompanhamento pré-natal regular e boa assistência
ao recém-nascido na sala de parto diminuem a possibilidade
de certas crianças desenvolverem lesão cerebral
permanente, por outro lado, muitas das crianças
que superam situações críticas com
a ajuda de recursos sofisticados das terapias intensivas
neonatais modernas, principalmente os prematuros, sobrevivem,
mas com seqüelas neurológicas. Portanto, apesar
de ter havido uma evolução importante em
termos do atendimento à gestante e ao recém-nascido
na sala de parto, nos últimos 40 anos não
houve uma redução significativa da prevalência
da PC mesmo nos países desenvolvidos.
Todo esforço para que o período gestacional
seja o mais saudável possível através
da manutenção de uma boa nutrição
e da eliminação do uso de álcool,
fumo, drogas e medicações sabidamente teratogênicas
deve ser feito, pois estas medidas estarão contribuindo
para a prevenção de alguns tipos de PC. A
rubéola congênita pode ser prevenida se a
mulher for vacinada antes de se engravidar. Quanto à toxoplasmose
materna, medidas de higiene, como não ingerir carnes
mal cozidas ou verduras que possam estar contaminadas com
fezes de gato são importantes. As gestantes com
sorologia positiva devem ser adequadamente tratadas, diminuindo
assim os riscos de infecção fetal. A incompatibilidade
Rh pode ser facilmente prevenida (vacina anti-Rh+) e identificada.
Quando a bilirrubina não conjugada no recém-nascido
atinge níveis críticos, a criança
deve ser submetida à ex-sanguíneo-transfusão
(troca de parte do volume sanguíneo). O tratamento
adequado da incompatibilidade sanguínea reduziu
em muito a incidência da PC com movimentos involuntários.
1.4 Diagnóstico
O tipo de alteração do movimento observado
está relacionado com a localização
da lesão no cérebro e a gravidade das alterações
depende da extensão da lesão. A PC é classificada
de acordo com a alteração de movimento que
predomina.Formas mistas são também observadas.
Dificuldade de sucção, tônus muscular
diminuído, alterações da postura e
atraso para firmar a cabeça, sorrir e rolar são
sinais precoces que chamam a atenção para
a necessidade de avaliações mais detalhadas
e acompanhamento neurológico.
A história clínica deve ser completa e o
exame neurológico deve incluir a pesquisa dos reflexos
primitivos (próprios do recém-nascido), porque
a persistência de certos reflexos além dos
seis meses de idade pode indicar presença de lesão
cerebral. Reflexos são movimentos automáticos
que o corpo faz em resposta a um estímulo específico.
O reflexo primitivo mais conhecido é o reflexo de
Moro que pode ser assim descrito: quando a criança é colocada
deitada de costas em uma mesa sobre a palma da mão
de quem examina, a retirada brusca da mão causa
um movimento súbito da região cervical, o
qual inicia a resposta que consiste inicialmente de abdução
(abertura) e extensão dos braços com as mãos
abertas seguida de adução (fechamento) dos
braços como em um abraço. Este reflexo é normalmente
observado no recém-nascido, mas com a maturação
cerebral, respostas automáticas como estas são
inibidas. O reflexo de Moro é apenas um dentre os
vários comumente pesquisados pelo pediatra ou fisioterapeuta.
Depois de colhida a história clínica e realizado
o exame neurológico, o próximo passo é afastar
a possibilidade de outras condições clínicas
ou doenças que também evoluem com atraso
do desenvolvimento neurológico ou alterações
do movimento como as descritas anteriormente.
Exames de laboratório (sangue e urina) ou neuroimagem
(tomografia computadorizada ou ressonância magnética)
poderão ser indicados de acordo com a história
e as alterações encontradas ao exame neurológico.
Estes exames, em muitas situações, esclarecem
a causa da paralisia cerebral ou podem confirmar o diagnóstico
de outras doenças.
Em geral, o diagnóstico de paralisia cerebral sugere
que o individuo em questão tem algum distúrbio
central de postura e movimento. Além disso, o processo
de identificação com freqüência
mostra partes do corpo que estão primariamente envolvidas.
2 TRATAMENTO
Não há medicamentos nem operações
que possam curar uma paralisia cerebral, havendo, porém,
diversas e inovadoras possibilidades de melhorar e minimizar
seus efeitos. Estes progressos não são súbitos,
mas demorados, avançando progressivamente e na dependência
direta dos recursos tecnológicos, como o uso da
Informática na EDUCAÇÃO e dos recursos
terapêuticos colocados à disposição
da comunidade. As crianças com PC têm muitos
problemas, mas nem todos são relacionados com as
lesões cerebrais. Citaremos apenas os que mais freqüentemente
se manifestam
2.1 Desordens associadas
Epilepsia: é comum ocorrerem convulsões ou
crises epilépticas, de maior ou menor intensidade
e dentro das mais variadas formas desta manifestação
neurológica, sendo mais comuns no período
pré-escolar, estando associadas ao prognóstico
e à evolução de outros problemas que
atingem um paralisado cerebral.
Deficiência Mental: com uma ocorrência de aproximadamente
50% dos casos, tem levado a distorções e
preconceitos acerca dos potenciais destes portadores de
deficiência, devendo-se diferenciar os diversos graus
de comprometimento mental de cada criança, baseando-se
em acompanhamento especializado e evolutivo das mesmas.
Deficiências Visuais: ocorrem casos de baixa-visão,
estrabismos e erros de refração, que podem
ser precocemente diagnosticados e tratados, com bom prognóstico
oftalmológico, devendo-se intensificar sua diagnose
com os novos avanços em tecnologia e a correção
preventiva de danos com uso de lentes ainda nos primeiros
anos de vida.
Dificuldades de Aprendizagem: as crianças com paralisia
cerebral podem apresentar algum tipo de problema de aprendizagem,
o que não significa que elas não possam ou
não consigam aprender, necessitando apenas de recursos
aprimorados de Educação Especial, integração
social em Escolas Regulares, uso de Recursos Tecnológicos,
a exemplo do uso de Computadores e outros aparelhos informatizados
para o estímulo e a busca de meios de comunicação
e aprendizagem inovadores para eles.
Dificuldades de Fala e Alimentação: devido à lesão
cerebral ocorrida, muitas crianças com esta necessidade
especial apresentam problemas de comunicação
verbal e dificuldades para se alimentar, devido ao tônus
flutuante dos músculos da face, o que prejudica
a pronúncia das palavras com movimentos corretos,
podendo-se recorrer a tratamentos especializados e orientação
fonoaudiológica, a fim de minimizar e até resolver
alguns destes distúrbios. E para as crianças
que não falam, já contamos com os comunicadores
alternativos e as linguagens através de símbolos.
Desordens da sucção, mastigação
e deglutição são comuns a estas crianças.
Todos estes fatores contribuem para uma ingestão
alimentar abaixo das necessidades. Além disso, muitas
crianças com limitações motoras são
mantidas por longos períodos com dietas próprias
para bebês.
A dieta deve ser planejada de acordo com as características
clínicas e as limitações de cada criança.
Por exemplo, para facilitar a deglutição
e reduzir o refluxo de parte do conteúdo gástrico
para o esôfago, recomenda-se manter a criança
com a cabeça e o tronco em posição
semi-elevada durante e por alguns minutos após cada
refeição. Nas crianças com refluxo
gastresofágico, as refeições devem
ser de menor volume e oferecidas em intervalos de tempo
menores para que não haja prejuízo do total
de nutrientes ingeridos em um dia. As crianças com
dificuldade para deglutirem líquidos, devem ser
alimentadas com pequenos volumes de dieta pastosa e de
sucos engrossados com frutas e gelatinas procurando-se
assim manter um bom nível de hidratação.
2.2 Tratamentos importantes
2.2.1 Tratamento ortopédico
especializado
O tratamento com médico-ortopedista, como procedimento
de uma equipe multiprofissional, é imprescindível
para a prevenção e correção
de possíveis deformidades dos membros superiores
e inferiores, já que este profissional poderá interagir
para que a criança possa se tornar o mais independente
possível, avaliando a necessidade de cirurgias,
aparelhos ortopédicos de correção
(órteses e próteses), ou adaptações
a serem construídas em conjunto com Fisioterapeutas
e terapeutas ocupacionais.
Algumas das principais deformidades que ocorrem nas crianças
com paralisia cerebral são: os pés em eqüinismo,
as luxações e sub-luxações
dos quadris, as escolioses e lordoses da coluna vertebral,
e outras deformidades decorrentes principalmente de quadros
espásticos, onde a contratura dos músculos
leva alterações de tendões e ligamentos
dos membros inferiores e superiores de crianças
com Paralisia Cerebral. Todas estas deformidades podem
e devem ser acompanhadas e mantidas sob orientação
contínua de um ortopedista, este cuidado pode evitar
e até adiar a necessidade de tratamentos mais invasivos
ou dispendiosos. Neste sentido uma boa orientação
aos pais e familiares é parte do processo de acompanhamento
da criança, principalmente quanto às suas
expectativas e frustrações acerca das capacidades
da mesma.
2.2.2 Tratamento odontológico
especializado
Devido a problemas decorrentes
de seu quadro, como a sialorréia
(a baba incessante, por descontrole de musculatura oro-faríngea)
há uma grande incidência de cáries,
doença periodontal e má oclusão, que
podem e devem ser prevenidas com um precoce atendimento
a todas as crianças com PC, principalmente com a
participação ativa dos pais ou parentes no
processo de introdução de cuidados de higiene
bucal e do tipo de alimentação, associados
ao tratamento ambulatorial destes Pacientes Especiais.
A melhor opção para as pessoas com Paralisias
Cerebrais, quanto a um tratamento odontológico, é o
desenvolvimento de um trabalho de Odontologia Preventiva,
procurando-se orientar e conscientizar as famílias
da necessidade de atendimento nesta área o mais
cedo possível.
2.2.3 Estimulação
precoce
A estimulação, também chamada de
intervenção, precoce deve ser obrigatória
para os centros de Neonatologia, já que muitos dos
problemas futuros de crianças com problemas neonatais,
em especial as diagnosticadas com Paralisias Cerebrais,
podem ser prevenidos com a rápida e eficiente intervenção
de um ou mais profissionais, já no espaço
de uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) NEONATAL,
por exemplo na capacidade de deglutição ou
sucção de um bebê, prevenindo prováveis
disfunções fonoarticulatórias posteriores
e facilitando o aleitamento materno, e sua função
psicoemocional e imunológica comprovadas.
2.2.4 Tratamento oftalmológico precoce
As crianças com Paralisia Cerebral apresentam um
grande número de alterações oculares,
pois grande parte delas tem algum grau de hipermetropia,
miopia ou astigmatismo, ou seja erros de refração,
e mais da metade delas necessitará de uma correção óptica
(óculos) ou mesmo de recursos outros, como os utilizados
para a visão subnormal (baixa-visão), caso
tenham outras complicações oculares associadas
(por exemplo, fibroplasia retrolenticular).
Uma das mais freqüentes alterações oculares
que acometem as crianças com PC são os Estrabismos
(desvio ocular), que recebe o nome de discinético,
pois pode variar de uma esotropia (estrabismo convergente)
até uma exotropia (estrabismo divergente), sendo às
vezes acentuados por outros distúrbios como os nistagmos
(tremor ocular). Estas alterações podem e
devem ser precocemente atendidas e receberem atenção
e cuidados oftalmológicos, pois quanto mais cedo
se intervém maior é possibilidade de correção.
Segundo orientação de oftalmologistas as
crianças com PC devem ser submetidas a este tipo
de exame aos 3, 5 e 7 anos de idade, mesmo que não
apresentem nenhuma alteração ocular ou diagnóstico
prévio de problemas visuais.
2.2.5 Intervenção com educação
física especializada
As crianças ou pessoas com Paralisia Cerebral podem
se beneficiar de atividades lúdicas, recreativas,
terapêuticas ou reabilitadoras orientadas por profissionais
de Educação Física, principalmente
com a utilização de Hidroterapia e Natação,
já que a maior parte de seus déficits são
de origem neuromotora, e já se comprovaram os efeitos
benéficos da ÁGUA na recuperação
de funções de nosso corpo.
Há ainda uma melhoria para estas crianças
no campo da autonomia e da auto-estima, já que no
meio de uma piscina muitos podem se ‘mover’ com
mais facilidade do que fora dela, além da sensação
de prazer e realização que estas práticas
orientadas podem proporcionar.
2.2.6 Utilização de órteses e próteses
As órteses (dispositivos com a finalidade de manter
uma parte específica de nosso corpo na postura mais
correta, em uma posição de relaxamento, realinhamento
ou controle de atividade) são de grande utilidade
para as crianças com paralisias cerebrais, pois
podem ajudar a prevenir ou tratar de posturas viciosas
ou deformantes que devem ser corrigidas precocemente.
As de posicionamento (como por exemplo as ‘calhas’ para
membros inferiores), utilizadas durante a noite, são
as mais indicadas para crianças com quadros espásticos
ou mistos, mas sempre devem ser confeccionadas em Oficinas
especializadas, e obedecendo o princípio de serem únicas,
individualizadas e sob medida precisa para cada criança
em especial.
As próteses (dispositivos que facilitem ou ampliem
a capacidade de deambulação, manipulação
ou atividades da vida diária) são construídas
dentro do mesmo princípio, podendo auxiliar no processo
de reabilitação de crianças com paralisias
cerebrais, mas devem ser indicadas por especialistas da área,
e estarem adequadas ao tipo de déficit apresentado
pela criança.
2.3 Tratamentos inovadores e pesquisas
2.3.1 Toxina botulímica
Após vários estudos e experiências
controladas cientificamente, encontrou-se a utilização
terapêutica desta toxina, transformando-a em um potencial
e efetivo agente terapêutico para o tratamento de
diversas síndromes neurológicas, inclusive
as contrações musculares involuntárias,
tão comuns aos portadores de Paralisias Cerebrais.
A terapêutica deve ser instituída por especialistas
(neurologistas, fisiatras, ortopedistas, etc), por via
intramuscular (injeções), em diluições
salinas, sendo que a dose a ser injetada varia de caso
a caso, dependendo da intensidade da contração
muscular involuntária, da idade e da musculatura
afetada do paciente. A indicação mais freqüente,
em casos de paralisias cerebrais, são os músculos
das extremidades inferiores (pernas, etc), que, quase sempre,
interferem na marcha e na postura. O efeito das injeções
deve ser monitorado por exames clínicos e por análise
da marcha, ou dos ganhos e/ou melhoria da capacidade de
relaxamento muscular adquirida após este tratamento.
No Brasil, já contamos com sua utilização
para tratamentos aplicados a diversos quadros, sendo que
recentemente foi legislada a possibilidade de pagamento,
através das Secretarias de Saúde, oriundo
do Ministério da Saúde, para os pacientes
que se dirigirem às Secretarias de Saúde
mais próximas de sua residência, munidos de
receita médica prescrevendo o produto, e um breve
relatório escrito pelo especialista que acompanha
o caso, descrevendo o distúrbio do movimento ou
enfermidade, tempo de duração entre diagnóstico
e início de tratamento e relacionando outros medicamentos
que o paciente esteja tomando.
2.3.2 Baclofen
Muitas das pessoas com Paralisias
Cerebrais apresentam espasticidade e tem alterações e flutuações
do tônus muscular, sendo portanto de interesse dos
pesquisadores a descoberta de meios de tratar, controlar
ou aliviar os sintomas decorrentes destas situações.
O Baclofen é uma substância que vem sendo
empregada para o controle da espasticidade, principalmente
por seus efeitos de relaxamento muscular e ação
antiespasmódica. Porém provoca efeitos como:
sedação, fraqueza, fadiga, aparecimento de
alucinações e confusão mental, além
de dificuldades com o equilíbrio e a marcha. Em
doses elevadas foram relatados casos de distúrbios
respiratórios e de alterações renais
e cardiológicas.
É
um procedimento de custo elevado por ser necessária
uma intervenção cirúrgica, e ainda
pouco acessível em nossa realidade sócio-econômica,
porém com indicações precisas para
as pessoas com graves comprometimentos pela espasticidade,
pela sua resultante a longo prazo (por exemplo um maior
tempo de duração dos benefícios em
relação à Toxina Botulínica).
2.3.3 Equoterapia
A equoterapia (hipoterapia) é um tratamento com
finalidades cinesioterápicas através do uso
de cavalos, sob orientação e acompanhamento
de profissionais da área de reabilitação,
em processo de interdisciplinaridade com profissionais
da equitação, saúde e educação.
O cavalo é uma ajuda inovadora para que um ser humano,
em interação com o meio ambiente, possa adquirir
mais equilíbrio corporal e emocional.
Sua principal resposta é a melhora da postura e
do tônus muscular do usuário deste tratamento,
porém há uma melhora global em termos de
reabilitação, tornando a equoterapia um apoio
indispensável para os quadros deficitários.
Há ainda melhoras na coordenação temporo-espacial,
consciência de esquema corporal e lateralidade, com
reeducação de posturas e inibição
de reflexos, com conseqüente relaxamento, o que pode
ser muito útil para os casos de espasticidade e
outras alterações de tônus muscular.
Há sempre que considerar uma melhora da autonomia,
da autoconfiança e da auto-estima de pessoas submetidas à equoterapia.
3 FAMÍLIA E SOCIEDADE
Os pais das crianças com paralisia cerebral vivem
um enorme problema no seu dia-a-dia, sentido uma profunda
angústia na busca de uma cura impossível,
frequentemente acompanhada por sentimentos de dúvida
e ansiedade, marcados pela culpa por algo que poderia ter
sido feito para evitar a lesão cerebral irreversível
e pelo inevitável desapontamento pela lentidão
dos progressos de reabilitação e as dificuldades
de integração social.
Para ajudar o desenvolvimento de um filho com paralisia
cerebral aguarda-os uma tarefa exigente. Desde logo, os
problemas são múltiplos: a criança é incapaz
de segurar a cabeça, de se manter sentada, de caminhar
ou, então, move-se de maneira descontrolada e insegura.
O fisioterapeuta, ao longo de várias sessões
de tratamento, ajudará os pais a melhor compreender
os problemas da criança e a lidar com ela de forma
mais adequada. Movimentar a criança deverá ser
feito vagarosamente, dando-lhe oportunidade de se ajustar às
mudanças de posição.
O bebê poderá ter dificuldades em chamar a
atenção do adulto. Caberá aos pais
descobrir a melhor forma de integração, embora
os técnicos os possam ajudar na descoberta do brincar,
sorrir, falar, olhar/comunicar. Seguir-se-á toda
uma fase de experiências sensoriais, através
do brincar, por vezes com recurso a brinquedos adaptados
a necessidades específicas.
A avaliação contínua ajudará a
definir as necessidades específicas e as capacidades
de cada criança, em cada momento, encaminhando-a
para as várias estruturas de apoio - escola regular
com ou sem apoio, centros e escolas de ensino especializado.
Sempre que possível, a criança deficiente
deverá freqüentar o ensino regular, embora,
por vezes, possa ter necessidade de freqüentar, por
períodos maiores ou menores, centros mais especializados,
onde equipas transdisciplinares, intervindo junto da criança
e da família, garantem um melhor desenvolvimento
e a continuidade de cuidados específicos de que
necessita, de maneira a tornar possível uma maior
autonomia e uma integração mais completa
na escola e na sociedade.
Todas as crianças necessitam de contactos sociais
para a descoberta da sua própria valorização
e aceitação individual. É nesse sentido
que os pais deverão levar os seus filhos com paralisia
cerebral ao mercado, à feira, à loja, ao
jardim, a casa dos amigos, à praia e ao campo. Visitas
que devem ser acompanhadas com conversas sobre as
novas experiências e complementadas com a participação
em atividade de tempos livres e na convivência com
a natureza.
A criança deficiente deverá ser tratada como
qualquer outro membro da família, evitando a super-proteção.
Aos amigos e vizinhos deverá ser dita a verdade
sobre a criança, o que certamente vai criar um círculo
de pessoas dispostas a ajudar. Aliás, os pais deverão
pedir e aceitar essas ajudas, repartindo os seus problemas.
Os pais deverão ainda tentar que outras crianças
brinquem com ela, explicando-lhes que aprecia a brincadeira,
apesar de não poder mover-se como os outros. A integração
na sociedade implica que a criança deve aprender
o que deve e não deve fazer, mas a criança
não deve ser criticada continuamente e estimulada
para as atitudes corretas.
A criança com paralisia cerebral tem o direito de
crescer e ser ela própria. A ser tão independente
quanto possível. É, sem dúvida, um
enorme esforço que se exige aos pais, mas cada etapa
de progresso, por pequena que seja, permite manter viva
a esperança de haja um novo passo em frente.
CONCLUSÃO
Apesar de não haver cura para a paralisia cerebral,
muitas das crianças atingidas poderão ter
uma vida quase normal: estudar, trabalhar, praticar esportes.
O apoio familiar e social pode ser decisivo. Para que estes
seres com características e necessidades tão
especiais aprendam a conviver com a própria condição,
poderão contar com a ajuda de vários profissionais.
Entre estes, estão os fisioterapeutas, que deverão
enxergar além da aparência “boba”,
deverão ver o ser humano que há por dentro.
O fisioterapeuta poderá optar por diversas formas
de abordagens no tratamento do paciente portador de Paralisia
Cerebral, mas qualquer que seja a escolhida ele precisa
ter uma avaliação crítica dos seus
resultados muito intensa. Para conseguir este ambiente
o profissional requer um profundo conhecimento do método
escolhido e nele ter experiência. Não poderá jamais
esquecer de acreditar no potencial da criança, colocando
as metas um nível acima do que ele já é capaz
de atingir no momento.
Deve auxiliar os pais a descobrir os aspectos positivos
dos seus filhos e também a necessidade de sua participação
no tratamento para que haja bons resultados. Muitas dúvidas
poderão ser questionadas, mas na maior parte delas,
as respostas virão com mais facilidade no decorrer
do tratamento, uma vez que "cada criança é uma
criança", existe a capacidade de resposta do
cérebro e a capacidade de adaptação
exclusiva de cada paciente.
Felizmente vivemos em tempos de modernização.
Crianças que eram consideradas aberrações
antigamente, levam uma fica normal hoje em dia. Esperamos
um futuro onde não existam mais essas “necessidades
especiais”, onde todos sejamos iguais e “normais”.
BIBLIOGRAFIA
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