1) INTRODUÇÃO
As doenças psicossomáticas surgem como conseqüência
de processos psicológicos e mentais do indivíduo
desajustados das funções somáticas
e viscerais e vice-versa. Caracterizam-se as possibilidades
de distúrbios de função e de lesão
nos órgãos do corpo, devido ao mau uso e
ao efeito degenerativo, e descontroles dos processos mentais.
Diferencia-se neste ponto das doenças mentais, em
que o mau desempenho não é opcional.
Distúrbios emocionais desempenham papel importante,
precipitando início, recorrência ou agravamento
de sintomas, distinguindo das doenças puramente
orgânicas. Porém, elas podem se transformar
em doenças crônicas ou ter com um curso fásico.
Tendem a associar-se com outros distúrbios psicossomáticos.
Isso pode ocorrer numa família, em diferentes períodos
da vida de um paciente ou em certos ambientes de trabalho
e até de lazer. Mostram grandes diferenças
de incidência nos dois sexos. Assim, asma é duas
vezes mais freqüente nos meninos do que nas meninas,
antes da puberdade, depois, é menos comum nos homens
do que nas mulheres. A úlcera do duodeno manifesta-se
mais em homens, e a doença de Basedow, mais em mulheres.
2) O CONCEITO DE ESTRESSE
A palavra estresse quer dizer "pressão", "tensão" ou "insistência",
portanto estar estressado quer dizer "estar sob pressão" ou "estar
sob a ação de estímulo insistente". É importante
não confundir estado fásico de estresse com
estado de alarme de Cannon, pois há alguns critérios
estabelecidos para que se possa assumir que um indivíduo
está estressado e não simplesmente com alerta
temporária. Chama-se de estressor qualquer estímulo
capaz de provocar o aparecimento de um conjunto de respostas
orgânicas, mentais, psicológicas e/ou comportamentais
relacionadas com mudanças fisiológicas padrões
estereotipadas, que acabam resultando em hiperfunção
da glândula supra-renal e do sistema nervoso autônomo
simpático. Essas respostas em princípio têm
como objetivo adaptar o indivíduo à nova
situação, gerada pelo estímulo estressor,
e o conjunto delas, assumindo um tempo considerável, é chamado
de estresse. O estado de estresse está então
relacionado com a resposta de adaptação.
O estresse é essencialmente um grau de desgaste
no corpo e da mente, que pode atingir níveis degenerativos.
Impressões de estar nervoso, agitado, neurastênico
ou debilitado podem ser percepções de aspectos
subjetivos de estresse. Contudo, estresse não implica
necessariamente uma alteração mórbida:
a vida normal também acarreta desgaste na máquina
do corpo. O estresse pode ter até valor terapêutico,
como é o caso no esporte e no trabalho, exercido
moderadamente. Assim, uma partida de tênis ou um
beijo apaixonado podem produzir considerável estresse
sem causar danos de monta.
O estresse produz certas modificações na
estrutura e na composição química
do corpo, que podem ser avaliadas. Algumas dessas modificações
são manifestações das reações
de adaptação do corpo, seu mecanismo de defesa
contra o estressor; outras já são sintomas
de lesão. No conjunto dessas modificações
o estresse é denominados sindrome de adaptação
geral (SAG), termo cunhado por Hans Selye, o criador e
pesquisador que levantou pioneira e profundamente a questão.
2.1) Doença de adaptação
A todo instante estamos fazendo atividades de adaptação,
ou seja, tentativas de nos ajustarmos às mais variadas
exigências, seja do ambiente externo, seja do mundo
interno, atingindo este vasto mundo de idéias, sentimentos,
desejos, expectativas, sonhos, imagens, que cada um tem
dentro de si. Selye demonstrou, em trabalhos publicados
a partir de 1936, que o organismo quando exposto a um esforço
desencadeado por um estímulo percebido como ameaçador à homeostase,
seja ele físico, químico, biológico
ou mesmo psicossocial, apresenta a tendência de responder
de forma uniforme e inespecífica, anatômica
e fisiologicamente A esse conjunto de reações
inespecíficas na qual o organismo participa como
um todo, ele chamou de Síndrome Geral de Adaptação.
Esta síndrome consiste em três fases: Reação
de Alarme, Fase de Resistência e Fase de Exaustão.
Não é necessário que a fase se desenvolva
até o final para que haja o estresse e é evidentemente
só nas situações mais graves que se
atinge a última fase, a de exaustão.
A Reação de Alarme subdivide-se em dois tempos:
choque e contra-choque. Parte dessa reação
assemelha-se à Reação de Emergência
de Cannon. Ele percebeu que quando um animal era submetido
a estímulos agudos ameaçadores da homeostase,
inclusive medo, raiva, fome e dor, o animal apresentava
uma reação em que se preparava para a luta
ou fuga. Esta reação caracteriza-se por:
a) aumento da freqüência cardíaca e da
pressão arterial, para permitir que o sangue circule
mais rapidamente e portanto, para chegar aos músculos
esqueléticos e cérebro mais oxigênio
e nutrientes e facilite a mobilidade e o movimento;
b) contração do baço, levando mais
glóbulos vermelhos à corrente sanguínea,
acarretando mais oxigênio para o organismo particularmente
nas áreas estrategicamente favorecidas;
c) o fígado libera glicose armazenada na corrente
sanguínea para que seja utilizado como alimento
e, conseqüentemente, mais energia para os músculos
e cérebro;
d) redistribuição sanguínea, diminuindo
o fluxo para a pele e vísceras, aumentando para
músculos e cérebro;
e) aumento da freqüência respiratória
e dilatação dos brônquios, para que
o organismo possa captar e receber mais oxigênio;
f) dilatação pupilar e exoftalmia,isto é,
a protuberância do olho para fora do globo ocular,
para aumentar a eficiência visual;
g) aumento do número de linfócitos na corrente
sanguínea, para reparar possíveis danos aos
tecidos por agentes externos agressores.
Tais reações são desencadeadas por
descargas adrenérgicas da medula da glândula
supra-renal e de noradrenalina em fibras pós-ganglionares
do sistema nervoso autônomo simpático Em estudos
realizados com seres humanos, Funkestein descobriu que
a raiva dirigida para fora estava associada à secreção
de noradrenalina, enquanto a depressão e a ansiedade
associavam-se a uma secreção de adrenalina.
Paralelamente, é acionado o eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal
que desencadeia respostas mais lentas e prolongadas e que
desempenha um papel crucial na adaptação
do organismo ao estresse a que está sendo submetido.
O estímulo agudo provoca a secreção
no hipotálamo do hormônio "corticotrophin
releasing hormone", que por sua vez determina a liberação
de ACTH da adeno-hipófise, além de outros
neuro-hormônios e peptídeos cerebrais, como
as beta-endorfinas, STH, prolactina etc. O ACTH desencadeia
a síntese e a secreção de glicocorticóides
pelo córtex da supra-renal. Estabelece-se então
um mecanismo de feedback negativo com os glicocorticóides
atuando sobre o eixo hipotálamo-hipofisário.
Estas reações são mediadas pelo sistema
diencéfalo-hipofisário, visto que não
surgem em animais de experimentação que tiveram
a hipófise ou parte do diencéfalo destruído.
Se os agentes estressantes desaparecerem, tais reações
tendem a regredir; no entanto, se o organismo é obrigado
a manter seu esforço de adaptação,
entra em uma nova fase, que é chamada Fase de Resistência,
que se caracteriza basicamente pela reação
de hiperatividade córtico-supra-renal, sob mediação
diencéfalo-hipofisária, com aumento volumétrico
do córtex da supra-renal, atrofia do baço
e de estruturas linfáticas, leucocitose, diminuição
de eosinófilos e ulcerações.
Se os estímulos estressores continuarem a agir,
ou se tornarem crônicos e repetitivos, a resposta
basicamente se mantém, mas com duas características:
diminuição da amplitude e antecipação
das respostas. Poderá ainda haver falha nos mecanismos
de defesa, com desenvolvimento da terceira fase, que é a
de Exaustão, com retorno à Fase de Alarme
de Cannon, dificuldade na manutenção de mecanismos
adaptativos, perda de reserva energética e morte.
As reações de estresse resultam, pois, de
esforços de adaptação. No entanto,
se a reação ao agressor for muito intensa
ou se o agente do estresse for muito potente e/ou prolongado,
poderá haver, como consequência, doença
ou maior predisposição ao desenvolvimento
de doenças. Pois a reação protetora
sistêmica desencadeada pelo estresse pode ir além
da sua finalidade e dar lugar a efeitos indesejáveis,
devido à perda de equilíbrio geral dos tecidos
e órgãos e defesa imunológica do organismo. É oportuno
lembrarmos mais uma vez Levi (1971): "o ser humano é capaz
de adaptar-se ao meio ambiente desfavorável, mas
esta adaptação não ocorre impunemente".
O perigo parece ser maior nas situações em
que a energia mobilizada pelo estresse psicoemocional não
pode ser consumida. Aliás, Seyle nos lembra que
as doenças de adaptação são
predominantemente consequências do excesso de reações
de submissão.
As colocações acima podem ser mais facilmente
comprovadas nas doenças em que notoriamente há um
componente de esforço de adaptação,
como, por exemplo, nas úlceras digestivas, nas alterações
da pressão arterial, crises hemorroidicas, alterações
inflamatórias do aparelho gastrintestinal, alterações
metabólicas várias etc.
O estresse pode ser físico, emocional ou misto.
O estresse misto é o mais comum, pois o estresse
físico (associado a eventos como cirurgias, traumatismos,
hemorragias e lesões em geral) compromete também
o emocional já que a dor induz a estados emocionais
bastante intensos. O estresse emocional resulta de acontecimentos
que afetam o indivíduo psiquicamente ou emocionalmente,
sem que haja relação primária com
lesões orgânicas. O estresse misto se estabelece
quando uma lesão física é acompanhada
de comprometimento psíquico (emocional) ou vice-versa.
Ö
hman, Esteves e Parra (1995) apontam três categorias
de acontecimentos estressantes. Na primeira categoria encontram-se
aqueles que impõem grandes exigências à capacidade
de enfrentamento de uma pessoa e ocorrem com pouca freqüência,
como por exemplo, a morte de um ente querido, a perda de
um emprego, ser aprisionado etc. Os pequenos acontecimentos
estressantes, chamados de problemas do cotidiano constituem
a segunda categoria e acontecem com maior frequência
na vida das pessoas. Na terceira categoria encontram-se
os conflitos contínuos da vida: problemas de casais,
desemprego prolongado,dificuldade de educar os filhos,
etc.
Entretanto, as pessoas diferem quanto à sua forma
de reagir aos desafios impostos pela vida. Enquanto algumas
são capazes de superar uma perda altamente significativa,
outros podem dar início a um transtorno psiquiátrico
diante de um acontecimento estressante de menor gravidade.
Assim, as variáveis individuais desempenham um papel
decisivo na formação de um problema psicópatologico.
Além dos acontecimentos estressantes da vida, Barlow
(1993) sugere a existência de uma vulnerabilidade
biológica e uma vulnerabilidade psicológica
necessárias para a formação de um
transtorno de ansiedade.
A vulnerabilidade biológica refere-se a uma tendência
herdada a manifestar ansiedade. Algumas pessoas reagem
com uma ativação fisiológica maior
aos acontecimentos estressantes. Mas essa resposta fisiológica é pouco
específica, não determina por si só,
se uma pessoa desenvolverá transtorno de ansiedade
ou que tipo de transtorno de ansiedade ou que tipo de transtorno
poderá ocorrer.
A vulnerabilidade psicológica corresponde a uma
percepção de imprevisibilidade em relação
ao mundo, que é aprendida, a partir da relação
familiar e das experiências de vida. Assim, se uma
pessoa possui o componente biológico e desenvolve
o componente psicológico, ela estará predisposta
a sofrer de um transtorno de ansiedade, à partir
do momento em que surgirem os acontecimentos estressantes
da vida, os quais funcionam com o estímulo disparador
que conduz a um transtorno de ansiedade.
2.2) Relação com doenças digestivas
O sistema gastro-intestinal é especialmente sensível
ao estresse geral. A perda de apetite é um dos seus
primeiros sintomas, devido à paralisação
do trato-gastro-intestinal sob ação simpática,
e pode ser seguido por vômitos, constipação
e diarréia, no caso de bloqueios emocionais. Sinais
de irritação e perturbação
dos órgãos digestivos podem ocorrer em qualquer
tipo de estresse emocional.
É
geralmente sabida que as úlceras gástricas
são registradas com maior freqüência
em pessoas que são desajustadas em seu trabalho
e que sofrem de tensão e frustração
constantes. O Dr. Gray demonstrou que pacientes sob estresse
secretam uma quantidade considerável de hormônios
digestivos pépticos na sua urina, isso indica que
os hormônios do estresse aumentam a produção
de enzimas pépticas, ou seja, a úlcera parece
ser produzida com o aumento do fluxo dos sucos ácidos,
causado pelas tensões emocionais, no estômago,
que se encontra desprotegido do muco protetor secretado
em estado de homeostase, sob ação do sistema
nervoso autônomo parassimpático. A conexão
entre distúrbio emocional, secreção
gástrica e úlceras está bem documentada.
Um estudo recente entre 2000 recrutas do exército
americano mostrou que aqueles que apresentavam, durante
o exame físico inicial, distúrbio emocional
e secreção gástrica excessiva vieram
a desenvolver úlceras, mais tarde, sob o peso da
vida militar.
Estudos de úlceras em macacos mostraram que, aparentemente,
tensão emocional provoca úlceras se seu período
coincide com algum ritmo natural do sistema gastro-intestinal,
na sua fase de bloqueio. O experimento realizado colocava
dois macacos em "cadeiras restritivas" individuais
e tentava-se condicioná-los a evitar um choque elétrico
pressionando uma alavanca. Somente o macaco "executivo" poderia
evitar que ele e o outro macaco "controle" não
recebessem choque elétrico. O macaco "controle" diante
de uma alavanca falsa não apresentou nenhum sinal
de úlcera, já o macaco "executivo" depois
de certo tempo de experimento morreu, a autópsia
revelou grandes úlceras no duodeno. Este macaco
era o único que estava sob tensão emocional
diante da alavanca que poderia evitar os choques elétricos.
O ritmo mais eficiente para produzir úlcera foi
o de 6 horas.
Para finalizar devemos ressaltar que foi encontrada também
uma bactéria, Helicobater pilori, que é também
uma das causas de perfuração ulcerante.
2.3) Relação com câncer
"
Cada um tem sua própria participação
na saúde ou na doença, a todo o momento.
Os doentes participam de sua própria recuperação." Essa
forma de pensar não pretende desfazer, de forma
alguma, dos médicos; ela apenas ensina o que pode
ser feito em conjunto, entre médico e paciente para
a recuperação da saúde.
Os Simonton, dirigem o Cancer Counseling and Research Center
de Dallas, Texas. Carl é um médico radioterapeuta,
especializado no tratamento do Câncer. Stephanie é formada
em Psicologia. Eles defendem a idéia de que as doenças
somático-viscerais sofrem grande influência
psicológica.
Ao tratarem de vários casos de doentes com Câncer,
eles puderam observar que a vontade de viver influencia
na espectativa de vida de seus pacientes. Pacientes que,
por algum motivo particular, achavam que teriam que viver
mais tempo do que o previsto pelos médicos, realmente
o viviam, provando que tinham certa influência sobre
o curso de sua própria doença.
O casal Simonton parte da premissa de que uma doença
não é só um fato físico, e
sim, um problema que diz respeito à pessoa como
um todo; corpo, emoções e mente. As emoções
e a mente tem uma certa função na sensibilidade
ao Câncer e na sua recuperação.
O Câncer, por exemplo, surge como uma indicação
de problemas em outras áreas da vida da pessoa,
agravados ou compostos de uma série de estresses
que surgem de 6 a 18 meses antes de aparecer o Câncer.
Foi observado que as pessoas reagiram a esses estresses
com um sentimento de falta de esperança, desespero,
desistindo de lutar por uma vida melhor. Acredita-se que
essa reação emocional dispara um conjunto
de reações fisiológicas que suprimem
as defesas naturais do corpo, tornando-o suscetível à produção
de células anormais, devido a um desequilíbrio
profundo mental, hormonal, orgânico e psicológico.
Existe, ainda hoje, uma confusão entre "Efeito
placebo" e "Doenças psicossomáticas".
O "efeito placebo" ocorre quando um paciente
recebe uma prescrição que produzirá um
efeito colateral benéfico, o que acontece na realidade,
mesmo que não haja nenhum medicamento no comprimido
que pudesse produzi-lo. As doenças psicossomáticas,
no entanto, são doenças originadas como resultado
de, ou agravadas por processos múltiplos.
As distorções que ocorrem neste sentido,
fazem com que as doenças psicossomáticas
pareçam menos reais, o que é puro engano.
Costuma-se aceitar a conexão psicossomática
em casos de pressão alta, ataques cardíacos,
dor de cabeça, doenças da pele etc., mas,
com o Câncer, em geral não. No entanto, hoje,
já foi comprovada uma ligação evidente
entre estresse e Câncer, ligação tão
forte que é possível predizer a doença
baseando-se na quantidade de estresse sofrida pelas pessoas,
na vida cotidiana.
Descobertas recentes foram primordiais para paciente canceroso,
porque sugerem que efeitos do estresse emocional podem
deprimir o sistema imunológico, abalando as defesas
naturais contra o Câncer e outras enfermidades. Há maiores
possibilidades de que ocorram doenças após
acontecimentos altamente estressantes na vida da pessoa.
Quando uma pessoa sofre dissabores emocionais, há um
aumento não só das doenças reconhecidamente
suscetíveis à influência emocional: úlceras,
aumento da pressão sanguínea, doenças
cardíacas, dores de cabeça, mas também
de doenças infecciosas, dores lombares e até acidentes.
Foi desenvolvida uma lista com valores numéricos
de todos os acontecimentos estressantes da vida de uma
pessoa, chegando-se assim, à quantidade de estresse
que a pessoa estaria sofrendo. Ao observarmos esta lista,
notaremos coisas que nós mesmos achamos estressantes,
mas perceberemos também, curiosamente, sucessos
pessoais excepcionais, normalmente considerados como sendo
experiências agradáveis.
Foi observado que essas experiências aparentemente
agradáveis para nós, são experiências
que implicam em mudanças de hábitos, na maneira
de nos relacionarmos com as pessoas e em nossas auto-imagens.
Mesmo sendo experiências positivas, podem exigir
um grau profundo de introspecção, podendo
chegar a causar o aparecimento de conflitos emocionais
não solucionados. O ponto principal é, portanto,
a necessidade de adaptação à mudança,
quer ela seja positiva, quer negativa.
Estresse também varia de pessoa para pessoa. Cada
um vai agir de uma forma diferente diante das situações.
Assim, fica claro que fatores de natureza psicossocial
podem modificar a resistência a um número
de doenças infecciosas e cancerosas.Muitas pessoas
não ficam doentes mesmo quando recebem grandes cargas
de estresse. É necessário examinar a reação
específica de cada pessoa ao fator estressante.
Agora, tornou-se claro, que níveis elevados de estresse
emocional aumentam a suscetibilidade à doenças.
O estresse crônico resulta na supressão do
sistema imunológico, o que por sua vez cria uma
maior suscetibilidade à doença, especialmente
o câncer. O estresse emocional, realimenta o desequilíbrio
emocional. Esse desequilíbrio pode vir a aumentar
a produção de células anormais no
momento em que o corpo encontra-se menos capacitado a destruí-las.
A personalidade individual é também um forte
diferenciador entre as pessoas que tem maior ou menor suscetibilidade à doenças.
A maneira como reagimos às tensões diárias
origina-se de hábitos e é ditada pelas nossas
convicções íntimas sobre quem somos,
quem deveríamos ser e a maneira como o mundo e as
outras pessoas deveriam ser. Existem indícios de
que diferentes tomadas de posição em relação à vida,
em geral, podem estar associadas com certas doenças.
2.4) Relação
com crescimento
Os denominados hormônios de adaptação
ou hormônios do estresse, são também
importantes reguladores do crescimento em geral. ACTH e
COL são poderosos inibidores de crescimento e o
STH ativador que é realmente denominado hormônio
do crescimento. Estes hormônios tem efeitos opostos
tão poderosos. Portanto, se uma criança é exposta
a estresse excessivo, seu crescimento é prejudicado,
sendo tal inibição, pelo menos em parte,
consequência do excesso de secreção
de ACTH e COL.
2.5) Relação
com sono
O fato de dormir bem ou não dependerá muito
do que fazemos durante o dia. Não devemos nos deixar
levar por impulsos, nem pela tensão, além
do ponto necessário para aplicar-nos da melhor forma
possível ao exercício que desejamos fazer.
Deixando-se dominar pela tensão, especialmente nas últimas
horas do dia, a reação de estresse por via
hormonal poderá processar-se durante toda a noite.
Devemos tentar não sobrecarregar desproporcionalmente
o corpo ou a mente pela repetição das mesmas
ações exaustivas e evitar a repetição
inútil da mesma tarefa, quando já se está exausto.
Então, para dormir bem precisamos nos resguardar
melhor ainda contra o estresse à noite. Não
somente reduzindo o excesso de luz, barulho, frio ou calor
mas, especialmente, não nos entregando, durante
o dia, ao tipo de estresse que nos manterá acordados à noite.
Esse estresse, que tende a se perpetuar, pode ser resultado
de refeições pesadas, bebidas, perturbações
emocionais e muitas outras coisas.
2.6) O desgaste da vida
Podemos considerar o estresse como um grau de desgaste
do corpo, como um todo. Assim, a estreita relação
entre o envelhecimento e o estresse torna-se evidente.
O estresse é a soma de todo o desgaste causado por
qualquer tipo de reação vital através
do corpo, a qualquer momento. Por isso ele é uma
espécie de velocímetro da vida.
Portanto, a verdadeira idade (não a cronológica,
mas a fisiológica) depende muito do grau de desgaste,
do ritmo do autodesgaste. A vitalidade é como um
tipo especial de depósito bancário que você pode
usar para fazer retiradas, mas não para fazer depósitos.
O único controle sobre essa fortuna é o ritmo
com que você faz suas retiradas. A solução
evidentemente, não é suspender as retiradas,
pois isso resultaria na morte. Nem é retirar apenas
o suficiente para a sobrevivência, pois isso permitiria
somente uma vida vegetativa. O processo inteligente é gastar
convenientemente a vitalidade, mas nunca malbaratar.
Muitas pessoas pensam que, depois de se terem exposto a
atividades que resultam em grande estresse, um repouso
pode fazer com que se restabeleçam completamente
suas condições. Isto, porém é falso,
uma vez que cada experiência deixa uma cicatriz indelével,
pois ela exige tanta adaptabilidade forçando o organismo
como um todo até o nível de exaustão,
que não podem ser restabelecidas. É verdade
que após certas experiências exaustivas, o
repouso pode fazer com que voltemos quase às condições
anteriores, pela eliminação da fadiga mais
grave. Mas a ênfase fica no termo quase. Desde que
passamos constantemente por períodos de estresse
e repouso, através de toda a vida, um pequeno déficit
de energia de adaptação vai sendo acumulado
dia a dia e resulta no que denominamos envelhecimento.
2.7) Hipotálamo e estado de estresse
Nosso organismo é dotado de mecanismos adaptativos,
nos quais todos os órgãos e tecidos exercem
funções que ajudam a manter as condições
do organismo, como um todo, estáveis. Nosso organismo
possui uma capacidade de equilíbrio que mantém
suas condições estáticas, ou constantes,
no meio interno.
O hipotálamo é a área do sistema nervoso
central que tem sob sua responsabilidade várias
funções que são básicas para
a manutenção e sobrevivência do organismo.
Através do sistema nervoso autônomo e do sistema
endócrino, o hipotálamo promove uma série
de mudanças orgânicas necessárias para
a conservação do equilíbrio durante
estados de grande atividade física e/ou mental e
através de mecanismos próprios, como o mecanismo
da fome, da sede e da regulação térmica
corporal, produz subsídios que possibilitam o funcionamento
integrado, mantendo a harmonia orgânica durante todo
o período em que o indivíduo estiver sob
a influência do estressor. O funcionamento global
do hipotálamo é o grande responsável
pela gênese das condições orgânicas
para que o sujeito "estressado" possa, dentro
de certos limites, se adaptar e superar as mudanças
responsáveis pelo estresse.
Todo tipo de questionamento relacionado com a situação
que se apresenta (estressora) está acontecendo no
cérebro e todas estruturas ligadas a ele estão
sofrendo a influência da ansiedade, do desconforto,
da insegurança, geradas no seu interior. A isso
se deve a grande responsabilidade do hipotálamo
nos estados de estresse em suprir o cérebro com
todos os elementos necessários para a sua importante
atividade, não deixando de lado as necessidades
globais do organismo, principalmente nos casos de estresse
físico, onde a restauração tecidual é o
marco das necessidades.
O estado de estresse implica numa necessidade aumentada
de energia, porque se caracteriza uma grande atividade
a nível de sistema neuro-muscular e demais tecidos.
Um aumento basal do tônus muscular esquelético
surge logo de início, dada à ação
das catecolaminas, preparando o indivíduo para possíveis
atividades físicas, o que equivale a manter um estado
de alerta. Assim, o organismo precisa de um nível
aumentado de glicose, pois o sistema nervoso é dependente
direto da glicose sangüínea, e outros nutrientes
como aminoácidos, sais e vitaminas, indispensáveis
para sustentar o aumento da atividade.
2.7.1) Funções do sistema simpático
e estresse
Tanto nos estados de estresse físico quanto nos
emocionais o hipotálamo ativa o sistema nervoso
simpático, responsável por um aumento da
freqüência cardíaca e da força
de contração ventricular, da pressão
arterial, aumentando o fluxo sangüíneo para
músculos ativos, ao mesmo tempo que diminui o fluxo
para órgãos que não são necessários
para aquela atividade, da glicemia e do metabolismo celular
em todo o corpo, da glicose e da força muscular,
da atividade mental, da coagulação sangüínea,
etc. A soma desses efeitos permite que a pessoa desempenhe
uma atividade física ou mental bem maior do que
seria poss ível em outras circunstâncias
2.7.2) Sistema endócrino e estresse
O hipotálamo também ativa o sistema endócrino
através da estimulação que é capaz
de exercer sobre a glândula hipófise. A glândula
supra-renal é o alvo mais importante nos estados
de estresse, devido a seus hormônios secretados das
regiões medular e da camada cortical.
2.7.3) A medula da supra-renal
A liberação dos hormônios produzidos
pela camada medular da supra-renal se dá principalmente
em resposta a descargas simpáticas. Secreta catecolaminas
(adrenalina e pequena quantidade de noradrenalina), durante
situações emergenciais e de estresse, produzindo
efeitos do tipo simpático e sua principal função é dar
suporte "adrenérgico" através do
sangue para prolongar os efeitos de origem neural, através
de mecanismos hormonais, que se difundem pela via sanguínea.
2.7.4) O córtex da supra-renal
A camada cortical da adrenal secreta os corticosteróides,
composição formada por três famílias
de hormônios: os mineralocorticóides, os glicocorticóides
e os andrógenos. Mas são os glicocorticóides
(GC) que têm importância primária nos
estados de estresse e na sua composição encontramos
em maior quantidade o cortisol (95%), apresentando em similares
como hidrocortisona, corticosterona e a cortisona.
O efeito mais pronunciado do cortisol é sua capacidade
de aumentar a taxa de glicose sangüínea pela
neoglicogênese, mas também tem importante
ação sobre o sistema cardiovascular, sistema
nervoso central, sobre outras glândulas e sobre as
respostas inflamatória e imunológica.
Os GC ativam em menor grau a dissolução das
gorduras em reserva no tecido adiposo, além de inibirem
a lipogênese, dando lugar à formação
de ácidos graxos, que serão captados pelo
fígado e possibilitam o aumento do colesterol circulante,
com todos efeitos de anterior clerose previsíveis.
Então é bom que se lembre, que não
basta fazer dieta, por que o estresse produz o mesmo efeito.
Este efeito é mais pronunciado nas extremidades
do corpo. Quantidades excessivas deste hormônio produzem
quadros de distribuição irregular da gordura,
distribuição centrípeta, com maior
acúmulo na região toráxica e cervical.
Todos esses mecanismos de emergência (glicogênese,
lipólise, deposição de glicogênio
no fígado, aumento de colesterol etc.), em conjunto
protegem o organismo da hipoglicemia e facilitam a estocagem
de glicogênio. No aparelho cardiovascular agem reforçando
a ação das catecolaminas, pois aumenta o
tônus vascular e a força de contração
do miocárdio, mas representam uma agressão
ao coração. Inibe a síntese das prostaglandinas
e prostaciclinas contribuindo para o restabelecimento do
volume sangüíneo e da pressão arterial
em casos de hemorragias.
Os efeitos sobre o sistema nervoso vão desde a regulação
de vários processos básicos de crescimento
e diferenciação celular até alterações
na atividade eletrofisiológica, além de influenciar
padrões de do sistema límbico como o hipocampo
a área septal, os núcleos basal e humor,
motivação e aprendizagem. Ligam-se em pontos
específicos do cérebro, em estruturas cortical
da amígdala e o indusium griseum.
Fora do sistema límbico, os GC concentram-se a nível
do neocórtex, no cerebelo, no núcleo olfatório
anterior e nas lâminas III, VII e IX da substância
cinzenta da medula.
Influenciam a diferenciação e o desenvolvimento
dos sistemas de neurotransmissores. Agem como reguladores
de sistema de catecolaminas, pois aumentam a síntese
de certas enzimas relacionadas com a produção
das mesmas e induzem a transformação de noradrenalina
em adrenalina, portanto diminuindo a agressividade e capacidade
de defesa e aumentando a passividade no quadro estressante.
Além desses efeitos sobre as catecolaminas, os GC
aumentam a síntese da triptofano-hidroxilase, enzima
relacionada com a produção de serotonina
no cérebro e mesencéfalo, sendo que o estresse
aumenta a sensibilidade dos receptores serotoninérgicos,
principalmente no córtex frontal, aumentando a excitação
e preparando para quadros depressores.
Os GC apresentam um grau considerável de especificidade
em relação à regulação
hormonal da diferenciação celular em vários
tecidos. Têm um efeito negativo no crescimento do
cérebro e na proliferação das células
que compõem o tecido nervoso. A exposição
prolongada de células cerebrais aos GC, ou a taxas
altas desses, provoca decréscimo do peso cerebral
e diminui seu conteúdo em DNA, sugerindo uma diminuição
em seu número de células. Interfere negativamente
na formação das sinapses, pois provoca um
retardo no crescimento dos dendritos corticais e reduz
os níveis de gangliosídios cerebrais, que
são essenciais nos processos neuronais. Nessa condição,
o cortisol inibe a secreção do hormônio
do crescimento pela hipófise, das iodotirosinas
pela tireóide, tem efeito mineralocorticóide,
aumenta a secreção de gastrina e interfere
na absorção eletrolítica a nível
intestinal.
Na fase neonatal tudo isso tem aspectos drásticos,
pois o estresse intenso pode resultar em uma variedade
de déficits, como conseqüência de sérios
danos à nível de sistema nervoso central,
pois o processo de desenvolvimento normal deste sistema
vai sofrer interferência abrangente dos GC, podendo
gerar sérias mudanças neuroquímicas
e neuroanatômicas. Qualquer tratamento que envolva
a administração de glicocorticóide
na fase neonatal ou de crescimento também terá conseqüências
drásticas. Mas dependendo do tempo de administração
e da dose, os GC podem acelerar ou retardar a maturação
funcional.
É
possível que a grande importância do aumento
destes hormônios e o conseqüente aumento das
respostas durante o estresse sejam possibilitar, a nível
cerebral, a comutação de um estado "distrófico" (estressado)
para um estado "eufórico", criando condições
compatíveis com as necessidades do momento, permitindo
o restabelecimento das capacidades cognitivas e que o indivíduo
se torne capaz de enfrentar o estresse.
O cortisol também tem importante papel na diminuição
da defesa do organismo pela sua resposta antiinflamatória,
em contraponto à reação de defesa
inflamatória produzida por hormônios como
aldestorerona e desoxicorticosterona. Influencia também
as respostas imunológicas, bloqueando a síntese
de interferon, inibindo as interleucinas o que leva à supressão
das respostas mediadas por linfócitos T, a síntese
de prostaglandinas e leucotrienos por inibição
do ácido aracdônico, mediador das respostas
inflamatórias imunes.
Nos estados de estresse as catecolaminas, cuja liberação
se segue ao aumento de atividade do sistema nervoso simpático,
constituem o primeiro mecanismo hormonal com que o organismo
lança mão como suporte glicemico, seguido
por liberação do GC em fases posteriores.
Ambos são fundamentais, necessários para
o desempenho das atividades, principalmente cerebrais,
que são de grande importância durante a Síndrome
geral de adaptação.
O nosso organismo tem mecanismos muito eficientes para
nos sustentar quando somos submetidos a situações
estressantes, mas esta eficiência pode falhar no
caso de estimulações muito intensas ou muito
prolongadas, capazes de tornar o organismo inábil
em promover o seu equilíbrio. Então, surgem
vários distúrbios orgânicos característicos
da fadiga, como cefaléia, taquicardia, mãos
frias, mudança de apetite, cansaço muscular,
falhas de memória, distúrbios sexuais, má digestão,
etc. As doenças psicossomáticas são
muito comuns como resultado ou complicações
dos estresses psíquicos. Os estressados crônicos
apresentam uma variedade de distúrbios que podem
culminar com quadros de complicações como:
infarto do miocárdio, úlceras pepticas, doenças
circulatórias, envelhecimento precoce etc.
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