Argentina
A
característica mais peculiar da Argentina é a convivência
histórica entre a forte herança cultural européia e as
tradições rurais e regionalistas. O poderio econômico da
oligarquia latifundiária não impediu que o país conquistasse
níveis de desenvolvimento próprios de nações do primeiro
mundo. O alto grau de escolaridade da população, o nível da
renda e o avanço e a diversificação da economia fazem dos
argentinos um povo privilegiado entre os sul-americanos. Sua
conturbada história política contemporânea e a dependência ao
capital estrangeiro, no entanto, fecharam-lhe o caminho do pleno
desenvolvimento.
A Argentina
localiza-se na região meridional da América do Sul, na latitude
do paralelo 22o ao 55o e na longitude do meridiano 54o ao 74o.
São mais de 3.700km do extremo norte ao extremo sul, desde as
proximidades do trópico de Capricórnio até o pólo sul, e mais
de 1.400km de leste a oeste. Limita-se ao norte com a Bolívia; a
nordeste com o Paraguai, pelas fronteiras naturais dos rios
Pilcomayo, Paraguai e Paraná; a leste com o Brasil e o Uruguai,
através do rio Uruguai, e com o oceano Atlântico, também
limite de sudeste, em mais de 4.700km de litoral; e a oeste com o
Chile, pela cordilheira dos Andes.
Segundo
país da América do Sul em extensão territorial, depois do
Brasil, a Argentina ocupa uma superfície de 2.780.400km2,
excluindo-se os 12.200km2 das ilhas Malvinas (Falklands),
ocupadas pelo Reino Unido. O país reivindica direitos de posse
sobre as ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, também sob
ocupação britânica, e sobre um trecho da Antártica.
Geografia
física
Geologia e
relevo. O território argentino estende-se longitudinalmente
entre a cordilheira dos Andes e o oceano Atlântico.
Caracteriza-se pela variedade de paisagens físicas resultantes
da transição entre as zonas montanhosas do oeste e as
planícies do leste.
A
cordilheira dos Andes provém de movimentos orogênicos
(fenômenos que determinam a formação de montanhas) do
plioceno, no período quaternário. Avança pela Argentina com
montanhas elevadas, que sustentam um vasto planalto
semidesértico e cheio de depressões salinas, denominado Puna de
Atacama, a três mil metros acima do nível do mar. Situam-se
nessa região setentrional importantes maciços vulcânicos,
entre os quais se destaca o Lulullaillaco, com 6.723m, um dos
cumes mais altos do continente. Na direção leste, encontra-se a
cordilheira Oriental, conjunto de serras elevadas, com neve
eterna em seus picos mais altos, e em seguida situam-se as serras
subandinas, que confinam com a província do Chaco.
Entre os
Andes centrais, a oeste, e as serras de Córdoba e San Luis, a
leste, abre-se um extenso vale, separado do território chileno
pela cordilheira Principal, onde se encontram as maiores
elevações, inclusive o ponto culminante de toda a América, o
Aconcágua (6.959m), bem como os picos Mercedario (6.770m) e
Tupungato (6.550m). Do paralelo 36o em diante, na direção do
sul, os Andes se estreitam e perdem altura. Seu prolongamento na
Patagônia apresenta raras elevações acima de 3.500m, como a do
monte Mellizo, junto à Laguna Grande.
A leste dos
Andes e ao norte da Patagônia, estende-se uma vasta planície de
características variadas. Ao longo das bacias do Paraná e
Paraguai, localiza-se o Chaco, região subtropical e arenosa,
ligeiramente inclinada para sudeste. Em alguns pontos do nordeste
(Misiones), afloram rochas areníticas e basálticas pertencentes
ao escudo pré-cambriano brasileiro. O resto da região se acha
coberto por sedimentos de diversas épocas, como o loess
(depósitos quaternários de origem glacial), rico em calcário.
A leste do Chaco, entre os rios Paraná e Uruguai, localiza-se a
planície da Mesopotâmia argentina, que não apresenta unidade
morfológica nem geológica. O principal elemento de seu relevo
é a meseta Misionera, na província de Misiones e nordeste de
Corrientes.
Entre o
sopé dos Andes e o oceano Atlântico, ao sul do rio Salado e ao
norte do Colorado, situa-se o Pampa, em todos os aspectos a
paisagem mais representativa da Argentina. A vasta planície
pampeana caracteriza-se pela horizontalidade. Compreende em sua
composição sedimentar diversas eras geológicas. Seus solos
são muito ricos (loess e limos muito espessos). Embora bastante
homogêneo em sua topografia, o Pampa apresenta áreas mais
onduladas, ganha altura nas serras do Tandill e Ventana e, no
vale do rio Salado, mergulha em depressão tectônica. Abaixo do
rio Negro e do golfo de San Matías, entrando na Patagônia, já
não se pode falar de planície, mas de mesetas em que se
sobrepõem sedimentos secundários e terciários que foram
igualados no fim da era glacial.
Clima.
Grande parte do território argentino está situado na zona
temperada do hemisfério sul. Verificam-se no país climas
tropicais e subtropicais, áridos e frios, com combinações e
contrastes diversos, resultantes das variações de altitude e
outros fatores. Em quase todas as regiões da Argentina
registram-se nevadas ocasionais, exceto no extremo norte, onde
predomina um clima tropical. Nessa mesma área, os dias são
quentes de outubro a março e frios e secos de abril a setembro.
Mais amenos
são os índices predominantes no Pampa, úmido e fresco em sua
parte oriental, nas províncias de Buenos Aires e La Pampa. Os
verões, embora intensos, em Mar del Plata não ultrapassam uma
média superior a 21o C. Mais seco para o lado do oeste e
Mendoza, o clima do Pampa, nessa faixa, tem suas chuvas de verão
rapidamente evaporadas.
Nas
proximidades da cordilheira dos Andes, de noroeste até a serra
do Payén, na província de Mendoza, verifica-se freqüente
alternância de climas árido e semi-árido, este com maior
expressão nos pontos mais altos da própria cordilheira. De
quatro mil metros para cima, as precipitações são escassas e
as temperaturas muito baixas, entre neves eternas. Na parte
meridional dos Andes as chuvas são bastante favorecidas pelos
ventos úmidos do Pacífico, que vencem a barreira descomunal e
chegam às províncias do sul. As condições de umidade e
temperatura levam à formação de geleiras.
De um modo
geral, a Patagônia é de clima seco e frio, com fortes e
constantes ventos soprados do oeste. Mais ao sul, na Terra do
Fogo, os ventos são ainda mais fortes, a chuva e a neve, quase
permanentes, e a temperatura cai a níveis muito baixos.
Hidrografia.
Contam-se três redes hidrográficas em território argentino: a
da vertente atlântica, que é a mais importante, a do Pacífico,
na parte sul da cordilheira dos Andes, e as bacias endorréicas
-- ou internas -- que ocupam um terço da superfície total do
país.
Do lado do
Atlântico, destaca-se o rio da Prata, nome que se dá ao
estuário que é fruto do encontro dos rios Paraná e Uruguai com
o oceano Atlântico. Tem mais de 300km de comprimento, largura
que chega a 200km e descarga média de 23.300m3 por segundo,
perdendo na América do Sul somente para a do Amazonas.
O rio
Paraná é um dos 15 mais extensos do mundo e tem 1.800km em
terras argentinas, sendo mais de 400 navegáveis (até Santa Fe).
Seus afluentes mais importantes são, na margem direita, o
Paraguai, o Salado e o Carcarañá, e na margem esquerda o
Iguaçu, com o qual, na confluência que é ao mesmo tempo
argentina, brasileira e paraguaia, forma as famosas cataratas,
num arco de quatro mil metros.
O rio
Paraguai só tem um pequeno trecho argentino, de margem direita,
na fronteira das províncias de Chaco e Formosa com o Paraguai,
mas juntamente com seus afluentes Pilcomayo e Bermejo inunda as
planícies da região na época das chuvas, criando lagunas e
banhados. Já o rio Uruguai marca as fronteiras de Misiones,
Corrientes e Entre Rios com o Brasil (Rio Grande do Sul) e o
Uruguai. Na maior parte desse percurso é navegável.
Muitos dos
rios da vertente atlântica que correm na Patagônia, ou se
dirigem para essa região, têm poucos afluentes, com o traço
peculiar de irem perdendo parte de suas águas à medida que
avançam. Os principais são o Colorado, o Negro (formado pelo
Neuquén e Limay), o Chubut, o Deseado e o Chico, este nas
imediações da Terra do Fogo.
No interior
mais árido e plano são muitas as pequenas bacias hidrográficas
que não chegam ao mar. No planalto de Atacama, de chuvas
escassas e águas que provêm do degelo de altos picos da
cordilheira, diversos rios têm curso intermitente ou
desaparecem, quer nas lagoas, quer no meio de um dos numerosos
salares, depósitos salinos comuns no oeste e sobretudo noroeste
do país. Das planícies do Chaco, só conseguem sair o
Pilcomayo, o Teuco e o Bermejo, que terminam no rio Paraguai, ou
o Corrientes, que mergulha no Paraná. Muitos dos rios de
importância econômica nos Pampas, por se prestarem a obras de
irrigação, esgotam-se sob a intensa evaporação ou absorção
pelos solos arenosos.
Mais ao sul,
na província de Mendoza, há uma ampla bacia interna formada por
rios e riachos que descem dos Andes e raramente chegam às
províncias vizinhas de La Pampa e Neuquén. Por isso o lugar tem
o nome de Desaguadero (Desaguadouro), mas outros há, parecidos,
nos planaltos patagônicos. A vertente do Pacífico também tem
início no segmento dos Andes que passa por Mendoza, entre os
meridianos 30o e 35o: são cursos de água pequenos que começam
no alto da cordilheira, atravessando o estreito território do
Chile.
Bastante
representativos da paisagem física argentina no sul dos Andes
são os lagos e lagoas, mais de 400, alguns de grande beleza e
interesse turístico, como o Nahuel Huapí, junto ao qual fica
San Carlos de Bariloche, dentro de esplêndido parque nacional.
Há ainda o Colhué Huapí e o Buenos Aires, na província de
Chubut; na de Santa Cruz, o San Martín, o Argentino, o Cardiel,
o Viedma; e, na Terra do Fogo, o Fagnano.
Flora e
fauna. Há uma grande diversidade de flora e fauna no território
argentino, diretamente determinada pelas correspondentes
diferenças de clima, solo e outras condições materiais. No
norte da Mesopotâmia argentina, quente e úmido, predominam as
matas subtropicais, em que se identificam espécies como o cedro,
o ipê, a erva-mate, o pinheiro, as longas samambaias, bambus e
cipós. Junto ao leito dos rios, essa vegetação se estende até
a parte sul da planície mesopotâmica.
No Chaco, a
paisagem mais constante é parecida com a do cerrado brasileiro,
coberta de gramíneas e palmeiras esparsas. Destaca-se na parte
mais chuvosa ou junto aos rios a ocorrência de quebracho, o
principal item da exploração florestal do país, e outras
madeiras úteis, como lapacho e urundaí. Áreas desérticas e
semidesérticas encontram-se nos Andes, na Patagônia
extra-andina e a sudoeste do Chaco. Paraíso das gramíneas, a
região dos Pampas quase não tem árvores. No leste mais seco,
chega a abrigar plantas especialmente adaptadas à aridez,
compondo às vezes um matagal arbustivo intermitente.
A fauna
argentina apresenta muitas das espécies características da
América do Sul, embora menos variada que nas regiões tropicais.
Há grande quantidade de aves, répteis e roedores. Entre os
mamíferos estão a onça-pintada, a suçuarana, o
gato-dos-pampas. Há raposas em várias regiões e, na mata
subtropical, o macaco guariba é bastante encontrado, bem como a
doninha, a anta, o tamanduá-bandeira, o tatu, diversas espécies
de cervo e, nas regiões andinas, a lhama, a alpaca, a vicunha e
o guanaco.
A ordem dos
roedores é bem representada, com capivaras e vários tipos de
coelho. Os répteis incluem a jibóia e peçonhentas como a
cobra-coral e a cascavel, além de jacarés e lagartos. São
particularmente numerosas as espécies de aves, de muitos
papagaios e poucas emas e gansos selvagens, garças, gaviões e,
no alto dos Andes, o condor. No extremo sul do país, a fauna do
litoral gelado conta com muitas das espécies peculiares a essa
paisagem, como os pingüins, as focas, os lobos-marinhos.
População
Ao
contrário de quase todos os outros países da América do Sul, o
europeu branco tornou-se o principal componente racial do povo
argentino. A distribuição geográfica da população mostrou-se
desigual, com uma concentração cada vez maior nas metrópoles
litorâneas e nas regiões férteis do interior.
Havia poucos
habitantes no país quando principiou a colonização espanhola.
Alguns dos grupos indígenas existentes, sobre os quais ainda
influía a civilização dos incas, ocupavam pequenas áreas das
elevações dos Pampas, nas proximidades da cordilheira, nos
vales dos rios Paraguai e Paraná. Eram os araucanos, guaranis e
diaguitas, estes mais assemelhados aos quíchuas. A luta contra
as belicosas tribos caçadoras e a escassa afluência de
imigrantes mantiveram o crescimento demográfico em níveis
relativamente baixos durante o período colonial. Quando o país
proclamou sua independência da Espanha (1816), não tinha mais
de 400.000 habitantes.
Da segunda
metade do século XIX em diante, a Argentina passou a estimular
ao máximo a mobilização de imigrantes europeus para ocupar
suas regiões mais férteis. Em 1860 a população já subira
para mais de 1.700.000 e meio século depois tinham chegado seis
milhões de imigrantes, verificando-se o predomínio constante
dos espanhóis e italianos, a que se juntava um contingente
originário da própria América do Sul. Esse fluxo migratório
foi além da segunda guerra mundial, mantendo-se até 1956.
De 1960 em
diante a instabilidade política e os problemas econômicos
alimentaram o processo inverso, levando muitos cidadãos
argentinos a emigrarem para outros países. Apesar disso, a
população em geral continuou crescendo, mas moderadamente, a
uma taxa média anual de 1,5%. Além de Buenos Aires, tornaram-se
importantes as cidades de Córdoba, Rosario, Mendoza e Mar del
Plata, com grande concentração demográfica.
O índio e o
negro praticamente desapareceram. Embora o elemento mestiço seja
substancial nas províncias contíguas ao Chile, Bolívia e
Paraguai, e haja comunidades de índios puros no noroeste do
país, os centros populosos da Argentina, e em particular a
capital, tornaram-se quase cem por cento brancos. No fim do
século XX, o território argentino abrigava pouco mais de cem
mil indígenas. (Para dados demográficos, ver DATAPÉDIA.)
Economia
A falta de
uma sólida infra-estrutura industrial, a escassez de capitais, a
exportação fundamentada no setor primário, os conflitos
sociais e trabalhistas e a instabilidade política foram alguns
dos empecilhos à prosperidade de um país que, se não é
subdesenvolvido, apresenta aspectos próprios das economias do
Terceiro Mundo.
Na segunda
metade do século XIX, a Argentina registrou rápido
desenvolvimento econômico, com a colonização do Pampa e o
início das exportações. Todavia, a distribuição das terras
entre grandes latifundiários e pequenos proprietários e a
ausência de uma autêntica classe média agrária cercearam a
renovação técnica da lavoura. A economia argentina tendia à
estagnação e a uma excessiva dependência das flutuações do
mercado internacional. Essas deficiências estruturais ficaram
patentes a partir de 1930, quando os mercados americano e europeu
se fecharam aos produtos agropecuários.
A
estagnação econômica aprofundou-se depois da segunda guerra
mundial, apesar dos esforços do governo para industrializar o
país e minorar os efeitos da inflação crescente. A crise de
1958, a seca de 1962 e a alta nos preços do petróleo na década
de 1970 agravaram ainda mais os problemas econômicos da nação.
Houve tentativas para resolvê-los com planos de desenvolvimento
agrícola e industrial, cujo êxito nem sempre foi o desejado. A
exploração das jazidas petrolíferas a partir de 1967, o
aumento na produção de energia hidrelétrica e a ampliação e
aperfeiçoamento dos sistemas de irrigação foram algumas das
principais conquistas da Argentina no plano econômico, na
segunda metade do século XX.
Agricultura
e pecuária. Com seus diferentes solos e condições climáticas,
a Argentina pôde diversificar sua produção agrícola em
culturas intensivas e adequadas às características de cada
região. A meta principal tem sido a dos cereais. Faz-se ótima
rotação, nos Pampas, de trigo e milho com linho e alfafa.
Cultivam-se também o centeio, a cevada, a aveia e, na
Mesopotâmia, o arroz.
Nas
províncias de San Juan e Mendoza, cujos vales foram contemplados
com expressivas obras de irrigação, desenvolveu-se variada
fruticultura, que incluem vinhedos, olivais e diversas espécies
cítricas, como o limão, a laranja e a toranja (grapefruit).
Concentram-se nessas terras os melhores produtores de vinho, que
o exportam para muitos países. Outras províncias em que se
plantam frutas são Catamarca, La Rioja e Río Negro.
Em Misiones,
as plantações são de chá e erva-mate, de alto consumo
interno. A cana-de-açúcar, primordial na indústria de
alimentos, é cultivada principalmente em Tucumán e, em
proporções menores, nas províncias de Salta, Jujuy e Chaco.
Nesta última também se tornam importantes outras culturas de
notável valor industrial como a das sementes oleaginosas (soja,
sorgo, girassol e linhaça) e a de fibras têxteis, especialmente
linho e algodão, devendo-se ainda lembrar o tabaco, plantado
também em Salta e Misiones.
Por muito
tempo a pecuária foi a maior, se não única, riqueza dos
argentinos. No século XVII constituía uma criação de
subsistência e só se comercializava o couro. Quando se inventou
e se começou a usar a técnica do charque, em meados do século
XVIII, o país passou a exportar carne. No fim do século XIX, a
seleção de espécies bovinas, o emprego de grandes
frigoríficos e a ligação ferroviária dos centros criadores
com os portos de Buenos Aires, Rosario e Bahía Blanca tornaram
possível a exportação de carne bovina em grande quantidade,
inclusive para os Estados Unidos e Reino Unido.
O mercado
interno foi importante desde o início, pois a carne é
tradicionalmente um dos componentes principais da alimentação
argentina.
Embora
disponha de matas que comportam, sem agressão ecológica, uma
exploração equilibrada e potencialmente rentável, a Argentina
ainda não desenvolveu a silvicultura, em grande parte devido à
distância das fontes de matéria-prima em relação aos grandes
centros. Na província de Misiones, o pinheiro, o cedro e o
pau-rosa vêm sendo aproveitados no fabrico de celulose. Em
Santiago del Estero, do quebracho se extrai madeira dura e
tanino. Nas montanhas da Patagônia, o pinheiro e o lariço têm
crescente utilização econômica.
A atividade
pesqueira, de enorme potencial nas costas da Patagônia, é
dificultada pela falta de mão-de-obra e de portos nessa região.
Os hábitos alimentares da maior parte da população excluem
quase completamente o consumo de pescado.
Minas e
energia. A Argentina é rica em recursos minerais, que permanecem
em grande parte inexplorados por falta de uma relação adequada
entre as riquezas naturais e os meios dedicados a seu
aproveitamento. O noroeste é a região em que se acham os
centros de mineração mais importantes. Ali se extraem chumbo,
estanho, zinco, ouro, prata, cobre, ferro, bismuto, tungstênio,
volfrânio, manganês, amianto, além de gesso e sal. Entre os
minerais não-metálicos, sabe-se de valiosos depósitos de
cobalto, enxofre, tântalo e urânio. Há também importantes
concentrações de ferro em Río Negro e outros pontos da
Patagônia.
Com parcas
jazidas de carvão no extremo sul de seu território, a
Argentina, desde o princípio do século, teve bons resultados na
extração de petróleo e gás natural. Seus lençóis de maior
produtividade e potencial localizam-se nas províncias de Chubut
(especialmente em Comodoro Rivadavia), Santa Cruz, Río Negro,
Neuquén e Salta. A estatal do setor, Yacimientos Petrolíferos
Fiscales (YPF), assumiu em 1922 o controle da produção do
petróleo e de sua importação. Na década de 1980, o petróleo
e seus derivados constituíam dez por cento das importações
argentinas, embora durante esse período o crescimento da
produção nacional caminhasse rapidamente para a
auto-suficiência. Aumento ainda mais auspicioso vinha tendo a
extração de gás natural, de procura cada vez maior na
expansão do parque industrial e das comunidades urbanas. As
jazidas de gás se acham junto aos lençóis petrolíferos e
modernos gasodutos fazem sua ligação com Buenos Aires e Bahía
Blanca.
Os rios que
descem da fronteira oeste e grande extensão dos que cortam o
nordeste argentino -- basicamente as bacias do Paraná e Uruguai
-- encerram alto potencial hidrelétrico. As usinas existentes
foram construídas na serra de Córdoba, no rio Uruguai e no Río
Negro. Havia imensas represas em construção, em particular a da
hidrelétrica de Yaceretá, em cooperação com o Paraguai, mas a
maior parte da eletricidade do país, no início da década de
1990, provinha de usinas termelétricas. Nessa mesma época, a
Argentina dispunha das maiores instalações de energia atômica
da América Latina, na usina de Atucha.
Indústria.
Apesar dos problemas estruturais de sua economia, a Argentina
destacou-se como um dos países mais industrializados da América
do Sul, com grande potencial de desenvolvimento. Nas duas
últimas décadas do século XIX, surgiram as primeiras
fábricas, voltadas para o beneficiamento de produtos
agropecuários destinados à exportação. Além disso, começou
a construção das principais estradas de ferro e das
instalações portuárias de Buenos Aires e de outras cidades do
litoral atlântico.
Durante a
primeira guerra mundial, enquanto a exportação de alimentos
recebia novo impulso, a importação de manufaturados foi
praticamente suspensa. Como no caso do Brasil, o fato representou
poderoso estímulo para a expansão industrial, já que foi
preciso substituir os bens de consumo até então importados por
similares produzidos internamente. O processo encontrou graves
obstáculos na crise de 1929, que afetou todo o mercado mundial e
deu origem a um difícil período de estagnação da economia
argentina por toda a década de 1930 até a segunda guerra
mundial, que levou a um novo surto de exportação de alimentos e
de industrialização.
No início
da década de 1990, a indústria argentina de transformação,
sobretudo alimentícia e têxtil, abrangia uma vasta relação de
produtos, entre os quais se destacavam, pela quantidade e
qualidade, açúcar, conservas de origem vegetal e animal, azeite
de oliva, óleos vegetais, cerveja, vinho, álcool, fibras de
algodão, lã e sintéticos.
Apesar do
modesto desempenho das indústrias siderúrgica e metalúrgica
argentinas, não diminuiu nos últimos anos a capacidade de
produção das montadoras de automóveis, tratores e mesmo, em
escala menor, veículos militares e aviões. Os maiores centros
industriais, além de Buenos Aires, são Córdoba, Tucumán,
Rosario, Mendoza, Salta e Jujuy. Um setor que tomou forte impulso
graças à produção petrolífera nacional foi o da indústria
química, representado por numerosas fábricas de medicamentos,
fertilizantes, colas, ácido sulfúrico, metanol, etileno,
propileno, soda cáustica e pneus. Também não podem ser
esquecidos dois outros itens de expressão considerável, o
cimento e o papel.
Comércio,
turismo, finanças. As exportações argentinas são
constituídas, fundamentalmente, de produtos agropecuários
(cereais, frutas, verdura, forragem, óleos vegetais, manteiga,
carne e derivados, couro e peles), mas na segunda metade do
século XX observou-se uma crescente participação da indústria
nessa atividade, particularmente no que diz respeito aos
derivados de petróleo. Em contrapartida, o país tem uma pauta
de importações que prioriza o próprio petróleo com que ainda
complementa sua produção, matérias-primas industriais,
produtos químicos, máquinas e veículos de transporte. Os
parceiros mais importantes do comércio exterior argentino são a
Comunidade Européia (CE), a Associação Latino-Americana de
Integração (ALADI), os Estados Unidos e a Comunidade de Estados
Independentes (CEI).
A Argentina
tem bancos estatais e particulares, um grande número de
estabelecimentos cuja atividade se exerce sob controle do Banco
Central, que também preserva as divisas estrangeiras e o lastro
de ouro, além de emitir a moeda. Da década de 1960 em diante, o
país enfrentou o aumento da inflação, que chegou a ultrapassar
a marca dos mil por cento. Após um período de contínua
desvalorização da moeda, o governo argentino criou o peso novo
em 1970, equivalente a cem pesos antigos. Em 1983 houve outro
ajuste monetário e um novo peso foi lançado, valendo dez mil do
anterior. Em 1985 outro acerto se tornou premente e deu-se à
moeda o nome de austral, com o valor de mil novos pesos. Dessa
fase até o início da década de 1990 houve um período de
relativa estabilidade, com a adição de programas econômicos de
controle da inflação e de saneamento das finanças do estado.
Em abril de
1991, a lei de livre conversibilidade da moeda dolarizou a
economia argentina, que experimentou a partir de então um
significativo decréscimo do processo inflacionário. Sua
intensidade ao longo de muitos anos, todavia, fez crescer e
agravar-se outro pesado ônus da economia nacional: a dívida
externa, uma das maiores do continente.
Transportes
e comunicações. A hipertrofia urbana e a enorme centralização
da metrópole portenha exerceram influência determinante no
traçado original do sistema viário argentino, um dos mais
extensos da América Latina. Em função do desenvolvimento
agropecuário nos Pampas e no Chaco, essas regiões tiveram o
privilégio de ótima comunicação com a capital federal, em
detrimento de muitas paragens do sul ou dos Andes, que se
mantiveram ilhadas.
As estradas
de ferro começaram a ser implantadas no país em pleno século
XIX, com capital e técnica estrangeiros, especialmente ingleses
e franceses. A partir de 1947, o estado tornou-se responsável
pela propriedade e conservação de toda a rede que chegava na
década de 1990, a 35.000km, mais do que em qualquer outro país
latino-americano, com destaque para a estrada de ferro que ligava
Buenos Aires a Valparaíso, no Chile, através dos Andes.
A partir da
segunda metade do século XX, com a produção automobilística,
as estradas de rodagem aumentaram em quantidade e volume de
tráfego, embora a rede ferroviária continuasse a ser utilizada
para aproximadamente a metade do transporte de carga. Rodovias de
primeira classe vão de Buenos Aires a Rosario, Córdoba,
Tucumán, Bahía Blanca e Neuquén. A Argentina também se liga
aos países limítrofes e ao resto do continente pela rodovia
Pan-Americana.
A Argentina
tem em Buenos Aires seu mais importante porto internacional e de
cabotagem -- por mar e pelos rios --, vindo em seguida La Plata e
Bahía Blanca. A navegação fluvial estende-se a mais de três
mil quilômetros de distância do mar, pelos rios Paraná,
Paraguai, Uruguai e Negro, sendo seus respectivos portos
principais Rosario, Santa Fe, Concepción, Formosa e Neuquén.
O transporte
aéreo, de importância crescente, está a cargo de várias
companhias nacionais (especialmente as Aerolíneas Argentinas) e
estrangeiras. Os principais aeroportos internacionais são o de
Ezeiza, a quarenta quilômetros de Buenos Aires, e o Aeroparque,
no centro da capital.
A Argentina
possui uma das mais extensas redes de telefonia da América
Latina, a maior parte instalada em Buenos Aires. A Empresa
Nacional de Telecomunicações realiza os serviços de
comunicação internacional por satélite e é responsável pela
renovação das redes de telegrafia e radiotelegrafia. (Para
dados econômicos, ver DATAPÉDIA.)
História
Desde os
começos da ocupação de seu território, em que o próprio
pioneirismo parecia pautado por objetivos e atitudes
conflitantes, a Argentina sempre viveu sua história com luta e
inquietação, rivalidades regionais, divergência entre classes
e facções. No meio dessas chamas politizou-se, adquiriu
vigorosa combatividade social e perfil inconfundível como
nação, mas até hoje tem problemas para se integrar em torno de
uma perspectiva segura e de decidido projeto nacional.
Descobrimento
e colonização. É difícil afirmar qual o primeiro navegador
que pisou em terras argentinas. Pode ter sido o florentino
Américo Vespúcio e podem ter sido portugueses. Foi em nome da
coroa espanhola, porém, que se fez a comunicação oficial do
descobrimento, sob a responsabilidade de Juan Díaz de Solís,
que desembarcou (1516) em Candelaria (hoje Maldonado),
descobrindo o mar Dulce ou de Solís, mais tarde rio da Prata. O
navegador pereceu pouco depois com quase todos os seus homens,
atacado -- e provavelmente devorado -- por guaranis. Uns poucos
remanescentes chegaram ao Brasil, contando fantásticas
histórias sobre o império de um rei branco onde haveria uma
montanha repleta de prata. O relato, que lhe teria chegado pelos
índios, por certo se referia aos incas, então ainda não
conquistados. Para portugueses e espanhóis, o portal daquele
prodígio devia ser o "río de la Plata".
O
território argentino, nessa época, era habitado por diversos
povos indígenas, somando uma população que beiraria os
300.000. Os espanhóis tentaram utilizá-los como mão-de-obra, o
que só chegou a dar certo com os que já se dedicavam à
agricultura, no norte da Mesopotâmia e nas serras do noroeste.
No entanto, no sul da Mesopotâmia, no Chaco, nos Pampas e na
Patagônia, as tribos de caçadores mostraram-se hostis à
colonização, opondo-lhe constante resistência.
Seis anos
depois de Fernão de Magalhães descobrir o estreito que tomou
seu nome e liga os oceanos Atlântico e Pacífico, o genovês
Sebastiano Caboto entrou no estuário do Prata, fundou a
fortaleza de Sancti Spiritus e, embora não achasse prata, teve
novas informações sobre um vasto império a noroeste da
região. Foi o ponto de partida para o interesse do imperador
espanhol Carlos V, que confiou a colonização do território a
Pedro de Mendoza. Este, em 3 de fevereiro de 1536, fundou o forte
de Nuestra Señora Santa María del Buen Aire, núcleo inicial da
cidade de Buenos Aires, logo abandonado (1541) aos índios que o
atacavam. No ano seguinte seria fundada a cidade de Assunção
(mais tarde capital do Paraguai), a partir da qual as terras
argentinas passaram a ser colonizadas.
Com a
conquista do império inca, as atividades econômicas da bacia do
rio da Prata passaram à função de abastecer os trabalhadores
da mineração no vice-reinado do Peru. Juan de Garay fundou
Buenos Aires pela segunda vez em 1580, enquanto surgiam outros
centros urbanos na rota para Assunção: Santiago del Estero
(1553), Mendoza e San Juan (1562), Tucumán (1565), Córdoba e
Santa Fe (1573), Salta (1582), Corrientes e Paraná (1588) e La
Rioja (1591). A divisão e administração da terra sob o regime
das encomiendas não deu bons resultados por falta de
mão-de-obra habituada ao trabalho agrícola. A principal
atividade econômica passou a ser a vaquejada, ou caça de gado
selvagem, praticada pelos gaúchos (mestiços de espanhol e
índio, nesses tempos de rara imigração). Os missionários
jesuítas, a partir de 1585 e particularmente na província de
Misiones, lançaram as bases da educação nacional.
O vice-reino
do Peru em 1617 dividiu o governo do Paraguai e Rio da Prata em
duas províncias -- de que Asunción e Buenos Aires se tornaram
as capitais --, enquanto a de Tucumán viu-se palco de um choque
permanente dos colonizadores (vindos do Chile e Peru) com os
índios da região, a duras penas subjugados. Em 1776, do largo
território que compreendia a atual Argentina, o Paraguai, o
Uruguai e o sul da Bolívia, fez-se um vice-reino à parte, tendo
Buenos Aires como capital. Foi seu primeiro grande impulso.
Com a
legislação do Comércio Livre da Espanha e Índias (1778), a
cidade passou a ter enorme movimento como porto, em negócios --
principalmente de couro -- com o Brasil, a Grã-Bretanha e a
França. As vantagens assim auferidas pelo entreposto portenho
alimentaram a rivalidade de outros pontos e províncias da futura
nação.
Independência
e unidade. Estimulados pela recente aliança franco-espanhola, os
ingleses em 1806 tomaram Buenos Aires. A cidade foi reconquistada
pelas tropas de Santiago Liniers, mas diante da evidente
insuficiência das forças espanholas para defendê-la, seus
moradores organizaram-se em milícias. Sob influência da
revolução francesa, uma burguesia urbana esclarecida derrubou o
vice-rei Rafael de Sobremonte, colocando Liniers em seu lugar.
Era o tempo das guerras napoleônicas; Espanha e Portugal foram
ocupados. Em Buenos Aires, a hora era propícia à
"revolución de mayo": em 25 de maio, uma assembléia
de notáveis (a que pertenciam Manuel Belgrano e Mariano Moreno)
depôs o vice-rei, que na época era Baltasar Hidalgo de
Cisneros, e elegeu presidente o tenente-coronel Cornelio
Saavedra.
Não houve,
ainda, declaração de independência. Esperava-se a
normalização da situação na Espanha, com a restauração de
Fernando VII. Entrementes, o país se dividia. A junta derrotou
os insubordinados de Córdoba e do Alto Perú, mas encontrou
dificuldades com o Paraguai e a Banda Oriental (mais tarde
Uruguai), onde o patriota José Gervasio Artigas batia-se
bravamente. A parte boliviana foi retomada (1811) pelo vice-reino
do Peru.
Os anos
seguintes foram difíceis, mas produtivos. Desentendiam-se
federalistas e unitários, revolucionários e moderados,
republicanos e realistas. Uma Assembléia Constituinte (1813)
reconheceu a liberdade dos nascidos escravos, extinguiu os
tributos pagos pelos índios, acabou com os títulos de nobreza,
liberou a exportação de cereais, instituiu o escudo e o hino
nacional e escolheu como bandeira a que Manuel Belgrano criara um
ano atrás. Em 1814, Fernando VII restaurou a monarquia. Após
algumas dissensões e obstáculos, o congresso reunido em
Tucumán a 9 de julho de 1816 proclamou a independência das
Províncias Unidas do Rio da Prata.
O governo
deu apoio à campanha do general José de San Martín, que
atravessou os Andes, derrotou os espanhóis em Chacabuco, e
depois, com Bernardo O'Higgins, libertou o Chile nos combates de
Maipú. San Martín, indiferente ao poder, ainda seguiu para o
Peru e tomou parte (1824) na batalha de Ayacucho, que liquidou o
domínio espanhol na América do Sul. Enquanto isso, a Banda
Oriental era tomada pelos portugueses e os federalistas se
sublevavam. A Assembléia Constituinte, já em Buenos Aires,
reforçou o executivo e promulgou a Lei Fundamental de 1816,
unitária e por isso rejeitada pela maior parte das províncias.
Elegeu-se, então, o primeiro presidente da república, general
Bernardino Rivadavia.
De 1825 a
1828 em guerra com o Brasil, que anexara a Banda Oriental como
província Cisplatina, os argentinos, com mediação inglesa e em
acordo com os brasileiros, reconheceram a independência do
Uruguai. Internamente, federalistas e unitários chegavam à
guerra civil: à frente dos primeiros, Juan Manuel de Rosas tomou
o poder e impôs violenta ditadura (fim de 1829).
Seu governo
foi tumultuado, mas militarmente bem-sucedido: derrotou os
índios no sul, venceu a confederação Peru-Bolívia e enfrentou
a França e a Grã-Bretanha, que respaldavam os uruguaios em
constantes conflitos com a Argentina. Todavia, o governador de
Entre Ríos, Justo José de Urquiza, auxiliado por tropas
uruguaias e brasileiras, derrubou o ditador (1852) ao destroçar
suas forças na batalha de Caseros.
Mas a
desunião continuava. Contra esta, a Confederação Argentina foi
fundada em San Nicolás e, em Santa Fe, preparou-se nova carta
centralizadora, ainda que à revelia de Buenos Aires, que acabou
por ceder à pressão exercida pelas províncias, militarmente
persuasivas. Urquiza fomentou a agricultura e a educação, mas
só a partir de 1862, com a eleição de Bartolomé Mitre para a
presidência, iniciou-se uma etapa de mais união e prosperidade.
Houve, em
seguida, a guerra do Paraguai. Em 1865, sendo a província de
Corrientes invadida pelos paraguaios, a Argentina compôs com o
Brasil e o Uruguai a Tríplice Aliança. Foram cinco anos de fogo
e sangue, com milhares de mortos, que terminaram na vitória
aliada. Com os governos de Domingo Faustino Sarmiento (1868 a
1874), que fortaleceu a administração e a escola pública, de
Nicolás Avellaneda e do general Julio Argentino Roca (1880 a
1886), que acabou de esmagar a resistência indígena, o país
consolidou-se politicamente e Buenos Aires tornou-se o Distrito
Federal.
Século XX.
Em torno de Roca e da prosperidade econômica, a organização
social mostrava-se essencialmente conservadora e oligárquica,
com base nos proprietários de terra e nos comerciantes: as
exportações aumentavam, a imigração aproximava-se de seus
melhores dias, intensificava-se a expansão do transporte
ferroviário e a indústria leve já dava os primeiros passos,
mas o poder e a riqueza estavam rigidamente concentrados. A crise
da última década do século XIX, perturbadora, despertara
revoltas. Criaram-se a Unión Cívica Radical, os primeiros
núcleos de organização operária e ouviram-se as vozes do
socialismo e do anarco-sindicalismo.
Havia
denúncias de fraude em várias eleições. Reclamava-se a
democratização do processo e, por iniciativa do presidente
Roque Sáenz Peña, a reforma eleitoral instituiu, de 1914 em
diante, o voto secreto e obrigatório para todos os homens. A
mudança possibilitou a vitória (1916) do grupo radical. O
primeiro presidente eleito de forma legitimamente democrática
foi Hipólito Irigoyen, a um tempo paternalista e repressivo para
com os operários, como na greve geral de Buenos Aires (1919), em
que se valeu até do exército. Em seu segundo mandato, no qual
sucedeu a Marcelo T. de Alvear, alcançou muita popularidade, que
perdeu com a crise de 1929, de funda repercussão no país.
Nova maré
conservadora inundou a Argentina, no meio de complicados
problemas econômicos, sobretudo na relação com os ingleses,
que no intercâmbio comercial se voltavam então quase
exclusivamente para a própria Comunidade Britânica. Veio o
golpe militar de 1930, de influência fascista, em virtude do
qual ocuparam o poder os generais José Felix Uriburu e, em
seguida, Agustín Pedro Justo, este por meio de eleições, ainda
que fraudulentas. A Argentina, que declarou-se neutra na segunda
guerra mundial, como fizera na primeira, foi dominada por
variadas tendências de autoritarismo; civil, nos casos de
Roberto Ortiz e Ramón Castillo; militar, em sucessivas
experiências do período. Por pressões americanas, em 1944 teve
de declarar guerra à Alemanha e ao Japão.
Por volta de
1943, começara a destacar-se a personalidade do coronel Juan
Domingo Perón, que foi subsecretário da Guerra e ministro do
Trabalho. Cativando especialmente os trabalhadores e
descamisados, as camadas subalternas da igreja e das forças
armadas, bem como uma parte do empresariado, Perón elegeu-se
presidente da república em 1946, com 55% dos votos. Ajudara-o na
campanha Eva Duarte (Evita), que se tornou sua mulher e tenaz
colaboradora.
A ideologia
peronista, chamada por ele justicialismo, configurou-se como um
populismo autoritário e preocupado com a justiça social, com o
progresso representado pelo desenvolvimento das indústrias, com
o nacionalismo. Fizeram-se algumas reformas importantes, como a
instituição do voto feminino e a criação dos sindicatos
operários, mas não se fez nenhuma reforma agrária. Deu-se
excessivo peso à máquina estatal e negligenciou-se a indústria
pesada.
No início
da década de 1950, a queda dos preços dos produtos
agropecuários no mercado internacional, a inflação e o
conflito com os opositores e a igreja (entre outras coisas, por
abolir a obrigatoriedade do ensino religioso) fizeram com que
Perón, apesar de reeleito (1951), começasse a perder terreno.
Em 1952 morreu Evita, o peronismo se fez mais autoritário e foi
vencido por um golpe militar. Em novembro de 1955, o general
Pedro Eugenio Aramburu restabeleceu a constitucionalidade e três
anos mais tarde a população elegeu, com o apoio dos peronistas,
o radical Arturo Frondizi, que logo abandonou as promessas de
campanha em favor das instruções do Fundo Monetário
Internacional (FMI): desvalorização da moeda, restrições ao
crédito, privatização de estatais, abertura ao capital
estrangeiro e contenção salarial.
Os anos
seguintes são de agravamento da crise econômica. Há outro
golpe militar (1962), seguido de eleições em 1963, convocadas
pelo general Juan Carlos Onganía -- que excluiu os candidatos
peronistas. Foi eleito Arturo Illia, derrubado logo depois, em
1966, pelo mesmo Onganía. Este encontrou forte contestação
social, inclusive o cordobazo, movimento estudantil e operário
contra o governo, ocorrido em Córdoba. Com o assassínio de
Aramburu pelos Montoneros, extrema-esquerda da juventude
peronista, mais dois militares revezaram-se no poder, o segundo
dos quais, Alejandro Agustín Lanusse, decidido a organizar
eleições gerais e democráticas. Em 1972, saindo do exílio na
Espanha para visitar o país, Perón foi aclamado nas ruas e
fundou a Frente Justicialista de Liberación (Frejuli).
Os problemas
não se resolveram, antes se agravaram: elegeu-se, em 1973, o
peronista Héctor Cámpora, que cedeu o lugar à eleição de
Perón e sua mulher Maria Estela, conhecida como Isabelita
Martínez, para presidente e vice-presidente da república. Em
1974 morreu Perón, Isabelita assumiu o governo com a economia em
crise, atentados terroristas e dificuldades de todo tipo. Os
militares não tardaram em voltar à cena política, desta vez
com um Processo de Reorganização Social implementado por uma
junta presidida, sucessivamente, por Jorge Rafael Videla (1976),
Eduardo Viola (1981) e Leopoldo Galtieri (fim de 1981 e meados de
1982).
Galtieri
protagonizou o episódio das ilhas Malvinas (para os ingleses,
Falkland Islands): mandou as forças armadas ocupá-las, entrou
em guerra com a Grã-Bretanha e saiu derrotado, com pelo menos
800 perdas humanas. Com a queda de Galtieri e intensa campanha da
opinião pública (inclusive a das mães de desaparecidos, na
praça de Mayo, dois anos antes), voltou-se a questionar a
repressão da ditadura militar que desmoronava, suas
perseguições, torturas, assassínios -- em torno de 15.000
pessoas desaparecidas. Depois da rápida passagem pelo governo do
general Reynaldo Bignone, a Unión Cívica Radical elegeu Raúl
Alfonsín, que conduziu o processo penal contra os ex-governantes
militares, condenados e presos.
Alfonsín,
no entanto, não conseguiu conter a inflação, que chegou a mil
por cento ao ano em 1985. O governo lançou então um plano
econômico de emergência, denominado Austral (nome da moeda que
substituiu o peso). Com a inflação novamente descontrolada, nas
eleições de 1989 a União Cívica Radical foi derrotada pelos
peronistas. O novo presidente, Carlos Saúl Menem, tomou posse em
julho daquele ano e desde logo promoveu cortes nos gastos
públicos e iniciou um programa de privatização de empresas
estatais. Essa política de estabilização teve a oposição dos
sindicatos e foi prejudicada pelo contínuo aumento da
inflação. Entretanto, em 1991 as medidas tomadas pelo ministro
da Economia, Domingo Cavallo, começaram a dar resultados
positivos e a lº de janeiro de 1992 o austral foi substituído
pelo novo peso. A estabilização econômica propiciou a
reeleição de Menem em 1995.
Instituições
políticas
A Argentina
é uma república federativa bicameral (Senado e Câmara dos
Deputados). Os partidos políticos acham-se devidamente
registrados. A constituição de 1853, que persistiu apesar de
inúmeras reformas, equilibrou o federalismo com um poder
executivo de alta centralização.
De 1949 a
1955 prevaleceu a constituição dita peronista, que alterava a
anterior com extensa legislação social e trabalhista e suprimia
a cláusula que vedava a reeleição imediata do presidente da
república. Tanto este como o vice-presidente são eleitos por
sufrágio universal e por um período de seis anos. O poder
judicial tem como representante máximo o Tribunal Supremo, com
magistrados escolhidos pelo presidente da república e
ratificados pelo Senado.
Administrativamente,
assim se divide o território argentino: 22 províncias; um
Distrito Federal, situado na cidade de Buenos Aires; e um
Território Nacional, composto pela Terra do Fogo, um segmento da
Antártica e ilhas do Atlântico Sul. Os governadores de
província são eleitos. Cada província tem sua constituição,
seu Parlamento e seu sistema judicial, que reportam aos poderes
centrais.
Sociedade
A
organização social argentina distingue-se por uma
característica muito particular no panorama latino-americano:
compõe-se predominantemente de uma classe média europeizada,
com mais de noventa por cento de católicos, padrão de vida e
qualificação profissional em progresso e um eficiente sistema
previdenciário e de saúde.
O espanhol
é o idioma oficial do país, mas sobrevivem algumas línguas e
dialetos indígenas. Como ocorreu em tantos outros países
hispano-americanos, o espanhol adquiriu, na Argentina, aspectos
bastante particulares. Provavelmente por influência do italiano,
aparenta maior flexibilidade e fluidez do que nas outras terras
de colonização espanhola. A língua indígena mais importante
é o guarani, falado na região da Mesopotâmia. Destacam-se
ainda o diaguita e dialetos araucanos. Em Buenos Aires, o
vocabulário popular incorporou palavras de origem italiana,
termos de gíria ligados às corridas de cavalos e ao tango e um
sotaque rural, dando origem ao lunfardo, que desfruta de grande
autonomia em relação ao espanhol.
Na passagem
da década de 1980 para a de 1990, a população argentina,
apesar das sucessivas crises econômicas e
político-administrativas, manteve uma taxa de mortalidade
infantil significativamente baixa para os padrões ainda
encontrados na América do Sul, sendo também superiores aos
desses outros países seus índices de expectativa de vida e de
consumo de calorias e proteínas per capita. Buenos Aires
continua sendo a capital e o eixo econômico do país, mas em
1987 o Congresso Nacional aprovou uma proposta do executivo para
mudança da capital para Viedma-Carmen de Patagones. (Para dados
sobre sociedade, ver DATAPÉDIA.)
Cultura
Literatura.
A literatura argentina é uma das mais importantes entre as
hispano-americanas. Sua riqueza baseia-se menos em grandes nomes
-- apesar de Sarmiento, Borges e Cortázar serem universalmente
conhecidos --, do que em sua estrutura interna. Assim como grande
parte da América espanhola, a Argentina sempre manteve
relações culturais muito intensas com a Europa, da qual
acompanhou todas as correntes e tendências. Esse europeísmo, no
entanto, foi historicamente contrabalançado por um forte
regionalismo, numa dialética que conviveu com outra ainda mais
acentuada: a rivalidade entre a capital cosmopolita e as
províncias rurais. A esses contrastes a Argentina deve a
diversidade de sua criação literária.
Origens.
Martín del Barco Centenera escreveu, em 1602, uma epopéia
denominada Argentina, que deu o nome à província. Luis de
Tejeda foi o primeiro poeta nascido na Argentina. Um século e
meio mais tarde, a Memória sobre el estado rural del río de La
Plata, do espanhol Félix de Azara, deu testemunho da pobreza e
do atraso da colônia. Em 1783 foram fundados em Buenos Aires o
primeiro jornal e o primeiro teatro, palcos da atividade
literária de Manuel José de Lavardén, pecuarista afeito a
leituras européias. Sua Oda al majestuoso río Paraná, na forma
dos classicistas espanhóis, é considerado o primeiro poema
genuinamente argentino.
A
revolução de 1810, pela qual a Argentina se tornou independente
da Espanha, produziu uma plêiade de poetas patrióticos. Juan
Cruz Varela, poeta oficial do presidente Rivadavia, traduziu
Virgílio e escreveu as tragédias Dido e Argia. Exilado no tempo
de Rosas, refugiou-se em Montevidéu. Sua ode El 25 de mayo de
1838 é o último poema argentino no estilo neoclassicista
espanhol. José María Paz, combatente cordobês contra os
rosistas, ofereceu, com suas Memorias póstumas, um quadro mais
realista da guerra contra Rosas que as diatribes e lamentações
de seus contemporâneos românticos.
Romantismo.
A queda do governo de Rivadavia e o início da ditadura de Rosas
coincidiram com a primeira grande importação literária para a
Argentina: o romantismo francês, por meio de Esteban
Etcheverría, autor do poema Elvira o la novia del Plata e de El
dogma socialista, programa dos românticos anti-rosistas
agrupados na Asociación de Mayo. José Mármol, também
perseguido pela ditadura de Rosas e exilado em Montevidéu e no
Chile, foi um dos primeiros românticos argentinos e tido como um
dos maiores poetas da "geração dos proscritos". No
romance Amalia, sua obra mais importante, entrelaça uma
história de amor à história da conspiração contra o ditador.
O maior dos
românticos argentinos, dentre os tantos que buscaram refúgio
nos países vizinhos contra a perseguição de Rosas, foi Domingo
Faustino Sarmiento, cuja obra Civilización y barbarie; vida y
obra de Juan Facundo Quiroga é, ao mesmo tempo, estudo
sociológico, manifesto político e biografia romanceada. Tão
grande estadista quanto escritor, Sarmiento foi o verdadeiro
vencedor na luta contra Rosas. Seu companheiro de exílio Juan
Bautista Alberdi, embora tenha participado da redação da
constituição de 1853, não integrou o governo Sarmiento e
passou o resto da vida entre o Chile e a Europa.
O novo
romantismo francês, representado por Victor Hugo, poeta da
burguesia liberal, inspirou a nova geração de poetas
românticos argentinos, em cuja obra apareciam também os
primeiros traços do parnasianismo à maneira de Leconte de
Lisle. Olegario Andrade, autor de poemas épicos que podem
parecer antiquados ao leitor moderno, foi considerado em sua
época o maior do continente americano no gênero. Carlos Guido y
Spano, cujas principais obras são Hojas al viento e Ecos
lejanos, foi precursor dos parnasianos. Na elegia Nenia, que
consta de todas as antologias de poesia hispano-americana,
lamenta a derrota do povo paraguaio.
A poesia
regionalista e patriótica cultivada por Rafael Obligado teria
escandalizado os românticos da Asociación de Mayo. Sua obra
mais festejada foi o poema Santos Vega, tradiciones argentinas. O
tema gauchesco é essencialmente cômico em Estanislao del Campo,
que o retoma magistralmente no poema Fausto, para descrever as
emoções de dois gauchos ao assistir a uma representação do
Fausto, de Gounod. José Hernández compôs Martín Fierro, o
mais original poema épico da literatura do novo continente e
possivelmente a maior obra da literatura argentina.
Naturalismo.
Os historiadores argentinos costumam falar numa numa geração
literária da década de 1880, a primeira, depois dos
românticos, a refazer o contato com a Europa e empreender uma
moderada oposição ao ambiente ainda provinciano. Seu mentor foi
Paul Groussac, imigrante de origem francesa e crítico severo da
produção científica e literária da Argentina de então.
Diretor da Biblioteca Nacional por um período, atacou sem
complacência todos os aspectos da vida argentina. Com Julián
Martel, pseudônimo de José María Miró, o naturalismo
inspirado em Zola ganhou seu primeiro autor na Argentina, que
publicou La Bolsa, uma sátira à Buenos Aires de seu tempo. O
último naturalista argentino é Roberto Payró, que superou as
limitações do dogma literário de Zola. Além de romances
históricos, escreveu contos publicados sob os títulos El
casamiento de Laucha, Pago chico e Divertidas aventuras del nieto
de Juan Moreira.
Modernismo.
A renovação radical da literatura argentina no início do
século XX ligou-se à prosperidade econômica do país, grande
exportador de carne e trigo para a Europa, e à imigração em
massa, sobretudo de italianos. Os latifundiários enriqueceram e
surgiu entre eles uma elite europeizada, sensível aos valores
artísticos. A imigração européia transformou Buenos Aires
numa metrópole cosmopolita, convulsionada por problemas sociais.
Nesse contexto, o nicaragüense Rubén Darío lançou a moda
poética do modernismo.
Leopoldo
Lugones, autor de Las montañas de oro e Los crepúsculos del
jardín, é tido como um dos grandes poetas e o maior dos
modernistas argentinos. Sua obra de vanguarda, ilustrada
principalmente pelos poemas de Lunario sentimental, sofreu uma
mudança radical em direção a uma temática regionalista e
patriótica, que acompanhou o giro à direita de suas
convicções políticas. Manuel Gálvez teve uma trajetória
política e literária semelhante à de Lugones. Antes de adotar
o catolicismo e o hispanismo conservador, escreveu romances
naturalistas como El mal metafísico e Historia de arrabal, que
caracterizam a Argentina moderna. Evaristo Carriego, pouco
admirado em vida, foi descoberto pelas gerações posteriores
como o grande poeta de Buenos Aires. Em Misas herejes, Viejos
sermones, El alma del suburbio e La canción del barrio reage ao
preciosismo e à grandiloqüência com uma poesia da vida
cotidiana, dos bairros e do tango.
Pós-modernismo.
O modernismo, que não teve raízes na mentalidade argentina,
revelou uma tendência a se transformar em poesia acadêmica e
oficial. Acadêmica é a poesia de Ricardo Rojas, também
crítico e historiador da literatura argentina; de Rafael Alberto
Arrieta e de Arturo Capdevila. O mestre do soneto parnasiano
Enrique Banchs, que publicou apenas quatro livros, é considerado
por alguns críticos como o maior lírico da literatura portenha.
A poesia subjetiva de Alfonsina Storni constitui um libelo contra
os preconceitos sociais e confere um traço original à poesia
erótica argentina. Baldomiro Fernández Moreno cantou a cidade
de Buenos Aires com perfeição parnasiana e foi prolífico em
sonetos, entre os quais se destaca pela originalidade o
"Soneto de tus vísceras".
Florida e
Boedo. Depois do final da primeira guerra mundial, a dissolução
dos valores tradicionais levou a cena literária argentina a um
enfrentamento protagonizado por dois grupos antagônicos. O
Florida, integrado por vanguardistas, estetas e conservadores,
teve como porta-voz as revistas Proa e Martín Fierro. Boedo, o
grupo dos realistas, jornalistas e socialistas, publicavam
Claridad. O maior nome do grupo Florida é Jorge Luis Borges,
autor de alguns dos mais impressionantes contos fantásticos da
literatura universal, mas cuja importância para a história da
literatura reside na poesia que domina a primeira fase de sua
carreira. Borges trouxe para a Argentina os processos poéticos
da vanguarda espanhola, introduzindo no país o movimento
ultraísta, nascido na Espanha e ligado ao dadaísmo francês. O
mais importante seguidor de Borges é Adolfo Bioy Casares,
romancista que reúne o gênero policial à ficção científica.
Outros membros do Florida foram Macedonio Fernández, Oliverio
Girondo e González Lanuza.
O grupo de
Boedo definiu-se mais pela tendência que pelo estilo. O
estudante Héctor Ripa Alberdi, líder da revolta estudantil de
1918, manifestou ainda em versos tradicionais o novo idealismo
vagamente socializante. Outros dos escritores mais conhecidos do
grupo foram Álvaro Yunque e Elías Castelnuovo, cujo desprezo
pela forma os deixou em desvantagem em relação ao grupo de
Florida. O maior dos escritores do Boedo foi, no entanto, Roberto
Arlt, influenciado pela crítica social dos escritores americanos
e pela leitura dos grandes autores russos.
Época
atual. Subsistem na literatura argentina contemporânea, sob
outros nomes, a influência dos grupos Florida e Boedo. Ricardo
Molinari, que pertenceu ao primeiro desses grupos, é um dos
grandes poetas da atualidade. O poema Juan Nadie, vida y muerte
de um compadre, de Miguel Etchebarne, foi proclamado por Borges a
realização total do ultraísmo argentino. A outros, no entanto,
o movimento parece definitivamente sepultado. Daniel Devoto
experimentou formas inovadoras, Antonio di Benedetto segue a
receita do nouveau roman francês e María Elena Walsh confessa a
influência de Rimbaud. Ernesto Sábato, intelectual e crítico,
cria personagens tipicamente argentinos que enreda em tramas
psicológicas de inspiração surrealista. Julio Cortázar, que
é discípulo literário de Borges, se encontra politicamente no
campo oposto. A alteração dos limites temporais e espaciais no
texto realista fez dele um dos renovadores da narrativa do
século XX, para a qual contribuiu com obras magistrais como
Rayuela e Libro de Manuel. O mais popular dos escritores
argentinos da atualidade talvez tenha sido Manuel Puig, que viveu
em Nova York, no Rio de Janeiro e no México. Alguns de seus
romances -- Boquitas pintadas, O beijo da mulher aranha -- foram
adaptados para cinema e teatro com grande êxito.
Artes
plásticas. Na arquitetura, como nas outras artes, os argentinos
procuram sua própria fisionomia. Do barroco espanhol e dos
edifícios de influência italiana ou francesa chegaram à
contemporaneidade de Amancio Williams que, a partir de Le
Corbusier, lançou as bases de um estilo urbano que refletia e
incorporava as características nacionais. Na pintura e na
escultura, os começos vêm igualmente da Europa, mas já na
segunda metade do século XIX a litografia de um Carlos Morel é
toda de inspiração nacional.
No início
do século XX essa fidelidade se acentua nas obras de Bernaldo de
Quirós e Fernando Fader, impressionistas, enquanto se assimilam
as novas técnicas e tendências. Nas últimas décadas, o
surrealismo do grupo Orión, a arte abstrata e a arte concreta
adquiriram expressões originais, particularmente nos trabalhos
de Tomás Maldonado e Raúl Soldi.
Música. O
tango é, talvez depois do jazz, a mais valiosa manifestação da
música popular urbana do século XX. Sua importância para
compositores como Stravinski, e a arte de Astor Piazzolla o
confirmam. Nos gêneros sistemáticos, a música argentina
principia com Francisco Hargreaves, autor de La gata blanca,
primeira ópera nacional.
O movimento
nacionalista surge pouco depois com Alberto Williams (Aires de la
pampa) e cresce com Julián Aguirre, Carlos López Buchardo,
Floro Ugarte, Manuel Gómez Carrillo, Constantino Gaito, Honorio
Siccardi. O Grupo Renovación representa a busca de novas
técnicas, destacando-se em seguida Roberto García Morillo,
Carlos Suffern, Roberto Caamaño, Antonio Tauriello e sobretudo,
Alberto Ginastera, internacionalmente reconhecido.
Cinema. O
cinema argentino desde seus primeiros passos trabalhou com a
cultura gaucha e portenha. Começou pelas mãos de um francês,
Eugenio Py, autor de documentários sobre o país. No decorrer do
século, com apoio oficial, tornou-se um dos mais significativos
dos países latino-americanos. Depois dos pioneiros Eugenio
Cardino e Mario Gallo, o primeiro sucesso popular foi o filme
Nobleza gaucha (1915), do trio Humberto Cairo, Eduardo Martínez
de la Pera e Ernesto Gunche, inspirados no poema Martín Fierro.
A maturidade
veio com as obras de Maglia Barth, Mario Soffici, Manuel Romero,
Luis Saslavski, Hugo del Carril, Leopoldo Torres Ríos. Do final
da década de 1950 em diante, Leopoldo Torre-Nilsson (filho de
Torres Ríos), Fernando Ayala, Fernando Solanas e outros
cineastas renovaram e aprofundaram os caminhos da arte
cinematográfica argentina, que ultimamente ainda produziu filmes
como Camila (1984) de María Luisa Bamberg e La historia oficial
(1985), de José Luis Puenzo.
Pensamento.
Os pensadores jesuítas da Universidade de Córdoba, no século
XVII, desenvolveram as idéias de Francisco Suárez e o
pensamento escolástico, que viriam a ter uma longa linha de
continuidade com as filosofias cristãs e neotomistas. No século
XVIII, difundiram-se as idéias do iluminismo europeu.
Montesquieu, Rousseau, Locke, Leibniz e Hume encontraram
seguidores como Cayetano Rodríguez e Elias del Carmen Pereira. A
influência francesa tornou-se mais acentuada depois da
independência, quando os argentinos se dispuseram a pesquisar a
natureza e as raízes filosóficas de sua nacionalidade.
O pensamento
argentino não se limitou a reproduzir e desenvolver os grandes
sistemas filosóficos europeus, mas imprimiu uma marca original
às idéias nascidas nas grandes metrópoles culturais. Esteban
Etcheverría foi a maior expressão nacional do pensamento
utópico; Domingo Faustino Sarmiento, do naturalismo; Juan
Bautista Alberdi, do empirismo e Carlos Astrada, do materialismo
dialético. Cabe mencionar o historiador da filosofia Rodolfo
Mondolfo, o evolucionista José Ingenieros e o personalista
Emilio Estiú.
Dentro da
atividade intelectual cumpre ainda destacar o importante trabalho
de pesquisa científica desenvolvido por argentinos,
especialmente na área da matemática (Rey Pastor e Enrique
Butti), da química (Luis Leloir, Prêmio Nobel de 1970), da
medicina (Bernardo Houssay, Prêmio Nobel de 1947, e mais Enrique
Finochietto e Gregorio Aráoz Alfaro) e da filosofia da ciência
(Mario Bunge).