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  Matérias :: Geografia :: Países

 
  Autoria: Gulherme


 

Argentina

 

A característica mais peculiar da Argentina é a convivência histórica entre a forte herança cultural européia e as tradições rurais e regionalistas. O poderio econômico da oligarquia latifundiária não impediu que o país conquistasse níveis de desenvolvimento próprios de nações do primeiro mundo. O alto grau de escolaridade da população, o nível da renda e o avanço e a diversificação da economia fazem dos argentinos um povo privilegiado entre os sul-americanos. Sua conturbada história política contemporânea e a dependência ao capital estrangeiro, no entanto, fecharam-lhe o caminho do pleno desenvolvimento.

 

A Argentina localiza-se na região meridional da América do Sul, na latitude do paralelo 22o ao 55o e na longitude do meridiano 54o ao 74o. São mais de 3.700km do extremo norte ao extremo sul, desde as proximidades do trópico de Capricórnio até o pólo sul, e mais de 1.400km de leste a oeste. Limita-se ao norte com a Bolívia; a nordeste com o Paraguai, pelas fronteiras naturais dos rios Pilcomayo, Paraguai e Paraná; a leste com o Brasil e o Uruguai, através do rio Uruguai, e com o oceano Atlântico, também limite de sudeste, em mais de 4.700km de litoral; e a oeste com o Chile, pela cordilheira dos Andes.

 

Segundo país da América do Sul em extensão territorial, depois do Brasil, a Argentina ocupa uma superfície de 2.780.400km2, excluindo-se os 12.200km2 das ilhas Malvinas (Falklands), ocupadas pelo Reino Unido. O país reivindica direitos de posse sobre as ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, também sob ocupação britânica, e sobre um trecho da Antártica.

 

Geografia física

 

Geologia e relevo. O território argentino estende-se longitudinalmente entre a cordilheira dos Andes e o oceano Atlântico. Caracteriza-se pela variedade de paisagens físicas resultantes da transição entre as zonas montanhosas do oeste e as planícies do leste.

 

A cordilheira dos Andes provém de movimentos orogênicos (fenômenos que determinam a formação de montanhas) do plioceno, no período quaternário. Avança pela Argentina com montanhas elevadas, que sustentam um vasto planalto semidesértico e cheio de depressões salinas, denominado Puna de Atacama, a três mil metros acima do nível do mar. Situam-se nessa região setentrional importantes maciços vulcânicos, entre os quais se destaca o Lulullaillaco, com 6.723m, um dos cumes mais altos do continente. Na direção leste, encontra-se a cordilheira Oriental, conjunto de serras elevadas, com neve eterna em seus picos mais altos, e em seguida situam-se as serras subandinas, que confinam com a província do Chaco.

 

Entre os Andes centrais, a oeste, e as serras de Córdoba e San Luis, a leste, abre-se um extenso vale, separado do território chileno pela cordilheira Principal, onde se encontram as maiores elevações, inclusive o ponto culminante de toda a América, o Aconcágua (6.959m), bem como os picos Mercedario (6.770m) e Tupungato (6.550m). Do paralelo 36o em diante, na direção do sul, os Andes se estreitam e perdem altura. Seu prolongamento na Patagônia apresenta raras elevações acima de 3.500m, como a do monte Mellizo, junto à Laguna Grande.

 

A leste dos Andes e ao norte da Patagônia, estende-se uma vasta planície de características variadas. Ao longo das bacias do Paraná e Paraguai, localiza-se o Chaco, região subtropical e arenosa, ligeiramente inclinada para sudeste. Em alguns pontos do nordeste (Misiones), afloram rochas areníticas e basálticas pertencentes ao escudo pré-cambriano brasileiro. O resto da região se acha coberto por sedimentos de diversas épocas, como o loess (depósitos quaternários de origem glacial), rico em calcário. A leste do Chaco, entre os rios Paraná e Uruguai, localiza-se a planície da Mesopotâmia argentina, que não apresenta unidade morfológica nem geológica. O principal elemento de seu relevo é a meseta Misionera, na província de Misiones e nordeste de Corrientes.

 

Entre o sopé dos Andes e o oceano Atlântico, ao sul do rio Salado e ao norte do Colorado, situa-se o Pampa, em todos os aspectos a paisagem mais representativa da Argentina. A vasta planície pampeana caracteriza-se pela horizontalidade. Compreende em sua composição sedimentar diversas eras geológicas. Seus solos são muito ricos (loess e limos muito espessos). Embora bastante homogêneo em sua topografia, o Pampa apresenta áreas mais onduladas, ganha altura nas serras do Tandill e Ventana e, no vale do rio Salado, mergulha em depressão tectônica. Abaixo do rio Negro e do golfo de San Matías, entrando na Patagônia, já não se pode falar de planície, mas de mesetas em que se sobrepõem sedimentos secundários e terciários que foram igualados no fim da era glacial.

 

Clima.

 

Grande parte do território argentino está situado na zona temperada do hemisfério sul. Verificam-se no país climas tropicais e subtropicais, áridos e frios, com combinações e contrastes diversos, resultantes das variações de altitude e outros fatores. Em quase todas as regiões da Argentina registram-se nevadas ocasionais, exceto no extremo norte, onde predomina um clima tropical. Nessa mesma área, os dias são quentes de outubro a março e frios e secos de abril a setembro.

Mais amenos são os índices predominantes no Pampa, úmido e fresco em sua parte oriental, nas províncias de Buenos Aires e La Pampa. Os verões, embora intensos, em Mar del Plata não ultrapassam uma média superior a 21o C. Mais seco para o lado do oeste e Mendoza, o clima do Pampa, nessa faixa, tem suas chuvas de verão rapidamente evaporadas.

 

Nas proximidades da cordilheira dos Andes, de noroeste até a serra do Payén, na província de Mendoza, verifica-se freqüente alternância de climas árido e semi-árido, este com maior expressão nos pontos mais altos da própria cordilheira. De quatro mil metros para cima, as precipitações são escassas e as temperaturas muito baixas, entre neves eternas. Na parte meridional dos Andes as chuvas são bastante favorecidas pelos ventos úmidos do Pacífico, que vencem a barreira descomunal e chegam às províncias do sul. As condições de umidade e temperatura levam à formação de geleiras.

 

De um modo geral, a Patagônia é de clima seco e frio, com fortes e constantes ventos soprados do oeste. Mais ao sul, na Terra do Fogo, os ventos são ainda mais fortes, a chuva e a neve, quase permanentes, e a temperatura cai a níveis muito baixos.

Hidrografia. Contam-se três redes hidrográficas em território argentino: a da vertente atlântica, que é a mais importante, a do Pacífico, na parte sul da cordilheira dos Andes, e as bacias endorréicas -- ou internas -- que ocupam um terço da superfície total do país.

 

Do lado do Atlântico, destaca-se o rio da Prata, nome que se dá ao estuário que é fruto do encontro dos rios Paraná e Uruguai com o oceano Atlântico. Tem mais de 300km de comprimento, largura que chega a 200km e descarga média de 23.300m3 por segundo, perdendo na América do Sul somente para a do Amazonas.

O rio Paraná é um dos 15 mais extensos do mundo e tem 1.800km em terras argentinas, sendo mais de 400 navegáveis (até Santa Fe). Seus afluentes mais importantes são, na margem direita, o Paraguai, o Salado e o Carcarañá, e na margem esquerda o Iguaçu, com o qual, na confluência que é ao mesmo tempo argentina, brasileira e paraguaia, forma as famosas cataratas, num arco de quatro mil metros.

 

O rio Paraguai só tem um pequeno trecho argentino, de margem direita, na fronteira das províncias de Chaco e Formosa com o Paraguai, mas juntamente com seus afluentes Pilcomayo e Bermejo inunda as planícies da região na época das chuvas, criando lagunas e banhados. Já o rio Uruguai marca as fronteiras de Misiones, Corrientes e Entre Rios com o Brasil (Rio Grande do Sul) e o Uruguai. Na maior parte desse percurso é navegável.

Muitos dos rios da vertente atlântica que correm na Patagônia, ou se dirigem para essa região, têm poucos afluentes, com o traço peculiar de irem perdendo parte de suas águas à medida que avançam. Os principais são o Colorado, o Negro (formado pelo Neuquén e Limay), o Chubut, o Deseado e o Chico, este nas imediações da Terra do Fogo.

 

No interior mais árido e plano são muitas as pequenas bacias hidrográficas que não chegam ao mar. No planalto de Atacama, de chuvas escassas e águas que provêm do degelo de altos picos da cordilheira, diversos rios têm curso intermitente ou desaparecem, quer nas lagoas, quer no meio de um dos numerosos salares, depósitos salinos comuns no oeste e sobretudo noroeste do país. Das planícies do Chaco, só conseguem sair o Pilcomayo, o Teuco e o Bermejo, que terminam no rio Paraguai, ou o Corrientes, que mergulha no Paraná. Muitos dos rios de importância econômica nos Pampas, por se prestarem a obras de irrigação, esgotam-se sob a intensa evaporação ou absorção pelos solos arenosos.

Mais ao sul, na província de Mendoza, há uma ampla bacia interna formada por rios e riachos que descem dos Andes e raramente chegam às províncias vizinhas de La Pampa e Neuquén. Por isso o lugar tem o nome de Desaguadero (Desaguadouro), mas outros há, parecidos, nos planaltos patagônicos. A vertente do Pacífico também tem início no segmento dos Andes que passa por Mendoza, entre os meridianos 30o e 35o: são cursos de água pequenos que começam no alto da cordilheira, atravessando o estreito território do Chile.

 

Bastante representativos da paisagem física argentina no sul dos Andes são os lagos e lagoas, mais de 400, alguns de grande beleza e interesse turístico, como o Nahuel Huapí, junto ao qual fica San Carlos de Bariloche, dentro de esplêndido parque nacional. Há ainda o Colhué Huapí e o Buenos Aires, na província de Chubut; na de Santa Cruz, o San Martín, o Argentino, o Cardiel, o Viedma; e, na Terra do Fogo, o Fagnano.

 

Flora e fauna.

 

Há uma grande diversidade de flora e fauna no território argentino, diretamente determinada pelas correspondentes diferenças de clima, solo e outras condições materiais. No norte da Mesopotâmia argentina, quente e úmido, predominam as matas subtropicais, em que se identificam espécies como o cedro, o ipê, a erva-mate, o pinheiro, as longas samambaias, bambus e cipós. Junto ao leito dos rios, essa vegetação se estende até a parte sul da planície mesopotâmica.

No Chaco, a paisagem mais constante é parecida com a do cerrado brasileiro, coberta de gramíneas e palmeiras esparsas. Destaca-se na parte mais chuvosa ou junto aos rios a ocorrência de quebracho, o principal item da exploração florestal do país, e outras madeiras úteis, como lapacho e urundaí. Áreas desérticas e semidesérticas encontram-se nos Andes, na Patagônia extra-andina e a sudoeste do Chaco. Paraíso das gramíneas, a região dos Pampas quase não tem árvores. No leste mais seco, chega a abrigar plantas especialmente adaptadas à aridez, compondo às vezes um matagal arbustivo intermitente.

 

A fauna argentina apresenta muitas das espécies características da América do Sul, embora menos variada que nas regiões tropicais. Há grande quantidade de aves, répteis e roedores. Entre os mamíferos estão a onça-pintada, a suçuarana, o gato-dos-pampas. Há raposas em várias regiões e, na mata subtropical, o macaco guariba é bastante encontrado, bem como a doninha, a anta, o tamanduá-bandeira, o tatu, diversas espécies de cervo e, nas regiões andinas, a lhama, a alpaca, a vicunha e o guanaco.

 

A ordem dos roedores é bem representada, com capivaras e vários tipos de coelho. Os répteis incluem a jibóia e peçonhentas como a cobra-coral e a cascavel, além de jacarés e lagartos. São particularmente numerosas as espécies de aves, de muitos papagaios e poucas emas e gansos selvagens, garças, gaviões e, no alto dos Andes, o condor. No extremo sul do país, a fauna do litoral gelado conta com muitas das espécies peculiares a essa paisagem, como os pingüins, as focas, os lobos-marinhos.

 

População

 

Ao contrário de quase todos os outros países da América do Sul, o europeu branco tornou-se o principal componente racial do povo argentino. A distribuição geográfica da população mostrou-se desigual, com uma concentração cada vez maior nas metrópoles litorâneas e nas regiões férteis do interior.

Havia poucos habitantes no país quando principiou a colonização espanhola. Alguns dos grupos indígenas existentes, sobre os quais ainda influía a civilização dos incas, ocupavam pequenas áreas das elevações dos Pampas, nas proximidades da cordilheira, nos vales dos rios Paraguai e Paraná. Eram os araucanos, guaranis e diaguitas, estes mais assemelhados aos quíchuas. A luta contra as belicosas tribos caçadoras e a escassa afluência de imigrantes mantiveram o crescimento demográfico em níveis relativamente baixos durante o período colonial. Quando o país proclamou sua independência da Espanha (1816), não tinha mais de 400.000 habitantes.

Da segunda metade do século XIX em diante, a Argentina passou a estimular ao máximo a mobilização de imigrantes europeus para ocupar suas regiões mais férteis. Em 1860 a população já subira para mais de 1.700.000 e meio século depois tinham chegado seis milhões de imigrantes, verificando-se o predomínio constante dos espanhóis e italianos, a que se juntava um contingente originário da própria América do Sul. Esse fluxo migratório foi além da segunda guerra mundial, mantendo-se até 1956.

 

De 1960 em diante a instabilidade política e os problemas econômicos alimentaram o processo inverso, levando muitos cidadãos argentinos a emigrarem para outros países. Apesar disso, a população em geral continuou crescendo, mas moderadamente, a uma taxa média anual de 1,5%. Além de Buenos Aires, tornaram-se importantes as cidades de Córdoba, Rosario, Mendoza e Mar del Plata, com grande concentração demográfica.

O índio e o negro praticamente desapareceram. Embora o elemento mestiço seja substancial nas províncias contíguas ao Chile, Bolívia e Paraguai, e haja comunidades de índios puros no noroeste do país, os centros populosos da Argentina, e em particular a capital, tornaram-se quase cem por cento brancos. No fim do século XX, o território argentino abrigava pouco mais de cem mil indígenas. (Para dados demográficos, ver DATAPÉDIA.)

 

Economia

 

A falta de uma sólida infra-estrutura industrial, a escassez de capitais, a exportação fundamentada no setor primário, os conflitos sociais e trabalhistas e a instabilidade política foram alguns dos empecilhos à prosperidade de um país que, se não é subdesenvolvido, apresenta aspectos próprios das economias do Terceiro Mundo.

Na segunda metade do século XIX, a Argentina registrou rápido desenvolvimento econômico, com a colonização do Pampa e o início das exportações. Todavia, a distribuição das terras entre grandes latifundiários e pequenos proprietários e a ausência de uma autêntica classe média agrária cercearam a renovação técnica da lavoura. A economia argentina tendia à estagnação e a uma excessiva dependência das flutuações do mercado internacional. Essas deficiências estruturais ficaram patentes a partir de 1930, quando os mercados americano e europeu se fecharam aos produtos agropecuários.

 

A estagnação econômica aprofundou-se depois da segunda guerra mundial, apesar dos esforços do governo para industrializar o país e minorar os efeitos da inflação crescente. A crise de 1958, a seca de 1962 e a alta nos preços do petróleo na década de 1970 agravaram ainda mais os problemas econômicos da nação. Houve tentativas para resolvê-los com planos de desenvolvimento agrícola e industrial, cujo êxito nem sempre foi o desejado. A exploração das jazidas petrolíferas a partir de 1967, o aumento na produção de energia hidrelétrica e a ampliação e aperfeiçoamento dos sistemas de irrigação foram algumas das principais conquistas da Argentina no plano econômico, na segunda metade do século XX.

 

Agricultura e pecuária. Com seus diferentes solos e condições climáticas, a Argentina pôde diversificar sua produção agrícola em culturas intensivas e adequadas às características de cada região. A meta principal tem sido a dos cereais. Faz-se ótima rotação, nos Pampas, de trigo e milho com linho e alfafa. Cultivam-se também o centeio, a cevada, a aveia e, na Mesopotâmia, o arroz.

 

Nas províncias de San Juan e Mendoza, cujos vales foram contemplados com expressivas obras de irrigação, desenvolveu-se variada fruticultura, que incluem vinhedos, olivais e diversas espécies cítricas, como o limão, a laranja e a toranja (grapefruit). Concentram-se nessas terras os melhores produtores de vinho, que o exportam para muitos países. Outras províncias em que se plantam frutas são Catamarca, La Rioja e Río Negro.

 

Em Misiones, as plantações são de chá e erva-mate, de alto consumo interno. A cana-de-açúcar, primordial na indústria de alimentos, é cultivada principalmente em Tucumán e, em proporções menores, nas províncias de Salta, Jujuy e Chaco. Nesta última também se tornam importantes outras culturas de notável valor industrial como a das sementes oleaginosas (soja, sorgo, girassol e linhaça) e a de fibras têxteis, especialmente linho e algodão, devendo-se ainda lembrar o tabaco, plantado também em Salta e Misiones.

 

Por muito tempo a pecuária foi a maior, se não única, riqueza dos argentinos. No século XVII constituía uma criação de subsistência e só se comercializava o couro. Quando se inventou e se começou a usar a técnica do charque, em meados do século XVIII, o país passou a exportar carne. No fim do século XIX, a seleção de espécies bovinas, o emprego de grandes frigoríficos e a ligação ferroviária dos centros criadores com os portos de Buenos Aires, Rosario e Bahía Blanca tornaram possível a exportação de carne bovina em grande quantidade, inclusive para os Estados Unidos e Reino Unido.

 

O mercado interno foi importante desde o início, pois a carne é tradicionalmente um dos componentes principais da alimentação argentina.

Embora disponha de matas que comportam, sem agressão ecológica, uma exploração equilibrada e potencialmente rentável, a Argentina ainda não desenvolveu a silvicultura, em grande parte devido à distância das fontes de matéria-prima em relação aos grandes centros. Na província de Misiones, o pinheiro, o cedro e o pau-rosa vêm sendo aproveitados no fabrico de celulose. Em Santiago del Estero, do quebracho se extrai madeira dura e tanino. Nas montanhas da Patagônia, o pinheiro e o lariço têm crescente utilização econômica.

A atividade pesqueira, de enorme potencial nas costas da Patagônia, é dificultada pela falta de mão-de-obra e de portos nessa região. Os hábitos alimentares da maior parte da população excluem quase completamente o consumo de pescado.

Minas e energia. A Argentina é rica em recursos minerais, que permanecem em grande parte inexplorados por falta de uma relação adequada entre as riquezas naturais e os meios dedicados a seu aproveitamento. O noroeste é a região em que se acham os centros de mineração mais importantes. Ali se extraem chumbo, estanho, zinco, ouro, prata, cobre, ferro, bismuto, tungstênio, volfrânio, manganês, amianto, além de gesso e sal. Entre os minerais não-metálicos, sabe-se de valiosos depósitos de cobalto, enxofre, tântalo e urânio. Há também importantes concentrações de ferro em Río Negro e outros pontos da Patagônia.

 

Com parcas jazidas de carvão no extremo sul de seu território, a Argentina, desde o princípio do século, teve bons resultados na extração de petróleo e gás natural. Seus lençóis de maior produtividade e potencial localizam-se nas províncias de Chubut (especialmente em Comodoro Rivadavia), Santa Cruz, Río Negro, Neuquén e Salta. A estatal do setor, Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), assumiu em 1922 o controle da produção do petróleo e de sua importação. Na década de 1980, o petróleo e seus derivados constituíam dez por cento das importações argentinas, embora durante esse período o crescimento da produção nacional caminhasse rapidamente para a auto-suficiência. Aumento ainda mais auspicioso vinha tendo a extração de gás natural, de procura cada vez maior na expansão do parque industrial e das comunidades urbanas. As jazidas de gás se acham junto aos lençóis petrolíferos e modernos gasodutos fazem sua ligação com Buenos Aires e Bahía Blanca.

Os rios que descem da fronteira oeste e grande extensão dos que cortam o nordeste argentino -- basicamente as bacias do Paraná e Uruguai -- encerram alto potencial hidrelétrico. As usinas existentes foram construídas na serra de Córdoba, no rio Uruguai e no Río Negro. Havia imensas represas em construção, em particular a da hidrelétrica de Yaceretá, em cooperação com o Paraguai, mas a maior parte da eletricidade do país, no início da década de 1990, provinha de usinas termelétricas. Nessa mesma época, a Argentina dispunha das maiores instalações de energia atômica da América Latina, na usina de Atucha.

 

Indústria.

 

Apesar dos problemas estruturais de sua economia, a Argentina destacou-se como um dos países mais industrializados da América do Sul, com grande potencial de desenvolvimento. Nas duas últimas décadas do século XIX, surgiram as primeiras fábricas, voltadas para o beneficiamento de produtos agropecuários destinados à exportação. Além disso, começou a construção das principais estradas de ferro e das instalações portuárias de Buenos Aires e de outras cidades do litoral atlântico.

Durante a primeira guerra mundial, enquanto a exportação de alimentos recebia novo impulso, a importação de manufaturados foi praticamente suspensa. Como no caso do Brasil, o fato representou poderoso estímulo para a expansão industrial, já que foi preciso substituir os bens de consumo até então importados por similares produzidos internamente. O processo encontrou graves obstáculos na crise de 1929, que afetou todo o mercado mundial e deu origem a um difícil período de estagnação da economia argentina por toda a década de 1930 até a segunda guerra mundial, que levou a um novo surto de exportação de alimentos e de industrialização.

No início da década de 1990, a indústria argentina de transformação, sobretudo alimentícia e têxtil, abrangia uma vasta relação de produtos, entre os quais se destacavam, pela quantidade e qualidade, açúcar, conservas de origem vegetal e animal, azeite de oliva, óleos vegetais, cerveja, vinho, álcool, fibras de algodão, lã e sintéticos.

 

Apesar do modesto desempenho das indústrias siderúrgica e metalúrgica argentinas, não diminuiu nos últimos anos a capacidade de produção das montadoras de automóveis, tratores e mesmo, em escala menor, veículos militares e aviões. Os maiores centros industriais, além de Buenos Aires, são Córdoba, Tucumán, Rosario, Mendoza, Salta e Jujuy. Um setor que tomou forte impulso graças à produção petrolífera nacional foi o da indústria química, representado por numerosas fábricas de medicamentos, fertilizantes, colas, ácido sulfúrico, metanol, etileno, propileno, soda cáustica e pneus. Também não podem ser esquecidos dois outros itens de expressão considerável, o cimento e o papel.

 

Comércio, turismo, finanças. As exportações argentinas são constituídas, fundamentalmente, de produtos agropecuários (cereais, frutas, verdura, forragem, óleos vegetais, manteiga, carne e derivados, couro e peles), mas na segunda metade do século XX observou-se uma crescente participação da indústria nessa atividade, particularmente no que diz respeito aos derivados de petróleo. Em contrapartida, o país tem uma pauta de importações que prioriza o próprio petróleo com que ainda complementa sua produção, matérias-primas industriais, produtos químicos, máquinas e veículos de transporte. Os parceiros mais importantes do comércio exterior argentino são a Comunidade Européia (CE), a Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), os Estados Unidos e a Comunidade de Estados Independentes (CEI).

 

A Argentina tem bancos estatais e particulares, um grande número de estabelecimentos cuja atividade se exerce sob controle do Banco Central, que também preserva as divisas estrangeiras e o lastro de ouro, além de emitir a moeda. Da década de 1960 em diante, o país enfrentou o aumento da inflação, que chegou a ultrapassar a marca dos mil por cento. Após um período de contínua desvalorização da moeda, o governo argentino criou o peso novo em 1970, equivalente a cem pesos antigos. Em 1983 houve outro ajuste monetário e um novo peso foi lançado, valendo dez mil do anterior. Em 1985 outro acerto se tornou premente e deu-se à moeda o nome de austral, com o valor de mil novos pesos. Dessa fase até o início da década de 1990 houve um período de relativa estabilidade, com a adição de programas econômicos de controle da inflação e de saneamento das finanças do estado.

 

Em abril de 1991, a lei de livre conversibilidade da moeda dolarizou a economia argentina, que experimentou a partir de então um significativo decréscimo do processo inflacionário. Sua intensidade ao longo de muitos anos, todavia, fez crescer e agravar-se outro pesado ônus da economia nacional: a dívida externa, uma das maiores do continente.

 

Transportes e comunicações. A hipertrofia urbana e a enorme centralização da metrópole portenha exerceram influência determinante no traçado original do sistema viário argentino, um dos mais extensos da América Latina. Em função do desenvolvimento agropecuário nos Pampas e no Chaco, essas regiões tiveram o privilégio de ótima comunicação com a capital federal, em detrimento de muitas paragens do sul ou dos Andes, que se mantiveram ilhadas.

 

As estradas de ferro começaram a ser implantadas no país em pleno século XIX, com capital e técnica estrangeiros, especialmente ingleses e franceses. A partir de 1947, o estado tornou-se responsável pela propriedade e conservação de toda a rede que chegava na década de 1990, a 35.000km, mais do que em qualquer outro país latino-americano, com destaque para a estrada de ferro que ligava Buenos Aires a Valparaíso, no Chile, através dos Andes.

 

A partir da segunda metade do século XX, com a produção automobilística, as estradas de rodagem aumentaram em quantidade e volume de tráfego, embora a rede ferroviária continuasse a ser utilizada para aproximadamente a metade do transporte de carga. Rodovias de primeira classe vão de Buenos Aires a Rosario, Córdoba, Tucumán, Bahía Blanca e Neuquén. A Argentina também se liga aos países limítrofes e ao resto do continente pela rodovia Pan-Americana.

 

A Argentina tem em Buenos Aires seu mais importante porto internacional e de cabotagem -- por mar e pelos rios --, vindo em seguida La Plata e Bahía Blanca. A navegação fluvial estende-se a mais de três mil quilômetros de distância do mar, pelos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e Negro, sendo seus respectivos portos principais Rosario, Santa Fe, Concepción, Formosa e Neuquén.

 

O transporte aéreo, de importância crescente, está a cargo de várias companhias nacionais (especialmente as Aerolíneas Argentinas) e estrangeiras. Os principais aeroportos internacionais são o de Ezeiza, a quarenta quilômetros de Buenos Aires, e o Aeroparque, no centro da capital.

 

A Argentina possui uma das mais extensas redes de telefonia da América Latina, a maior parte instalada em Buenos Aires. A Empresa Nacional de Telecomunicações realiza os serviços de comunicação internacional por satélite e é responsável pela renovação das redes de telegrafia e radiotelegrafia. (Para dados econômicos, ver DATAPÉDIA.)

 

História

 

Desde os começos da ocupação de seu território, em que o próprio pioneirismo parecia pautado por objetivos e atitudes conflitantes, a Argentina sempre viveu sua história com luta e inquietação, rivalidades regionais, divergência entre classes e facções. No meio dessas chamas politizou-se, adquiriu vigorosa combatividade social e perfil inconfundível como nação, mas até hoje tem problemas para se integrar em torno de uma perspectiva segura e de decidido projeto nacional.

 

Descobrimento e colonização. É difícil afirmar qual o primeiro navegador que pisou em terras argentinas. Pode ter sido o florentino Américo Vespúcio e podem ter sido portugueses. Foi em nome da coroa espanhola, porém, que se fez a comunicação oficial do descobrimento, sob a responsabilidade de Juan Díaz de Solís, que desembarcou (1516) em Candelaria (hoje Maldonado), descobrindo o mar Dulce ou de Solís, mais tarde rio da Prata. O navegador pereceu pouco depois com quase todos os seus homens, atacado -- e provavelmente devorado -- por guaranis. Uns poucos remanescentes chegaram ao Brasil, contando fantásticas histórias sobre o império de um rei branco onde haveria uma montanha repleta de prata. O relato, que lhe teria chegado pelos índios, por certo se referia aos incas, então ainda não conquistados.

 

Para portugueses e espanhóis, o portal daquele prodígio devia ser o "río de la Plata".

O território argentino, nessa época, era habitado por diversos povos indígenas, somando uma população que beiraria os 300.000. Os espanhóis tentaram utilizá-los como mão-de-obra, o que só chegou a dar certo com os que já se dedicavam à agricultura, no norte da Mesopotâmia e nas serras do noroeste. No entanto, no sul da Mesopotâmia, no Chaco, nos Pampas e na Patagônia, as tribos de caçadores mostraram-se hostis à colonização, opondo-lhe constante resistência.

 

Seis anos depois de Fernão de Magalhães descobrir o estreito que tomou seu nome e liga os oceanos Atlântico e Pacífico, o genovês Sebastiano Caboto entrou no estuário do Prata, fundou a fortaleza de Sancti Spiritus e, embora não achasse prata, teve novas informações sobre um vasto império a noroeste da região. Foi o ponto de partida para o interesse do imperador espanhol Carlos V, que confiou a colonização do território a Pedro de Mendoza. Este, em 3 de fevereiro de 1536, fundou o forte de Nuestra Señora Santa María del Buen Aire, núcleo inicial da cidade de Buenos Aires, logo abandonado (1541) aos índios que o atacavam. No ano seguinte seria fundada a cidade de Assunção (mais tarde capital do Paraguai), a partir da qual as terras argentinas passaram a ser colonizadas.

 

Com a conquista do império inca, as atividades econômicas da bacia do rio da Prata passaram à função de abastecer os trabalhadores da mineração no vice-reinado do Peru. Juan de Garay fundou Buenos Aires pela segunda vez em 1580, enquanto surgiam outros centros urbanos na rota para Assunção: Santiago del Estero (1553), Mendoza e San Juan (1562), Tucumán (1565), Córdoba e Santa Fe (1573), Salta (1582), Corrientes e Paraná (1588) e La Rioja (1591). A divisão e administração da terra sob o regime das encomiendas não deu bons resultados por falta de mão-de-obra habituada ao trabalho agrícola. A principal atividade econômica passou a ser a vaquejada, ou caça de gado selvagem, praticada pelos gaúchos (mestiços de espanhol e índio, nesses tempos de rara imigração). Os missionários jesuítas, a partir de 1585 e particularmente na província de Misiones, lançaram as bases da educação nacional.

O vice-reino do Peru em 1617 dividiu o governo do Paraguai e Rio da Prata em duas províncias -- de que Asunción e Buenos Aires se tornaram as capitais --, enquanto a de Tucumán viu-se palco de um choque permanente dos colonizadores (vindos do Chile e Peru) com os índios da região, a duras penas subjugados. Em 1776, do largo território que compreendia a atual Argentina, o Paraguai, o Uruguai e o sul da Bolívia, fez-se um vice-reino à parte, tendo Buenos Aires como capital. Foi seu primeiro grande impulso.

 

Com a legislação do Comércio Livre da Espanha e Índias (1778), a cidade passou a ter enorme movimento como porto, em negócios -- principalmente de couro -- com o Brasil, a Grã-Bretanha e a França. As vantagens assim auferidas pelo entreposto portenho alimentaram a rivalidade de outros pontos e províncias da futura nação.

Independência e unidade. Estimulados pela recente aliança franco-espanhola, os ingleses em 1806 tomaram Buenos Aires. A cidade foi reconquistada pelas tropas de Santiago Liniers, mas diante da evidente insuficiência das forças espanholas para defendê-la, seus moradores organizaram-se em milícias. Sob influência da revolução francesa, uma burguesia urbana esclarecida derrubou o vice-rei Rafael de Sobremonte, colocando Liniers em seu lugar. Era o tempo das guerras napoleônicas; Espanha e Portugal foram ocupados. Em Buenos Aires, a hora era propícia à "revolución de mayo": em 25 de maio, uma assembléia de notáveis (a que pertenciam Manuel Belgrano e Mariano Moreno) depôs o vice-rei, que na época era Baltasar Hidalgo de Cisneros, e elegeu presidente o tenente-coronel Cornelio Saavedra.

 

Não houve, ainda, declaração de independência. Esperava-se a normalização da situação na Espanha, com a restauração de Fernando VII. Entrementes, o país se dividia. A junta derrotou os insubordinados de Córdoba e do Alto Perú, mas encontrou dificuldades com o Paraguai e a Banda Oriental (mais tarde Uruguai), onde o patriota José Gervasio Artigas batia-se bravamente. A parte boliviana foi retomada (1811) pelo vice-reino do Peru.

 

Os anos seguintes foram difíceis, mas produtivos. Desentendiam-se federalistas e unitários, revolucionários e moderados, republicanos e realistas. Uma Assembléia Constituinte (1813) reconheceu a liberdade dos nascidos escravos, extinguiu os tributos pagos pelos índios, acabou com os títulos de nobreza, liberou a exportação de cereais, instituiu o escudo e o hino nacional e escolheu como bandeira a que Manuel Belgrano criara um ano atrás. Em 1814, Fernando VII restaurou a monarquia. Após algumas dissensões e obstáculos, o congresso reunido em Tucumán a 9 de julho de 1816 proclamou a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata.

 

   

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