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Argentina
A característica mais peculiar da Argentina é
a convivência histórica entre a forte herança cultural
européia e as tradições rurais e regionalistas. O poderio
econômico da oligarquia latifundiária não impediu que o país
conquistasse níveis de desenvolvimento próprios de nações do
primeiro mundo. O alto grau de escolaridade da população, o
nível da renda e o avanço e a diversificação da economia
fazem dos argentinos um povo privilegiado entre os
sul-americanos. Sua conturbada história política
contemporânea e a dependência ao capital estrangeiro, no
entanto, fecharam-lhe o caminho do pleno desenvolvimento.
A Argentina localiza-se na região meridional
da América do Sul, na latitude do paralelo 22o ao 55o e na
longitude do meridiano 54o ao 74o. São mais de 3.700km do
extremo norte ao extremo sul, desde as proximidades do
trópico de Capricórnio até o pólo sul, e mais de 1.400km de
leste a oeste. Limita-se ao norte com a Bolívia; a nordeste
com o Paraguai, pelas fronteiras naturais dos rios Pilcomayo,
Paraguai e Paraná; a leste com o Brasil e o Uruguai, através
do rio Uruguai, e com o oceano Atlântico, também limite de
sudeste, em mais de 4.700km de litoral; e a oeste com o
Chile, pela cordilheira dos Andes.
Segundo país da América do Sul em extensão
territorial, depois do Brasil, a Argentina ocupa uma
superfície de 2.780.400km2, excluindo-se os 12.200km2 das
ilhas Malvinas (Falklands), ocupadas pelo Reino Unido. O
país reivindica direitos de posse sobre as ilhas Geórgia do
Sul e Sandwich do Sul, também sob ocupação britânica, e
sobre um trecho da Antártica.
Geografia física
Geologia e relevo. O território argentino
estende-se longitudinalmente entre a cordilheira dos Andes e
o oceano Atlântico. Caracteriza-se pela variedade de
paisagens físicas resultantes da transição entre as zonas
montanhosas do oeste e as planícies do leste.
A cordilheira dos Andes provém de movimentos
orogênicos (fenômenos que determinam a formação de
montanhas) do plioceno, no período quaternário. Avança pela
Argentina com montanhas elevadas, que sustentam um vasto
planalto semidesértico e cheio de depressões salinas,
denominado Puna de Atacama, a três mil metros acima do nível
do mar. Situam-se nessa região setentrional importantes
maciços vulcânicos, entre os quais se destaca o
Lulullaillaco, com 6.723m, um dos cumes mais altos do
continente. Na direção leste, encontra-se a cordilheira
Oriental, conjunto de serras elevadas, com neve eterna em
seus picos mais altos, e em seguida situam-se as serras
subandinas, que confinam com a província do Chaco.
Entre os Andes centrais, a oeste, e as serras
de Córdoba e San Luis, a leste, abre-se um extenso vale,
separado do território chileno pela cordilheira Principal,
onde se encontram as maiores elevações, inclusive o ponto
culminante de toda a América, o Aconcágua (6.959m), bem como
os picos Mercedario (6.770m) e Tupungato (6.550m). Do
paralelo 36o em diante, na direção do sul, os Andes se
estreitam e perdem altura. Seu prolongamento na Patagônia
apresenta raras elevações acima de 3.500m, como a do monte
Mellizo, junto à Laguna Grande.
A leste dos Andes e ao norte da Patagônia,
estende-se uma vasta planície de características variadas.
Ao longo das bacias do Paraná e Paraguai, localiza-se o
Chaco, região subtropical e arenosa, ligeiramente inclinada
para sudeste. Em alguns pontos do nordeste (Misiones),
afloram rochas areníticas e basálticas pertencentes ao
escudo pré-cambriano brasileiro. O resto da região se acha
coberto por sedimentos de diversas épocas, como o loess
(depósitos quaternários de origem glacial), rico em
calcário. A leste do Chaco, entre os rios Paraná e Uruguai,
localiza-se a planície da Mesopotâmia argentina, que não
apresenta unidade morfológica nem geológica. O principal
elemento de seu relevo é a meseta Misionera, na província de
Misiones e nordeste de Corrientes.
Entre o sopé dos Andes e o oceano Atlântico,
ao sul do rio Salado e ao norte do Colorado, situa-se o
Pampa, em todos os aspectos a paisagem mais representativa
da Argentina. A vasta planície pampeana caracteriza-se pela
horizontalidade. Compreende em sua composição sedimentar
diversas eras geológicas. Seus solos são muito ricos (loess
e limos muito espessos). Embora bastante homogêneo em sua
topografia, o Pampa apresenta áreas mais onduladas, ganha
altura nas serras do Tandill e Ventana e, no vale do rio
Salado, mergulha em depressão tectônica. Abaixo do rio Negro
e do golfo de San Matías, entrando na Patagônia, já não se
pode falar de planície, mas de mesetas em que se sobrepõem
sedimentos secundários e terciários que foram igualados no
fim da era glacial.
Clima.
Grande parte do território argentino
está situado na zona temperada do hemisfério sul.
Verificam-se no país climas tropicais e subtropicais, áridos
e frios, com combinações e contrastes diversos, resultantes
das variações de altitude e outros fatores. Em quase todas
as regiões da Argentina registram-se nevadas ocasionais,
exceto no extremo norte, onde predomina um clima tropical.
Nessa mesma área, os dias são quentes de outubro a março e
frios e secos de abril a setembro.
Mais amenos são os índices predominantes no
Pampa, úmido e fresco em sua parte oriental, nas províncias
de Buenos Aires e La Pampa. Os verões, embora intensos, em
Mar del Plata não ultrapassam uma média superior a 21o C.
Mais seco para o lado do oeste e Mendoza, o clima do Pampa,
nessa faixa, tem suas chuvas de verão rapidamente
evaporadas.
Nas proximidades da cordilheira dos Andes, de
noroeste até a serra do Payén, na província de Mendoza,
verifica-se freqüente alternância de climas árido e
semi-árido, este com maior expressão nos pontos mais altos
da própria cordilheira. De quatro mil metros para cima, as
precipitações são escassas e as temperaturas muito baixas,
entre neves eternas. Na parte meridional dos Andes as chuvas
são bastante favorecidas pelos ventos úmidos do Pacífico,
que vencem a barreira descomunal e chegam às províncias do
sul. As condições de umidade e temperatura levam à formação
de geleiras.
De um modo geral, a Patagônia é de clima seco
e frio, com fortes e constantes ventos soprados do oeste.
Mais ao sul, na Terra do Fogo, os ventos são ainda mais
fortes, a chuva e a neve, quase permanentes, e a temperatura
cai a níveis muito baixos.
Hidrografia. Contam-se três redes
hidrográficas em território argentino: a da vertente
atlântica, que é a mais importante, a do Pacífico, na parte
sul da cordilheira dos Andes, e as bacias endorréicas -- ou
internas -- que ocupam um terço da superfície total do país.
Do lado do Atlântico, destaca-se o rio da
Prata, nome que se dá ao estuário que é fruto do encontro
dos rios Paraná e Uruguai com o oceano Atlântico. Tem mais
de 300km de comprimento, largura que chega a 200km e
descarga média de 23.300m3 por segundo, perdendo na América
do Sul somente para a do Amazonas.
O rio Paraná é um dos 15 mais extensos do
mundo e tem 1.800km em terras argentinas, sendo mais de 400
navegáveis (até Santa Fe). Seus afluentes mais importantes
são, na margem direita, o Paraguai, o Salado e o Carcarañá,
e na margem esquerda o Iguaçu, com o qual, na confluência
que é ao mesmo tempo argentina, brasileira e paraguaia,
forma as famosas cataratas, num arco de quatro mil metros.
O rio Paraguai só tem um pequeno trecho
argentino, de margem direita, na fronteira das províncias de
Chaco e Formosa com o Paraguai, mas juntamente com seus
afluentes Pilcomayo e Bermejo inunda as planícies da região
na época das chuvas, criando lagunas e banhados. Já o rio
Uruguai marca as fronteiras de Misiones, Corrientes e Entre
Rios com o Brasil (Rio Grande do Sul) e o Uruguai. Na maior
parte desse percurso é navegável.
Muitos dos rios da vertente atlântica que
correm na Patagônia, ou se dirigem para essa região, têm
poucos afluentes, com o traço peculiar de irem perdendo
parte de suas águas à medida que avançam. Os principais são
o Colorado, o Negro (formado pelo Neuquén e Limay), o
Chubut, o Deseado e o Chico, este nas imediações da Terra do
Fogo.
No interior mais árido e plano são muitas as
pequenas bacias hidrográficas que não chegam ao mar. No
planalto de Atacama, de chuvas escassas e águas que provêm
do degelo de altos picos da cordilheira, diversos rios têm
curso intermitente ou desaparecem, quer nas lagoas, quer no
meio de um dos numerosos salares, depósitos salinos comuns
no oeste e sobretudo noroeste do país. Das planícies do
Chaco, só conseguem sair o Pilcomayo, o Teuco e o Bermejo,
que terminam no rio Paraguai, ou o Corrientes, que mergulha
no Paraná. Muitos dos rios de importância econômica nos
Pampas, por se prestarem a obras de irrigação, esgotam-se
sob a intensa evaporação ou absorção pelos solos arenosos.
Mais ao sul, na província de Mendoza, há uma
ampla bacia interna formada por rios e riachos que descem
dos Andes e raramente chegam às províncias vizinhas de La
Pampa e Neuquén. Por isso o lugar tem o nome de Desaguadero
(Desaguadouro), mas outros há, parecidos, nos planaltos
patagônicos. A vertente do Pacífico também tem início no
segmento dos Andes que passa por Mendoza, entre os
meridianos 30o e 35o: são cursos de água pequenos que
começam no alto da cordilheira, atravessando o estreito
território do Chile.
Bastante representativos da paisagem física
argentina no sul dos Andes são os lagos e lagoas, mais de
400, alguns de grande beleza e interesse turístico, como o
Nahuel Huapí, junto ao qual fica San Carlos de Bariloche,
dentro de esplêndido parque nacional. Há ainda o Colhué
Huapí e o Buenos Aires, na província de Chubut; na de Santa
Cruz, o San Martín, o Argentino, o Cardiel, o Viedma; e, na
Terra do Fogo, o Fagnano.
Flora e fauna.
Há uma grande diversidade de
flora e fauna no território argentino, diretamente
determinada pelas correspondentes diferenças de clima, solo
e outras condições materiais. No norte da Mesopotâmia
argentina, quente e úmido, predominam as matas subtropicais,
em que se identificam espécies como o cedro, o ipê, a
erva-mate, o pinheiro, as longas samambaias, bambus e cipós.
Junto ao leito dos rios, essa vegetação se estende até a
parte sul da planície mesopotâmica.
No Chaco, a paisagem mais constante é
parecida com a do cerrado brasileiro, coberta de gramíneas e
palmeiras esparsas. Destaca-se na parte mais chuvosa ou
junto aos rios a ocorrência de quebracho, o principal item
da exploração florestal do país, e outras madeiras úteis,
como lapacho e urundaí. Áreas desérticas e semidesérticas
encontram-se nos Andes, na Patagônia extra-andina e a
sudoeste do Chaco. Paraíso das gramíneas, a região dos
Pampas quase não tem árvores. No leste mais seco, chega a
abrigar plantas especialmente adaptadas à aridez, compondo
às vezes um matagal arbustivo intermitente.
A fauna argentina apresenta muitas das
espécies características da América do Sul, embora menos
variada que nas regiões tropicais. Há grande quantidade de
aves, répteis e roedores. Entre os mamíferos estão a
onça-pintada, a suçuarana, o gato-dos-pampas. Há raposas em
várias regiões e, na mata subtropical, o macaco guariba é
bastante encontrado, bem como a doninha, a anta, o
tamanduá-bandeira, o tatu, diversas espécies de cervo e, nas
regiões andinas, a lhama, a alpaca, a vicunha e o guanaco.
A ordem dos roedores é bem representada, com
capivaras e vários tipos de coelho. Os répteis incluem a
jibóia e peçonhentas como a cobra-coral e a cascavel, além
de jacarés e lagartos. São particularmente numerosas as
espécies de aves, de muitos papagaios e poucas emas e gansos
selvagens, garças, gaviões e, no alto dos Andes, o condor.
No extremo sul do país, a fauna do litoral gelado conta com
muitas das espécies peculiares a essa paisagem, como os
pingüins, as focas, os lobos-marinhos.
População
Ao contrário de quase todos os outros países
da América do Sul, o europeu branco tornou-se o principal
componente racial do povo argentino. A distribuição
geográfica da população mostrou-se desigual, com uma
concentração cada vez maior nas metrópoles litorâneas e nas
regiões férteis do interior.
Havia poucos habitantes no país quando
principiou a colonização espanhola. Alguns dos grupos
indígenas existentes, sobre os quais ainda influía a
civilização dos incas, ocupavam pequenas áreas das elevações
dos Pampas, nas proximidades da cordilheira, nos vales dos
rios Paraguai e Paraná. Eram os araucanos, guaranis e
diaguitas, estes mais assemelhados aos quíchuas. A luta
contra as belicosas tribos caçadoras e a escassa afluência
de imigrantes mantiveram o crescimento demográfico em níveis
relativamente baixos durante o período colonial. Quando o
país proclamou sua independência da Espanha (1816), não
tinha mais de 400.000 habitantes.
Da segunda metade do século XIX em diante, a
Argentina passou a estimular ao máximo a mobilização de
imigrantes europeus para ocupar suas regiões mais férteis.
Em 1860 a população já subira para mais de 1.700.000 e meio
século depois tinham chegado seis milhões de imigrantes,
verificando-se o predomínio constante dos espanhóis e
italianos, a que se juntava um contingente originário da
própria América do Sul. Esse fluxo migratório foi além da
segunda guerra mundial, mantendo-se até 1956.
De 1960 em diante a instabilidade política e
os problemas econômicos alimentaram o processo inverso,
levando muitos cidadãos argentinos a emigrarem para outros
países. Apesar disso, a população em geral continuou
crescendo, mas moderadamente, a uma taxa média anual de
1,5%. Além de Buenos Aires, tornaram-se importantes as
cidades de Córdoba, Rosario, Mendoza e Mar del Plata, com
grande concentração demográfica.
O índio e o negro praticamente desapareceram.
Embora o elemento mestiço seja substancial nas províncias
contíguas ao Chile, Bolívia e Paraguai, e haja comunidades
de índios puros no noroeste do país, os centros populosos da
Argentina, e em particular a capital, tornaram-se quase cem
por cento brancos. No fim do século XX, o território
argentino abrigava pouco mais de cem mil indígenas. (Para
dados demográficos, ver DATAPÉDIA.)
Economia
A falta de uma sólida infra-estrutura
industrial, a escassez de capitais, a exportação
fundamentada no setor primário, os conflitos sociais e
trabalhistas e a instabilidade política foram alguns dos
empecilhos à prosperidade de um país que, se não é
subdesenvolvido, apresenta aspectos próprios das economias
do Terceiro Mundo.
Na segunda metade do século XIX, a Argentina
registrou rápido desenvolvimento econômico, com a
colonização do Pampa e o início das exportações. Todavia, a
distribuição das terras entre grandes latifundiários e
pequenos proprietários e a ausência de uma autêntica classe
média agrária cercearam a renovação técnica da lavoura. A
economia argentina tendia à estagnação e a uma excessiva
dependência das flutuações do mercado internacional. Essas
deficiências estruturais ficaram patentes a partir de 1930,
quando os mercados americano e europeu se fecharam aos
produtos agropecuários.
A estagnação econômica aprofundou-se depois
da segunda guerra mundial, apesar dos esforços do governo
para industrializar o país e minorar os efeitos da inflação
crescente. A crise de 1958, a seca de 1962 e a alta nos
preços do petróleo na década de 1970 agravaram ainda mais os
problemas econômicos da nação. Houve tentativas para
resolvê-los com planos de desenvolvimento agrícola e
industrial, cujo êxito nem sempre foi o desejado. A
exploração das jazidas petrolíferas a partir de 1967, o
aumento na produção de energia hidrelétrica e a ampliação e
aperfeiçoamento dos sistemas de irrigação foram algumas das
principais conquistas da Argentina no plano econômico, na
segunda metade do século XX.
Agricultura e pecuária. Com seus diferentes
solos e condições climáticas, a Argentina pôde diversificar
sua produção agrícola em culturas intensivas e adequadas às
características de cada região. A meta principal tem sido a
dos cereais. Faz-se ótima rotação, nos Pampas, de trigo e
milho com linho e alfafa. Cultivam-se também o centeio, a
cevada, a aveia e, na Mesopotâmia, o arroz.
Nas províncias de San Juan e Mendoza, cujos
vales foram contemplados com expressivas obras de irrigação,
desenvolveu-se variada fruticultura, que incluem vinhedos,
olivais e diversas espécies cítricas, como o limão, a
laranja e a toranja (grapefruit). Concentram-se nessas
terras os melhores produtores de vinho, que o exportam para
muitos países. Outras províncias em que se plantam frutas
são Catamarca, La Rioja e Río Negro.
Em Misiones, as plantações são de chá e
erva-mate, de alto consumo interno. A cana-de-açúcar,
primordial na indústria de alimentos, é cultivada
principalmente em Tucumán e, em proporções menores, nas
províncias de Salta, Jujuy e Chaco. Nesta última também se
tornam importantes outras culturas de notável valor
industrial como a das sementes oleaginosas (soja, sorgo,
girassol e linhaça) e a de fibras têxteis, especialmente
linho e algodão, devendo-se ainda lembrar o tabaco, plantado
também em Salta e Misiones.
Por muito tempo a pecuária foi a maior, se
não única, riqueza dos argentinos. No século XVII constituía
uma criação de subsistência e só se comercializava o couro.
Quando se inventou e se começou a usar a técnica do charque,
em meados do século XVIII, o país passou a exportar carne.
No fim do século XIX, a seleção de espécies bovinas, o
emprego de grandes frigoríficos e a ligação ferroviária dos
centros criadores com os portos de Buenos Aires, Rosario e
Bahía Blanca tornaram possível a exportação de carne bovina
em grande quantidade, inclusive para os Estados Unidos e
Reino Unido.
O mercado interno foi importante desde o
início, pois a carne é tradicionalmente um dos componentes
principais da alimentação argentina.
Embora disponha de matas que comportam, sem
agressão ecológica, uma exploração equilibrada e
potencialmente rentável, a Argentina ainda não desenvolveu a
silvicultura, em grande parte devido à distância das fontes
de matéria-prima em relação aos grandes centros. Na
província de Misiones, o pinheiro, o cedro e o pau-rosa vêm
sendo aproveitados no fabrico de celulose. Em Santiago del
Estero, do quebracho se extrai madeira dura e tanino. Nas
montanhas da Patagônia, o pinheiro e o lariço têm crescente
utilização econômica.
A atividade pesqueira, de enorme potencial
nas costas da Patagônia, é dificultada pela falta de
mão-de-obra e de portos nessa região. Os hábitos alimentares
da maior parte da população excluem quase completamente o
consumo de pescado.
Minas e energia. A Argentina é rica em
recursos minerais, que permanecem em grande parte
inexplorados por falta de uma relação adequada entre as
riquezas naturais e os meios dedicados a seu aproveitamento.
O noroeste é a região em que se acham os centros de
mineração mais importantes. Ali se extraem chumbo, estanho,
zinco, ouro, prata, cobre, ferro, bismuto, tungstênio,
volfrânio, manganês, amianto, além de gesso e sal. Entre os
minerais não-metálicos, sabe-se de valiosos depósitos de
cobalto, enxofre, tântalo e urânio. Há também importantes
concentrações de ferro em Río Negro e outros pontos da
Patagônia.
Com parcas jazidas de carvão no extremo sul
de seu território, a Argentina, desde o princípio do século,
teve bons resultados na extração de petróleo e gás natural.
Seus lençóis de maior produtividade e potencial localizam-se
nas províncias de Chubut (especialmente em Comodoro
Rivadavia), Santa Cruz, Río Negro, Neuquén e Salta. A
estatal do setor, Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF),
assumiu em 1922 o controle da produção do petróleo e de sua
importação. Na década de 1980, o petróleo e seus derivados
constituíam dez por cento das importações argentinas, embora
durante esse período o crescimento da produção nacional
caminhasse rapidamente para a auto-suficiência. Aumento
ainda mais auspicioso vinha tendo a extração de gás natural,
de procura cada vez maior na expansão do parque industrial e
das comunidades urbanas. As jazidas de gás se acham junto
aos lençóis petrolíferos e modernos gasodutos fazem sua
ligação com Buenos Aires e Bahía Blanca.
Os rios que descem da fronteira oeste e
grande extensão dos que cortam o nordeste argentino --
basicamente as bacias do Paraná e Uruguai -- encerram alto
potencial hidrelétrico. As usinas existentes foram
construídas na serra de Córdoba, no rio Uruguai e no Río
Negro. Havia imensas represas em construção, em particular a
da hidrelétrica de Yaceretá, em cooperação com o Paraguai,
mas a maior parte da eletricidade do país, no início da
década de 1990, provinha de usinas termelétricas. Nessa
mesma época, a Argentina dispunha das maiores instalações de
energia atômica da América Latina, na usina de Atucha.
Indústria.
Apesar dos problemas estruturais
de sua economia, a Argentina destacou-se como um dos países
mais industrializados da América do Sul, com grande
potencial de desenvolvimento. Nas duas últimas décadas do
século XIX, surgiram as primeiras fábricas, voltadas para o
beneficiamento de produtos agropecuários destinados à
exportação. Além disso, começou a construção das principais
estradas de ferro e das instalações portuárias de Buenos
Aires e de outras cidades do litoral atlântico.
Durante a primeira guerra mundial, enquanto a
exportação de alimentos recebia novo impulso, a importação
de manufaturados foi praticamente suspensa. Como no caso do
Brasil, o fato representou poderoso estímulo para a expansão
industrial, já que foi preciso substituir os bens de consumo
até então importados por similares produzidos internamente.
O processo encontrou graves obstáculos na crise de 1929, que
afetou todo o mercado mundial e deu origem a um difícil
período de estagnação da economia argentina por toda a
década de 1930 até a segunda guerra mundial, que levou a um
novo surto de exportação de alimentos e de industrialização.
No início da década de 1990, a indústria
argentina de transformação, sobretudo alimentícia e têxtil,
abrangia uma vasta relação de produtos, entre os quais se
destacavam, pela quantidade e qualidade, açúcar, conservas
de origem vegetal e animal, azeite de oliva, óleos vegetais,
cerveja, vinho, álcool, fibras de algodão, lã e sintéticos.
Apesar do modesto desempenho das indústrias
siderúrgica e metalúrgica argentinas, não diminuiu nos
últimos anos a capacidade de produção das montadoras de
automóveis, tratores e mesmo, em escala menor, veículos
militares e aviões. Os maiores centros industriais, além de
Buenos Aires, são Córdoba, Tucumán, Rosario, Mendoza, Salta
e Jujuy. Um setor que tomou forte impulso graças à produção
petrolífera nacional foi o da indústria química,
representado por numerosas fábricas de medicamentos,
fertilizantes, colas, ácido sulfúrico, metanol, etileno,
propileno, soda cáustica e pneus. Também não podem ser
esquecidos dois outros itens de expressão considerável, o
cimento e o papel.
Comércio, turismo, finanças. As exportações
argentinas são constituídas, fundamentalmente, de produtos
agropecuários (cereais, frutas, verdura, forragem, óleos
vegetais, manteiga, carne e derivados, couro e peles), mas
na segunda metade do século XX observou-se uma crescente
participação da indústria nessa atividade, particularmente
no que diz respeito aos derivados de petróleo. Em
contrapartida, o país tem uma pauta de importações que
prioriza o próprio petróleo com que ainda complementa sua
produção, matérias-primas industriais, produtos químicos,
máquinas e veículos de transporte. Os parceiros mais
importantes do comércio exterior argentino são a Comunidade
Européia (CE), a Associação Latino-Americana de Integração
(ALADI), os Estados Unidos e a Comunidade de Estados
Independentes (CEI).
A Argentina tem bancos estatais e
particulares, um grande número de estabelecimentos cuja
atividade se exerce sob controle do Banco Central, que
também preserva as divisas estrangeiras e o lastro de ouro,
além de emitir a moeda. Da década de 1960 em diante, o país
enfrentou o aumento da inflação, que chegou a ultrapassar a
marca dos mil por cento. Após um período de contínua
desvalorização da moeda, o governo argentino criou o peso
novo em 1970, equivalente a cem pesos antigos. Em 1983 houve
outro ajuste monetário e um novo peso foi lançado, valendo
dez mil do anterior. Em 1985 outro acerto se tornou premente
e deu-se à moeda o nome de austral, com o valor de mil novos
pesos. Dessa fase até o início da década de 1990 houve um
período de relativa estabilidade, com a adição de programas
econômicos de controle da inflação e de saneamento das
finanças do estado.
Em abril de 1991, a lei de livre
conversibilidade da moeda dolarizou a economia argentina,
que experimentou a partir de então um significativo
decréscimo do processo inflacionário. Sua intensidade ao
longo de muitos anos, todavia, fez crescer e agravar-se
outro pesado ônus da economia nacional: a dívida externa,
uma das maiores do continente.
Transportes e comunicações. A hipertrofia
urbana e a enorme centralização da metrópole portenha
exerceram influência determinante no traçado original do
sistema viário argentino, um dos mais extensos da América
Latina. Em função do desenvolvimento agropecuário nos Pampas
e no Chaco, essas regiões tiveram o privilégio de ótima
comunicação com a capital federal, em detrimento de muitas
paragens do sul ou dos Andes, que se mantiveram ilhadas.
As estradas de ferro começaram a ser
implantadas no país em pleno século XIX, com capital e
técnica estrangeiros, especialmente ingleses e franceses. A
partir de 1947, o estado tornou-se responsável pela
propriedade e conservação de toda a rede que chegava na
década de 1990, a 35.000km, mais do que em qualquer outro
país latino-americano, com destaque para a estrada de ferro
que ligava Buenos Aires a Valparaíso, no Chile, através dos
Andes.
A partir da segunda metade do século XX, com
a produção automobilística, as estradas de rodagem
aumentaram em quantidade e volume de tráfego, embora a rede
ferroviária continuasse a ser utilizada para aproximadamente
a metade do transporte de carga. Rodovias de primeira classe
vão de Buenos Aires a Rosario, Córdoba, Tucumán, Bahía
Blanca e Neuquén. A Argentina também se liga aos países
limítrofes e ao resto do continente pela rodovia
Pan-Americana.
A Argentina tem em Buenos Aires seu mais
importante porto internacional e de cabotagem -- por mar e
pelos rios --, vindo em seguida La Plata e Bahía Blanca. A
navegação fluvial estende-se a mais de três mil quilômetros
de distância do mar, pelos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e
Negro, sendo seus respectivos portos principais Rosario,
Santa Fe, Concepción, Formosa e Neuquén.
O transporte aéreo, de importância crescente,
está a cargo de várias companhias nacionais (especialmente
as Aerolíneas Argentinas) e estrangeiras. Os principais
aeroportos internacionais são o de Ezeiza, a quarenta
quilômetros de Buenos Aires, e o Aeroparque, no centro da
capital.
A Argentina possui uma das mais extensas
redes de telefonia da América Latina, a maior parte
instalada em Buenos Aires. A Empresa Nacional de
Telecomunicações realiza os serviços de comunicação
internacional por satélite e é responsável pela renovação
das redes de telegrafia e radiotelegrafia. (Para dados
econômicos, ver DATAPÉDIA.)
História
Desde os começos da ocupação de seu
território, em que o próprio pioneirismo parecia pautado por
objetivos e atitudes conflitantes, a Argentina sempre viveu
sua história com luta e inquietação, rivalidades regionais,
divergência entre classes e facções. No meio dessas chamas
politizou-se, adquiriu vigorosa combatividade social e
perfil inconfundível como nação, mas até hoje tem problemas
para se integrar em torno de uma perspectiva segura e de
decidido projeto nacional.
Descobrimento e colonização. É difícil
afirmar qual o primeiro navegador que pisou em terras
argentinas. Pode ter sido o florentino Américo Vespúcio e
podem ter sido portugueses. Foi em nome da coroa espanhola,
porém, que se fez a comunicação oficial do descobrimento,
sob a responsabilidade de Juan Díaz de Solís, que
desembarcou (1516) em Candelaria (hoje Maldonado),
descobrindo o mar Dulce ou de Solís, mais tarde rio da
Prata. O navegador pereceu pouco depois com quase todos os
seus homens, atacado -- e provavelmente devorado -- por
guaranis. Uns poucos remanescentes chegaram ao Brasil,
contando fantásticas histórias sobre o império de um rei
branco onde haveria uma montanha repleta de prata. O relato,
que lhe teria chegado pelos índios, por certo se referia aos
incas, então ainda não conquistados.
Para portugueses e
espanhóis, o portal daquele prodígio devia ser o "río de la
Plata".
O território argentino, nessa época, era
habitado por diversos povos indígenas, somando uma população
que beiraria os 300.000. Os espanhóis tentaram utilizá-los
como mão-de-obra, o que só chegou a dar certo com os que já
se dedicavam à agricultura, no norte da Mesopotâmia e nas
serras do noroeste. No entanto, no sul da Mesopotâmia, no
Chaco, nos Pampas e na Patagônia, as tribos de caçadores
mostraram-se hostis à colonização, opondo-lhe constante
resistência.
Seis anos depois de Fernão de Magalhães
descobrir o estreito que tomou seu nome e liga os oceanos
Atlântico e Pacífico, o genovês Sebastiano Caboto entrou no
estuário do Prata, fundou a fortaleza de Sancti Spiritus e,
embora não achasse prata, teve novas informações sobre um
vasto império a noroeste da região. Foi o ponto de partida
para o interesse do imperador espanhol Carlos V, que confiou
a colonização do território a Pedro de Mendoza. Este, em 3
de fevereiro de 1536, fundou o forte de Nuestra Señora Santa
María del Buen Aire, núcleo inicial da cidade de Buenos
Aires, logo abandonado (1541) aos índios que o atacavam. No
ano seguinte seria fundada a cidade de Assunção (mais tarde
capital do Paraguai), a partir da qual as terras argentinas
passaram a ser colonizadas.
Com a conquista do império inca, as
atividades econômicas da bacia do rio da Prata passaram à
função de abastecer os trabalhadores da mineração no
vice-reinado do Peru. Juan de Garay fundou Buenos Aires pela
segunda vez em 1580, enquanto surgiam outros centros urbanos
na rota para Assunção: Santiago del Estero (1553), Mendoza e
San Juan (1562), Tucumán (1565), Córdoba e Santa Fe (1573),
Salta (1582), Corrientes e Paraná (1588) e La Rioja (1591).
A divisão e administração da terra sob o regime das
encomiendas não deu bons resultados por falta de mão-de-obra
habituada ao trabalho agrícola. A principal atividade
econômica passou a ser a vaquejada, ou caça de gado
selvagem, praticada pelos gaúchos (mestiços de espanhol e
índio, nesses tempos de rara imigração). Os missionários
jesuítas, a partir de 1585 e particularmente na província de
Misiones, lançaram as bases da educação nacional.
O vice-reino do Peru em 1617 dividiu o
governo do Paraguai e Rio da Prata em duas províncias -- de
que Asunción e Buenos Aires se tornaram as capitais --,
enquanto a de Tucumán viu-se palco de um choque permanente
dos colonizadores (vindos do Chile e Peru) com os índios da
região, a duras penas subjugados. Em 1776, do largo
território que compreendia a atual Argentina, o Paraguai, o
Uruguai e o sul da Bolívia, fez-se um vice-reino à parte,
tendo Buenos Aires como capital. Foi seu primeiro grande
impulso.
Com a legislação do Comércio Livre da Espanha
e Índias (1778), a cidade passou a ter enorme movimento como
porto, em negócios -- principalmente de couro -- com o
Brasil, a Grã-Bretanha e a França. As vantagens assim
auferidas pelo entreposto portenho alimentaram a rivalidade
de outros pontos e províncias da futura nação.
Independência e unidade. Estimulados pela
recente aliança franco-espanhola, os ingleses em 1806
tomaram Buenos Aires. A cidade foi reconquistada pelas
tropas de Santiago Liniers, mas diante da evidente
insuficiência das forças espanholas para defendê-la, seus
moradores organizaram-se em milícias. Sob influência da
revolução francesa, uma burguesia urbana esclarecida
derrubou o vice-rei Rafael de Sobremonte, colocando Liniers
em seu lugar. Era o tempo das guerras napoleônicas; Espanha
e Portugal foram ocupados. Em Buenos Aires, a hora era
propícia à "revolución de mayo": em 25 de maio, uma
assembléia de notáveis (a que pertenciam Manuel Belgrano e
Mariano Moreno) depôs o vice-rei, que na época era Baltasar
Hidalgo de Cisneros, e elegeu presidente o tenente-coronel
Cornelio Saavedra.
Não houve, ainda, declaração de
independência. Esperava-se a normalização da situação na
Espanha, com a restauração de Fernando VII. Entrementes, o
país se dividia. A junta derrotou os insubordinados de
Córdoba e do Alto Perú, mas encontrou dificuldades com o
Paraguai e a Banda Oriental (mais tarde Uruguai), onde o
patriota José Gervasio Artigas batia-se bravamente. A parte
boliviana foi retomada (1811) pelo vice-reino do Peru.
Os anos seguintes foram difíceis, mas
produtivos. Desentendiam-se federalistas e unitários,
revolucionários e moderados, republicanos e realistas. Uma
Assembléia Constituinte (1813) reconheceu a liberdade dos
nascidos escravos, extinguiu os tributos pagos pelos índios,
acabou com os títulos de nobreza, liberou a exportação de
cereais, instituiu o escudo e o hino nacional e escolheu
como bandeira a que Manuel Belgrano criara um ano atrás. Em
1814, Fernando VII restaurou a monarquia. Após algumas
dissensões e obstáculos, o congresso reunido em Tucumán a 9
de julho de 1816 proclamou a independência das Províncias
Unidas do Rio da Prata.
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