Chile
A palavra
aimará chili, que significa "confins da Terra", deu
nome à república sul-americana do Chile, que se encontra
praticamente isolada do resto do continente pela grande muralha
dos Andes.
A República
do Chile é formada por uma estreita e longa faixa de terra
compreendida entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico.
Seus 756.626km2 se estendem ao longo de 39 graus de latitude, na
parte meridional da América do Sul. Limita-se ao norte com o
Peru, ao nordeste com a Bolívia, a leste com a Bolívia e a
Argentina, e a oeste com o oceano Pacífico. Além do território
continental, o Chile possui várias ilhas costeiras (Chiloé,
Wellington, Hanover, Santa Inês etc), a metade ocidental da
Terra do Fogo, o arquipélago Juan Fernández e as ilhas
polinésias de Páscoa, San Félix, San Ambrosio, Sala e Gómez,
as ilhas situadas ao sul do canal de Beagle e outras. Além
disso, reclama o território da Antártica localizado entre 53''
e 90'' de longitude oeste.
Geografia
física
Geologia e
relevo. Formado pela vertente ocidental da cordilheira andina, o
território chileno caracteriza-se por sua uniformidade
morfológica, com relevo geralmente acidentado, mas de estrutura
simples e bem ordenada em três grandes faixas longitudinais:
duas cadeias montanhosas e uma depressão central que as separa.
Essas três unidades morfológicas datam do período terciário,
quando o dobramento alpino elevou a cadeia dos Andes.
Na parte
oriental encontra-se a primeira faixa longitudinal do relevo.
Esse setor, formado pela cordilheira dos Andes (cuja parte
setentrional é denominada Domeyko), apresenta uma topografia
maciça e imponente. Desde sua formação, essa região
montanhosa é atingida por um vulcanismo quase permanente e por
freqüentes movimentos sísmicos. No centro e norte dos Andes
chilenos, os grandes vulcões, em atividade ou extintos (alguns
cobertos por geleiras), constituem as maiores altitudes da
cordilheira, como o pico Ojos del Salado (6.893m) e o monte de
Llullaillaco (6.723m). Em direção ao sul, a altura diminui até
dois mil metros na Terra do Fogo. A cordilheira se divide em
inúmeras ilhas, estreitas e largas onde, devido à latitude, a
ação dos gelos é muito acentuada. O relevo contínuo da
cordilheira dificulta o acesso; no norte, as passagens naturais
se localizam a altitudes próximas ou superiores a quatro mil
metros (passos de Socompa e San Francisco) e ao sul de Santiago
alguns vales transversais de origem glacial facilitam o acesso à
Patagônia argentina.
A segunda
faixa longitudinal também se estende de norte a sul aos pés da
cordilheira andina. Trata-se de uma depressão parcialmente
preenchida com aluviões e depósitos de vários detritos que
formam planícies estreitas e descontínuas, sobretudo nos pampas
desérticos do norte (deserto de Atacama, pampa do Tamarugal), e
no grande vale central que se estende entre Santiago e Puerto
Montt, e que inclui as bacias dos rios Maule e Bío-Bío.
Paralelamente
às duas faixas longitudinais anteriores, estende-se a
cordilheira da Costa, de altitude muito mais moderada que os
Andes. Sua altura também diminui de norte para sul, de três mil
metros da zona de Atacama a dois mil metros na região de
Santiago. Seu relevo perde continuidade na mesma direção: forma
blocos isolados que, ao sul de Puerto Montt, afloram na ilha de
Chiloé e em costas e arquipélagos bastante recortados. No
centro e norte, entre a cordilheira da Costa e as águas do
Pacífico, encontra-se uma faixa estreita de planícies costeiras
e de terraços marinhos que formam um litoral muito reto. Tal
fato se deve à disposição longitudinal do relevo que, não
penetrando transversalmente no oceano, impede a formação de
cabos e baías.
Clima.
Devido a sua extensão em latitude, o Chile apresenta todos os
climas característicos das regiões ocidentais dos continentes,
com exceção dos tropicais úmidos e polares.
No norte,
fica o deserto (puna) Atacama, onde Iquique tem uma temperatura
média anual de 18o C e registra precipitações ínfimas. A
partir dos 30o de latitude sul, o Chile central se caracteriza
por um clima mediterrâneo, com temperatura média anual de 14o C
e precipitações de 360mm, com acentuada seca estival. Em
direção ao sul ocorre uma queda de temperaturas e um aumento de
precipitações, graças à umidade trazida pelos ventos
oceânicos do sudoeste; Valdivia, cidade típica desse clima
temperado oceânico, apresenta temperatura média anual de 12o C
e precipitações de 2.510mm. O extremo sul do país, devido à
grande altitude, é dominado por um clima subpolar.
Essa
variedade climática é atenuada de um extremo ao outro do
território chileno pela influência moderadora do oceano
Pacífico, que, percorrido pela corrente marinha fria de
Humboldt, mantém relativamente baixas as temperaturas ao norte
do paralelo 40o. Assim, a diferença entre as temperaturas
médias anuais da fronteira peruana ao cabo Horn não vai além
de 15oC. No norte do país, as águas marinhas frias dão lugar
às neves costeiras permanentes conhecidas pelo nome de
camanchacas.
Nas regiões
montanhosas ocorrem climas de tundra e de altas montanhas acima
de quatro mil metros.
Hidrografia.
A pequena distância que existe entre a cordilheira dos Andes e o
oceano determina a configuração de uma rede hidrográfica de
rios curtos e pouco articulados (correm paralelamente uns aos
outros). O regime fluvial está diretamente relacionado com as
condições climáticas: os rios do norte são pouco caudalosos e
de regime muito irregular, devido à aridez do clima. O mais
importante é o Loa, o único que consegue desembocar no oceano.
Em direção ao sul, aumenta o número de cursos fluviais, bem
como o volume de suas águas, alimentado pela fusão das neves e
pelas chuvas cada vez mais abundantes; no centro e no sul do
país, destacam-se os rios Copiapó, Huasco, Limari, Maipo,
Bío-Bío, Valdivia e Maullín.
Flora e
fauna. No norte desértico, a umidade das névoas costeiras
permite o desenvolvimento de florestas de alfarrobeiras,
cactáceas e arbustos espinhosos. O clima mediterrâneo do Chile
central propicia a formação de uma estepe de acácias e
palmeiras chilenas mais densa que a correspondente aos climas
mediterrâneos da Europa; no vale central, cresce o copihue,
arbusto trepador cuja flor é típica do Chile. Em direção ao
sul, num ambiente muito mais úmido, erguem-se as densas
florestas de araucárias, carvalhos e faias, sobre uma densa
cobertura de pteridófitas. Finalmente, no extremo sul do país,
ocorre o domínio da tundra de tipo subpolar.
A lhama, a
alpaca, a vicunha, o puma, a chinchila e o huemul (um tipo de
veado), são alguns dos mamíferos mais característicos do
país, principalmente das regiões setentrionais e centrais. No
extremo meridional destaca-se o guanaco, de que se obtém uma lã
de excelente qualidade. O condor vive nos picos andinos, enquanto
que nas costas meridionais encontram-se focas, pingüins e
baleias.
População
Tipos
raciais e línguas. O Chile possui uma homogeneidade étnica
muito maior que a de outros países sul-americanos, pois no
período colonial não participou do tráfico de negros e também
porque, na segunda metade do século XIX, a imigração européia
(alemães, italianos, eslavos, franceses), nunca foi intensa, ao
contrário do que ocorreu na Argentina ou no Sul do Brasil.
A maior
parte da população chilena, aproximadamente 65%, é mestiça,
como resultado da mistura racial de índios e espanhóis durante
o período colonial. Vem em seguida a população branca, com
cerca de 25%, de origem européia, principalmente espanhola. O
grupo indígena tem a menor representação, com aproximadamente
dez por cento. Este último grupo é formado por três etnias
ameríndias: os araucanos, que ocupam os vales meridionais dos
Andes, ao sul do rio Bío-Bío; os fueguinos, na Terra do Fogo; e
os changos, que habitam a região litorânea do norte.
De um
extremo ao outro do país fala-se o espanhol, embora os grupos
indígenas mantenham suas línguas originais.
Estrutura
demográfica. É bastante alta a proporção de jovens na
população do Chile. O crescimento natural, embora elevado, é
menor que o dos outros países andinos e tende a diminuir devido
ao controle da natalidade.
A
distribuição da população no território é muito desigual. O
Chile central concentra a imensa maioria dos habitantes do país,
enquanto que os extremos norte e sul (deserto de Atacama e
Patagônia) são fracamente povoados devido à hostilidade do
meio ambiente. Além dessa concentração regional, ocorre uma
concentração urbana; cerca de três quartos da população
residem nas cidades, o que faz do Chile um dos países com grau
de urbanização mais elevado de toda a América Latina.
Cidades. A
região central do Chile conta com uma densa rede urbana, sem
equivalente no resto do país. Destacam-se três grandes cidades:
Concepción, Valparaíso e, sobretudo, Santiago, a capital do
país. No extremo meridional do Chile central, Concepción, com
seus anexos marítimos de Talcahuano, San Vicente e Huachipato,
forma uma conurbação cuja base econômica é a atividade
siderúrgica. Valparaíso constitui o porto de Santiago (a 140km
de distância), além de um centro de lazer e industrial
(refinarias de petróleo de Concón). Entretanto, Santiago é,
incontestavelmente, a metrópole do Chile central e de todo o
país. Sua área metropolitana, que abriga um terço da
população do vale central, concentra mais da metade das
indústrias de toda a nação.
No norte do
país, a cidade mais importante é Antofagasta, capital da
desértica região do mesmo nome, de cujo porto sai o minério de
cobre. Finalmente, no extremo sul do país, encontra-se Punta
Arenas, a cidade mais austral do mundo. Punta Arenas foi uma
escala importante para a navegação entre o Pacífico e o
Atlântico antes da abertura do canal do Panamá, mas depois se
transformou em centro de comercialização da lã e da carne
produzidas na região sul. (Para dados demográficos, ver
DATAPÉDIA.)
Economia
Agricultura,
pecuária, pesca e recursos florestais. Em meados do século XX,
o Chile, que até então fora exportador de produtos agrícolas,
transformou-se em importador, uma vez que a produção já não
atendia às necessidades internas. São várias as causas dessa
crise da agricultura: sistemas tradicionais de cultivo; uma
estrutura de propriedade fundiária polarizada entre latifúndios
e minifúndios, com propriedades médias pouco extensas; e
absenteísmo de muitos proprietários de terras.
Além disso,
ao lado das inadequadas estruturas de propriedade agrária, o
meio físico representa um obstáculo para o desenvolvimento das
atividades agrícolas na maior parte do território chileno, pois
apenas 15% do solo é cultivável. Dessa percentagem, quase
metade corresponde ao Chile central. No norte só é possível o
cultivo de alguns trechos, por meio de irrigação, enquanto que
o sul do país (Patagônia) é domínio quase exclusivo da
pecuária extensiva.
O primeiro
lugar na produção agrária cabe aos cereais: trigo,
principalmente, mas também aveia, cevada, milho e arroz. As
frutas (maçãs, ameixas, pêssegos e cítricos) seguem-se aos
cereais pelo volume de produção. Os vinhedos, introduzidos
pelos espanhóis, ocupam grandes extensões na região de
Santiago e são a base da segunda indústria vinícola
latino-americana depois da Argentina. Outras culturas de menor
importância são as leguminosas (feijão, lentilhas e ervilhas)
e as batatas. Dentre as culturas de aproveitamento industrial
destaca-se a beterraba açucareira.
A pecuária
constitui a base econômica da zona meridional. Pelo número de
cabeças destaca-se o rebanho bovino. O ovino, segundo em
importância, fornece lã para a exportação; metade desse gado
se encontra na Patagônia oriental, onde pasta em imensas
fazendas. A produção nacional de carne (ovina, bovina e
suína), não atende à demanda total, complementada por
importações da Argentina.
A
piscosidade das águas territoriais do Chile permitiu o
desenvolvimento de uma importante indústria pesqueira. Os portos
de pesca mais importantes são os de Arica e Iquique. Dentre as
espécies capturadas destacam-se a enchova, a sardinha, o atum e
os mariscos.
O Chile
conta com grandes recursos florestais nas regiões situadas ao
sul do rio Bío-Bío. A floresta natural de araucária, carvalho
e faia é objeto de uma exploração madeireira que atende às
necessidades da marcenaria e da construção, produzindo
excedente para exportação. Tem sido fomentado o reflorestamento
com pinheiros, que abastecem as indústrias de celulose e papel.
Energia e
mineração. A principal fonte de energia é a hidrelétrica,
produzida pelos torrenciais cursos d'água do Chile central. As
instalações da Empresa Nacional de Eletricidade localizam-se em
Chapiquiña, El Sauzal, Los Cipreses, Abanico etc. O petróleo é
extraído nas províncias de Magallanes e Tierra del Fuego,
porém a modesta produção obriga o país à importação.
Desde o
século XIX, os recursos minerais constituem a base da economia
chilena. Inicialmente, foi o nitrato de sódio, conhecido
comercialmente como salitre do Chile, e depois o cobre, de que o
país é um dos maiores produtores mundiais.
No Chile, o
nitrato natural só é encontrado no deserto de Atacama. Desde o
final do século XIX, a exportação desse mineral foi a
principal fonte de recursos do país. Depois da primeira guerra
mundial, a queda da demanda e, sobretudo, a fabricação de
nitratos sintéticos na Alemanha e nos Estados Unidos, provocaram
uma forte crise na exportação do salitre do Chile, que não
podia competir com o preço baixo dos produtos sintéticos.
A queda do
nitrato foi compensada pela crescente importância do cobre. O
Chile possui um quarto das reservas mundiais desse mineral. As
principais minas são as de El Teniente (Rancagua), Chuquicamata
(Antofagasta), Potrerillos (Copiapó), El Salvador e Río Blanco.
A exploração estava nas mãos de empresas americanas, empresas
médias chilenas e mineiros particulares (garimpeiros), mas foi
nacionalizada na segunda metade do século XX.
O subsolo
chileno possui ainda reservas de ferro, ouro, prata, manganês,
mercúrio e enxofre.
Indústria.
O Chile é um dos países mais industrializados da América do
Sul, ao lado do Brasil e da Argentina. Entretanto, sua indústria
não tem conseguido atender às necessidades do mercado nacional.
Embora a partir da década de 1960 tenha sido iniciada uma
política de descentralização, o Chile central continua a
concentrar a maior parte das instalações industriais.
A
siderurgia, instalada em grandes complexos em Huachipato e
Talcahuano, fornece produtos semi-acabados às indústrias
automobilística e naval. A indústria química, que teve início
com a produção de adubos nitrogenados, diversificou-se, e a
petroquímica atingiu grande importância em Concón e
Talcahuano.
Entre as
indústrias de bens de consumo, destaca-se a têxtil, que se
localiza em Concepción, Valparaíso e Santiago. As indústrias
alimentícias são muito variadas, com destaque para as de
carnes, farinhas, laticínios, conservas e bebidas alcoólicas.
Comércio
exterior. A balança comercial, tradicionalmente deficitária,
tendeu ao equilíbrio e mesmo ao superávit na década de 1908.
Nas exportações predominam os produtos minerais (encabeçados
pelo cobre). Também são importantes as vendas de frutas e
verduras, farinha de peixe, papel e derivados de papel. A pauta
de importações compreende produtos alimentícios (açúcar,
banana, chá), equipamentos, veículos motorizados, petróleo e
manufaturas.
O Chile
mantém intensas relações comerciais com Japão, Alemanha,
Reino Unido, Argentina, Brasil e, principalmente, com os Estados
Unidos, país com o qual tem vínculos tanto no plano comercial
como no financeiro.
Transportes.
O desenvolvimento da infra-estrutura rodoviária tem sido
dificultado pela configuração do relevo e também pela pouca
uniformidade da distribuição demográfica.
A rede
rodoviária, que praticamente não chega ao sul do país,
organiza-se em torno de uma artéria principal, a pan-americana,
que parte de Puerto Montt em direção ao norte. A rodovia
transandina liga o Chile à Argentina pelo passo de La Cumbre
(3.832m), que permanece intransitável durante cinco meses por
ano.
O sistema
ferroviário é um dos melhores da América do Sul, embora as
diferentes bitolas sejam um grave problema. As principais vias
transandinas ligam-se à Argentina (Los Andes-Mendoza e
Valparaíso-Santiago-Antofagasta-Salta) e com a Bolívia
(Arica-La Paz).
A
insuficiência de transporte terrestre é compensada pela grande
importância da aviação e do transporte marítimo, tanto nas
comunicações internas como nas externas. O porto de Valparaíso
apresenta movimento de importações, enquanto os de Iquique,
Tocopilla, Huasco, Chañaral e Coquimbo dão saída às
exportações de minerais. Os principais aeroportos encontram-se
em Santiago, Valparaíso, Arica, Antofagasta e Punta Arenas.
(Para dados econômicos, ver DATAPÉDIA.)
História
Antes da
chegada dos espanhóis, o território chileno era habitado por
cerca de 500.000 índios. Embora os diversos povos tivessem entre
si relação étnica e lingüística, as tribos do norte
(atacamenhos e diaguitas) apresentavam maior desenvolvimento
cultural, devido ao contato que mantinham com o império inca. Ao
sul do rio Bío-Bío viviam os indomáveis araucanos, que
resistiram durante séculos à colonização.
Conquista
espanhola. Em 1520, Fernão de Magalhães avistou as terras
chilenas durante sua viagem de circunavegação. Diego de
Almagro, colaborador de Francisco Pizarro, obteve autorização
de Carlos V (I de Espanha), para dirigir-se ao sul, em busca do
"outro Peru". Sua primeira expedição regressou
decepcionada por não ter encontrado metais preciosos. Em 1540,
depois da morte de Almagro, Pedro de Valdivia, à frente de 150
espanhóis, deu início à colonização da região. Em 1541
fundou Santiago, depois de ter tomado posse do território de
Nueva Extremadura (Copiapó). A vida na nova colônia foi muito
difícil, devido à resistência dos índios.
Em 1550,
pacificada a região, Valdivia prosseguiu sua marcha em direção
ao sul. Nesse mesmo ano fundou a cidade de Concepción. Três
anos depois, o avanço foi impedido pela oposição dos
araucanos, que, liderados pelo cacique Lautaro, capturaram e
mataram Valdivia. Começava assim uma sangrenta guerra que se
prolongaria até o final do século XIX, quando os índios foram
definitivamente subjugados. Apesar dessas dificuldades, a
colonização não se deteve. No final da década de 1550,
durante o governo de García Hurtado de Mendoza, terminou a
conquista do território chileno até o limite meridional do rio
Bío-Bío. Nos últimos anos do século XVI, a costa chilena foi
saqueada por piratas como Francis Drake, que, protegidos pela
coroa britânica, tentavam romper o monopólio comercial do
império espanhol.
Período
colonial. A falta de metais preciosos obrigou os colonizadores a
se dedicarem à agricultura. Dentro do império, o Chile era uma
colônia pobre, sem recursos minerais e nem mesmo comércio, e
por isso a coroa tinha de destinar-lhe recursos econômicos para
manutenção do governo e do exército. Essa ausência de
atrativos explica que, no final do século XVI, não houvesse
mais que cinco mil espanhóis na colônia.
Administrativamente,
o Chile fazia parte do vice-reino do Peru. Dentro da colônia, o
capitão-geral detinha o poder absoluto sobre a população,
embora, teoricamente, fosse possível apelar ao vice-rei ou ao
rei da Espanha.
Da mesma
forma que em outras partes do império espanhol na América, no
Chile ocorreu intensa mistura de índios com brancos, o que
explica a homogeneidade étnica de sua população. Ao final do
período colonial, havia uns 300.000 mestiços, 175.000 brancos
(espanhóis e crioulos) e 25.000 negros, na maioria escravos. A
estrutura social se apoiava na divisão racial: os espanhóis e
crioulos ocupavam os postos mais importantes; mais abaixo estavam
os mestiços e índios; e os trabalhos mais duros eram destinados
aos negros.
A
população se concentrou no denominado "berço da nação
chilena", ao longo do vale do Aconcágua, e entre Santiago e
Concepción. Nessas regiões praticava-se uma agricultura
cerealista, com utilização de mão-de-obra indígena. Os
morgadios, concedidos a membros da nobreza espanhola, foram
estabelecidos nas melhores terras do país, o que deu origem à
posterior estrutura da propriedade fundiária. A colônia viveu
muito isolada do resto do império; o primeiro jornal foi fundado
pouco antes da independência, assim como a Real e Pontifícia
Universidade de San Felipe, em Santiago.
Luta pela
independência. Apesar do isolamento em que vivia a colônia, os
acontecimentos do final do século XVIII e princípio do XIX
favoreceram a formação de uma consciência nacional. Dentre
esses acontecimentos destacam-se a independência das colônias
anglo-americanas e do Haiti, a revolução francesa e o
enfraquecimento da metrópole, que se revelou na invasão
britânica do vice-reino da Prata, a intensificação do
contrabando comercial e a ocupação da Espanha pelas tropas
napoleônicas.
Em 1810,
depois de reunir-se em Santiago um cabildo aberto constituído
pelos representantes dos grupos privilegiados, formou-se um
governo provisório composto por líderes locais. Entre 1810 e
1813, esse governo realizou importantes reformas, como a
proclamação da liberdade comercial e o estímulo à educação.
Entretanto, logo surgiram dissensões entre os crioulos com
relação à extensão das reformas. Enquanto isso, a Espanha,
que em 1813 expulsara os franceses de seu território, deu
início à recuperação do controle sobre as colônias. Em
outubro de 1814, depois da derrota dos patriotas em Rancagua, o
Chile retornou ao domínio espanhol.
Os líderes
da independência tiveram que se exilar. Na Argentina, Bernardo
O'Higgins conseguiu o apoio de José de San Martín, que, ajudado
pelo governo revolucionário de Buenos Aires, estava recrutando
um exército para libertar o cone sul hispano-americano. Além
disso, no interior do país crescia o descontentamento com o
governo da colônia. Em janeiro de 1817, aproveitando o clima
interno adverso, San Martín e O'Higgins atravessaram os Andes e,
em 12 de fevereiro, derrotaram os realistas em Chacabuco. San
Martín renunciou ao poder e O'Higgins se transformou no chefe
supremo do novo país.
Em fevereiro
de 1818, foi proclamada a independência e, em abril, depois da
batalha de Maipú, os espanhóis abandonaram o país, embora
ainda tenham permanecido na ilha de Chiloé até 1826.
O Chile
tinha conseguido a independência, mas não a paz. Os crioulos
estavam divididos entre os partidários de José Miguel Carrera
(que estivera no poder entre 1811 e 1813), e os de O'Higgins. A
partir de 1822, com a saída dos espanhóis do Peru e o
afastamento da possibilidade de uma invasão realista,
intensificou-se a oposição a O'Higgins, que culminou com seu
afastamento do poder um ano depois. Entre 1823 e 1830, a
política chilena esteve dominada pela luta entre diversas
facções para conquistar o poder. Esse fato redundou na
existência de trinta governos em sete anos. O caos político
terminou em 1829, quando os conservadores, com o apoio de parte
do Exército, nomearam uma junta presidida por José Tomás de
Ovalle, embora o poder tenha sido exercido de fato por Diego
Portales.
Governo
conservador. A partir de 1830, a oligarquia crioula dominou o
país. A constituição de 1883, promovida por Diego Portales,
criou um sistema político centralizado, que atendia aos
interesses dos proprietários de terras. O governo se viu
fortalecido depois da vitória na guerra contra a confederação
peruano-boliviana (1836-1839).
Os governos
de Joaquín Prieto (1831-1841), Manuel Bulnes (1841-1851) e
Manuel Montt (1851-1861) esforçaram-se por melhorar a situação
econômica e, sobretudo, sanear as finanças, exauridas depois de
anos de guerra. A primeira medida para aumentar os recursos foi
abrir o Chile ao comércio internacional: Valparaíso se
transformou em porto livre, para atrair os comerciantes
estrangeiros. A boa conjuntura favoreceu a expansão econômica,
que abrangeu a exportação de cereais para as zonas auríferas
da Califórnia e da Austrália, e o aumento da produção de
prata e cobre, que era absorvida pela Europa.
A
estabilidade política e a prosperidade econômica permitiram que
tivesse início a modernização do país, impulsionada pela
construção de estradas de ferro e criação de universidades. O
progresso econômico, porém, foi acompanhado de uma autêntica
desnacionalização das riquezas. Tanto o controle do comércio
como a exploração das minas passaram para mãos britânicas,
francesas, alemãs e americanas, devido ao pouco interesse da
oligarquia chilena por qualquer atividade econômica além da
compra de terras.
Como
conseqüência do desenvolvimento econômico, surgiu uma nova
classe, a burguesia nacional, que tentou participar da vida
política. A resistência dos proprietários de terras à
divisão do poder levou as classes médias a lançar mão da via
insurreicional, com um frustrado golpe de estado em 1851. Ao
mesmo tempo, o liberalismo começou a ganhar terreno entre os
jovens integrantes da oligarquia e os grupos políticos de classe
média.
Etapa
liberal. As dissensões entre os conservadores e a oposição
liberal contra o presidente Montt permitiram a chegada ao poder
de José Joaquín Pérez, que governou entre 1861 e 1871. Em
1872, no entanto, rompeu-se a unidade dos liberais devido à
política laicista do governo, que se plasmou nas leis de
liberdade religiosa e de educação. Começou então um período
de secularização e de abertura para o exterior que pôs fim ao
isolamento chileno e se expressou na influência da cultura
européia no país.
No campo
econômico, o incremento das importações e a avultada dívida
adquirida com a construção da infra-estrutura viária
provocaram um alto déficit comercial. A necessidade de
equilibrar a balança de pagamentos levou o governo a
interessar-se pelas minas de salitre: as da fronteira norte, as
da província boliviana de Antofagasta e as de Arica e Tarapacá,
no Peru. O Chile começou a chamada guerra do Pacífico
(1879-1884) e a vitória sobre a coalizão peruano-boliviana
permitiu a anexação daqueles territórios. A conquista
provocou, porém, atritos com as companhias britânicas e
francesas, que eram as proprietárias virtuais das minas de
salitre.
A
introdução de colonos europeus no sul do país, a partir de
meados do século, provocou o recrudescimento das hostilidades
com os índios araucanos, que mantinham o limite de seu
território no rio Bío-Bío. O uso do fuzil de repetição pelo
Exército chileno nas campanhas militares de 1882 e 1883
precipitou a derrota dos índios.
As guerras
pioraram a situação da fazenda pública. O presidente José
Manuel Balmaceda (1886-1891) exigiu os lucros das minas para o
estado, o que provocou a reação contrária da oligarquia
econômica, que não desejava um poder central muito forte. A
divisão da classe dirigente levou a uma curta guerra civil, que
culminou com a renúncia de Balmaceda.
República
parlamentar. Depois do governo de Balmaceda, o Chile deixou de
ser uma república presidencialista e se transformou em
república parlamentarista. No novo sistema político, a
oligarquia agrária e financeira exerceu o poder através do
controle do Parlamento.
À luz da
nova legislação surgiram partidos, como o Socialista e o
Radical, que defendiam os interesses das classes sociais
(operários, funcionários) surgidas em conseqüência do
desenvolvimento da burocracia, da mineração, grandes empresas
de gás, eletricidade e estradas de ferro. Esses partidos
organizaram movimentos grevistas em prol de reformas sociais. A
instabilidade política e social acentuou a depressão econômica
num momento em que a produção agrária mal abastecia o mercado
nacional, pois a produtividade era muito baixa devido à
ausência de capitalização, e a indústria definhava por falta
de investimentos.
Período de
instabilidade política: 1920-1938. A crise econômica gerou
grande descontentamento entre as classes populares e a classe
média, ao mesmo tempo que a oligarquia, cujo poder político
estava muito desgastado, era incapaz de acabar com o clima de
agitação.
Em 1924, os
militares, apoiados pela classe média, forçaram a demissão de
Arturo Alessandri, que reconduziram ao poder um ano depois.
Alessandri promoveu então uma nova constituição, promulgada em
1925, e que estabelecia um regime presidencialista cujo objetivo
principal era limitar o controle da vida política exercido pelos
grupos sociais mais poderosos por meio do Parlamento. Além
disso, previa-se a limitação do direito de propriedade, em
função dos interesses do estado. O caos político continuou
(entre 1924 e 1932 sucederam-se 21 gabinetes ministeriais),
embora de 1927 a 1931 o governo do coronel Carlos Ibáñez del
Campo tenha posto em prática várias medidas econômicas (apoio
à indústria, nacionalização parcial da mineração), que se
viram limitadas pela oposição dos grupos conservadores. A
depressão econômica acentuou-se depois da crise internacional
de 1929, que teve efeitos catastróficos para o Chile, com a
queda do preço e da demanda internacional de suas
matérias-primas e a suspensão dos empréstimos dos Estados
Unidos.
As classes
médias e populares, as mais atingidas pela crise, se
mobilizaram. A resposta de Ibáñez del Campo foi a criação de
um estado corporativista inspirado no fascismo italiano. Em 1931,
o fracasso dessa experiência provocou a volta ao regime civil
com Juan Esteban Montero Rodríguez, substituído por uma curta
coligação político-militar que transformou o Chile em
república socialista entre junho e setembro de 1932. No final
deste mesmo ano, superada a fase mais aguda da depressão
econômica, Alessandri ganhou as eleições e voltou à
presidência do país.
O novo
governo de Alessandri, de 1932 a 1938, caracterizou-se pelo
respeito às instituições constitucionais, pela estabilidade
política e pelas medidas tomadas para superar a crise econômica
(subvenções à indústria, criação de um banco central e
desenvolvimento do setor público para diminuir o desemprego).
Os radicais
no poder. O descontentamento dos trabalhadores e da classe média
com o governo Alessandri traduziu-se no apoio dado ao Partido
Radical, que alcançou a vitória na eleição de 1938.
Entre 1938 e
1946, governaram o país os presidentes Pedro Aguirre Cerda e
Juan Antonio Ríos. Cerda chegou ao poder em 1938, como candidato
de uma coalizão de esquerda, frente popular composta pelos
partidos Radical, Socialista e Comunista. Realizou importantes
reformas, sobretudo no setor industrial, em que fomentou a
produção nacional (criação em 1939 da Corporação de Fomento
da Produção) e limitou as importações. Todavia, a falta de
uma maioria parlamentar suficiente paralisou muitas leis
reformistas elaboradas pelo governo. Os mandatos de Cerda e Ríos
foram beneficiados pela conjuntura econômica da segunda guerra
mundial, que permitiu a multiplicação das exportações com o
crescimento inesperado da demanda européia.
Entre 1946 e
1952, o presidente do Chile foi o radical Gabriel González
Videla, que chegou ao poder por meio de uma coligação com os
comunistas (de que não participaram os socialistas). A partir de
1948, porém, a conjuntura internacional da guerra fria levou
González Videla a romper seus compromissos com os comunistas e a
aliar-se a conservadores e liberais.
O governo de
González Videla permitiu o aumento da penetração americana na
economia chilena (empréstimos, controle da mineração). Os
americanos se transformaram nos maiores fornecedores do país,
desfazendo a hegemonia de britânicos e franceses. Além disso,
durante o mandato de González Videla, a direita recuperou sua
força eleitoral sobre a esquerda, que perdeu votos nas
eleições seguintes.
Durante os
quatorze anos de governo radical, verificou-se acentuado
desenvolvimento industrial e aumento da percentagem de
população urbana, que em 1952 chegou a sessenta por cento.
Período de
estagnação: 1952-1964. A vitória eleitoral do antigo ditador,
Ibáñez del Campo, pode ser explicada pela decepção da classe
média com os radicais, que não conseguiram aumentar a
influência política desse grupo social, devido ao
empobrecimento das classes populares e à crescente dependência
dos Estados Unidos. Ibáñez governou em coalizão com a ala
direita do Partido Socialista e com vários grupos conservadores.
Durante seu mandato presidencial, surgiu na cena pública chilena
um novo tipo de político até então desconhecido, o populista.
Em 1958,
Ibáñez foi sucedido no poder pelo filho de Arturo Alessandri,
Jorge Alessandri, que governou com o apoio de conservadores e
liberais. Teve alguns êxitos no campo econômico: reduziu o
desemprego e a inflação, favoreceu o desenvolvimento
industrial. A política de contenção salarial, porém, opôs o
governo aos trabalhadores e à classe média.
O
descontentamento popular favoreceu o fortalecimento dos partidos
de esquerda (socialistas e comunistas) e da democracia cristã,
partido reformista de centro fundado em 1957, que pretendia
acabar com o tradicional poder social e político da direita por
meio de reformas econômicas, sobretudo no setor agrário.
O governo
democrata-cristão e a experiência socialista. Nas eleições de
1964, a esquerda se apresentou dividida e o Partido Democrata
Cristão conseguiu uma arrasadora vitória eleitoral. Com o lema
de "revolução em liberdade", Eduardo Frei Montalva
tornou-se o novo presidente do país. Elaborou um programa de
"chilenização" que contou com o apoio da classe
média. Sua realização mais importante foi a reforma agrária,
iniciada em 1967, que expropriou, mediante indenização, as
terras não-cultivadas e limitou as propriedades a oitenta
hectares. Em 1970, já haviam sido expropriados cerca de 200.000
hectares. A política reformista dos democratas-cristãos
aumentou a expectativa de melhorias sociais entre as classes
populares. Os trabalhadores começaram a participar ativamente na
política e foram-se inclinando cada vez mais para a esquerda.
Em 1969 foi
criada uma coligação de esquerda com vista às eleições
presidenciais. Compunha essa nova formação, a Unidade Popular,
socialistas, comunistas e pequenos grupos da esquerda marxista e
não-marxista. Um ano depois o socialista Salvador Allende,
candidato da Unidade Popular, foi eleito presidente da
república.
O programa
da Unidade Popular pretendia fazer a transição pacífica para o
socialismo, mantendo o sistema democrático. Para conseguir esses
objetivos, o governo acreditava ser necessário acabar com o
poder político e econômico dos bancos, nacionalizar as empresas
em mãos de estrangeiros, desenvolver a reforma agrária e
redistribuir a riqueza em favor das classes mais desfavorecidas.
Com esse programa de mudança social, o governo de Allende
aumentou seu apoio popular nas eleições municipais e
legislativas de 1971 e 1972.
A partir de
1971, no entanto, diminuiu o apoio a Allende por parte da classe
média, descontente com as dificuldades econômicas provocadas
pelas nacionalizações (minas de cobre e indústrias básicas) e
pelo boicote do capital estrangeiro, sobretudo dos Estados
Unidos. O aparecimento de forte inflação e a estagnação
econômica permitiram o reagrupamento das forças contrárias à
experiência socialista. O governo de Allende, perseguindo seu
objetivo de implantar o socialismo, entrou em conflito freqüente
com outros órgãos do poder, como o judiciário e os tribunais
de contas, enquanto ocorriam ocupações ilegais de fábricas e
propriedades. A direita, representada pelo Partido Nacional, e os
centristas democratas-cristãos, uniram seus esforços
antigovernamentais e buscaram o apoio dos militares.
Governo
militar. Em 11 de setembro de 1973, as forças armadas tomaram o
poder. O golpe militar contou com o apoio das classes média e
alta, ao passo que o Partido Democrata Cristão permaneceu
neutro. Salvador Allende, sitiado no palácio de La Moneda, não
se rendeu e foi morto durante o bombardeio e invasão do
palácio.
A junta
militar, presidida pelo general Augusto Pinochet, comandante do
Exército, reverteu as políticas de Allende e aplicou receitas
monetaristas para estabilizar a economia e combater a inflação,
ao mesmo tempo em que prescrevia as organizações políticas. O
modelo econômico escolhido teve êxito, no início, ao controlar
a inflação, mas a crise econômica internacional não permitiu
que fossem superados seus efeitos negativos.
Em 1981, uma
nova constituição prorrogou até 1989 o regime vigente, depois
do que se retornaria ao governo civil. No entanto, a década de
1980 foi marcada por um endurecimento progressivo das posições
dos adversários do regime e por oscilações na política
oficial, que às vezes procurava obter apoio mediante uma
abertura limitada e, em algumas ocasiões, ao não conseguir a
resposta desejada, suspendia o diálogo.
O conflito
com a Argentina pela posse de algumas ilhas do canal de Beagle
foi resolvido por meio da arbitragem papal. Em 1987, Pinochet
sobreviveu a um atentado. Em 1988, quando a economia se mostrava
em franca recuperação, o governo perdeu um referendo que
deveria manter Pinochet no poder até 1996. Em 1989 realizaram-se
eleições gerais, quando foi escolhido o candidato da
oposição, o civil Patricio Aylwin, que contou com o apoio de
uma frente ampla de organizações políticas. No entanto, a
presença dos militares e de Pinochet continuou a se fazer
sentir. Em 1994 foi eleito presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle,
filho de Eduardo Frei.
Instituições
políticas
A junta
militar revogou em 1973 a constituição de mais longa vigência
na história do Chile, a de 1925. Até 1980, o governo manteve um
vazio institucional que terminou com a promulgação da
constituição de 1981, de caráter presidencialista. Até sua
plena entrada em vigor, o presidente da república e chefe do
Exército comandou também a Junta de Governo que concentrava
transitoriamente os poderes executivo, legislativo e militar.
A
constituição de 1981 adotou fórmulas próprias de definição
do sistema social, como a divisão de poderes e a participação
dos cidadãos na vida pública, embora seu desenvolvimento tenha
permanecido restrito durante o período previsto de transição.
O Chile tem
uma organização administrativa bastante centralizada. O
presidente nomeia os intendentes ou governantes de cada uma das
51 províncias e eles, por sua vez, escolhem delegados que
supervisionam a gestão municipal. Os prefeitos das cidades de
mais de cem mil habitantes também são nomeados pelo presidente.
Sociedade
Legislação
social. O Chile se destacou por possuir uma das legislações
trabalhistas mais avançadas da América do Sul. Em 1924 foram
promulgadas leis que regulamentavam o regime de contratação e o
seguro de acidente de trabalho e de doença. Em 1931 criou-se o
Código do Trabalho, que ampliou a legislação trabalhista
anterior e, nos anos seguintes, a proteção social se ampliou
com o Serviço de Seguro Social. A previdência ficou assegurada
por meio de centros privados e do Serviço Nacional de Saúde,
organismo vinculado ao Ministério da Saúde. A crise econômica
que atingiu o país na década de 1970, no entanto, e a filosofia
antiestatizante do regime militar, reduziram fortemente os
serviços da previdência social do estado.
Educação.
A legislação educacional de 1965 estabeleceu a obrigatoriedade
de escolarização de todos os chilenos (decreto do ensino entre
7 e 15 anos), e promoveu a renovação dos métodos pedagógicos
e dos programas escolares.
O primeiro
ciclo educacional, denominado ensino básico, vai dos 7 aos 12
anos e consta de três graus, com dois cursos cada um. Para
cobrir o tempo de obrigatoriedade é acrescentado um quarto grau,
o profissional. Ao terminar o primeiro ciclo, os alunos escolhem
entre o ensino médio geral, o técnico ou o profissional, que
dura seis anos. O ensino superior é ministrado em oito centros
universitários, dos quais duas universidades são públicas
(Universidade do Chile e Universidade Técnica, ambas em
Santiago), duas são católicas (Santiago e Valparaíso) e quatro
são leigas e particulares (Valparaíso, Concepción, Valdivia e
Antofagasta). O país possui uma série de escolas profissionais
dedicadas ao ensino de comércio, indústria e belas-artes.
Religião. A
colonização espanhola introduziu o catolicismo, que rapidamente
se transformou na religião predominante. Com Pedro de Valdivia
desembarcou no Chile o capelão Rodrigo González de Marmolejo,
que deu início à evangelização. Em 1550 chegaram os
religiosos da Ordem de Nossa Senhora das Mercês e, pouco depois,
os franciscanos, dominicanos e jesuítas, que fundaram vários
colégios.
Em 1818,
depois da independência, o catolicismo foi reconhecido como a
religião oficial do estado. A partir de 1878, porém, vários
governos empreenderam uma campanha de laicização que culminou
na constituição de 1925, que estabeleceu a separação entre
igreja e estado.
Embora a
maioria da população chilena seja católica, existe uma
importante colônia protestante (o grupo mais numeroso é o da
Igreja Evangélica), que entrou no país durante a penetração
européia do século XIX. No norte do Chile, um setor da
população indígena segue tradições religiosas de tipo
animista.
Cultura
Literatura.
O primeiro escritor chileno foi o próprio conquistador Pedro de
Valdivia, que em suas Cartas a Carlos I descreveu com admiração
a terra ocupada. Os gêneros literários mais cultivados durante
o período colonial foram as crônicas e os poemas épicos.
Desses últimos o mais notável foi La Araucana (A araucana), de
Alonso de Ercilla, que tratava das guerras entre índios e
espanhóis, e que constituiu um modelo para a literatura chilena
ao longo de sua história. Os jesuítas Alonso de Ovalle e Diego
de Rosales se destacam como representantes da crônica do século
XVII. Francisco Núñez de Pineda mostrou em Cautiverio feliz
(Cativeiro feliz), sua simpatia pelos araucanos, o que significou
o início de uma das tendências mais acentuadas da literatura
chilena, o indigenismo.
Depois da
independência, Andrés Bello, de origem venezuelana, iniciou a
literatura nacional de tipo nativista, movimento que seria
seguido por vários escritores durante o século XIX. O
anti-hispanismo de alguns deles levou-os a seguir os modelos
franceses ou alemães, como é o caso de Guillermo Matta,
enquanto que outros se deixaram influenciar pelo romantismo de
Gustavo Adolfo Bécquer, como Eduardo de la Barra. Um dos
principais romancistas do século foi Alberto Blest, que pertence
à corrente do realismo. Na poesia, destacaram-se Carlos Pezoa e
José Joaquín Vallejo, muito influenciado pelo espanhol Mariano
José de Larra.
No século
XX, assinalam-se três grandes poetas: Vicente Huidobro, Gabriela
Mistral e Pablo Neruda. Huidobro participou das vanguardas
européias e incentivou o criacionismo, enquanto que Gabriela
Mistral e Neruda representaram a expressão da chilenidade em
poesia; ambos receberam o Prêmio Nobel.
Na prosa,
Mariano Latorre foi o mestre da literatura descritiva chilena e
líder da escola crioula. Sobressaem também Francisco Coloane,
Manuel Rojas, José Donoso, Jorge Guzmán e Lautaro Yankas.
Arte. A
influência de Tiahuanaco e, posteriormente, do império inca,
formou a arte e cultura dos povos pré-colombianos do norte do
Chile, como os diaguitas e atacamenhos. No centro e sul, os
araucanos se destacaram pela elaboração de máscaras e
esculturas talhadas em pedra. Cabe assinalar, por sua
originalidade, a arte da ilha da Páscoa, representada pela
monumentalidade das famosas cabeças esculpidas na pedra e pela
delicadeza de algumas pequenas esculturas de madeira.
Os
monumentos do período colonial não são muito expressivos e
muitos deles foram destruídos por incêndios ou terremotos, como
a primitiva catedral de Santiago. Na capital, o único monumento
que conserva o traçado original é a igreja de São Francisco,
construída no século XVI. Do século XVII existem ainda alguns
palácios e casas de estilo espanhol com pequenos pátios
internos. O palácio presidencial, antiga Casa da Moeda, mistura
de barroco e neoclássico, foi construído pelo italiano Joaquín
Toesca no final do século XVIII. No século XIX, os franceses
Raymond Monvoisin e Claude-François Brunst de Bains ergueram
importantes edifícios em Santiago e deram impulso a sua Escola
de Arquitetura. Além de outros arquitetos estrangeiros, Fermín
Vivaceta e Manuel Aldunate contribuíram para reforçar o
caráter nacional da arquitetura chilena. No século XX,
destacaram-se os trabalhos do grupo dos Dez e de Emilio Duhart,
autor do colégio da Aliança Francesa. Outros arquitetos
importantes foram Sergio Larraín, Jaime Bellalta e Jorge
Costábal.
A pintura
nacional chilena teve início com José Gil de Castro, no
período da independência. Diversos estilos e tendências se
sucederam até a terceira década do século XX, quando se
desenvolveu a obra do grupo Montparnasse, com influência de Paul
Cézanne. Posteriormente, a pintura chilena alcançou projeção
internacional com a obra de Roberto Matta. Outros pintores de
destaque foram José Balmes, Elsa Bolívar, Cecilia Vicuña,
Eduardo Martínez Bonatti, Ramón Vergara, Ernesto Barreda e
Carmen Silva. Na música do século XX, destacam-se a cantora
popular Violeta Parra e o pianista Claudio Arrau.