Cuba
Cuba
conquistou sua identidade e amadureceu guiada por patriotas como
o poeta José Martí e, em 1959, tornou-se o primeiro país
socialista das Américas: por força dessa opção, na última
década do século XX, ao se esfacelar a União Soviética, que
lhe dava apoio, viveu em singular posição de isolamento
continental.
A República
de Cuba é formada por cerca de 3.175 ilhas e ilhotas. O país
tem superfície total de 110.922km2 e está situado ligeiramente
ao sul do trópico de Câncer. A ilha de Cuba é a maior do grupo
e ocupa sozinha uma área de 105.007km2, o que perfaz quase 95%
da terra firme de todo o arquipélago. Sua forma é alongada e
orienta-se de noroeste para sudeste ao longo de cerca de 1.250km.
A largura varia de 31 a 191km. Outra ilha importante é a da
Juventude, antes ilha de Pinos (dos Pinheiros). O estado da
Flórida, nos Estados Unidos, fica a 145km de distância.
Geografia
física
Relevo. O
acidente orográfico mais notável é a Sierra Maestra, cadeia de
montanhas com extensão de 250km, entre o cabo Cruz e a baía de
Guantánamo, a sudeste. O pico Turquino, com 1.974m, é seu ponto
culminante. A suave inclinação que a ilha apresenta ao sul
facilita a formação de enseadas, como as da península de
Zapata.
Os corais
litorâneos formaram a nova plataforma continental sobre a qual o
arquipélago se sustenta. Foi submetida a sucessivos movimentos
de elevação e rebaixamento. Caso o mar baixasse algumas dezenas
de metros, quase todas as ilhas do arquipélago estariam unidas,
já que são porções emersas da mesma plataforma. São
numerosos os portos naturais.
Clima.
Situada em região tropical e influenciada pelo centro de altas
pressões do Atlântico norte, Cuba compreende duas zonas
climáticas distintas: a planície seca e a área exposta aos
ciclones. O clima dominante na maior parte do arquipélago
registra temperaturas que oscilam entre 22,5o C em janeiro e
27,8o C em agosto. O índice pluviométrico é de aproximadamente
1.380mm, adequado para as extensas plantações de
cana-de-açúcar, café e fumo, que cobrem grande parte do solo
cultivado. A estação chuvosa se estende de maio a novembro,
quando também ocorrem violentos furacões.
Hidrografia.
O relevo da ilha determina duas vertentes fluviais de
características muito diferentes, embora todos os rios sejam
curtos e de pouco volume. Entre mais de 500 cursos de água,
pouco menos da metade fluem do norte. O rio mais importante é o
Cauto, que desemboca no sul, depois de percorrer 250km, dos quais
oitenta são navegáveis.
Os lagos
são pequenos e alguns têm água doce, outros salgada. O maior
deles é a lagoa de Leite, ligada ao mar por meio de três canais
naturais. Sua coloração se deve aos depósitos de carbonato de
cálcio acumulados no fundo e removidos pelas correntes marinhas.
Flora e
fauna. A vida vegetal está representada por mais de oito mil
espécies, das quais umas seis mil são plantas superiores.
Muitas delas são nativas do arquipélago. Grande parte da
vegetação original foi substituída pelas plantações de
cana-de-açúcar, café e arroz. O pinho, o mogno e o ébano,
exportados em grandes quantidades, são de boa qualidade.
A vida
animal é particularmente rica e variada no que diz respeito aos
invertebrados, com mais de sete mil espécies diferentes de
insetos e quatro mil de moluscos terrestres e marinhos. As
esponjas são a base de uma próspera indústria, assim como a
piscicultura, com dezenas de espécies de peixes de considerável
valor comercial. Entre os répteis, destacam-se as tartarugas e
os iguanas, assim como duas espécies diferentes de crocodilos
quase extintas, mas protegidas.
População
Tipos
raciais e língua. Durante mais de quatro séculos Cuba foi base
de grupos étnicos de diferentes procedências. Os descendentes
de espanhóis e de negros africanos são os grupos raciais
predominantes, mas também há chineses, judeus europeus e
libaneses, entre outros.
Os
habitantes pré-colombianos procediam do continente
sul-americano, sendo os cibonéis um dos grupos étnicos mais
antigos. Estima-se que pouco antes da chegada de Cristóvão
Colombo, os taínos, procedentes da península venezuelana de
Paria, se estabeleceram não somente em Cuba, mas também no
resto das Antilhas e nas Bahamas, desenvolvendo uma agricultura
primitiva. Este último povo, pertencente ao grupo aruaque,
constituía por si só entre setenta e oitenta por cento da
população no início do século XVI.
Ao
reduzir-se, a população indígena logo foi substituída por
negros africanos, empregados principalmente nos grandes
canaviais. Na maior parte, procediam do Senegal e da costa da
Guiné, podendo detectar-se em suas origens étnicas a presença
de elementos da cultura ioruba e banto. Muito depois da
abolição da escravatura, entre 1919 e 1926, cerca de 250.000
trabalhadores negros provenientes do Haiti e da Jamaica foram
contratados para trabalhar nas plantações de açúcar e, em sua
maioria, estabeleceram-se definitivamente na ilha. Sua
influência cultural, especialmente na música e na dança,
tornou-se determinante.
A exemplo do
Brasil e de outras partes da América Latina, em Cuba ocorreu
intensa miscigenação racial, de modo que há vários séculos a
população mestiça, em maior ou menor grau, passou a ser mais
numerosa que todas as raças, à exceção da branca. Todavia,
com a diminuição das taxas de mortalidade da população total
e a redução da natalidade dos brancos, esta diferença
reduziu-se significativamente.
A
população européia, representada principalmente pelos
imigrantes espanhóis, chegou a constituir três quartos do
total. Sua influência nos usos e costumes, assim como na
evolução política e econômica da sociedade, caracteriza a
história cubana, seu folclore e suas tradições culturais.
O componente
asiático está presente em apreciável proporção, sobretudo
devido à imigração de trabalhadores chineses entre 1853 e 1874
e, mais tarde, na década de 1920. A grande maioria era composta
de homens oriundos da região de Cantão.
O espanhol
é o idioma oficial de Cuba e não há dialetos locais
diferenciáveis. Algumas palavras indígenas, como hamaca (rede
de dormir) e muitas outras, enriqueceram o espanhol local, assim
como o suave acento e entonação usados pelos cubanos.
Estrutura
demográfica. Na segunda metade do século XX, a população
registrou mais de dois por cento de crescimento vegetativo anual,
principalmente devido ao rápido decréscimo das taxas de
mortalidade e ao elevado índice de natalidade, sobretudo nos
extratos sociais inferiores. Desde 1960, porém, mais de um
milhão de pessoas abandonaram o país por motivos políticos. A
evolução demográfica posterior tendeu a compensar os
desequilíbrios regionais, sendo maior o crescimento nas
províncias escassamente povoadas que nas grandes cidades.
Além da
capital, Havana, outras cidades importantes são Santiago de
Cuba, Camagüey e Holguín, nas províncias homônimas; Santa
Clara, capital da província de Villa Clara; Guantánamo,
Cienfuegos e Matanzas, nas províncias de mesmo nome; Bayamo,
capital de Granma; e Vitoria de Las Tunas.
Economia
Desde a
revolução de 1959 a economia cubana sofreu profundas
reestruturações, que afetaram mais fortemente a distribuição
de renda do que a produção. Todas as atividades econômicas
realizadas no país são planificadas pelo Partido Comunista de
Cuba. Quase todas as empresas são públicas, exceto pequenas
propriedades agrícolas. A instituição econômica mais
importante é a Junta Central de Planejamento, cujo responsável
máximo é o ministro da Economia.
Agricultura.
O solo cubano é muito fértil. Cultivado corretamente, permite
obter duas ou mais colheitas anuais de diversos produtos. O
regime de chuvas é muito variável. A construção de grandes
barragens, no entanto, promovida intensamente a partir da década
de 1960, diminuiu a importância das variações sazonais. As
águas subterrâneas constituem também importante recurso para a
agricultura e a indústria. A importação de tratores e outros
implementos agrícolas permitiu melhorar a produção.
O principal
produto agrícola de Cuba é o açúcar, de que fabricava, na
segunda metade do século XX, aproximadamente oito milhões de
toneladas anuais. A exportação de açúcar, junto com a de
arroz, fumo, café, cítricos etc., busca compensar a necessidade
de importação de grandes quantidades de laticínios, algodão
etc., em que o país é deficitário.
Energia e
minérios. Cuba não produz petróleo em quantidade satisfatória
para o consumo. No entanto, do ponto de vista do comércio
exterior pôde ser considerada durante algum tempo um país
exportador de petróleo, devido à ajuda econômica que recebia
da extinta União Soviética, principalmente em forma de
petróleo, parte do qual repassava ao mercado internacional. Os
recursos minerais próprios da ilha são o níquel, o cromo, a
magnetita (minério de ferro), o manganês e o cobre.
Indústria e
comércio. O processamento, muitas vezes artesanal, dos diversos
produtos cultivados na ilha, sobretudo a cana-de-açúcar e o
fumo, constitui a principal atividade fabril. O estado realizou
fortes investimentos na indústria pesada, em fábricas de
cimento, centrais elétricas e maquinaria agrícola.
Durante a
primeira metade do século XX, quase três quartos das
importações cubanas procediam dos Estados Unidos. Dois anos
depois da revolução, em 1961, esse comércio caiu para quatro
por cento, desaparecendo por completo sob o bloqueio comercial
imposto pelo governo americano.
Transportes.
Desde meados do século XIX, a frota mercante cubana se
multiplicou mais de vinte vezes, ao ritmo dos intercâmbios
comerciais do país. As autoridades se esforçaram para que pelo
menos a metade das mercadorias que entram e saem dos portos
nacionais fossem transportadas em barcos de bandeira cubana.
A primeira
estrada de ferro cubana, inaugurada em 1837, unia as cidades de
Havana e Bejucal, sendo a primeira das Américas fora dos Estados
Unidos. Na década de 1980 havia mais de 12.000km de vias
férreas, mais da metade destinados à ligação das plantações
de cana com as fábricas de açúcar.
A partir de
1960, foi sensivelmente incrementado o transporte rodoviário. Na
década anterior, o número de automóveis importados era muito
maior que o de caminhões e ônibus, tendência que se inverteu
nos vinte anos seguintes, para adequar-se às metas do
desenvolvimento. A principal rodovia atravessa a ilha em quase
toda sua extensão.
O transporte
aéreo está a cargo da Empresa Consolidada Cubana de Aviação,
responsável pelos vôos entre diferentes cidades da ilha e pela
ligação de Havana com diversas cidades européias, americanas e
africanas. A rota Moscou-Havana, coberta pela empresa russa
Aeroflot, é o vôo regular sem escalas mais longo do mundo.
História
Antes do
descobrimento da América por Cristóvão Colombo, em 1492, os
cibonéis e os guanahatabeys habitavam o oeste de Cuba, enquanto
que os taínos ocupavam o restante, incluindo-se algumas outras
ilhas do arquipélago.
Regime
colonial. Cuba foi avistada por Colombo em sua primeira viagem,
em 27 de outubro de 1492. Depois de batizá-la com o nome de
Juana, adotou a versão castelhana dos topônimos indígenas
Coabaí ou Cubanacán, que designavam respectivamente a ilha e
uma aldeia no interior. Em 1511, Diego Velázquez fundou o
primeiro assentamento em Baracoa, com cerca de 300 espanhóis.
Nas
primeiras décadas de colonização, a exploração de ouro se
revelou pouco rentável e contribuiu para que se dizimasse a
população indígena, obrigada a trabalhar nas minas. Logo a
ilha se converteu em ponto de escala e aprovisionamento das
numerosas expedições que os espanhóis realizaram à Flórida,
à península de Yucatán e à costa do golfo do México, em
busca de metais preciosos.
As
principais dificuldades que os colonos espanhóis tiveram de
enfrentar foram as epidemias, os furacões e os ataques de
piratas e navegadores de outros países europeus, que tratavam de
estabelecer seus próprios assentamentos na ilha, com a
intenção de obter portos livres para seu comércio. A frota
espanhola fazia a ligação de quase toda a América hispânica
com a metrópole através de Cuba, o que aumentou a importância
comercial e estratégica da ilha.
Ao longo do
século XVIII intensificou-se o desenvolvimento agrícola, que
dependeu cada vez mais de plantações de cana-de-açúcar e dos
escravos africanos. Cuba foi um dos poucos territórios
hispânicos da América que permaneceram fiéis à metrópole
depois da invasão francesa da península ibérica. Em 1821
surgiu um movimento de independência, mas seus mentores, entre
os quais o poeta José Maria de Heredia, foram presos e punidos.
Na segunda
metade do século XIX, a indústria açucareira cubana
converteu-se na mais moderna do mundo e chegou a responder por
mais de um terço da produção mundial. No entanto, a enorme
extensão das plantações de cana levou ao desflorestamento de
grande parte da ilha.
Independência.
A prosperidade agrícola de Cuba atraiu o interesse dos Estados
Unidos (especialmente dos estados escravistas do sul), que
chegaram a realizar várias propostas econômicas ao governo
espanhol para que cedesse sua soberania sobre a ilha.
Em 10 de
outubro de 1868, eclodiu a primeira guerra de independência
cubana, com o "grito de Yara", protagonizado por Carlos
Manuel de Céspedes. A guerra, chamada dos dez anos,
concentrou-se na região oriental, onde as crueldades do
exército espanhol provocaram o apoio da população aos
insurretos. Céspedes foi o primeiro presidente da
"república em armas", cujos representantes redigiram
uma constituição e receberam o reconhecimento de vários
governos latino-americanos. A superioridade das forças
espanholas e a promessa de reformas por parte do general Arsenio
Martínez Campos debilitaram o movimento e, em fevereiro de 1878,
a guerra acabou com um acordo de paz. Muitos cubanos, entre os
quais o líder nacionalista Antonio Maceo, se negaram a aceitar
as condições oferecidas e continuaram a luta.
Várias
organizações políticas e ativistas no exílio, coordenadas
pelo poeta José Martí, chamado pelos cubanos "o
apóstolo", organizavam a propaganda contra o domínio
espanhol, dirigindo-se tanto à população nativa como às
potências estrangeiras. A guerra recomeçou em 24 de fevereiro
de 1895, com o "grito de Baire" e estendeu-se
rapidamente por toda a ilha. Morreram muitos civis, povoados e
cidades foram destruídos. Sob o pretexto de inexplicável
explosão no encouraçado americano Maine, atracado no porto de
Havana, em 25 de abril de 1898 os Estados Unidos declararam
guerra à Espanha. A armada americana obteve rápida vitória e o
governo espanhol foi obrigado a firmar um protocolo de paz em
Washington, em agosto do mesmo ano. Pelo Tratado de Paris,
firmado em 10 de dezembro, a Espanha cedeu aos Estados Unidos os
territórios de Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas.
A ocupação
americana de Cuba se prolongou desde o primeiro dia de janeiro de
1899 até 20 de maio de 1902, período em que os governadores
gerais John Brooke e Leonard Wood tentaram adaptar a ilha às
políticas econômica e cultural que então prevaleciam nos
Estados Unidos. Em 1901 foi promulgada uma constituição a que
os americanos agregaram a chamada emenda Platt, pela qual se
reservavam o direito de intervir na ilha em determinadas
circunstâncias e de supervisionar seus tratados internacionais,
assim como sua política econômica e de assuntos internos. Além
disso, a nova República de Cuba cedeu aos Estados Unidos as
bases navais de Baía Funda (devolvida em 1913) e Guantánamo.
Primeira
década da República de Cuba. A administração republicana
começou em 20 de maio de 1902, com o governo de Tomás Estrada
Palma, primeiro presidente de Cuba independente, notável por sua
honradez e seu interesse pela educação pública. Sua intenção
de permanecer no poder depois das eleições de 1906 deu lugar à
segunda ocupação da ilha pelos americanos, em 29 de setembro
desse ano. No final do governo corrupto do general José Miguel
Gómez (1909-1912), as tropas governamentais sufocaram
manifestações e protestos na parte oriental da ilha, quando
morreram mais de três mil pessoas.
Seguiram-se
os governos de Mario García Menocal (1913-1921), Alfredo Zayas
(1921-1925) e Gerardo Machado (1925-1933), que no segundo mandato
se tornou ditador. Seu sucessor, Carlos Manuel de Céspedes y
Quesada, foi derrubado pelo golpe militar (4 de setembro de 1933)
liderado pelo sargento Fulgencio Batista e pelo professor Ramón
Grau San Martín.
Em 1934,
Grau se viu obrigado a renunciar e se sucederam vários governos
provisórios em que Batista manteve o poder de fato, assumindo a
presidência constitucional de 1940 a 1944. Seguiram-se dois
períodos de governo democrático, com Grau San Martín
(1944-1948) e Carlos Prío Socarrás (1948-1952), que sofreu novo
golpe militar encabeçado por Batista (1952): este, em regime de
crescente corrupção e violência, manteve-se no poder até
1958.
A
revolução. A quartelada de 1952 fora bem recebida pelo governo
americano, que viu em Fulgencio Batista um instrumento mais
maleável que os políticos anteriores, de tendência
nacionalista. Batista tratou de consolidar seu regime mediante
manobras que lhe deram aparência de legalidade. Ainda assim, seu
regime ganhou cada vez mais opositores e manifestaram-se diversos
movimentos revolucionários, mesmo dentro das forças armadas.
A
contestação era especialmente forte entre os universitários,
os profissionais liberais e as classes médias. Finalmente, o
jovem advogado Fidel Castro, que tentara sem êxito tomar o
quartel de Moncada, em Santiago de Cuba (1953), logrou
estabelecer um núcleo guerrilheiro em Sierra Maestra (1956) e
células ativistas nas cidades que, junto com outros movimentos,
provocaram a queda do regime de Batista em 31 de dezembro de
1958.
Em 1º de
janeiro de 1959, Fidel Castro assumiu o controle da ilha. Os
projetos de seu Movimento 26 de Julho estavam pouco definidos e,
embora já contassem com grande apoio no país, só em 1961 as
organizações revolucionárias se fundiram no Partido Unido da
Revolução Socialista, que em 1965 passou a denominar-se Partido
Comunista de Cuba. Durante esses anos, a organização do estado
se configurou segundo o modelo soviético, o que representou a
implantação do primeiro regime socialista das Américas.
Depois de um
primeiro período preparatório, o objetivo definido do regime
foi a abolição do capitalismo, compreendendo a eliminação dos
inimigos, civis ou militares, que permanecessem fiéis a
postulados ou instituições anteriores à revolução e a
sabotassem ou combatessem: julgados sumariamente por tribunais
populares, muitos desses adversários do novo governo foram
condenados ao paredón, isto é, executados por fuzilamento.
A
nacionalização dos investimentos e propriedades estrangeiros,
que no caso dos Estados Unidos elevaram-se a centenas de milhões
de dólares, provocou uma série de medidas por parte do governo
americano, como o apoio à tentativa de invasão de abril de 1961
na baía dos Porcos, o bloqueio comercial e o fomento de diversas
conspirações para derrotar os revolucionários.
Em dezembro
de 1961 Fidel Castro proclamou suas convicções
marxistas-leninistas, reafirmando o caráter socialista da
revolução cubana. A partir de então firmaram-se numerosos
acordos de cooperação entre Cuba e a União Soviética, que se
comprometeu a adquirir um milhão de toneladas de açúcar por
ano durante pelo menos cinco anos, bem como a proporcionar um
crédito equivalente a cem milhões de dólares em condições
extremamente favoráveis.
A escalada
da tensão entre os Estados Unidos e Cuba foi antes de tudo
comercial, com o boicote aos produtos cubanos e a proibição de
exportações, à exceção de alguns medicamentos. O rompimento
das relações diplomáticas efetuara-se em janeiro de 1961, por
iniciativa do presidente Eisenhower.
Em 1962, a
União Soviética começou a instalar em solo cubano mísseis
nucleares de médio alcance. Apesar do sigilo com que se procedeu
à operação, os Estados Unidos a descobriram. O presidente
Kennedy ordenou o bloqueio naval da ilha e a adoção de um plano
de invasão que seria automaticamente levado a cabo se Cuba
recebesse alguma outra ajuda militar soviética. A União
Soviética decidiu retirar os mísseis e interromper a
construção de seus silos em troca de uma promessa do presidente
americano de que a ilha não seria invadida.
As pressões
do governo americano contra o regime de Fidel Castro em todos os
foros internacionais conseguiram, em janeiro de 1962, que o país
fosse expulso da Organização dos Estados Americanos (OEA), sob
a alegação de incompatibilidade entre sua orientação
socialista e os objetivos da entidade. Posteriormente, devido ao
apoio explícito que os cubanos proporcionavam a grupos
empenhados em fazer triunfar a revolução socialista em diversos
países latino-americanos, a maior parte destes também rompeu
com Cuba.
Tanto na
conferência tricontinental dos povos da Ásia, África e
América Latina, de 1966, como na de solidariedade
latino-americana de 1967, ambas celebradas em Havana, os partidos
comunistas latino-americanos, a exemplo do soviético e dos
países do leste europeu, mostraram-se contrários às teses
defendidas por Fidel Castro, em que admitia a legitimidade do uso
da violência com fins revolucionários. Em outubro de 1967
morreu na Bolívia Ernesto Che Guevara, um dos maiores
colaboradores de Fidel Castro e figura legendária da militância
marxista.
Em 1973 Cuba
se viu obrigada a renegociar a enorme dívida contraída com a
União Soviética, que se comprometera a adquirir oitenta por
cento da produção cubana de açúcar e a subsidiar petróleo,
aço e outros recursos estratégicos. Em 1975 foi suspenso o veto
da OEA, o que ampliou as possibilidades de projeção
diplomática do país. Em 1979, Castro visitou o México -- que
jamais rompera relações formais com Cuba -- e em 1980 o
presidente mexicano José López Portillo foi recebido em Havana.
Pela
constituição promulgada em 1976, Fidel Castro convertera-se em
presidente do Conselho de Estado, cargo equivalente ao de chefe
de estado, que acumulava com os de comandante-em-chefe das
forças armadas, primeiro-ministro e secretário-geral do Partido
Comunista de Cuba. Em 1980, Castro autorizou o êxodo de
aproximadamente 125.000 cubanos, que foram recebidos pelos
Estados Unidos. Nos dez anos seguintes, estimava-se que o governo
de Cuba mantinha algumas dezenas de milhares de assessores
militares em países como a Etiópia e Angola. Com os países
latino-americanos, Cuba teve uma exitosa política de
aproximação, especialmente com o Brasil, Argentina, Peru e
Uruguai.
Depois da
dissolução da União Soviética, em 1990, e o fim do bloco
socialista, o isolamento cubano se acentuou e suas importações
e exportações caíram drasticamente. Internamente o país
também se ressentiu da perda do apoio internacional. Alimentos,
combustível e outros bens de consumo essenciais escasseavam,
provocando descontentamento na população. Em 1994, com a
persistência do embargo americano apesar da resolução aprovada
no ano anterior pela Assembléia Geral das Nações Unidas, que
exortava os Estados Unidos a suspenderem o boicote, a situação
interna de Cuba tornou-se calamitosa. Milhares de cubanos
passaram a abandonar a ilha em embarcações precárias, com o
objetivo de alcançar a costa americana da Flórida. Com a lei
Burton-Helms, os Estados Unidos tentaram, em 1996, forçar seus
aliados europeus a participar do boicote comercial a Cuba.
Sociedade
Uma das
primeiras medidas sociais empreendidas pelo governo
revolucionário foi a erradicação do analfabetismo. Ao longo de
1961, declarado ano da educação, mais de 700.000 cubanos
aprenderam a ler e a escrever. Nos anos seguintes, o
analfabetismo foi erradicado e aumentou incessantemente o número
de estudantes universitários, que chegou a ser três vezes
superior ao dos tempos de Fulgencio Batista.
A
assistência médica tornou-se completamente gratuita, o que fez
reduzir-se significativamente o índice de mortalidade do país.
O Ministério da Saúde passou a obrigar os médicos a trabalhar
pelo menos dois anos nas zonas rurais depois da formatura.
Antes da
revolução, a terra cubana pertencia a empresas latifundiárias
nacionais e estrangeiras. A reforma agrária extinguiu o
latifúndio e instalou cooperativas e estabelecimentos
agropecuários estatais. Por sua vez, a lei de reforma urbana
tornou possível a muitas famílias possuírem casa própria,
pagando ao estado baixas mensalidades durante período de cinco a
vinte anos. Corrupção, jogo e prostituição, comuns antes da
revolução, foram objeto de uma forte campanha de erradicação,
acompanhada de severas medidas policiais que procuraram impedir,
entre outras coisas, o desenvolvimento de um mercado negro para
comerciar com muitos dos bens que escassearam sob as severas
medidas de política econômica adotadas. Grandes investimentos
públicos eliminaram o alto índice de desemprego e verificou-se
o equilíbrio entre o dinheiro em circulação e os bens
disponíveis, pelo que foram racionados muitos dos bens de
consumo.
A religião
tradicionalmente predominante em Cuba é a católica, embora,
especialmente entre a população negra, se tenha difundido um
sincretismo religioso semelhante ao do Brasil e de outros países
latino-americanos, com cultos a divindades africanas formalmente
identificadas com santos católicos.
No
princípio da década de 1960, a Igreja Católica e o estado se
enfrentaram abertamente: a igreja procurou impedir a completa
estatização da educação, enquanto o governo a acusava de
contra-revolucionária. Muitos sacerdotes e religiosas
abandonaram o país, outros foram deportados. Desde 1965, porém,
o governo e a igreja melhoraram suas relações e cooperam
estreitamente em muitos projetos, especialmente de caráter
social.
Cultura
A vida
cultural cubana foi profundamente transformada, pois o governo
considerou esse aspecto um dos mais importantes da revolução.
No passado, quase todas as manifestações artísticas de
qualquer índole estavam limitadas ao que as elites realizassem
em Havana. A partir da revolução, o governo empenhou-se em
difundir a cultura nas províncias, assim como em dotá-la de uma
personalidade nacionalista, usando-a muitas vezes como veículo
de propaganda da revolução, tanto no país como no exterior.
Literatura.
O primeiro autor cubano foi Silvestre de Balboa, que escreveu
Espejo de paciencia em princípios do século XVII. Em 1764
surgiu o primeiro jornal, Gaceta de la Habana, que exerceu grande
influência sobre a colônia e contribuiu para forjar o caráter
nacionalista da população. O romantismo teve como precursor no
país José María Heredia, poeta comprometido com o movimento
revolucionário da década de 1820. Domingo del Monte, de origem
venezuelana, além de poeta romântico, realizou intensos estudos
sobre o folclore e as tradições da ilha.
O modernismo
se iniciou com José Martí e Julián del Casal e se desenvolveu
com Dulce María Borrero, Juan Guerra Núñez e Alfonso
Hernández-Catá. José Martí firmou-se como figura maior da
nacionalidade, tanto por sua participação política na
independência, como por sua obra em poesia e prosa.
No século
XX, o romancista Luis Felipe Rodríguez destacou-se primeiro pelo
estilo de seus pequenos artigos e mais tarde pela complexa trama
psicológica de seus romances. Autores de grande projeção
internacional foram o poeta Nicolás Guillén, que incorporou ao
espanhol os ritmos negros de seu Sóngoro cosongo, José Lezama
Lima, poeta e romancista muito influente nas gerações
seguintes, e Alejo Carpentier, que em 1977 recebeu o Prêmio
Miguel de Cervantes.
Depois da
revolução, toda publicação literária centralizou-se no
Instituto do Livro, organização que chegou a editar dezenas de
milhões de volumes por ano. Cerca de setenta por cento desses
livros são obras de consulta ou de caráter técnico e
científico, muitas delas distribuídas com fins educativos. A
imprensa está nas mãos do governo, sendo suas principais
publicações o Granma (nome do barco de que desembarcou Fidel
Castro para chefiar a revolução), jornal oficial do Partido
Comunista de Cuba, e Juventud Rebelde, órgão oficial da União
de Jovens Comunistas.
Nas últimas
décadas, novas gerações de escritores, em geral jovens,
criaram uma literatura de qualidade e politicamente comprometida.
De outro lado, também foi produzida uma literatura cubana no
exílio, como a de Guillermo Cabrera Infante, e inclusive nas
prisões, como é o caso do poeta Armando Valladares.
Arquitetura.
O primeiro estilo da época colonial foi o hispano-mudéjar
(mouro da península ibérica), do século XVII, cujos expoentes
máximos são os palácios da praça das Armas, a Casa do Governo
e a Intendência, assim como as ruínas do convento de São
Francisco de Paula, todos em Havana.
A catedral
de Havana corresponde ao barroco do século XVIII. No século
seguinte desenvolveu-se o neoclassicismo, impulsionado pelo bispo
Juan José Díaz Espada y Landa, que tomou a polêmica decisão
de substituir os altares da catedral, de estilo barroco. Muitas
fábricas de fumo, grandes armazéns de açúcar, assim como
teatros e outros edifícios públicos, foram construídos segundo
os cânones do neoclassicismo.
As grandes
construções da última época colonial e início da republicana
são suntuosos palácios e bancos cujo estilo arquitetônico foi
influenciado pelos movimentos europeus e sobretudo pelos
americanos.