Aristóteles
Se
com Platão a filosofia já havia alcançado extraordinário
nível conceitual, pode-se afirmar que Aristóteles pelo rigor de
sua metodologia, pela amplitude dos campos em que atuou e por seu
empenho em considerar todas as manifestações do conhecimento
humano como ramos de um mesmo tronco foi o primeiro pesquisador
científico no sentido atual do termo.
Aristóteles
nasceu em Estagira (donde ser dito "o Estagirita"),
Macedônia, em 384 a.C. Em Atenas desde 367, foi durante vinte
anos discípulo de Platão. Com a morte do mestre, instalou-se em
Asso, na Eólida, e depois em Lesbos, até ser chamado em 343 à
corte de Filipe da Macedônia para encarregar-se da educação de
seu filho, que passaria à história como Alexandre o Grande. Em
333 voltou a Atenas, onde fundou o Liceu. Durante 13 anos
dedicou-se ao ensino e à elaboração da maior parte de suas
obras.
Obra e doutrina.
Perderam-se
todas as obras publicadas por Aristóteles, com exceção da
Constituição de Atenas, descoberta em 1890. As obras conhecidas
resultaram de notas para cursos e conferências do filósofo,
ordenadas de início por alguns discípulos e depois, de forma
mais sistemática, por Adronico de Rodes (c. 60 a.C.).
As
principais obras de Aristóteles, agrupadas por matérias, são:
(1) Lógica: Categorias, Da interpretação, Primeira e segunda
analítica, Tópicos, Refutações dos sofistas; (2) Filosofia da
natureza: Física; (3) Psicologia e antropologia: Sobre a alma,
além de um conjunto de pequenos tratados físicos; (4) Zoologia:
Sobre a história dos animais; (5) Metafísica: Metafísica; (6)
Ética: Ética a Nicômaco, Grande ética, Ética a Eudemo; (7)
Política: Política, Econômica; (8) Retórica e poética:
Retórica, Poética.
Como
nenhum filósofo antes dele, Aristóteles compreendeu a
necessidade de integrar o pensamento anterior a sua própria
pesquisa. Por isso começa procurando resolver o problema do
conhecimento do ser a partir das antinomias acumuladas por seus
predecessores: unidade e multiplicidade, percepção intelectual
e percepção sensível, identidade e mudança, problemas
fundamentais, ao mesmo tempo, do ser e do conhecimento.
O
dualismo platônico -- o mundo da inteligência separado do das
coisas sensíveis -- visava antes de tudo a salvar a ciência,
estabelecendo a coerência necessária entre o conceito e seu
objeto. O realismo de Aristóteles procura restabelecer essa
coerência sem abandonar o mundo sensível: explora a
experiência, e nela mesma insere o dualismo entre o inteligível
e o sensível.
O
projeto de Aristóteles visa em última análise restabelecer a
unidade do homem consigo mesmo e com o mundo, tanto quanto o
projeto de Platão, baseado numa visão do cosmos. Entretanto,
Aristóteles censura a Platão ter seguido um caminho ilusório,
que retira a natureza do alcance da ciência. Aristóteles
procura apoio na psicologia. O ser existe diferentemente na
inteligência e nas coisas, mas o intelecto ativo, que é
atributo da primeira, capta nas últimas o que elas têm de
inteligível, estabelecendo-se dessa forma um plano de
homogeneidade.
Lógica.
Nos
primeiros séculos da era cristã, os escritos lógicos de
Aristóteles foram reunidos sob a denominação de Órganon (já
que se considerava a lógica apenas um instrumento da ciência,
um órganon). Primeira das obras integrantes do Órganon, os
Tópicos classificam os diferentes modos de atribuição de um
predicado a um sujeito. Cabe destacar ainda nos Tópicos o
esboço da teoria do silogismo, que, no entanto, só foi
consolidada na Primeira analítica.
Essa
teoria se caracteriza pelo propósito de demonstrar a correção
formal do raciocínio, independentemente de sua verdade objetiva.
Assim, se todo B é A e se todo C é B, todo C é A. A primeira
proposição é a maior; a segunda, a menor; e a última, a
conclusão. Duas espécies de objeções se levantam contra a
teoria do silogismo. A primeira: o silogismo encerra uma
petição de princípio, uma vez que a verdade da conclusão já
está contida na maior. A segunda: o silogismo explicita
conteúdos de uma essência sem apoio da experiência.
Na
Segunda analítica se encontra, virtualmente, a resposta de
Aristóteles à primeira objeção: a aplicação da idéia geral
no caso particular não se processa mecanicamente, mas decorre de
uma operação de certo modo criadora, de conversão de um saber
potencial num saber atual. A idéia geral, além disso,
representa o resultado de difícil elaboração que transcende os
dados da percepção direta. Daí a necessidade de complementar o
método silogístico, que parte do geral para o particular, com o
método indutivo, que vai do particular ao geral. Todo o saber,
contudo, depende de princípios indemonstráveis, mas
necessários a qualquer demonstração: os axiomas.
Metafísica.
Sob esse título estão reunidos 14 livros de Aristóteles que
tratam do ser no sentido mais amplo ou mais radical. Duas
questões se destacam na metafísica aristotélica: a da unidade
do ser e a da existência de essências separadas.
Quanto
à primeira, admite Aristóteles diferentes maneiras de ser, que
ele denomina categorias, ressaltando dez: essência, qualidade,
quantidade, relação, lugar, tempo, situação, o ter, ação e
paixão. As categorias são os "gêneros supremos do
ser", já que a este se referem diretamente, como suas
determinações mais radicais. A ciência do ser tem um objeto
real, aquele a que, direta ou indiretamente, se referem todos os
"gêneros supremos": a essência. Aí se funda, para
muitos, a teoria da analogia do ser, pela qual se conciliam a
unidade e pluralidade deste. O ser unívoco existe, contudo,
separado do mundo sensível: é pura essência, à qual não se
pode atribuir nenhuma outra categoria além da própria
essência.
A
filosofia da natureza, um dos fundamentos da filosofia
especulativa de Aristóteles, sustenta que a mudança nos seres
não contraria o princípio de identidade, já que representa
apenas a atualização da potência nelas contidas. A partir
daí, o filósofo apóia sua física em duas teorias
filosóficas: a da substância e do acidente, e a das quatro
causas.
A
substância é o que existe por si, o elemento estável das
coisas, e o acidente, o que só noutro pode existir, como
determinação secundária e cambiante. Graças à união entre
os dois princípios, a substância se manifesta através dos
acidentes: "o agir segue o ser". Por outro lado,
dependem os seres de quatro causas: material, formal, eficiente e
final, estando ligada, à primeira, a potencialidade de cada ser;
à segunda, a especificidade; à terceira, a existência; e à
quarta, a intenção.
Ética e política.
No
diálogo perdido Da justiça já se anunciavam alguns dos temas
expostos nos oito fragmentos reunidos por Andronico sob o título
de Política. Escritos ao longo de toda a vida de Aristóteles,
são tudo o que resta da sua obra sobre o assunto.
Aristóteles
foi o primeiro filósofo a distinguir a ética da política,
centrada a primeira na ação voluntária e moral do indivíduo
enquanto tal, e a segunda, nas vinculações deste com a
comunidade. Dotado de lógos, "palavra", isto é, de
comunicação, o homem é um animal político, inclinado a fazer
parte de uma pólis, a "cidade" enquanto sociedade
política. A cidade precede assim a família, e até o
indivíduo, porque responde a um impulso natural. Dos círculos
em que o homem se move, a família, a tribo, a pólis, só esta
última constitui uma sociedade perfeita. Daí serem políticas,
de certo modo, todas as relações humanas. A pólis é o fim
(télos) e a causa final da associação humana. Uma forma
especial de amizade, a concórdia, constitui seu alicerce.
Os
regimes políticos caracterizam-se pela solução que oferecem
às relações entre a parte e o todo na comunidade. Há três
formas boas: monarquia, aristocracia e politéia (um compromisso
entre a democracia e a oligarquia, mas que tende à primeira). À
monarquia interessa basicamente a unidade da pólis; à
aristocracia, seu aprimoramento; à democracia, a liberdade. O
regime perfeito integrará as vantagens dessas três formas,
rejeitando as deformações de cada uma: tirania, oligarquia e
demagogia. A relação unidade-pluralidade aparece, ainda, sob
outro aspecto: o da lei e da concórdia como processos
complementares.
Poética.
Entre
as ciências do fazer, apenas a obra de arte mereceu estudo
sistemático de Aristóteles. Ele distingue as artes úteis das
artes de imitação, sendo que estas últimas, ao contrário do
que o nome parece indicar, exprimem o dinamismo criador do homem
completando a obra da natureza: ele tem de captar através da
idéia o que na natureza se encontra, por assim dizer, apenas
esboçado ou latente.
Na
Poética, Aristóteles confere grande relevo a sua teoria da
tragédia, que exerceu notável influência sobre o teatro desde
a época do Renascimento. Segundo sua própria concepção de
poesia, salientou a importância da imitação ou mímesis, não
como mero decalque da realidade, mas como uma recriação da
vida: a tragédia imita "não os homens, mas uma ação e a
vida". Também a ação, para ele, é fundamental: os
caracteres devem surgir como sua decorrência, recomendando o
filósofo o recurso à ação histórica, tomada de empréstimo
para a obra de arte. Preocupado ainda com o efeito da tragédia
sobre o espectador, enuncia seu conceito de cathársis
(purificação das paixões), objetivo que, para Aristóteles, é
indispensável.
Física e ciências naturais.
Basicamente
o conteúdo da Física de Aristóteles é a realidade sensível,
na qual a idéia é inteiramente envolvida pela matéria. O
físico deve possuir um acurado espírito de observação. A
realidade natural, em seus aspectos mais gerais, é autônoma,
contrapondo-se à espontaneidade acidental que exprime os efeitos
inesperados que as coisas produzem em nós. A natureza é uma
autocriação, e o ser potencial que nela atua é o movimento, o
qual se apresenta, sob o aspecto quantitativo, como aumento e
diminuição e, sob o aspecto espacial, como locomoção e
translação.
Dos
temas tratados na física aristotélica, o mais paradoxal é a
dinâmica. O conceito básico da dinâmica de Aristóteles é de
que um corpo inanimado não pode permanecer em movimento sem a
ação constante de uma força. Partindo de sua teoria do
movimento, o filósofo estabelece os dois princípios básicos
que se encontram no mesmo ser, a ação e a potência, os quais
constituem o fundamento da sua dinâmica. Em contraposição, a
matéria e a forma são os princípios básicos da estática.
O
mundo animal é analisado com amplitude e considerado por
Aristóteles como um espaço intermediário entre a física e a
psicologia. Os seres orgânicos apresentam aspectos diversos, mas
todos são constituídos de matéria (o corpo) e de forma (o
princípio do movimento). Os animais são mais perfeitos do que
as plantas e de constituição mais complexa.
A
anatomia aristotélica ressalta a importância da distribuição
da matéria nas funções orgânicas. O correlacionamento entre
os estados psíquicos e os processos fisiológicos só se
verifica nos seres mais desenvolvidos. Os animais superiores são
dotados de matéria, forma, movimento, sensibilidade e
potencialidade receptiva. Enquanto as plantas possuem apenas
propriedades nutritivas, os animais são também dotados de
propriedades sensitivas e motoras. O homem ocupa o vértice da
pirâmide, aliando a todas essas propriedades uma potencialidade
receptiva em grau elevado.
Com
a morte de Alexandre (323), Aristóteles teve de fugir à
perseguição dos democratas atenienses, refugiando-se em
Cálcide, na Eubéia, onde morreu em 322 a.C.