Comenius
A VIDA DE COMENIUS
O educador checo João Amós
Comenius ou Jan Amos Komenský, seu nome original, nasceu em
28 de março de 1592, na cidade de Uherský Brod (ou Nivnitz),
na Moravia, região da Europa Central pertencente ao reino da
Boêmia (antiga Theco-Eslováquia).
Seus pais Martinho e Ana,
também eslavos, eram cristãos adeptos dos irmãos Morávios,
uma seita cuja história remota aos tempos de Jan Huss, líder
religioso muito popular no século XV, chegando ser reitor da
Universidade de Praga.
Essa seita dos irmãos Morávios
era muito rígida em doutrina e conduta, e destacava-se pelo
extremo apego às Sagradas Escrituras, pela humildade e pela
profunda piedade. Adotavam como língua literária o checo em
vez do latim.
Comenius fora acusado de não
ser, na realidade, um erudito latino; fato é que Comenius
não era em nenhum sentido um genuíno humanista, embora
tivesse escrito textos para facilitar a aprendizagem da
língua latina. Ele não se apaixonou pelo encanto da
eloqüência ciceroniana e não reverenciou a literatura
clássica. Negou completamente a pretensão suprema do
Humanismo, o valor moral da literatura pagã.
Alegou que na verdade queria
eliminar por completo o fardo dos escritores clássicos, e
desejava fazer isso no interesse do bem estar moral e
espiritual dos alunos.
Sua infância foi trágica. Aos
12 anos seus pais e suas duas irmãs morreram, tendo ele
ficado só e ao abandono. Sendo obrigado a viver com uns
tutores rudes, contribuindo para que sua educação infantil
fosse tão descurada.
Este episódio ficou
indelevelmente marcado em sua personalidade. Levando-o a
dispensar uma atenção peculiar à infância, durante toda a
sua existência, organizando um sistema próprio de educação
infantil; visando à reforma da humanidade.
Aprendeu seus rudimentos de
leitura, escrita, cálculo e catecismo, em uma escola dos
irmãos Morávios.
Na juventude, seu modelo de
escola era simplesmente desestimulador. Possuía em
particular, uma seriedade sombria, era desprovida de
atrativos, e usavam a prática da famigerada pedagogia da
palmatória. Causando-lhe profunda decepção.
Ao concluir seus estudos
secundários, optou pela carreira eclesiástica, quando
estudou Teologia na faculdade Calvinista de Herborn, na
Alemanha.
Aí Comenius adquire uma boa
formação cultural, e, ainda como estudante apresenta duas
teses de doutorado: “Problemata miscelania” e “Syloge
quaestiorum Controversum”, ambas alvo de elogios de seus
professores. Época em que ampliou e aprofundou suas
convicções religiosas além de haver adquirido uma vasta
cultura enciclopédica e desenvolvido o espírito reformador
que o acompanharia durante toda a sua vida.
Sua vida está em ativa,
Comenius não pára. Redige um dicionário de expressões
elegantes, transfere-se para Heidelberg a fim de aperfeiçoar
seus conhecimentos de astronomia e matemática. Quando
retorna para por em prática tudo o que aprendeu.
Passa brevemente em Praga, e
chega a Prerov, maior centro da comunidade morávia,
estabelecendo-se no magistério.
Cheio de novos conhecimentos,
e inconformado com o esquema de educação vigente, procede
uma verdadeira reforma em sua escola. Com a aplicação de
métodos mais eficientes para o ensino das ciências e das
artes.
Passado dois anos como
docente, é ordenado pastor dos irmãos Morávios (1616),
estabelecendo residência na cidade de Fulnek, onde se casa
com Madalena Vizovska. Tendo com ela seus dois primeiros
filhos aos 24 anos.
Desempenhando muito bem seu
papel como professor e como pastor. É nomeado diretor das
escolas da Unidade.
É apontado como adepto da
fraternidade Rosacruz, fato que ainda não foi esclarecido
devidamente em sua biografia.
Passados muitos anos após a
morte de seus pais e suas duas irmãs, ocorre outra tragédia
na vida de Comenius. Com a Guerra dos Trinta Anos, conflito
religioso desencadeado entre católicos e protestantes na
Alemanha, e posteriormente em toda a Europa. Sua família
sofre um grande martírio, junto com a população
Tcheco-Eslováquia.
Já em 1621, exércitos
espanhóis invadem e incendeiam a cidade de Fulnek, onde,
Comenius perde todos os seus livros e manuscritos. E como se
não bastasse, para completar, perde também sua mulher e seus
dois filhos vitimados pela epidemia (peste).
Frente a tantas agruras, não
desanima, e recomeça tudo. Produzindo uma série de escritos
de cunho religioso a fim de recuperar os ânimos da
irmandade. Que perseguidos fogem para a Polônia.
Em Leszno, se casa em segundas
núpcias com Dorotéia Cirilo, filha de um influente bispo da
Unidade. Reanimado retorna às funções de professor e pastor.
Sua fama chega à Inglaterra, e
convidado vai à Londres, sendo recebido com todas as honras.
Aumenta sua fama e ultrapassa as fronteiras britânicas. É
convidado inclusive para assumir a reitoria da já famosa
Universidade de Harvard. Por razões políticas não aceita.
Passa por outros países,
fixando-se novamente em Leszno. Na Suécia Comenius
encontra-se com Descartes, no castelo de Endegeest, nas
cercanias de Leide. Diz-se que o pensador francês devia
simpatizar com o mestre morávio, porque entre eles havia
muitos pontos em comum.
Mas o destino realmente
conspirava contra Comenius. E veio outra tragédia. Outro
incêndio destruiu sua casa e, mais uma vez perde sua valiosa
biblioteca.
Em 1648, em Leszno, sua mulher
Dorotéia morre, deixando cinco filhos, dois crescidos e três
pequenos.
Pobre e doente. Vítima da
incompreensão da comunidade busca asilo em diversas cidades
alemãs, mas terminou indo para Holanda, onde passara os
derradeiros anos de sua vida.
Em 1649, Comenius casou em
terceira núpcias, em Johana Gajusová.
Instala-se em Amsterdã, e
reúne forças para prosseguir seu trabalho de educador e
reformador social. E ele cresce outra vez.
As autoridades holandesas,
conscientes do valor de Comenius, propõem ao hóspede a
publicação de todas as suas obras pedagógicas, muitas das
quais já eram bastante conhecidas no país.
Feliz, o grande sábio morávio
vive na Holanda, experimentando uma nova e reconfortante
vida. E na ultima fase de sua vida dedica-se a ser um
apologista da paz, propugnando pela fraternidade entre os
povos e as igrejas.
Sua vida chega, então, ao fim.
Em 1670, com quase oitenta anos, adoece. E antes de morrer
no dia 15 de novembro, ainda encontra fôlego para escrever
um resumo de seus princípios pedagógicos.
Comenius morre cercado por
familiares e amigos, e é sepultado numa pequena igreja em
Naarden, onde fora construído seu mausoléu.
Em 1956 a Conferencia
Internacional da UNESCO realizada em Nova Delhi delibera a
publicação das obras de Comenius e o aponta como um dos
primeiros propagadores das idéias que inspiram a fundação da
UNESCO.
Comenius foi muito versátil em
matéria de assuntos. E podem ser classificadas em três
categorias:
a)
as que tratam
exclusivamente de princípios educacionais;
b)
outras que
tratam de recursos auxiliares para a instrução na sala de
aula; e
c)
as obras mistas,
nas quais se incluem as religiosas, como sermões, histórias
eclesiásticas, hinários, catecismos, traduções e trabalhos
proféticos.
Todos os pesquisadores são
unânimes em apontar a Didática Magna, ou A grande Didática,
como sendo sua obra-prima e sua maior contribuição para o
pensamento educacional, e é sem dúvida o primeiro tratado
sistemático de pedagogia, de didática, e até de sociologia
escolar.
Como que compendiando todo o
ideário pedagógico de Comenius, foi sobre tudo ela que lhe
mereceu ser considerado o “Galileu da Educação”. Tamanha
obra inicia-se com uma saudação aos leitores, seguida de um
apelo aos responsáveis pelas coisas humanas, onde se lê:
“se, portanto, queremos igrejas e Estados bem ordenados e
florescentes, e boas administrações, primeiro que tudo
ordenemos as escolas e façamo-las florescer, a fim de que
sejam verdadeiras e vivas oficinas de homens, e viveiros
eclesiásticos, políticos e econômicos. Assim, facilmente
atingiremos nosso objetivo; doutro modo nunca o
atingiremos.” Comenius. Mostra a seguir que a arte didática
é útil aos pais, aos professores, aos estudantes, as
escolas, aos Estados, a Igreja e até no Céu.
Entre tantas outras obras
Comenius escreveu:
- O labirinto do mundo. 1623
- Didática checa. 1627 - Guia
da escola materna. 1630
- Porta aberta das línguas.
1631
- Didática Magna (versão
latina da Didática checa). 1631
- Novíssimo método das
línguas. 1647
- O mundo ilustrado. 1651
- Opera didática omnia ab anno
1627 ad 1657
- O anjo da paz. 1667
- A única coisa necessária.
1668
A OBRA PRIMA ANALISADA
De fronte a questões
políticas, muitos países passaram por momentos difíceis no
século XVII, cujas conseqüências foram bastante danosas aos
interesses educacionais.
Tal situação, comum em outros
países europeus, gerou um enorme desestímulo ao estudo por
parte dos filhos dos nobres, chegando ao cúmulo de um deles
dizer, em franco estado de desespero:
“Juro que antes de fazer de
meu filho um mestre-escola, o enforcaria. (...) Quanto ao
saber que se busca nos livros deve-se deixar aos vadios.”
Para compreender o século XVII
e todas as suas potencialidades e contradições é útil e
oportuno partir de Comenius e do seu modelo de educação
universal que veio mediar reciprocamente ciência, história e
utopia sobre um pensamento fortemente original e, ao mesmo
tempo, rico de passado e carregando de futuro.
Em decorrência do humanismo,
que significava, praticamente uma saída as possibilidades
humanas para solução dos problemas do homem e uma escapada
ou recusa para buscar essa solução milagrosa, ou seja, fora
da natureza, o método de dedução experimental surge como
recurso para, através da compreensão do relacionamento das
coisas e dos agentes naturais, tentar dirigir a natureza em
seu próprio benefício. Utilizaram-se da física, a química, a
mecânica celeste, a medicina, a geometria.
Francis Bacon, conseguiu
difundir as bases de um grande e profundo movimento de
idéias e práticas, imprimindo uma orientação menos
formalista e mais concreta e humana ao pensamento pedagógico
e aos processos de instrução escolar. Não foi o criador do
método científico, mais o soube reformular e divulgar.
Estimulando a inclusão do conhecimento científico nos
programas escolares, acompanhado de facilidades de pesquisa
e prática.
Abriu as portas para Wolfgang
Ratke. Onde posteriormente foram reformulados de modo
sistemático as varias experiências, servindo como embrião de
quase toda a teoria educacional dos séculos seguintes.
Se de um lado Comenius
influenciou decisivamente a pedagogia posterior, vale
lembrar que de outro lado, ele extraiu uma grande
contribuição encontrada nos trabalhos de Locke. A Didática
de Comenius talvez não tivesse encontrado a repercussão que
conseguiu; isso se deu devido a complementação recebida que
a tornou viável.
“Percebendo que a educação,
menos ou mais do que o armazenamento de informações e
conhecimentos, seria a aquisição de equipamentos de hábitos,
conforme a seguinte ordem de valores: saúde, virtude,
sabedoria, serenidade e aprendizagem mental.”
A PEDAGOGIA DE COMENIUS
Teve sua primeira versão em
1657. Era uma tradução latina e em razão do papel mais amplo
que assumiria, alterou várias de suas partes, exageradamente
ligadas à situação política contingente, e deixou de
oferecê-la a nação boêmia, dedicando-a a “todos os que
presidem os destinos humanos, aos ministros de Estado, aos
pastores das igrejas, aos diretores das escolas, aos pais e
aos pastores das igrejas, aos diretores das escolas, aos
pais e aos preceptores dos jovens”.
Comenius submeteu o manuscrito
da tradução latina à leitura de várias pessoas. A uma delas,
o historiador Joaquim Hubner, pediu, em especial, um parecer
técnico sobre a publicação. Que foi cruel; se manifesta
contrário a publicação; e até menospreza.
Aborrecido diante das criticas
Comenius, deixa de lado o seu projeto de edição, durante
duas décadas.
Didática significa ensinar: de
não muito tempo a esta parte homens ilustres têm-se
empenhado em estudar essa arte por sentirem compaixão do
trabalho de Sisifo realizado pelos escolares; diferentes das
tentativas, diferentes os resultados.
Nós ousamos uma Didática
Magna, uma arte universal de ensinar tudo a todos; de
ensinar de modo certo, para obter resultados; ensinar de
modo fácil, sem que docentes e discentes se molestem ou
enfadem.
Quando se refere à utilidade
da arte didática de Comenius, questiona-se a quem interessa
que a didática seja bem fundamentada. Então se dá uma
resposta.
1.
Aos Pais: muitos
pais até hoje não sabiam o que esperar para seus filhos. Mas
uma vez que o método de ensino tenha atingido infalível
certeza, obter-se-á sempre com a ajuda de Deus o resultado
esperado.
2.
Aos Preceptores:
a maioria sempre ignorou a arte de ensinar, e para cumprir
com seu dever, consumiam-se e exauriam suas forças em
diligentes atividades; ou mudavam de método, procurando
obter resultados por este ou aquele caminho, nunca sem um
aborrecido gasto de tempo e energia.
3.
Aos Estudantes:
sem dificuldades, sem enfado, sem gritos e pancadas,
praticamente brincando e divertindo-se, aos mais elevados
graus do saber.
4.
As escolas: com
um método mais eficaz, não só poderão manter-se em plena
florescência como também melhorar indefinidamente.
5.
Aos Estados:
segundo o citado testemunho “Qual o fundamento de todos os
estados? A educação dos jovens. As videiras que não são bem
cultivadas nunca produzem bons frutos”.
6.
A Igreja:
somente escolas bem fundamentadas poderão evitar que faltem
doutores instruídos e a estes, discípulos capazes nas
igrejas.
7.
Finalmente é de
interesse do CÉU que as escolas sejam reformadas, promovendo
uma educação idônea e universal das almas.
Comenius reclamava que nenhuma
escola havia atingido tal grau de perfeição, qual seja, o de
promover o ensino para todos. E mesmo nos dias atuais isto
ainda é uma utopia para muitos países, e assim ainda
permanecerá por muito tempo. Em seu Projeto Pedagógico
Comenius propõe um modelo de organização escolar segundo o
qual:
I.
Toda a juventude
nela seja educada
II.
Seja educada em
todas as coisas que podem tornar o homem sábio, honesto e
piedoso.
III.
Essa formação,
que é a preparação apara a vida seja concluída antes da
idade adulta.
IV.
E seja tal que
se desenvolva sem severidade e sem pancadas, sem nenhuma
coarctação, com a máxima delicadeza e suavidade, quase de
modo espontâneo (assim como um corpo vivo aumenta lentamente
sua estrutura, sem que seja preciso esticar e distender seus
membros, visto que alimentado com prudência, assistido e
exercitado, o corpo quase sem aparecer-se, adquire
robustez); da mesma forma, os alimentos, os nutrientes, os
exercícios se convertam no espírito em sabedoria virtude e
piedade.
V.
Todos sejam
educados para uma cultura não vistosa, mas verdadeira, não
superficial mas sólida, de tal sorte que o homem, como
animal racional, seja guiado por sua própria razão e não
pela de outrem e se habitue não só a ler e a entender nos
livros a opiniões alheias, mas a penetrar por si mesmo na
raiz das coisas e delas extrair autêntico conhecimento e
utilidade. A mesma solidez é necessária para a moral e a
piedade.
VI.
Que essa
educação não seja cansativa, mas facílima: que aos
exercícios de classe não sejam dedicadas mais de quatro
horas, de tal modo que um só preceptor possa ensinar até cem
alunos.
Como que assumindo uma posição
de psicólogo, trata das diferenças individuais e chega a
estabelecer uma espécie de psicologia educacional. Com a
qual classifica os alunos conforme critérios de
inteligência. Conforme seu juízo de valor. Enquadram-se em
seis tipos:
a)
o inteligente e
ávido de saber
b)
o inteligente e
vagaroso
c)
o inteligente
ávido de saber mais obstinado
d)
o obtuso lento
mais dócil e ávido de saber
e)
o obtuso lento e
preguiçoso e
a)
o deficiente
Além da classificação Comenius
ainda prescreve uma orientação adequada e não exclui nenhum,
pois seu objetivo é ensinar tudo à todos,
indiscriminadamente.
UMA SÍNTESE DO MÉTODO
COMENIANO
QUE CONSISTE NOS SEGUINTES PRINCÍPIOS:
"PRIMEIRO PRINCÍPIO”
A natureza aguarda o momento
propício
Por exemplo, o pássaro não
inicia a reprodução no inverno, quando tudo está frio e
rígido, nem no verão, quando tudo está abrasado e extenuado
pelo calor, nem no outono, quando a vitalidade das coisas
decresce com o sol e predomina o frio, que é inimigo das
coisas novas, mas a inicia na primavera, quando o sol dá
vida e vigor a todas as coisas. (Op. Cit., 147)
Depois cita o exemplo do
jardineiro que fica atento para que tudo aconteça no tempo
devido e por isso não semeia durante o inverno(porque a
linfa não está aderente à raiz), nem no verão (porque a
linfa já está espalhada pelos ramos), nem no outono (porque
a linfa se está retirando pela raiz), mas sim na primavera,
quando o humor começa a difundir-se a partir da raiz e a
alimentar as partes mais altas da planta. Cita outros
exemplos, como sempre retirados da natureza para depois
criticar que as escolas contrariam os princípios naturais
pelo menos de dois modos:
1. Não aproveitando o tempo
oportuno para exercitar os engenhos (inteligências).
2. Não organizando
cuidadosamente os exercícios de modo que tudo avance
gradualmente e sem erros". (Op. Cit., 148)
Depois comenta que a criança
não pode ser instruída enquanto é pequena demais, porque a
raiz da inteligência ainda está escondida; é tardio demais
instruir o homem na velhice, porque a inteligência e a
memória estão falhas; e conclui que a formação do homem deve
ocorrer durante a idade primaveril (ou seja, na infância,
símbolo de primavera), que as horas matinais são as mais
propícias aos estudos, e compara que a manhã corresponde à
primavera; o meio-dia, ao verão; a tarde ao outono, a noite,
ao inverno, e finalmente diz: "Tudo o que será aprendido
deve ser disposto segundo a idade, para que nunca se ensine
nada que não possa ser compreendido". (Op. Cit., 148)
“SEGUNDO PRINCÍPIO”
A natureza prepara a matéria
antes de começar a introduzir-lhe a forma
Por exemplo, para produzir uma
criatura semelhante a si, o pássaro primeiramente forma a
semente com uma gota de seu sangue; depois, prepara o ninho
para chocar os ovos e, finalmente, chocando-os com seu
próprio calor, forma a criatura e a faz sair do ovo. (Op.
Cit., 149)
Citando outros exemplos, como
o do arquiteto experiente que antes de começar a construir
um edifício, junta primeiramente o material de construção, e
o pintor que antes prepara a tela (doravante serão citados
apenas um exemplo para cada Princípio e será sempre o do
pássaro), ele diz que as escolas contrariam esse princípio;
Porque não cuidam previamente
de Ter os vários instrumentos, livros, quadros, exemplos e
modelos, sempre prontos para o uso, mas só quando há
necessidade é que isto ou aquilo é procurado, feito, ditado
ou transcrito; e quando isso é feito por um instrutor
inexperiente ou negligente (e essa raça é sempre numerosa),
os resultados são escassos; é como se um médico, precisando
administrar um remédio, saísse pelos campos e bosques á cata
de ervas e raízes, pondo-se a cozê-las e destilá-las ao
passo que seria mais prático Ter os remédios já prontos para
todos os casos.
Em segundo lugar, porque nos
próprios livros escolares não é observada a ordem natural,
segundo a qual a matéria precede e a forma lhe sucede. (Op.
Cit., 149-150)
Então ele critica as escolas
afirmando que elas ensinam as palavras antes das coisas e
diz que para corrigir o método desde os fundamentos é
preciso:
1. Ter prontos os livros e
todos os outros instrumentos didáticos.
2. Que o intelecto seja
formado antes da língua.
Que não se aprenda nenhuma
língua a partir da gramática, mas apenas a partir de autores
apropriados.
As disciplinas reais devem
preceder as lógicas.
Os exemplos devem preceder as
regras". (Op. Cit., 151)
“TERCEIRO PRINCIPIO”
Ao obrar, a natureza toma um
indivíduo apto e prepara-o antes oportunamente.
Por exemplo: o pássaro não põe
uma coisa qualquer no ninho, para chocar, mas um objeto do
qual possa nascer um passarinho, ou seja, o ovo. Se junto
dele alguém puser um seixo ou qualquer outra coisa, ele o
rejeitará como inútil. (Op. Cit., 151)
Como sempre, Comenius cita
outros exemplos, todos com a mesma linha de raciocínio, para
depois criticar as escolas afirmando que elas contrariam
esse princípio não tanto por aceitarem crianças cretinas ou
tolas (pois todas devem ser aceitas), mas porque "não se
atribui às escolas a tarefa de proceder de tal modo que
todos os que devam ser formados homens não saiam delas antes
que a educação se complete".(Op. Cit., 152).
Ele propõe:
·
Quem ingressar
na escola deve ser perseverante.
·
Para qualquer
estudo encetado, é preciso predispor as mentes dos alunos.
·
Devem ser
afastados dos estudantes todos os tipos de obstáculos".
(Op. Cit., 153)
“QUARTO PRINCÍPIO”
Em suas obras, a natureza não
procede confusamente, mas de modo claro.
Por exemplo: Ao formar um
passarinho, a natureza em dado momento constitui os ossos,
os nervos e as veias, e em outro fortalece-me a carne,
recobre-o de penas, para em seguida ensiná-lo a voar". (Op.
Cit., 154)
Mas nas escolas, segundo
Comenius, "há uma grande confusão que deriva de se querer
abarrotar as mentes dos alunos com muitos conhecimentos ao
mesmo tempo". (Op. Cit., 154)
Sua proposta: Que nas escolas
também os alunos se dediquem em dado período a uma única
matéria de estudo.
Na verdade, hoje é muito comum
esse tipo de estudo nos cursos modulares ministrados nas
faculdades.
“QUINTO PRINCÍPIO”
A natureza começa todas as
operações pelas partes mais internas.
Por exemplo: a natureza não
forma antes as unhas do passarinho, ou as penas, ou a pele,
mas as vísceras; as coisas externas vêm depois, no momento
oportuno. (Op. Cit., 155)
Depois de citar outros
exemplos, como sempre faz para ilustrar e fundamentar os
seus Princípios Educacionais, Comenius diz:
"Portanto, erram os
instrutores que querem levar a cabo a formação da juventude
ditando muitas coisas e obrigando decorá-las sem uma
cuidadosa explicação. Erram também os que querem explicar
mas não conhecem o método, não sabem de que modo abrir
lentamente a raiz para nela inserir o enxerto das ciências.
Desse modo estragam os alunos como alguém que, para cortar
uma planta, usasse um bastão ou um bate-estacas em vez de
uma faca. Por isso:
Antes se forme o entendimento
das coisas, depois a memória e, em terceiro lugar, a língua
a as mãos.
Os docentes devem procurar
todos os caminhos para abrir o intelecto e usá-los com
sabedoria". (Op. Cit., 156)
“SEXTO PRINCÍPIO”
A natureza inicia todas as
suas formações pelas coisas mais gerais e acaba pelas mais
particulares.
Exemplo: para produzir um
pássaro a partir de um ovo, não delineia nem forma de início
a cabeça, os olhos, as penas, as unhas, mas aquece toda a
massa do ovo e estende veias por toda graças ao movimento
produzido pelo calor, de tal modo que o passarinho fique
totalmente delineado (ou seja, a cabeça, as asas, as patas
em embrião) e por fim as partes se desenvolvem gradualmente,
até atingirem a perfeição". (Op. Cit., 156-157)
Comenius critica as escolas
dizendo que o ensino das ciências será mal conduzido se for
particularizado, se antes forem propostas as linhas mais
simples e gerais de todo ensinamento; e que nem é possível
instruir ninguém perfeitamente numa única ciência sem
relacioná-las com as outras.
Será que não estaria sendo
lançado aí o principio da interdisciplinaridade, hoje tão
decantado pelos Planos Curriculares Nacionais?
Fundamentalmente Comenius
propõem:
"Que qualquer língua, ciência
ou arte seja ensinada no início apenas por meio de
rudimentos simples, de modo que delas se tenha uma idéia
geral para depois se aprimorar o estudo por meio de regras e
exemplos, e, em terceiro lugar, por meio de sistemas
completos, incluindo as irregularidades; finalmente, se
necessário, que sejam incluídos comentários. Na verdade,
quem compreende uma coisa desde seus fundamentos não precisa
de comentários, aliás pouco depois poderá fazê-los por conta
própria". (Op. Cit., 158-159)
“SÉTIMO PRINCÍPIO”
A natureza não procede por
saltos, mas gradualmente.
A formação de uma passarinho
procede por graus, que não podem ser saltadas nem propostos,
até que o passarinho, quebrando a casca do ovo, dele saia. A
seguir, a mãe não lhe ordena logo que voe ou que saia em
busca de alimento (pois ele não seria capaz disso), mas
alimenta-o e, aquecendo-o com o seu próprio calor, ajuda o
crescimento das penas. Depois de nascidas todas as penas,
não o empurra logo para fora do ninho para que voe, mas
leva-o a exercitar-se gradualmente, e no início ensina-o
abrir as asas no próprio ninho, depois a movimentar-se
elevando-se acima do ninho; a seguir, permite que ele tente
o vôo fora do ninho, mas sempre nas proximidades, e só
depois deixa que voe de galho em galho, de árvore em árvore,
de altura: assim, finalmente, pode confiá-lo com segurança
ao céu aberto. Eis que todas essas ações exigem o movimento
oportuno, e não só o momento, mas os graus, e não só os
graus, mas uma série imutáveis de graus. (Op. Cit.,159-160)
Depois de citar outros
exemplos, Comenius argumenta:
"Portanto, é um absurdo que os
mestres não distribuam os estudos, para si e para os alunos,
de tal modo que não só uns se sucedam naturalmente aos
outros, mas que cada matéria seja completada em dado limite
de tempo. Se não se estabelecem muito bem os fins, os meios
para atingir esses fins e a ordem dos meios, será fácil
esquecer ou inverter alguma coisa, e todo o estudo de algum
modo será prejudicado.
Conclui-se, pois, que:
Todas as matérias de estudo
sejam divididas em aulas, de tal modo que as primeiras
sempre aplanem e iluminem o caminho das seguintes.
O tempo deve ser bem
distribuído para que, a cada ano, mês, dia, hora, seja
atribuída uma tarefa particular.
A medida do tempo e dos
trabalhos deve ser rigidamente observada, para que nada seja
esquecido ou invertido". (Op. Cit., 160)
“OITAVO PRINCÍPIO”
Depois de iniciar uma obra, a
natureza não a interrompe, mas conclui.
Ainda como sempre, usando em
primeiro lugar o exemplo do pássaro, diz Comenius:
"O pássaro que, por natural
instinto, começou a chocar os ovos não pára enquanto eles se
abrem: se parasse, nem que por algumas horas, logo o feto
morreria de frio. Depois que os passarinhos nascem, não pára
de aquecê-los até que, robustecidos e cobertos de penas,
eles possam se expor ao tempo." (Op. Cit., 161)
Dado o exemplo da natureza,
ele argumenta: "Está claro, portanto, que seria prejudicial
mandar as crianças para a escola a intervalos de meses e de
anos, distraindo-as com outras preocupações. O preceptor
também erra se inicia, com o aluno, ora uma coisa, ora
outra, sem nunca se aprofundar em nada com seriedade. Também
erra se a cada hora não estabelece nem leva a termo nada de
definitivo, de tal modo que o progresso seja cada vez mais
notável. Onde falta esse calor tudo se esfria; não por acaso
se diz que o ferro deve ser batido enquanto está quente; se
esfriar, batê-lo com o martelo será em vão, sendo necessário
levá-lo de volta ao fogo com prejuízo inevitável, seja de
tempo, seja de ferro. Porque a cada vez que se volta ao
fogo, perde-se um pouco do material".
E em seguida conclui:
Por isso:
Quem se dedica aos estudos
deve freqüentar a escola até se tornar homem instruído,
dotado de moral e religioso.
A escola deve ser um lugar
tranqüilo, distante da turba e das distrações.
É preciso fazer tudo o que
deve ser feito, sem interrupções.
Não se deve permitir que
ninguém se distraia ou se afaste (por nenhum motivo)". (Op.
Cit., 161-162)
Com este princípio,
estimulando a presença do aluno na escola até a sua completa
formação, Comenius estava condenando a evasão, hoje uma
grande preocupação do governo.
“NONO PRINCÍPIO”
A natureza está sempre atenta
para evitar as coisas contrárias e nocivas.
Ao aquecer os ovos enquanto
choca, o pássaro os defende do vento forte, da chuva e do
granizo, expulsando cobras, aves de rapina e outros perigos.
(...) Portanto, é pouco prudente apresentar aos jovens,
desde o início, controvérsias sobre algum assunto, ou seja,
pôr em dúvida coisas que ainda precisam ser aprendidas. Essa
atitude porventura não eqüivale a sacudir com violência uma
planta que está assentando raízes?
Seja, pois, deliberado que:
Não se deve dar aos jovens
nenhum livro, a não ser os de sua classe.
Esses livros devem ser tão
bem-feitos que possam merecidamente ser definidos como
inspiradores de sabedoria, virtude, piedade.
Não deve ser toleradas as más
amizades nas escolas ou nas suas imediações.
Se tudo isso for
escrupulosamente observado, é quase impossível que as
escolas não atinjam seu fim". (Op. Cit., 162-163)
O projeto pedagógico de
Comenius não se esgota aqui. Muita coisa está contida nos
seus ensinamentos transcritos noutra parte deste trabalho e
outras serão vistas conforme a ótica dos estudiosos cujas
obras sobre Comenius foram selecionadas tendo em vista
oferecer uma visão mais ampla e diversificada do estudo.
Assim, na ótica de Fargnoli
(2000:10-11) "a didática de Comenius se assentava nos
seguintes princípios:
A finalidade da educação é
conduzir à felicidade eterna com Deus, pois é uma força
poderosa de regeneração da vida humana. Todos os homens
merecem a sabedoria, a moralidade e a religião, porque
todos, ao realizarem sua própria natureza, realizam os
desígnios de Deus. Portanto, a educação é um direito natural
de todos.
Por ser parte da natureza, o
homem deve ser educado de acordo com o seu desenvolvimento
natural, isto é, de acordo com as características e os
métodos de ensino correspondentes, de acordo com a ordem
natural das coisas.
A assimilação dos
conhecimentos não se dá instantaneamente, como se o aluno
registrasse de forma mecânica na sua mente a informação do
professor, como o reflexo num espelho. O ensino, ao invés
disso, tem um papel decisivo à percepção sensorial das
coisas. Os conhecimentos devem ser adquiridos a partir da
observação das coisas e dos fen6omenos, utilizando e
desenvolvendo sistematicamente os órgãos dos sentidos.
O método indutivo consiste,
assim, da observação direta, pelos órgãos dos sentidos, das
coisas, para o registro das impressões na mente do aluno.
Primeiramente as coisas, depois as palavras. O planejamento
de ensino deve obedecer ao curso da natureza infantil; por
isso as coisas devem ser ensinadas uma de cada vez. Não se
deve ensinar nada que a criança não possa compreender.
Portanto, deve-se partir do conhecido para o desconhecido".
Discorrendo sobre o modelo
educacional comeniano, Gambi (1999:290) esclarece que
Comenius "avança uma proposta de organização escolar que
prevê quatro graus sucessivos, para cada um dos quais
delineia objetivos, os conteúdos e os métodos, com uma
meticulosidade e uma minúcia por vezes excessivas, que
desemboca na repetitividade e no pedantismo. As quatro
escolas são:
A escola maternal para a
infância, a mais importante, a que prepara "o terreno da
inteligência" e à qual está ligada "toda a esperança da
reforma universal das coisas":
A escola nacional ou vernácula
para a meninice, cuja finalidade "é fazer adquirir prontidão
e esbelteza para o corpo, para os sentidos, para a
inteligência". É articulada em seis classes nas quais se
aprendem a leitura, a escrita, a matemática, mas também os
primeiros preceitos morais e os rudimentos da fé;
A escola de latim ou ginásio
para a adolescência, cujo objetivo é "colocar em forma a
floresta de noções recolhidas pelos sentidos para um uso
mais claro do raciocínio". É chamada de latim porque educa
para a elegância expressiva e para a leitura pessoal dos
textos;
A academia para a juventude,
cuja finalidade é "a formação da luz harmônica, plena,
universal, que congrega sapiência, virtude e fé". É chamada
academia porque se coloca como "conselho" de sábios e está
situada em lugar apartado e tranqüilo".
E continua Gambi (1999:292)
"ao lado das quatro escolas já apresentadas na Didacta
Magna ele prevê outras quatro:
A escola pré-natal ou do seio
materno: tem por objetivo fornecer aos pais conselhos úteis
no plano moral e higiênico-sanitário;
A escola da virilidade:
destina-se à idade madura e tem a finalidade de orientar a
"práxis" da vida do indivíduo através do temor de Deus e o
empenho profissional;
A escola da velhice: é de
preparação para a morte e tem o objetivo de "conseguir
finalmente que toda a vida seja boa, enquanto boa será a sua
conclusão;
A escola da morte: "não se
destina apenas aos velhos, mas a todas as idades".
Comenius não se descuidou do
ensino das línguas ao qual deu atenção especial. Covello
(1991:50) cita as oito regras básicas adotadas por Comenius
para o ensino da língua:
1a. Aprenda-se cada
língua em separado.
2a. Ao estudo de
cada língua, consagra-se um período determinado de tempo.
3a.
Todas as línguas devem aprender-se mais com a prática do que
por meio de regras.
4a.Todavia, as
regras devem ajudar e confirmar a prática.
5a. As regras das
línguas sejam gramaticais, e não filosóficas.
6a. A norma para
escrever as regras de uma nova língua seja uma língua já
conhecida, para que se mostre apenas a diferença daquela
relativamente a esta.
7a. Os primeiros
exercícios de uma nova língua sejam acerca de matéria já
conhecida.
8a. Todas as
línguas podem, portanto, aprender-se por um só e mesmo
método."
ENSINAMENTOS DE COMENIUS
"As Sagradas Escrituras nos
ensinam primordialmente que não há caminho mais eficaz para
corrigir a corrupção humana que a correta educação da
juventude". (Comenius, 1997:27)
"Se for preciso curar a
corrupção do gênero humano, é preciso fazê-lo, sobretudo por
meio de uma atenta e prudente educação da juventude". (Op.
Cit., 29)
"Educar os jovens com
sabedoria significa, ademais, prover a que sua alma seja
preservada da corrupção do mundo; favorecer para que
germinem com grande eficácia - as sementes de honestidade
que neles se encontram, por meio de ensinamentos e exemplos
castos e assíduos". (Op. Cit., 30)
"Grande parte da juventude
cresce sem a devida educação, como uma selva que ninguém
cuida de plantar, irrigar, podar e fazer crescer bem. Por
esse motivo, hábitos e costumes selvagens e indômitos
acabaram prevalecendo em todo o mundo".(Op. Cit., 32)
"O que somos, fazemos,
pensamos, dizemos, inventamos, conhecemos, possuímos é como
uma escada com a qual, subindo sempre mais, alcançamos
degraus mais altos, mas nunca chegamos ao topo". (Op. Cit.,
44)
"Quem ama o poder e a riqueza
não encontrará onde saciar sua fome, mesmo que possua todo o
universo. Quem almeja demasiadas honras não ficará
satisfeito nem que seja adorado por todo o universo. Quem se
entrega aos prazeres, por mais que os sentidos se engolfem
em rios de delícias, tudo acaba se consumindo, e o desejo se
volta de um objeto para outro. Quem aplica o espírito no
estudo da sabedoria nunca encontrará o fim: quanto mais
souber, tato mais compreenderá que falta muito por saber".
(Op. Cit., 45)
"Três são as espécies de vida
para cada um de nós a três as moradas:O útero materno, a
Terra e o céu. Da primeira se entra na Segunda pelo
nascimento; da segunda, na terceira pela morte e pela
ressurreição; da terceira nunca se sai, por toda a
eternidade. Na primeira recebemos apenas a vida, com
movimentos e sentidos incipientes; na segunda, a vida, o
movimento, os sentidos, com os primórdios do intelecto; na
terceira, a plenitude absoluta de tudo". (Op. Cit., 46-47)
"Entendo por INSTRUÇÃO todo
conhecimento das ciosas, das artes e das línguas; por
COSTUMES, não só a correção do comportamento externo, mas o
equilíbrio interno e externo dos movimentos da alma; por
RELIGIÃO, a interna veneração com que o espírito humano se
liga e se vincula à divindade suprema".
(Op. Cit., 55)
"Quem prefere as coisas
agradáveis às saudáveis é tolo. E ainda mais tolo quem,
desejando ser homem, cuide mais dos ornamentos do homem que
se essência". (Op. Cit., 56)
"Todo homem nasceu com a
capacidade de adquirir a ciência das ciosas, antes de mais
nada porque é imagem de Deus". (Op. Cit., 58)
"O homem nada recebe do
exterior, mas só precisa expandir e desenvolver as que já
traz implícitas em si, mostrando a natureza de cada uma".
(Op. Cit., 59)
"No homem é inerente o desejo
de saber e também de enfrentar (e não apenas de suportar) os
esforços que isso implica. Tal já acontece na primeira
infância e nos acompanha por toda vida".(Op. Cit., 60)
"Os exemplos dos autodidatas
mostram com muita clareza que o homem, com a orientação da
natureza tudo pode alcançar".(Op. Cit., 61)
"Nosso cérebro, forja de
pensamentos, é com justiça comparado à cera, sobre a qual
são impressos os selos ou com a qual se moldam estatuetas.
De fato, assim como a cera que, adaptando-se a todas as
formas, pode-se plasmada e replasmada de todas as maneiras,
também o cérebro, abrangendo as imagens de todas as coisas,
recebe em si o que o universo contém". (Op. Cit., 62)
"Ah, como somos cegos não
reconhecemos que estão em nós as raízes de toda a harmonia".
(Op. Cit., 65)
"Nos movimentos da alma, a
roda principal é a vontade; os pesos que a fazem mover-se
são os desejos e os afetos que a fazem pender para um lado
ou para outro. O escapo, que aumenta e diminui o movimento,
é a razão que mede e determina o que deve acolher ou do que
deve fugir, onde e em medida. Os outros movimentos da alma
são como as rodas menores que seguem a principal. Se aos
desejos e aos afetos não for atribuído um peso
excessivamente grande, e se o escapo, que é a razão,
aumentar ou diminuir os movimentos discernimento, só poderá
seguir-se harmonia e o acordo perfeito nas virtudes, ou
seja, um equilíbrio conveniente entre as ações e paixões".
(Op. Cit.,66)
"É coisa torpe e nefanda,
sinal evidente de ingratidão, insistir na degeneração e
esquecer a regeneração!".(Op. Cit., 68)
"A natureza dá as sementes da
ciência, da honestidade, da religião, mas não dá a ciência,
a virtude, a religião; estas estão adquiridas apenas com a
prece, com o estudo, com o esforço pessoal". (Op. Cit., 71)
"A educação é necessária para
todos".(Op. Cit., 75)
"O que são os ricos sem
sabedoria, senão porcos engordados com farelo? Os pobres sem
o conhecimento das coisas o que são, senão burros de carga?
Um homem de bom aspecto mas ignorante o que é, senão um
papagaio de bela plumagem? Ou então, como disse
alguém(Diógenes Laércio), uma bainha de ouro com um punhal
de chumbo? A quem um dia caberá comandar outros, como reis,
príncipes, magistrados, pastores e doutores de igreja, a
estes, mais que a ninguém, é necessária a educação profunda
da sabedoria, assim como os guias precisam ter olhos
treinados, e os intérpretes a língua, a trompa precisa ser
capaz de tocar, e a espada de cortar. Do mesmo modo, os
súditos precisam ser iluminados, para que saibam obedecer
com prudência os que comandam com sabedoria: não por
obrigações e com servil obséquio, mas de bom grado e por
amor à ordem. Isso porque uma criatura racional deve ser
guiada pela razão, e não por meio de gritos, cárcere,
pancadas e aqueles que agem de modo diferente ofendem a
Deus, que neles também opôs sua imagem e os assuntos humanos
estarão cheios - como estão - de violência e
descontentamento. Fique estabelecido, pois, que a todos os
que nasceram homens a educação é necessária, para que sejam
homens e não animais ferozes, não animais brutos, não paus
inúteis. Segue-se que alguém só estará acima dos outros se
for mais preparado que os outros". (Op. Cit., 75-76)
"No homem é sólido e dourado
apenas e o que foi absorvido na primeira idade". (Op. Cit.,
80)
"Para orientar e guiar as
crianças, são mais úteis os exemplos do que as regras: se
algo é ensinado a uma criança, pouco fica gravado, mas se
for mostrado o que os outros fazem, ela logo os imitará, sem
precisar de ordens". (Op. Cit., 86)
"Se quisermos servir a Deus ,
ao próximo e nós mesmos, devemos Ter piedade em relação ao
próximo e ciência em relação a nós mesmos". (Op. Cit., 98)
"A arte de ensinar não exige
mais que uma disposição tecnicamente bem feita do tempo, das
coisas e do método". (Op. Cit., 127)
"Que tesouro de instrução
conseguirás se a cada hora aprenderes nem que seja um único
teorema de uma ciência, uma única regra de aplicação
técnica, uma narrativa ou uma máxima elegante (coisa que,
claramente, não requerem esforço?)". (Op. Cit., 143)
"As coisas todas só atraem a
juventude quando adequadas à sua idade e quando as
explicações são muito claras e interclaras com algumas
amenidades ou com assuntos menos sérios, mas sempre
aprazíveis. É isso que significa unir o útil ao
agradável". (Op. Cit., 170)
"Facilitará o estudo do aluno
quem lhe mostrar como usar na vida cotidiana aquilo que está
sendo ensinado". (Op. Cit., 180)
"A escola tem a missão de
ocupar os jovens só com coisas sérias". (Op. Cit., 185)
"Por que vagar entre opiniões
diferentes sobre as coisas quando se busca conhecer o que
são as coisas realmente?". (Op. Cit., 190)
"O homem instruído com
fundamento é como uma árvore que se sustenta com as próprias
raízes e a linfa; por isso, estará sempre vigoroso (aliás,
fica mais robusto a cada dia que passa) verdejante, e produz
flores e frutos". (Op. Cit., 192)
"Tudo o que se ensina deve ser
consolidado por razões que não permitam dúvidas nem
esquecimentos". (Op. Cit., 196)
"De tudo que se aprende, é
preciso buscar logo a utilidade, para não aprender nada de
útil". (Op. Cit., 198)
"Instrução nunca chegará a ser
realmente sólida se não se instituírem repetições e
exercícios, freqüentes e bem feitos". (Op. Cit., 199)
"É Ter no bolso uma moeda de
ouro que cem de cem de chumbo".(Op. Cit., 221)
"Devem ser bandidos das
escolas todos os autores que ensinam só palavras, sem dar a
conhecer nada de útil". (Op. Cit., 223)
"O juízo correto acerca das
coisas é o verdadeiro fundamento de todas as virtudes". (Op.
Cit., 264)
"O triste vício do egoísmo é
estritamente relacionado com a natureza corrupta que faz
desejar apenas o proveito próprio, sem atentar os outros".
(Op. Cit., 267)
"É preciso manter os filhos
longe das más companhias para que não sejam por elas
corrompidos". (Op. Cit., 269)
“Deus quis que as coisas para
o nosso uso fossem muito diferentes, para que muitas sejam
as coisas em que nos empenhamos, exercitamos e instruímos”.
(Op. Cit., 133)
"Antes de mais nada, acredito
que todos concordam que a disciplina deve ser exercida
contra quem erra, mas não porque errou (o que foi feito,
feito está), mas para que não erre mais. Portanto, deve ser
exercida sem paixões, sem ira, sem ódio, mas com
simplicidade e sinceridade, de tal modo que mesmo aquele a
quem for aplicada perceba que é para seu bem e que é ditada
pelo afeto paterno de quem tem a responsabilidade de
guiá-lo; assim, poderá percebê-la com o mesmo espírito com
que se toma um remédio amargo receitado pelo médico". (Op.
Cit., 311-312)
"Quem ignora o seu próprio mal
dele não cuida; quem não sente a dor não geme; quem não
percebe o perigo não estremece nem quando está sobre o
abismo ou o precipício; assim, não se espanta que não se
preocupe aquele que não nota as desordens que afligem o
gênero humano". (Op. Cit., 25)
"Nada é mais difícil do que
perder os hábitos adquiridos (o hábito de fato é uma Segunda
natureza, e tu podes expulsar a natureza à força, mas ela
sempre retorna), é lógico que nada é mais difícil que
reeducar um homem que recebeu educação ruim; depois que a
árvore cresceu, seja ela alta ou baixa, com ramos esticados
ou curvos, uma vez adulta assim permanece e não se deixa
modificar". (Op. Cit., 29)