Visconde de
Taunay
DADOS BIOGRÁFICOS
Alfredo D'Escragnolle Taunay,
nascido e falecido no Rio de Janeiro em 1843 e 1899,
respectivamente, era filho do Barão Félix EmílioTaunay e
neto de N. Antoine Taunay, pintor francês que veio ao Brasil
no período em que a família portuguesa aqui esteve.
Formou-se em Ciências Sociais e Matemáticas na Escola
Militar. Participando da Guerra do Paraguai, onde presenciou
vários episódios importantes que foram relatados no livro
A Retirada de Laguna (1871), além de ter tido contato
com algumas regiões do interior do Brasil, principalmente o
Mato Grosso, o que lhe serviu de experiência e inspiração
para desenvolver seu mais conhecido romance:
Erro! Indicador não definido. (1872)
[ver
Erro! Indicador não definido.], que obteve
enorme sucesso popular. Além da carreira militar e
literária, destacou-se também na política: foi senador e
deputado pelo partido conservador em Santa Catarina. Com o
advento da República, acabou se afastando do meio político.
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Com um estilo simples e
agradável, e com características que às vezes fogem do
estilo romântico, Visconde de Taunay se impõe sempre como um
observador ao descrever as paisagens e personagens e ao
desenvolver seus enredos. Seu romance mais conhecido,
Inocência, é considerado a maior obra regionalista
brasileira. Nele, Taunay consegue aliar a inocência, a
pureza e a beleza da mulher romântica, encarnada na
personagem "Inocência", a uma descrição minuciosa da
realidade, da vida cotidiana do sertanejo, muitas vezes
mostrado-o como rude e ignorante. Embora seja um escritor do
Erro! Indicador não definido., sua
preocupação com a descrição detalhada do cenário e das
personagens já se mostra muito próxima aos idéias do
Erro! Indicador não definido., o que
caracteriza a obra do romancista carioca como uma fase de
transição dentro de nossa literatura. Porém, mais do que
contar as desventuras amorosas da heroína, o objetivo do
livro é mostrar o confronto de dois mundos diferentes: o
mundo dos costumes, tradições, crenças e preconceitos do
homem do sertão contra o mundo liberal e mais
intelectualizado do homem da cidade. Como no romance
realista, algumas das personagens criadas por Taunay são
consideradas protótipos de grupos sociais, sempre agindo e,
ao mesmo tempo, sendo corrompidos pelo meio em que vivem.
PRINCIPAIS OBRAS
Romances
A mocidade de Trajano
(1872); Inocência (1872); Lágrimas do Coração(1873); Ouro
sobre Azul (1878)); No Declínio. Romance Contemporâneo
(1889); O Encilhamento. Cenas Contemporâneas da Bolsa em
1890, 1891 e 1892(1894).
Narrativas
História Brasileiras
(1874); Narrativas Militares (1878); Ao entardecer (1889).
Outras publicações
Cenas de Viagem(1868);
Diário do Exército(1870); A Retirada de Laguna(1871); Céus e
terras do Brasil. Cenas e Tipos; Quadros da Natureza;
Fantasias(1882). Estudos Críticos (1881-1883);
Reminiscências (1907); Memórias (1948).
Teatro
Por um triz Coronel; Amélia
Smith(1886); Da mão à Boca se Perde a Sopa(1874); A
Conquista do Filho.
|
O regionalismo de
Visconde de Taunay |
Foi um dos primeiros
prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial
regional em suas obras.
Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado
a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do
Brasil.
Foi um ator não denominado pelo sentimentalismo, que soube
conjugar as características fundamentais da estética
romântica com grande acuidade na construção de tipos e na
descrição das paisagens brasileiras. Focalizou os usos e
costumes do interior do pais, em narrativas pitorescas.
É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas
concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do
sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém
sua bela filha Inocência reclusa. Para chegar
. EM INOCÊNCIA:
1. Taunay conta com franqueza seu relacionamento com uma
jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a
origem mais íntima da personagem-título de Inocência,
protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor.
2. Taunay foi um autor além da maioria dos romancistas,
entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem
temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do
interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o
que conhecera. Aliás o próprio Taunay se manifestou sobre
isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o
valor dos outros romancistas.
3. Nesse romance, o rigor do observador militar que
percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do
ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção
e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira
até então.
4. Elabora diálogos com a coloquialidade graciosa e natural
do novo sertanejo "Nocência", "Por que se tocou assim no
quarto", "é bom não se canhar assim", "sestiando", "Nhor-sim",
"quer mecê", mas também utiliza a linguagem culta.
5. Reforça-se uma das principais características do
Romantismo europeu: a concepção de um único e idealizado
amor, cuja impossibilidade de realização leva os
protagonistas à morte. (Inocência, era fiel ao seu princípio
amoroso, foi capaz de morrer de tristeza em face da ausência
definitiva do amado.
6. Faz um retrato acurado de usos e hábitos do sertão
matogrossensse, que são identificados desde elementos do
vocabulário até a indicação dos hábitos que o texto
apresenta, na paisagem, nos tipos humanos e na linguagem.
7. Deixa claro que considera "injuriosa" a opinião que os
sertanejos têm sobre as mulheres.
8. Deixa bem claro que Cirino não era um homem do sertão, o
que nos faz perceber a diferença marcante entre o noivo e o
homem por quem Inocência morre.
9. No período da obra, o romantismo brasileiro entrava em
declínio e o Realismo se aproximava, portanto, esta obra é
de transição para o Naturalismo por causa de uma grande e
infalível característica o homem é produto do meio ou seja,
as pessoas agem de acordo com o tipo de vida que levam.
10. Predomina a emoção sobre a razão, além da
supervalorização do amor.
Inocência pode ser considerada a obra-prima do romance
regionalista dentro do nosso Romantismo. Seu autor, soube
usar o conhecimento que tinha de nosso país, através de suas
viagens em missões militares. É também considerada uma obra
de transição para o Naturalismo, por seus traços
deterministas.
Crônica de
costumes
Uma das
características marcantes do regionalismo é a valorização
dos costumes típicos do mundo rural, bem como das
particularidades do meio natural. O tempo e o lugar são
decisivos para a definição dos acontecimentos.
Dentre os costumes
regionais típicos, apresentados no romance de Taunay,
podemos destacar:
hospitalidade:
o sertanejo tem sempre um espaço reservado para os viajantes
que pedem pousada. Há também farta oferta de comida,
incluindo-se os frutos da região.
privacidade:
os viajantes jamais se aproximam da casa do proprietário,
nem penetram em seu interior.
preservação da
honra: existe
uma preocupação em garantir a harmonia entre as ações e as
normas do código social, sobretudo com relação à família.
casamento como
acordo entre famílias:
apesar disso e embora não haja namoro, o casamento é o único
meio de a filha se libertar da tirania do pai.
analfabetismo:
leitura como um mal, sobretudo para a mulher.
exercício da
vingança individual:
as pessoas acham que podem fazer justiça com as próprias
mãos.
curiosidade:
nas cidades, todos participam da vida de cada um.
crendice:
as crenças se revelam sobretudo no que se refere às doenças.
juramentos:
a impossibilidade de reversão das regras sociais levam as
pessoas a jurar por tudo, tendo cada um seu santo protetor.
Em
Inocência, a crônica de costumes focaliza não apenas os
hábitos e costumes da família, mas também os costumes
decorrentes do modo de exploração da terra e dos produtos
naturais e, finalmente, os hábitos políticos da nação. Nesse
contexto é que a figura do viajante é importante, inclusive
como elemento do mundo romanesco apresentado no limite entre
documentário e ficção. É através de dois viajantes, Girino e
Meyer, colocados pelo acaso no caminho do Sr. Pereira, que
se dá a conhecer a família que vivia escondida no sertão.
Esquema
fabular das aventuras amorosas
Casamento
como resultado de jogo de interesses:
Inocência
estava prometida a Manecão.
Constituição do triângulo amoroso:
Aparece Cirino
Amor
impossível:
Morte como
salvação
Cirino é
assassinado por Manecão e Inocência definha-se, morre de
amor, a exemplo de Teresa, personagem de Amor de Perdição,
de Camilo Castelo Branco.
Ao se
construir a partir desse esquema da fabulação amorosa, o
romance Inocência cria um vínculo com os clássicos
universais. Contudo, a necessidade de publicar o romance em
folhetins, ou seja, em capítulos separados nos jornais
diários, obrigou o autor a utilizar uma técnica narrativa
extremamente moderna para a época. O desenvolvimento dessa
técnica de composição trouxe algumas modificações ao gênero
romanesco.
Foco
narrativo
O
ponto de vista externo define o narrador de Inocência como
um narrador onisciente, que é tendência dominante na
narrativa romanesca do século XIX. É o modelo clássico, que
confere plenos poderes a uma só focalização: tudo é
apresentado a partir de um único ponto, com onisciência e
onipresença. Esse é, sem dúvida, um modelo narrativo que
atende às necessidades do romance regionalista, que focaliza
a vida, os costumes, os valores sociais a partir de um único
ponto de vista.
Inocência
Visconde de Taunay
Uma obra de transição para o
Naturalismo.
por causa de uma
grande e infalível característica: o homem é produto do
meio.
Sertão
de Santana do Paranaíba, 1860. Pereira ( Martinho dos Santos
Pereira ) vive na fazenda com Inocência, sua filha de 18
anos. Seu pai exige-lhe obediência total, num regime antigo
e educada longe do mundo. Escolhe para ela o noivo, Manecão,
um homem criado no sertão bruto, de índole violenta. Maria
Conga é uma preta, escrava de Pereira. Tico é o guarda da
moça Inocência, bastante fiel apesar de ser mudo. Um dia,
Pereira encontrou-se com um rapaz que percorria os caminhos
do sertão a medicar. Havia feitos estudos no colégio do
Caraça e iniciado Farmácia em Ouro Preto. Chamavam-no de
"doutor", título que não menosprezava. Seu nome era Cirino
Ferreira dos Santos ( Dr. Cirino ). Inocência estava doente
de "uma febre braba" e o "doutor" curou-a . Os dois
apaixonaram-se mais tarde: eram demasiados os cuidados que o
"doutor" tinha para com ela. Amavam-se às escondidas e o
laranjal era local de encontros proibidos. Pensavam que
ninguém poderiam desconfiar... mas Tico, o anãozinho mudo,
estava atento... Nesse ínterim, Pereira andava é desconfiado
do Dr. Meyer, um caçador de borboletas, que por lá
aparecera! Desconfiava a tal ponto que o ilustre entomólogo
passou a ser "persona non grata". Dr. Meyer tinha por
objetivo descobrir espécimes novos para museus europeus.
Respeitava com muito carinho e muita atenção a bonita
Inocência. José Pinho (Juque), ajudante de Dr. Meyer,
explicava a função de seu patrão: procurar insetos. E isso
durante quase dois anos...
Garcia,
leproso, aparece na fazenda do Sr. Pereira. Quer falar com
Dr. Cirino. O "médico" diz-lhe que a doença e incurável e
contagiosa.
Inocência
foi maltratada pelo pai, quando este soube de seu amor com o
doutor. Foi atirada contra a parede. Resistiu e jurou não se
casar com Manecão, o sertanejo violento. Mas o pai – Sr.
Pereira – achou que a filha estava de "mau olhado", por
causa do Dr. Meyer. E encontrou uma solução: ele ou Manecão
mataria o intruso alemão. Dr. Meyer não deu ouvidos a
Pereira, zombado de sua ameaça. Tomou-se de vergonha: era
ofensa demais. Tico, após testemunhar o amor existente entre
Inocência e Cirino, explicou ao Sr. Pereira tudo que se
passava...
Manecão
começou a seguir os passos de Cirino. Até um dia
interpelou-o . Tirou uma garrucha da cintura e... Cirino
caiu por terra, pedindo água e sussurrando o nome de
Inocência. Agonizante, exigia do mineiro Antônio Cesário que
não deixasse Inocência casar-se com Manecão...
Dr.
Guilherme Tembel Meyer, em 1863, apresentava aos entomólogos
do mundo a sua mais recente descoberta: uma borboleta até
então desconhecida: "Papilio Innocentia:" em homenagem à
Inocência, a moça do sertão de Santana do Paranaíba, da
Parte sul oriental do Mato Grosso.
Inocência,
coitadinha...
Exatamente
nesse dia dois anos faria que seu gentil corpo fora entregue
à terra, no intenso sertão de Santana do Parnaíba, para
dormir o sono da eternidade..
CARACTERIZAÇÃO DOS PERSONAGENS:
Martinho dos Santos Pereira (Pereira)
– Homem de mais ou menos 45 anos, gordo, bem disposto,
cabelos brancos, rosto expressivo e franco. Pessoa honesta,
hospitaleiro, severo e não trocava a sua palavra nem pela
vida.
Inocência
– Cabelos longos e pretos, nariz fino, olhos matadores,
beleza deslumbrante e incomparável, faces mimosas, cílios
sedosos, boca pequena e queixo admiravelmente torneado.
Enfim, uma jovem de beleza deslumbrante e
incomparável.Simples, humilde, meiga, carinhosa, indefesa e
eternamente apaixonada.
Tico
– O anão guardião de Inocência. Mudo,
raquítico, esperto e fez por um momento, o papel de
fofoqueiro.
Maria
Conga
– Escrava de Pereira que cuidava dos afazeres domésticos.
Escura, idosa e malvestida. Usava na cabeça um pano branco
de algodão.
Major
Martinho de Melo Taques
– Homem que merecia influência na vila de Santana do
Parnaíba: Juiz de paz e servia de juiz municipal. Participou
da Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Era comerciante
e gostava de contar casos, ou seja, "prosear".
Manecão
– alto, forte, pançudo e usava bigode. Enfim, vaqueiro bruto
do sertão. Pessoa fria que matava, se fosse preciso, em
defesa de sua honra.
Antônio
Cesário
– Padrinho de Inocência. Homem respeitado, de palavra,
honesto e justo. Fazendeiro do sertão.
Guilherme Tembel Meyer
– alto, rosto redondo, juvenil, olhos claros, nariz pequeno
e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos
muito louros. Pessoa de boa ídolo, esperto em sua função e
simples ao pronunciar as sua palavras. Admirador da natureza
e da beleza de Inocência.
José
Pinho (Juque)
– Ajudante de Meyer. Era muito intrometido em conversas
alheias. Pessoa boa e de confiança de seu patrão.
Cirino
Ferreira Campos
– Tinha mais ou menos 25 anos, presença agradável, olhos
negros e bem rasgados, barbas e cabelos cortados quase à
escovinha. Era tão inteligente quanto decidido. "Doutor"
Cirino era caridoso, bom doava a própria vida em defesa do
amor.
COMPONENTES DA OBRA:
O romance
relata a vida do povo do sertão brasileiro. O autor nos
mostra de forma nem clara, a simplicidade, o sofrimento e o
jeito típico do sertanejo, através de seus personagens.
Sofrimento – A caminhada do sertanejo em busca de seus
objetivos através de longas distâncias, sendo que no
percurso, existe a dificuldade do abrigo.
Simplicidade – É claramente observada através do
comportamento e diálogos entre as personagens típicas.
Contradições – Comprava-se entre o jeito de ser do sertão e
a forma avançada da Europa (Pereira e Meyer).
Amor –
Um amor tão puro e verdadeiro que por falta de condições de
existência preferiu a morte, ou pelo menos, foram levados a
ela.
Honra –
Pereira para manter a honra familiar, sacrificava sua
própria filha, já que sua palavra estava acima de tudo.
Beleza
– É retratada através da paisagem do sertão e da jovem
Inocência.
Escravidão – ë representada por Maria Conga e outros.
MOMENTO LITERÁRIO
Inocência
pode ser considerada a obra prima do romance regionalista
(Sertão do Mato Grosso) do nosso Romantismo. Seu autor,
Visconde de Taunay, soube unir ao seu conhecimento prático
do país, adquirindo em inúmeras viagens na condição de
militar, o seu agudo senso de observação da natureza e da
vida social do Sertão brasileiro.
A
qualidade de Inocência resulta do equilíbrio alcançado entre
os aspectos ligados ao conceito de verossimilhança – que
muitas vezes chegava a comprometer a qualidade de obras
regionalistas –, como a tensão entre ficção e realidade, a
linguagem culta e a linguagem regional e a adequação dos
valores românticos à realidade bruta do nosso Sertão.
Inocência
é uma história de amor impossível, envolvendo Cirino,
prático de Farmácia que se autopromoveu médico, e Inocência,
uma jovem do Sertão de Mato Grosso, filha de Pereira,
pequeno proprietário típico da mentalidade vigente entre os
habitantes daquela região.
A
realização amorosa entre os jovens é invisível porque
Inocência fora prometida em casamento pelo pai de Manecão,
um rústico vaqueiro da região; e também porque Pereira
exerce for vigilância sobre a filha, pois, de acordo com
seus valores, ele tem de garantir a integridade de Inocência
até o dia do casamento.
Ao lado
dos acontecimentos, que constituem a trama amorosa, há
também o choque de valores entre Pereira e Meyer, um
naturalista alemão que se hospedara na casa de Pereira à
procura de borboletas, evidenciando as contradições entre o
meio rural brasileiro e o meio urbano europeu.
A atração
pelo pitoresco e o desejo de explorar e investigar o Brasil
do interior fizeram o autor romântico se interessar pela
vida e hábitos das populações que viviam destante das
cidades. Abria-se assim, para o Romantismo, o campo fecundo
do romance sertanejo, que até hoje continua a fornecer
matéria à nossa literatura.
MOMENTO HISTÓRICO
Na época
em que o autor se inspirava para escrever Inocência,
acontecia no país a aprovação da Lei do Ventre Livre, onde
todos os filhos de negros que nascessem à partir daquela
data seria livre da escravidão brasileira.