Figuras
de Linguagem
As figuras de linguagem ou de estilo são empregadas para valorizar o texto,
tornando a linguagem mais expressiva. É
um recurso lingüístico para expressar experiências comuns de formas
diferentes, conferindo originalidade, emotividade ou poeticidade ao discurso.
As figuras revelam muito da sensibilidade de quem as produz, traduzindo
particularidades estilísticas do autor. A palavra empregada em sentido
figurado, não- denotativo, passa a pertencer a outro campo de significação,
mais amplo e criativo.
As figuras de linguagem classificam-se em:
a)
figuras de palavras;
b) figuras de harmonia;
c) figuras de
pensamento;
d) figuras de
construção ou sintaxe.
FIGURAS
DE PALAVRA
As figuras de palavra consistem no emprego de um termo com sentido diferente
daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais
expressivo na comunicação.
São figuras de palavras:
a)
comparação
e)
catacrese
b)
metáfora
f)
sinestesia
c)
metonímia
g)
antonomásia
d)
sinédoque
h)
alegoria
Ocorre comparação quando se estabelece aproximação entre dois elementos que
se identificam, ligados por conectivos comparativos explícitos - feito, assim
como, tal, como, tal qual, tal como, qual, que nem - e alguns verbos - parecer,
assemelhar-se e outros.
Exemplos:
"Amou daquela vez como
se fosse máquina.
Beijou sua mulher como se fosse lógico."
(Chico Buarque)
"As solteironas, os longos vestidos negros fechados no pescoço, negros
xales nos ombros, pareciam aves
noturnas paradas..."
(Jorge Amado)
Ocorre metáfora quando um termo substitui outro através de uma relação de
semelhança resultante da subjetividade de quem a cria. A metáfora também pode
ser entendida como uma comparação abreviada, em que o conectivo não está
expresso, mas subentendido.
Exemplo:
"Supondo o espírito humano
uma vasta concha, o meu fim, Sr.
Soares, é ver se posso extrair pérolas,
que é a razão."
(Machado de Assis)
Ocorre metonímia quando há substituição de uma palavra por outra, havendo
entre ambas algum grau de semelhança, relação, proximidade de sentido ou
implicação mútua. Tal substituição fundamenta-se numa relação objetiva,
real, realizando-se de inúmeros modos:
o continente pelo conteúdo e vice-versa:
Antes de sair, tomamos um
cálice1 de licor.
1 O conteúdo de um cálice.
a causa pelo efeito
e vice-versa:
"E assim o operário ia
Com suor e com cimento
2
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento."
(Vinicius de Moraes)
2 Com trabalho.
o lugar de origem ou de produção pelo produto:
Comprei uma garrafa do legítimo porto
3.
3 O vinho da cidade do Porto.
o autor pela obra:
Ela parecia ler Jorge Amado 4.
4 A obra de Jorge Amado.
o abstrato pelo concreto e vice-versa:
Não devemos contar com o seu coração
5.
5
Sentimento,
sensibilidade.
o símbolo pela coisa
simbolizada:
A coroa
6 foi disputada pelos revolucionários.
6 O poder.
a matéria pelo produto e
vice-versa:
Lento, o bronze 7
soa.
7
O
sino.
o inventor pelo invento:
Edson 8
ilumina o mundo.
8 A energia elétrica.
a coisa pelo lugar:
Vou à Prefeitura 9.
9 Ao edifício da Prefeitura.
o instrumento pela pessoa
que o utiliza:
Ele é um bom garfo
10.
10 Guloso, glutão.
Ocorre sinédoque quando há substituição de um termo por outro, havendo
ampliação ou redução do sentido usual da palavra numa relação
quantitativa. Encontramos sinédoque nos seguintes casos:
o todo pela parte e vice-versa:
"A cidade inteira
1 viu assombrada, de queixo caído, o pistoleiro sumir de ladrão,
fugindo nos cascos 2
de seu cavalo."
(J. Cândido de Carvalho)
1 O povo.
2 Parte das patas.
o singular pelo plural e
vice-versa:
O paulista 3
é tímido; o carioca 4,
atrevido.
3 Todos os paulistas.
4 Todos os cariocas.
o indivíduo pela espécie (nome próprio pelo nome
comum):
Para os artistas ele foi um mecenas
5.
5 Protetor.
Modernamente, a metonímia engloba a sinédoque.
A catacrese é um tipo de especial de metáfora, "é uma espécie de metáfora
desgastada, em que já não se sente nenhum vestígio de inovação, de criação
individual e pitoresca. É a metáfora tornada hábito lingüístico, já fora
do âmbito estilístico."
(Othon M. Garcia)
São exemplos de catacrese:
folhas de
livro
pele de tomate
dente de
alho
montar em burro
céu da
boca
cabeça de prego
mão de direção
ventre da terra
asa da xícara
sacar dinheiro no banco
A sinestesia consiste na fusão de sensações diferentes numa mesma expressão.
Essas sensações podem ser físicas (gustação, audição, visão, olfato e
tato) ou psicológicas (subjetivas).
Exemplo:
"A minha primeira recordação é um muro velho, no quintal de uma casa
indefinível. Tinha várias feridas no reboco e veludo de musgo. Milagrosa
aquela mancha verde [sensação visual]
e úmida, macia [sensações
táteis], quase irreal."
(Augusto Meyer)
Ocorre antonomásia quando designamos uma pessoa por uma qualidade, característica
ou fato que a distingue.
Na linguagem coloquial, antonomásia é o mesmo que apelido, alcunha ou cognome,
cuja origem é um aposto (descritivo, especificativo etc.) do nome próprio.
Exemplos:
"E ao rabi simples
1, que a igualdade prega,
Rasga e enlameia a túnica inconsútil;
(Raimundo Correia)
1
Cristo
Pelé (= Edson Arantes do Nascimento)
O Cisne de Mântua (= Virgílio)
O poeta dos escravos (= Castro Alves)
O Dante Negro (= Cruz e Souza)
O Corso (= Napoleão)
A alegoria é uma acumulação de metáforas referindo-se ao mesmo objeto; é
uma figura poética que consiste em expressar uma situação global por meio de
outra que a evoque e intensifique o seu significado. Na alegoria, todas as
palavras estão transladadas para um plano que não lhes é comum e oferecem
dois sentidos completos e perfeitos - um referencial e outro metafórico.
Exemplo:
"A vida é uma ópera, é uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam
pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o
soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos
mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestra é
excelente..."
(Machado de Assis)
FIGURAS
DE HARMONIA
Chamam-se figuras de som ou de harmonia os efeitos produzidos na linguagem
quando há repetição de sons ou, ainda, quando se procura
"imitar"sons produzidos por coisas ou seres.
As figuras de harmonia ou de som são:
a)
aliteração
c)
assonância
b)
paronomásia
d)
onomatopéia
Ocorre aliteração quando há repetição da mesma consoante ou de consoantes
similares, geralmente em posição inicial da palavra.
Exemplo:
"Toda gente homenageia
Januária na janela."
(Chico Buarque)
Ocorre assonância quando há repetição da mesma vogal ao longo de um verso ou
poema.
Exemplo:
"Sou Ana,
da cama
da cana,
fulana,
bacana
Sou Ana
de Amsterdam."
(Chico Buarque)
Ocorre paronomásia quando há reprodução de sons semelhantes em palavras de
significados diferentes.
Exemplo:
"Berro pelo
aterro pelo desterro
berro por seu berro
pelo seu erro
quero que
você ganhe que
você me apanhe
sou o seu bezerro gritando mamãe."
(Caetano Veloso)
Ocorre quando uma palavra ou conjunto de palavras imita um ruído ou som.
Exemplo:
"O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe, das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passe rápido...
Vvvvvvvv... passou."
(Mário de Andrade)
"Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r
eterno."
(Fernando Pessoa)