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  Matérias :: Português :: Literatura

 

  Autoria: Elton Hilton
 

INCIDENTE EM ANTARES
 

A cidade de Antares não consta nos mapas, apenas São Borja é digna de nota, nas paragens do Alto Uruguai. Mas, há documentos comprovadores de sua existência. Seus ilustres moradores têm repetidamente se manifestado sobre a injustiça. O prefeito, os vereadores e até o padre se dirigiram ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para protestar contra a acintosa omissão.

Apesar da ausência nos mapas, Antares se encontra à margem esquerda do Rio Uruguai. Acabou nas manchetes de jornais pelo incidente, ocorrido numa sexta-feira 13 de dezembro de 1963 que a tornou notícia da noite para o dia; fama efêmera e ambígua que não sensibilizou os cartógrafos.

O documento mais antigo, sobre a existência de Antares, se encontra no livro de Gaston Gontran, um naturalista francês que, visitando o local, encontrou com Francisco Vacariano, proprietário das terras. Vacariano herdou as sesmarias do avô que logo se apossou de algumas léguas pertencentes a outros estancieiros vizinhos. No texto, consta que o gado, pertencente a Vacariano, descende dos bois e vacas roubados por seu pai, na Argentina. O guia contou a Gontran tudo isso, pedindo discrição absoluta, porque Vacariano é homem violento e vingativo.

Como hospedeiro, no entanto, foi muito gentil. Gaston por cortesia lhe indicou, no céu, a estrela de Antares. Vacariano achou o nome bonito e apropriado para um povoado, melhor do que "Povinho da Caveira", dado ao lugar em que o francês se encontrava. Pede a Gaston que escreva Antares num pedaço de papel e agradece.

O segundo documento, que se poderia chamar de pré-história de Antares, é uma carta do Padre Juan Bautista Otero, mencionando sua estada na casa do Senhor Francisco Bacariano, pai de uma dezena de filhos naturais com várias índias e que não os batiza, nem os legitima. O sacerdote pergunta a Bacariano se ele não deseja casar-se e este menciona que vai se casar em Alegrete com Angélica. De fato, Francisco Vacariano se casa e com a esposa legítima tem 7 descendentes, entre homens e mulheres. O primeiro filho se chama Antônio Maria. Na Guerra dos Farrapos, Vacariano quase perde tudo o que tem.

Em 25 de maio de 1853, "Povinho da Caveira" é elevado a vila e recebe oficialmente o nome de Antares. Durante mais de 10 anos, Vacariano é autoridade na vila, considerada município de São Borja.

No verão de 1860, Francisco Vacariano tomou conhecimento de que Anacleto Campolargo, rico criador de gado, natural de Uruguaiana, deseja comprar terra nas proximidades de Antares. Vacariano faz tudo para que os negócios de Campolargo não se concretizem na região, não quer saber de intrusos por ali. Mas, Campolargo consegue adquirir as terras e constrói uma casa de alvenaria. De pronto, as duas famílias se tornam rivais.

Campolargo consegue o respeito dos moradores e é o único a enfrentar Vacariano, o "Chico Vaca" , como é chamado, pelas costas, pelos inimigos. Vacariano é agressivo, autoritário, sem o menor tato. Antonio Campolargo é o oposto. É homem do murmúrio, do falar macio, modulando a voz de acordo com a conveniência. Organiza, na vila, o Partido Conservador e, Vacariano, sem perda de tempo, cria o Partido Liberal. Campolargos e Vacarianos vão tocando a vida como criadores de gado e de cavalos na região.

Anacleto Campolargo consegue separar Antares de São Borja e elevá-la à categoria de cidade, no dia 15 de maio de 1878. Chico Vacariano, com quase 80 anos, cai morto no dia da celebração desse grande evento, desapontado porque seu inimigo conseguiu concretizar seu velho projeto. Anacleto transfere os festejos para dezembro do mesmo ano e, nesta data, falece por ter sido mordido por cobra venenosa.

Antares, em 1879, começa com chefes novos: Benjamin Campolargo que perdeu o olho, num combate corpo a corpo, na Guerra do Paraguai e Antão Vacariano, o maneta, cuja mão perdeu em solo paraguaio. De vingança em vingança, Campolargos e Vacarianos vão se matando. Os Campolargo vão por algum tempo para a Argentina, retornando depois. Antão é assassinado e os novos líderes são: os inimigos, Benjamim Campolargo e Xisto Vacariano que se defrontam numa tarde em frente ao Grêmio Republicano, mas voltam-se as costas sem nada dizer.

O tempo vai passando e Antares vai recebendo, graças ao progresso, tudo o que há de novo. Em meados da década de 20, membros das gerações Campolargos e Vacarianos vão estudar em Porto Alegre e assim surgem advogados, médicos e engenheiros, mas poucos deles exercem tais profissões. Trazem para a cidade uma visão mais moderna e mais ampliada do mundo. Aos poucos, os velhos líderes, Xisto e Benjamim, vão perdendo, sem perceber, parte de sua liderança. Além disso, Getúlio Vargas astutamente conseguiu reunir os dois líderes e os fez assinar uma espécie de "tratado de paz", publicado em vários jornais. Porém, uma semana mais tarde, os dois morrem, um de edema pulmonar e outro pela chifrada de um boi.

Seus descendentes tratam de manter o acordo: Tibério Vacariano assumiu a liderança familiar e Zózimo Campolargo, homem mais culto e um tanto indolente, se sentiu mal com a idéia. Mas, a esposa, Quitéria Campolargo, conhecida como D.Quita, ajudou o marido na difícil tarefa.

Revoluções e governos vão e vem e os rivais ora aliam-se, ora afastam-se. Ajudam nas eleições, favorecendo de maneira ilícita seus candidatos. Tibério passa a morar alternadamente entre Rio de Janeiro e Antares. Em uma das estadas em Antares, visita com a mulher a casa dos Campolargo e contam à "inimiga íntima", D. Quita, a viagem ao Rio, ressaltando o aspecto político de interesse da mulher de Zózimo Campolargo.

A política segue em zigue-zague, Getúlio Vargas se suicida, mas o macabro incidente que vai tomar conta de Antares ainda está por vir. Tudo tem início, quando um grupo de professores e alunos do Centro de Pesquisas Sociais, da Universidade do Rio Grande do Sul, sob a orientação do professor de Sociologia Martim Francisco Terra, decide levantar dados para a obra Anatomia duma Cidade Gaúcha de Fronteira. Escolhe a comunidade de Ribeira, na verdade Antares, como objeto de estudo.

Xisto, neto do Cel. Tibério Vacariano e aluno do professor Terra, fica radiante com a escolha. O rapaz volta a Antares, em 1961, para preparar tudo para o estudo. O repórter da cidade, Lucas Faia, criador do cognome "Jóia do Uruguai" para Antares, dedica páginas inteiras à chegada do grupo, apelidado pela cidade de gafanhotos por virem "em bandos no verão, em tempo de seca e com um jeito de praga".

O grupo quer saber que tipo de cidade é Antares, como vive sua população, seu nível econômico, cultural e social, seus hábitos, gostos, opiniões e crenças religiosas. Logo surgem uma série de boatos incriminadores.Para uns, os comunistas tomam de assalto a cidade, para outros são espiões da CIA ou, ainda, espiões do pessoal do imposto de renda.

Ao ser publicado o estudo, toda Antares fica revoltada, sobretudo, seus líderes e comerciantes. Acham que a análise, destacando a pobreza e a riqueza, é um desrespeito e trabalho de comunistas.

No dia 11 de dezembro de 1963, Tibério Vacariano passa a noite na companhia telefônica, aguardando uma ligação para Porto Alegre, precisa falar com o governador. Às 5 horas da manhã, comunica-lhe que, ao meio-dia, Antares vai parar completamente, porque vai entrar em greve, os trabalhadores exigem salários mais justos. O governador diz que nada pode fazer, pois o país é democrático.Tibério sai decepcionado.

Todos estão assustados com o princípio do movimento. Os líderes, os comerciantes e os donos de fábricas não querem atender as reivindicações dos trabalhadores, porque não têm condições. Enquanto isso a esposa de Tibério, D.Briolanja, acorda o marido de sua sesta e lhe conta, em prantos, que D.Quita Campolargo teve um ataque do coração. O marido se veste às pressas e saem em direção à casa da morta.

Pelo caminho, cruzam com o médico que lhes confirma o falecimento, acrescentando que ela foi a sexta pessoa a morrer na cidade esse dia. Tibério pergunta quem são os outros e o médico vai apontando: o professor de piano, Menandro, que se matou cortando os pulsos, O Barcelona e Joãozinho da Paz, o resto era gentinha sem importância.

Tibério passa a noite velando D.Quita, lamenta perdê-la, pois não terá mais com quem discutir. Sabe, pelo prefeito, que Cícero Brando, outro amigo, faleceu, assim que deixou o velório. Para piorar as coisas, às 10 da manhã do dia seguinte, o cemitério local está interditado pelos grevistas e os mortos não podem ser enterrados.

A situação na cidade está insuportável; a morte de D.Quita, do Cícero e de outras quatro pessoas, a greve geral, as loucuras de Jango Goulart e as do Brizola. Tudo respira anarquia nacional.

O féretro de Quitéria Campolargo segue até à Matriz e o caixão é colocado à frente do altar-mor. Mais tarde, partem em cortejo até o cemitério, encontrando a entrada bloqueada pelos grevistas. Seguem conversações, desafios; o professor Libindo sugere a dispensa dos coveiros para que eles mesmos enterrem D.Quita. Geminiano, o chefe dos grevistas, se nega a aceitar. Não permitirá o enterro de ninguém sem que os patrões tenham atendido aos trabalhadores. Também afirma que o caixão de Quitéria ficará junto com os 6 restantes, como reféns do movimento em cumprimento às decisões da assembléia.

Lucas Faia faz a proposta de deixarem os esquifes sob a custódia dos grevistas e retornarem no dia seguinte, talvez, saia um acordo até lá. Resolvem aceitá-la por ser a saída mais sensata. Entre alguns presentes, corre a notícia de que os genros de D. Quitéria estão tristes, porque a velha está no esquife com suas jóias mais preciosas.

O chefe do movimento coloca homens, guardando as ruas que dão acesso ao cemitério. Os caixões foram deixados ali na colina. Surge um vulto que vem em direção ao caixão de D. Quita em busca das jóias. Abre o caixão com um pé de cabra. No entanto, os olhos da defunta estão abertos e os lábios começam a se mover, dizendo: "Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma", para espanto do ladrão que foge em disparada.

D. Quita sai de seu esquife e retira a tampa do caixão ao lado e de lá sai o advogado Dr Cícero Branco. A velha olha para as estrelas e pelo Cruzeiro do Sul sabe que deve ser 3 horas da manhã. Indaga porque estão insepultos. Busca suas jóias e o Dr lhe assegura ter estado em seu velório e tê-la visto sem elas. Quita revolta-se, suas ordens não foram cumpridas pelos familiares.

Depois o advogado abre o outro caixão, fazendo o mesmo com os 4 restantes. Em breve estão ali Barcelona, o sapateiro, o professor Menandro Olinda, a prostituta esquelética, Erotildes, João Paz, jovem idealista que morreu torturado pela polícia, o Pudim de Cachaça, o maior beberão de Antares, assassinado pela mulher.

Os mortos indagam como podem estar mortos se falam e têm memória. Discutem o que farão para resolver a situação de cadáveres insepultos em que se encontram e decidem marchar pela manhã até a cidade, protestando contra essa condição. Caso se neguem enterrá-los, ameaçarão o povo com a podridão.

Decidem que cada um terá algumas horas para visitar sua casa. Depois, às 12 horas devem voltar para o coreto e sentar no banco à espera do advogado, Cícero, que irá buscar uns papéis em sua casa e entregá-los ao prefeito, intimando-o à realização do sepultamento. Caso não tome providências, ficarão apodrecendo ali, o que será muito prejudicial aos moradores. Ao amanhecer, os guardas de sentinela, aterrorizados, vêem os sete defuntos levantarem lentamente de seus caixões. Lucas Faia coloca no jornal toda a descrição do aparecimento dos mortos na cidade.

Eles estão fazendo a visita às suas casas. D. Quita segue lentamente para a sala de jantar. Esconde-se atrás de uma porta entre aberta e fica ouvindo as quatro filhas e genros conversando. Discutem com quem ficarão as jóias da falecida e o que constará do testamento.

De repente todos reclamam de um mau cheiro que toma conta do ar. D. Quita aparece, avisando que voltou para buscar as jóias. Diz que, parte do cheiro, vem de seu cadáver e a outra, do pensamento de cada um deles. Joga todas as jóias no vaso sanitário, dá a descarga, ressaltando que elas foram herdadas pelo Rio Uruguai.

O advogado Cícero Branco está em seu quarto e descobre que um homem está com sua mulher. Diz ao rapaz que já sabia da infidelidade da esposa e, portanto, não lhe causará nenhum mal. Vai ao escritório escreve algo e parte para o cartório do Aristarco que, ao vê-lo, fica a contemplá-lo. O defunto retira um envelope do bolso, perguntando se o notário reconhece a sua figura e pede-lhe que ratifique sua assinatura no documento do envelope e coloque a data de 10 de dezembro.

Barcelona está em sua sapataria examinando suas ferramentas. Vai até à delegacia falar com o delegado, Inocêncio Pigarço, que atira no morto assim que o vê, vomitando de nojo. O cadáver se dá por satisfeito e sai sob tiros dos soldados lá fora.

Vivaldino Brazão, o prefeito, recebe notícias por telefone sobre a presença dos mortos na cidade. Não crê em nada do que lhe dizem. O dr.Cícero aparece e quer que Brazão descubra uma forma rápida de enterrá-los, dando-lhe quatro horas de prazo, ameaçando-o com o apodrecimento.

Todos os mortos fazem as visitas combinadas. A amiga de Erotildes solicita a Deus uma boa morte, fazendo Erotildes porta-voz de seu desejo. Pudim de Cachaça vai com o amigo fazer uma serenata para sua mulher. Ele perdoa Natalina por tê-lo matado. João pede o auxílio do Padre Pedro Paulo para ajudar sua mulher a fugir.

Toda a cidade se move em direção ao coreto. Uma comitiva, tendo à frente Vivaldino Brazão e Tibério Vacariano, vai para o encontro com o advogado dos mortos. No ar paira a podridão dos cadáveres. O prefeito começa a falar, dirigindo-se aos mortos, explicando-lhes que não pode atender o pedido, pois os grevistas cercam o cemitério. Os patrões também não estão interessados a dar o aumento solicitado. Pede que retornem a seus lugares e aguardem o sepultamento.

O advogado contesta, a cidade presente na praça grita impropérios, outros aplaudem os membros da comitiva. Enquanto os jovens, pendurados nas árvores, gritam. Tibério saca o revólver e apontando para as árvores, grita: "Morte aos bugios, morte aos bugios". Os rapazes revidam com "coronelote, velho podre".

Dr. Cícero Branco diz que a vida é um baile de máscaras. Pede que todos se aproximem, porque o que tem a dizer é de grande interesse. O mau cheiro já tomou conta de toda cidade e as pessoas protegem o nariz com lenços, algumas até vomitam.

Faz-se silêncio e Cícero diz que o prefeito e o promotor público se referiram à presença dos mortos como indesejável e incômoda aos habitantes. A rápida aceitação de suas mortes lhes dá a liberdade para expor a todos o que pensam. Tibério Vacariano se adianta, avisando que ninguém está interessado na opinião dos mortos. Saltam vaias das árvores.

O advogado começa desmascarando o Prof. Libindo, acusando-o de travestir-se de sábio, Dr. Lázaro de médico humanitário. O prefeito ora atua de Dr Hyde, fazendo vistas grossas à violência policial, ora de Dr Jeckyll, cultivando orquídeas. O Coronel Vacariano ostenta naturalmente o papel herdado de seus ancestrais, estirpe de bandidos e contrabandistas históricos.

O morto também se inclui no baile dos mil disfarces e não esquece das autoras de cartas anônimas da cidade, as Balmacedas. Pouco a pouco, são revelados os fatos mais atrozes, perpetuados pelo grandes senhores e senhoras da cidade. Finalmente, Cícero encerra o encontro e todos se trancam em casa, enquanto os urubus voam sobre o coreto e os sete corpos apodrecidos.

A cidade, três horas mais tarde, volta à vida. Há chamados para o médico, maridos que batem nas esposas por saberem que são traídos, mulheres que brigam com os esposos. Espalha-se o boato da peste, provocada por ratos que invadem tudo.

Ao raiar do dia, vinte homens com os rostos cobertos por lenços dão tiros contra os urubus do coreto, atiram garrafas, pedras e tudo que podem contra os mortos. Dr Cícero propõe o retorno aos caixões e eles se movem em direção ao cemitério cobertos por uma nuvem de moscas.

Os defuntos são enterrados, enquanto ventos fortes varrem a cidade na direção da Argentina e repúblicas vizinhas, carregando o mau cheiro deixado pelos mortos na Praça da República e arredores. À tarde, chegam repórteres e fotógrafos de jornais de Porto Alegre e um cinegrafista da TV gaúcha. O prefeito pergunta-lhes se acreditam naquela história dos mortos. Sim, respondem, não foi o próprio prefeito quem telefonou lhes avisando do ocorrido?

O prefeito conta que tudo não passou de um lance promocional. Pretende organizar uma feira agropastoril e, portanto, para chamar a atenção do Brasil, criou esse fato. Após certo alvoroço e promessas de despesas pagas, os repórteres saem às ruas entrevistando os moradores. Alguns mencionam o ocorrido, outros se esquivam. Os visitantes tentam, em vão, saber sobre a veracidade da história. Procuram Lucas Faia, mas este está desaparecido, quer ser o primeiro a contar os acontecimentos.

Às 5 horas da tarde, o prefeito oferece um coquetel a todos e o Maj. Vivaldino comunica o fim da greve geral com o atendimento das reivindicações e enterro dos mortos. Lucas Faia procura Vivaldino, avisando-lhe que vai publicar o incidente, um relato dos acontecimentos. O Major afirma que nada será publicado, sem a aprovação dos acionistas do jornal.

Na manhã seguinte, consultados se negam a reconhecer a existência do incidente. É proposto o apagamento do fato dos anais de Antares bem como da memória de seus habitantes. Esse movimento recebe o nome de Operação Borracha. Os aliados da campanha são: o tempo lavando e apagando tudo; o bom senso, negando a possibilidade de mortos falarem, transformando tudo em "lenda macabra".

Lucas insiste, pois todos viram o que aconteceu. As vozes se levantam, afirmando que ninguém viu nada, inclusive ele. Portanto, deve esquecer tudo. Elegem os membros da comissão executiva da Operação Borracha, aclamando o Cel. Tibério Vacariano, o presidente de honra.

A Operação Borracha prossegue apesar dos esforços das esquerdas e cartas anônimas. Todos começam a duvidar do ocorrido, a ponto de pensarem em alucinação coletiva. Após as festividades do Natal, a praça recebe a banda local e entre músicas clássicas e populares, sambas, frevos e marchinhas, ouvem o dobrado americano "Star and Stripes for Ever", título traduzido pelo professor Libindo Olivares como - Estrelas e Listras para Sempre - alusivo à bandeira dos Estados Unidos.

Na festa de Ano Novo, a cidade toda se diverte. O professor Libindo comenta com o prefeito que a Operação Borracha foi um sucesso.

(...)

O Dr. Cícero Branco puxa as asas da borboleta de sua gravata.

– O meu caro colega terminou? – pergunta. – Pois então desça do banco. sua posição nesse poleiro é tão ridícula e abstrusa quanto os argumentos que apresentou contra nós. Pois está muito bem! Ouvida a "acusação", peço ao colendo juiz de Direito vênia para proceder à defesa de meus constituintes. Se ele não ma conceder, falarei assim mesmo, e desde já vou avisando que essa defesa será também uma acusação. E vós, antarenses, aproximai-vos o mais possível do coreto para me ouvir melhor, pois o que vou revelar agora é do vosso maior interesse.

As três irmãs Balmacedas, velhotas solteironas conhecidas na cidade como mestras do mexerico, grandes janeleiras e, segundo a voz do povo, autoras das mais virulentas cartas anônimas que circulam em Antares, acercam-se excitadas do coreto, cada qual com a sua sombrinha aberta – roxo, malva, rosa – os lenços de cambraia recendentes a Heno de Pravia apertados contra a boca e o nariz. O cronista social de A Verdade ousa dar alguns passos à frente mas de súbito se dobra sobre si mesmo e, numa convulsão, despeja sua viscosa angústia sobre uns lírios aquáticos. Dois enfermeiros do Salvator Mundi acorrem, e levam Scorpio numa padiola para dentro da ambulância. Num outro setor da praça o pessoal do Hospital Repouso atende ao primeiro caso de insolação. Os próceres confabulam animadamente. E depois que a ordem e o silêncio se restabelecem, o Dr. Cícero continua o seu discurso:

– A julgar pelas palavras do prefeito municipal e do promotor público, nossa presença é indesejável na cidade, incômoda aos seus habitantes. Em suma, nosso desaparecimento foi plenamente aceito por todos, o que vem confirmar a minha teoria de que se por um lado o homem jamais se habitua à idéia da própria morte, por outro aceita sempre, e com admirável facilidade, a morte alheia. Vossa repulsa e vossa má vontade para com nossos corpos nos outorga a liberdade de dizer o que realmente pensamos de vós.

Tibério Vacariano dá um passo à frente e ergue a mão:

– Não estamos interessados na sua opinião!

– Cala a boca, coronelote! – grita alguém de dentro dum cedro. Outra vaia irrompe: "Ve-lho po-dre! Ve-lho po-dre! Ve-lho po-dre!"

Tibério tira o revólver do coldre, ergue-o, apontando-o para uma das árvores, e grita:

– Morte aos bugios! Morte aos bugios!

Inocêncio Pigarço agarra-lhe o braço armado, baixa-o de maneira a que o cano do revólver fique voltado para o chão e, ajudado pelo prefeito, consegue desarmar o patriarca dos Vacarianos. O Dr. Lázaro corre dum lado para outro, com a sombrinha sempre erguida:

– A trinitrina, coronel, a trinitrina!

XLVIII

O Dr. Cícero Branco ergue os braços, num largo gesto, como para abranger a praça e a cidade.

– Hipócritas! – exclama. – Impostores! Simuladores! Eis o que sois... Vista deste coreto, do meu ângulo de defunto, a vida mais que nunca me parece um baile de máscaras. Ninguém usa (nem mesmo conhece direito) a sua face natural. Tendes um disfarce para cada ocasião. Cada um de vós selecionou sua fantasia para a Grande Festa. O Prof. Libindo travestiu-se de sábio. O Dr. Lázaro representa o papel de médico humanitário, espécie de santo municipal, a personificação da bondade desinteressada. O Dr. Quintiliano é a própria imagem da justiça, os olhos vendados (os dois ou um só?), numa das mãos a espada e na outra uma balança de fiel duvidoso. O nosso digno promotor freqüentemente enverga a sobrecasaca de Rui Barbosa e dança a grande polonaise da Cultura. O nosso Vivaldino Brazão, ah! esse é alternadamente Dr. Hyde, que faz vista grossa às violências de sua polícia e às próprias patifarias, e o Dr. Jeckyll, que cultiva delicadas orquídeas. Faça-se justiça ao nosso truculento Cel Vacariano, pois ele ostenta com naturalidade e coragem cívica o manto antipático do poder discricionário, que herdou de seus ancestrais, dessa estirpe de bandidos, abigeatários e contrabandistas históricos...

O Cel. Tibério ergue-se, estentóreo, e grita:

– Façam esse cão hidrófobo calar a boca! Onde está a polícia! – Diz isto e praticamente cai sobre um banco, resfolgante.

O advogado dos mortos continua:

– O Dr. Falkenburg usa psicologicamente com uma empáfia prussiana o boné imaginário de estudante de Heidelberg e sua cara ostenta a cicatriz fictícia dum duelo universitário... e no entanto, que ele nunca visitou a Alemanha todos nós sabemos. Formou-se numa obscura faculdade do interior do Estado. E quem mais vejo na festa? Ah! O delegado Inocêncio Pigarço... Esse sádico esconde o seu uniforme negro de oficial da S.S. de Hitler debaixo do camisolão do anjo da guarda que zela pela ordem no "salão de baile". E que baile! Também tomei parte nele e usei mil máscaras, mil disfarces. Aprendi a manipular a moeda corrente (falsa mas fácil) das mentirinhas cotidianas, das grandes mentiras e das meias verdades... Tornei-me um mestre em todas as vossas danças e contradanças. Respeitei o vosso código, que manda aceitar as imposturas e simulações dos outros mascarados para que eles, em retribuição, aceitem as nossas...

Uma gritaria de bravos e aplausos jorra das árvores. Quando o ruído e a fúria cessam, Cícero prossegue:

– Avisto daqui o presidente do Rotary. Com que roupa está vestido? Ah! Exibe um modelo Dale Carnegie. E o do Lions? Esse segue o figurino de Napoleon Hill. O digno presidente da Associação Comercial, se não me engano, procura vestir-se de acordo com os grandes empresários americanos. E lá está o nosso inefável Lucas Lesma, que usa uma imitação barata da máscara de Hearst. – Leva a mão em pala sobre os olhos. – Quem mais está no baile? Não me é fácil reconhecer todos os convivas, porque eles agora têm sobre as máscaras os lenços com que procuram proteger-se de nossas emanações cadavéricas... Lá estão as Balmacedas, do sindicato das cartas anônimas... Vejo também damas nesta praça, algumas de nossas "dez mais" de anos passados, imitadoras da Princesa Grace Kelly, sim, e Terezinha de Jesus... e Mme. Pompadour... e Coco Chanel... e Jacqueline Kennedy... e Elizabeth Taylor... Quanto às máscaras retocadas por cirurgiões plásticos que vejo na multidão... bom, nessas nem vou falar.

As moscas zumbem ao redor da cabeça do advogado dos defuntos. (Comentando mais tarde a "cena da praça" no seu famoso artigo sobre o "incidente"– mas sem repetir especificamente as palavras de Cícero Branco – Lucas Faia escreveria: "O que até agora não consigo explicar é por que todos nós continuávamos ali, em pleno olho dum sol implacável, a ouvir insultos, calúnias e mentiras em meio daquele pavoroso hálito sepulcral, vendo cair a nosso redor vítimas de insolação, e ouvindo os gritos de pessoas que se debatiam em crises nervosas. Chego a pensar que era um sortilégio maléfico que prendia ao chão da praça homens da honorabilidade do Pe. Gerôncio Albuquerque, do Cel. Tibério Vacariano, do nosso prefeito, do juiz de Direito, do promotor público e outras pessoas gradas. Poderíamos voltar as costas àqueles sete mortos, retirar-nos para nossas casos e deixá-los apodrecendo no coreto, devorados pelos urubus que voavam à baixa altura sobre a praça. No entanto lá estávamos estarrecidos, paralisados, como se na realidade o Juízo Final tivesse chegado e o Dr. Cícero Branco, por uma dessas aberrações teológicas inexplicáveis, fosse uma espécie de anjo, de promotor não de Deus – oh não! – mas do demônio, a atirar insultos e mentiras sobre as cabeças dos mais dignos habitantes de Antares!")

XLIX

– É incrível – prossegue Cícero Branco, enquanto Barcelona lhe puxa repetidamente pela manga do casaco, como se quisesse dizer-lhe algo – que só agora que estou morto e decomposto é que ouso dizer-vos estas coisas. Será que a verdade fede e é só da mentira que se evolam os doces perfumes da vida? Será que o famoso poço da lenda em cujo fundo se esconde a verdade, é feito de lodo e podridão?

O Prof. Libindo Olivares cobra coragem, afasta por um momento do nariz e da boca o lenço com que se defende dos miasmas dos mortos, e pergunta:

– Mas que é a Verdade?

Cícero Branco fita no professor suas pupilas mortas e responde, sorrindo:

– Não me venhas com essa paródia de Jesus diante de Pilatos, meu inefável paranóico! Estou falando na verdade com v minúsculo. E você sabe o que é a verdade? Não sabe porque vive uma mentira crônica. Falsa é a sua moral. Falsa a sua cultura. Falsa a sua proclamada amizade e correspondência com celebridades mundiais como Sartre, Mauriac, o Papa... sei lá mais quem! Seu latim é de ginasiano. Seu grego, mitológico. Sua cultura, um produto de leituras das Seleções do Reader's Digest.

os arborícolas rompem num coro – "Men-ti-ro-so! Men-ti-ro-so! Men-ti-ro-so!". Mas calam-se a um gesto de Cícero Branco, que agora escuta algo que Barcelona lhe diz ao ouvido.

– Nosso anarco-sindicalista acaba de me soprar um "fecho de ouro" para a minha metáfora do baile de máscaras... Para vós o importante é que a festa continue, que não se toque na estrutura, não se alterem os estatutos do clube onde os privilegiados se divertem. A canalha que não pode tomar parte na festa e se amontoa lá fora no sereno, envergando a triste fantasia e a trágica máscara da miséria, essa deve permanecer onde está, porque vós os convivas felizes achais que pobres sempre os haverá, como disse Jesus. E por isso pagais a vossa polícia para que ela vos defenda no dia em que a plebe decidir invadir o salão onde vos entregais às vossas danças, libações, amores e outros divertimentos.

– Demagogia de além-túmulo! – brada o Prof. Libindo, de dedo erguido, mas o rosto lívido.

Sentado sempre na relva, como num limbo, o pescador subaquático olha ora para o advogado dos defuntos ora para o grupo dos pró-homens, como quem segue a bola numa partida de tênis. Os urubus, agora em número crescido, voam a uns cinqüenta metros acima da praça. Um deles pousa na platibanda do palacete dos Campolargos. Um garoto que está sentado na janelinha da água-furtada dum sobrado vizinho, de estilingue em punho, carrega a sua arma, fecha um olho, mira o urubu, puxa a borracha e depois solta-a: a pedra parte, zunindo, mas erra o alvo e estilhaça o vidro de uma das janelas da mansão.

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. Porto Alegre: Editora Globo, 1979. p.340-345.

A cidade de Antares não consta nos mapas, apenas São Borja é digna de nota, nas paragens do Alto Uruguai. Mas, há documentos comprovadores de sua existência. Seus ilustres moradores têm repetidamente se manifestado sobre a injustiça. O prefeito, os vereadores e até o padre se dirigiram ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para protestar contra a acintosa omissão.

Apesar da ausência nos mapas, Antares se encontra à margem esquerda do Rio Uruguai. Acabou nas manchetes de jornais pelo incidente, ocorrido numa sexta-feira 13 de dezembro de 1963 que a tornou notícia da noite para o dia; fama efêmera e ambígua que não sensibilizou os cartógrafos.

O documento mais antigo, sobre a existência de Antares, se encontra no livro de Gaston Gontran, um naturalista francês que, visitando o local, encontrou com Francisco Vacariano, proprietário das terras. Vacariano herdou as sesmarias do avô que logo se apossou de algumas léguas pertencentes a outros estancieiros vizinhos. No texto, consta que o gado, pertencente a Vacariano, descende dos bois e vacas roubados por seu pai, na Argentina. O guia contou a Gontran tudo isso, pedindo discrição absoluta, porque Vacariano é homem violento e vingativo.

Como hospedeiro, no entanto, foi muito gentil. Gaston por cortesia lhe indicou, no céu, a estrela de Antares. Vacariano achou o nome bonito e apropriado para um povoado, melhor do que "Povinho da Caveira", dado ao lugar em que o francês se encontrava. Pede a Gaston que escreva Antares num pedaço de papel e agradece.

O segundo documento, que se poderia chamar de pré-história de Antares, é uma carta do Padre Juan Bautista Otero, mencionando sua estada na casa do Senhor Francisco Bacariano, pai de uma dezena de filhos naturais com várias índias e que não os batiza, nem os legitima. O sacerdote pergunta a Bacariano se ele não deseja casar-se e este menciona que vai se casar em Alegrete com Angélica. De fato, Francisco Vacariano se casa e com a esposa legítima tem 7 descendentes, entre homens e mulheres. O primeiro filho se chama Antônio Maria. Na Guerra dos Farrapos, Vacariano quase perde tudo o que tem.

Em 25 de maio de 1853, "Povinho da Caveira" é elevado a vila e recebe oficialmente o nome de Antares. Durante mais de 10 anos, Vacariano é autoridade na vila, considerada município de São Borja.

No verão de 1860, Francisco Vacariano tomou conhecimento de que Anacleto Campolargo, rico criador de gado, natural de Uruguaiana, deseja comprar terra nas proximidades de Antares. Vacariano faz tudo para que os negócios de Campolargo não se concretizem na região, não quer saber de intrusos por ali. Mas, Campolargo consegue adquirir as terras e constrói uma casa de alvenaria. De pronto, as duas famílias se tornam rivais.

Campolargo consegue o respeito dos moradores e é o único a enfrentar Vacariano, o "Chico Vaca" , como é chamado, pelas costas, pelos inimigos. Vacariano é agressivo, autoritário, sem o menor tato. Antonio Campolargo é o oposto. É homem do murmúrio, do falar macio, modulando a voz de acordo com a conveniência. Organiza, na vila, o Partido Conservador e, Vacariano, sem perda de tempo, cria o Partido Liberal. Campolargos e Vacarianos vão tocando a vida como criadores de gado e de cavalos na região.

Anacleto Campolargo consegue separar Antares de São Borja e elevá-la à categoria de cidade, no dia 15 de maio de 1878. Chico Vacariano, com quase 80 anos, cai morto no dia da celebração desse grande evento, desapontado porque seu inimigo conseguiu concretizar seu velho projeto. Anacleto transfere os festejos para dezembro do mesmo ano e, nesta data, falece por ter sido mordido por cobra venenosa.

Antares, em 1879, começa com chefes novos: Benjamin Campolargo que perdeu o olho, num combate corpo a corpo, na Guerra do Paraguai e Antão Vacariano, o maneta, cuja mão perdeu em solo paraguaio. De vingança em vingança, Campolargos e Vacarianos vão se matando. Os Campolargo vão por algum tempo para a Argentina, retornando depois. Antão é assassinado e os novos líderes são: os inimigos, Benjamim Campolargo e Xisto Vacariano que se defrontam numa tarde em frente ao Grêmio Republicano, mas voltam-se as costas sem nada dizer.

O tempo vai passando e Antares vai recebendo, graças ao progresso, tudo o que há de novo. Em meados da década de 20, membros das gerações Campolargos e Vacarianos vão estudar em Porto Alegre e assim surgem advogados, médicos e engenheiros, mas poucos deles exercem tais profissões. Trazem para a cidade uma visão mais moderna e mais ampliada do mundo. Aos poucos, os velhos líderes, Xisto e Benjamim, vão perdendo, sem perceber, parte de sua liderança. Além disso, Getúlio Vargas astutamente conseguiu reunir os dois líderes e os fez assinar uma espécie de "tratado de paz", publicado em vários jornais. Porém, uma semana mais tarde, os dois morrem, um de edema pulmonar e outro pela chifrada de um boi.

Seus descendentes tratam de manter o acordo: Tibério Vacariano assumiu a liderança familiar e Zózimo Campolargo, homem mais culto e um tanto indolente, se sentiu mal com a idéia. Mas, a esposa, Quitéria Campolargo, conhecida como D.Quita, ajudou o marido na difícil tarefa.

Revoluções e governos vão e vem e os rivais ora aliam-se, ora afastam-se. Ajudam nas eleições, favorecendo de maneira ilícita seus candidatos. Tibério passa a morar alternadamente entre Rio de Janeiro e Antares. Em uma das estadas em Antares, visita com a mulher a casa dos Campolargo e contam à "inimiga íntima", D. Quita, a viagem ao Rio, ressaltando o aspecto político de interesse da mulher de Zózimo Campolargo.

A política segue em zigue-zague, Getúlio Vargas se suicida, mas o macabro incidente que vai tomar conta de Antares ainda está por vir. Tudo tem início, quando um grupo de professores e alunos do Centro de Pesquisas Sociais, da Universidade do Rio Grande do Sul, sob a orientação do professor de Sociologia Martim Francisco Terra, decide levantar dados para a obra Anatomia duma Cidade Gaúcha de Fronteira. Escolhe a comunidade de Ribeira, na verdade Antares, como objeto de estudo.

Xisto, neto do Cel. Tibério Vacariano e aluno do professor Terra, fica radiante com a escolha. O rapaz volta a Antares, em 1961, para preparar tudo para o estudo. O repórter da cidade, Lucas Faia, criador do cognome "Jóia do Uruguai" para Antares, dedica páginas inteiras à chegada do grupo, apelidado pela cidade de gafanhotos por virem "em bandos no verão, em tempo de seca e com um jeito de praga".

O grupo quer saber que tipo de cidade é Antares, como vive sua população, seu nível econômico, cultural e social, seus hábitos, gostos, opiniões e crenças religiosas. Logo surgem uma série de boatos incriminadores.Para uns, os comunistas tomam de assalto a cidade, para outros são espiões da CIA ou, ainda, espiões do pessoal do imposto de renda.

Ao ser publicado o estudo, toda Antares fica revoltada, sobretudo, seus líderes e comerciantes. Acham que a análise, destacando a pobreza e a riqueza, é um desrespeito e trabalho de comunistas.

No dia 11 de dezembro de 1963, Tibério Vacariano passa a noite na companhia telefônica, aguardando uma ligação para Porto Alegre, precisa falar com o governador. Às 5 horas da manhã, comunica-lhe que, ao meio-dia, Antares vai parar completamente, porque vai entrar em greve, os trabalhadores exigem salários mais justos. O governador diz que nada pode fazer, pois o país é democrático.Tibério sai decepcionado.

Todos estão assustados com o princípio do movimento. Os líderes, os comerciantes e os donos de fábricas não querem atender as reivindicações dos trabalhadores, porque não têm condições. Enquanto isso a esposa de Tibério, D.Briolanja, acorda o marido de sua sesta e lhe conta, em prantos, que D.Quita Campolargo teve um ataque do coração. O marido se veste às pressas e saem em direção à casa da morta.

Pelo caminho, cruzam com o médico que lhes confirma o falecimento, acrescentando que ela foi a sexta pessoa a morrer na cidade esse dia. Tibério pergunta quem são os outros e o médico vai apontando: o professor de piano, Menandro, que se matou cortando os pulsos, O Barcelona e Joãozinho da Paz, o resto era gentinha sem importância.

Tibério passa a noite velando D.Quita, lamenta perdê-la, pois não terá mais com quem discutir. Sabe, pelo prefeito, que Cícero Brando, outro amigo, faleceu, assim que deixou o velório. Para piorar as coisas, às 10 da manhã do dia seguinte, o cemitério local está interditado pelos grevistas e os mortos não podem ser enterrados.

A situação na cidade está insuportável; a morte de D.Quita, do Cícero e de outras quatro pessoas, a greve geral, as loucuras de Jango Goulart e as do Brizola. Tudo respira anarquia nacional.

O féretro de Quitéria Campolargo segue até à Matriz e o caixão é colocado à frente do altar-mor. Mais tarde, partem em cortejo até o cemitério, encontrando a entrada bloqueada pelos grevistas. Seguem conversações, desafios; o professor Libindo sugere a dispensa dos coveiros para que eles mesmos enterrem D.Quita. Geminiano, o chefe dos grevistas, se nega a aceitar. Não permitirá o enterro de ninguém sem que os patrões tenham atendido aos trabalhadores. Também afirma que o caixão de Quitéria ficará junto com os 6 restantes, como reféns do movimento em cumprimento às decisões da assembléia.

Lucas Faia faz a proposta de deixarem os esquifes sob a custódia dos grevistas e retornarem no dia seguinte, talvez, saia um acordo até lá. Resolvem aceitá-la por ser a saída mais sensata. Entre alguns presentes, corre a notícia de que os genros de D. Quitéria estão tristes, porque a velha está no esquife com suas jóias mais preciosas.

O chefe do movimento coloca homens, guardando as ruas que dão acesso ao cemitério. Os caixões foram deixados ali na colina. Surge um vulto que vem em direção ao caixão de D. Quita em busca das jóias. Abre o caixão com um pé de cabra. No entanto, os olhos da defunta estão abertos e os lábios começam a se mover, dizendo: "Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma", para espanto do ladrão que foge em disparada.

D. Quita sai de seu esquife e retira a tampa do caixão ao lado e de lá sai o advogado Dr Cícero Branco. A velha olha para as estrelas e pelo Cruzeiro do Sul sabe que deve ser 3 horas da manhã. Indaga porque estão insepultos. Busca suas jóias e o Dr lhe assegura ter estado em seu velório e tê-la visto sem elas. Quita revolta-se, suas ordens não foram cumpridas pelos familiares.

Depois o advogado abre o outro caixão, fazendo o mesmo com os 4 restantes. Em breve estão ali Barcelona, o sapateiro, o professor Menandro Olinda, a prostituta esquelética, Erotildes, João Paz, jovem idealista que morreu torturado pela polícia, o Pudim de Cachaça, o maior beberão de Antares, assassinado pela mulher.

Os mortos indagam como podem estar mortos se falam e têm memória. Discutem o que farão para resolver a situação de cadáveres insepultos em que se encontram e decidem marchar pela manhã até a cidade, protestando contra essa condição. Caso se neguem enterrá-los, ameaçarão o povo com a podridão.

Decidem que cada um terá algumas horas para visitar sua casa. Depois, às 12 horas devem voltar para o coreto e sentar no banco à espera do advogado, Cícero, que irá buscar uns papéis em sua casa e entregá-los ao prefeito, intimando-o à realização do sepultamento. Caso não tome providências, ficarão apodrecendo ali, o que será muito prejudicial aos moradores. Ao amanhecer, os guardas de sentinela, aterrorizados, vêem os sete defuntos levantarem lentamente de seus caixões. Lucas Faia coloca no jornal toda a descrição do aparecimento dos mortos na cidade.

Eles estão fazendo a visita às suas casas. D. Quita segue lentamente para a sala de jantar. Esconde-se atrás de uma porta entre aberta e fica ouvindo as quatro filhas e genros conversando. Discutem com quem ficarão as jóias da falecida e o que constará do testamento.

De repente todos reclamam de um mau cheiro que toma conta do ar. D. Quita aparece, avisando que voltou para buscar as jóias. Diz que, parte do cheiro, vem de seu cadáver e a outra, do pensamento de cada um deles. Joga todas as jóias no vaso sanitário, dá a descarga, ressaltando que elas foram herdadas pelo Rio Uruguai.

O advogado Cícero Branco está em seu quarto e descobre que um homem está com sua mulher. Diz ao rapaz que já sabia da infidelidade da esposa e, portanto, não lhe causará nenhum mal. Vai ao escritório escreve algo e parte para o cartório do Aristarco que, ao vê-lo, fica a contemplá-lo. O defunto retira um envelope do bolso, perguntando se o notário reconhece a sua figura e pede-lhe que ratifique sua assinatura no documento do envelope e coloque a data de 10 de dezembro.

Barcelona está em sua sapataria examinando suas ferramentas. Vai até à delegacia falar com o delegado, Inocêncio Pigarço, que atira no morto assim que o vê, vomitando de nojo. O cadáver se dá por satisfeito e sai sob tiros dos soldados lá fora.

Vivaldino Brazão, o prefeito, recebe notícias por telefone sobre a presença dos mortos na cidade. Não crê em nada do que lhe dizem. O dr.Cícero aparece e quer que Brazão descubra uma forma rápida de enterrá-los, dando-lhe quatro horas de prazo, ameaçando-o com o apodrecimento.

Todos os mortos fazem as visitas combinadas. A amiga de Erotildes solicita a Deus uma boa morte, fazendo Erotildes porta-voz de seu desejo. Pudim de Cachaça vai com o amigo fazer uma serenata para sua mulher. Ele perdoa Natalina por tê-lo matado. João pede o auxílio do Padre Pedro Paulo para ajudar sua mulher a fugir.

Toda a cidade se move em direção ao coreto. Uma comitiva, tendo à frente Vivaldino Brazão e Tibério Vacariano, vai para o encontro com o advogado dos mortos. No ar paira a podridão dos cadáveres. O prefeito começa a falar, dirigindo-se aos mortos, explicando-lhes que não pode atender o pedido, pois os grevistas cercam o cemitério. Os patrões também não estão interessados a dar o aumento solicitado. Pede que retornem a seus lugares e aguardem o sepultamento.

O advogado contesta, a cidade presente na praça grita impropérios, outros aplaudem os membros da comitiva. Enquanto os jovens, pendurados nas árvores, gritam. Tibério saca o revólver e apontando para as árvores, grita: "Morte aos bugios, morte aos bugios". Os rapazes revidam com "coronelote, velho podre".

Dr. Cícero Branco diz que a vida é um baile de máscaras. Pede que todos se aproximem, porque o que tem a dizer é de grande interesse. O mau cheiro já tomou conta de toda cidade e as pessoas protegem o nariz com lenços, algumas até vomitam.

Faz-se silêncio e Cícero diz que o prefeito e o promotor público se referiram à presença dos mortos como indesejável e incômoda aos habitantes. A rápida aceitação de suas mortes lhes dá a liberdade para expor a todos o que pensam. Tibério Vacariano se adianta, avisando que ninguém está interessado na opinião dos mortos. Saltam vaias das árvores.

O advogado começa desmascarando o Prof. Libindo, acusando-o de travestir-se de sábio, Dr. Lázaro de médico humanitário. O prefeito ora atua de Dr Hyde, fazendo vistas grossas à violência policial, ora de Dr Jeckyll, cultivando orquídeas. O Coronel Vacariano ostenta naturalmente o papel herdado de seus ancestrais, estirpe de bandidos e contrabandistas históricos.

O morto também se inclui no baile dos mil disfarces e não esquece das autoras de cartas anônimas da cidade, as Balmacedas. Pouco a pouco, são revelados os fatos mais atrozes, perpetuados pelo grandes senhores e senhoras da cidade. Finalmente, Cícero encerra o encontro e todos se trancam em casa, enquanto os urubus voam sobre o coreto e os sete corpos apodrecidos.

A cidade, três horas mais tarde, volta à vida. Há chamados para o médico, maridos que batem nas esposas por saberem que são traídos, mulheres que brigam com os esposos. Espalha-se o boato da peste, provocada por ratos que invadem tudo.

Ao raiar do dia, vinte homens com os rostos cobertos por lenços dão tiros contra os urubus do coreto, atiram garrafas, pedras e tudo que podem contra os mortos. Dr Cícero propõe o retorno aos caixões e eles se movem em direção ao cemitério cobertos por uma nuvem de moscas.

Os defuntos são enterrados, enquanto ventos fortes varrem a cidade na direção da Argentina e repúblicas vizinhas, carregando o mau cheiro deixado pelos mortos na Praça da República e arredores. À tarde, chegam repórteres e fotógrafos de jornais de Porto Alegre e um cinegrafista da TV gaúcha. O prefeito pergunta-lhes se acreditam naquela história dos mortos. Sim, respondem, não foi o próprio prefeito quem telefonou lhes avisando do ocorrido?

O prefeito conta que tudo não passou de um lance promocional. Pretende organizar uma feira agropastoril e, portanto, para chamar a atenção do Brasil, criou esse fato. Após certo alvoroço e promessas de despesas pagas, os repórteres saem às ruas entrevistando os moradores. Alguns mencionam o ocorrido, outros se esquivam. Os visitantes tentam, em vão, saber sobre a veracidade da história. Procuram Lucas Faia, mas este está desaparecido, quer ser o primeiro a contar os acontecimentos.

Às 5 horas da tarde, o prefeito oferece um coquetel a todos e o Maj. Vivaldino comunica o fim da greve geral com o atendimento das reivindicações e enterro dos mortos. Lucas Faia procura Vivaldino, avisando-lhe que vai publicar o incidente, um relato dos acontecimentos. O Major afirma que nada será publicado, sem a aprovação dos acionistas do jornal.

Na manhã seguinte, consultados se negam a reconhecer a existência do incidente. É proposto o apagamento do fato dos anais de Antares bem como da memória de seus habitantes. Esse movimento recebe o nome de Operação Borracha. Os aliados da campanha são: o tempo lavando e apagando tudo; o bom senso, negando a possibilidade de mortos falarem, transformando tudo em "lenda macabra".

Lucas insiste, pois todos viram o que aconteceu. As vozes se levantam, afirmando que ninguém viu nada, inclusive ele. Portanto, deve esquecer tudo. Elegem os membros da comissão executiva da Operação Borracha, aclamando o Cel. Tibério Vacariano, o presidente de honra.

A Operação Borracha prossegue apesar dos esforços das esquerdas e cartas anônimas. Todos começam a duvidar do ocorrido, a ponto de pensarem em alucinação coletiva. Após as festividades do Natal, a praça recebe a banda local e entre músicas clássicas e populares, sambas, frevos e marchinhas, ouvem o dobrado americano "Star and Stripes for Ever", título traduzido pelo professor Libindo Olivares como - Estrelas e Listras para Sempre - alusivo à bandeira dos Estados Unidos.

Na festa de Ano Novo, a cidade toda se diverte. O professor Libindo comenta com o prefeito que a Operação Borracha foi um sucesso.

   

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