Ensaio
sobre a Cegueira
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Palavras de José
Saramago, na apresentação pública do seu romance Ensaio sobre a Cegueira.
"Este é um
livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu
sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e
violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha
vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei
dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer
isso."
Resumo da Obra
Um
dia normal na cidade. Os carros parados numa esquinas esperam o sinal mudar. A
luz verde acende-se, mas um dos carros não se move. Em meio às buzinas
enfurecidas e à gente que bate nos vidros, percebe-se o movimento da boca do
motorista, formando duas palavras: "Estou cego".
O
homem dentro do carro esbraceja, grita, mas não consegue escapar da cegueira
branca que inunda seus olhos. É uma cegueira diferente, luminosa, como se ele
tivesse mergulhado de olhos abertos num "mar de leite". Apesar disso,
seus olhos tem uma aparência normal.
As
pessoas o ajudam a sair do carro e ele, entre lágrimas, implora que alguém o
leve para casa. Um homem oferece-se para ir dirigindo seu carro. Como não havia
local disponível para estacionar na rua da cada do cego, ele desceu do carro e
ficou esperando o homem, que estacionou numa rua transversal. Subiram até o
apartamento, que ficava no 3º andar. O homem quis aguardar até que a mulher do
cego chegasse, mas este, com medo daquele estranho, preferiu recusar a oferta.
Quando
a mulher chega e o marido lhe conta que está cego, ela custa a acreditar,
depois desespera-se e liga para o primeiro oftalmologista que encontra na lista
telefônica, marcando uma consulta urgente.
O
cego aguarda em frente ao prédio enquanto sua mulher vai buscar o carro na rua
em que ele disse estar estacionado, com sua própria chave, pois o homem que
levou-o para casa não entregou-lhe a chave. Ela volta com um táxi , pois
aquela "boa alma" roubou-lhes o carro.
Na
sala de espera do consultório estavam um velho com uma venda preta, um
rapazinho estrábico e sua mãe, uma rapariga de óculos escuros e mais duas
pessoas. Passaram o cego na frente dos outros pacientes e, depois de examiná-lo
minuciosamente por duas vezes, o médico conclui que não há nada de errado com
seus olhos; estavam aparentemente perfeitos. Pediu alguns exames mais detalhados
e, quando saíram, ficou pensativo, nunca vira coisa parecida em toda sua vida.
O
sentimento de culpa foi tomando conta do ladrão do carro. Quando se ofereceu
para ajudar o cego, ainda não tinha o roubo em mente; a idéia só lhe apareceu
quando estava em direção à casa do cego. Sentia-se mal estando sentado no
mesmo lugar onde um homem sadio acabara de cegar. Nervoso, o ladrão redobrou a
atenção e começou a controlar o carro para que nunca tivesse que parar num
sinal vermelho. Estava à beira de um ataque de nervos e o barracão para onde
costumava levar os carros roubados ficava longe dali. Então, parou o carro,
desceu para tomar um pouco de ar, andou um pouco e, de repente, cegou. Foi
encontrado por um policial que o levou para casa, desta vez não por ter
roubado, o policial não sabia disto, mas sim por não ser capaz de orientar-se
sozinho.
O
caso da rapariga dos óculos escuros era simples, apenas uma conjuntivite.
Quando saiu do consultório, já à noite, chamou um táxi, passou na farmácia
e comprou o colírio que o médico lhe receitara. A bela rapariga dos óculos
escuros era uma prostituta e tinha um encontro marcado num hotel aquela noite.
Depois do explosivo encontro amoroso, ainda via tudo branco, mas não era por
causa do êxtase que sentia, ela também cegara. Nua e aos gritos, a rapariga
foi vestida às pressas e colocada para fora do hotel. Um policial extremamente
grosseiro levou-a para a casa dos pais num táxi.
Depois
de atender todos os pacientes, o médico ligou para um amigo e falou sobre o
caso. A princípio suspeitaram de uma agnosia ou amaurose, mesmo sabendo que
ambas as doenças tratavam-se de cegueira negra, o oposto do que descrevia o
cego. Resolveram marcar uma nova consulta para examinarem juntos o paciente.
Chegando em casa, o médico ficou até altas horas pesquisando sobre o assunto
em seus livros. Quando resolveu guardá-los para ir se deitar, o médico cegou.
Deitou-se devagar para que a mulher não notasse e passou a noite toda em claro,
pensando que, como oftalmologista, deveria avisar as autoridades competentes
sobre a "treva branca" altamente contagiosa que estava a se espalhar.
Quando, na manhã seguinte, contou à sua mulher que estava cego, ela abraçou-o
com força, apesar de ele ter tentado afastá-la por medo do contágio, preparou
o café e ajudou-o a telefonar para as autoridades. Diante da grosseria com que
fora tratado, resolveu avisar diretamente o diretor clínico de onde trabalhava
e este se encarregaria de fazer os outros contatos. A essa altura, já tinham
notícia da cegueira do rapazinho estrábico, da rapariga dos óculos escuros e
do ladrão. O ministério pediu que ele arrumasse as malas, pois mandariam uma
ambulância para buscá-lo, mas não avisaram para onde ele seria levado. Quando
a ambulância chegou, a mulher ajudou o marido a acomodar-se, guardou as malas e
sentou-se ao seu lado. O motorista da ambulância informou que só poderia levar
o médico, mas a mulher disse que também teria que ser levada, pois acabara de
cegar.
O
ministro teve a "brilhante idéia" de deixar todos os cegos e as
pessoas que tiveram contato com eles de quarentena, uma quarentena diferente das
outras, pois esta ninguém sabia o quanto poderia durar.
O
local escolhido foi um manicômio desativado. Havia duas alas: uma seria ocupada
pelos cegos, e a outra, pelas pessoas que tiveram contato com eles. Conforme as
pessoas da última ala fossem cegando, atravessariam o corredor e se instalariam
na outra ala.
Os
primeiros a chegar no manicômio foram o médico e a mulher. Havia uma corda
esticada do portão à porta do prédio, a qual serviria para orientar os cegos.
Subiram as escadas, a mulher guiou o marido até o fundo da camarata mais próxima
e deixou-o lá sentado, enquanto ia conhecer melhor o local.
As
camaratas eram compridas, com duas filas de camas pintadas de cinza e roupas de
cama da mesma cor. Havia várias camaratas, corredores estreitos e longos,
gabinetes, banheiros, uma cozinha, um refeitório, três salas acolchoadas e
forradas com cortiça; do lado externo, uma cerca e algumas árvores mal
cuidadas. Havia lixo por todos os lados e camisas-de-força dentro dos armários.
Só
quando a mulher retorna e conta para o marido que o local onde estão é um
manicômio, é que ele percebe que ela não está cega. A mulher do médico
fingiu estar cega para poder ficar junto com o marido e ajudá-lo.
Os
outros cegos chegaram juntos: o primeiro cego, o ladrão, a rapariga dos óculos
escuros e o rapazinho estrábico, sem a mãe. Sentaram-se na primeira cama com a
qual tropeçaram. Nesse momento, ouve-se uma voz forte e seca no auto-falante
fixado em cima da porta:
Atenção!
Atenção! Atenção! O Governo lamenta ter sido forçado a exercer
energicamente o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os
meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece
verificar-se algo de semelhante a um surto epidêmico de cegueira,
provisoriamente designado por mal-branco, e desejaria poder contar com o civismo
e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio,
supondo que de um contágio se trata, supondo que não estaremos apenas perante
uma série de coincidências por enquanto inexplicáveis. A decisão de reunir
num mesmo local as pessoas afetadas, e, em local próximo, mas separado, as que
com elas tiveram algum tipo de contato, não foi tomada sem séria ponderação.
O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que
aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam também, como cumpridores cidadãos
que devem ser, as responsabilidades que lhes competem, pensando que o isolamento
em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações
pessoais, um ato de solidariedade para com o resto da comunidade nacional. Dito
isto, pedimos a atenção de todos para as instruções que se seguem, primeiro,
as luzes manter-se-ão sempre acesas, será inútil qualquer tentativa de
manipular os interruptores, não funcionam, segundo, abandonar o edifício sem
autorização significará morte imediata, terceiro, em cada camarata existe um
telefone que só poderá ser utilizado para requisitar ao exterior a reposição
de produtos de higiene e limpeza, quarto, os internados lavarão manualmente as
suas roupas, quinto, recomenda-se a eleição de responsáveis de camarata,
trata-se de uma recomendação, não de uma ordem, os internados organizar-se-ão
como melhor entenderem, desde que cumpram as regras anteriores e as que
seguidamente continuamos a enunciar, sexto, três vezes ao dia serão
depositadas caixas de comida na porta de entrada, à direita e à esquerda,
destinadas, respectivamente, aos pacientes e aos suspeitos de contágio, sétimo,
todos os restos deverão ser queimados, considerando-se restos, para este
efeito, além de qualquer comida sobrante, as caixas, os pratos e os talheres,
que estão fabricados de materiais combustíveis, oitavo, a queima deverá ser
efetuada nos pátios interiores do edifício ou na cerca, nono, os internados são
responsáveis por todas as conseqüências negativas dessas queimas, décimo, em
caso de incêndio, seja ele fortuito ou intencional, os bombeiros não intervirão,
décimo primeiro, igualmente não deverão os internados contar com nenhum tipo
de intervenção do exterior na hipótese de virem a verificar-se doenças entre
eles, assim como a ocorrência de desordens ou agressões, décimo segundo, em
caso de morte, seja qual for a causa, os internados enterrarão sem formalidades
o cadáver na cerca, décimo terceiro, a comunicação entre a ala dos pacientes
e a ala dos suspeitos de contágio far-se-á pelo corpo central do edifício, o
mesmo por onde entraram, décimo quarto, os suspeitos de contágio que vierem a
cegar transitarão imediatamente para a ala dos que já estão cegos, décimo
quinto, esta comunicação será repetida todos os dias, a esta mesma hora, para
conhecimento dos novos ingressados. O Governo e a Nação esperam que cada um
cumpra o seu dever. Boas noites.
Após
o silêncio, o ladrão levanta-se e acusa o primeiro cego de ser o culpado da
tragédia, diz que se não o tivesse ajudado a ir para casa, não teria cegado.
Agora o primeiro cego percebe que o outro homem é o ladrão que roubou seu
carro e começam a discutir. O ladrão avança sobre ele e rolam por entre as
camas, até que o médico e sua mulher conseguem separá-los.
O
rapazinho estrábico pede para fazer xixi e, ouvindo isso, surge em todos uma
grande vontade de urinar. Decidem ir todos juntos à procura do banheiro. Na
fila vão: a mulher do médico, a rapariga segurando o rapazinho pela mão, o
ladrão, o médico e, por fim, o primeiro cego.
O
ladrão, aproveitando-se da situação, começou a acariciar a nuca e os seios
da rapariga. Esta deu-lhe um coice e o salto de seu sapato fincou-se na coxa do
homem. O sangue corria pela perna e a mulher do médico, vendo o aspecto ruim da
ferida, levou-o à cozinha, com a ajuda do marido, lavou o ferimento e amarrou a
camisola do ladrão ao redor.
Voltaram
para procurar o banheiro, mas o rapazinho já havia feito xixi nas calças.
Depois de satisfazerem suas necessidades, voltaram para a camarata, e contaram
as camas para ficar mais fácil de encontrá-las depois. O rapazinho tinha fome,
mas teria que esperar até o dia seguinte. Deitaram-se e dormiram.
A
mulher do médico foi a primeira a acordar. Observando os cegos dormindo e a
sujeira ao redor, a mulher do médico desejou com todas as suas forças estar
cega também.
Nesse
momento, ouve-se uma gritaria vinda do corredor. Cinco pessoas da outra ala
cegaram e foram empurradas para a ala dos cegos. Eram eles: o policial, que
encontrou o ladrão na rua a gritar; o motorista de táxi, que levou o primeiro
cego ao médico; o ajudante de farmácia, que vendeu o colírio à rapariga dos
óculos escuros; a criada de hotel, que socorreu a rapariga quando esta cegou; e
a empregada de escritório, que é a mulher do primeiro cego.
O
auto-falante avisou que a comida podia ser recolhida. O cego e sua mulher saíram
para pegar a comida e aproveitaram para pedir aos guardas os medicamentos para o
ferido, mas estes tinham ordens expressas de não deixar entrar nada além de
comida.
À
tarde chegaram mais três cegos: a empregada do consultório médico, o homem
que estivera com a rapariga no hotel e o policial grosseiro que a levou para a
casa dos pais. Mal se instalaram e um rebanho de cegos entrou na camarata. Todas
as camas foram ocupadas.
Na
madrugada, o ladrão resolveu ir ele próprio pedir ajuda aos guardas,
imaginando que estes sentiriam pena ao vê-lo naquele estado lamentável.
Rastejou, cheio de dores, até o portão. Ao ouvir os ruídos, o soldado foi
verificar o que estava acontecendo, assustou-se com o cego e deu-lhe um tiro no
meio da cara. O sargento, acordado com o barulho da rajada, ordenou que quatro
cegos viessem recolher o corpo.